terça-feira, 10 de novembro de 2020

Santarém: pautas comuns e trabalho de base consagram iniciativa de chapas coletivas

 Mulheres indígenas e quilombolas e jovens protagonizam o fazer político em região marcada por interesses de grandes corporações. 


Em poema Cecília Meirelles adverte: “A vida só é possível reinventada! ”. Em tempos eclipsados pelo obscurantismo, urge a vida reinventar.  Já a canção Cio da Terra, autoria de Milton Nascimento e Chico Buarque, defende: “Debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo para que todos se fartem de pão”. 

Quão necessário faz-se o se fartar de pão, ternura, delicadeza em dias tão brutais. Dias e noites de desalentos. Perdas de entes queridos pela pandemia. Dias e noites de desencantamento fomentado por mentiras, disseminação do ódio em rede, de ignorâncias celebradas em ruas, defendidas em como fossem verdades únicas.  

Reinventar a vida, debulhar cada bago do trigo, fecundar a terra é o que têm feito as duas chapas coletivas do Psol da cidade de Santarém, que pleiteiam assento no Legislativo eivado de representantes do poder oligárquico e corporativo que ameaçam as terras ancestrais de indígenas, quilombolas e campesinos.

As chapas coletivas nascem do chão, do cuidado coletivo, para além dos vícios do personalismo e tantos outros, como as tretas, que tanto favorecem interesses capitais. Dolores, dólares....

Na cidade de Santarém, a trama da revisão do plano diretor é o exemplo mais vivo, quando o interesse privado se sobrepôs sobre ao interesse público e coletivo.

As chapas psolistas da cidade de Santarém, - bela cidade cotejada pela pujança dos rios Amazonas e Tapajós - brotam do chão da necessidade coletiva em travar o bom combate em defesa do bem comum. Bem comum daqueles sujeitos que historicamente têm arcado com toda com o ônus da festa dos palácios.

A chapa das mulheres é composta por indígenas e quilombolas.  Achapa dos jovens defende o Bem Viver. Ambas possuem os pés fincados na rica sociodiversidade que compõe o território do município.

É com elas que sigo em marcha, a reinventar a vida, debulhar o trigo, tocar o tambor, celebrar e lutar com as bandeiras nas ruas, a alegria, a solidariedade, porque a vida só é possível reinventada, o que ela deseja da gente é coragem.   

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Trabalho escravo: 39 pessoas são resgatadas em garimpo no sudoeste do Pará

 O caso ocorreu no garimpo de Pau Rosa, em Jacareacanga/PA


Trabalhadores reunidos pela equipe de fiscalização 

Os trabalhadores foram resgatados no Garimpo do Pau Rosa, localizado no município de Jacareacanga, a 310 quilômetros de Itaituba, no Pará. A fiscalização constatou que os 39 trabalhadores estavam submetidos à condição análoga à de escravos, mantidos em condições degradantes de trabalho e de vida. Leia mais no site do MPT

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Ver o Peso de minhas saudades...


 


“30 real o pendrive com mais de mil músicas. Música para chifre a dar de pau. Promoção”, anuncia o equipamento de som montado sobre uma bicicleta, sob um sol inclemente e um Ver o Peso coalhado de gente.

Agonia em ziguezague. Ruído ao redor. Frigideiras em chamas. Peixe, fígado, frango e carne. Mini saia. Mini blusa. Frondosas mamas ao calor. Fios de suor. Vida por um fio. Boca sem dentes. Cigarro ao canto. Pandemia em carnaval.

O locutor da sonora  bicicleta anuncia furo de reportagem: “tomem conhecimento. Nova onda do corona se aproxima. Fiquem em casa. Ela pegará somente os cornos”.  Existe uma tara sobre o tema em Belém. Nem José escaparia à galhofa. Sobraria para o Espirito Santo o papel de pé de pano.

Taxar o outro de corno é quase uma instituição na capital paraense. Qualquer dia desses um edil propõe uma data oficial no calendário municipal. Fico a imaginar a comemoração....

É recorrente entre os “motora” de busão o aceno da mão com dois dedos em sinal de chifre. Nas “rádia” da cidade os programas mais populares celebram o fenômeno. Fazem dedicação aos acometidos pelo “mal”, colocam no ar provocações de ouvintes contra colegas de trabalho ou de bar.  

Pedintes. Ambulantes. Hippies. Camelôs.  Meninas em enlace de mãos. Adiante a senhora adverte transeunte: “atente com pulseiras, cordões e brincos”. Faz mais de 20 anos que ando pelo Veropa. Nenhum B.O até o momento. Até celular já esqueci em barracas e o mesmo foi devidamente devolvido.

Há três anos não pisava na área. Indaguei do marajoara Tadeu para a dona Socorro, vizinha de barraca, ela informa que o mesmo operou de vesícula. “Tamo aqui tocando a firma dele enquanto ele se recupera”, comunica.

Pergunto do Jean, o “Coração de Boi”, no caso em questão, não se trata de relação com chifre, mas, uma anomalia que o mesmo diz ter – coração grande -, o que o impede de fazer trabalhos braçais.

No entanto, o mesmo sempre é visto a bailar em festas de aparelhagem em excelente performance, a esbanjar saúde.  Ele negociava CDs e DVDs nos gloriosos dias da pirataria.

Não vi o menino que organizava a roda de samba aos sábados. Vende de tudo. O cabra se defendia na percussão e no canto. Saca toda a discografia do Bezerra.  A “banda” é formada com a turma do mercado. No Ver o Peso o peão tem de jogar nas 11. Se virar como for possível.  

A paga da roda de samba era o litrão para a galera. Vez em quando rolava até tira-gosto.  Também não enxerguei um fiel escudeiro do sambista. A dupla formava uma espécie de Cosme e Damião do pedaço. Ele negociava isqueiros.

Notei ao largo a senhora negra, que mediava sexo com jovens para os veteranos do espaço. Vez em quando andava com uma criança. Dizia que era neta. Uns alertavam: “qualquer dia tu puxas uma cana por conta disso”.  Uma das pernas parecia bem inchada. Vender panos de cozinha é o caô por ela aplicado. Parecia bem acabrunhada. Assim como um tatuador de obras rotas. Um das antigas. Velhos barcos de trapiche sem idas e vindas.

