sábado, 11 de julho de 2026

Mineração em Canaã dos Carajás: MPF investiga impactos de projeto de mineração na Vila Bom Jesus

Durante visita técnica à comunidade, moradores relataram contaminação ambiental, rachaduras em casas e truculência contra pescadores
 

O que antes era um polo de produção agrícola e pesqueira responsável por abastecer a região sudeste do Pará, hoje é uma comunidade sufocada pela poeira tóxica e pela perda do modo de vida tradicional e de suas fontes de subsistência. Este foi o cenário constatado pelo Ministério Público Federal (MPF) durante diligência realizada na Vila Bom Jesus, em Canaã dos Carajás (PA). A visita técnica teve como objetivo ouvir os moradores sobre os impactos socioambientais provocados pela operação do Projeto Sossego e pela iminente instalação do Projeto Bacaba, ambos da mineradora Vale S.A. Leia a íntegra no site do MPF

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Iurupari, teatro amador de Santarém encena o vanguardista e provocador Plínio Marcos

 Mocó é uma  adapatação livre do professor Leandro Cazula da peça Abajur Lilás


Inicia hoje, 09, a partir das 20h, no auditório Wilson Fonseca, da Ufopa, unidade Rondon, o espetáculo Mocó.  A peça é uma livre adaptação de Abajur Lilás, do autor Plínio Marcos.  Dia 25 será a última encenação.

A inciativa é do grupo Iurupari (máscara sobre o rosto), coordenado pelo professor Leandro Cazula.  A peça foi selcionada no edital  da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (Edital 002/2025).

A peça tem 100 minutos de duração e classificação para pessoas a partir de 18 anos. Segundo a sinopse, o espetáculo transcorre em  quarto miserável de um bordel decadente e claustrofóbico.

“O Mocó” é o lugar onde vivem três prostitutas exploradas pelo cafetão e vigiadas por um violento capataz. Um motim é instaurado na tentativa de derrubar a estrutura do Mocó, mas sem a adesão integral das mulheres. Uma delas se rebela com destemor, o que leva o dono e o cupincha a iniciarem uma série de torturas psicológicas e físicas para descobrir quem é a rebelde.

Plinio Marcos (1935-1999) era um elemento de elevada periculosidade, assim o considerava a cúpula da ditadura empresarial militar (1964-1985), conforme atesta artigo da pesquisadora DeniseRibeiro Leppos, publicado no site Observatório da Imprensa, em novembro de 2017.


A partir de um fragmento de um documento dos representantes da censura, a professora realça que Marcos fazia par, entre outros, com o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar, com o novelista Dias Gomes, com o cineasta Cacá Diegues e com o ator e autor Jean Francesco Guarnieri. Todos classificados com a mesma insginia imputada ao santista, que viveu e conspirou contra a ditadura. Sempre escreveu para incomodar a ordem.

Filho de uma dona de casa e um bancário, Plinio foi ponta direita da Portuguesa, artista de circo, dramaturgo e jornalista, sendo considerado uma ameaça aos bons costumes, à família e à sociedade brasileira. 

O motivo? Promover a visibilidade dos sujeitos colocados em condições de subalternização ou marginalizados, onde constam no rol: o porteiro, o malandro, a prostituta, o desempregado, o morador de rua, o cafetão,  etc.

Jornalista – Marcos trabalhou por cerca de duas décadas como jornalista na imprensa empresarial. Assim como colaborou na imprensa alternativa da época. Além de reportagens, assinou a notória coluna Navalha da Carne, que nomeará uma de suas peças teatrais.  

Além de reportagens e entrevistas com o cidadão comum e pessoas com destaque na sociedade daquela quadra temporal, o insubmisso assinou crônicas. Assim como Nelson Rodrigues, nelas, retratava o cotidiano do cidadão comum e os vícios da sociedade daquele tempo.

Folha de São Paulo, Veja, Última Hora, Diário da Noite, Folha da Tarde e algumas contribuições para a revista Realidade constam no currículo do jornalista Plínio Marcos, que também colaborou nos espaços considerados como alternativos, a exemplo do festejado Pasquim, Opinião, Movimento e Versus.

Dramaturgia – atravessado por uma paixão por uma artista circense, aos 16 anos ingressou no circo. Por ironia da vida, serviu a Aeronáutica.  É creditado a Pagu, Patrícia Galvão, a sua iniciação no teatro, onde fazia pequenos papéis no Teatro Liberdade, em Santos.  

Em 1960, muda para São Paulo, e passou a integrar a Companhia Cacilda Becker. E, nunca mais conheceu freio. Preferencialmente, encarnava no portfólio de personagens, mendigos, prostitutas, vagabundos e delinquentes.  

Podemos realçar entre os motes contemplados na obra de Marcos uma ácida crítica ao modo de produção capitalista, a crueldade da ditadura militar e a violência embuti nas relações humanas, como comenta Geovane Pereira, em artigo sobre o espetáculo Abajur Lilás.  

