segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Benedicto Monteiro - doutor honoris - solenidade ocorre hoje, a parir das 18h, na Ufopa

Discurso a ser proferido pela escritora, poeta e advogada Wanda Monteiro 

Wanda Monteiro, escritora, poeta e advogada. Fonte: redes sociais 


A voz indomável

É inverno nesse meridiano. Estou ao pé da serra, à minha frente tenho o mar aberto, ao meu lado uma laguna. Estou bem longe de meu rio Amazonas. Estou em um outro rio que não é rio, mas guarda um nome de santo e chamam de São Sebastião do Rio de Janeiro. É uma madrugada fria e molhada. Vou dormir com a música da chuva. Eu adoro essa cantilena da chuva. Ela caindo no barro da telha, caindo sinuosa, batendo na minha janela.

Não consigo dormir, escuto a voz de Miguel dos Santos Prazeres falando de seu pai:

... Eu sei, eu sei que ele amava a chuva, porque eu via nos seus olhos a alegria de ver a água escor­rendo, banhando as árvores, caindo sobre a mata, crivando o rio de pingos e respingos, descendo as ribanceiras. Ele gostava da chuva, porque ele entendia o barulho da conversa que ela fazia nas barracas de palha. A chuva tem uma cantiga antiga de enganar o sol, de misturar o dia com a noite e de ensinar o pobre adormecer com fome, A chuva tem uma conversa-fiada-tecida-na-palha que até é doce de se escutar.

 

Com a voz de Miguel no pensamento, agora mesmo é que não conseguirei dormir. É tão difícil dormir. Sempre que vou dormir, ocupo muito de mim com esse desassossego de olhar pra vida e dela saber o seu deslimite. Quando a madrugada chega, tenho em mim essa inquietude de escutar a ressonância do tempo, suas claridades, seus escuros, seu grito e seu silêncio.

Preciso muito dormir, soltar o fio do pensamento e descansar pra escrever sobre Benedicto, o Bené como eu gosto de chama-lo. Escrever sobre ele é sempre um desafio.

Acordei ao meio dia com a cantilena da chuva.

Sim. Ainda chove nesse início da tarde. É uma chuva amiúde.

Não resisti. Fui ter com a chuva. Sempre tenho esse gesto atávico de olhar pra chuva, de correr pra dentro da chuva, de olhar de dentro dela, de chover com ela. Bené meu pai, dizia que nisso, eu parecia muito com sua mãe, minha avó Eriberta. Minha avó Berta, assim eu a chamava, gostava de ficar sob a chuva, de olhar pra ela caindo sobre o rio. Em sua casa, na beira do rio, ela sentava na cadeira balanço e fincava seus pés na terra molhada, olhando a chuva fazer seus caminhos para o rio.

Para nós, de vida ribeira, a chuva é o rio suspenso no ar.

A chuva é um talento da natureza.

Nesse quando de chuva, de um inverno ao pé serra, me vejo diante da janela, olhando pra chuva. Pareço escutar a voz de meu pai, a voz de minha avó Berta e a voz de Maria. Sim. Escuto a voz de Maria de todos os rios, ela falando de sua mãe e seu encantamento pela chuva.

... Nas horas que chovia, minha mãe saía pra fora de casa e tomava banho na chuva. Deixava que a água lavasse o seu rosto, virado pro céu, num gesto parado e de súplica.

... Nunca compreendi essa inquietação de minha mãe. Eu pensava que era uma doença. Nem tive capacidade de in­terpretar os seus gestos, como esse de se entregar todinha pras águas da chuva...

      Penso que ao escrever sobre a mãe de Maria, Bené lembrava de sua mãe e de seu estado de maravilhamento ao ver a chuva cair. Minha avó fazia assim como dizia Maria de sua mãe:

... Com olhos fechados ou fitando entre os respingos, nunca imaginei que ela podia estar procurando, muito longe, o firmamento. Era paresque a procura de uma brecha, pra olhar mais longe. Uma janela pro rio, com lei­to largo e águas correntes...

Com essa escuta, me veio um sentimento antigo e só nesse agora, tomo consciência: o de que Miguel e Maria são meus irmãos. Meus irmãos metafísicos, é certo. Mas. São meus irmãos.

Miguel e eu nascemos no mesmo ano. No ano de 1958. Eu nasci à margem esquerda do rio Amazonas, num de seus braços líquidos, o igarapé chamado Surubiú, numa cidade ribeira chamada Aldeia de Alenquer. Miguel, nasceu no anverso de um papel, hoje, um manuscrito amarelado pela travessia do tempo, perdido nos escaninhos de  memórias. O fato é que Miguel dos Santos Prazeres, o Minossauro, foi concebido no campo das ideias. Foi pensado, sonhado e gestado sobre as águas, quando Bené fazia suas viagens rios adentro, em cima de uma canoa gita como ele dizia, ou em cima de suas voadeiras, como eram chamados os barcos movidos a motor. A semente de Miguel foi plantada pela palavra, no Conto O Precipício, escrito 1958 e publicado no mesmo ano, na revista Norte, editada por um outro bendito Benedito, nosso genial Benedito Nunes.

