sábado, 21 de dezembro de 2013

Fim de ano.....top,top,top.....


Fim de ano....todos\as inebriados\as do mais profundo sentimento de solidariedade....eis a trilha indicada para embalar confraternizações.....top...top....eu vou sabotar....

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Marajó – mundo de águas, açaizais e escravidão

 
 
Faz um tempo o açaí tornou-se uma coqueluche mundial. É consumido em academias e restaurantes de luxo das principais capitais do país. A alta culinária o agenda em diferentes pratos e sobremesas. Para tanto, passou por um processo de ressignificação: antes fonte de proteína de pobres e esfarrapados; para produto de consumo de marombados, e ditos sofisticados.
 
Os surfistas da Califórnia o descobriram. Há uns 10 anos a empresa japonesa K.K. Eyela Corporation o patenteou, onde os produtores nativos eram obrigados a pagar à empresa pela venda de produtos como bombons e licores. Situação já equacionada.
Uma grande empresa de cosméticos fatura com uma coleção produzida a partir da palmeira amazônica, e contabiliza dividendos como social e ambientalmente responsável, graças à “mágica” publicitária. No pico da safra empresas europeias e estadunidenses buscam o fruto direto nas cidades produtoras. 
No cenário nacional e mundial o Pará é o maior produtor do fruto. Em 2012 o estado exportou 6 mil toneladas, o equivalente a R$ 17,3 milhões. O estado responde por algo em torno de 80% a 90% da produção nacional do açaí, seguido por Amazonas e Maranhão, de acordo com o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cidade de Igarapé-Miri é a principal produtora, exportando 360 toneladas/dia. O estado tem perto de 150 agroindústrias.
Quem consome a iguaria e seus subprodutos não imagina que em alguns locais de extração da fruta ou do palmito ainda ocorre situação de super exploração da população ribeirinha, extrativa e quilombola. Algo similar a trabalho escravo. Em alguns lugares o cotidiano é marcado pela coerção pública e privada, ameaça de despejo e morte.
No município de Afuá, situado no arquipélago do Marajó, localizado no delta do rio Amazonas, a situação ainda ocorre. 
As terras do arquipélago foram de sesmarias, talvez esse aspecto histórico ajude a explicar que em algumas ilhas na cidade de Afuá, e outras que integram a região, ainda se mantenha a situação de aviamento e a presença de “patrão”, uma espécie de coronel.   
Afuá – nasceu sobre palafitas no fim do século XIX. É uma típica cidade ribeirinha, marcada pela várzea e igapós. Cajuuna, Afuá e Marojozinho são os principais rios, e integram o estuário amazônico. Fica próxima ao município de Santana, Amapá, estado com que mantém uma relação mais próxima, em detrimento do Pará.
A cidade portuária que escoa minério de ferro, manganês e celulose,  serve como ponto de referência para viajantes de outras cidades paraenses da região do Marajó.
Afuá abriga o Parque Estadual Charapucu, a unidade de conservação mede 65 mil hectares. 36.598 é a população estimada, conforme o censo do IBGE de 2010.
Marajó compreende o território mais empobrecido do Pará. A região é dona do pior índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em 2013 no Brasil. Melgaço é a cidade top. No ranking dos piores municípios do IDH do Brasil, a cidade de Afuá encontra-se entre os 30, ocupando o lugar 22.
No Furo dos Pardos, dona Maria José Carvalho foi flagrada escravizando 19 pessoas no processo de extração do palmito. O nome de Carvalho consta da Lista de Trabalho Escravo produzida pelo Ministério do Trabalho. Segundo Datasus, 3.534 famílias são beneficiadas com o Programa Bolsa Família.
Em 2012 a cidade produziu 5.280 toneladas de açaí e 116 toneladas de palmito, informa o Censo de Extração Vegetal do IBGE.
Marajó – entre ilhas, “patrões” e “fregueses” - Em diferentes ciclos e produtos do extrativismo na Amazônia (látex, castanha, açaí, etc) dos séculos passados a prática do aviamento se fez presente. Assim como da super exploração da mão de obra. O controle da terra de forma legal ou não é um componente que cristaliza a pessoa ou o tronco familiar sobre o domínio do território e os recursos existentes. Constitui-se como uma estratégia de reprodução econômica, social e política.
Assim a família Castro desponta no cenário do município de Cachoeira do Arari, e mantém uma situação de litígio com remanescentes quilombolas no rio Gurupá.  
O derradeiro capítulo foi o assassinato em agosto deste ano na cidade de Belém, às vésperas de um encontro estadual, da liderança Teodoro Lalor. O crime foi considerado pelo setor de segurança pública como passional. Liberato é o patriarca da família Castro. A filha, Consuelo, é prefeita na cidade vizinha, Ponta de Pedras.
Já na ilha Carás - localizada no município de Afuá, as famílias que tensionam com os ribeirinhos pelo controle de açaizais são o casal Arlete Abdon Teixeira Moreira e o carioca Jorge Teixeira Moreira, - este coronel da reserva da PM no estado do Amapá -, a família Carvalho, a família Góes e a família Bastos.   
Documentos de defensores dos direitos humanos do Amapá, que atendem algumas cidades do Pará explicam que os que escravizam, aqui, são chamados de "patrões": são os que, ilegal e violentamente, grilaram grandes quantidades de terras, ilhas inteiras, sem que a União tome uma providência. É o caso da ilha de Carás.
Já os escravos são chamados "fregueses": são famílias que os patrões põem nas "colocações" para tomar conta da terra. Eles extraem madeira, açaí, palmito e látex de borracha, sendo obrigados a vender aos patrões, pelo preço que o patrão quer, e existem ocasiões em que não paga nada.
Nos barracões do “patrão” o “freguês” é obrigado a trabalhar de meia. Conceder parte do que produz para o “dono” da terra, ou vender a produção a preço inferior ao de mercado.  Os barracões e as terras são cuidados por capangas. Cobra D´água, apelido do Adilson, irmão de Arlete Moreira, tem notoriedade entre os moradores de rios e furos na ilha de Carás. A ele cabe a coerção privada, acusam moradores, que sofreram até ameaça de tomada de documentos.
Num lugar sem energia elétrica, sem posto de saúde, sem saneamento básico, com escolas precárias o “patrão” assume o papel de senhor da vida e da morte dos moradores desprovidos de “letras”, com famílias extensas, que tendem a pressionar ainda mais sobre os recursos naturais. 
Litigio – A terra ocupada pela família Moreira é tida como grilada pelos setores alinhados aos ribeirinhos. A família tem acusado moradores de invasão e ameaça de morte. Eles foram notificados pela Secretaria de Justiça do Estado do Pará.  Alguns chegaram a ser presos. Outros “avisados” que não podem produzir roçados, coletar açaí ou palmito fora do perímetro determinado pelo “patrão”.
Arlete e o coronel Moreira alegam que são donos de parte da ilha, que a matriarca Adélia tem negócios no local há anos, e que há uma década um cartório registrou a posse da terra em nome da família. Especialistas em questões fundiária na Amazônia informam que a prática de busca reconhecimento de terras em cartório é uma ferramenta típica do contexto rural amazônico.
Na ilha é comum um casal ter uma média de sete a 10 filhos. As famílias que vão sendo formadas são impedidas de construção de novas casas no local. E onde o estado não chega soa esdrúxulo a presença de um oficial de justiça e PM´s para notificar um ribeirinho, como já registrado no Furo dos Porcos e outros locais da ilha.
Ilha – Terra da União – Desde o Decreto-Lei nº 9760, de 1946 as ilhas consagradas como territórios sob a responsabilidade da União. Na Constituição de 1988, em seu artigo 20, inciso IV ratifica o decreto da década de 1940.
 

