domingo, 7 de agosto de 2022

A rua sem saída é distante do rio. O rio não fica tão longe da rua sem saída

 



Agosto amazônico. Calor causticante.  Sol inclemente. Uma leseira toma o corpo como se malária fosse. Como se cardume de puraquê acertasse o corpo em cheio num nocaute elétrico. Abrupto esporão de arraia cravado no pé bom de bola.

O suor da testa alcança o olho. Cega. Trópico. Úmido e quente. Quente pra burro. Tal uma buceta em anseio na festa da carne. Bingo de quermesse.  Catedral do amor. Abismo de rosas. O corpo reclama igarapé.  Banho de bubuia. O cio balbucia.

A rua do bairro distante é de terra batida. A rua é assim em todo bairro distante, onde o esgoto viceja como se furo encarnasse. Quando o sol derreia, bacurizinhos tomam as portas das casas de madeira. A sombra rareia. Os adultos disputam um punhado. É assim todas as tardes.  

As crianças soltam pipas, brincam de futebol, tocam campainhas de outras casas em estado menos precário, mães e pais fazem barricadas de fofoca. Tiram meleca do nariz. Cospem no chão. Coçam o saco, ajeitam as calcinhas, ao menos as que usam o apetrecho. Tomam um trago de café quente.

Na rua sem saída, as casas são de madeira e cobertas por telha Brasilit. Inferno de Dante.  É a casa que a fome possibilitou erguer. Casas de gente pobre. Humilde. Barracão de zinco, que a lua quando alumeia toma as frestas do teto.  Casa de gente de outros mundos. Casa de penca de filhos.

Os gitinhos se misturam com a terra. Capitães de areia e de terra. Um exército.  Celebram a vida em meio a cães, urubus e a fome.  Mais urubus que cães.  A fome é robusta por estas bandas. A fome mata. A fome não dá trégua.

As crianças das bandas de cá seriam anfíbios como os filhos do Arapiuns? Os bacurizinhos da rua sem saída estão longe do rio.  O rio não dista tanto assim da rua sem saída. Na rua sem saída, sem asfalto, o esgoto corre a céu aberto. Uma escola municipal homenageia uma família de Confederados.

Uma frutaria poderia ser montada em uma das casas. O quintal vasto abriga açaí, carambola, jambo, manga, jaca, coco, goiaba e outras árvores que não sei identificar.  Um monte de cheiros.

A dona, uma baixinha, vez em quando entoa louvores. Os netos a seguem. Todos desafinados. Os galos fazem a segunda voz.

terça-feira, 19 de julho de 2022

Luta pela terra na Amazônia, lançamento de livro na Unifesspa aglutina famílias de dirigentes sindicais mortos na luta pela terra no Pará

 

           


 

Marabá, sudeste do Pará. Tempo de sol.  O calor é intenso.  Quase insuportável. A floresta cedeu lugar ao pasto desde idos dos anos de 1960.  O Estado financiou a destruição, a concentração da terra e da renda, toda ordem de violência contra as populações locais, em particular camponeses.  

A opção desenvolvimentista a partir do grande capital consagrou o sul e o sudeste paraense como as mais letais do país quando o tema é a luta pela terra.  Um cenário que permanece. Assim como a impunidade.  

Na noite de ontem, 18, com um auditório lotado, Campus I da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), filhos, filhas, viúvas e amigos de dirigentes sindicais, defensores dos direitos humanos e do meio ambiente celebraram os seus mortos e o bom combate realizado por eles.  

A data foi selecionada por conta da passagem dos 40 anos do assassinato do advogado Gabriel Pimenta. O defensor de camponeses foi morto quando somava apenas 27 anos. Ele havia vencido na Justiça um fazendeiro que desejava expropriar camponeses.  

Pedro Batista, jornalista radicado em Brasília, que assina um artigo sobre o irmão dele, João Batista, igualmente assassinado nos anos de 1980, prestigiou o evento, e exaltou a iniciativa e compromisso da universidade pública em alinhamento com as bandeiras populares. O jornalista também é autor de um livro sobre a trajetória de João.

Dona Maria Joel, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR) de Rondon do Pará, viúva de Dezinho (José Dutra da Costa), chegou escoltada por dois PMs.  Faz 21 anos que Dezinho foi assassinado em Rondon do Pará. Foi morto na porta de casa, quando o natal se avizinhava. 


Em pé, Dona Maria Joel. 

O fato da viúva chegar ao local escoltado por PMs em um ato de celebração em memória dos lutadores do povo, evidencia a delicada conjuntura e a continuação do espectro da violência como um elemento que estrutura as políticas de desenvolvimento. Violência naturalizada. Ambiente que o momento do primeiro lançamento presencial do livro afronta. “Não queremos mártires.  O que desejamos contar é a história dos nossos vivos.”, refletiu dona Joel.

Dona Joel e família assumiram a bandeira de luta de Dezinho. Todos os filhos, filhas e netos prestigiaram o lançamento do livro Luta pela terra na Amazônia: mortos na luta pela! Vivos na luta pela terra! O livro resulta de um projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), iniciativa animada pelos professores Rogerio Almeida (UFOPA) e Elias Sacramento (UFPA), em diálogo com o MST, Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Pará (Fetagri), Sociedade Paraense de Defesa de Direitos Humanos (SDDH) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT).



“Fazia tempo que a gente não via esse auditório tão cheio por gente do povo” comentou o professor Evandro Medeiros, da Faculdade de Educação do Campo, da Unifesspa. Uma mística de jovens estudantes e dos movimentos comoveu a todos. Eles recitaram poemas com temáticas de luta pela terra, a começar por João Cabral de Melo Neto. Poemas e canções precedem os 20 trabalhos contemplados do livro, que recupera parte da saga de camponeses e seus apoiadores.