Miguel e eu nascemos sob o signo da liberdade. Nascemos antes do golpe que tomou de assalto a liberdade de Bené. Maria é fruto do exílio. É fruto deste sempre verbo conjugado por Benedicto Monteiro: o verbo resistir. Maria de todos os rios, foi concebida por Bené, em seu longo e doloroso tempo de exílio, cumprido em sua casa, sua ilha dentro da ilha, sua ilha avenida. Foi na solidão das matas, no cárcere e na sua própria ilha que Bené encontrou se encontrou com o espaço, com o tempo, com o homem amazônida. Foi na solidão, que Bené, meu pai, encontrou consigo mesmo e constatou que só poderia exercer sua mais íntima liberdade no ato de escrever. Posso ouvir sua voz dizendo:

Pois foi nas matas de Alenquer e nesse cárcere de quartel que me encontrei comigo mesmo. E também com o tem­po, com o espaço e o homem amazônico. A partir daí, a mi­nha vida íntima se confundia com esse tempo, com esse espaço e com a vida dessa gente que mais tarde se transformariam nas personagens de meus livros. Confirmei, naquele período, que escrever, para mim, era também o único exercício da minha mais íntima liberdade, e de tal forma, que quando me deparei com a liberdade propriamente dita, que tive que enfrentar a sociedade na condição de mar­ginal, proscrito ou vivente do ostracismo, quase não perce­bi que não tinha voltado para a minha mesma cidade. Para a minha mesma casa. Mesmo no convívio com a minha família, ao lado de minha mulher e meus filhos, eu tinha brus­camente caído numa ilha, numa ilha do mundo, numa ilha social, numa ilha da avenida.

Nessa dobra tempo, em que mergulho nesse rio de palavras pra escrever sobre Bené, me vejo em busca de seu gesto inicial, de suas primeiras visões, de sua primeira pulsão pela escrita e na escrita. Mas a memória quando é escavada em suas fundas camadas, corre esse risco de reinvenção. Assim acontece com Bené na escritura de seu transtempo, quando ele tenta falar de sua identidade em suas memórias:

É muito difícil, ainda hoje, separar os meus sentimen­tos religiosos, políticos e sociais neste meu processo per­manente de dúvida e conhecimento. É muito difícil classificar-me, codificar-me, identificar-me.

           Sou escritora, dizem que também sei escrever poemas. Sobre escrever poemas, não tenho muita certeza disso. Mas, sobre meu amor e devoção pelas palavras e pela literatura, sobretudo como leitora voraz que fui. Disso eu não tenho dúvidas. Acho que herdei de meu pai esse amor e devoção pelas palavras. Estou escrevendo um livro de poemas sobre meu encontro com o mar. Nesse momento em que escrevo sobre Bené, tento me depreender das paisagens que componho em meu livro. Não consigo.

 Ouço o barulho do mar. Posso ouvir e sentir o átimo do instante em que a crista da onda quebra e cai com toda força sobre a areia. O mar está em ressaca e sua ressonância pode ser sentida ao compasso de minha respiração. Moro ao pé de um afloramento rochoso. E nessa noite, essa coluna rochosa está à espreita de Urano em fúria. Já é noite. Esse dorso, feito de sal e espuma, inclina-se para ouvir o rumor do tempo.

O mar. Se signo fosse, seria um deus a repetir-se na estranha força de ondular infindo, em e por si, sob pétrea regência suspensa no abismo das equidistâncias. Fosse deus, seria o mar, esse corpo erguido ao vento, a forma viva de uma nave-mãe, nave líquida, mãe movente, face oculta do deserto.

Vou dormir com o mar.

Hoje acordei com essa lembrança. Que um dia, ao ser provocado por mim sobre o começo de sua paixão pela literatura, Bené disse-me que embora essa pulsão pela escrita literária tenha sido deflagrada quando ele ainda era um jovem adolescente de 16 anos, quando arrebatado pela leitura de Chove Nos Campos Da Cachoeira do escritor Dalcídio Jurandir, ela só se consolidou com a escrita de seu Verdevagomundo. Esse livro foi seu primeiro romance e mais tarde, faria parte de sua trilogia amazônica.

Essa conversa aconteceu em plena ditadura militar, portanto, embora o recrudescimento da ditadura militar e de suas forças opressoras tenham sido, de alguma forma, estancados por movimentos políticos de resistência que abririam pra o caminho da redemocratização, meu pai ainda vivia em sua/nossa ilha e sempre afirmava que o ato da escrita, pra ele, era um ato de resistência.