domingo, 8 de dezembro de 2013

Mandela - o homem por trás da lenda


sábado, 7 de dezembro de 2013

Maresia, sente a maresia


Xingu - Altamira - mãe perde filho por omissão do Hemopa


No dia quatro de setembro de 2013 D. Diana Ribeiro, 54, enterrou o filho o Francisco, 28.  Foi o terceiro a ser sepultado. Todos eram hemofílicos. O caçula era pai de um garoto.  Em cinco anos D. Diana se despediu de três entes, o marido e dois filhos.

A trabalhadora rural argumenta que o filho agonizou por três dias. A morte dele poderia ter sido evitada se o Hemopa de Altamira, sudoeste paraense, tivesse fornecido o remédio Fator 8. Quando o medicamento chegou na cidade o rapaz já havia falecido.

O drama de Ribeiro aumentou ao saber que o hemocentro da cidade tinha em seus armários 12 mil caixas de Feba, um medicamento mais forte que o Fator 8, e que poderia ter salvo Francisco.

Conforme Dona Diana, no Hemopa os funcionários não conheciam o medicamento.  A senhora de semblante triste e cansado agora inicia uma via crucis por justiça. Na Defensoria do Estado ela busca por reparação.

“Enterrei meu último guerreiro. Uma morte que poderia ter sido evitada se os funcionários do Hemopa conhecessem o medicamento”, lamenta Ribeiro.

D Diana mora na periferia de Altamira com o neto e uma filha adotiva. A audiência com o defensor foi agendada para março.  

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Mundo fundiário no Xingu: entre o caos, rios, rodovias, hidrelétricas, mineração e incertezas


30 mil famílias moram no Assurini, destas 20 mil são famílias assentadas pela reforma agrária em inúmeros projetos de assentamento, entre eles, Sol Nascente, Morro dos Araras, Itapuama. Existem ainda sítios e fazendas, além de áreas de garimpo, e proximidade com territórios indígenas e um modal de unidades de conservação, entre elas Riozinho do Anfrisio e Verde Para Sempre. A guerra dos mapas ocorre no município de Altamira, sudoeste do Pará, região irrigada pelo rio Xingu, e que é impactada pelos grandes empreendimentos, como a construção de Belo Monte e o projeto de mineração da canadense Belo Sun. 

Tudo soa grande na Amazônia. O território do município soma 159 695,938 km². É o maior em extensão territorial do país. Área equivalente a países como Portugal, Irlanda e Suíca. Fosse um estado, seria o 16º, maior que o Acre e o Ceará. Encontra-se numa zona proxima a importantes cidades polos, como Marabá, sudeste do estado, e Santarém, no Baixo Amazonas, todas marcadas pelo capital de grandes corporações, induzidas de inúmeras formas pelo Estado Brasileiro, em particular o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O banco tem se constituído como o principal financiador de megas projetos na Pan-Amazônia, beneficiando empresas como Alcoa, Vale, Votorantim e a Camargo Corrêa.    

A população de Assurini começou a ganhar musculatura quando a área indígena entrou em refluxo, idos da década de 1970, marcada por políticas de integração econômica da região e a construção de rodovias, entre elas a Cuiabá-Santarém (BR 163) e a Transamazônica (BR 230), que serpenteia a região. A União tutela boa parte do território, graças ao Decreto Lei 1.164, de 1971, onde a federação passou a controlar 100 km de cada lado das rodovias federais, em seguida incentivou a colonização com a criação dos Projetos Integrados de Colonização (PIC´s). Medidas realizadas sob a doutrina de segurança nacional, que efetivou ainda institucionalidades como o Grupo Executivo de Terras do Baixo Amazonas (Gebam) e o Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins (Getat), uma espécie de Incra de gandola.

Antes dos planos militares, a seca no Nordeste nos anos 1950 provocou a migração, e cimentou mão de obra barata para o extrativismo da seringa, da castanha e da extração ilegal de madeira. A atividade ilegal de madeira persiste, e tem pressionado as áreas de unidades de conservação da região. O migrante nordestino ajuda a conforma a multifacetada feição camponesa do Xingu.

A precariedade na condição de subsistência, a rotatividade dos “donos” dos lotes, a qualidade do solo, a flutuação dos preços e a distância da sede das cidades influenciam para a permanência ou não do colono ou assentado ainda hoje. Soma-se ao cenário a incerteza se o local poderá ou não ser afetado pelos empreendimentos intensivos em capital, que hegemonizam o processo de redefinição dos territórios xinguanos.    

Assurini por dentro - Assurini é a maior comunidade agrícola do município, e chegou a ser responsável pelo abastecimento da cidade, informam moradores antigos. A população da agrovila é maior que muitos municípios do próprio Pará, como cidades do Marajó, a exemplo de Ponta de Pedras e Cachoeira do Arari.

Os cinco quilômetros no rio Xingu que separam a zona rural da sede do município é percorrido de balsa em 45 minutos. Entre outras externalidades o aumento do custo de vida é um dos rebatimentos que marca a implantação dos grandes projetos na região. Alimentação, aluguel de casas, diária de hotel, condução e o preço do translado pela balsa sofreram incremento. No caso da balsa em mais de cem por cento.