Assim como dona Joel, o professor Medeiros defende a necessidade de construirmos narrativas sobre os combatentes vivos.

O livro aglutina diferentes gerações de lutadores. Os filhos dos sindicalistas mortos, e experientes ativistas, a exemplo de Emanuel Wambergue, um leigo francês que aportou em Marabá nos de 1970 e nunca mais arredou o pé.

Mano, como é conhecido na região foi o segundo coordenador da CPT Norte. Na mesma toada educador Raimundo Gomes da Cruz Neto, conhecido como Raimundinho. Para ele a obra deve servir como um elemento animador da luta.

Além de Marabá, o livro será lançado em Belém, Xinguara, Rio Maria e Santarém, no estado do Pará, e em Imperatriz, no Maranhão, e no segundo semestre, no Rio de Janeiro, com possibilidades de ser lançado também em Brasília e São Paulo.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Kfouri repercute projeto de extensão da UFOPA que debate o delicado cenário de luta pela terra na Amazônia

 

Reserva moral do riscado e um dos mais importantes jornalistas do  país, Kfouri repercutiu hoje, em seu blog, projeto de extensão da UFOPA que trata sobre a luta pela terra na Amazônia.  Abaixo o print. 






quarta-feira, 13 de julho de 2022

Ao pôr do sol no Baixo Amazonas

 


Fim de tarde. Tempo de sol. Calor inclemente. O rio resiste em não recuar. O céu lembra delírios de Van Gogh. Uma explosão de cores.  Tons sobre tons. Uma garça aqui. Outra ali. Urubu abunda por todos os flancos.  O urubu é o cão vira lata da cidade. Em todo canto assalta lixos e lixeiras. 

O Legislativo local deveria conceder ao bicho alguma honraria ou comenda, tão onipresente ele é na urbe. Santarém, cidade carniça. Cidade esgoto. É a pior em saneamento básico do país. Santarém, te quero bem.

Beira de riomar.  Dias estivais. Braçais fazem grana. Brisa para pés inchados. Vez em quando um pato selvagem faz a colheita nos rios. E mesmo botos dão o ar da graça. Nesta época do ano morcegos brincam em vertiginosos rasantes sobre os rios Tapajós e Amazonas, tão bem versejados na obra de Benedicto Monteiro. Morcego topgun.  

À primeira vista os morcegos soam andorinhas. Ledo engano. Morcegos vampirizam orçamento público. Nada de engano. Barra de ouro. Orações sem educação.  Frações de classe. Frações de gente de quinta.  Pátria. Patrimonialismo. Lima Barreto cravou logo cedo. Os Bruzundangas que o diga. Tá uma barra a vida por aqui. Arriscoso. Belicoso.

A orla é a joia da cidade. Fluxos e refluxos de circuitos equidistantes concorrem. Balsas de sojas. Barcos com gentes de todos os cantos. Em todo canto aqui tem gente. Indígena região.  A pilhagem insiste. Aos nativos, resta r-existir. Faz mais de 500 anos que os povos indígenas o fazem. Cabanagem. Eles indicam a contramão da destruição.

A orla é magnética. Famílias afrontam a cidadela com as suas cadeiras de praia. Cadeiras de beira de rio. Cadeiras leves. Alguns carregam tralhas de pesca. Bebidas, comidas e cães. Faça chuva ou faça sol, há sempre alguém a pescar. Uns por esporte. Outros por necessidade de proteína. A fome tomou a cidade. A fome tomou o país. Milícias. Digitais em mortes. Planalto Central.

Uma frondosa palafita abriga espaço para o vasto e diversificado artesanato. Parada para gente de além riomar. Palafita é tecnologia da arquitetura local. Sabença ancestral em selecionar a madeira mais apropriada e durável. Um luxo na encruza.

É milenar o saber. Tão significativo quanto o asiático. Parada de beira de rio. Civilização da várzea. Vanguarda.  Santarém, buracos a consomem tal um câncer. Santarém, coroa, te quero bem.

À frente da palafita, que também é restaurante, uma tela de led jorra anúncios sobre transeuntes. Estranhos tempos selvagens.

A fauna da orla não é exótica. Exceto as pessoas dedicadas ao culto ao corpo. Raro ver alguém armado com um livro na mão. Ambulantes defendem um troco com negócios da China. Venda de brinquedos e diferentes balões. Badulaques. Dia desses ainda pego um para Docinho. Um desses cheios de luizinhas. Como se fossem vagalumes em cela.

Um imigrante negro vende raspa-raspa. Uma mistura de suco com gelo. Os herdeiros de Woodstock também estão por ali. Principais alvos dos “puliça”. Selvagem mundo. Estranho mundo. Se o meu nome não fosse Rogerio, seria Raimundo. Moribundo. Mulambo de gente.

 

Labirintos. Becos, furos, igapós e vicinais. Encantada floresta. Reentrâncias em mim. Léguas e léguas. Mata, água, rio e medo.  Perdido. Aqui, ali e acolá. Desprovido de óculos e lamparina. Visagem. Reles mote de estórias de cantoria de cego em festa de cangaceiro. 


segunda-feira, 27 de junho de 2022

Acesso livre para o livro Luta pela terra na Amazônia: mortos na luta pela terra! Vivos na luta pela terra!

 


20 trabalhos distribuídos por 776 páginas assinados por quase 30 pessoas iluminam parte da história da luta pela terra na Amazônia. Luta pela terra na Amazônia: mortos na luta pela terra! Vivos na luta pela terra! É um projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) coordenado pelos professores Rogerio Almeida e Elias Sacramento, em diálogo com o MST, Fetagri, SDDH e CPT. E contou com o apoio do Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) e da CAFOD para a impressão.   Baixe o livro AQUI

Leia o release AQUI

sábado, 25 de junho de 2022

Lançamento do livro Luta pela terra na Amazônia: mortos na luta pela terra! Vivos na luta pela terra!!!

