sábado, 17 de abril de 2021

25 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás - veja série especial no site do MST


CPT, MST e SDDH divulgam Nota Pública no marco dos 25 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, que em 17 de abril de 1996 vitimou 19 trabalhadores rurais Sem Terra. É o maior Massacre no Campo já registrado no Brasil. De acordo com o documento: “Infelizmente o Pará continua sendo o recordista de ameaças e assassinatos. Multiplicam-se diariamente as denúncias de ameaças e diversos tipos de violência, como pulverização aérea de agrotóxicos sobre assentamentos populares, exploração indevida do território, ameaças a lideranças, despejos ilegais. Leia mais AQUI

Memória da Luta: há 12 anos era executado o dirigente sindical Raimundinho, em Tucuruí/PA

O nome de Raimundo Nonato do Carmo integrou uma lista de 260 pessoas ameaçadas de morte no Pará



Ao centro o sindicalista de Tucuruí, Raimundinho, executado no dia 16 de abril de 2009. FOTO: arquivo do Centro  de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP).

Raimundo Nonato do Carmo foi executado com sete tiros na noite de 16 de abril de 2009, às vésperas da passagem de 13 anos do Massacre de Eldorado do Carajás, quando somava apenas de 53 anos.

Raimundinho, como era popularmente conhecido, dirigiu o Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STR) do município de Tucuruí, sudeste do Pará, O nome de Nonato integrou uma lista de 260 pessoas ameaçadas de morte no estado.

Além de atividades junto ao STTR, militou junto ao Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), fez parte da rede Fórum Carajás, entre outras articulações.  

quinta-feira, 15 de abril de 2021

25 anos do Massacre de Eldorado


 

Cinema na Amazônia: 6ª versão do Cinefront começa hoje em plataforma digital


O FIA CINEFRONT é um evento composto por mostra e debates de obras cinematográficas que abordam a realidade amazônica e de outras regiões periféricas que sofrem as consequências dos processos de desenvolvimento pautados pela expansão capitalista. De caráter não competitivo, o festival consiste também em oportunidade de pautar as lutas sociais por direitos, igualdade, justiça e dignidade das populações das regiões periféricas do mundo. Além de obras selecionadas no presente regulamento, a programação principal do VI FIA CINEFRONT será composta por trabalhos convidados pela curadoria, levando em consideração sua relevância à temática e homenagens a serem realizadas. Veja a programação AQUI

Violação dos Direitos Humanos no Brasil: Parlamento Europeu realiza audiência na manhã de hoje para ouvir defensores

Claudelice Santos, de Marabá é uma das participantes. A ativista teve o irmão, José Cláudio executado em 2011, junto com a esposa Maria do Espírito Santo na cidade de Nova Ipixuna, no sudeste do Pará. 



A Delegação para as Relações com o Brasil do Parlamento Europeu recebe na manhã de hoje, 15 de abril, denúncias de defensores/as de direitos humanos do Brasil.

A execução do sem terra ligado à Liga dos Camponeses Pobres, Fernando dos Santos Araújo, principal testemunha sobre o Massacre de Pau D´arco, sudeste do Pará é um dos casos. 

A ativista Claudelice Santos, de Marabá, irmã de José Claudio Santos, assassinado com a espora Maria do Espirito Santo, na cidade de Nova Ipixuna em 2011participará do evento.  

Serviço: Audiência no Parlamento Europeu de violação dos direitos humanos no Brasil.

Dia 15 de abril de 2021

Horário: a partir das 8h45 (horário de Brasilia)

Acompanhe ao  AQUI

sábado, 10 de abril de 2021

O programa de pós graduação do Instituto Ciência e Sociedade da UFOPA apresenta coleção em 3 volumes sobre o Baixo Amazonas

 Série reflete sobre políticas públicas de desenvolvimento, diversidade sócio cultura, direito e situações de conflitos derivadas das políticas desenvolvimentistas




Aperreado segue o tempo. Em um martelo agalopado, tocado por uma racionalidade ávida por recursos, a atropelar as dinâmicas ancestrais das terras e rios das periferias capitais. Lonjuras de espanhas e portugais de séculos atrás.  Racionalidades coloniais calçadas em violências: expropriação, saque e pilhagem.

Aligeirado tempo, a erguer sistemas de objetos (obras de infraestrutura), barrar o rio, a edificar complexos portuários, ferrovias, a derrubar e pilhar a floresta, os minérios, os bancos de germoplasma, a tentar impor aos rios do lugar amazônico a agonia das bolsas de valor. Valor de que?

É azul ou verde a água do mais belo rio que corre em minha aldeia (Tapajós)?  A feira é bela. Mercadão 2000. Ela espelha, em certa medida, as dinâmicas locais. As frutas, a farinha, os legumes, a carne e os peixes resultam do tempo do lugar.

As embarcações de madeira carregam parte desta produção. Assentamentos rurais, terras indígenas, territórios aquilombados, reservas extrativistas. Totalidade contraditória.  Amazonas, Tapajós a correr em paralelo. Um a confrontar o outro. Assim como as dinâmicas da racionalidade do “deus” mercado e o tempo sem pressa das dinâmicas dos beirais dos rios. Lonjuras de palácios, bolsas de valor e catedrais. Sabenças incompreendidas.

E no meio de tudo, a universidade, com o seu tempo diferente de tudo. Necessita tempo, instrumentos, diálogos, recursos, maturação na forja do conhecimento.  Ainda mais no caso de uma criança, dez anos apenas.

A Universidade Federa do Oeste do Pará (UFOPA), a partir do seu Instituto de Ciências da Sociedade (ICS), e o seu programa de pós graduação interdisciplinar, nos honra com a coleção Diálogos Interdisciplinares na Amazônia, série em três volumes que retrata parte destas complexidades acima descritas. 