           Esse maravilhamento, experimentado por Bené ao ler o livro Chove Nos Campos Da Cachoeira, o despertou pra uma nova e inquietante visão sobre esse microcosmo chamado Amazônia e ainda, lhe acenou pra novas percepções sobre o viver dos ribeirinhos. Nesse momento, aos 18 anos de sua vida, nascia Bandeira Branca, seu primeiro livro de poesia e nele, o escritor que também nascia, dava os primeiros sinais de que sua escrita estava sendo fundada em uma consciência potencialmente política e de resistência.

          Seu poema Insatisfação dá claros sinais dessa inquietação:

 

Trago no corpo

o frio desfibrilador das endemias

a lama das terras alagadas

e o soturno roncar do Amazonas

quebrando e inundando

verdes matarias!

 

Trago nos olhos

o horizonte verde, sempre verde,

da terra imensa e misteriosa,

a realidade triste, sempre triste,

dos homens que vivem

nas lendas maravilhosas.

 

Desses homens que lutam

a guerra dos fortes;

brigando com a terra,

brigando com a água

e com a ferocidade

das foças desconhecidas.

 

Trago nos olhos

a monotonia das paisagens,

a poesia triste das paragens,

a triste poesia que brota da terra,

transformando em lenda a miséria da vida!

 

Trago na alma

os quadros trágicos e possantes

que guardam ainda a cor

e a impetuosidade

das criações remotas.

 

Trago na alma

a impressão marcada

da gente infeliz e desgraçada

que já enfrentou todas as derrotas!

 

Tudo isto eu trago

no meu coração

para escrever

a minha grande poesia

de insatisfação...

            Após a publicação de Bandeira Branca, Bené fez um longo interlúdio em sua caminhada literária. Continuou escrevendo, aqui e ali, poemas, contos, ensaios. Mas, não publicava. Foi viver uma vida de lutas onde conjugava, com vigor, o verbo resistir. Percorreu uma senda que lhe levou à carreira política, e essa se colocou à frente da carreira literária. Esse percurso político, de lutas por liberdade, igualdade e justiça social o levou pra um lugar potencialmente perigoso diante de um golpe militar que tomou de assalto sua liberdade por longos anos.

           No depois da senda de palavras, até aqui lidas, e escritas por mim e por meu pai Bené, me veio à escuta não de sua voz, mas sim de seu silêncio.

          Se ele estivesse entre nós, aqui e agora, ele me diria sobre o silêncio que sempre me acomete diante das mortes de cada dia. E eu lhe diria do vazio dessa estação chamada saudade.

A saudade de Bené será sempre um silêncio.

Cultivo em mim esse silêncio de revolver a memória deitada no leito mais fundo, sobre seixos de relvas afogada. Esse silêncio de escavar o fundo do tempo. O que me há sempre deságua nele: o rosto silente do pai a me olhar das distâncias, de viver e correr entre uma margem de lembrança e outra margem de espera. Essa espera densa de sílaba a sílaba, concentrada em cristal arenoso. Mas, há uma terceira margem de incontornável geografia: o agora e essa saudade a consumir o pensamento em amplidão de ausências. A saudade essa clareira no peito ancho de ecos. A saudade esse lembrar à exaustão. A saudade. Esse algo a pesar sobre o dorso do tempo partido por uma estação sem nome. E há outra margem. A margem onde busco a palavra: uma palavra que seja rio para assim ser palavra, uma palavra de ter começo, mas, de não ter fim, pois que não ter fim é seu destino.

No dorso desse tempo de guelras abertas, há a voz do pai dizendo das palavras que sustentam o mundo, que suspendem o céu, que inventam a vida e agasalham, na memória, o mistério de todo sentir.

Meu silêncio foi quebrado pela chegada de meus netos, em minha cabana ao pé serra. Os netos são pra mim esse amor em desmesura, um laço inquebrantável. Neles eu posso exercer minha afetuosidade e meu bem-querer livremente. Eles quebram em mim qualquer silêncio.

Só hoje nessa noite fria com ventos soprando à sudoeste. Sob à constelação do Cruzeiro do Sul, em agosto de 2024, eu me dei conta que Miguel dos Santos Prazeres, assim como eu, completou 66 anos de existência. A diferença é que Miguel não envelheceu como eu envelheci. Sobre Miguel não incide nem o peso nem os atravessamentos do tempo. Nas palavras, Miguel vive e revive com o mesmo vigor. 

Bené vive em Miguel.  Ele tem, nas palavras, sua cotidiana ressurreição. Nas palavras, sua voz indomável pode ouvida cotidianamente.

Sobre o tempo, sua travessia, seus efeitos, posso dizer que sinto o seu peso sobre o corpo e sobre a maturidade nos ossos das palavras. No entanto, o tempo me trouxe o que considero uma virtude: já não tenho pressa. No começo desse meu anoitecer, cultivo a contemplação.