Agende-se!! Já diz Emicida: tudo que "nóis" tem é "nóis"!!! 




quinta-feira, 23 de junho de 2022

Luta pela terra na Amazônia: projeto de extensão da UFOPA mobilizou filhas, filhos, parentes, amigos e pesquisadores para recuperar a história dos defensores da reforma agrária, direitos humanos e meio ambiente mortos no Pará.

Com quase 800 páginas, o livro contém 20 trabalhos assinados por quase 30 pessoas, onde constam casos de dirigentes sindicais, advogados, religiosos, chacinas e defensores do meio ambiente.  O fotógrafo Sebastião Salgado cedeu fotos do Massacre de Eldorado, enquanto o procurador da República Felício Pontes assina artigo sobre a missionária Dorothy Stang, assassinada em 2005. O lançamento nacional ocorre segunda feira, 27, a partir das 19h, nas redes sociais do jornal Brasil de Fato/RS.


Capa do livro a ser lançado no dia 27, segunda feira, a partir das 19h, nas redes sociais do Brasi de Fato/RS. 

Em meio ao momento delicado que nubla a vida da sociodiversidade amazônica, marcado pelo aceno que se ergue a partir do governo nacional em favor de toda ordem de violência, em alinhamento com os setores mais conservadores da nossa sociedade, um livro brota dos sertões da Amazônia, tendo como ponta de lança filhas, filhos, amigos e familiares de dirigentes sindicais, defensores dos direitos humanos e do meio ambiente que tombaram nas jornadas da luta pela terra no Pará. Além de familiares e amigos, educadores e pesquisadores assinam relatos que contemplam casos de assassinatos e chacinas nos anos considerados os mais sangrentos, a década de 1980, mas, não se restringe à ela.

A violência nas paragens da região é uma constante. Uma questão estrutural, como atesta os recentes acontecimentos transcorridos no Amazonas, que redundou no assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips. Categorias antes não alcançadas. As violências são digitais do processo da integração subordinada da Amazônia aos circuitos econômicos mundiais. Há sangue em todas as latitudes. Sangue de indígenas, quilombolas, camponeses e das pessoas a eles alinhados, como advogados e religiosos, entre outros sujeitos.

Os fotógrafos Sebastião Salgado, Miguel Chikaoka, o procurador da República Felício Pontes e o padre Ricardo Rezende, o jornalista Lúcio Flávio Pinto constam entre os colaboradores do livro Luta pela na Amazônia: mortos na luta pela terra! Vivos na luta pela terra!, a ser lançado no dia 27 de junho, a partir das 19h nas redes sociais do jornal Brasil de Fato do Rio Grande do Sul.  E presencialmente no dia 18 de julho, na cidade de Marabá, quando a execução do advogado Gabriel Pimenta soma 40 anos de impunidade.

Com quase 800 páginas, ricas em iconografia (fotos, cartazes e recortes de jornal), o livro resulta de projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), do curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional, em diálogo de mais de dois anos com o MST do Pará, a Federação dos Trabalhadores dos  Rurais do Estado do Pará (Fetagri) sudeste, a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o jornal Brasil de Fato do Rio Grande do Sul. Para a impressão da obra, o projeto conta com o apoio do Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras). Os professores Rogerio Almeida (UFOPA) e Elias Sacramento (UFPA), campus de Cametá coordenam a iniciativa. Sacramento, doutor em História pela UFPA, teve o pai assassinado na década de 1980, o senhor Virgílio, na região de Moju, nas proximidades de Belém.

Seis seções dão corpo à obra: i) Camponeses, onde são realçados nove casos, entre eles, o de Raimundo Ferreira Lima (Gringo), João Canuto, Expedito Ribeiro, Virgílio Sacramento, José Dutra da Costa (Dezinho), Avelino Silva; ii) Massacres, que contempla os casos da Chacina Ubá, Chacina da fazenda Princesa e o Massacre de Eldorado; iii) Gabriel Pimenta, João Batista e Paulo Fonteles integram o bloco dedicado aos advogados que combateram o latifúndio, enquanto que no item iv) Irmã Adelaide, padre Josimo e a Romaria das Meninas compõem a seção dedicada aos religiosos; v) na parte dedicada à entrevistas dão corpo à seção os relatos do Padre Paulinho, ex-coordenador da CPT do Pará, e o recém falecido dirigente camponês do Maranhão, Manoel da Conceição; e por fim, vi) o anexo faz um resumo sobre casos de mortes e o andamento dos processos.   

São 20 trabalhos produzidos por quase 30 pessoas. Ao todo, o projeto mobilizou pouco de mais de 50 pessoas, entre autores, revisores, diagramadores, pessoas que fizeram cessão de fotos, gente que coletou documentos nos arquivos da CPT em Belém e Marabá, extensionistas, animadores de redes sociais e comunicadores.


Registro de Sebastião Salgado quando do deslocamento dos corpos dos sem terra executados pela PM do Pará, Eldorado, 1996. 

Felício Pontes assina artigo sobre a missionária Dorothy Stang, ombreado pelo padre Amaro, agente da CPT em Anapu, sudoeste do estado, onde a missionária e igualmente agente da CPT foi assassinada em fevereiro de 2005. Por lá, no Lote 96, as tensões permanecem. Fazendeiros e pistoleiros diariamente ameaçam os moradores e lideranças. Permanências de uma democracia esgarçada, marcada pela concentração da terra e da renda, o Estado autoritário, as coerções públicas e privadas. Toda ordem de abuso contra os mais fragilizados. Assim como Dorothy, Amaro sofre todo tipo de pressão: ameaças, criminalização por conta da missão que desenvolve junto aos camponeses, e até preso foi.

