terça-feira, 5 de maio de 2026

MPF cobra providências de autoridades contra cerco policial a acampamento em área federal em Marabá (PA)

Movimentos sociais apontam restrição ao acesso à água e alimentos, além de atuação de civis armados


O Ministério Público Federal (MPF) expediu ofício na noite deste domingo (3), em caráter de urgência, requisitando providências ao governo do estado do Pará e às autoridades estaduais de segurança pública para garantir a imediata desobstrução do acesso a itens essenciais no acampamento Maria da Glória, situado em Marabá (PA). 

Segundo movimentos sociais de defesa da reforma agrária, o local encontra-se sob cerco policial que está impedindo a entrada de água, alimentos e medicamentos destinados às famílias assentadas, afetando diretamente grupos vulneráveis, como crianças, idosos e gestantes. Leia a íntegra no site do MPF

Garimpo ilegal em Jacareacanga: pesquisadores da UEPA e da ONG Mãe Crioula apresentam relatório sobre retirada de intrusos

 


Tênue fronteira entre público e privado, lícito e ilícito em espiral de transbordamento de violências constam nas digitais de certidão de nascimento do País. Tudo forjado pelos pilares mais profundos de privilégios, a partir de redes econômicas, políticas, culturais e sociais que articulam o local ao global, em um eterno contínuo de apropriação privada do Estado por frações da classe burguesa, já dizia, em certa medida, Chico de Oliveira, em “Reconquista da Amazônia (1994)”, texto que não economiza em ironia e nome de cardeais.   

O argumento sobre a acumulação originária é a chave interpretativa mobilizada por Oliveira, onde lá pela página 12, sobre as redes interativas destes variados circuitos, ele dispara sem dó ou piedade: “[...] o mesmo canal que serve para desovar cocaína, desova ouro, cassiterita, madeiras, lava dólares do tráfico, subfatura nas exportações e superfatura nas importações da Zona Franca de Manaus”.

Já que estamos em tempo de copa do mundo, o professor usa a alegoria para escalar o escrete de ilicitudes, onde: “Numa ponta, um alto executivo da Paranapanema, na meia direita, um deputado federal ligado ao narcotráfico (que combina com o exercício de pastor de almas), na meia esquerda, o contrabandista do garimpo e o madeireiro, e na ponta esquerda o cartel de Medellin.”  

Oliveira arremata que é desse cipoal de violência privada, que forja representações de interesses (pois elege deputados e senadores) no Congresso e nas grandes empresas estatais, Passarinhos, Barbalhos e Mestrinhos, elegantes e refinados Lacombes, Associações de Empresários da Amazônia (que têm sede em São Paulo), ações na bolsa entre as mais valorizadas [....].

Em síntese, espaços dito normativos da política e da economia acodem no processo em metamorfosear ilegalidades da atividade garimpeira, entre outras.

Neste cenário, a extração mineral do ouro ocupa centralidade na economia de Jacareacanga, adverte o relatório sobre desintrusão (retirada de intrusos) em terras indígenas do povo Munduruku na cidade de Jacareacanga, sudoeste paraense.

O documento é coordenado pelos pesquisadores Aiala Colares e Fabiano Bringel, do curso de Geografia, da Universidade do Estado do Pará (UEPA) e da ONG Mãe Crioula, que sinalizam que há uma minero-dependência do município com relação a exploração ilegal do ouro.  Bruno Malheiro (UFPA) é o pesquisador convidado e uma farta equipe de trabalho de campo. 

O trabalho adota como amparo teórico os circuitos espaciais de produção pensado por Milton Santos. Eles correspondem às diferentes etapas pelas quais um produto percorre, desde o início do processo produtivo até sua inserção no consumo final.

Além da extração ilegal de minério, o caleidoscópio de ilegalidades contempla ainda grilagem de terras, atividade madeireira e pecuária em boa parte da região amazônica. Seja a porção da Amazônia brasileira ou não. 

Como sugere o relatório em sua parte de contextualização, as atividades mobilizam uma geografia que ativa processos migratórios em diferentes escalas: local, regional, nacional e Panamazônica.  

No caso nacional, há proeminência de nordestinos com ênfase em maranhenses. Pará e Maranhão rivalizam em precários indicadores sociais, violência no campo, desmatamento, trabalho análogo à escravidão e por aí vai.  

24.042 é a população do município de Jacareacanga. Deste total, estima-se que 57% sejam indígenas.  Um caso único na geografia brasileira, apontam os números do derradeiro censo do IBGE (2022).  No caso da exploração de ouro, a cidade dialoga com os municípios vizinhos, onde constam Itaituba, Novo Progresso, Trairão e Novo Progresso, entre outros.