Outro “brother” das antigas, que vi em cadeira de rodas após ser agraciado por batida da “puliça” e ser alvejado por vários tiros, tá roliço.  Tá toba, como se diz em minha terra. Quando em recuperação pelos tiros recebidos, ele rodava o mercado de cadeira de rodas auxiliado por um ajudante. Uma das pernas era cheia daqueles ferros de recuperação. Ele é do DI (Distrito Industrial), de Ananindeua, reconhecida quebrada da crônica policial.  

“ Caralho doido, tu ainda tá na pista, maluco. Égua, nem a Covid tomba vocês”, o saúdo. Ele sorri e pede um copo de cerveja. Defender-se é preciso. Morrer não é preciso.  

Sol de moer. Gente. Gente. Gente aos montes. Não vi tanto cabo eleitoral a sacudir bandeira. A mesma bicicleta do pendrive propaga o número de candidato ao legislativo de uma cidade em frangalhos. Ao fim do anúncio, vaias sucediam.  Patriotas, creio que era o partido.

Um ex atleta do Remo, esguio, negro sempre anda aprumado. Tá sempre na área. Ele diz ter feito parte da esquadra que derrotou o Flamengo no século passado em pleno Maracanã por 2x1, em 1975. Vez primeira que um time do Norte fez tombar o time de Zico, Rondinelli e Junior em pleno Maracanã.

Alcino e Mesquita foram os responsáveis pelos tentos do Remo, enquanto Zico diminuiu pelo Urubu, em peleja testemunhada por 30 mil pessoas no mês de outubro, quando é celebrado o Círio em Belém. Terá sido milagre?

O ex atleta sempre toma uma no Veropa, faz circuito nas imediações da rodoviária, corre puteiros inclassificáveis.  Ele se diz advogado.  Fui agraciado com dedo de prosa com ele. Treta que ganhou em riqueza com um comparsa de 83,  Seu Benedito, um cearense morador da comunidade de Corta Corda, em Santarém, oeste paraense.

O senhor atarracado é peão de trecho. Diz ter chegado do Ceará, onde tem filho juiz. Sempre repete a prosa com orgulho. Já expansivo pelas cervejas consumidas, dana a provocar o advogado. Chamá-lo de bandido e de corno. O ex atleta leva na esportiva.

O baixinho alvo alega que o esportista anda com esposa de “puliça”. Tudo é risos até o negro esguio chamar o baixinho de viado. Zanga. Troca de rispidez. Fim de linha. Fim de papo. Cada um para o seu lado. Uma jovem gordinha em trajes mínimos, altura mediana, fofura a transbordar as vestes, a tudo espia. Tal um felino selvagem a espreitar a lebre.

Ao contrário do Veropa, no Mercado de São Braz, abundavam cabos eleitorais de diferentes tendências, com proeminência à candidatura do professor psolista.  

Um farrapo, assim se encontra o belo mercado, tomado por lixo e urubus. Espelho do desprezo de duas legislaturas tucanas, cujo principal empenho reside em tudo privatizar. 

Ver o Peso de minhas graças. Mercado de peixe, carne, ratos, urubus e garças.  Ver o Peso de minhas de alegrias e mágoas.  Ver o rio-mar, contemplar as ancas das moças e senhoras, sorrir com os convivas dos causos contados, o corre aquieta. Até breve, espero.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Bem Viver é a principal bandeira de chapa coletiva de jovens de Santarém

Jovens das periferias e da zona de rural em puxirum disputam cadeira do legislativo 


Da esquerda para a direita: Darlon, Diana, Sandrielem e Thiago

Barrar o rio é barrar a vida.  Arruinar a floresta segue a mesma trilha.  Envenenar a terra é negar o ciclo natural da existência. O rio, a floresta e a terra são unos e fundamentais para a sobrevivências dos povos da floresta.

Vida em sua amplitude. Para além do peixe, do fruto, do pão.  O rio, a floresta e terra abrigam as lendas. São tributários dos encantados. É um mundo sem cerca. Parente a ombrear parente em um tempo próprio.

Trata-se de um mundo ímpar.  Sem correrias. Um tempo particular. Em um espaço inundado de particularidades próprias.  O celebrar a vida. O rio, a floresta e a terra e as dinâmicas dos povos que nela vivem representam o Bem Viver (tekoporá, tekovekatu ou outras versões).

É o gitinho criado na creche no mundo em uma terra sem males e cercas, como defende a cultura do povo Guarani. As riquezas usadas em puxirum (mutirão), como se diz pelas bandas do Baixo Amazonas. Em forma coletiva. Em ciranda da vida. Aos moldes da jornada das mulheres indígenas e quilombolas do Psol, os jovens da cidade de Santarém erguem na cumeeira mais elevada a bandeira do Bem Viver.

Há distinção nas duas chapas coletivas que pleiteiam assento no legislativo municipal. Legislativo que ao apagar das luzes de 2018, em desrespeito à consulta pública, acenaram para as grandes empresas que desejam erguer um complexo portuário na cidade. Portos da soja. Obras a afetarem indígenas e quilombolas.

O golpe do Legislativo foi imediatamente sancionado pelo atual prefeito. Ambos ignoraram a decisão do povo: a defesa dos territórios de indígenas, quilombolas e camponeses. Setores que não possuem cadeira no poder que possibilite a defesa de suas bandeiras. A defesa de suas vidas em plenitude.

Assim, os jovens da zona rural e das periferias da cidade de Santarém dão um exemplo de consciência política e encaram o desafio de enfrentar as oligarquias locais e outros estranhos da cadeia da soja, o setor interessado no complexo portuário do Lago do Maicá, e ainda a mineradora Alcoa, que chafurda para se apossar de terras de Lago Grande, um assentamento agroextrativista.

Unidades de conservação, terras indígenas, terras quilombolas, terras de camponeses, terras de beiradeiros  integram as feições territoriais do Baixo Amazonas. Terra de povo cabano. É terra farta em floresta em ainda, apesar de ações de grileiros e madeireiros.  Muitos deles vereadores ou apoiadores deles. 

Neste combate desigual temos na linha de frente temos Thiago Rocha, um jovem advogado de traços indígenas há 08 anos militando no campo popular. É defensor dos direitos humanos, e também graduado em Gestão Pública e Desenvolvimento Regional pela UFOPA. É assessor referencial da Pastoral da Juventude no Pará e Amapá (Regional Norte II), coordena a Comissão Justiça e Paz na Arquidiocese de Santarém, e é educador Popular na ONG FASE.

