quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Ver o Peso de minhas saudades...


 


“30 real o pendrive com mais de mil músicas. Música para chifre a dar de pau. Promoção”, anuncia o equipamento de som montado sobre uma bicicleta, sob um sol inclemente e um Ver o Peso coalhado de gente.

Agonia em ziguezague. Ruído ao redor. Frigideiras em chamas. Peixe, fígado, frango e carne. Mini saia. Mini blusa. Frondosas mamas ao calor. Fios de suor. Vida por um fio. Boca sem dentes. Cigarro ao canto. Pandemia em carnaval.

O locutor da sonora  bicicleta anuncia furo de reportagem: “tomem conhecimento. Nova onda do corona se aproxima. Fiquem em casa. Ela pegará somente os cornos”.  Existe uma tara sobre o tema em Belém. Nem José escaparia à galhofa. Sobraria para o Espirito Santo o papel de pé de pano.

Taxar o outro de corno é quase uma instituição na capital paraense. Qualquer dia desses um edil propõe uma data oficial no calendário municipal. Fico a imaginar a comemoração....

É recorrente entre os “motora” de busão o aceno da mão com dois dedos em sinal de chifre. Nas “rádia” da cidade os programas mais populares celebram o fenômeno. Fazem dedicação aos acometidos pelo “mal”, colocam no ar provocações de ouvintes contra colegas de trabalho ou de bar.  

Pedintes. Ambulantes. Hippies. Camelôs.  Meninas em enlace de mãos. Adiante a senhora adverte transeunte: “atente com pulseiras, cordões e brincos”. Faz mais de 20 anos que ando pelo Veropa. Nenhum B.O até o momento. Até celular já esqueci em barracas e o mesmo foi devidamente devolvido.

Há três anos não pisava na área. Indaguei do marajoara Tadeu para a dona Socorro, vizinha de barraca, ela informa que o mesmo operou de vesícula. “Tamo aqui tocando a firma dele enquanto ele se recupera”, comunica.

Pergunto do Jean, o “Coração de Boi”, no caso em questão, não se trata de relação com chifre, mas, uma anomalia que o mesmo diz ter – coração grande -, o que o impede de fazer trabalhos braçais.

No entanto, o mesmo sempre é visto a bailar em festas de aparelhagem em excelente performance, a esbanjar saúde.  Ele negociava CDs e DVDs nos gloriosos dias da pirataria.

Não vi o menino que organizava a roda de samba aos sábados. Vende de tudo. O cabra se defendia na percussão e no canto. Saca toda a discografia do Bezerra.  A “banda” é formada com a turma do mercado. No Ver o Peso o peão tem de jogar nas 11. Se virar como for possível.  

A paga da roda de samba era o litrão para a galera. Vez em quando rolava até tira-gosto.  Também não enxerguei um fiel escudeiro do sambista. A dupla formava uma espécie de Cosme e Damião do pedaço. Ele negociava isqueiros.

Notei ao largo a senhora negra, que mediava sexo com jovens para os veteranos do espaço. Vez em quando andava com uma criança. Dizia que era neta. Uns alertavam: “qualquer dia tu puxas uma cana por conta disso”.  Uma das pernas parecia bem inchada. Vender panos de cozinha é o caô por ela aplicado. Parecia bem acabrunhada. Assim como um tatuador de obras rotas. Um das antigas. Velhos barcos de trapiche sem idas e vindas.

Outro “brother” das antigas, que vi em cadeira de rodas após ser agraciado por batida da “puliça” e ser alvejado por vários tiros, tá roliço.  Tá toba, como se diz em minha terra. Quando em recuperação pelos tiros recebidos, ele rodava o mercado de cadeira de rodas auxiliado por um ajudante. Uma das pernas era cheia daqueles ferros de recuperação. Ele é do DI (Distrito Industrial), de Ananindeua, reconhecida quebrada da crônica policial.  

“ Caralho doido, tu ainda tá na pista, maluco. Égua, nem a Covid tomba vocês”, o saúdo. Ele sorri e pede um copo de cerveja. Defender-se é preciso. Morrer não é preciso.  

Sol de moer. Gente. Gente. Gente aos montes. Não vi tanto cabo eleitoral a sacudir bandeira. A mesma bicicleta do pendrive propaga o número de candidato ao legislativo de uma cidade em frangalhos. Ao fim do anúncio, vaias sucediam.  Patriotas, creio que era o partido.

Um ex atleta do Remo, esguio, negro sempre anda aprumado. Tá sempre na área. Ele diz ter feito parte da esquadra que derrotou o Flamengo no século passado em pleno Maracanã por 2x1, em 1975. Vez primeira que um time do Norte fez tombar o time de Zico, Rondinelli e Junior em pleno Maracanã.

Alcino e Mesquita foram os responsáveis pelos tentos do Remo, enquanto Zico diminuiu pelo Urubu, em peleja testemunhada por 30 mil pessoas no mês de outubro, quando é celebrado o Círio em Belém. Terá sido milagre?

O ex atleta sempre toma uma no Veropa, faz circuito nas imediações da rodoviária, corre puteiros inclassificáveis.  Ele se diz advogado.  Fui agraciado com dedo de prosa com ele. Treta que ganhou em riqueza com um comparsa de 83, um cearense morador da comunidade de Corta Corda, em Santarém, oeste paraense.

 

O senhor atarracado é peão de trecho. Diz ter chegado do Ceará, onde tem filho juiz. Sempre repete a prosa com orgulho. Já expansivo pelas cervejas consumidas, dana a provocar o advogado. Chamá-lo de bandido e de corno. O ex atleta leva na esportiva.

O baixinho alvo alega que o esportista anda com esposa de “puliça”. Tudo é risos até o negro esguio chamar o baixinho de viado. Zanga. Troca de rispidez. Fim de linha. Fim de papo. Cada um para o seu lado. Uma jovem gordinha em trajes mínimos, altura mediana, fofura a transbordar as vestes, a tudo espia. Tal um felino selvagem a espreitar a lebre.

Ao contrário do Veropa, no Mercado de São Braz, abundavam cabos eleitorais de diferentes tendências, com proeminência à candidatura do professor psolista.  

Um farrapo, assim se encontra o belo mercado, tomado por lixo e urubus. Espelho do desprezo de duas legislaturas tucanas, cujo principal empenho reside em tudo privatizar. 

Ver o Peso de minhas graças. Mercado de peixe, carne, ratos, urubus e garças.  Ver o Peso de minhas de alegrias e mágoas.  Ver o rio-mar, contemplar as ancas das moças e senhoras, sorrir com os convivas dos causos contados, o corre aquieta. Até breve, espero.