Antes de partir, meu pai Benedicto Wilfredo Monteiro anoiteceu. Estive ao seu lado nos últimos meses de sua noite. Ele, adoecido, sem chances de cura, muitas vezes, acordou, olhou sorrindo pra mim, dizendo: Filha! Estou partindo.

Vendo-me revisar seu último romance, dizia: Filha, antes de partir, preciso lançar meu Homem Rio, preciso libertar Miguel.

Hoje, digo pra mim que esse foi mais um de seus atos de resistência.

Ele partiu.

Posso ouvir sua voz:

Tantos anos andei pelo. Sempre transitoriamente. Aprendi que porto, mesmo, é só a maturidade. E chegada, mesmo, é o só ultimo regresso.

 

           Bené, em seus últimos dias, nesse quando e onde vivemos, raramente dizia a palavra morte. Falava sempre em partir. E nesse exato ato de escrevê-lo, lembro de seu sentimento sobre a morte, e sobretudo, lembro de quão era importante ele reafirmar a vida, conjugando o verbo resistir. Esse sentimento é traduzido na voz de seu alter ego Miguel:

Nego as mortes! Nego e renego as mortes, todas as mortes. As mortes de ficar calado, as mortes de ver a água correr, as mortes de ver o rio sempre passar, as mortes gerais dos homens que envelhecem. Eu nego e renego as mortes. Eu só afirmo a vida. Minhas afirmativas, só são de bem-querer, de bem-viver e de bem-lutar.

Sinto que sempre vou lembrar desse dia. O dia em que eu e meu irmão Ben levamos as cinzas de Bené pra se misturar às águas de seu rio Amazonas.

 Saímos de Santarém, numa lancha de um amigo da família, atravessamos as águas azuis do rio Tapajós e cruzamos o encontro das águas. Após cruzar o encontro, a lancha deu defeito. Ficamos à deriva, por várias horas. Eu disse pra meu irmão: Bené está querendo nos dar algum recado. Ele riu. Era um dia de sol inclemente. A situação era bem perigosa. Estávamos com pouca água doce a bordo e sob um céu nu de nuvens, portanto sem sombra alguma que pudesse nos proteger da luz espelhada no ouro das águas barrentas do gigante Amazonas. Pra todo lado que firmávamos a visão, só víamos água. Era um mundão de águas. Todos os horizontes pareciam dar em abismos. Nossos olhos não alcançavam terra firme e nenhuma ilha. Estávamos no topo do mundo. Só havia a água. Ao longe, podíamos ver as ilhas de ninfeias chamadas mururés flutuando sobre as águas. Havia o espaço contido no tempo e o tempo contido no espaço. Havia mil tons de verdes e de azui, mil tons de ouro e de prata.   Nesse momento, eu e meu irmão nos abraçamos, e eu lhe disse: Mano! Estamos dentro do verdevagomundo de Bené.  

O piloto, finalmente consertou a lancha. Mas, perdemos o furo do rio que nos levaria ao igarapé Surubiú. Esse era o recado de Bené. Ele queria ficar no topo do mundo, no alto do rio, em sua correnteza mais revolta, em suas águas mais fundas.

Deixamos nosso pai misturado às águas de seu rio Amazonas.

Naquele exato instante, das cinzas se misturando ao rio, parecia ouvir a voz do meu pai:

Guardo-me em tuas águas. Peço-te! Guardes, na eternidade, os sonhos que sonhoi e os sonhos que não me deixaram sonhar.

Era uma oração. Sua última oração.

Nossa oração, foi a voz do pai, na voz de Miguel:

 

Tudo era espaço e tempo vago. Verde e vago. Verde vagomundo. Foi aí que me perdi na pura claridade. Era paresque claridade do verde, da água, da noite e do silêncio. Pensei que era a morte, que eu estava morto. Pensei que eu estava bem no fundo. Mas nesse mesmo instante, nesse justo e exato momento, foi que a água e o céu se abriram e surgiu uma praia branca. Muito branca. Todos os verdes e todas as cores se resumiram naquela praia. E não tinha princípio nem fim: era uma distância. Era paresque também uma margem. Mas, uma outra margem.

 

Wanda Monteiro

 Nota: os excertos em itálico, foram extraídos (respectivamente) dos livros de Benedicto Monteiro : O Precipício, o Conto; Maria de Todos os Rios; Transtempo; Bandeira Branca: Verdevagomundo e Aquele Um;

 

 

Fortaleza (CE) sediará o maior encontro de afetados pela mineração do Brasil com debates e feira cultural

São esperadas mais de duas mil pessoas na capital cearense para o II Encontro Nacional do MAM no final de agosto

 

O Movimento Pela Soberania Popular na Mineração – MAM, vai realizar seu II Encontro Nacional em Fortaleza (CE), entre os dias 24 e 28 de agosto, na Universidade Federal do Ceará (UFC)- campus Pici, contando com delegações de todas as regiões do Brasil. Serão indígenas, quilombolas, ribeirinhos, assentados rurais, camponeses e moradores de cidades afetadas pela atividade mineral no país.

