Rogerio Almeida
O estrondo do trovão é seguido
por relâmpagos que alumeiam os moradores de rua do Centro de Belém, nos beirais
da sede do Banco da Amazônia e arredores. Flores do jardim de terra fértil do adubo
de desigualdades e pilhagens. Um
canteiro em cada canto. Terão conta no banco ou algum documento de
identificação?
É mês de junho. Mês de santos. A cidade,
um desmantelo. O vento forte que emana do Marajó não estanca a indiferença dos gestores
públicos. Punhal de morte. Barro de patrimonialismo. Geleia de tramas irrecuperáveis.
Tudo normal. Normandos diante dos
pés de Nazaré blasfemam em torós. Barbadas! Barbalhadas em nós de cipós a
estalar nas costas periféricas das favelas. Baixadas submersas. Atlantida cidade.
As juninas manifestações não
eclipsam o pus da ferida da miséria. Um riomar. Nada soa cordial. O povo da rua terá ala no arrastão do boi? Entre
as frestas do zinco, o raio da lua ilumina Jesus. O rebento mais novo que espocou
do bucho da moça da Terra Firme.
Belém não parece nada bem. Paciente
entubado no posto de saúde da 14, desprovido de atenção. Sob a sombra da morte, a cidade viceja por entre
becos e vielas inebriada pelo odor de fezes e urina. Abissais distâncias de
palácios e catedrais.
A cidade se decompõe a olhos
vistos. A porta de um centro de acolhimento mais lembra um campo de refugiados
de muitas guerras. Casas em desalinho testemunham roupas sobre as calçadas em
frangalhos. O que diz a pichação na
cumieira da casa já desnudada de telhado?
A calçada é estreita. A calçada
está ocupada por aqueles que não possuem teto, pão ou chão. E agora José? Terão participado da COP 30? É o fim do caminho? É pouco agasalho para
muito frio quando em noites de tempestades. No tempo regulamentar, o escrete da
rua perde de goleada sem direito a Var.
É mês de junho. A metralhadora da
saudade e do abandono mira o relógio da matriz. A esperança escapa por um triz.
A canção é triste. Ninguém pede bis. Adágio.
Tudo nesta vida cobra pedágio. “Nada vem
de graça. Nem o pão. Nem a cachaça” assim versou Baleiro. A boca do mundo exala
álcool. Entre cultos, vomita mentiras e balas.
Chove. Mesmo assim, o agente de
uma facção cumpre a missão em cobrar a taxa de “segurança”. Pequenos e médios negócios
encarnam o alvo. Tudo com a máxima educação.
O “funcionário” da firma é dono
de traços indígenas. Usa trajes esportivos: tênis, calça e camiseta. Mais perfumado
que filho de barbeiro. Uma tipoia socorre o braço direito.
Terá sido em alguma refrega de cobrança ou
entrevero com o povo da rua? O povo da rua não deseja guerra com ninguém.
Passei por eles várias vezes. Tudo no máximo respeito.
A rua é combate diário sem oferta
de colete salva-vidas ou lanterna para afogados. Salve-se quem puder.
É a cidade é uma enorme máfia? A cidade, miolo de ambições. A cidade não
para!
* texto parido após um rolê no mês de junho.






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