Filhas, filhos, viúvas assinam artigos sobre a memória dos seus

José Dutra da Costa (Dezinho), dirigente sindical e quadro da Fetagri sudeste do Pará foi executado em 2000 na porta de sua casa em Rondon do Pará, quando o natal se avizinhava. Grileiros de terra, fazendeiros e madeireiros estavam incomodados com a atuação do presidente do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR) do município. 

O nome de Dezinho chegou a constar na lista de pessoas marcadas para morrer por conta do combate que realizada pela reforma agrária. As autoridades do Estado sabiam. Todos sabiam. Nada foi feito. A hoje advogada e filha do dirigente sindical, junto com a viúva assinam o relato, Joélima da Costa e Maria Joel, respectivamente.  Com o assassinato de Dezinho, dona Maria assumiu a direção do sindicato. Assim como o esposo, dona Joel viveu e ainda vive, inúmeras situações de ameaça.

A professora da rede pública e mestra em História pela UFPA, Luzia Canuto, narra a saga do pai, João Canuto. Como Dezinho, Canuto foi morto em dezembro. O crime ocorreu no dia 18. João foi morto  com 18 tiros desferidos à queima roupa. Anos depois três filhos de Canuto foram sequestrados. Somente um sobreviveu, Orlando. Entre os acusados das atrocidades na cidade de Rio Maria, sul paraense, constam fazendeiro Vantuir Gonçalves Cardoso e o político Adilson Laranjeira. Eram tempos da União Democrática Ruralista (UDR). Instituição animada pelo hoje novamente governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Execuções e chacinas notabilizaram o sul e sudeste do Pará como as regiões mais delicadas na luta pela terra do Brasil.  E permanecem como área de risco.  Como outros casos marcados pela impunidade, o recurso usado pelos defensores dos direitos humanos foi apelar para Organização dos Estados Americanos (OEA) como forma de responsabilizar o Estado Brasileiro. O caso mais recente que tramita na OEA é do advogado Gabriel Pimenta.

Em 2011 foram mortos na cidade de Nova Ipixuna, nas proximidades de Marabá, o casal de agroextrativistas José Cláudio e Maria do Espírito Santo, no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Praia Alta Pinheira.  O único nesta categoria nas regiões que aglutinam mais de 500 projetos de assentamento. Muitos batizados com os nomes dos dirigentes assassinados. A maioria dos projetos foi reconhecido após o Massacre de Eldorado, ocorrido em 1996.

A morosidade do Incra é colocada como um dos fatores que redundaram na tocaia que matou o casal, que também teve os nomes em listas de marcados para morrer. Os irmãos de José, a advogada recém formada, Claudelice Santos é quem assina o artigo junto com Claudenir.  Ela e família assumiram a bandeira ambientalista do casal.  Claudelice fez parte de uma turma de Direito da Terra, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa). Uma criada e  direcionada para pessoas ligadas à defesa da reforma agrária, direitos humanos e o meio ambiente.

Oficialmente o Estado do Pará declara que no Massacre de Eldorado, ocorrido na Curva do S, na cidade de Eldorado do Carajás, em 1996, 19 trabalhadores rurais ligados ao MST foram mortos pelas tropas da PM. A ordem partiu do ex- governador já falecido, o médico Almir Gabriel (PSDB), que tinha como secretário Paulo Sette Câmara.  As tropas foram comandadas pelos militares Major Oliveira e o coronel Pantoja. Os laudos comprovam que boa parte dos 19 sem terra foram executados à queima roupa.  Da cúpula de mandantes, somente Oliveira encontra-se vivo. Assim como em outras casos, o manto da impunidade cobre o caso. Os advogados José Batista Afonso e Carlos Guedes assinam o artigo.

O sangue não conhece cercas na Amazônia. A História da “conquista” da fronteira é uma história de expropriação de suas populações e assassinatos. Situações amalgamadas por precárias investigações, processos morosos e inconclusos no Judiciário – quando os mesmos chegam a ser instaurados -, este célebre por sua parcialidade em situações de conflitos que envolvem grandes corporações, grileiros de terras e fazendeiros e a sociodiversidade local da região.

“Quem não vive na Amazônia não sabe como o perigo nasce e descamba com o sol e vem ainda com a noite, cotidianamente” esclarece o belo texto de Júlia Iara, militante do MST/MA, quando da passagem de 21anos do Massacre de Eldorado, em 2017.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Amazônia, um rio de sangue sem fim...

 O livro Luta pela terra na Amazônia: mortos na luta pela terra!Vivos na luta pela terra! Conta parte das violências contra camponeses e seus apoiadores. A obra de ver lançada na semana que vem (versão digital). 


Raimundo Ferreira Lima, mais conhecido como “Gringo” foi executado por pistoleiros em maio de 1980, quando somava apenas 43 anos, em São Geraldo do Araguaia, sudeste paraense. Além de sindicalista em Conceição do Araguaia, Lima era agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Gringo foi o primeiro dirigente sindical assassinado na região imortalizada como a mais violenta na luta pela terra no país. O principal suspeito pelo sequestro e execução do sindicalista, quando o mesmo retornava de evento em São Paulo, recai sobre o fazendeiro Neif Murad, relata uma das edições do boletim Grito da PA 150.

João Canuto de Oliveira foi assassinado com 18 tiros desferidos à queima roupa, na tarde do dia 18 de dezembro de 1985, em frente ao cemitério da cidade. O crime sucedeu por encomenda dos fazendeiros Adilson Carvalho de Laranjeira (ex-prefeito de Rio Maria) e Vantuir Gonçalves, proprietário da fazenda Estrela do Pará. Dois pistoleiros não identificados realizaram a missão.

Como em outros casos, estima-se que pelo menos 20 pessoas empenharam recursos para viabilizar a execução do sindicalista, entre eles, fazendeiros, políticos e comerciantes.  Vivia-se sob a ameaça constante das ações da União Democrática Ruralista (UDR), entidade articulada pelo médico, fazendeiro e político Ronaldo Caiado, governador de Goiás.

