O professor e dirigente do MAM alerta para novo ciclo de expropriação a partir da exploração de minérios raros
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Estrada de Ferro de Carajás. Piquiá de Baixo, Açailândia/MA. Foto: Marcelo Cruz
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Em
setembro de 2026, a Lei Kandir, que leva o sobrenome do político paulista, à
época deputado federal por São Paulo, completa 30 anos. Assim como o ano
passado, 2025 completou a mesma idade a quebra do monopólio estatal de pesquisa
e lavra do setor mineral e, em 6 de maio de 2027, será o aniversário de 30 anos
da venda do modelo mineral brasileiro em forma de empresa, a privatização da
CVRD, que hoje tem apelido público de VALE S.A. Para qualquer político do status
quo, implodir o patrimônio público foi necessário para gerar superávit
primário, reservas estratégicas e equilíbrio da balança comercial.
Junto
a tudo isso, imposição de segurança jurídica aos capitais, financeirização da
economia e um setor que age de maneira incontrolável na economia, na natureza e
na sociedade é o que restou, e de maneira presumivelmente intermináveis rodadas
de precificação de natureza no esquadro de minerais críticos e estratégicos à
transição energética. Ajustar pelo Estado a economia de mercado, aquilo
que o mercado não conseguiu fazer, ganha nova arquitetura para que o rentismo
continue a desbancar um projeto de nação e deixemos ainda mais de controlar os
bens minerais da sociedade brasileira.
Confira
a entrevista com Charles Trocate, que é integrante do Movimento pela Soberania
Popular na Mineração -MAM e professor visitante na Universidade Federal da
Bahia-UFBA. Ele fala sobre o significado e os limites da criação da empresa
estatal TerraBrás, com implicações profundas aos territórios sensíveis do país
e da própria vertigem do modelo de minerar organizado de fora para dentro, que
nos desmonta pedaço a pedaço. Além da crítica contundente a este movimento do
capital travestido de boas intenções, deve haver saída, é o que ele propõe
nesta conversa.
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Furo: Charles Trocate, o que está acontecendo, onde o rio é mais profundo neste
debate que se apresenta como polêmica?
Charles
Trocate: Enquanto o governo Trump pressiona por acordos assimétricos para
garantir minerais críticos (lítio, nióbio, entre outros) à transição energética
dos EUA, o discurso de soberania do presidente Lula soa como ironia perversa,
mesmo estando certo em vocalizar as contradições com o governo Trump. Mas, na
prática, o Brasil reforça sua posição de fornecedor de matérias-primas: o
governo de Goiás, por exemplo, fechou parcerias com empresas norte-americanas e
foram longos três anos para o acordo se viabilizar (2023-2026) para extrair
lítio, níquel e cobalto em 124 mil hectares — sem exigir processamento local.
Outras
informações dão conta de contrato entre MME e empresa americana para fazer
levantamento geofísico dos minerais para estipular plano de negócios sobre este
novo catálogo de minerais à disposição de investimentos. E, dessa forma, se
criada como está, a TerraBrás consolida essa submissão geoeconômica. Seu modelo
de partilha (Art. 8º do PL 1754/2026) entrega jazidas estratégicas a
transnacionais, mantendo a CFEM em 3,5% e ignorando o exemplo chileno, que
entrou em vigor em 2024, em que a média é 12%.
O
parlamentar proponente do PL, os parlamentares que subscreveram, o burocrata ou
técnico auspicioso sabe muito bem do que se trata; não é por acaso ou
ingenuidade a proposição dessa magnitude.
A
“estatal soberana” é, na verdade, um projeto de espoliação colonial. O PL
altera o Código de Mineração (1967) para implantar partilhas lesivas, enquanto
minérios fundamentais para tecnologias — como o nióbio (18% das reservas
mundiais) — são exportados brutos em 90% dos casos, sem gerar indústrias ou
empregos qualificados. Enquanto isso, na Australia, Chile e Peru tributam
mineradoras entre 12% e 15%, mas aqui subsidiamos lucros bilionários com uma
alíquota medieval.