No começo do ano a tarifa paga para o deslocamento de uma moto era de R$3,00, no fim do ano alcançou a casa dos R$7,00. Uma casa simples em Altamira em área que será deslocada pode custar até mil reais. As cidades vizinhas vivem realidade semelhante, que tem desdobramentos no campo social, tais como: desagregação familiar, aumento da violência doméstica, do alcoolismo, do uso de drogas e de homicídios.

A via terrestre de acesso à comunidade, Transassurini, passa por reforma, mas mantém pinguelas – precárias pontes feitas de madeira. No percurso é possível avistar castanheiras e açaizais. Entre a paisagem empoeirada de fim de verão avista-se o gado. Babaquara e Conradinho são considerados os principais igarapés. O reparo da estrada se deve ao avanço das obras de Belo Monte e das prospecções da Belo Sun. Existe a promessa de asfaltamento. Moradores atestam que a ideia é viabilizar a comunicação terrestre com o município de São Félix do Xingu, conhecido pela bacia leiteria. O vizinho do sul do estado experimenta passivos de projetos de mineração da Vale.  

Em setembro o projeto de energia rural alcançou perto de 300 famílias no Assurini. No entanto os agricultores reclamam da péssima qualidade do serviço da Rede Celpa. Já ocorreram casos da queda de energia ultrapassar a casa dos vinte dias. Outro descontentamento é o preço da tarifa, alguns moradores receberam conta de até R$1.200,00, sem ter com quem reclamar. Cacau, castanha, pesca, caça, criação de pequenos animais garante a sobrevivência da população.  

Mobilização por direitos - O Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) e segmentos da Igreja Católica, entre outros sujeitos do campo democrático mobilizam as comunidades no sentido de garantia de direitos. Nesta semana realizaram uma reunião que contou com a participação de perto de 60 pessoas. A comunidade será afetada pelo empreendimento de Belo Monte.  

Os moradores elaboraram uma pauta para diferentes setores públicos e privados, e convidaram os mesmos para a efetivação de um diálogo. Ibama, Norte Energia, Rede Celpa, INCRA e EMATER foram convidados. Destes somente INCRA e EMATER compareceram. Populares queixam-se que omitir e sonegar informações tem sido prática recorrente da Norte Energia, que as vezes não recebe nem pesquisadores.

A pauta de reinvindicações para o consórcio exige o cumprimento do Plano Básico Ambiental (PBA) e do Termo de Compromisso firmado com o INCRA em 2010. Em tese as obras só poderiam ter iniciado após o reassentamento das populações atingidas. Entre outras questões a pauta dirigida para a Norte Energia trata do reassentamento das famílias, subsídio do translado da balsa, manutenção do preço do pé de cacau em R$98,00 e a responsabilização sobre a manutenção de 100 operários da empresa Naturasul, que deve em breve ocupar área no projeto de assentamento Sol Nascente. A população teme pela acentuação da desagregação e insegurança da comunidade.

Para o INCRA os moradores exigem a desapropriação de grandes áreas. A questão fundiária é a mais delicada. Nos assentamentos há casos de lotes terem sido negociados várias vezes, apesar da proibição em lei. O local conhecido como Paial sofrerá com a construção da barragem. Os agricultores temem perder a terra.  O representante do INCRA garantiu que o morador que comprou terra de forma ilegal, mas que tem vocação para o trabalho rural será reconhecido. A presença de fazendeiros é outro ponto a ser equacionado.

Na quebra de braço entre o grande capital e as populações locais, a Norte Energia tem tomado como base jurídica legislação da década de 1940, que concede ao setor privado o poder em desapropriar. O remanejamento da população de Santo Antônio no Xingu tem sido o caso mais emblemático da assimetria de força entre os envolvidos da disputa pelo território.

Como metodologia para o afetado que optar por indenização o consórcio concede uma carta de crédito. Em meio a um caos fundiário e grilagens de terras, o impactado fica obrigado em conseguir encontrar uma terra com título legítimo, para que o processo encerre.    

Outro ponto nebuloso é a não remuneração das áreas verdes dos lotes. A empresa indeniza somente áreas que possuam plano de manejo, apesar do serviço ambiental prestado e o respeito à legislação, que obriga a manutenção de 80% de reserva da floresta. Moradores lembram que por conta das obras ocorreu um esvaziamento da população mais jovem para a cidade de Altamira, e consequentemente para os canteiros da barragem. O campo de futebol ficou relegado ao abandono. E não se encontra gente disposta ao penoso trabalho na roça.   

Pará grilado

6.102 títulos de terra registrados nos cartórios estaduais possuem irregularidades. Somados, os papéis representam mais de 110 milhões de hectares, quase um Pará a mais, em áreas possivelmente griladas. Os dados resultam de três anos de pesquisa dos órgãos ligados à questão fundiária no estado, através da Comissão Permanente de Monitoramento, Estudo e Assessoramento das Questões Ligadas à Grilagem (Tribunal de Justiça, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Advocacia Geral da União, Ordem dos Advogados do Brasil, Federação dos Trabalhadores na Agricultura, Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, Comissão Pastoral da Terra e a Federação da Agricultura do Estado do Pará). O documento foi apresentado em 30 de abril de 2009 no auditório do Ministério Público Federal (MPF)

Conforme o site do MPF, a magnitude dos problemas nos registros – que abrangem de fraudes evidentes a erros de escriturários - levou a um pedido, dirigido à Corregedoria do Interior do Tribunal de Justiça, para que iniciasse imediatamente o cancelamento administrativo de todos os títulos irregulares, já bloqueados por medida do próprio TJ. Na época a desembargadora Maria Rita Lima Xavier, corregedora do interior, negou o pedido no último mês de março.

O cancelamento dos títulos vai evitar a criação de seis mil processos para o cancelamento dos títulos que podem durar infinitos anos no tribunal já sobrecarregado. Com o indeferimento da desembargadora Maria Rita Lima Xavier, a comissão recorreu ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para que o mesmo defira pelo cancelamento dos títulos falsos.

 
Felício Pontes Jr, procurador da República e representante do MPF na comissão, argumenta que os indícios de fraude são evidentes demais para ficarem esperando processo judicial. O pedido de cancelamento dos títulos é subscrito pelo Ministério Público do Estado, Instituto de Terras do Pará (ITERPA) e a Procuradoria Geral do Estado (PGE) e foi enviado ao CNJ através dos Correios no mesmo dia de apresentação dos dados.