A ribeirinha Sandrielem Vieira é nascida da comunidade de Coroca, no Rio Arapiuns. Soma 20 anos, é universitária na área da educação Matemática e Física na UFOPA. É militante dos movimentos sociais no interior de Santarém. Liderança que realiza serviço Pastoral com a Juventude de sua região, e luta por uma política participativa advinda do coletivo.

Darlon Neres nasceu na comunidade Cabeceira do Marco, no Assentamento Agroextrativista PAE Lago Grande, Santarém-PA. Tem 19 anos, é graduando do curso de Pedagogia. Defensor dos Direitos Humanos, militante dos movimentos sociais, atua na luta em defesa do território e na construção coletiva do Bem Viver. É agricultor familiar e faz ativismo para que as vozes dos povos da floresta ecoem nos espaços de decisão.

Diana Maria é cria do bairro do Uruará, tem 29 anos, é acadêmica do curso Bacharelado em Ciência e Tecnologia das Águas, UFOPA. Atual coordenadora da Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Santarém. Militante dos movimentos sociais e engajada nas lutas em defesa e construção coletiva do Bem Viver.  

Sobre o bem viver, o coletivo explica “O bem viver é inspirado nas vivências históricas de povos indígenas andinos e amazônicos. A essência do Bem Viver é comunitária, sustentada pela diversidade cultural e um profundo respeito a todas as formas de vida, e assegura os projetos coletivos de futuro, baseados na dignidade, justiça social e ecológica”.

Em tempo marcado por nuvens cinzas de um governo de morte, que a todo momento anuncia um novo dano, é pra lá de bem vindo o puxirum da rapaziada, que bem conhecem as ruas e os rios das quebradas da cidade.



Reconhecimento internacional: Alessandra Korap Munduruku é laureada com prêmio internacional em defesa dos Direitos Humanos



A notícia chegou durante uma reunião virtual com membros da ONG Robert F. Kennedy, sediada nos Estados Unidos: Alessandra Munduruku, líder indígena, havia sido escolhida para o prêmio de Direitos Humanos, dado pela instituição há 37 anos. Ela é a primeira brasileira laureada. Leia a íntegra no site DW

domingo, 18 de outubro de 2020

Para conter o avanço da institucionalização da necropolítica

O professor de Geografia da Unifesspa analisa a conjuntura baseada em exportação de produtos primários, e a indica como um dos vetores de expansão do fascismo do país 

Por Bruno Malheiro

 


Há dois anos, após o fim do primeiro turno das eleições de 2018, ficava desenhada para nós uma geografia do fascismo no Brasil, pela impressionante semelhança de dois mapas: o da votação do atual anti-presidente que nos governa e o da expansão de commodities, como a soja, o milho, entre outras! Tínhamos ali a exata noção que a expansão do capitalismo de fronteira é, também, de um gosto musical, de um sabor, de um modo de se vestir e se comportar, enfim, de um modo de vida violento e absolutamente refratário à diferença!

 

A expansão do fascismo no Brasil, portanto, tem tudo a ver com a expansão aviltante das commodities no campo, assim como também tem a ver com a banalização da violência e a expansão do mercado da morte pelas milícias nas cidades! A geografia do fascismo coincide com uma certa geografia da destruição da experiência. Parece mesmo que a tempestade do progresso realmente nos levou à catástrofe, como já havia alertado Walter Benjamin, como um “aviso de incêndio”!

 

Passados dois anos, novas eleições, agora municipais, e vivemos o momento de consolidação da institucionalização da necropolítica, que iniciou sua escalada de corrosão de todas as instituições democráticas brasileiras, nas fatídicas eleições de 2018. De lá pra cá, mais de 150 mil mortes (que podem ser colocadas na conta desse governo negligente e absolutamente irresponsável) e todos os nossos biomas ardendo em chamas, não foram suficientes para uma mudança na percepção política geral! Pelo contrário, a subjetividade fascista parece se alimentar de morte, fogo e destruição, e não é que os candidatos que representam o necrocapitalismo que se instituiu pós-2018, ainda têm força na maioria das nossas cidades, basta vermos os 118 políticos com multas ambientais que disputam prefeituras na Amazônia, segundo levantamento da agência pública.

 

Estamos diante da possibilidade real de consolidação do que se iniciou em 2018, o que fica bem claro quando as quatro principais bancadas, que expressam bem nosso capitalismo rentista de morte, a dos bancos, a da bala, a do boi e a da Bíblia (isso para não falar da bancada da bula que vem se consolidando pela influência dos laboratórios farmacêuticos na política institucional), lançam seus candidatos!

 

De forma diferencial, cada bancada se dissemina no territorio a partir de uma racionalidade que lhe é própria: a bancada dos bancos, que se nutre da destruição de todos os bens públicos e/ou coletivos, se vê mais presente nas nossas maiores metrópoles, que são nossos centros financeiros, e haja campanha financiada; a bancada da bala, que se nutre do mercado da morte e da exploração rentista das periferias, segue os índices de violência, geralmente em grandes e médias cidades; a bancada do boi, que ganha com a renda da terra, a renda mineral..., alimenta-se de um patrimonialismo político que, em alguns casos, está consolidado em grandes cidades, mas é bem comum em pequenas e médias; e a bancada da Bíblia, rentista como as outras, surfa no mercado da fé e parece se pulverizar seguindo os rumos de influência geográfica das igrejas que representam!

 

Mas todas essas bancadas têm nome e número que podemos identificar, seja quando formos votar para prefeito, seja para vereador.

 

Segundo um levantamento do início de 2020 do Congresso em Foco, são os partidos abaixo listados, com seus respectivos números e porcentagem de fidelidade a esse governo genocida, que formam a base do nosso necrocapitalismo:

 

19- Podemos (92%);

51- Patriota (90%);

17- PSL (85,4%);

45- PSDB (81%);

14- PTB (78%);

20- PSC (78%);

15- MDB (77%);

25- DEM (77%);

23- Cidadania (74%);

22- PL (74%);

55- PSD (74%);

30- Novo (71%);

11- PP (67%); e dá pra colocar mais gente nessa lista:

90- PROS;

70- AVANTE.

 

Sabemos que existem diferenças e particularidades locais dos partidos, mas, convenhamos, devemos desconfiar de qualquer candidat@ que continue em tais legendas, depois de tanta desgraça desse desgoverno, mesmo aceitando pouquíssimas exceções ainda dignas!

