domingo, 16 de agosto de 2026

Feira Pan-Amazônica do Livro: uma crônica de Franciorlis Viannza


Frequento a Feira Pan-Amazônica do Livro há cerca de 15 anos, na condição de autor ou de simples leitor, participando da programação, lançando livros, prestigiando amigos escritores e acompanhando os debates na "Arena Vozes do Livro".

Nesse tempo, colecionei anedotas, confraternizações e também alguns episódios tristes. Um deles nunca esqueci.
Certa vez, um escritor paraense me confessou a angústia de estar na Pan sem o prestígio oficial e a divulgação quase sempre reservados aos autores de fora. Do Estande dos Escritores Paraenses, ele assistia à multidão passar atrás de best-sellers, gastando Cred-livro com autores que não estavam nem aí para a Amazônia, enquanto sua banquinha recebia, vez ou outra, a visita de uma carapanã ou de uma mosca.
O desamparo foi tamanho que ele teve vontade de levar seus livros a um corredor central do Hangar e incendiá-los. Talvez, diante do fogaréu, as pessoas e a máquina pública finalmente enxergassem a condição do escritor no Pará.
Ouvi e não julguei. Conheço bem essa sensação de invisibilidade na Pan.
Lembrei dessa história hoje, ao folhear jornais paraenses e encontrar os holofotes voltados à visita de Djamila Ribeiro, autora que já li, respeito e admiro. O problema, evidentemente, não é o espaço dado a ela — merecidíssimo por sinal. É perceber que dificilmente um escritor paraense recebe a mesma atenção para falar de sua obra — seja em eventos desse porte, seja na própria Pan-Amazônica.
Não queremos apagar a luz de quem vem de fora. Queremos apenas que alguma luz também alcance quem escreve (d)aqui.
Nessas horas, dá vontade de ligar para aquele amigo e dizer:
— Se este ano te der aquela vontade de novo, manda um zap. Levo os meus também para engrossar a chama. Provavelmente, não surtirá efeito algum, mas, ao menos, faremos um sarau na delegacia.

Tensões territoriais em Alcantara/MA entre quilombolas e a base de lançamento de foguetes: curso de Antropologia da Ufopa promove debate sobre o tema

 Em 2025 o Estado Brasileiro foi condenado em corte internacional por violar os direitos humanos das populações quilombolas do município



Ocorre amanhã, 17, a partir das 9h, no auditório Wilson Fonseca, na unidade Rondon, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), a conferência sobre a cidade de Alcantara, no estado do Maranhão perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos.

O quilombola e professor Davi Pereira Júnior, professor do Programa de Pós-Graduação em Cartografia Social (PPGCSPA), da Universidade do Estado do Maranhão (UEMA) será o palestrante.  A iniciativa é do curso de Antropologia da Ufopa, em particular da professora Juliene dos Santos, igualmente quilombola.  

A cidade de Alcântara

O monocultivo de algodão no século XVIII conferiu singularidade econômica e política ao município de Alcantara, no estado do Maranhão. A antiga aldeia Tapuitapera entrou em colapso com a consagração da abolição de escravos e a alteração do cenário de mercado de algodão.

Localizada no litoral ocidental do estado, a baia de São Marcos a separa da capital de São Luís.  Cogita-se que a cidade abrigue pelo menos 150 povoados integrado por populações de remanescentes de quilombo.

Notória pelo acervo colonial e a festividade do Divino Espírito Santo, realizado entre os meses de maio e junho e mais de 300 edificações coloniais em 1948, a cidade foi reconhecida como Patrimônio Nacional após tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O município considerado um museu a céu abeto volta à cena mundial nos anos 1980, ainda durante a ditadura empresarial-militar, quando o governo decide em instalar na cidade tipicamente povoada por remanescentes de quilombo, uma base de lançamento de foguetes espaciais, o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA).

A decisão promoveu a expropriação das populações quilombolas, privando-os de terras para produzir e de acesso a recursos hídricos. O embate entre as populações locais e o Estado persiste desde então.  

A instalação do projeto privou centenas de famílias de pescadores, agricultores, marisqueiros, extrativistas e   artesãos de garantia de sua reprodução econômica, política, social e cultural.

Tensões que são reativadas conforme a alteração do governo em inúmeras tentativas em turbinar a iniciativa, a exemplo de efetivar convênios com países estrangeiros, como foi o caso com a Ucrânia e os Estados Unidos.

Em 2025, o Estado Brasileiro foi condenado em corte internacional por violações de direitos humanos contra as populações quilombolas. Saiba mais AQUI