O livro é de livre acesso. Acesse o link no fim do texto.
Faz 20 anos que a obra veio ao mundo. Nove capítulos lhe
conferem corpo. Emergiu como uma homenagem pelos 40 anos de militância do
maranhense Manoel da Conceição, o cabra da máxima; “minha perna! minha classe!.
Lá pelos idos dos anos de 1960, a violência de pistoleiros e
policiais o feriram de morte. Na ocasião, por conta de tiros que alcançaram uma
das pernas, e sem tratamento, teve a amputação como desfecho.
Figura rara, Mané pelejou pela democracia, reforma agrária,
meio ambiente e direitos humanos. Correu o mundo durante o exílio. Nestes
rolês, esteve com Mao, de quem ganhou uma prótese.
No exílio, com outros pares semeou a criação do PT e da CUT.
Salvo engano, o nome de Mané figura como o terceiro no livro de fundação do
partido. Além do capítulo sobre Conceição, reflete sobre políticas públicas
daquele contexto de avanço das políticas neoliberais, realça a construção da
hidroelétrica do Estreito, na fronteira do Maranhão com o Tocantins.
Trata ainda de experiências contra insurgentes, a exemplo
dos grandes acampamentos de camponeses em Marabá, o Projeto Frutos do
Cerrado/MA, algumas experiências de comunicação popular, além de cotejar sobre
a violência como um elemento estruturante e de permanência da territorialização
do grande capital na região do Bico do Papagaio.
A violência possui dois registros. O primeiro trata da
execução do dirigente José Dutra Costa (Dezinho), assassinado na porta de casa
em Rondon do Pará. Um segundo aborda o
recrudescimento da violência como resultado da expressiva mobilização dos
movimentos sociais.
Naquele período, no fim do texto, uma lista apontava para 24
pessoas ameaçadas de morte. Dentre elas constava Zé Cláudio, executado em Nova
Ipixuna, em emboscada que também tirou a vida da esposa, Maria do Espírito
Santo.
A lista dos ameaçados é uma constante em paragens do estado
do Pará. Em livro recém lançado, somente em projeto de assentamento, o Lago
Grande, no município de Santarém, há 20 pessoas na mira da bala.
Manoel da Conceição e o autor do livro, por ocasião do lançamento. Creio que em João Lisboa, em um espaço de formação dos trabalhadores rurais, denominado de Cetral.
Francisco Carlos Junior, mano dos tempos da UFMA foi
essencial no processo de carpintaria/edição. Luciana Carla fez as correções
gramaticais, o diagramador, músico, quadrinista e punk Joacy Jamys (não mais
entre nós) assina a diagramação. Rildo
Brasil assina a obra da capa, um coletor de castanha do Pará. Um nanquim. Jorge
Néri/MST assina a poética e bela apresentação.
Os professores da UFPA Rosa Acevedo e Gutemberg Guerra
fizeram a primeira leitura do esboço da iniciativa. Recordo que fizeram recomendações. Mas, não
recordo se as cumpri.
O livro resulta de vivências na região do Bico do Papagaio,
na tríplice fronteira dos estados do Pará, Maranhão e Tocantins. O local onde mais se mata na luta pela terra
no Brasil.
Deu-se em 1997 o primeiro rolê. Foi no meio do ano. Época de
queimadas. Calor infernal. Um ano após o Massacre de Eldorado. Eu estava na
condição de entrevistador no processo de avalição da Rede Fórum Carajás. Creio
que fiquei perto de 30 dias na estrada.
O orelhão a cartão era o recurso de comunicação. Viajei com
dinheiro em espécie. Uma coleção de camisetas brancas no embornal, que voltaram
para casa em tom amarelo barro de estrada.
As queimadas imperavam. As baterias de “rabos quentes”
assim eram tratados os fornos
responsáveis pela queima da floresta para a produção de carvão vegetal que
alimentava as empresas de gusa em Açailândia/MA e em Marabá/PA.
Um verdadeiro desastre ambiental e humano, posto a cadeia
produtiva embutir o trabalho escravo.
Em 1998 retornei à região. Em 1999 sentei praça em Marabá na
condição de assessor do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e
Popular (Cepasp), onde fiquei até 2003. Uma referência na mediação da luta
popular urbana e rural.
Nos primeiros anos a república com gente de tudo que é canto
foi o salva vidas. Eram mais de dez pessoas em sistema de rodízio, por conta
das atividades de campo. Uma lindeza só. Nunca ocorreu uma briga. Ainda hoje
tenho contato com os irmãos de errâncias destes tempos.
A vivência nesta quebrada foi fundamental em minha formação
política, profissional, afetiva e como ser humano. Uma faculdade sem parede.
Costumo brincar que foi a minha primeira pós-graduação sem papel. Talvez a mais
valiosa.
O livro foi impresso com o apoio da Rede Fórum Carajás, a
Comissão Pastoral de Balsas/MA e da Cooperativa de Serviços, Pesquisa e
Assessoria Técnica.
Duas pessoas foram fundamentais nesta jornada da retirada do
litoral para o sertão. A educadora e agrônoma Marluze Pastor, que conferiu a
missão das entrevistas, ainda que eu não fosse a primeira opção.
À época Pastor era coordenadora da rede, que operava a
partir de um espectro internacional, com capilaridade pelas barrancas da
Alemanha e EUA, a partir de um leque de
heterogêneos sujeitos, onde encontrávamos de pesquisadores a metalúrgicos,
pescadores, quebradeiras de coco babaçu, etc.
O igualmente agrônomo e cientista social, Raimundo Gomes da
Cruz Neto, vulgo, Raimundinho do Cepaps fez o convite para que eu fosse
experienciar os combates populares na luta pela terra na região mais
emblemática do país sobre a questão.
Mundinho é veterano de guerra. É dos tempos da Guerrilha do
Araguaia. Assim como tantos outros com quem, de alguma forma, tive a
oportunidade de conviver.
Chove em Santarém, onde mês que vem somarei uma década de
jornada. Assalta-me uma certa melancolia.
“O rio corre e vai sem ter começo/nem foz, e o curso, que é constante, é
vário/Vai nas águas levando, involuntário/luas onde me acordo e me adormeço.”
Ferreira Gullar – sete poemas portugueses.
Acesse o livro AQUI