 

Não bastasse o atrelamento ao bolsonarismo, a força de muitos desses candidat@s do necrocapitalismo, também se constrói com o jogo sujo das fake news e pelo seu atrelamento ao consórcio de mídia hegemônica torpe que só se afunda mais ma lama, vide o cancelamento de quase todos os debates à prefeitura de São Paulo, após o crescimento da chapa Boulos/Erundina, os ataques virtuais a Manuela D’Ávila em Porto Alegre, e as muitas Fakes News já inventadas contra candidatos que se posicionam no outro extremo político desses grupos, como as já inventadas contra Edmilson Rodrigues em Belém.

 

Diríamos, então, que votar nessas eleições tornou-se um ato para barrar a disseminação da geografia do fascismo! Temos ferramentas para avaliar se os candidatos fazem parte dessa engrenagem de morte, e será uma opção de cada um e cada uma votar ou não nessa máquina de moer gente!

 

Até porque várias são as candidaturas que não apenas se colocam na contramão dos representantes do necrocapitalismo, mas apresentam ideias que conseguem conviver com a democracia, e nunca foi tão fundamental ouvir, participar e interferir na política como agora, além, lógico, de votar em quem consegue conviver com as diferenças, para defender o que ainda nos resta de dignidade democrática. E nessa direção, o aumento das candidaturas de indígenas, de lideranças populares femininas e as candidaturas coletivas são um alento!

 

A força dos movimentos sociais, das feministas, dos indígenas, das lutas populares ainda encontra espaço em candidaturas contra à barbárie, e precisamos procurá-las no meio de tanto lixo e esgoto.

 

Estamos enfrentando a catástrofe e, se em 2018, estávamos entre a democracia e o fascismo (e escolhemos o fascismo), 2020 deixou ainda mais claro as consequências de nossas escolhas, agora, não que antes não fosse, é vida ou morte. Em meio ao colapso metabólico e o genocídio da pandemia, não é possível continuar escolhendo a morte e o fascismo!

 

Para não acabar essa reflexão sem uma posição clara - e se ainda importa a posição de um professor, nesse mundo que prefere notícias falsas a qualquer análise mais séria - eu sou Edmilson Rodrigues 50 em Belém, cidade que nasci, Rigler 50, em Marabá, lugar que moro, além de nutrir profundo respeito a Guilherme Boulos 50 em Sampa e Manuela D’Ávila 65 em POA. E não esqueçamos que só se governa com uma câmara de vereadores séria, então, é preciso evitar os partidos que formam a base da nossa desgraça e dar chance aos partidos que ainda carregam dignidade democrática! 

 

Sabemos que a política partidaria tem muitos límites, por isso preferimos as forças instituintes, que vêm das lutas dos povos, às instituições e seus vícios. Mas também sabemos como uma eleição pode interferir na nossa vida, por isso, não dá para ser negligente, nem por radicalismo bobo, nem por radicalismo pseudoesclarecido, precisamos devolver aos esgotos as forças milicianas que nos governam e juntar forças para instituir caminhos alternativos, capazes de inverter prioridades, democratizar os processos decisórios, caminhos que estejam não na vanguarda, mas na retaguarda de quem efetivamente inventa um mundo novo na sua persistência pela vida!

 

#ForaBolsonaro

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Nos bailes da vida, Angelina, a filha de Juazeiro, soma sete décadas de existência

Em Marabá desde o fim dos anos de 1970, a  educadora militou  Escola Liberdade, na Escola Paulo Freire, MEB, SINTEPP e Cepasp

Arquivo da família

Figura de Barca (Carranca) é feita pra espantar maus espíritos, ensinam os antigos filhos nascidos às margens do Velho Chico, na ilharga da Bahia, lá pras bandas de Juazeiro. Figura de monstro. Cara de dragão, cavalo ou leão. Arte do Mestre Guarani.

Carranca na proa e a fé em Bom Jesus da Lapa protegem no navegar. O enfrentar os rios da vida, as ameaças, as guerras, as nuvens autoritárias. Espantar o Negro D´água, o Caboco D água e o Minhocão. Os encantados do rio.

O rio é a vida do lugar.  Pai e mãe de famílias a perder de vista a renca de filhos. O pescador João e dona Pedrina não desmentem a prosa. A bulinar sob a lua e o céu de estrelas fizeram uns 10 barrigudinhos.  

Do mote de menino a Angelina é a quarta. Em andanças em oposição à correnteza do rio formou-se em Engenheira Agrônoma.  Só quem nasceu na algibeira do aperreio sabe o quanto é motivo de festejo ver um filho formar.

E quando a menina/o é rebarbada/o e faz duas faculdades então...lá na outra margem do rio Angelina cismou em fazer Biologia. Petrolina/Juazeiro, Juazeiro/Petrolina. A ponte. O vapor. Vai e vem. Todas duas umas coisas lindas.  

Anos de 1970. Anos de ditadura. A copa do mundo de futebol transformada em pingente de oficial. Euclides já disse: “O Nordestino é antes de tudo um forte”. Sertões. Preá. Calango. Trecho.  Migrar por dias melhores é sina de parente.

Angelina correu Piauí. Defendeu-se em função no Incra e na Secretaria de Agricultura. Em 1978, Copa do Mundo de Futebol da Argentina, se aprochegou com Raimundinho para nunca mais se apartar.   

Idas e vindas. Vazantes e cheias. A vida. O rio. O mar. A poeira. A estrada. Marabá. Amazônia. Rodovia. Distante lugar. Meio do mundo. Meio do mato. Lugar de vida. Lugar de morte. Outro rio. Castanha. Onça. Ouro de tolo. Raul. Encontros. Desencontros.  A fronteira é faculdade sem parede.

Nas lonjuras de casa Ana Luiza foi a amizade primeira. Amizade no trecho é valendo. Valentia.  Os laços foram feitos na Escola da Igreja Batista. Em Nova Ipixuna, na época um puxadinho de Marabá, sucedeu o casório oficioso. Em Ipixuna Raimundinho fazia um troco em atividade de topografia.

Em 1981 veio ao mundo o rebento primeiro, João, dois anos adiante apeou o Thiago.  E, em seguida caiu no colo da família a Das Neves, juntinha com a Jane. Anos de 1980.  Aridez na selva. Anos de violações contra indígenas e camponeses. Naturalização de mortes. Mortes aos montes. Impunes em sua maioria.