O
projeto destrói patrimônios públicos estratégicos: ao anexar o Serviço
Geológico Brasileiro (CPRM), a TerraBrás privatiza dados de R$ 2,8 bi/ano em
pesquisas públicas. Essas informações viram moeda de troca para mineradoras
explorarem, por exemplo, 13,9 milhões de hectares de terras sensíveis —
incluindo 57,1% dos Assentamentos da Reforma Agrária (4.691 áreas) e regiões do
Aquífero Guarani. Nas zonas de conflito (como Norte e Centro-Oeste), 65,1% dos
territórios tradicionais sofrem com grilagem e contaminação hídrica acelerada.
Por
fim, o PL consolida um circuito de espoliação. As mineradoras capturam rendas
extraordinárias (ex.: Vale lucrou R$ 22 bilhões em 2023) e rendas monopolistas
(5 empresas controlam 78% do mercado), ampliadas por incentivos fiscais sem
contrapartidas (Art. 19). O resultado é uma perda fiscal de R$ 4,2 bilhões/ano,
a destruição de biomas e o aumento em 22% dos conflitos territoriais. Chamar
isso de "soberania" é uma ironia cruel: é a legalização do saque
geoeconômico.
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Furo: Como a geoeconomia explica a entrega dos nossos bens minerais?
Charles
Trocate: Geoeconomia é a estratégia global em que países com ativos financeiros
buscam controlar os bens naturais para desenvolver tecnologias ao seu favor, ao
seu projeto de desenvolvimento. A TerraBrás nos enfraquece nesse jogo. Em vez
de usarmos minérios raros como o nióbio (18% das reservas mundiais) para
desenvolver indústrias, entregamos dados do Serviço Geológico Brasileiro (CPRM)
a empresas privadas. Esses mapas de jazidas, feitos com dinheiro público, viram
segredos corporativos. Assim, viramos fornecedores pobres de matéria-prima,
enquanto EUA em especial e outros países os querem para outros propósitos.
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Furo: Por que os baixos impostos minerais são um roubo?
Charles
Trocate: Enquanto você paga 27% de IR, mineradoras pagam só 3,5% de CFEM sobre
o minério extraído. Com a Terrabrás, ganharão ainda isenções fiscais (Art. 19
do PL). Isso é um subsídio que permite ao setor privado destruir territórios!
Para piorar, os dados geológicos da CPRM, que custaram R$ 2,8 bilhões por ano
em pesquisas públicas, serão monopolizados por empresas para explorar áreas
sensíveis, como Assentamentos. O povo banca a pesquisa, e o lucro vai para
acionistas.
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Furo: O que é 'renda extraordinária' e quem a captura
Charles
Trocate: É o superlucro de mineradoras que extraem bens escassos, mas não só
(como lítio ou terras-raras), quase de graça e vendem caro. A Vale teve R$ 22
bi de lucro em 2023, mas paga míseros 3,5% de tributo. Com a TerraBrás, essa
renda será ampliada: empresas usarão dados públicos da CPRM para identificar
jazidas em 13,9 milhões de hectares de terras públicas e pagarão quase nada por
isso. Enquanto isso, assentados, mas não só, perdem terras e água.
Blog
Furo: Como a TerraBrás fortalece monopólios com dados públicos?
Charles
Trocate: 5 empresas controlam 78% da mineração no Brasil. A TerraBrás não
quebra esse cartel: pelo Art. 21 do PL, ela anexa o Serviço Geológico (CPRM) e
seus dados estratégicos, transformando informações públicas em ativos privados.
É a destruição de um patrimônio nacional: mapas de jazidas em áreas como o
Aquífero Guarani viram moeda de troca em parcerias com transnacionais. Isso
gera renda monopolista — elas definem preços e engolem mercados, enquanto
comunidades são expulsas.
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Furo: Há como reverter essa espoliação geoeconômica?
Charles
Trocate: Sim! Primeiro: definir onde e como minerar, taxar a renda
extraordinária em 12% (como no Chile)), que ajude a superar as assimetrias e
desigualdades regionais. Segundo: exigir que minérios virem produtos aqui (ex.:
nióbio em indústria aeroespacial). Terceiro: tornar o Serviço Geológico
inalienável — seus dados devem ser públicos, não privatizados pela TerraBrás.