O poeta, sindicalista e militante do PC do B Expedito Ribeiro tombou no dia 02 de fevereiro de 1991, no município de Rio Maria, sul do Pará, quando presidia o Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município.  O pistoleiro Serafim de Sales (Barrerito) foi o encarregado da encomenda realizada pelo fazendeiro Jerônimo Alves de Amorim.

As execuções de outros dirigentes e ativistas precederam a morte de Ribeiro, a exemplo dos assassinatos de Gringo e membros da família Canuto, João (patriarca), José, Paulo e um atentado à bala de Orlando (filhos).

Filho de camponeses da cidade de Votuporanga, São Paulo, nascido no ano de 1952, João Batista antes de tornar-se advogado de camponeses, foi vaqueiro e boiadeiro.   Ainda criança correu São Paulo, Minas Gerais e Goiás com o pai Nestor Antônio Batista a tocar tropa de cavalos, burros e bois.

Após escapar de inúmeras emboscadas, o deputado estadual João Batista foi morto em dezembro de 1988, no fim da tarde, quando chegava em sua casa. O jornalista e militante Pedro, irmão de João, conta a trajetória do advogado dos camponeses, morto quando somava apenas 36 anos.

No próximo dia 18 de julho o assassinato do advogado Gabriel Pimenta somará 40 anos. Gabriel foi morto em via pública no final da convenção municipal do PMDB de Marabá, sudeste do Pará. Ao sair à rua, Gabriel Pimenta foi covardemente assassinado com três tiros de revólver, desferidos a curta distância pelo pistoleiro José Crescêncio de Oliveira, contratado pelo chefe de pistolagem José Pereira Nóbrega, o Marinheiro, sócio de Manoel Cardoso Neto, o Nelito, que vinha a ser irmão do governador de Minas Gerais, Newton Cardoso (PMDB). Gabriel Pimenta tombou sem vida aos 27 anos de idade. Paulo Fonteles, igualmente advogado foi morto no ano de 1987 na região metropolitana de Belém. Todos os advogados eram defensores de posseiros.

Ninguém escapava à sanha dos fazendeiros, que articulados a partir de consórcios elegiam quem deveria morrer.  Assim também fomentaram chacinas.  A CPT indica em seus registros a existência de cerca de 40 chacinas na década de 1980, com o saldo de 212 mortes. Dos 40 casos, em apenas dois foram iniciados os processos de apuração: as chacinas do Castanhal Ubá e da Fazenda Princesa ocorridas no Pará.

Josimo Tavares, o padre negro de sandálias surradas, foi assassinado quando somava 33 anos, na cidade de Imperatriz, no oeste do Maranhão, região do Bico do Papagaio, quando atuava na Comissão Pastoral da Terra (CPT), no dia 10 de maio, de 1986, por volta do meio dia. Josimo foi executado no dia dedicado às mães, quando adentrava a sede da CPT. Irmã Adelaide Molinari foi morta nos anos de 1990 em Eldorado do Carajás, enquanto Dorothy, também uma agente da CPT foi assassinada em fevereiro de 2005. 

Em 1996 a PM do Pará foi a ponta de lança do Massacre de Eldorado. Oficialmente 19 homens foram brutalmente executados. Alguns com tiros à queima roupa.  A Amazônia tem se configurado como um rio de sangue sem fim.  Rio seguido por uma pororoca de impunidade.

 

Os que defendem a reforma agrária, o meio ambiente e os direitos humanos possuem a morte como sombra. Sempre a espreitar. Os que se alinham a estas bandeiras  correm o mesmo risco.

O sangue não conhece cercas na Amazônia. A História da “conquista” da fronteira é uma história de expropriação de suas populações e assassinatos. Situações amalgamada por precárias investigações, processos morosos e inconclusos no Judiciário – quando os mesmos chegam a ser instaurados -, este celebre por sua parcialidade em situações de conflitos que envolvem grandes corporações, grileiros de terras e fazendeiros e a sociodiversidade local da região.

“Quem não vive na Amazônia não sabe como o perigo nasce e descamba com o sol e vem ainda com a noite, cotidianamente” esclarece o belo texto de Júlia Iara, militantes do MST/MA, quando da passagem de 21 do Massacre de Eldorado, em 2017.

Na Amazônia posseiros, sem terra, indígenas, quilombolas e demais categorias e seus simpatizantes e apoiadores vivem sob risco constante. Risco turbinado com o presente governo, que acena com a licença para matar.

Parte destes casos consta no livro Luta pela terra na Amazônia: mortos na luta pela terra! Vivos na luta pela terra!, a ser lançado na semana que vem.  A obra resulta de projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) em parceria com o MST, Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará (Fetagri), Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Rogerio Almeida (UFOPA) e Elias Sacramento (UFPA), filho do sindicalista Virgílio, morto em Moju, Pará, em 1987, são os professores responsáveis pela obra que soma mais de 700 páginas.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Esmeralda, a pedra do amor

Inspirada em fatos inverídicos 



(Be3Al2(SiO3)6) é a composição química da gema esmeralda. É preciosa. Incide no Brasil, Zimbábue e Afeganistão. É tida como rara. Os esotéricos a consideram a pedra do amor e da estabilidade financeira. A corda e a caçamba.

Desprovida de grana e de amor, Esmeralda correu o Nordeste para a cidade grande. Baixou São Paulo. Tom Zé defende que São Paulo é a maior cidade nordestina fora do Nordeste.

A nordestina Esmeralda trabalhava na casa de branco. Fazia de tudo: limpar casa, lavar e passar a roupa e preparar o rango. Trabalhava para um povo que se dizia de Portugal. Bandas da Água Rasa.