Com o tema Lutar Pelo Território, Controlar o Subsolo, objetivo do encontro do MAM é organizar dias de debates para lançar luz para um novo modelo mineral para o Brasil, que democratize a renda mineral, possibilite territórios livres de mineração e controle popular sobre o subsolo.

“O modelo mineral, do jeito que é operacionalizado, destrói a natureza, expulsa as pessoas de seus territórios, concentra toda a renda que teria que chegar ao povo brasileiro e nos deixa totalmente sem soberania. Por isso a importância desse segundo encontro nacional do MAM”, diz Karina Martins, da direção nacional do MAM.

O encontro, também contará com representação de trabalhadores do setor mineral e integrantes de outras organizações internacionais que debatem a mineração em seus países, como Peru, Bolívia, Chile, Cuba, Guatemala, México, África do Sul, Moçambique, entre outros

Ao final da atividade o MAM lançará uma carta à sociedade com as premissas firmadas pelos afetados pela mineração no Brasil com propostas que contemplem a atividade mineral como benefício ao povo brasileiro e não apenas como acumulação de lucros para as empresas.

 Feira Cultural da Agrobiodiversidade

Durante as noites do II Encontro Nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), que acontece de 24 a 28 de agosto em Fortaleza (CE), será realizada a I Feira Cultural da Agrobiodiversidade, das 18h às 23h, no mesmo local do encontro. A iniciativa integra a programação do evento e tem como objetivo destacar a força produtiva e cultural dos territórios ameaçados e afetados pela mineração.

A feira reunirá alimentos, bebidas e artesanatos típicos de diversas regiões do Brasil, oriundos da agricultura familiar e da agroecologia praticadas por povos indígenas, comunidades tradicionais, assentamentos da reforma agrária, pescadores e pescadoras. “Esses territórios sempre foram produtivos. Antes mesmo da chegada da mineração, já havia vida, diversidade e fartura. São povos que continuam resistindo e produzindo com base em saberes ancestrais, pela força da agricultura familiar que alimenta o povo brasileiro”, explica Ingrid Sousa do coletivo de produção do MAM.

Além da exposição e comercialização de produtos, a programação cultural será marcada por apresentações de artistas locais e nacionais, com ritmos como rap, forró, reggae, samba e outras expressões da música popular brasileira. Os artistas participantes vêm de regiões diretamente impactadas por projetos minerários e suas composições trazem temas ligados à resistência, à identidade e à denúncia das violações.

“A arte é a forma como as pessoas expressam seus sentimentos, seus modos de resistência, sua ancestralidade e demarcam seu posicionamento no mundo, além de elucidar criticamente modelos de sociedade naturalizados da exploração dos povos, trabalhadoras e trabalhadores, por isso, e portanto, a importância dessa feira cultural no II encontro nacional do MAM”, diz Gracinha Donato, da direção nacional do MAM.

O MAM escolheu fazer seu II Encontro Nacional em Fortaleza (CE), pois o nordeste brasileiro é hoje alvo de intensas disputas pelo subsolo, se tornando o centro de um debate nacional sobre soberania, modelo mineral e organização popular.

O estado cearense se tornou, nos últimos anos, uma das principais fronteiras de expansão mineral no Brasil, com mais de 5 mil pesquisas minerais em andamento, disputando cerca de 4 milhões de hectares de território — o equivalente a 36% de toda a extensão do estado, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM)

Serviço

II Encontro Nacional do MAM/ I Feira cultural da Agrobiodiversidade

Quando: 24 a 28 de agosto

Local: Universidade Federal do Ceará (UFC) – Campus Pici.

Horário: Das 8h às 17h (Debates) das 18h às 23h (Feira)

Mais informações: João Victor (88) 98194- 2254 Márcio Zonta (98) 98156- 1749.

 

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Benedicto Monteiro: solenidade de concessão de título doutor honoris pela Ufopa ocorrerá no dia 25, segunda feira.

Os filhos Wanda e Benedicto Monteiro Filho participarão da cerimônia.

Rogerio Almeida

Benedicto Monteiro. Fonte: redes sociais

A cerimônia que será presidida pela professora Aldenize Xavier,  reitora da Ufopa, ocorre a partir das 14h, do dia 25, na Unidade Tapajós. Os filhos Wanda Monteiro e Benedicto Monteiro filho representarão a família do escritor Benedicto Wilfred Monteiro. Detalhes AQUI

Além da agenda em Santarém, ocorrerá seminário na cidade natal de escritor, Alenquer, na noite do dia 29, na Câmara Municipal. Por coincidência, a 28ª edição da FeiraPanamazônica do livro homenageia Wanda Monteiro e o mestre de cultura popular Damasceno, quilombola marajoara, infelizmente, em delicado estado de saúde.