Anos de peleja no Movimento de Educação de Base (MEB), outras amizades, a Jaide, Júlia Furtado, Nagila e tantas outras. Nestes tempos forjaram o Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp), e em definitivo sentou praça nas fileiras da educação. Embrenhou-se em lutas pela educação, moradia, e coisa e taus, Laranjeiras, Liberdade. A fronteira é faculdade sem parede.


Na atividade

O Nordestino antes de tudo é um forte. Depois de anos de escola cismou em cursar Matemática. Ainda hoje, prestes a somar sete décadas de existência, mantém vínculo com a escola. O jeito de falar da Bahia carrega até hoje. Aquele jeito desaperreado.  Sem agonia. “Raiiiiii....cadê tu?”

Lindo caminhar se faz no caminho. Angelina pelejou na Escola Liberdade e na Escola Paulo Freire. Enfrentou junto com outras professoras a perseguição de prefeitos por militar no PT. Tempos idos. Ao lado Julia Furtado, Maria Vieira e Jaide labutou por mais de década na sub sede do Sintepp.

A fronteira é terra de migrantes. Outro dia a filha de Juazeiro foi reconhecida como cidadã marabaense.

Na Bahia, com os familiares

“Peixinho”, o professor e poeta João Martins é o único irmão que tem como vizinho em terras distantes do Velho Chico. Dinalva, outra parente, habita o Peba faz mais de 20 anos.  Jailson (Caião), um sobrinho, pelos idos do começo dos anos 2000 aportou em Marabá. Nas encruzas da vida fez uma opção equivocada, e encontra-se noutro plano. 

Tenho dito, a fronteira é faculdade sem parede. Em casa de Angelina nunca faltou um lugar para armar a rede, um gole de pinga, um prato de comida, prosa, amizade.

As Brigadas Populares e atividades na Comuna Cepasp animam os seus dias de militante, e três netos, os momentos de afeto. 

Em casa de Angelina e Raimundinho é bem vindo o peão do trecho, o moribundo, o poeta, o cantor, o contador de causo, o doutor em porra nenhuma. Sabença de quem enfrenta a correnteza desfavorável dos rios da vida com a força das carrancas do Velho Chico, a fé em Bom Jesus da Lapa e a solidariedade dos pares. Axé!!!

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Mulheres Amazônidas: indígenas e quilombolas protagonizam chapa coletiva em Santarém-PA.

 A defesa do território e os direitos da mulher são as principais  bandeiras da chapa coletiva Mulheres Amazônidas 

À esquerda, Alessandra Caripuna, ao centro Claudiane Lírio (cabeça da chapa),  à direita Tati Picanço, e sentada Luana Kumaruara,

Imagina ser mulher num país que possui cravado em seu DNA o gene do machismo. Imagina ser negra ou indígena num país desavergonhadamente racista e feminicida.  Como se diz pelas paragens do Pará, PENSE em ser mulher, negra ou indígena, com filhos, por consequência, fazer parte da classe trabalhadora, e se meter em Política...

Já calculou quantos obstáculos, barreiras e outros infortúnios a enfrentar no conjunto da sociedade, e muitas das vezes no seio da própria família quando se exerce a consciência de classe e investe em construir muralhas em defesa de seus direitos num ambiente minado em suas raízes por profundas desigualdades e um Estado autoritário e violento?

Agora, querida/o tente visualizar quatro mulheres, sendo duas negras e duas indígenas, no interior da Amazônia, a se rebarbar numa candidatura coletiva com vistas a exercer a vereança em uma quebrada marcada por uma agenda desenvolvimentista que ameaça a existência dos seus territórios ancestrais?

Pense nas pelejas das meninas filiadas ao PSOL, cuja agenda reside em defesa de seus territórios e outros direitos em viver de forma plena em uma arena política controlada/hegemonizada por homens brancos, muitos deles provenientes do Sul do país, “homens de negócios” da cadeia do agronegócio, e outras iniciativas à cadeia relacionadas, como a construção de obras de infraestrutura, consultorias, etc?

É desafio para mais de metro, e quando a gente conta a prosa, até o burro do carroceiro chora.  As meninas do Brasil moram em Santarém, cidade irrigada pelos caudalosos rios Amazonas e o Tapajós. A água de um é barrenta, enquanto a outra carrega em azul. Terra de sociedades complexas dos ancestrais indígenas, e em seguida, do povo negro.

Os sinais da presença ancestral constam em todo canto. Apesar das tentativas de apagamento. Aldeia é considerado um dos bairros mais antigos, e com maior extensão territorial da cidade. Lembre-se: Santarém é uma grande sítio arqueológico.  Território indígena. 

O bairro é uma das expressões da presença ancestral, bem como o pujante artesanato produzido a partir dos mais diferentes suportes: cabaças, miçangas, fibras naturais, escamas de peixe, o próprio peixe. Nas feiras, óleos e outras essências são facilmente acessados. Sabença milenar. Já que estamos em tempo de Círio, a maniçoba é cria nativa. É coisa de índio. 

À beira dos rios, muitas das embarcações resultam da engenharia da sabedoria do caboclo em selecionar a madeira mais adequada.  Tem ciência!.  Ligue-se, para o festejo, roda de carimbó, a dança circular, que celebra a igualdade, as riquezas naturais, a sabença do povo antigo, a lua e o amor.

Terra de encantados, como o muiraquitã. Terra do bravo povo mundurucu, que recentemente teve a luta de uma de suas guerreiras laureadas com o prêmio internacional de defesa dos direitos humanos, Alessandra Korap.

O Baixo Amazonas é terra de cabanos, onde a comunidade de Cuipiranga é considerada por especialistas como a derradeira frente de resistência a ser sufocada.

É deste rico solo/rios/florestas  que brotam as meninas do Brasil combativo. A Alessandra Caripuna é filha da comunidade quilombola de Pacoval, município de Alenquer. Formada em Administração é uma das principais referências femininas do movimento negro em Santarém. Caripuna é mãe de  Zinquê. 

No campo da educação atuou na Coordenação de Educação e Diversidade Etnico-Racial, da Secretaria Municipal. Nesta frente mandava a letra na formação para as equipes escolares, visando a construção de uma educação anti racista.

Mulher é bicho danado. Bate o tambor, canta e roda a saía. Caripuna faz parte da coordenação da Semana da Consciência Negra em Santarém desde 2011, em momentos de “repouso” (entenda a ironia) ocupa o front como comerciante da grife Afro Negrices Caripuna, e a partir dela anima desde 2017 a Feira de Afroempreendedores Kitanda Preta em Santarém Pará. 