O cabra fazia contabilidade, trambiques e afins. Tinha como deleite os braços da agiotagem. Uma valsa aqui. Outra ali. De pinote em pinote levava a vida perdulária. Quando as tramas rodavam a favor juntava o povo para passear em litorais do país. O insano pelo Corinthians fez a cabeça da filha. Todavia, o caçula bandeou Barra Funda.

O velho infartou no dia em que o menino declarou o seu amor ao Porco. E, pior, na ocasião em que o muleque vibrou com gol do rival em plena via pública...garoto sem coração....nem ligou para o pai tombado ao chão...

A mulher do portuga era da Educação. Havia sido miss ou rainha de alguma coisa no interior.  Achava-se a Marilyn  por conta dos zoio. Não devotava trabalho. Passava mais tempo no estaleiro. Acumulava licenças.  Por milagre conseguiu aposentadoria. Sabe Deus como...

A dona era uma verdadeira comédia. Após se apartar do Portuga virou habitue de bailes da melhor idade. Curtia uma birita com o mesmo afã em que fugia do trabalho. Num dos bailes furou blitz.

Ao ser alcançada pela viatura tentou carteirada. Tretar era a sua especialidade. Para a guarda de baixa estatura disparou: “Oh baixinha, tu sabes com quem está falando? Eu sou professora....se a memória não trai, coube ao torcedor do Porco acudir a dona educadora na delegacia...vexame? Mas qual o quê....

A dona educadora tinha como esporte a mudança da cabeleira. Amontoava perucas em todo canto do quarto. Em um tobogã de parque aquático durante deleite de fim de semana familiar, perdeu o adereço capilar. Ao se certificar da perda durante a descida, convocou o amasio: oh Manoel, ache a minha peruca....oh homi emprestável...gritava...para a alegria dos convivas

Um dia atrás do outro. Até que, certo dia, Esmeralda acordou com a pá virada. Danou-se que não batia bem da cachola. Incorporou tanto o personagem que acabou no Juqueri. Tomava remédios e choques na cabeça.  Por conta da encenação, passou a receber pensão, e o Cinema Novo perdeu uma estrela. Oh Glauber....

O portuga ficava ressabiado com a secretária. Temia que ela tivesse um acesso e colocasse vidro moído em sua vitamina afrodisíaca. Além da “conge”, o sujeito enfileirava outros amores. Tomar o “elixir do amor” fazia parte da rotina do Manoel.  Uma espécie de obrigação de cardíaco. Remédio de uso contínuo..

A inquilina do Juqueri teve um enlace com um indígena. O originário tinha habilidades de corte e costura. Assim como Lampião. Só não metia peixeira em bucho alheio.  Quando Esmeralda bateu as botas, ninguém sabia o que fazer. Menos ainda para onde mandar o corpo.

Todos desconheciam parentes. Esmeralda não era ninguém. Ninguém sabia quase nada da gema de coloração esverdeada. A pedra preciosa da estabilidade financeira e do amor.

domingo, 29 de maio de 2022

Vale mantém perseguição contra professor no interior do Pará, apesar de duas derrotas na Justiça

A mineradora processa o professor Evandro Medeiros cível e criminalmente por conta da participação dele em manifestação em solidariedade aos atingidos pelo crime que a Vale cometeu em Mariana/MG em 2015. O ato de solidariedade ocorreu em Marabá, sudeste do Pará.

Evandro Medeiros na EFC. Foto: Alexandra Duarte

No começo do mês de maio a Vale teve mais um recurso contra a vitória dos advogados do professor Evandro Medeiros negado. Na decisão do procurador do Ministério Público do Pará, Hezedequias Mesquita da Costa, ele sublinha a ausência de materialidade dos crimes que a mineradora imputa ao professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), onde realça que “Observa-se que o acervo probatório foi vastamente analisado pelo Egrégio Tribunal de Justiça do Pará, que concluiu pela inexistência de provas da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria contra EVANDRO COSTA DE MEDEIROS.” Veja a íntegra do documento AQUI

A Vale processa cível e criminalmente o professor pelo fato dele participar dele participar de um ato em solidariedade às pessoas atingidas pelo crime da Vale em Mariana, Minas Gerais, ocorrido em 2015. 

Após mais uma derrota a mineradora resolveu mobilizar esforços no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A sanha da Vale contra o professor Medeiros iniciou em 2015. O processo teve impacto da saúde do educador, e acarretou em obstáculos quando o mesmo cursava doutorado, além de constrangimentos dos filhos. 

Sobre as acusações da Vale contra o professor Evandro Medeiros leia mais AQUI.

Vale processa quase 200 pessoas - Espionar movimentos sociais, dirigentes, educadores e processar quem denuncia os abusos que a mineradora promove em seus locais de operação tem sido um modus operandi da Vale.  O total beira a casa de duas centenas, conforme reportagem da Agência Pública de 2017.

 

Posseiros, sem terra, lavradores, quilombolas e  educadores de pequenas cidades e vilarejos da área de influência da Estrada de Ferro de Carajás (EFC) são alguns dos alvos preferências da mineradora.

A ferrovia de aproximadamente 900 km, liga o sertão do Pará, a região de Carajás, sudeste do Pará, ao litoral do Maranhão, São Luís. A EFC foi duplicada por conta do maior projeto da Vale, o S11D, que explora ferro na cidade de Canaã de Carajás. As cifras do projeto são de bilhões de dólares. 

O mercado asiático é o maior consumidor do minério extraído no Pará. As duas cidades de Carajás, Parauapebas e Canaã juntas exportam mais que o município de São Paulo. No ano passado o Pará contou com o maior saldo na balança comercial do país. Tudo por conta da exportação de minérios. Situação que não se reflete na melhoria de indicadores socioeconômicos da região e do estado.