Jacareacanga opera como um nó urbano estratégico em redes ilícitas e semi-ilícitas que articulam garimpos situados em áreas rurais e terras indígenas, rotas fluviais e aéreas, e o comércio de ouro, combustíveis, equipamentos e serviços, alerta o relatório.

Ambiente perfeito para argumento de série policial, como o faz Edir Augusto Proença em sua literatura sobre o universo paralelo paraense. Crime ao tucupi desprovido de gourmetização.

Ainda que o relatório não mencione, as relações familiares, de amizade e de compadrio tendem ao esgarçamento quando do anúncio de obras de infraestrutura do governo, projetos privados, exploração de ouro e afins.

Assim sucedeu com a construção da hidroelétrica de Belo Monte em Altamira, exploração de ouro em Novo Progresso e exploração mineral em Carajás, sudeste do Para e em Juruti sudoeste do estado, entre outras situações.

No caso de Novo Progresso, a ação ilegal de garimpeiros promoveu a cisão entre contrários e alinhados à exploração do ouro no povo Kayapó na Terra Indígena (TI) Baú.  O cardápio de danos da exploração ilegal é extenso. Passa por questões ambientais, a exemplo do desmatamento e a contaminação dos rios por mercúrio, violência, alcoolismo e outras drogas.

Incremento da violência, alcoolismo, prostituição e bolsões de miséria – seja por conta do processo migratório ou da desintrusão - são outros elementos na composição da aquarela. Quando do pico das obras da construção de Belo Monte, a cidade de Altamira ocupou o topo entre os municípios mais violentos do Brasil.

Desintrusão

O comitê interministerial de desintrusão de terras indígenas foi instituído em setembro de 2023, pelo decreto n.11.702 com a missão em planejar, coordenar e operacionalizar medidas para efetivar o direito dos povos indígenas ao usufruto exclusivo de seus territórios.

A desintrusão pode representar um grande gargalo/nó/calcanhar de Aquiles?? O relatório sobre desintrusão adverte que ao mesmo tempo que colabora para reestabelecer a configuração do território, cria problemas de ordem humanitária por conta da efetivação de bolsões de miseráveis no entorno na cidade, o que sobrecarrega a já precária estrutura de serviços do município.  

A ação dos garimpos ilegais não se restringe a territórios indígenas. Abrange ainda várias modalidades de assentamentos da reforma agrária e unidades de conservação sob a responsabilidade tanto do governo federal, quanto do estadual.

Equacionar tal situação desponta como tarefa hercúlea, que demanda ação integrada entre os vários níveis do governo de forma continuada, tanto nos processos de fiscalização, quanto no equacionamento de outras demandas que envolvem a organização, educação, produção, segurança, saúde, fomento de oportunidades que contemplem jovens e mulheres, entre outras questões.

Com pouco de mais 100 páginas, em percurso que contempla revisão bibliográfica, atividade de campo – sempre algo oneroso e arriscado – registro fotográfico, produção de mapas, quadros e figuras ilustrativas a partir do uso da IA, o documento apresenta um quadro delicado para que se alcance a superação da minero-dependência do município ilegal de ouro no município.

Sobre a ação estatal, o documento avalia que tem sido marcada pela seletividade e pela descontinuidade, que, ao invés de enfrentar as bases econômicas e territoriais da ilegalidade, acaba por reforçar ciclos recorrentes de conflito, violência e vulnerabilização dos territórios e dos modos de vida do povo Munduruku.

O relatório pode ser baixado AQUI

 

Acompanhe o lançamento do relatório no dia 11.



Comissão Pró Índio alerta sobre expansão da mineração em Oriximiná/PA e vizinhança

 



A exploração da bauxita em Oriximiná se dá pela Mineração Rio do Norte (MRN), uma sociedade anônima de capital fechado, que tem como acionistas as empresas Glencore (45% das ações), South32 (33%) e Rio Tinto (22%). A MRN é a maior produtora e exportadora de bauxita do Brasil. O minério extraído em Oriximiná representa 40,17% da produção nacional.

As operações da MRN consistem na extração do minério, beneficiamento, transporte ferroviário, secagem e embarque de navios. Em 2024, a MRN embarcou 13,1 milhões de toneladas de bauxita, sendo 9,8 milhões de toneladas para o mercado interno e 3, 3 milhões para o mercado externo. No mesmo ano, segundo o Relatório de Administração da empresa, foram vendidas 12,7 milhões de toneladas, sendo 62% destinadas para refinarias brasileiras, 18 % para América do Norte, 14% para Europa e 6% para a Ásia. Leia a íntegra AQUI