Entre os episódios de grilagem mais famosos do Pará está o do “fantasma” Carlos Medeiros, ente jurídica e fisicamente inexistente que acumula 167 títulos de terra irregulares. Todos os títulos de Medeiros que somam 1,8 milhões de hectares estão bloqueados. As terras se espraiam em dez municípios paraenses. A mesma situação nubla os empreendimentos da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara S/A., no sudeste do estado, do banqueiro Daniel Dantas.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Mineração no Xingu – a batalha entre a canadense Belo Sun e os garimpeiros da Ressaca


Há seis meses perto de 600 garimpeiros da Vila da Ressaca, no município de Senador José Porfirio, estão sem fonte de renda. Eles fazem parte do universo de pessoas e categorias que serão atingidas pelos grandes projetos da região do Xingu, a sudoeste do Pará, mais precisamente na Volta Grande do Xingu, a 50 km a sítio Pimental, que integra a engenharia do projeto da Hidrelétrica de Belo Monte.  Cerca de duas horas de barco separam a Volta Grande do município de Altamira, cidade polo da região.

Além de Belo Monte os moradores da vila são impactados pelo Projeto Volta Grande, maior empreendimento de mineração de ouro a céu aberto do país, da canadense Belo Sun Mining Corp, que deverá retirar 50 toneladas de ouro no prazo de 12 anos, e promete empregar 2.700 operários.

Além dos empregos a corporação garante que irá promover o reassentamento das famílias da Vila Ressaca, Galo e Ouro Verde, e que vai gerar R$500 milhões em impostos em 11 anos. A Belo Sun integra o portfólio da Forbes & Manhattan Inc., um banco mercantil de capital privado, que desenvolve projetos de mineração em todo o mundo.

Após três anos de prospecção e uma negociação nebulosa com pessoas que se dizem donas da área, os garimpeiros estão impedidos de trabalhar nos antigos garimpos Grota Seca, Galo e Ouro Verde, que respectivamente seriam de propriedade de Henrique Pereira Gomes, e das pessoas conhecidas somente pelos prenomes de William e Gazio.  Itatá, Curimã e Morro dos Araras fecham a constelação de garimpos da região, como outros rincões da Amazônia, marcada por uma realidade agrária caótica.  

Conforme moradores da Vila, a retirada dos garimpeiros foi a condição para o pagamento da segunda parcela da negociação junto aos possíveis proprietários. A estimativa é que 50% dos moradores abandonaram o local, perto de mil pessoas. O mesmo ocorre na vizinha Ilha da Fazenda, que passou o ano sem energia elétrica gerada a motor de diesel, e já sofre com o abastecimento de água. 

Cerca de 300 famílias ainda moram na Vila Ressaca, que tem parte do território definido como projeto de assentamento rural da reforma agrária. Além do garimpo os moradores possuem como ocupação a lavoura, pesca e o funcionalismo público. Seis mil pessoas chegaram a habitar o lugar durante a febre do ouro.

Prestes a receber a licença ambiental, tudo parece anuviado tanto na Vila de Ressaca, quanto na Ilha da Fazenda. Os moradores não sabem informar sobre reassentamento das famílias, e temem pela qualidade da água no presente e no futuro, por conta do desmatamento, do uso de resíduos tóxicos, assoreamento e barramento do Xingu, que deverá reduzir em até 80% a vazão do rio.

Os ribeirinhos também não sabem se existe algum programa de prevenção de acidentes. O futuro dos habitantes da Volta Grande é incerto. Os ciclos da fauna e flora serão brutalmente alterados, assim como a navegabilidade do rio.

Entre outros pontos nevrálgicos, defensores dos direitos humanos e ecologistas criticam que os estudos de impactos ambientais da mineradora não consideram os impactos cumulativos dos dois empreendimentos. Na mesma seara de critica encontram-se o Ministério Público Federal, Fundação Nacional do Índio (Funai), Defensoria Pública do Estado e ONG´s. 

O licenciamento está suspenso pela Justiça Federal a pedido do MPF, que exige que as populações indígenas Juruna, Araras e isolados sejam ouvidas previamente.  Paquiçamba e Arara são as reservas indígenas mais próximas do empreendimento.    

Vila da Ressaca – Uma vila quase fantasma – Conforme dados do Estudo de Impacto Ambiental da Belo Sun, maranhenses representam 93% da população do município Senador José Porfirio, criado na década de 1960, e que desde os anos quarenta registra atividade de garimpo de ouro. As mineradoras Oca, CNN e Verona precederam a Belo Sun.

Os anos das décadas de 1960 e 1970 são considerados os gloriosos de ouro fácil. Antes do impedimento da atividade, cada garimpeiro conseguia faturar entre R$ 3 a 6 mil reais, informa José Raimundo Constantino, presidente da Cooperativa de Garimpeiros do Galo, Ressaca, Ouro Verde, Itatá e Fazenda (Coogrovif).

A placa da cooperativa registra que ela possui autorização de lavra,  de número 71, concedida pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) desde 2009. A desordem é a regra na fronteira. Nos garimpos da Ressaca não havia relação trabalhista entre os garimpeiros e os controladores dos locais de extração. Cada garimpeiro ficava com 20% do que conseguia arrecadar, enquanto o restante era para o "patrão". Além da precariedade trabalhista era comum o trabalho infantil, e uso do mercúrio e dinamite. Para não falar na situação de conflito que ocorreu com as populações indígenas.   

A mineração em menor ou maior escala é indutora de passivos sociais e ambientais. Se os garimpeiros usam dinamite e mercúrio, as grandes corporações usam cianeto, dragas e dinamite. Tanto um quanto o outro provoca situações de conflito com as populações consideradas tradicionais, em particular indígenas.  

Desabafos da Ressaca – no último sábado as casas de madeira apertavam as ruas estreitas da vila marcada por uma rotina de tranquilidade. O vai e vem comum nos dias de garimpo, com pessoas carregando combustível e motores deixou de existir. “As máquinas foram levadas para o Mato Grosso. Não temos como trabalhar”, informa Idelson de Sousa, um articulado jovem garimpeiro indignado com a situação de abandono. “Temos três vereadores, e ninguém nos defende”, arremata.   

