Pesquisas comprometidas com os povos da floresta, soberania do território, consolidar uma rede de pesquisadores da Amazônia constam como encaminhamentos
Carta de Belém-Flor de Carajás
I Encontro de Professoras e Professores Pesquisadores sobre o problema mineral na Amazônia
Por uma Amazônia Livre do Extrativismo Predatório, pela Soberania Popular sobre o Subsolo e pela Defesa dos Territórios
Nós, professoras, professores, pesquisadoras, pesquisadores, estudantes, educadores populares, militantes, e integrantes de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas nos reunimos nos dias 25 a 27 de junho de 2026, na Universidade do Estado do Pará (UEPA), Campus CCSE, Belém do Pará, para celebrar o I Encontro de Professoras e Professores Pesquisadores sobre o problema mineral na Amazônia na cidade de Belém do Pará, que acolheu 300 participantes.
O evento foi iniciativa do Movimento pela Soberania Popular na
Mineração (MAM), Universidade do Estado do Pará – UEPA, a Universidade Federal
do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), a Universidade Federal do Pará (UFPA).
Além de inúmeros parceiros para sua realização.
O problema mineral na Amazônia, ou melhor, nas diversas Amazônias, que surgiu dentro de um padrão de acumulação dependente, deve ser contextualizado em um sistema econômico e político que está experimentando uma nova rodada de reestruturação e transformação baseada no aprofundamento da financeirização da economia no mundo. O que tem implicado em maior superexploração da natureza e da força de trabalho, mesmo quando o sistema capitalista está chegando nos seus limites ecológicos de reprodução sob o impacto da acumulação do capital global sem limites.
Estamos vivenciando uma crise de reprodução social: milhões de pessoas não podem sobreviver enquanto a desintegração social se expande. Regiões inteiras estão colapsando. Milhares de pessoas são deslocadas pelas mudanças extremas no clima, conflitos, guerras e perseguições. A desigualdade, o empobrecimento, e a insegurança para as classes populares, trabalhadoras, povos e comunidades tradicionais só crescem, depois de décadas sucessivas de crises fomentadas pelo neoliberalismo.
Por isso, reafirmamos nosso compromisso ético, científico e político com as lutas dos povos das Amazônias e denunciamos a intensificação do modelo mineral que transforma a floresta e seus habitantes em zonas permanentes de sacrifício.
Sob o discurso do desenvolvimento e, mais recentemente, da transição energética, num contexto geopolítico de concorrência agora focada sobre tudo entre os Estados Unidos e a China, aprofundam-se processos de expropriação dos territórios, destruição ambiental, violências, criminalizações das resistências e concentração da riqueza produzida pelo subsolo amazônico.
As Amazônias não são fronteira mineral como desejam os arautos do neoliberalismo. É um território de vida, diversidade biocultural e múltiplas formas de existência que precisam ser reconhecidas e efetivadas como fundamento de qualquer projeto democrático para o país.
O protagonismo das mulheres e dos povos da floresta
Reconhecemos que as mulheres, especialmente mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas, camponesas e extrativistas, estão na linha de frente da defesa da vida, da água, da floresta, dos corpos e dos territórios. São elas que sustentam cotidianamente a re-existência dos povos diante das múltiplas violências impostas pela mineração.
Da mesma forma, afirmamos o protagonismo dos povos indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais como sujeitos políticos que produzem conhecimentos, defendem seus territórios e constroem alternativas concretas ao modelo neoextrativista no seu cotidiano. Suas cosmologias, formas de organização e práticas territoriais constituem caminhos para enfrentar a crise ecológica e civilizatória.
Sem seus territórios livres e protegidos, não haverá democracia, justiça climática e nem futuro para a Amazônia.
O compromisso da pesquisa militante
Reafirmamos que a universidade pública, os institutos de pesquisa e as escolas não podem permanecer neutros diante da destruição dos territórios.
Defendemos uma pesquisa comprometida, construída em diálogo
permanente com os movimentos sociais, particularmente com o Movimento pela
Soberania Popular na Mineração, o MAM, colocando o conhecimento científico a
serviço da defesa da vida, da justiça socioambiental e da soberania popular.
Nossa produção acadêmica deve fortalecer as lutas concretas dos povos e contribuir para desmontar as narrativas que naturalizam a mineração como único caminho possível para o desenvolvimento amazônico.
Agenda política dos pesquisadores e pesquisadoras comprometidos com a luta pela Soberania Popular na Mineração
Como encaminhamento deste Encontro, assumimos a construção coletiva da seguinte agenda:
Ø
Consolidar uma Rede
Amazônica de Pesquisadores e Pesquisadoras sobre o Problema Mineral, articulada
aos movimentos sociais, especialmente o MAM, e às universidades públicas.