Abajur Lilás (1969) – escrita há quase 60 anos, assim como outras peças do autor, não passou pelo crivo da censura dos militares, que mantiveram a mesma decisão desde Barrela (1958), proibida de ser encenada pelo ministro da Justiça, o professor Gama e Silva.  


Abajur Lilás é ambientada em um prostíbulo decadente. O espetáculo é protagonizado por três prostitutas, Célia, Dilma e Leninha. A luz lilás do abajur era uma norma imposta pelo cafetão.

Segundo a sinopse da obra, quando o abajur é quebrado, o cafetão empreende uma onda de violências contra as mulheres com vistas a elucidar quem quebrou o eletrodoméstico.

Degradação humana, violências, covardias, a exploração da mulher pelo homem, o abuso de poder emolduram o espetáculo, que traz à tona o ambiente em que os próprios oprimidos se voltem uns contra os outros. Por conta da censura, a obra foi encenada pela primeira vez em 1980, 11 anos após ser escrita.   

Em 1988, quando da efetivação da Constituição Federal, Plínio Marcos foi o entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura/SP. 

Iurupari – o coletivo de teatro é um projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), coordenado pelo professor Leandro Cazula, do curso de Geografia.  A iniciativa soma mais de uma década de experiência na cena de Santarém.

O grupo tem se notabilizado por promover oficinas de iniciação cênica divididas em núcleos como o de crianças e adolescentes, jovens e adultos; e contação de histórias. E, por promover a integração da comunidade externa ao ambiente acadêmico por meio da prática teatral acessível.

Ficha técnica de Mocó

Espetáculo: “O MOCÓ”

DATAS: 09, 10, 11, 16, 17, 18, 23, 24 e 25 de julho de 2026.

HORÁRIO: QUINTA e SEXTA: 20h. SÁBADOS – Seções Malditas: 23h

LOCAL DA APRESENTAÇÃO: Auditório Wilson Fonseca da Ufopa, Unidade Rondon, Campus de Santarém/PA, Localiza-se na Av. Marechal Rondon s/n.º, Bairro Caranazal – Próximo ao Shopping Paraíso.

ENTRADA: Gratuita

LOTAÇÃO: 120 (cento e vinte) pessoas

DISTRIBUIÇÃO DOS INGRESSOS: Uma hora de antecedência da apresentação

TEXTOS: Adaptação Livre do texto “Abajur Lilás” (1969) do dramaturgo Plínio Marcos (1935–1999)

DIRETOR: Leandro Cazula

FIGURINISTA E CENÓGRAFA: Conce Gomes

MAQUIADOR E SONOPLASTA: Domiciano Gomes

ILUMINADOR: Amaury Caldeira

FOTÓGRAFO: Wendel Freitas

DESIGNER GRÁFICO: Caê Oliveira

PRODUÇÃO: Karina Vasconcelos

ATOR CONVIDADO: Wendel Freitas

COLABORAÇÃO: Carolina Miranda

GÊNERO DO ESPETÁCULO: Drama

CLASSIFICAÇÃO: 18 anos

DURAÇÃO: 100 (cem) minutos

Mais informações

Cazula - 93 99130-6555

A pedido do MPF, TRF1 anula sentença que absolvia empresa acusada da compra de 1,3 tonelada de ouro ilegal no Pará

 A 12ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) acolheu, por unanimidade, apelação interposta pelo Ministério Público Federal (MPF) e anulou sentença que julgava improcedente a ação civil pública contra a FD’Gold. A empresa é acusada de adquirir e comercializar mais de 1,3 tonelada de ouro de origem ilegal, extraído nos municípios paraenses de Itaituba, Jacareacanga e Novo Progresso. Com a decisão, o processo sofre um recuo de fases e retorna à primeira instância, na Justiça Federal do Pará, para que o curso regular da instrução seja retomado. Leia a íntegra no MPF.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Mineração no Pará: livro desvenda as tramas do superlucro das empresas

 A obra foi  lançada durante a programação do I Encontro de professoras e professores pesquisadores na mineração da Amazonia nos dias 25 a 27 de junho em Belém do Pará, o livro “A RENDA DA MINERAÇÃO- a economia política do subsolo brasileiro”. Editorial iGuana, 2026.

 



Organizado por Giliad de Souza Silva e Charles Trocate, a obra reúne sete estudos que partem da teoria marxiana da renda da terra para analisar a economia política da mineração brasileira. 

A análise dos capítulos converge para um diagnóstico comum: a Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), instrumento pelo qual o Estado se apropria de parcela da renda gerada pelo subsolo, está estruturalmente subdimensionada.

No Pará, a remuneração do capital responde por 95,2% do Valor Adicionado Bruto da indústria extrativa de minério de ferro, ao passo que salários e impostos somados ficam abaixo de 5%. Municípios receptores de royalties, como Parauapebas e Oriximiná, apresentam indicadores de desenvolvimento humano aquém da média estadual.

 

Os estudos demonstram que esse resultado decorre de um modelo de exploração projetado para a extração e concentração de renda. A financeirização das grandes mineradoras, a captura regulatória exercida pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) sobre o aparato estatal, a isenção fiscal garantida pela Lei Kandir e a lógica do lucro por expropriação compõem uma arquitetura política e jurídica que transfere sistematicamente ao capital privado a riqueza gerada por um bem público.