“A empesa sonega informação. Nos afronta e humilha. A gente não tem liberdade e estamos passando necessidade. Estamos que nem gado no curral” enfatiza Francisco Pereira Silva, conhecido como Piauí. Ele é a voz mais indignada na reunião da cooperativa. Há anos na atividade, ele esclarece que tem pai hoje na comunidade sem condição de comprar nem um lápis para o filho.  “Não queremos nada. Apenas o nosso direito. É necessário que haja justiça em nosso país”, sublinha o garimpeiro.  

Já Ideglan Cunha adverte que em Ressaca não há ladrão. Sim pobres dignos. E que não se pode sair de qualquer jeito do garimpo. Ele encerra defendendo que “a gente quer trabalhar, comer e que o direito de cada um seja respeitado”.
 
Mineração no Pará - Existe minério praticamente em todo o estado, - de seixo a ouro -, todavia, até o momento, Carajás tem se constituído como o principal polo exportador. O extrativismo mineral é o principal item da balança comercial do estado do Pará, chegando a contribuir com 90% do Produto Interno Bruto (PIB). O mesmo minério que pesa no PIB é responsável por uma renúncia fiscal de R$ 9 bilhões por ano por conta da Lei Kandir (lei complementar federal n.º 87, de 13 de setembro de 1996), que desonera as empresas em recolher o Imposto de Circulação de Mercadoria e Serviço (ICMS) dos produtos primários e semielaborados. Dados do DNPM sinalizam que o setor faturou 100 bilhões de reais em 2012. Deste total o Pará responde por 23,3%, ficando atrás de Minas Gerais, que concentra 41,4% da produção.

A desoneração em R$9 bilhões se aproxima do orçamento total do estado para o ano de 2013, estimado em R$ 13 bilhões, assim explica a dissertação de mestrado em Direito de Victor Souza, defendida da Universidade Federal do Pará (UFPA). No cenário de corporações internacionais que exploram ou reivindicam licença para prospecção mineral junto ao DNPM em solo paraense, constam a suíça Xstrata, a estadunidense Alcoa, a francesa Ymeris, a Reinarda, subsidiária da australiana Troy Resourse, a norueguesa Norsk Hidro, a chilena Codelco, a canadense Belo Sun Mining Corp e a Vale, esta a de maior musculatura.

Ao longo dos anos a modalidade de política pública para a Amazônia baseada em grande empreendimento tem sido um indutor de desagregação econômica e social, que se manifesta a partir do rompimento de laços de solidariedade, vizinhança, formas de reprodução econômica, social e cultural de pescadores, indígenas, trabalhadores rurais, extrativistas e demais formas da sociodiversidade. 

Os dois projetos, Belo Monte e Belo Sun fazem parte de um cenário que tem redefinido os territórios já estabelecidos na Pan-Amazônia, que colocam em flancos opostos grandes corporações de construtoras de barragens, mineradores, agronegócio e noutro as populações consideradas tradicionais, numa lógica secular marcada pela expropriação dos últimos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

UEPA e IFPA debatem sobre o universo agrário da Amazônia


Os “Nós” da Questão Agrária da Amazônia é o tema de simpósio que inicia na manhã do dia 28, na Universidade Estadual do Pará (UEPA). A iniciativa é da própria UEPA em parceria com o Instituto Federal do Pará (IFPA). 

O evento integra a agenda de atividade do grupo de estudo Territorialização Camponesa na Amazônia, coordenado pela professora Cátia Oliveira.

Além de representação de movimentos sociais como o MST, MAB, quilombolas e indígenas haverá apresentação de resultados de pesquisa de graduação e pós graduação.
Edna Castro do NAEA\UFPA e a professora da USP Valéria de Marco farão palestra sobre a delicada situação agrária da região.

Saiba mais AQUI

domingo, 3 de novembro de 2013

Marajó - gotas sobre a História de Cachoeira do Arari


Tita é encorpada. Tem 110 quilos adquiridos em pouco mais de 53 anos. A mulher negra de cabelos curtos pintados em tom caju não tem letra. Aprendeu a ler, escrever e fazer conta por necessidade.

Desde cedo trabalha. Aos 15 já lavava roupa de “branco”.  O peso de Tita é distribuído em 1.m55cm.  Sente dores nos joelhos, pés e nas costas. No corpo inteiro.

Ficar por muito tempo sentada ou em pé causa desconforto. Cerveja e samba é o seu ponto fraco. Ela conta que é comum ficar porre em casa em fins de semana. Um box na praça central de Cachoeira do Arari é o ganha pão da autônoma. Cachoeira integra o arquipélago do Marajó. A região é a mais empobrecida do estado do Pará. Possui o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil.
 
Para tentar melhorar a situação, quatro médicas cubanas aguardam o registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) para poder iniciar as atividades de medicina preventiva. Enquanto isso não ocorre, elas dividem o tempo entre passeios e estudos. Duas das quatro médicas não eram aguardadas pela prefeitura. Elas aportaram em Cachoeira no dia 01 de novembro.   

Sobre o meio ambiente, um técnico da prefeitura informa que a vegetação é quase intacta nas áreas de várzea, o que poderia servir de apelo para uma política ambiental. No fim de outubro Cachoeira do Arari passou a integrar a política estadual de municípios verdes.

Tita comercializa alimentação, biscoitos, velas e bebidas. O “leite de onça” é produzido com álcool e leite condensado. Uma auxiliar é o quadro funcional da empresa. A assistente tem namorada ou “marida”, como elas costumam galhofar. Iemanjá é a cabeça de Tita. Uma imagem fica no pé da TV. Atrás a foto de um sobrinho. Ela acredita que a entidade protege a ela e o parente. Após muito tratamento conseguiu engravidar. A criança nasceu com quilo e meio. Hoje é adulta.

O Aracu frito é o petisco da casa. O peixe tem muitas espinhas. Estima-se que 42% da população de 22 mil pessoas de Cachoeira do Arari mantenham laços com a pesca. 9 mil pescadores estão cadastrados no ministério. Vicente, o “Beca” ex coordenador da Colônia de Pescadores Z40 é vice prefeito da cidade. Atualmente ocorre um recasdramento para verificar  a procedência do número.

Beca é o terceiro ex presidente de colônia a ser vice prefeito. Claudionor, hoje secretário de obras já ocupou o cargo. Ele na década de 1990 foi presidente do Grupo de Trabalho da Amazônia (GTA). Uma espécie de central que aglutinava inúmeras representações do campo popular de todos os estados da Amazônia Legal. O GTA contava com financiamento internacional pós Eco-92. Além da Z40, existem a colônia Z-26 e um sindicato de pescadores para representar a categoria.