Como reconhecimento de suas pelejas em 2018 foi homenageada pelos acadêmicos negros da UFOPA, onde batizaram o coletivo como “Negro Alessandra Caripuna”. Uma espécie de centro acadêmico.

A UFOPA é considerada a universidade do Brasil com o maior contingente de negros e indígenas, numa relação que não é nenhum rio de rosas.

O movimento estudantil serviu de berço para os primeiros passos políticos de Tati Picanço,  que em seguida integrou o Grupo de Consciência Indígena (GCI), onde é ativa até os dias de hoje, com trabalho junto às mulheres indígenas e no fortalecimento do departamento de mulheres do CITA. . 

A estudante de Antropologia da UFOPA faz parte da Frente em Defesa da Amazônia, e colaborou na fundação do coletivo feminista “Rosas de Liberdade”.  Picanço é do povo Caribe. A mãe de três mulheres combate a violência doméstica e atua pela humanização do parto. 

Luana Kumaruara é liderança indígena no Baixo Tapajós. Mãe de Yara e Kauê. Por três anos atuou no Conselho Distrital Saúde Indígena Guamá Tocantins - CONDISI DSEI GUATOC. Milita junto ao Departamento de Mulheres do CITA (Conselho Indígena Tapajós Arapiuns).  Na Universidade Federal do Pará (UFPA) cursa o mestrado em Antropologia, e participa do projeto Mãe D´Água, que propõe organizar vigilância do território Kumaruara.

Na produção de conhecimento sobre o seu povo integra o grupo de pesquisadoras Amazônidas "Cartografando Saberes", composto por mulheres indígenas e negras intelectuais e integra ainda  a ABIA (Articulação Brasileira de Indígenas Antropóloges). 

Assim como a Caripuna, ela foi homenageada por colegas que nomearam o Centro Acadêmico de Antropologia da Ufopa como Luana Kumaruara, por ela ser a primeira indígena a se formar no curso.

“Nós somos mulheres preparadas e decididas, e estamos aqui por uma democracia popular. Eu acredito que a Bancada de Mulheres – Vozes Amazônidas é uma virada de chave. Nós mulheres somos a nova estética política, viemos para ocupar o nosso lugar. Surara!”, defende, Luana Kumaruara.

O poeta entoaria, “mulher tem nome de flor”, a cabeça da chapa tem flor no sobrenome. Trata-se da Claudiane Lírio. A estudante de Ciência e Tecnologia da UFOPA integra a Federação das Organizações Quilombolas de Santarém (FOQS), por cinco anos fez parte Conselho Municipal de Saúde, e é ativista há mais de duas décadas. 

Lírio defende que nesta encruzilhada civilizatória em que vivemos é o momento adequado para os povos originários, e em particular as mulheres tomarem assento na política. Com relação ao começo do debate sobre formação da chapa coletiva, as ativistas explicam que o conjunto de movimentos já vinha refletindo sobre a possibilidade, e que ela se concretizou a partir de uma prosa sobre o tema. 

A chapa das Mulheres Amazônidas não é a única a ser apresentada pelo Psol, noutro campo, a chapa do Bem Viver, tem a mesma perspectiva.  Com relação de mulheres  do campo popular no legislativo de Santarém, em 2012 a trabalhadora rural Ivete Bastos (PT) exerceu uma legislatura.  Bastos é dirigente do Sindicado de Trabalhadores Rurais. 

Como diz a canção de  Bárbara Zidome; " 

Toda mulher já nasce sabendo o que quer/Nem toda mulher é menina/Encara esse mundo de frente/Valente ou então Valentina. 

Com informações da chapa Mulheres Amazônidas

Você pode doar de segunda a sexta, através da conta da bancada: 
Banco do Brasil- 
Ag- 0130-9 C/C 114.448-0 ou 
C/P 510.114-3
Claudiana Sousa Lírio. 
Cnpj: 38.774.073/0001-03


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Prosa de feira

Prosa de feira não requer pressa. Exige paciência no ouvir as sabenças dos mais velhos. Os desaperreados em mundo marcado pela agonia do tempo ligeiro. Papo de feira é samba miudinho. Riscado com os pés no chão. Rosto coladinho.  É o perder das horas.  É o achar do riso do causo contado com a mais profunda convicção de fato testemunhado. 

Ainda que inventado, vale a versão derradeira. Remodelado pelo passar de boca em boca em outras feiras, mastigado em puteiros de currutelas, assobiado em bares desprovidos de estrelas, botequins sem tramelas.

Sob um calor de uns 40º, na feira da 28, em Marabá, um conviva mandou a letra sobre macacos com malária. Tudo sucedeu nos anos de 1980. O pai do cabra operava na frente de desmatamento, técnica batizada por especialistas como supressão vegetal. Um mimo.

“No some home os macacos tremiam de tanta febre que não conseguiam trepar nas árvores”, conta ele, que estufava o peito coberto pela camisa do Paysandu, que acabara de levar uma peia do Remo, 3x2,  placar final.

Tempo de floresta. Tempo de onça. Some home era uma denominação dada ao local onde era comum a presença delas. Mas, também, local de execução de castanheiros que operaram na floresta para oligarquias locais na coleta de frutos.

O trecho nos anos de 1980 era bem agitado. Garimpo de Serra de Pelada, edificação da barragem de Tucuruí, ferrovia de Carajás, siderúrgicas, carvoarias. O comum era o peão correr em várias frentes. Obras, fazendas, garimpos, pistolagem, alguns filiados na luta pela terra.

Um dos proseadores é natural das Gerais. Fez boa parte deste percurso labiríntico de sobrevivência na fronteira distante. Correu Tucuruí. Sabe das tramas da Rua do Escorre Água, das malárias e cloroquina, do DDT, de nuvens de carapanã, dos servidores da Sucam.

Ainda hoje um causo é rememorado. Segundo a lenda, nestes dias, quando alguém com camisa com botões aportava na cidade, os macacos acometidos por malária pulavam sobre o visitante à caça dos botões calculando que era comprimido de cloroquina.

Áridos anos de1980. O desmatamento fazia festa. A ordem residia nesta prática. O civilizar assim era entendido. E, a partir de tal angulação, a floresta cedeu lugar aos bois, às rodovias, às hidroelétricas, à ferrovia, às fazendas, às siderúrgicas e às mineradoras. Coisa capital. 