Um volume trata das políticas de desenvolvimento e suas implicações, já outro contempla sobre a diversidade social, com cotejamentos sobre aspectos sócio culturais, enquanto o derradeiro reflete sobre direitos e suas situações de conflitos na encruza que coloca em situação antagônica os interesses do grande capital e as populações de cá.  Acesse AQUI a coleção. 

domingo, 4 de abril de 2021

Por uma política de manejo florestal de base comunitária no Pará: série de reportagens recupera saga de quase dez anos de luta

 

Uma das muitas etapas de debate sobre o pleito para a efetivação da Política Estadual de Manejo Florestal Comunitário e Familiar - Fonte: site do Observatório do Manejo Florestal Comunitário

Há 09 anos comunidades tradicionais do estado do Pará empreendem uma luta para a efetivação da Política Estadual de Manejo Florestal, Comunitário e Familiar (PEMFCF). A jornada é realizada em parceria com ONGs e pesquisadores de variadas formações. 

Além da defesa do território, a política almeja financiamento para ações que possam garantir além do uso racional dos recursos, a melhoria da qualidade de vida dos moradores de projetos de assentamentos agroextrativistas, territórios quilombolas e outras modalidades.

A série de três reportagens assinada por Rogerio Almeida e edição de Kátia Marko pode de ser acessada no site do Brasil de Fato do Rio Grande do Sul, onde o combate  popular encurtou a distância entre o Sul e o Norte. Saravá!!!

Abaixo os links com as matérias.

Primeira reportagem - o triste contexto de desmatamento e violência no Pará 

Segunda reportagem - A peleja pela efetivação da PEMFCF

Terceira reportagem - afinal de contas, o que é o manejo florestal de base comunitária?


quarta-feira, 31 de março de 2021

Golpe militar, o imperialismo e a Amazônia

As Brigadas Populares de Marabá analisam parte das consequências do golpe para a Amazônia.  

 
Os países capitalistas imperialistas que saíram fortalecidos com a guerra de rapina (I Guerra Mundial) se sentiram ameaçados com a força da Gloriosa Revolução Proletária de Outubro de 1917 na União Soviética, muito mais ainda com o papel que teve a União Soviética, dirigida por Stalin, durante a II Guerra Mundial, pela capacidade de construir uma valiosa unidade para derrubada do fascismo imposto por Alemanha, Itália e Japão. E também, com a revolução proletária na China (1949) e a revolução em Cuba(1959).
 
 Os Estados Unidos (EUA), logo após a segunda Guerra Mundial desenvolve seu aparato econômico, político e militar, no sentido de submeter países do mundo inteiro a seus interesses. Assim como seu aparato bélico-militar cria a ONU-Organização das Unidas, Banco Mundial (BIRD), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), para impor aos países, principalmente da América Latina a condição de semi-colônias, dependentes e subjugados, a partir de dividas contraída.
 
As forças revolucionárias brasileiras, embora pressionadas por contradições internas não resolvidas, avançavam diante do governo de João Goulart para fazer serem implantadas reformas fundamentais para construção de um país democrático e soberano, rumo a uma revolução socialista, como no caso da Reforma Agrária, com a tomada das terras dos latifundiários e distribuídas aos camponeses pobres sem terra.
 
Esta movimentação contrariava em muito o gigante imperialista estadunidense, como também a grande burguesia latifundiária e compradora brasileira fortemente atrelada e a serviço do imperialismo. Portanto, para estas forças reacionárias contrarevolucionárias o caminho que mais lhes agradava para conter o avanço democrático e revolucionário, era o Golpe. Que foi dado em 31 de março de 1964, no Brasil.
 
De 1964 a 1985 temos no Brasil uma ditadura militar dirigida por governos militares com participação de civis coniventes com o modelo. Como o imperialismo ianque já havia mapeado a Amazônia, principalmente os recursos minerais do Sul e Sudeste do Pará, através da United States Steel Corporation (US Steel), atuando no Brasil desde 1920, a partir de Conselheiro Lafaiete, em Minas Gerais, faz com que seus lacaios brasileiros tracem uma geopolítica para a Amazônia capaz de possibilitar o brutal saque de suas riquezas.
 
Em 1966, o governo começa suas reformas estruturais para facilitar a penetração e avanço do Capital na Amazônia, como forma de saque, degradação ambiental e desterritorialização dos povos amazônidas e destruição de suas culturas, como forma de desempendimento para o avanço da Era dos grandes projetos, com apropriação, principalmente, do potencial hídrico, mineral e madeireiro, sem que nem a tal burguesia local pudesse opinar, mas como submissos acumular a partir das sobras.
 
Sob o manto de medidas ”protecionista” a Amazônia era colocada sob a Doutrina de Segurança Nacional, tudo deveria ser decidido de fora, assim a SPEVEA foi transformada em SUDAM-Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia, o Banco da Borracha é transformado em Banco da Amazônia S.A, as terras são federalizadas através de um decreto de 1971, que determina que a 100 km de cada margem das rodovias federais passariam a jurisdição da União, o caso da Transamazônica, Perimetral Norte e a Santarém/Cuiabá.
 
Em 1967, o Código Mineral, que foi criado em 1940, é reformulado, para melhor possibilitar o saque, dando poderes absolutos às empresas mineradoras detentoras de concessões minerárias sobre as populações possuidoras de direitos sobro o solo acima das jazidas, como também as grandes dificuldades para fazer-se interditar um projeto em fase de lavra. Que digam os Xicrins do Cateté que estão com suas águas poluídas pelas atividades minerárias desenvolvidas pela mineradora Vale, no projeto Onça Puma, em Ourilândia do Norte, sul do Pará.
 