Dalcidio Jurandir é o filho mais ilustre de Cachoeira do Arari. O município vive sob a ditadura das águas. As águas da baía nesses dias são bem agitadas. O navio de dois andares Comandante Marcos sacode como se fosse afundar. Véspera do dia de finados. Os mais descontraídos fazem festa, enquanto outros vomitam, e alguns conseguiam até dormir. O medo viaja junto por três horas. Algumas pessoas usam colete. Uma jovem não cessa a conversa ao celular, apesar dos solavancos da embarcação. A feição traduz a miscigenação: os olhos são puxados, os lábios carnudos e os cabelos lisos.

O Porto de Camará é uma espécie de entroncamento.É  ponto de chegada dos navios.  De lá é possível seguir para Salvaterra ou Soure e Cachoeira, separada do porto por duas horas de viagem em micro ônibus numa precária estrada.  

O padre italiano Giovanni Gallo deu visibilidade internacional para o município a partir da edificação do Museu do Marajó, antes sediado na vizinha cidade de Santa Cruz do Arari. O mesmo padece de problemas constantes para a sua manutenção. Esses dias em letras desenhadas um aviso em papel A4 apelava para a contribuição de visitantes para o pagamento da conta de energia elétrica. Itaci, uma espécie de “faz tudo” conta que o pico de visitas é em janeiro, por conta do festejo de São Sebastião. Naquele dia do fim de outubro de 2013 éramos os primeiros visitantes.

Um Museu é uma festa de criatividade. Compensados, fotos, fios, pegadinhas e formas de interação provocam o visitante numa trilha sobre a história milenar da região, tributária de sociedades complexas. A neta do ex presidente do EUA, Anna Roosevelt, e também arqueóloga assina artigos sobre a região e o Baixo Amazonas.

O espólio de Gallo encontra-se numa imbricada rede de disputa, que envolve população local, pesquisadores e empresários radicados em Belém. Por conta de uma prestação de contas com limites junto ao Ministério da Cultura, o Museu tem problemas para a captação de recursos.   

Pecuária bubalina, pesca, cultura da mandioca, extrativismo do açaí e produção de abacaxi conformam a base da economia local. Nos dias atuais a monocultura de arroz integra a paisagem dos campos naturais. Toma cerca de 6 mil hectares. Com endosso federal, estadual e do setor rural do estado, a família Quartieiro se apossou de porções de terras. Promove queimadas e no arrastão de corrente faz sucumbir bacuriçais em algumas ilhas, Santa Cruz é uma delas. O agrotóxico é lançado a partir de avião. A família ocupava a área indígena Raposa Serra do Sol em Roraima.

As terras do Marajó foram de sesmarias, e ainda hoje há “coronel” que manda na freguesia: Monteiro e Liberato de Castro são dois deles.  O último tem rusgas com remanescentes de quilombolas numa localidade conhecida como Tororomba, no rio Gurupá. O extrativismo o açaí é o centro de gravidade do conflito. O quilombola mais aguerrido, Teodoro Lalor,  foi morto este ano em Belém, às vésperas de um encontro estadual para debater as demandas da categoria. Ele vinha sendo ameaçado de morte. Mas, o caso  foi noticiada como questão passional. Os parceiros não acreditam na tese. Além de controlar vastas extensões de terra, Castro elegeu a filha como prefeita da cidade vizinha, Ponta de Pedras.  

Fim de tarde de sexta feira. A praça é agitada. Motos circulam de um lado outro para outro. Ninguém usa capacete. Além de bares e lanchonetes, a praça abriga a sede da prefeitura. Dali é possível avistar os trapiches. As cercas de proteção possuem motivos marajoaras. Uma placa prestes a cair do Museu do Marajó dá boas vindas em vários idiomas.

Os “pés inchados” da cidade compartilham “buchudinhas”. Trocam insultos. Riem. Choram. Empurram uns aos outros. As TV´s do local exibem o jogo do Paysandu contra o Joinville. O “Papão da Curuzu” está prestes a cair para a terceira divisão do campeonato nacional.  Perdeu de 4X2.

Tita tem namorado. Ele tem 16 anos a mais que ela, é o dono do box que ela administra. A jovem senhora fala sacanagem com desenvoltura, enquanto outra gordinha trata das unhas dos pés e mãos. Uma moto taxista de estatura mediana e corpo franzino aguarda a vez na manicure. O cabelo pintado de amarelo tem arranjos em cachos. As sobrancelhas desenhadas moldam olhos sapecas.   

 “Tigrão” é o apelido do parceiro de Tita. “Outro dia ele chegou de Belém. Eu doida para colocar o bloco na rua e ele roncando. Deixei ele dormir um cadinho, e na madruga o coro comeu”, conta com alegria juvenil.  

A comerciante parece gostar de dedo de prosa. Encaixa uma história na outra. O causo agora é sobre o desenho nas “xotas” das madames. A pilhéria é de responsabilidade de uma enteada que mora na capital. Trabalha em casa de gente rica. Entre risos a negra narra que as madames fazem bigodinhos na periquita. Aqui a gente mesmo passa o aparelho, Tita ri que se engasga.     

domingo, 27 de outubro de 2013

Ismael Machado - Jornalista paraense abocanha prêmios nacionais e regionais

Há 22 anos na estrada Machado venceu o Líbero Badaró e Vladmir Herzog, e concorre no Esso  e Abdias Nascimento