No Baixo Amazonas, Wanda, advogada e escritora apresentará as obras Chão de Exílio e Aquatempo. O primeiro é uma prosa poética que recupera parcela da memória do pai, lançado em 2022.

O centenário do autor celebrado em 2024 serviu de mote para uma série de ações sobre o conjunto da obra de Benedicto. Muitas restritas à capital, como foi o caso de uma exposição organizada pela Secretaria de Cultura do Pará (Secult), apesar de apelos para que a mesma circulasse no Baixo Amazonas. A Secult não respondeu aos ofícios de solicitação.

Na mesma toada de homenagens, a Imprensa Oficial do Estado reeditou a tetralogia amazônica do autor, composta pelas obras “Verdevagomundo (1972)", "O Minossauro (1975)", “A Terceira Margem (1983)” e “Aquele Um (1985)”. Obras geradas no apogeu da ditadura civil-militar, que representa uma grande inflexão sobre a conformação política, territorial, social e econômica da região,marcada pela hegemonia do capital internacional. 


Sobre Verde Vagomundo, a professora Maria de Fátima Nascimento, do curso de Letras, UFPA, realça que é nesta obra que emerge o principal personagem da tetralogia, Miguel Santos dos Prazeres. Um profundo conhecedor do universo da várzea do Baixo Amazonas. O romance ambientado em Alenquer, contempla a história do major Medeiros, que herda latifúndios, castanhais e balatais na região. 

Sobre o alterego do autor (Miguel dos Prazeres), a professora recorta o curioso fato da obra, em que com a mediação do militar, Miguel é escalado para ser o fogueteiro das celebrações do padroeiro da cidade, Santo Antônio. Ocorre que a festividade colide com o  golpe militar. E ao invés dos fogos serem disparados durante  a semana do festejo, por conta de perseguições, Miguel dispara tudo em único dia. Haverá uma situação de confronto entre o fogueteiro e as patrulhas, onde Miguel desaparece, vindo a reaparecer no romance o Minossauro, onde vai operar como mateiro e pescador de uma equipe de pesquisadores. 

A professora é entusiasta da obra de Monteiro. "O Benedicto deixou para o Pará uma obra valorosa. É dever da gente como educador e pesquisador incentivar a pesquisa sobre o conjunto que ele deixou. Estamos fazendo isso aqui na UFPA. É uma obra que fala das nossas questões, das nossas carências. O reconhecimento acadêmico da Ufopa é muito importante e bem vindo ao nosso grande autor, Benedicto", arremata a professora Nascimento. 

Por inciativa do edil de Alenquer, Luiz Alberto Freire, a Câmara realizou uma moção de aplausos. E, com vistas a publicizar a obra do autor, a turma do curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional da Ufopa, campus Alenquer, realizou inúmeros eventos

Para Wanda Monteiro, a filha que herdou a verve poética e a profissão do pai como advogada, “Toda vez em que o Benedicto é homenageado a gente da família considera como um resgate da memória. Não só da memória dele, mas, sobre a história do Pará. uma vez que a história do Benedicto se confunde com a história do Pará. Para a família é um sentimento de alento diante de tantos silenciamentos e apagamentos que ele sofreu durante toda a vida. A família tem um profundo sentimento de gratidão pela honraria concedida pela Ufopa ao Bené. A gente está muito feliz”.  

Paulo Nunes, escritor, professor da Uepa (Universidade do Estado do Pará) e da Unama, pesquisador da literatura amazônica na perspectiva geopoética, considera que “Benedicto honra Alenquer, o Baixo Amazonas e a todos nós que gostamos da região e de estudar a literatura que dela emana. É uma grande felicidade receber a notícia de uma universidade da grandeza da Ufopa reconhecer academicamente a obra de Benedicto Monteiro, assim como a sua trajetória em defesa dos direitos humanos, o direito à terra e em defesa da democracia do Brasil”.

Justa, merecida e necessária a comenda concedida pela Ufopa a Benedicto Monteiro, avalia Franssinete Florenzano, jornalista, advogada, membro da Academia de Letras do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós.

Para a imortal, “A literatura amazônica de Benedicto Monteiro é também expoente da literatura mundial. Seu personagem Miguel Dos Santos Prazeres, alter ego e porta-voz do caboclo amazônico e suas dores, já fazia, há tantas décadas, manifesto ecológico. Homem à frente de seu tempo, de talento multifacetado, era membro da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da Academia Paraense de Jornalismo. Ombreou as lutas de quilombolas, ribeirinhos, indígenas, balateiros, castanheiros, vaqueiros, atores de uma Amazônia situada em perspectiva universal. Ave, Bené!”

A dissertação apresentada na Universidade de Campinas (Unicamp) pela professora Maria de Fátima Nascimento, em 2004, examina a obra O Minossauro (1975), a partir das alegorias que coteja sobre a ditadura civil-militar. Período em que Benedicto Monteiro foi cassado e preso. A montagem a partir de discursos pretéritos e de outros autores  constitui um dos recursos adotados por Monteiro. A professora destaca o uso de canções, relatórios e  poemas.