A manobra é sempre tão bem planejada que a partir da reformulação do Código Mineral (1967) até o ano de 1985, é dado por descoberto na Amazônia trinta e uma enormes jazidas minerais, sendo vinte e sete no Estado do Pará, duas no Amazonas, uma no Maranhão e uma no Amapá. Os componentes destas jazidas, são: Ferro, Manganês, Caulim, Titânio, Estanho, Bauxita metalúrgica, Níquel, Gipsita, Cobre, Nióbio, Estanho-urânio-terras raras, Ouro, Gás natural, Estanho-criolita, Wolframita e Cromita. Quatorze destas jazidas estão localizadas na região de Carajás, onde a US Steel, através de sua subsidiária, a Companhia Meridional de Mineração, atuou da década de 1950 a 1970.
 
O imperialismo ianque também se fez e faz presente através do financiamento de diversos grandes projetos, como: a pavimentação da BR 364, nos Estados do Mato Grosso, Rondônia e Acre(bastante criticado na época por Chico Mendes, devido ao grande impacto para a floresta amazônica); Projeto Carajás(mina, ferrovia e porto); Bauxita em Oriximiná; o complexo Albrás/Alunorte, em Barcarena; a Barragem de Tucuruí; Prodeagro-Programa para desenvolvimento da Agropecuária e Planafloro  -Plano Agropecuário e Florestal de Rondônia, em Rondônia e Mato Grosso. O Brasil chegou a estar dentre os cinco países maiores tomadores de empréstimos junto ao Banco mundial, para possibilitar a implantação de infraestruturas para viabilizar o saque e para elevar o robusto tamanho da dívida externa do Brasil.
 
Se faz necessário lembrar que tudo isso aconteceu e vem acontecendo diante de um estado de enorme repressão a índios, quilombolas e camponeses pobres sem terra ou com pouca terra, através de tomada de territórios, torturas, assassinatos, chacinas e massacres, assim como também foi a ação de milhares de militares das Forças Armadas brasileira contra dezenas de jovens revolucionários que no final da década de 1960 e inicio da década de 1970 se propunham a organizar uma guerrilha na região do Araguaia/Tocantins, para se oporem ao regime militar, conhecida com Guerrilha do Araguaia.
 
Portanto, o golpe militar de 1964 foi diretamente apoiado pelo imperialismo  estadunidense, os governos militares cumpriram seu papel de capachos e lacaios, a grande burguesia brasileira serviçal do imperialismo continua entregando a nação e oprimindo os povos, os governos que sucederam ampliaram o leque de entreguismo e submissão, e a Amazônia, vem  permanentemente passando por um processo de saque com seus povos tendo que usar de suas resistências para conter o avanço  do processo de destruição, principalmente agora que o atual governo usa das mesmas formas para reprimir índios, quilombolas e camponeses pobres sem terra ou com pouca terra, vejamos a repressão que está acontecendo hoje contra camponeses do Acampamento Manoel Ribeiro, em Rondônia.
 
Uni-vos as forças revolucionárias e nos coloquemos em lutas, antes que seja tarde![

Brigadas Populares, Marabá/PA, 31/02021

 

 

terça-feira, 30 de março de 2021

50 anos do Decreto 1.164, que federalizou as terras amazônicas

 O Decreto é avaliado como amparo jurídico de grilagem de terras na região 


Gado na Transamazônica 

Em 1964, no dia dedicado à mentira, os milicos impuseram à sociedade nacional duas décadas de obscurantismo. No mesmo dia, só que em1971, sob os auspícios dos princípios da Doutrina de Segurança Nacional, Médici, o ditador considerado o mais violento do regime, resolveu federalizar a maior parte das terras amazônicas, e instituiu o Decreto de Lei de nº 1.164.

A medida endossada entre outros por Delfim Neto e Mario Andreazza decidiu pelo controle de 100 quilômetros das margens das rodovias construídas e outras projetadas. Muitas das estradas projetadas nunca saíram dos croquis das pranchetas dos generais. 

A toada autoritária de 1971 segue os mesmos passos da medida dos tempos imperiais, a Lei de Terras, de 1850, que colocou para o escanteio a possibilidade de acesso à terra dos setores mais marginalizados da sociedade, a exemplo da população negra.

Ambas normativas seguem a mesma trilha, favorecer a grilagem de terras. Ambas aprofundam as raízes da nossa condição colonial, raízes marcadas para além da concentração da terra, pela expropriação e violência das populações locais, bem como pelo saque e pilhagem das riquezas.

Bancos, a exemplo do Bradesco, Bamerindus, Econômico, empresas sem nenhuma relação com a terra e o mundo rural, tal a Volkswagen, multimilionários, como é o caso de Daniel Ludwig, que instalou o projeto Jari, na fronteira do Pará com o Amapá, constam no extenso rol de beneficiários. Além de várias oligarquias rurais dos estados do Sul e Sudeste. Para melhor entender o assunto vale a pena conhecer a tese do professor Ariton Pereira. 

No caso do Projeto Jari, o território que ainda hoje enfrenta situações de conflitos entre o Grupo Orsa, - atual controlador do empreendimento -, e comunidades tradicionais, a exemplo de tensões ocorridas na Comunidade de Pilões. A Amazônia, brasileira ou não, representa um tabuleiro de conflitos. Situações agudizadas pelo projeto IIRSA (Iniciativa de Integração de Infraestrutura Sulamericana).

A decisão dos milicos em priorizar as rodovias ao invés dos rios representa um divisor de águas – de forma literal – nos processos de colonização e apropriação de terras públicas na região. Como reflete, entre outros, Carlos Walter Porto-Gonçalves, até a instalação da ditadura civil-militar, a dinâmica era regida pela racionalidade dos rios-floreta-terra firme. 

