segunda-feira, 6 de julho de 2026

Povo da rua – abandonos de Belém

 Rogerio Almeida

Crédito: Eraldo Pauiino/Brasil de Fato

O estrondo do trovão é seguido por relâmpagos que alumeiam os moradores de rua do Centro de Belém, nos beirais da sede do Banco da Amazônia e arredores. Flores do jardim de terra fértil do adubo de desigualdades e pilhagens.  Um canteiro em cada canto. Terão conta no banco ou algum documento de identificação?

É mês de junho. Mês de santos. A cidade, um desmantelo. O vento forte que emana do Marajó não estanca a indiferença dos gestores públicos. Punhal de morte. Barro de patrimonialismo. Geleia de tramas irrecuperáveis.

Tudo normal. Normandos diante dos pés de Nazaré blasfemam em torós. Barbadas! Barbalhadas em nós de cipós a estalar nas costas periféricas das favelas. Baixadas submersas. Atlantida cidade.  

As juninas manifestações não eclipsam o pus da ferida da miséria. Um riomar. Nada soa cordial.  O povo da rua terá ala no arrastão do boi? Entre as frestas do zinco, o raio da lua ilumina Jesus. O rebento mais novo que espocou do bucho da moça da Terra Firme.

Belém não parece nada bem. Paciente entubado no posto de saúde da 14, desprovido de atenção.  Sob a sombra da morte, a cidade viceja por entre becos e vielas inebriada pelo odor de fezes e urina. Abissais distâncias de palácios e catedrais.

A cidade se decompõe a olhos vistos. A porta de um centro de acolhimento mais lembra um campo de refugiados de muitas guerras. Casas em desalinho testemunham roupas sobre as calçadas em frangalhos.  O que diz a pichação na cumieira da casa já desnudada de telhado?

A calçada é estreita. A calçada está ocupada por aqueles que não possuem teto, pão ou chão.  E agora José? Terão participado da COP 30?  É o fim do caminho? É pouco agasalho para muito frio quando em noites de tempestades. No tempo regulamentar, o escrete da rua perde de goleada sem direito a Var.

É mês de junho. A metralhadora da saudade e do abandono mira o relógio da matriz. A esperança escapa por um triz. A canção é triste. Ninguém pede bis.  Adágio.  Tudo nesta vida cobra pedágio. “Nada vem de graça. Nem o pão. Nem a cachaça” assim versou Baleiro. A boca do mundo exala álcool. Entre cultos, vomita mentiras e balas.  

Chove. Mesmo assim, o agente de uma facção cumpre a missão em cobrar a taxa de “segurança”. Pequenos e médios negócios encarnam o alvo. Tudo com a máxima educação.

O “funcionário” da firma é dono de traços indígenas. Usa trajes esportivos: tênis, calça e camiseta. Mais perfumado que filho de barbeiro. Uma tipoia socorre o braço direito.

 Terá sido em alguma refrega de cobrança ou entrevero com o povo da rua? O povo da rua não deseja guerra com ninguém. Passei por eles várias vezes. Tudo no máximo respeito.

A rua é combate diário sem oferta de colete salva-vidas ou lanterna para afogados. Salve-se quem puder.

É a cidade é uma enorme máfia?  A cidade, miolo de ambições. A cidade não para!

* texto parido após um rolê no mês de junho. 

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