No percurso do trabalho a professora alerta para e heterogeneidade de estilo que a obra enseja, onde de sobressai a voz de Miguel dos Santos dos Prazeres. Uma espécie de alter ego de Monteiro. É um caboco ribeirinho, sabedor das manhas da floresta, canoeiro e remeiro.  

Doutor Honoris – o fio da meada - Um seminário realizado de forma remota em abril de 2023, onde participaram Wanda Monteiro, escritora e filha do homenageado, e os professores Abílio Pacheco, da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará), Gilberto Marques, UFPA, com a mediação do professor Rogerio Almeida, Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará) em celebração ao centenário do escritor e político Benedicto Monteiro, foi a semeadura da ideia da elaboração do documento que culminou com a comenda de doutor honoris ao alenquerense Benedicto Wilfred Monteiro (in memoriam). Assim como a professora Nascimento, o professor Pacheco é autor de uma tese sobre Benedicto na mesma universidade.     

O tema foi sugerido pelo professor Rogerio Almeida foi pauta do III Ciclo de Debates sobre Políticas Públicas, do curso de Gestão Pública, do campus de Alenquer.  Outros conteúdos seguiram pautando a obra do autor.

Para efeito burocrático, a comenda sugerida pelo professor Almeida foi aprovada no colegiado no curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional, em seguida passou pelo escrutínio do conselho do Instituto de Ciências da Sociedade (ICS), até ser aprovado pelo Consun (Conselho Superior da Universidade) da Ufopa em 22 de agosto de 2024.

A condição de escritor, gestor pública, professor, defensor da democracia e dos direitos humanos na condição de advogados de posseiros e outras categorias serviram de recurso no documento que solicitou a comenda ao filho de Alenquer.  

Benedicto Monteiro - vários

Advogado, político,professor, escritor e gestor público, Monteiro nasceu nas barrancas de Alenquer/PA. 

Apesar da família abastada e dona de terras, o socialismo servia de farol para o político. Ao tomar possa das terras da família, as compartilhou entre trabalhadores rurais de Alenquer. A opção política provocava tensões no seio familiar.

Monteiro correu o mundo em busca de formação. Idos das primeiras décadas do século XX, no Rio de Janeiro fez par com o marajoara Dalcídio Jurandir - igualmente comunista - após ter sido convidado a sair da casa do tio (um militar) por conta da sua opção política, recupera Abílio Pachêco, em perfil sobre o autor, em tese apresentada na Universidade de Campinas (Unicamp), em 2020.   No mesmo documento, o professor realça que Monteiro foi convidado por Marighela a engrossar as fileiras da luta armada. Acesse  a tese AQUI 

As informações aqui elencadas sobre Monteiro possuem como fonte dados sistematizados por Pachêco, que recupera que em as atividades na condição de advogado ou em campanha política, o ximango autor registra em gravações relatos dos trabalhadores. Nestas incursões ao longo dos anos reuniu mais de 100 fitas gravadas. Fitas k7 e um número expressivo de fichamentos sobre a linguagem local.

O horizonte residia em coletar informações para a produção de uma dissertação sobre o falar loca, e assim pleitear uma vaga no magistério superior.  Pachêco sublinha que todo esse material foi apropriado pelos militares, e nunca foi restituído ao autor.  A sanha contra o saber é de velha data.    

Preso, Benedicto fez da reclusão do cárcere o tempo para refletir e formatar narrativas e forjar personagens, a exemplo de Miguel dos Santos Prazeres.   Privado do assento político, o alenquerense fez da literatura a sua bandeira

O aclamado professor Darci Ribeiro, em prefácio da obra a Terceira Margem (1981), festeja que: “Nos textos de Benedicto Monteiro é onde melhor se destrança a trama humana desumana da vida social da Amazônia que é a verdadeira selva selvagem: a mata penetrada, assassinada, pela civilização predatória. Lá, metidos por milênios, povos índios morenos de mil falas e mil caras, decifram a mata, aprendendo a viver dela e com ela, cultivando, caçando e procriando. Um dia, sobreveio a hecatombe mercantil e cristã. Era a civilização. Como uma avalanche ela apodreceu os corpos com as pestes da raça branca. Escravizou os sobreviventes, para desgastar milhões no trabalho venal. Reproduziu-se no ventre de mil cunhãs. Entorpeceu o espírito das gentes com a desmoralização missionária das velhas crenças. Apodreceu suas almas no desengano da vida nova que não vale a pena ser vivida. A salvação para muitos foi a terceira margem”

Chove sobre os campos de cachoeira (1933), de Dalcídio Jurandir, aos olhos de Monteiro serve de farol sobre a construção da representação da Amazônia, em particular, sua especificidade da oralidade, o mundo das águas e da floresta e seus habitantes, em uma relação dialética entre sociedade e Abílio Pachêco apontam que Monteiro foi convidado por Marighela a engrossar as fileiras da luta armada, quando setores da sociedade organizavam movimentos com vistas a viabilizar guerrilhas urbana e rural. Tendo o comandante procurado advogado em sua residência em Belém. Neste contexto, o advogado teve a sua licença da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) cassada, e passou a colaborar com escritórios de amigos. Ele informa em relato do período que, sempre que era anunciada a visita de alguma “autoridade” do regime ao Pará, era preso com antecedência, e liberado vários dias após o evento. Em Transtempo, espécie de autobiografia, constam os episódios, acima, entre outros.