Perdi o pai de malária no trecho de Ourilândia, Tucumã, conta um dos senhores. Naqueles tempos a viagem durava dias. Tudo era mato. Bagulhos puxados pelas tropas de burros.  A malária arrebenta o fígado. O peão é obrigado a ficar sem tomar álcool. Desprovido de álcool na fronteira é provação divina. 

O pai do rapaz foi desmatar para projeto de mineração. Onça Puma.  Hoje, sob controle da Vale. Parada de níquel a expropriar camponeses e indígenas. A treta tá na justiça.

O estranho se fez presente em terra de ancestrais indígenas. Gavião, Xikrin, Kayapó, Parakanã e Suruí cantavam aos deuses pela terra que um dia abrigou mognos e castanheiras.

A mata sucumbiu devorada pela gula do grande capital com endosso federal. Com as matas, vão-se as lendas, os encantados, a sabença ancestral. Os meninos de hoje desconhecem as mandingas do curupira, do boi tatá, da cobra Norato e da mãe d’água. Menos ainda sabem de causos.

Patentes, coturnos e gandolas era a “ordem’ do dia. Ao espiar os diários eletrônicos atuais, tudo soa como uma grande ironia.

Domingo. Dia de feira. Pamonha. Milho verde. Prosa. Cerveja. Bunda de mulata. Muque de peão

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O matriarcado em que fui criado fica mais acanhado hoje, a professora Socorro (Didi/tia) partiu

 

Didi (Socorro/tia)  e Edinete (avó) 


Socorro, Graça, Roselys, Maria e Delza. Mulheres do Nordeste. Mulheres do Maranhão. Um matriarcado pesado. Todas elas vinculadas à educação. Exceto Graça, que era dona de casa, desposada por um professor.  

A solidariedade e o companheirismo serviram como guia. Riram e choraram juntas. Festejaram, tomaram umas, cozinharam e compartilharam a comida juntas. Às crianças não era permitido ficar perto da cozinha no momento do preparo do rango.

Aos domingos o porco era sagrado. Quando faziam vatapás e carurus, ou outras iguarias de macumba, aquelas que demandavam quiabo, lembro que ficava à espreita para comer as sementes. Hábito que perdurou por longo tempo. Quiabo é iguaria de Xangô. Somente agora compreendo a relação. sempre considerei aquela semente saborosa. 

Elas sempre se irmanaram. Delza e Maria são irmãs de sangue. As demais são primas.  No entanto, era como se irmãs fossem desde sempre. Mulheres  unidas pela condição de independência. Rebarbadas, diriam os machistas. Todas com filhos, ocupando postos de trabalho, a enfrentarem toda ordem de barreiras e preconceitos. Obstáculos  de todos as formas, em todos os cantos. Na rua, no local de trabalho, na Igreja, etc. 

Socorro era professora de Português. Militou nas redes públicas do município, do estado e no Colégio Universitário da UFMA.  Trabalhava em todos os horários para criar três rebentos. Dois meninos e uma menina: Leopoldo, Janilson e Neta. Morava no Planalto Pingão. Depois vieram os netos, em seguida   bisnetos. 

A gente se virava na fronteira da Camboa/Centro, rua da Viração, no perímetro da Silva Jardim e a Celso Magalhães. Pertinho da Caema.   Visitar a tia/avó Edinete no Planalto representava uma aventura. Preparo de uma semana. O cheiro do combustível do busão provocava enjoo.

Edinete devotava uma cerva. Era enfermeira de um hospital do Bairro de Fátima. Quebrada de festa. Creio que era no Hospital de nome Riod.  Edinete era a mãe de Socorro.

A extensa jornada de trabalho causou na tia problemas de audição. Horas a fio em sala de aula. O problema  fazia com que ela sempre falasse como se em sala de aula estivesse. Educar é puxado.  Uma educadora do tempo do giz de louça, nada recomendável para um pessoa afetada por asma.  

A tia sempre dizia que eu não poderia contrair matrimônio sem antes ajudar mainha. Sempre mandava a letra: “a sua mãe, assim como as outras, sempre trabalharam muito para criar vocês. Antes de qualquer coisa tens de ajudar a sua mãe. ” 

Decepciono. Nunca tive o suficiente para retribuir como deveria todo o penar de uma mãe solo em plena década de 70. Elas passaram pela ditadura, hiperinflação e recessões. 

Não lembro do envolvimento de nenhuma delas na política partidária. Mainha sempre contava as histórias de Maria Aragão e de William Moreira Lima. Rememorava as perseguições da “puliça”, as prisões. Ambos eram médicos e militantes do Partido Comunista. Vez em quando falava do poeta Ferreira Gullar e da família dele. O clássico Poema Sujo imortalizou a quebrada onde fui criado. Gullar nasceu na Viração. 

O matriarcado definha. Graça partiu de forma precoce. Creio que com menos de 50 anos. Já tem tempo. Eu não morava mais em São Luís. Em seguida partiu Roselys. Era elegante. Uma negra esguia. Fala mansa. Era crente. A única da tropa. Mas, não chata. Era desprovida da missão em converter os parentes. Sempre a rir dos impropérios de Maria, a mais desbocada, mãe de cinco filhos.  

Do matriarcado original, sem citar as outras tantas tias postiças, restavam Delza, Maria e Socorro. Era comum elas comungarem um rango, uma cerva, risadas, dores de barriga, descaminhos de filhos e netos, amores e desamores, lembranças de quando jovens, aventuras do Centro da cidade, do Anjo da Guarda, do bairro Fátima e do Anil. . 

Socorro partiu hoje. Era a que mais frequentava o hospital. Inúmeras cirurgias no front de batalha. A beirar os 90, restam Maria e Delza. A teimar. A enfrentar uma pandemia presas em casa. Separadas,  não por bira, que nessa idade....ohhhh

Ah, Valter, o tio  de sangue é o bendito fruto neste time da pesada de mulheres. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Unifap concede título de doutor honoris ao jornalista Lúcio Flávio e ao Mestre Sacaca pela defesa da Amazônia

 Manaus (AM) – Lúcio Flávio Pinto, um dos jornalistas mais prestigiados do Brasil e colaborador da agência Amazônia Real, receberá o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Amapá (Unifap). A honraria é um reconhecimento do meio acadêmico ao também sociólogo e pesquisador que há décadas dá voz aos povos tradicionais, seja denunciando os crimes ambientais, seja por seus estudos e pelo profundo conhecimento da região amazônica. Receberá a mesma homenagem, de maneira póstuma, Mestre Sacaca, como era conhecido Raimundo dos Santos Souza, um dos maiores conhecedores da medicina tradicional da Amazônia. Leia a íntegra no site Amazônia Real. 