Quarto: dar às comunidades poder de veto sobre mineração em seus territórios.
Assim, o Brasil vira peça-chave no tabuleiro geoeconômico, não colônia!
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Furo: O que exatamente altera na proposição e que você menciona com
preocupação?
Charles
Trocate: Veja, para o Decreto-Lei 227/1967, a alteração mais relevante é o Art.
3º do PL, que substitui o modelo de 'concessão' pelo de 'partilha da produção'.
Isso tem implicações diretas na CFEM e na precarização das salvaguardas
ambientais. Posso usar exemplos já mencionados, como a redução da tributação
efetiva e os riscos para áreas e territórios não minerados até então, ou mesmo
a alteração do uso dos dados que a CPRM é guardiã, o zoneamento de onde minerar
e onde não minerar. Por exemplo, no regime de partilha, a União só fica com 43%
e administra todas as externalidades do setor como rompimentos de barragens e
etc. E a alíquota continua inalterada.
Sobre
a Lei 8.970/1994, que criou a CPRM, o Art. 21 do PL é crucial porque transforma
um órgão público em subsidiária da TerraBrás. Isso explica concretamente como
ocorre a privatização dos dados geológicos.
Quanto
à Lei 13.575/2017 (que trata da Agência Nacional de Mineração), o Art. 4º do PL
enfraquece a regulação ao concentrar poderes na Terrabrás. Isso se conecta à
crítica sobre monopólios e falta de transparência. A ANM é esvaziada para que a
Terrabrás vire juiz e parte.
Blog
Furo: E quais são as perspectivas que se avizinham?
Charles
Trocate: De qualquer forma, os pontos críticos são esses. Insisto: geoeconomia
pressupõe que países controlem bens estratégicos para gerar vantagens
competitivas (ex.: cadeias produtivas integradas). O PL 1754/2026, porém,
fomenta extração bruta. A TerraBrás atuará via 'partilha da produção' (Art. 8º)
com transnacionais, prioritariamente exportando minérios crus em detrimento da
industrialização local e, claro, ignora lições históricas: países como Bolívia
e Indonésia nacionalizaram o lítio e o níquel para controlar preços e cadeias.
A Terrabrás, ao contrário, não exige processamento, não propõe verticalização
em nada, é só escoamento, minas e circulação.
E,
como possibilidade, em vez dessa pressa, deveríamos, diante da urgência em
frear a exploração predatória e os impactos socioambientais acumulados,
estabelecer uma espécie de moratória imediata no modelo mineral brasileiro —
não se decidir nada até estarmos em outras condições. Esta pausa estratégica é
essencial para criar um espaço democrático em que os mobilizados e imobilizados
pelo problema mineral — academia, trabalhadoras e trabalhadores, sindicatos e
movimentos populares — possam construir propostas alternativas às atuais leis
que instrumentalizam o Congresso como arena de negócios privados. Impede-se
assim que o patrimônio mineral seja moeda de troca política, enquanto se
organiza uma Conferência Popular dos Bens Minerais — processo permanente de
debate que centralize as vozes historicamente silenciadas e constrangidas pelo
argumento do progresso da atividade mineral feito à revelia na definição da
política setorial.
Esta
conferência precisa enfrentar o cerne do problema: a desconexão entre a
extração mineral e o desenvolvimento regional. Enquanto os commodities seguem
para o mercado global, as regiões mineradas herdam passivos geofísicos (como
alterações hidrológicas e subsidências), economias dependentes e violações de
direitos. Urge reverter a lógica que concentra danos nos territórios e
benefícios em cadeias transnacionais, estabelecendo mecanismos vinculantes de
controle social sobre os bens estratégicos da nação.
A
TerraBrás é um projeto de saque geoeconômico: entrega minérios críticos a preço
de banana, destrói dados públicos estratégicos e mantém o povo refém de
monopólios. Enquanto outras nações usam seus bens minerais para desenvolver
tecnologia, nós os trocamos por migalhas fiscais. Basta! Ou nacionalizamos
nossa riqueza com controle popular, ou seremos eternamente espoliados!