A medida imposta por Médici estabelece a lógica das rodovias-terra firme e subsolo. É no subsolo o palco de disputas ferrenhas entre as grandes corporações minerais. E, mesmo as clandestinas. Na mesma balada de grandes projetos para a inclusão subordinada da Amazônia ao resto do país e da economia mundo, os militares priorizam a construção de hidroelétricas.

E, assim, ergue-se no rio Tocantins a maior usina genuinamente nacional, a hidroelétrica de Tucuruí.  A obra representa um emblema de corrupção que fez a fortuna dos donos da empresa Camargo Corrêa. Lúcio Flávio Pinto conta que tantos foram os termos aditivos, que a obra que deveria ter custado 2,1 bilhões de dólares, ao fim e ao cabo a conta ultrapassou a casa de US$ 10 bilhões.


A energia serviu/e para abastecer as empresas da cadeia do alumínio no Pará (Albras e Alunorte), Alcoa no Maranhão. Energia subsidiada pela sociedade nacional. Em outras palavras, a gente paga a conta.  Energia e água constam como os principais insumos da indústria.

 

A usina que fez a fortuna da família Corrêa foi a desgraça das populações à jusante e à montante, entre elas os povos parakanã e assurini e inúmeras famílias campesinas, que além de expropriadas perderam o acesso à floresta e à pesca.  Ainda hoje os atingidos pelejam por reparações. Os megas projetos banharam em sangue de camponeses e seus apoiadores as terras amazônicas. Em particular na quadra dos anos de 1980 as terras do Pará.

Delfim Neto, conselheiro de Lula, um dos entusiastas dos projetos, quase cinco décadas após o início da construção de Tucuruí, o mesmo economista insuflou a construção de Belo Monte, e faturou o dele. A mesma história tantas vezes lida. 

Sobre a lida desenvolvimentista de Neto, orgulhosamente a Faculdade de Economia e Administração da USP recebe os alunos e visitantes com um banner logo em sua entrada como uma frase do estrategista dos militares, onde temos:


Linhas gerais, desde os anos ditatoriais, sucessivos governos não destoam dos planos desenvolvimentistas baseado em grandes obras para a Amazônia. Para tanto, é só baixar e ler o Projeto Arco Norte. 

Sobre grilagens de terras, artigo do professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Tiago Maiká Müller, na obra recém lançada A Grilagem de Terras naFormação Territorial do Brasil, organizada pelo professor Ariovaldo Umbelino, esclarece que ao mesmo tempo em que favorece a grilagem de terras, operou em aliviar as tensões do campo em outras regiões do Brasil.  Ao analisar os desdobramentos do Decreto 1,164 em terras no estado do Amazonas, Muller alerta que o recurso jurídico desterritorializou indígenas da terra firme e das matas de igapó.

Sobre as rodovias no Amazonas, o professor elenca:

No Amazonas, o decreto-lei de federalização atingiu as margens das seguintes rodovias: BR-230 ou Transamazônica no trecho entre as cidades de Itaituba (PA) e Humaitá, construída na década de 1970; BR-317 nos trechos entre as cidades de Rio Branco (AC), Boca do Acre e Lábrea, tendo sido construído somente o primeiro trecho; BR-406 no trecho entre Lábrea e Humaitá, que foi construída, mas passou a fazer parte da Transamazônica; BR-319 nos trechos entre as cidades de Porto Velho (RO), Humaitá e Manaus, construída na década de 1970; BR-174 nos trechos entre Manaus e Caracaraí (RR), trecho concluído ainda na década de 1970; BR-080 nos trechos entre as cidades de Jacareacanga (PA) e Manaus até a fronteira com a Colômbia (em São Gabriel da Cachoeira), que nunca foi construída; BR-307 entre Cruzeiro do Sul (AC), Benjamim Constant e o rio Içana (em São Gabriel da Cachoeira), que teve apenas um trecho construído no Município de São Gabriel da Cachoeira ainda na década de 1970; BR-210 ou Perimetral Norte entre Caracaraí (RR) e o rio Içana (em São Gabriel da Cachoeira) até Mitu (na Colômbia), que não teve nenhum trecho construído no estado do Amazonas.

 

Inúmeros quartéis do Exército ponteiam rodovias, as cercas das terras griladas configuram a paisagem, bem como cidades que celebram o período militar, a exemplo de Medicilândia, Novo Progresso e Brasil Novo no estado do Pará, e Presidente Figueiredo, no Amazonas representam alguns dos emblemas do período. 

sábado, 20 de março de 2021

Em solidariedade à professora Lariissa Bombardi/USP, repliquemos o trabalho sobre agrotóxico por ela produzido

Por conta da pesquisa empreendida, a professora sofre perseguição e ameaças dos setores mais conservadores do país. 

Trata-se de um levantamento de dados exaustivo e sem precedentes sobre o consumo de agrotóxicos no Brasil (todos com fontes oficiais) e faz um paralelo com o que acontece na União Européia. Conta com uma introdução sintetizando o trabalho de pós-doutoramento da professora e, a partir da página 67, são mais de 200 páginas com infográficos que esmiuçam, quantificam e facilitam a compreensão do tamanho do problema. Baixe o doc AQUI

terça-feira, 16 de março de 2021

MAB; 30 anos de lutas


 

terça-feira, 9 de março de 2021

Grandes projetos e Covid ameaçam sobrevivência de quilombolas no Pará, alerta site Mongabay

Comunidade de Oxalá de Jacundaí, no Território Quilombola do Jambuaçu, Pará. Foto: Pedrosa Neto.