 

Cada capítulo ilumina uma dimensão específica desse dispositivo: a rolagem do capital e o horizonte do controle social; a teoria da renda mineral e o contrato fundiário em Marx; a taxonomia do rentismo no capitalismo contemporâneo; a renda diferencial nas minas de Carajás; os limites dos royalties como instrumento de desenvolvimento; a financeirização no Pará; e o papel do IBRAM como aparelho privado de hegemonia.

 

A obra dirige-se a pesquisadores de economia política, aos pesquisadores e pesquisadoras do problema mineral brasileiro, aos afetados e afetadas nas territorialidades urbanas e rurais que esta fase incontrolável da mineração conturba sem assinalar publicamente o seu significado, seja na forma como também nos seus resultados, se dirige aos gestores públicos e movimentos sociais comprometidos com a soberania popular sobre os bens minerais do povo brasileiro.

Acesse a obra AQUI

Divulgação da editora Iguana. 


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Dragagem no Tapajós TCU impede retomada da operação sem licença ambiental e consulta a povos tradicionais



O Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) só poderá retomar o Pregão Eletrônico nº 90515/2025, que prevê a contratação dos serviços de dragagem de manutenção na hidrovia do rio Tapajós, após obter a licença ambiental prévia e realizar a Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) aos povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais potencialmente afetados. A decisão foi tomada por unanimidade no Acórdão nº 1736/2026, aprovado pelo plenário da Corte em 1º de julho. Leia mais no TDF


Povo da rua – abandonos de Belém

 Rogerio Almeida

Crédito: Eraldo Pauiino/Brasil de Fato

O estrondo do trovão é seguido por relâmpagos que alumeiam os moradores de rua do Centro de Belém, nos beirais da sede do Banco da Amazônia e arredores. Flores do jardim de terra fértil do adubo de desigualdades e pilhagens.  Um canteiro em cada canto. Terão conta no banco ou algum documento de identificação?

É mês de junho. Mês de santos. A cidade, um desmantelo. O vento forte que emana do Marajó não estanca a pororoca de indiferença dos gestores públicos. Punhal de morte. Barro de patrimonialismo. Geleia de tramas irrecuperáveis.

Tudo normal. Normandos diante dos pés de Nazaré blasfemam em torós. Barbadas! Barbalhadas em nós de cipós a estalar nas costas periféricas das favelas. Baixadas submersas. Atlantida cidade. 

As juninas manifestações não eclipsam o pus da ferida da miséria. Um riomar. Nada soa cordial.  O povo da rua terá ala no arrastão do boi? Entre as frestas do zinco, o raio da lua ilumina Jesus. O rebento mais novo que espocou do bucho da moça da Terra Firme.

Belém não parece nada bem. Paciente entubado no posto de saúde da 14, desprovido de atenção.  Sob a sombra da morte, a cidade viceja por entre becos e vielas inebriada pelo odor de fezes e urina. Abissais distâncias de palácios e catedrais.

A cidade se decompõe a olhos vistos. A porta de um centro de acolhimento mais lembra um campo de refugiados de muitas guerras. Casas em desalinho testemunham roupas sobre as calçadas em frangalhos.  O que diz a pichação na cumieira da casa já desnudada de telhado?

A calçada é estreita. A calçada está ocupada por aqueles que não possuem teto, pão ou chão.  E agora José? Terão participado da COP 30?  É o fim do caminho? É pouco agasalho para muito frio quando em noites de tempestades. No tempo regulamentar, o escrete da rua perde de goleada sem direito a Var.

É mês de junho. A metralhadora da saudade e do abandono mira o relógio da matriz. A esperança escapa por um triz. A canção é triste. Ninguém pede bis.  Adágio.  Tudo nesta vida cobra pedágio. “Nada vem de graça. Nem o pão. Nem a cachaça” assim versou Baleiro. A boca do mundo exala álcool. Entre cultos, vomita mentiras e balas. 

Chove. Mesmo assim, o agente de uma facção cumpre a missão em cobrar a taxa de “segurança”. Pequenos e médios negócios encarnam o alvo. Tudo com a máxima educação.

O “funcionário” da firma é dono de traços indígenas. Usa trajes esportivos: tênis, calça e camiseta. Mais perfumado que filho de barbeiro. Uma tipoia socorre o braço direito.

 Terá sido em alguma refrega de cobrança ou entrevero com o povo da rua? O povo da rua não deseja guerra com ninguém. Passei por eles várias vezes. Tudo no máximo respeito.

Na rua, quem vai fazer a morte descer do salto alto? Na rua, o tamborim é de lata, coberto por couro de gato!

A rua é combate diário sem oferta de colete salva-vidas ou lanterna para afogados. Salve-se quem puder. Um salve-se quem puder eterno, onde é impossível tirar leite de pedra.

É a cidade é uma enorme máfia?  A cidade, miolo de ambições. A cidade não para! Todo dia toma drinque na cozinha do inferno.