Há 22 anos Ismael Machado iniciou a carreira no Diário da Serra, jornal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Em Belém passou pelos principais jornais, Província do Pará, O Liberal, e pelejou em assessorias. Já foi correspondente de O Globo e do glorioso JB. Entre os frilas constam as publicações Veja, Bravo e Caros Amigos. Também passou por TV em Rondônia e Cultura em Belém. Em 2013 abocanhou prêmios regionais e vários nacionais (Líbero Badaró e Vladmir Herzog), e é indicado entre os três concorrentes para outros, entre eles, Abdias Nascimento e Esso.  O novo livro aborda a ditadura na Amazônia, foi laureado com o Prêmio Euclides “Chembra” Bandeira, na categoria livro reportagem. Graduado em Turismo, com mestrado em literatura, Machado é repórter especial do jornal do senador Jader Barbalho, o Diário do Pará, que recentemente enfrentou uma greve histórica, e já iniciou a caça às bruxas com algumas demissões. Como os experimentados jornalistas, defende que o principal é sujar os sapatos na estrada. No terceiro casamento Machado é pai de dois filhos. O mais velho cursa jornalismo em Vitória, Espírito Santo. Nesta entrevista ele argumenta sobre o diploma de jornalismo e avalia os prêmios que tem recebido.      
Furo - Quem é Ismael Machado?
Ismael Machado - Nasci em Icoaraci. Comecei a trabalhar em 1991, em dezembro, um dia depois do meu aniversário, no jornal Diário da Serra, em Campo Grande (MS). Passei por todas as editorias possíveis lá, um grande aprendizado. Sou mestre em Literatura, com MBA em Comunicação e Semiótica e Bacharelado em Turismo, além de especialização em Metodologia da Comunicação e Aperfeiçoamento em Jornalismo.
Já trabalhei em jornais como O Alto Madeira (RO), Província do Pará (PA), O Liberal. Fui correspondente do Jornal do Brasil e de O Globo. Fui repórter de TV em Rondônia e na TV Cultura, em Belém. Fiz diversos trabalhos de assessoria de comunicação, e muitos frilas (Folha, Veja, Bravo, Caros Amigos etc).
Furo – Quais as principais influências?
IM - Influências são diversas. Nem tudo no campo do jornalismo. Ana Maria Bahiana, Caio Fernando Abreu, Carlos Heitor Cony, Eliane Brum, Ricardo Kotscho, Lázaro Magalhães, Paulo Silber, o novo jornalismo etc, tudo são influências profissionais.
Furo -  O que é a Amazônia para o profissional Ismael?
IM - O melhor local para um profissional da reportagem estar.
Furo - Como você chegou ao O Globo?
IM - Durante o julgamento de Eldorado dos Carajás, cobri para o Liberal e para o Jornal do Brasil, concorrente do Globo. Dois anos depois, creio que o repórter Rodrigo Taves, enviado a Belém para cobrir o julgamento pelo Globo, deve ter me indicado ou sugerido o nome. Numa tarde recebi um telefonema me propondo fazer matérias para o jornal. Isso foi em 2001. Fiquei no Globo até 2007.
Furo - Líbero Badaró, Herzog (duas vezes), Esso, Abdias Nascimento, IAP, indicação para o da Fiepa, tudo numa lapada, o que significa para você esse reconhecimento?
IM - Esso e Abdias são indicações como finalista. Não sei se ganharei. Mas de qualquer forma estar entre os finalistas já é um baita resultado. A leitura que faço é que o trabalho desenvolvido está no caminho certo. A minha aposta é sempre no texto solto, livre de amarras, buscando a influência do Jornalismo Literário. E na tentativa de construção de boas histórias. Acho que isso tem obtido um retorno positivo. Nesse sentido me parece que estou conseguindo um amadurecimento textual interessante, conseguindo dizer exatamente o que planejei na apuração.
Furo - Machado já sabe o que fazer com esse capital simbólico?
IM - Não. De certa forma, em muitos aspectos não tenho muita noção da ‘ficha caída’, o que isso representa. No fundo também, o que se tem que ter é pé no chão. Não se achar melhor do que se é, nem pior do que podem achar.
Furo – Essa “bamburação” de prêmios é uma iniciativa pessoal ou da empresa?
IM - É uma iniciativa pessoal, no sentido de que, muitas vezes, a empresa nem sabe em quais prêmios inscrevi matérias. Mas ao mesmo tempo, não se pode esquecer que o resultado dessas premiações é conseqüência da abertura dada pelo Diário do Pará na ‘compra’, digamos assim, das ideias de pauta. Todos sabemos que fazer reportagens na Amazônia não é nada fácil. Custa caro, é complicado. O Diário abraça essas ideias, compra a briga. E depois, tem ousadia suficiente para fazer páginas diferenciadas, de ampliar as reportagens em séries, de usar espaços amplos. Em resumo: se o processo inicial é quase solitário (pensar as pautas, produzi-las e apurar) o que vem depois é um trabalho bem feito de diagramação e de edição. Nesse ponto, por exemplo, a interação com os fotógrafos é total e o trabalho de editores como Lázaro Magalhães, a edição de fotografia, o trabalho do ‘artista’ (gosto de chamá-lo assim) Alvarenga, na arte, enfim, tudo o que vem depois da matéria escrita, é um alicerce precioso para que haja interação total no produto final. O Diário possibilita experimentações, ousadias gráficas, grandes reportagens. E isso é uma postura editorial, vale ressaltar. Todos os repórteres têm essa abertura, essa possibilidade de arriscar voos maiores em termos de reportagem.
Furo– O livro reportagem do Prêmio IAP agrupa que matérias?
IM - Na verdade é uma releitura única de tudo o que armazenei a respeito do período da ditadura militar no Pará. Peguei todas as reportagens feitas nesse sentido até aqui e fiz uma costura, transformando tudo numa grande reportagem.
Furo – Quanto ao diploma para exercer a profissão, você tem uma opinião formada?
IM - Eu não concluí o curso de Jornalismo. Pergunte ao Collor o motivo (heheheh), portanto sou plenamente a favor da formação aberta, ampla. E do talento e vocação. Na verdade, com exceção das formações mais especificas, como medicina, engenharias etc, penso que o mundo de hoje não pode mais ser estanque. Vejo isso na academia, esse engessamento, essa limitação de possibilidades. Os historiadores rejeitam jornalistas fazendo o trabalho de historiadores, os jornalistas não querem que formados em Letras exerçam a função. Não gosto muito desse universo fechado. Quando fui fazer o meu primeiro teste numa redação, havia abandonado no último ano o curso de Psicologia. Numa entrevista de emprego a responsável pelo teste disse que eu estava no lugar errado e me indicou para um amigo, editor de Economia do Diário da Serra. Fiz o teste junto com uma recém-formada em Jornalismo. Ele me disse depois que minha materinha havia sido muito superior a dela. Sei que quando entrei a primeira vez numa redação, descobri ser ali o meu lugar. E aqui estou até hoje

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Floresta em pé – quilombolas incrementam produção de açaí



Manejo da cultura garante segurança alimentar e renda

A Amazônia é um mundo de águas. No Porto da Palha em Belém, um canto dele, o rio Guamá se impõe. O chão é tomado de folhas de bananeiras e cestos de açaí enfeitam o cenário. O local é um dos pontos de venda do produto mais consumido na capital do Pará. Conforme o dia avança mais barcos chegam carregados do fruto em ‘basquetas’, caixote pesado de plástico, similar a um engradado.