Elias Silva, um morador antigo da comunidade de Nossa Senhora das Graças de Jambuaçu, relata a ameaça representada por uma grande empresa que produz e beneficia dendê para a produção de óleo de palma, nas fronteiras do território, a Marborges Agroindústria S.A. Com forte presença no estado do Pará, a operação multimilionária do agronegócio possui quase 7 mil hectares de plantação de dendê, e outros 10 mil hectares para o restante de suas operações. O cultivo industrial dos dendezais é conhecido por seu potencial de desmatamento, mas seu papel na poluição da água também foi destacado nos últimos anos em todo o mundo. Segundo João Santos Nahum e Cleison Bastos dos Santos, autores do estudo “Impactos Socioambientais da Dendeicultura em Comunidades Tradicionais na Amazônia Paraense”, a produção industrial de óleo de palma  faz uso intensivo de produtos químicos como fertilizantes, herbicidas, raticidas e inseticidas para o controle das pragas; com a localização das plantações próximas a rios e igarapés, há o alto potencial de contaminação dos corpos hídricos por esses produtos químicos. Leia a íntegra no site Mongabay

sábado, 6 de março de 2021

Tapajós de Fato: coletivo de jovens comunicadores cria site para narrar as sagas de suas gentes

 O avanço do grande capital sobre os territórios ancestrais é um dos motivos para a criação do canal de comunicação popular. 



Pessoa, o poeta, defende que é mais belo o rio que corre na minha aldeia. E, como existem furos, paranás, igarapés e rios que correm em nossas aldeias, assentamentos da reforma agrária, unidades de conservação, territórios quilombolas, entre tantos outros, a conformar a bela e estonteante bacia Amazônica.

O rio encanta. Arapiuns, Jamanxim, Crepori, Juruena, Arapiuns, Curucu, rio das Tropas, Maicá, Tapajós, Amazonas, onde, a depender do local de partida, leva mais de dia para se alcançar o local de destino, e a imposição em experimentar variadas modalidades de transporte.  Por cá, o rio é mar.  O rio é a rua do meu lugar.

Igarapés, furos, paranás, rios e gentes que poucos que pleiteiam a instalação de grandes projetos conhecem. Não sabem do que existe para além dos rios, das florestas que os comprimem, dos peixes e outros bichos que lhe conferem vida. Ignoram os encantados, as magias, bem como a dinâmica do ciclo da lua, que guia o plantar e o pescar das gentes de cá desta margem do mundo.

E, se conhecem, demonstram-se indiferentes. Relatos e mais relatos a perder de vista aos montes seguem a mesma trilha, a invisibilidade ou a desqualificação. Relatos de religiosos, saqueadores, viajantes, naturalistas e escritores.

Nos dias de hoje, realidades estas marcadas pela pressão do grande capital, que coloca em xeque a sobrevivências dessas gentes de saberes milenares.  “É mais belo o rio que corre na minha aldeia. É mais livre e maior o rio da minha aldeia”, fraseia Pessoa. Balsas e navios de soja não sabem da ternura e vida do rio da minha aldeia. 

Em corrente inversa aos estranhos que pretendem a posse das terras ancestrais, três jovens filhos destes rios e destas gentes indígenas, campesinas e quilombolas abriram uma janela para o mundo sobre suas realidades. E, decidiram em cantar a (s) sua (s)  aldeia (s) a partir de um site de jornalismo, batizado de Tapajós de Fato.

A janela que se abriu no ano passado, tem como linhas de frente o artista, devoto do samba, Clara de Nunes e do candomblé, o publicitário Marcos Wesley.  O comunicador foi embalado em sua infância pelas pelejas sindicais da sua família na cidade de Belterra, vizinhança de Santarém, a cidade polo do oeste paraense.

Ele explica que o avanço da fronteira do grande capital sobre a região o inquietou, e junto com outros amigos resolveram em criar o canal de comunicação. Wesley integra inúmeros coletivos da região, e já assessorou o Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR) de Santarém. Em uma prosa ligeira manifestou interesse em incrementar os seus conhecimentos com uma pós graduação em que possa refletir sobre os territórios comunais da região.  

A produção dos podcast do canal Tapajós de Fato é de responsabilidade de Isabelle Maciel. As mulheres arretadas da família servem de farol para a apresentadora do programa Voz para Todas na rádio Geração FM, da cidade de Mojuí dos Campos. A cidade, assim como Santarém e Belterra, experimenta a reconfiguração do seu território por conta do avanço do monocultivo da soja.  A emancipação feminina é a pauta preferida da jornalista.

Gabriel Siqueira é o terceiro combatente da comunicação popular do site. O estudante de jornalismo, como os demais, além de integrar coletivos de comunicação, faz parte de fronts de resistência como o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), e do Tapajós Vivo.

Em comum, além da idade, 23 anos apenas, os jovens destoam da maioria das pessoas da sua geração. Cá, o trio mobiliza o coletivo de comunicação e empenha esforços em correr o trecho da região, em conhecer e narrar as lutas das suas gentes, e em interpretar as ameaças que nublam  a vida dos rios em que  foi criado e vive. Rios, ora, ameaçados de todas as formas pelo avanço do grande capital. Rios, suas gentes, fortunas e encantados.  

Tal experiências pretéritas, a exemplo do boletim do STTR de Santarém, Lamparina, o jornal dos movimentos populares do sudeste do Pará, o Grito da PA 150, o Jornal Resistência produzido em Belém, o Varadouro do Acre, e tantos outros, o site Tapajós de Fato tem a possibilidade de espelhar as principais pelejas das gentes ancestrais das terras, florestas e rios das bandas do Baixo Amazonas. 