A encruza desenvolvimentista: Santarém, Altamira e Marabá

Santarém, Altamira e Marabá uma triangulação de conflitos 

A depender do clima, a viagem entre Santarém, oeste do Pará, à Marabá, sudeste do estado, toma aproximadamente 24h, o corre em sua maior parte ocorre pela desafiadora Transamazônica. A rodovia é uma criação do estado de exceção (1964-1985). A estrada que remodelou o processo de colonização na Amazônia, naturalizou a grilagem de terras e outros crimes.

Dos 1.200km, menos da metade possui asfalto. A primeira cidade é irrigada pelos rios Tapajós e o Amazonas, enquanto a segunda pelos rios Tocantins e o Araguaia. O oeste paraense é considerado de colonização antiga, enquanto o sudeste é avaliado como de colonização recente.

Altamira, irrigada pelo rio Xingu, encontra-se no meio do caminho. Lula e Dilma ali ergueram a hidroelétrica de Belo Monte. Um dos maiores crimes contra a diversidade social da região, em particular os povos indígenas.  

Neste trecho Dorothy foi executada, no município de Anapu.  Ele abriga um importante polo de cacau, Medicilândia, em particular. O município é uma referência ao ditador considerado o mais sanguinário, Emílio Garrastazu Médici. Os nomes de algumas cidades representam signos desta época. Brasil Novo é vizinha, enquanto Novo Progresso encontra-se noutro extremo.

Sobre a barragem, não faltaram alertas das ciências sobre a inviabilidade da obra. Um painel independente de especialistas o realizou.  O governo petista fez ouvido de mouco. E, assim, a obra abençoou a fortuna de velhacos políticos, a exemplo de Edson Lobão, um borra botas da família Sarney. O economista Delfim Neto, veterano da ditadura, serviu de consultor. Emaranhadas tramas.

A encruza entre as três cidades polo, Santarém, Altamira e Marabá é complexa.  Grandes projetos desde os anos 1960 remodelam o espaço desta triangulação.

Pelo fato em ter concentrado boa parte dos investimentos das políticas de desenvolvimento baseadas em polos de madeira, de pecuária, de energia e de mineração, o sudeste paraense igualmente aglutina toda ordem de mazelas resultante dos programas.

Nos anos de 1980 a hidroelétrica de Tucuruí foi erguida no rio Tocantins.  Demorada obra e beneficiar poucos. Apesar do estado ser um dos maiores produtores de energia, a população em geral paga uma das taxas mais abusivas do país. Preço de arrancar o rim.

Destacam-se nesta triste aquarela de perdas e danos elevados índices de desmatamento, record em trabalho escravo e a liderança em indicadores de assassinatos e chacinas de camponeses. Por conta de polo de gusa, abatedores e demais atividades, os rios Tocantins e Araguaia encontram-se em situação de calamidade.

Não raro um odor insuportável, em combinação com fumaça de queimadas toma a cidade de Marabá todo fim de tarde.  Com relação à rotina da fumaça das queimadas para o tratamento de pasto das fazendas, ela ocorre, também, sempre ao amanhecer do dia.

Nesta época do ano a Transamazônica é pura poeira.  O que se costuma nomear por terminal rodoviário, neste perímetro, em sua maioria, não passa de mero improviso. Lanches e refeições representam o possível.

Na estrada há três dias, um senhor branco, aparentando uns 60 anos, tem como destino a cidade de Ourilândia do Norte, no sul do Pará. Partiu da região de Sinop, Mato Grosso. Reconhecido território de grilagens de terras. O próprio nome da cidade é uma referência à uma empresa de colonização.

O operador de máquinas  pesadas tem como missão trabalhar em fazenda recém adquirida pelo patrão,  que segundo o senhor, tem como objetivo o cultivo de soja. Ourilândia é território de mineração da Vale, assentamentos da reforma agrária, indígenas Xikrin e pecuária. E, pelo que consta, agora, soja.

O operador de máquinas a todo instante indagava se já estava perto. Como uma ladainha, repetia a todos os interessados que estava na estrada há dois dias. Correu a BR 163, Cuiabá-Santarém, a rodovia da soja. O setor almeja consolidar o oeste do Pará como um corredor de exportação. 

A pedra fundamental foi a construção ao arrepio da lei do porto da Cargil, em Santarém, no início dos anos 2000.  Recentemente um conjunto de portos tomou o espaço do distrito de Miritituba, no município de Itaituba. Tanto num, quanto noutro, expropriar é regra.

Peões e meninas do trecho são facilmente identificados no busão. Ambos costumam viajar em grupo. As meninas exageram nos trajes e maquiagem. Saindo de Santarém no sentido à Altamira, ou o sentido contrário, Rurópolis costuma ser o ponto de descida. Trata-se da quebrada para se tomar outro veículo em direção à Itaituba e Moraes de Almeida. Região de garimpo.

Como diz a canção: o bagulho é doido e a chapa é quente. Exemplo é a garimpagem em terras do povo Munduruku em Jacareacanga, onde a FAB carregou bandidos para audiência com a pessoa que ocupa a cadeira de Ministro do Meio Ambiente. O avesso, do avesso, do avesso....

A turma do trecho não economiza em falas. Rememoram as tretas no derradeiro local de labuta. As aventuras e desventuras no jogo e no amor. Outro segmento são os peões de fazenda, estão sempre munidos de chapéus, botas e exagerados cintos ornados por grandes  fivelas.

Para uma pessoa paciente no exercício da escuta, a prosa não rareia. Um experimentado andante da rodovia, morador de quase todos os cantos onde era possível uma ocupação remunerada, declara: “ Agora andar por aqui tá uma beleza. Tá tudo ajeitado. Já fiquei aqui por uns dez dias. Era esse o tempo para se chegar à Marabá. Aí, o comércio aproveitava e metia a faca em nós. Tudo caro. ”

 Antigos e novos peões e meninas prosseguem na encruza no trecho, às vezes, em busca de dias menos doridos. Um lugar ao sol, nestas paragens, sempre inclemente, untado por fumaça de queimadas e poeira.