O porto é pequeno para a quantidade de barcos, rabetas e canoas que atracam ali. Quem chega cedo consegue ancorar a embarcação próximo da ponte de madeira para descarregar os produtos e o desembarque dos ribeirinhos, moradores das comunidades próximas ao longo do rio. Há uma variedade de embarcações de diferentes tamanhos que configuram a paisagem do local, repleto de lixo. 

Na outra margem do rio distante dali, existe uma comunidades que luta por sua sobrevivência. Na data que se comemora o dia Internacional de Combate à Pobreza (17), a Comunidade Quilombola do Espirito Santo dá exemplo que com a manutenção da floresta em pé se consegue o direito à segurança alimentar, apesar da ausência de políticas públicas. Na comunidade não há saneamento básico, água potável e energia elétrica.

Espirito Santo

Localizada na zona rural do município de Acará, a região é conhecida como Baixo Acará. No território moram em torno de 19 famílias em uma área de 167 hectares. O acesso a comunidade pode ser tanto via fluvial e terrestre. De barco a viagem dura cerca de uma a duas horas até a comunidade quilombola de Itacoã, após isso mais 5 quilômetros por estrada de chão batido. Espírito Santo fica a 130 Km distante da cidade do Acará.  indo pela Alça Viária a comunidade fica no Km 24.

Mesmo enfrentado dificuldades com a ausência de políticas públicas a Associação de Moradores e Agricultores da Comunidade Quilombola do Espírito Santo conseguiu executar o projeto de Manejo de Açaí Autossustentável Coletivo Consorciado, com o apoio da Malungu – Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará – e do Fundo Dema.

O fundo é resultado de um processo bem sucedido entre Ministério Público, governo brasileiro e Sociedade Civil Organizada. Criado para fortalecer e apoiar projetos de movimentos sociais, associações e comunidades para atender aos povos da floresta. Este ano o Fundo Dema completa 10 anos de luta e resistência por justiça ambiental na Amazônia.

A presença do negro no Pará se registra no clássico o livro, O negro no Pará, do autor paraense Vicente Salles, importante obra de revisão em documentos oficiais e jornalísticos datados dos séculos XVII a XIX. A região Guajarina, onde se localiza a comunidade do Espirito Santo, teve grande concentração de mocambos ao longo dos Rios Moju, Capim e Acará.

Os dados apresentados pela Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) durante o III Encontro dos Quilombolas do Pará informam que estado do Pará lidera o ranking nacional na titulação de territórios quilombolas. Das 193 comunidades quilombolas de todo o Brasil que já receberam títulos de propriedades da terra, 118 estão no Pará até agosto deste ano, ou seja, mais de 60%. O Fundo Dema contribuiu para se chegar a esse número. Em 2010 a Malungu lançou a Campanha pela Legalização dos Territórios Quilombolas com o apoio do fundo. Entre os anos de 2010 e 2012 receberam títulos de terras 11 comunidades. Até outubro deste ano já foram 8  áreas tituladas e legalizadas.

O numero apresentado tende aumentar. A comunidade do Espirito Santo ainda não recebeu a titulação do território, prevista para próximo mês. A titulação das terras quilombolas garante o direito ao trabalho, a preservação de seus costumes e a cultura, além de garantir segurança alimentar as populações tradicionais. A insegurança alimentar está diretamente ligada com a situação de conflito e exclusão do homem no campo.

Carvão

Antes do projeto a principal atividade de sobrevivência das famílias era o plantio da mandioca e queima da madeira para a produção de carvão. É o que conta Paulo Araújo, morador da comunidade e atual Diretor do Departamento de Promoção da Igualdade Racial do município. “O carvão predominava na comunidade, a maioria das famílias mantinham sua famílias da venda do carvão, duas não realizavam a atividade que era o meu caso. Pra nós era um martírio ver as pessoas nessa atividade, além de afetar a natureza é desumana a condição de trabalho no qual o agricultor se encontrava”.

Sem recursos para investir no manejo do açaí eles não tinham condições para comprar os equipamentos necessários para realizar a manutenção e a limpeza da área do plantio. O projeto transformou  ambientalmente e socialmente a realidade da comunidade. Promoveu o manejo sustentável, baseado em práticas agroecológicas, ou seja, na manutenção e preservação da floresta em pé, sem uso de agrotóxicos ou práticas danosas ao solo, contribuindo assim para a redução do desmatamento e por consequência a recuperando de áreas degradadas.

Resultados

Após três anos a avaliação sobre a iniciativa é positiva. “A gente percebe nas nossas próprias crianças elas estão mais alegres, tem mais vigor”, destaca Paulo. O projeto foi iniciado em 2010 e alcançou o objetivo, garantir segurança alimentar e aumento na renda dos quilombolas contribuindo para uma melhor qualidade de vida dos moradores. 

Apesar da grande maioria das famílias na comunidade não dependerem mais da produção do carvão, ao longo da estrada ainda se podia ver alguns moradores, que residem fora da comunidade, realizando o desmate e queima da floresta para a produção do carvão.

Com o projeto, além de proporcionar a compra dos equipamentos, foi possível construir um barracão para que a comunidade pudesse se reunir de forma mais digna. De acordo com o presidente da Associação de Moradores e Agricultores Quilombolas da Comunidade do Espírito Santo, Maciel Seabra, durante a construção do espaço todos se uniram, homens e mulheres, idosos e crianças. Atualmente o barracão abriga a escola de alfabetização dos meninos e meninas do Espírito Santo.

O fortalecimento dos laços é um dos resultados conquistados.  Com o aumento da renda da produção do açaí algumas famílias puderam construir casas de alvenaria. Maciel compara a média de produção do fruto com a quantidade de latas de açaí. A comunidade produzia o açaí, mas não de forma intensiva. Ele conta que antes o barco da associação levava uma média de dez a quinze latas por semana, após a execução do projeto houveram viagens em que se levou cerca de 100 a 118 latas de açaí para vender no Porto da Palha.

Mas para a senhora Maria José Brito, mais conhecida como Leda, o maior benefício foi o agricultor do Espírito Santo perceber o valor do trabalho que realiza, e conclui. Houve uma mudança de paisagem muito boa, um resgate maior do nosso enxergar, de que a zona rural é o nosso lugar. A gente pode fazer disso aqui algo que seja perfeito para morar e criar nossos filhos, enviá-los para estudar e que depois eles entendam que aqui é o local deles viverem, produzirem e trabalharem em prol dessa comunidade”.