A exemplo da cobertura sobre o transbordamento da bacia de rejeitos da mineração Alcoa, em Juruti. Corre, espia AQUI.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Fórum Pan-Amazônico: segmentos reivindicam Belém como sede em 2022

Organizações do campo democrático defendem como estratégico a sede em Belém por conta da gestão municipal atual, e pelo papel de resistência histórica que a cidade exerce na região


Em 2022 realizaremos o X FOSPA e defendemos como sede do evento a cidade de Belém do Pará. O governo de extrema-direita do Brasil, sustentado em forças conservadoras, reacionárias, fundamentalistas e neofascistas, persegue, violenta e criminaliza os movimentos sociais e os povos amazônicos. O governo de Jair Bolsonaro não é uma ameaça somente para o Brasil; é claramente uma ameaça para a Pan-Amazônia e para o mundo.

Isso nos leva a ponderar que a Amazônia brasileira é o território mais indicado para sediar o X FOSPA e, entre as cidades amazônicas, a que reúne todas as condições para ser a sede de um evento de tamanha magnitude é Belém do Pará, que vive um momento histórico que possibilitará o fortalecimento das lutas dos povos da Pan-Amazônia, além de ser uma cidade que anima, inspira e mobiliza a participação e a solidariedade de um grande número de organizações e movimentos sociais da Pan-Amazônia.

 

Leia a carta "EM DEFESA DA PAN-AMAZÔNIA E DE SEUS POVOS: PELA REALIZAÇÃO DO X FÓRUM SOCIAL PAN-AMAZÔNICO EM BELÉM, PARÁ, BRASIL (2022)", as razões pelas quais postulamos Belém como sede do X FOSPA e manifeste o apoio de sua organização, movimento ou entidade.

 

As manifestações de apoio podem ocorrer de duas formas: a) preencha rápida e facilmente este pequeno formulário https://forms.gle/DdgMGyhydDHkhXQD6; b) ou envie um e-mail, em nome de sua organização, para fospabelem2022@gmail.com. 

 

Link para a carta completa: Carta de Belém.pdf - Google Drive

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Tudo escuro ao redor

 

6h da manhã. Tudo escuro ao redor. Mangas no chão do caminho até a padaria. Pão doce para Docinho. Na copa das mangueiras garças aninhadas. Lembra véu de noiva. Sobre o asfalto o branco de fezes das aves impera. No meio fio o esgoto corre para o rio. Cachorros latem ao longe. Mio de gatos em cio. Telhados. Nada de eira, nem beira. Matos em telhas.

A cidade acaba de sair da bandeira preta da pandemia. Soma perto de 600 mortos. Famílias em luto. Governo de antas. Uns bostas. Incertezas. Avizinha-se de Manaus a cidade

Orvalho nos meus olhos. Na parte superior de prédio ecoa um som alto dos tempos da discoteca. Ruas vazias. Um segurança atravessa a larga avenida sem pressa. Segue de bicicleta rumo ao trabalho.

Feira da Candilha. Tudo quieto. Silêncio quebrado pelas sirenes de ambulâncias e das viaturas de polícia. O som potente de um carro explode como se bomba fosse. Sertanejo. Uma praga daninha. Danosa. Ao redor, hospitais, laboratórios e delegacia de polícia. Vargas com Silvino Pinto. Encruza. Ah, tem o comércio do senhor Alves e pés de cabaça. Alves vende de tudo, de pão a parafuso.

Espio os postes. Monte de fios em nós. Estranha rede. O advento da fibra ótica transformou as estruturas. Soa como uma intervenção artística. Aquelas que a gente não entende nada. O sentido da coisa.  Tudo entrelaçado. Lembra o cu do diabo ou da gia, diria Mainha.

Frestas de luz no céu da cidade. Passa um pouco das 6h. Caminho sem pressa. O asfalto além de mangas caídas e fezes de garça, guarda os sinais da chuva da madrugada. Uma serenata. Bom para dormir. A chuva da madrugada abole o uso do ventilador. A chuva da madrugada acalenta a alma.

Domingo. A chuva agiganta a preguiça. Espio Ouricuri, documentário sobre João Vale. Comovido. 

 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Torto Arado - obra desnuda um Brasil colonial

Mulheres são a linha de frente da narrativa sobre o Brasil rural  



Caetano já advogava: “Terra para o pé, firmeza. Terra para a mão, carícia”. O apego à terra, os laços de solidariedade em meio a aridez do clima, da vida e das diferentes formas de violências, a fé no que virá, a labuta extenuante sob o sol inclemente, - quase em condição de escravidão -, o patriarcado, o poder do coronel, a grilagem de terra, a luta sindical e o mundo dos encantados são alguns dos elementos que integram a rotina da fazenda Água Negra, no sertão da Bahia, onde é ambientado o romance de verve sociológica Torto Arado, obra com as digitais do geógrafo baiano de traços afro indígena,  Itamar Vieira Jr.  Lançado pela Editora Todavia em 2018, celebrado no exterior e no Brasil, encontra-se em sua 5ª reimpressão e coleciona algumas comendas, entre elas, o Jabuti.  

O livro é um rio caudaloso de mulheres fortes. Bebiana, Belonisia, Miúda, Maria Cabocla, Donana, Salu, Firmina, Domingas, Zezé, Lourdes e Maria Pesqueira estão entre elas.  A romaria de bravas mulheres está na linha de frente da condução das famílias com rebentos a perder de vista.

A fieira de barrigudinhos desponta como mão de obra necessária para a geração de riqueza para o patrão. Muita gente para pouco chão, numa relação contraditória entre resignação e indignação, entrecortada por elementos religiosos e místicos da cosmologia de matriz africana. A própria terra ressoa como mulher. Aquela que amamenta os famintos com o que é possível dela colher.

