Tibico e Fedor dominaram a régua e
o compasso da alfaiataria na Camboa do Mato, em São Luís, ali na ilharga da Rua
da Viração com Silva Jardim e arredores nos idos dos anos 1980. Ambos
eram negros. Um era porrudo e o outro pouquinho.
Em comum, além da atividade como
alfaiates nutriam afeição em atender os clientes desnudos da cintura para cima.
Talvez o inclemente calor explique a opção. Sobre o cós da calça ou bermuda a
samba canção ficava exposta. Geralmente era branca.
Antônio Carlos era o nome de
registro de Tibico. Era encorpado. Sempre andava armado com um riso largo. Os tamancos
sobre a rua de paralelepípedos denunciavam quando o artista da tesoura rumava para
a feira da Liberdade armado como uma cesta de vime ou uma sacola mais resistente.
Antônio Carlos herdou a
habilidade da costura do pai. A prole de Tibico era vasta. Ao menos umas três
meninas e o Junior. A família robusta obrigava que além da alfaiataria o
apaixonado por futebol defendesse um extra como enfermeiro. Seria o contrário?
Era seu Tibico, além do comerciante
Alden, os responsáveis pela aquisição da bola de futebol de praia no bairro.
Toda a tropa da rua era levada para a praia da Ponta D´areia na camionete de
Alden, que além do comércio na Viração tocava outro do Mercado Central. Na cabeça
da ponte do São Francisco era cultural conceder carona.
Seu Alden deve ter ido direto
para o céu, caso ele exista. Era justo na esquina da casa dele que a molecada
resolvia sentar praça toda noite. Era barulho que não acabava mais. Ele nunca
raiou com ninguém. Nem mesmo durante as gritarias mais ferozes após os
clássicos dominicais ou do meio de semana.
As paredes da casa de Tibico eram
recheadas de fotos das crianças. Aqueles quadros clássicos do século passado onde
várias fotos do mesmo rebento tomavam todo o espaço. Umas seis, pelo menos.
Fedor era franzino. Desconheço o
nome de batismo. Esse morava na Viração. A casa fazia frente com a garagem da oficina
da UFMA. Salve engano, ele possuía somente uma filha. Moça estudada. Não dava
confiança para a moçada. Sob sol ou chuva, ela atravessava impoluta com máxima
elegância o corredor polonês dos moleques que tomavam a rua. Fosse ela para o
serviço ou para a escola.
Tibico e Fedor eram os ases indomáveis da costura popular da comunidade. Recordo bem deles no período da farda da escola. Eram eles os estilistas de quase toda a gurizada daquela latitude da Quinta do Macacão e imediações.
A produção das
calças, em particular, era por eles assinada. Assim como as fantasias de
carnaval e mesmo as roupas das quadras juninas. Na Camboa, Liberdade e Diamante
e demais bairros diante da escassez festa abundava.
Em tempos de aperreio e
rareamento de grana, o fiado comia solto. Muitas das vezes não era honrado. Os panos
para a produção de parte das fardas eram adquiridos na Rua Grande, assim como
das demais agendas do ano. Não carecia de tomar transporte até o comércio. A operação
era feita a pé.
Tesouras, alfinetes, fita métrica,
ferro de passar à brasa eram as ferramentas recorrentes dos mal ajambrados estúdios.
Tão precários quanto os ateliês das escolas de samba da segunda divisão.






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