O economista e professor da UFPA, Gilberto Marques, alerta que a se considerar os indicadores do último censo do IBGE de 2010, o Pará ocupa a antepenúltima colocação em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), apesar de toda contribuição do PIB nacional, e do fato de ter superado o estado de Minas Gerais na exportação mineral. 

Um quadro que alerta sobre o cenário marcado pela pilhagem, saque e violências, estas traduzidas com assassinatos e chacinas de camponeses, ambientalistas, defensores dos direitos humanos, trabalho escravo, desmatamento e grilagens de terras.

Sobre grilagens de terra em Carajás, vale a pena a leitura da tese em Geografia apresentada na USP do professor Marcelo Terence, do IFSP. Baixe AQUI

Espionagem de movimentos sociais – o mesmo site do jornalismo independente alertava em 2013 para o serviço de espionagem que a Vale mantinha contra movimentos sociais, educadores, ativistas, religiosos, e mesmo jornalistas.

Segundo a reportagem, constavam na lista de espionados o educador Raimundo Gomes, radicado em Marabá/PA, o militante do Movimento pela Soberania na Mineração (MAM), Charles Trocate, residente em Parauapebas/PA, padre Dário, missionário Camboniano, na época morador da cidade de Açailândia/MA e um dos animadores da rede Justiça nos Trilhos, além do reconhecido jornalista especialista em Amazônia Lúcio Flávio Pinto.  Leia AQUI

sexta-feira, 27 de maio de 2022

"Gringo" Raimundo Ferreira Lima, presente! Há 42 anos o dirigente e agente da CPT era assassinado na região do Araguaia paraense

Os anos de 1980 são considerados os mais letais na luta pela terra no Pará. Sequestro, tortura, assassinados e chacinas faziam parte da Doutrina de Segurança Nacional do Estado, onde a coerção pública e privada imperavam contra os posseiros e seus aliados. 

 


Raimundo Ferreira Lima, mais conhecido como “Gringo” foi executado por pistoleiros no dia 29 de maio de 1980, quando somava apenas 43 anos, em São Geraldo do Araguaia, sudeste paraense. Além de sindicalista em Conceição do Araguaia, Lima era agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Junto a outros companheiros, Gringo empenhava esforços em tomar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais das mãos dos pelegos. Tomar os sindicatos era uma das pautas da época do movimento camponês, o que ficou conhecido como Oposição Sindical. Neste período o major do Exército, Sebastião de  Moura, Cuiró, pregava o terror contra camponeses e seus apoiadores, em particular contra religiosos.

Gringo foi o primeiro dirigente sindical assassinado na região marcada pela aguda  disputa pela terra no sudeste e sul do estado do Pará. Trata-se da região mais violenta do país no que tange à luta pela terra. Após Gringo foram executados membros da família Canuto, a exemplo de João, e em seguida o também dirigente sindical e poeta Expedito Ribeiro na cidade de Rio Maria. 

Registro da revista Pará Agrária da época sobre violência no campo do Pará. 


Mais de 40 anos após a execução de Gringo as matanças de dirigentes sindicais, ambientalistas, defensores de direitos humanos e camponeses permanece como marca indelével do avanço do grande capital sobre a fronteira amazônica. 

O caso mais recente recai sobre a chacina da família José Gomes, conhecido como “Zé do Lago” (61), a esposa Márcia Nunes Lisboa, (39) e a filha de 17 anos, Joane Nunes Lisboa, ocorrida em São Félix do Xingu em janeiro deste ano.  Em 2017 as policiais civil e militar assassinaram na cidade de Pau D´arco 10 camponeses da Liga dos Camponeses Pobres (LCP). E, em seguida, mataram a principal testemunha do caso, o igualmente camponês Fernando Araújo dos Santos em janeiro de 2021.

 

Os anos da década de 1980 são considerados os mais violentos nas margens dos rios Araguaia-Tocantins. Anos da criação da União Democrática Ruralista (UDR), braço armado dos ruralistas.

 

A organização foi articulada pelo médico e ruralista Ronaldo Caiado. Hoje, novamente, governador do estado do Goiás. A UDR assina inúmeras ações de violência que ceifaram a vida de posseiros, sindicalistas, agentes pastorais, advogados e dirigentes sindicais.

 

Neste processo de coerção em oposição à luta pela terra amontoam-se  militares de todas as estirpes e patentes, das forças armadas, relevo ao Exército, e as policias civil e militar.

 

Naqueles tempos o ambiente era tomado pela doutrina da segurança nacional. Tensão agudizada por conta do episódio da Guerrilha do Araguaia. A militarização imperava, em particular com a presença do Exército.

 

O principal suspeito pelo sequestro e execução do sindicalista Gringo, ocorrido em São Geraldo do Araguaia, quando o mesmo retornava de evento em São Paulo, recai sobre o fazendeiro Neif Murad, relata uma das edições do boletim Grito da PA 150. Jornal animados por leigos, religiosos e camponeses da região.

 

A formação de consórcio por parte dos ruralistas para eliminar os seus adversários, assim como hoje, era recorrente. E, ainda as listas de pessoas ameaçadas pelos fazendeiros e políticos da região. No caso de Gringo, suspeitas recaiam também sobre o então deputado estadual, o médico e pecuarista Giovanni Corrêa Queiroz, natural de Minas Gerais. O mineiro, desde sempre, integrou a “bancada do boi”.

 

Mais tarde a viúva, Maria Oneide Costa Lima, e outros agentes pastorais, após o assassinato do sindicalista, passaram a receber ameaças, e cartas anônimas colocadas sob a porta da casa pastoral, e ameaças de servidores do Grupo Executivo das Terra do Araguaia Tocantins (Getat) – instituição sob a tutela do Exército - como alerta a edição de nº 27 do Grito da PA-150. O nome de Gringo hoje nomeia uma escola pública em São Geraldo do Araguaia e o caso sobre a sua execução nunca foi a julgamento.

