Em 1985, quando do derradeiro projeto da ditadura empresarial
militar, o Calha Norte, a existência
do narcotráfico que plantava, colhia e transformava a epadu (Erythroxylum coca) em
cocaína, a mobilizar recursos financeiros capazes de neutralizar a ação do
Estado constava entre os indicadores do diagnóstico realizado pelos militares.
Assim como: a) o contrabando de minérios e pedras preciosas; b) garimpo ilegal e trabalho escravo; c) conflitos por terra envolvendo indígenas, garimpeiros e empresas mineradoras; e d) forte interesse internacional pela região. Tensões que não cessam. Elementos de permanência mesmo nos dias atuais.
Na década de 1990, o sociólogo Francisco
de Oliveira advertia para as ações em rede que o campo mobilizava para a
efetivação de sua reprodução, a partir de uma tênue fronteira entre o lícito e
o lícito e sombreamentos com a política formal e sobreposições entre as fronteiras
do público/privado.
Deste vasto caleidoscópio realizado na
década de 1980 pelos militares, o geógrafo da UEPA, Aiala Colares, tem se
dedicado há 20 anos a investigar as cadeias mobilizadas pelo tráfico de drogas.
As pesquisas por ele elaboradas o credenciam pela segunda vez como
semifinalista do Jabuti Acadêmico, na categoria de Geografia e Geociências, com
a obra Geometrias de poder do narcotráfico na Amazônia: escalas,
territórios e redes, lançada pela Editora Appris.
Compreendendo o narcotráfico como um
sujeito produtor do território, o autor esclarece que “trata-se de uma pesquisa
complexa, onde é possível identificar um conjunto consistente de conclusões que
reposicionam o debate sobre o narcotráfico na Amazônia, deslocando-o de uma
abordagem estritamente criminal para uma leitura territorial, geopolítica e
multiescalar.”
Entre algumas conclusões, Colares
considera que a Amazônia deixou de ser mera rota do tráfico, para metamorfosear-se
em uma plataforma logística estratégica, articulando áreas de produção nos
países andinos aos mercados consumidores internacionais, especialmente na
Europa e na África, além do próprio mercado interno brasileiro. O que reposiciona
a Amazônia como elemento central, e não periférico, nas redes globais do crime
organizado, crava o pesquisador.
Assim como o diagnóstico elaborado
pelo projeto Calha Norte e interpretações do professor Francisco de Oliveira, o
geógrafo conclui que, “O narcotráfico, não opera de forma isolada, mas
articulado a outras atividades, como o garimpo ilegal, o desmatamento e a
grilagem de terras.”
O ambiente assim estruturado é
compreendido como um verdadeiro ecossistema do crime, no qual diferentes
mercados ilícitos compartilham infraestruturas, rotas e mecanismos de
financiamento, conclui.
Na mesma categoria, além da obra do
professor de Geografia da UEPA, Campus Belém, outros dois livros tematizam a
Amazônia. Um trata sobre sociobieconomia, enquanto o outro problematiza sobre cartografia.
Em 2024, o professor Colares foi
semifinalista na mesma categoria com a obra "Geopolítica do narcotráfico
na Amazônia”, livro também editada pela Appris. No próximo dia 27, o prêmio
anuncia os cinco finalistas. O Prêmio
Jabuti é considerado como um dos mais relevantes do mercado editorial nacional,
concentrado nas regiões Sudeste e Sul do país.
FORMAÇÃO - professor quiilombola, Aiala Colares é Bacharel e Licenciado em Geografia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Bacharel em Direito pela Universidade da Amazônia (UNAMA), possui especialização em Planejamento Urbano pelo Curso de Formação Internacional de Pós Graduados em Áreas Amazônicas (FIPAM), é especialista em Direito Penal e Criminologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS). Mestre em Planejamento do desenvolvimento pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA). Cursou Doutorado em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (NAEA-UFPA). É Pós em Geografia com ênfase em análise regional pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Professor Adjunto da Universidade do Estado do Pará (UEPA) onde atua como docente da graduação e do Programa de Pós Graduação em Geografia (PPGG-UEPA). Coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB-UEPA).






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