Em Água Negra, a gente é preta, em sua maioria, desprovida de letra. É gente filho dos filhos de África, gente colocada em situação de subordinação, mas, que se aquilomba em oposição à ética do patrão, à terra grilada, à humilhação.

Mas, que tomba, de pobreza, de fome, de febre e de bala, como o personagem Severo, executado a mando do ‘dono” da terra por pregar a insurreição na comunidade. O direito à casa digna, o direito à terra do povo preto, o direito ao salário.

A obra desnuda as raízes mais profundas sobre os elementos que conformaram/conformam as estruturas de poder do país, este centrado na concentração da terra, está cultivado a partir do braço escravo de negros e outros seres não negros, o poder de oligarquias, a abusar de toda ordem de violências, onde consta o veto à edificação de uma casa de alvenaria, a produção de meia (metade para a família camponesa, metade para o patrão), o trabalhar até definhar.....

Ao mesmo tempo o livro alumeia sobre a sabença popular, sobre o mundo dos encantados, das lições dos mais velhos, a exemplo que é na lua crescente o momento mais adequado para o cultivar a terra. Zeca Chapéu Grande, dirigente religioso, sabedor da cultura das ervas faz ecoar estes saberes. É o cavalo dos encantados. A narrativa preza pelo vocabulário local na medida certa.

Às margens do rio Utinga, onde a pobreza desfila com desenvoltura, os sabugos do milhos servem de bonecas para as meninas. Terra árida. Quem é das andanças pelos mundos rurais do país, chora.

 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Pandêmico natal: nada de Roberto Carlos ou carnaval...

 


Seis horas para cozer o peru é a estimativa otimista em forno de fogão normal. Em um possante levaria umas três. A criatura tem perto de cinco quilos. Tudo somente para uma pessoa. O cônjuge de Guzzi puxou Minas Gerais para ver a família. O trecho São Paulo Minas Gerais em dias de festa demanda mais tempo que o normal.

Assim como o cozimento do peru em forno vulgar doméstico, tudo pode acontecer em dias de festa nas rodovias. Em casa, o gás acabar; na rodovia, uma carreta de combustível capotar, pegar fogo e bloquear a via nos dois sentidos.

“Patos de MG” anda saudoso da família. Pai e manos. Gente de festa farta, bebidas e rango.  Ozzi e Frida farão companhia à Guzzi na ceia. São felinos. Traquinos. Derrubam árvores de natal e TVs.

Ozzi anda viciado em tomate. É um gato negro. Assalta a geladeira e mocoza os frutos em seu local de dormir. Estranho vício. Frida, acizentada, é bruta. É gata de rua. Adotada nas Gerais puxou São Paulo.

Tempos de pandemia. Terminais rodoviários e aeroportos entupidos de gente como se não existisse amanhã em um país sem governo. “Patos” sairá direto do trampo para a rodoviária. O embarque será antes da meia noite do dia 23.

A viagem até Congonhas deve durar umas dez horas, caso tudo se desenrole sem problemas. A cidade abriga esculturas em pedra sabão do mestre Aleijadinho. A praça das esculturas é um sabão. Fácil de cair. Queda em cada estação.

Natal pandêmico. Famílias separadas. O melhor presente nos últimos anos. Nada de treta em ceia. Cada macaco no seu galho. Sobram as ligações cordiais. Mainha, agoniada, talvez com o intento em ficar quieta, ligou às 18h.

Manifesta um banzo por conta da perda da prima-irmã Socorro, que partiu há três meses acometida por Covid. Calhou da data da passagem ser o dia 24. Missa de três meses de partida. Nada de ceia. Despeja umas mágoas. Fim de papo. É hora de retomar a breja. As costelas de porco estão no forno. O molho arde no fogão. Tem um nome esquisito.

Docinho (Thulla Esteves) troca mensagens sobre o assamento do Peru com a Guzzi. Em seguida parte para a ligação para os parentes distantes. Mary é a primeira. Ela foi quem  acolheu a Guzzi quando aportou em São Paulo. Mary é esposa do tio de Docinho.  Afetividades daqui. Doçuras de lá.

A bola agora é com o tio. Odontólogo aposentado desde sempre devotado à pinga. Prestes a somar 80 primaveras anuncia em tiro curto diagnostico de cirrose. Parece levar tudo na esportiva. Em seguida conta que já tomou a dose do dia.  “Fazer o que, já tenho os dias contados”, ironiza.

Arritmia, diabetes, hipotireoidismo, hipertensão, cirrose, ansiedade, TOC. O pulso ainda pulsa. “ Égua da genética. PQP”, dispara o tio. A pauta descamba para saúde. O tio acredita da sabença do vírus. Deve tá pensando nas mutações do mesmo. “Nunca mais seremos os mesmos”, acredita.

Pandêmico natal. Nada de carnaval ou show de Roberto Carlos. Na rodoviária, “Patos” dorme no busão. Acorda às 5h pensando em BH. Nem imagina que ainda tá em São Paulo. Uma carreta de combustível tombou, incendiou e tomou as duas pistas. Então, é natal...

“Patos” ficou mais de cinco horas no busão por conta do acidente com a carreta.  Rodovia desobstruída, o pneu fura. Não tá fácil. O bravo mineiro aporta em sua terra natal quase vinte e quatro horas após o seu embarque em viagem que duraria umas dez horas.

Após mais de seis horas o peru assa. Farofa de banana para o acompanhamento. As costelas do suíno arriscam queimar após duas horas. Tudo deu certo. Tudo saboroso. Arroz e purê para as costelas. Brejas, brejas e mais brejas...risos sobre as prosas..chamegos..