 

Violências - O boletim Grito da PA 150 ressalta ainda um episódio considerado um dos mais violentos contra os religiosos engajados na luta junto aos posseiros. No dia 31 do mês de agosto a Polícia Federal prendeu 13 posseiros do município de São Geraldo do Araguaia e os padres franceses Aristides Camilo e Francisco Goriou sob a acusação de incitação à desobediência civil. “Tudo indica que o ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel, com base no inquérito realizado pela Polícia Federal e instruído pelo Departamento Federal de Justiça, avaliou que a presença dos religiosos é “nociva” aos interesses e segurança nacionais, e sugeriu a expulsão de ambos”.  

 

Bispos do Araguaia presos pelo Exército na década de 1980. Fonte: site Memória da Democracia. 

Ativistas da época contam que a prisão dos religiosos provocou uma grande mobilização. Consta no rol de atos realizados pela soltura deles ocupar a procissão do Círio de Nazaré com faixas e cartazes pedindo a soltura dos missionários. Prender e torturar fazia parte do modus operandi dos agentes do regime. Na década de 1970, quando a agenda residia em sufocar a Guerrilha do Araguaia, o padre Roberto de Valicourt passou por experiência semelhante.  

 

Tem-se neste contexto o papel autoritário do Estado, e associação do mesmo com frações de classe do país e o grande capital nacional e internacional na apropriação de vastas extensões de terra na Amazônia. Bancos Econômico, Bradesco, Bamerindus e a empresa Volkswagen figuram como alguns beneficiários. Além de várias famílias das elites do Centro Sul do país. Muitas presentes na região, ainda hoje. A animar novos conflitos, execuções e chacinas.  

A saga de Gringo, João Canuto, Expedito Ribeiros, Irmã Dorothy, Padre Josimo Tavares, Paulo Fonteles, João Batista, Gabriel Pimenta, dentre outros, integra projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) sobre a luta pela terra na Amazônia. O livro deve ser lançado ainda em julho deste ano.

 

 

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Travessões amazônicos

 

Travessão nos rincões amazônicos é muito mais que a haste superior da baliza do goleiro. Ele leva ao âmago do coração de lugar nenhum no meio do nada. No meio de tudo, quando em tempos remotos predominava uma frondosa e densa floresta. Lonjuras e distâncias onde um intrépido passeante ocasional duvidaria que alguém ali moraria.

Manejo de gado na Transamazônica 

A denominação de Travessão predomina a sudoeste do estado do Pará. Noutras paragens, vicinal é o termo adotado. Uma imagem de satélite sobre a Transamazônica destes beirais, sugere uma espinha de peixe, onde a rodovia seria a coluna dorsal, e os travessões as espinhas.

Esse conjunto de travessões encarna vetor de povoamento e de saque da floresta. Legal e ilegal, com ênfase ao segundo.  Projeto de colonização do século passado. O slogan todos conhecem. O enquadramento do vazio demográfico. Aquela parada da terra sem homem.  

Uma parte expressiva da rodovia dos milicos ainda desconhece o asfalto. Em particular a fração a oeste, entre Rurópolis e Uruará, onde impera o saque ilegal de madeira, marcado pela presença de uma gambiarra batizada de Transuruará. Alguns a denominam de atalho para alcançar Santarém de forma mais ligeira. Vice-versa. A desventura não paga o risco.

Ali o bicho pega. O coro come. Todo mundo sabe da ilegalidade. Até os carrapatos dos bois, que aqui e ali, quando da passagem diurna pela rodovia, mais parecem bolinhas de algodão em meio ao pasto. Réstias de floresta, cercas, pasto, estrada de chão e inúmeras pinguelas sobre igarapés e riachos imperam entre Santarém à Marabá. Uns 1.200 km, aproximadamente.

Pinguela  na Transamazônica. A ponte improvisada é feita a partir da madeira da floresta

Aventura dura 24h de busão, com direito a restaurantes avaliados por cruzes, e não por estrelas.  A ordem é fazer o sinal de cruz e invocar uma proteção.                       

Esguia, alta e loira, uma jovem grávida, com um menino acomodado no dorso e puxando mais uns três barrigudin, pede ao motorista do busão que pare nas proximidades de uma bodega. Ali existe um Travessão. Muitos dos motoras já conhecem os moradores e as referências dadas. Surpreende a capacidade em identificarem, mesmo no escuro breu em noite de chuva, o Travessão onde residem.

A moça e a sua prole destoam dos traços, vocabulário usado e sotaque que marcam o povo originário das bandas de cá. A moça e sua trupe integram um exército de camponeses expropriados do Sul, quando a partir de lá, uma tal “revolução verde” os expulsou para estas latitudes. Expropriados de suas posses sentaram praça na “estranha” selva.

Na página 18 do Jornal Bandeira 3, editado em 1975 pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto, esclarece que o projeto do governo era assentar nas proximidades de Altamira umas 2 mil famílias de camponeses do Sul do país.  

A meta era incrementar a produção mecanizada de ciclo curto e perene, com a utilização de adubo e corretivos químicos. Com a colaboração de cooperativa do Vale do Juí o projeto ambicionava comercializar além da madeira, os produtos da roça. A colonização oficial tinha denominação de Projeto de Integração e Colonização (PIC).

Tristes trópicos. Muitos tombaram de bala ou malária. A bala que tomba sem-terra não mata saudade. Travessões. Vicinais. Vicissitudes. Violência em Estado bruto e puro à paisana ou farda, com as benções da vossa excelência Justiça.

Ao contrário da terra de trabalho que almejava, o errante encontrou na cova rasa a terra que queria ver dividida. Ah, João, Ah, Cabral....Ah, Josué, nunca via tamanha desgraça...quanto mais sonho se tem, mais urubu ameaça...