Ø
Produzir pesquisas
voltadas aos conflitos minerários, às cadeias globais dos minerais estratégicos
e aos impactos da transição energética sobre os territórios amazônicos.
Ø
Fortalecer o
protagonismo de mulheres, juventudes, povos indígenas e camponeses na produção
de conhecimento, na incidência política e na luta por territórios livres de
mineração;
Ø
Apoiar processos de
formação popular sobre mineração, direitos territoriais e justiça ambiental, articulando
a luta pela democratização da renda minerária (CFEM);
Ø
Defender o combate
efetivo à violência contra defensores e defensoras dos territórios. Contra a
criminalização dos movimentos sociais, fortalecendo a luta pelo controle
popular sobre a mineração;
Ø
Produzir subsídios
técnicos e científicos para fortalecer as lutas por reparação integral das
afetações que esse modelo provoca na sociedade, na economia e na natureza. Isso
pressupõe a defesa da soberania industrial mineral ampliando nossa capacidade
de resolver os dilemas dos povos no Brasil;
Ø
Defender o direito dos
povos à consulta livre, prévia e informada, conforme a Convenção nº 169 da OIT.
Reforçando nossa capacidade de negação aos grandes projetos minerais;
Ø Fortalecer o debate público sobre a soberania popular e a função social da terra e do subsolo, afirmando que os bens minerais devem servir ao interesse coletivo, e não à acumulação privada e à dependência do capital transnacional.
Nossos compromissos
Assumimos o compromisso de construir uma ciência comprometida com a transformação social, orientada pela justiça ambiental, pela ecologia política crítica, pelos feminismos populares, pelos saberes indígenas e tradicionais e pela defesa do acesso à terra e ao território.
Defendemos uma Amazônia onde a riqueza do subsolo não signifique pobreza na superfície; onde a mineração esteja subordinada aos direitos dos povos e aos limites ecológicos; e onde a democracia seja construída a partir dos territórios.
A luta pelo território é também a luta pelo
subsolo.
Não haverá soberania nacional sem soberania
popular sobre os bens minerais.
Não haverá transição energética justa enquanto
a Amazônia continuar sendo tratada como almoxarifado do mundo.
Da universidade aos territórios, reafirmamos nosso compromisso com a vida, com a re-existência dos povos e com a construção de um projeto popular para a Amazônia e para o Brasil.
Nos comprometemos a organizar uma jornada nacional de lutas em 2027, que tem como lema a defesa dos bens naturais da sociedade e por um outro modelo de mineração, que também busca protestar contra os 30 anos da privatização da empresa Vale.
Em tempo, nos comprometemos a dar continuidade a essa nossa articulação realizando o II Encontro de Professoras e Professores Pesquisadores sobre o problema mineral na Amazônia em 2028.
Por uma pesquisa crítica e implicada com a
luta cotidiana dos povos da Amazônia e do Brasil.
Lutar pelo Território, controlar o subsolo.
Agradecemos o apoio das seguintes entidades:
Grupo
Acadêmico de Produção Territorial e Meio Ambiente na Amazônia (GAPTA)
Laboratório
de Contas Regionais da Amazônia (LACAM)
Programa
de Pós-graduação em Geografia (PPGG) do Centro de Ciências Sociais e Educação
(CCSE) da UEPA
Grupo de Pesquisa Geografia dos Assentamentos na Área Rural
(GEOGRAFAR) da Universidade Federal da Bahia
Grupo
de Estudos Sociedade, Território e Resistências na Amazônia (GESTERRA da UFPA)
Grupo
de Trabalho Fronteiras, Regionalização e Globalização do Conselho
Latino-americano de Ciências Sociais (GT FRG CLACSO)
Sindicato
dos Docentes da Universidade do Estado do Pará (SINDUEPA, Seção Sindical do
Andes-SN na UEPA)
ANDES-SN
Amazon Watch
Forests and Finance
FIOCRUZ
Fundo
Casa Socioambiental
Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST-PARÁ)
Federação
das Comunidades do PAE Lago Grande (FEAGLE)
GPTECA
– Grupo de Pesquisa Territorialização Camponesa na Amazônia – GPTECA
Grupo
de pesquisa Observatório de Direito Socioambiental e Direitos Humanos na
Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas (ODSDH/UFAM)
Organização
Indígena da Resistência Mura (OIRMA)
Organização
das Mulheres Indígenas Mura (OMIM)
Gepe: Ser&Lutas - Política
Social, Lutas Sociais e Desafios para a Intervenção do Serviço Social no Campo
e na Cidade
Agradecemos, em especial, a UEPA pela acolhida nos dias de nosso evento.
Santa Maria de Belém do Grão Pará
27
de junho de 2026
Auditório Paulo Freire, Campus -CCSE






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