quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Entre eleições, bandeiras e desumanidade do trabalho

 

A robustez das nuvens de poeira que se formam rotineiramente na avenida Ghilon é proporcionalmente direta ao porte dos veículos que diariamente percorrem a principal via da área de expansão do município de Santarém.  

Trata-se de uma geografia que expressa de forma nítida os diferentes sujeitos que operam pelo controle do território. Cá temos ocupação, loteamentos, vilas de kitinetes em abundância, atacarejos, shopping, Centro de Convenções, inúmeros prédios residências e outros em construção, conjunto classificado como de alto padrão a rivalizar com o Minha Casa, Minha Vida. Classes diametralmente em oposição. 

A ausência de calçamento povoa os bairros populares. Escolas públicas celebram representantes das burguesias locais. A exemplo de famílias de confederados e mães de oligarcas. Pequenas e médias "quitandas" da fé competem com comércios convencionais. 

Verão. O calor é inclemente. Beira a casa dos 40º.  Desconforto que é incrementado com a umidade que por cá nesta época do ano precipita. Situação que exige hidratação a todo momento.

É tempo de eleição. É sob tal guarda-chuva de aridez de múltiplas dimensões acima   mencionado que os párias da sociedade seguram bandeiras de candidatos a cargos nos legislativos e executivos (União e estado) desprovidos de quaisquer resquícios de identidade com a classe a que integram. Violências estruturais.

Árvores rareiam na via. O que obriga os temporários a caçarem sombra de postes que conforme o movimento do sol, muda de lugar.  A cada eleição, quase nada da situação precária a que os “bandeiras” estão acorrentados muda.

Sequer usam um boné, em vã tentativa de proteção. Dirá um kit de sobrevivência diante de sol tão potente. Protetor solar desponta como artigo de luxo. Assim como possível garrafa de água.  

Não faço ideia da carga horária diária a que estão submetidos, e se ao menos existe algum tipo de contrato como prestador de serviço em empunhar e sacudir a bandeira do opressor. Contudo, aposto na inexistência de qualquer de seguro para acidentes.

Cena triste. Mais triste que uma manhã de quarta-feira cinza de carnaval, quando a ilusão e a fantasia voltam de mãos dadas para o refúgio do barracão. Será que um dia o império da lei há de chegar no coração do Pará?

 

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