Comemos para além do necessário. Sono. A mangueira do vizinho eclipsa a lua em quarto crescente. Porta aberta em solitário corredor acometido por vento forte que emana do rio Tapajós.

 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Mineração na Amazônia: livro analisa a mineração a partir do olhar da mulher

A publicação traz quatro artigos que abordam o impacto da mineração, destacando aspectos que vão para além dos seus efeitos mensuráveis, captando as questões psicológicas e subjetivas do cotidiano das mulheres. O livro conta com ilustrações de Beatriz Belo, artista de Macapá que buscou captar a relação entre corpo e território, central na vida comunitária das mulheres desta região. Leia mais AQUI

Ferrogrão - pesquisa da UFMG alerta para a expropriação que o projeto provocará

Estudo revela que a EF-170, conhecida como “Ferrogrão”, pode impactar 4,9 milhões de hectares de Áreas Protegidas em municípios que somam 1,3 milhões de hectares desmatados ilegalmente. Os dados são do estudo “Amazônia do futuro: o que esperar dos impactos socioambientais da Ferrogrão?”, elaborado pelo Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). [Leia na íntegra] Leia a íntegra em Outras Pavalvras

O esporão de arraia no pé de Arigó é o calcanhar de Aquiles da nossa terra?

 

Orla de Santarém/PA - Porto da Cargil - barcos do lugar..barcos de além rio-mar..

Faz dois meses que Arigó luta com uma ferida no pé esquerdo, na altura do tornozelo. Esporão de arraia o feriu ao afrontar o rio Tapajós. Em tempo de seca do rio é necessário cuidado. É comum as arraias nas beiras.

Os antigos ensinam que é necessário zelo no caminhar, e, é aconselhado arrastar os pés nos beirais dos rios. Desta forma, ao se deparar com o animal, ele segue em fuga e não ataca o estranho visitante de sua morada. A tática reside em não pisar o bicho.

A dor é insuportável, contam os agraciados com o esporão. Falam que dura mais de 24h. Arigó lembra que um colega faz um mês que não consegue se locomover. Pelo fato do amigo não poder se deslocar, o cabra sente-se feliz em poder andar, mas, tá aperreado com a demora na cura da ferida.

O machucado resulta de uma pescaria em praia de Belterra, no Baixo Amazonas. O negro atarracado, de uns sessenta verões é uma espécie de “faz-tudo” de um prédio recém erguido nas proximidades do Mercadão 2000, em Santarém.

Arigó acompanhou um estranho em praia de Belterra, quebrada que ele, apesar de nativo, filho de um cearense com uma caboca do Pará, desconhecia.

Em Belterra, lá no comezinho do século passado, o multimilionário Ford intentou o monocultivo de seringueira. Neste período abundava a migração de nordestinos para a Amazônia. Processo animado pelo governo Vargas.  

Ainda hoje é possível notar resquícios do monocultivo e do maquinário da época. E muita gente a lembrar a história.  Prosa  para muitas garrafas de café.

No prédio do patrão Arigó faz tudo. Mostra os apartamentos vazios a pretensos futuros inquilinos. São quatro andares. Tudo sem elevador.  O homem zela pela limpeza, carrega pacotes e malas de moradores/as.

No dia em que fomos conhecer um apartamento de vista para o rio, uma senhora parecia se deslocar em férias rumo às praias da região.  A senhora branca, portadora de vitiligo, trajava bermuda, chapéu para se proteger de um sol inclemente e óculos escuros.

O negro a ajudou na empreita em descer as malas e sacolas até o portão. No calor do momento não havia reparado para a distinção de classe. Ao papel em condição de subalternização do senhor.

Somente depois, ao retomar a leitura do premiado livro Torto Arado, do geógrafo baiano Itamar Vieira Junior, bem como as lembranças de obras de Dalcídio Jurandir, a situação clareou.

Soma-se ao quadro, o episódio ocorrido em Minas Gerais, aquele em que um professor manteve por longos anos uma senhora negra em condição análoga à escravidão.  Recordei ainda casos de trabalho escravidão na cadeia da produção do açaí no Marajó e em fazendas e carvoarias do sul e sudeste do Pará.  

Não sei exatamente ser esse o caso de Arigó. Ele porta boné, chinelos, camisa e bermudas simples. Tudo desprovido de grife. Tudo adquirido ali mesmo pelos arredores do Mercadão. Tem a fala mansa e pausada. Faz as coisas sem a agonia das horas dos grandes centros. Tem a pressa do balanço das redes ribeirinhas, do navegar de antigas embarcações da região.

Arigó é uma demonização pejorativa dada aos migrantes nordestinos por estas paragens, em particular o cearense. O termo invoca pouca sabença, leseira, matutice, bocó, etc.

Ao contrário do termo desqualificador, na orla da cidade, eles hegemonizam o comercio de varejo. Aquele que vende de tudo: tralha de pesca, panos, roupas, redes, eletrônicos importados da China. E, alguns, militam ainda na agiotagem.  A pratica por aqui mata. Mata quem deve, e também o “emprestador”. Por estas paragens morre o bravo,  morre o manso.

Na cidade os arigós são respeitados pelo apego ao trabalho. Sempre abrem os comércios independentes de feriados pátrios ou religiosos. Mesmo agora, quando do nascimento do filho do Deus, ou do primeiro dia do ano.

Assim como o restante da cidade, a orla passa por profundas modificações. A cidade se verticaliza a olhos vistos. A especulação imobiliária desfila com a desenvoltura de um rinoceronte.

E, em terra de arraias, botos e cuias, até delegado grila e especula, favorece garimpo, e prende quem da floresta intenta cuidar.  

 

Ao largo do rio, o barco segue....Amazonas....Tapajós...Arapiuns....