Pachêco (2020), nas informações elencadas sobre Monteiro, recupera que na condição de advogado, ou em campanha política, o ximango registrava em gravações os relatos dos trabalhadores em suas andanças pelo interior. Nestas incursões ao longo dos anos, reuniu mais de 100 fitas k7 gravadas   e um número expressivo de fichamentos sobre a linguagem local.

O horizonte residia em coletar informações para a produção de uma dissertação sobre o falar local, e assim, pleitear uma vaga no magistério superior.  Pachêco (2020) sublinha que todo esse material foi apropriado pelos militares, e nunca foi restituído ao autor ou a sua família.  A sanha contra o saber, a educação, a democracia e o conhecimento era a palavra de ordem. Um projeto de país. Um projeto de aniquilação e obscurantismo.    

Preso, Benedicto fez da reclusão do cárcere o tempo para refletir, formatar narrativas e forjar personagens, a exemplo de Miguel dos Santos Prazeres.  Uma espécie de altergo do autor.  Privado do assento político, o alenquerense fez da literatura sobre a latitude de nascença a sua bandeira e oxigênio. O Baixo Amazonas que gerou expressivos literatos, entre eles, Inglês de Souza e José Veríssimo, estes, assim como Monteiro, em outra quadra temporal, possuem repercussão para além das fronteiras nacionais.

No diversificado rosário de relações dos vários Benedictos, há  registro de diálogos com os intelectuais da Amazônia, onde encontramos nomes como Benedito Nunes, Lúcio Flávio Pinto, Rui Paranitinga Barata, Vicente Cecim, Samuel Benchimol, Artur Cézar Ferreira Reis, Max Martins, Márcio Souza (Editora Marco Zero), entre outros.  Bem como, trocou correspondências com Nélida Piñon, prosa com Jorge Amado e Darci Ribeiro. No campo político, além de Marighela, tem-se o presidente deposto pela ditadura civil-militar, João Goulart.

Sobre a repercussão dos escritos de Benedicto mundo afora, o site da UFPA alumeia que, na Europa, suas obras despertam interesse em países como Portugal, Holanda, Itália e Alemanha, onde foram traduzidas e geradoras de inúmeros trabalhos acadêmicos. Na Alemanha sobressai a investigação do pesquisador Klaus Meyer Koeken, intitulada "Die Illusion Von oraitãt im brasilianischen Roman": "Zur Simulation realer Sprechsituationen in drei ‘mündich erzählten Lebensgeschichten ".

Já nos Estados Unidos, destaca-se o trabalho do professor Macolm Silverman da San Diego State University – Califórnia, que em livro traduzido para o português intitulado "Protesto e o novo romance brasileiro".  Benedito Nunes, professor e ensaísta paraense de reconhecimento nacional, sobre Verde Vagomundo, em texto datado de 1973, adverte: “[...] um romance que, rompendo com as limitações do regionalismo, integre, numa narrativa universalmente representativa, o mais característico e o mais peculiar tanto ao meio físico quanto ao meio cultural quanto do estado das relações humanas, inclusive sociais e políticas, duma região quase sempre desgastada pela má literatura.” 

Em breve a revista Moara/UFPA apresentará um dossiê sobre a obra de Monteiro. 

Abaixo fala de Wanda Monteiro por ocasião da exposição sobre a obra de Benedicto Monteiro, em Belém/PA. 


Links de algumas obras sobre Benedicto Monteiro 

Tese - Territorialidades de enunciações: as Amazônias na tetralogia Amazônica, de Benedicto Monteiro. Airton Souza /UFPA.  Leia AQUI

Dissertação A REPRESENTAÇÃO ALEGÓRICA DA DITADURA MILITAR EM O MINOSSAURO, DE BENEDICTO MONTEIRO: FRAGMENTAÇÃO E MONTAGEM, Maria de Fátima Nascimento. Leia AQUI

Dissertação Educação e memória na Amazônia a partir do olhar de Miguel dos Santos Prazeres, de Benedicto Monteiro, CRISTINA DIAS NOGUEIRA. Leia AQUI

Artigo -Memória e modernidade em Benedicto Monteiro e Milton Hatoum, Tânia M. Pantoja. Leia AQUI 

Artigo - A magia dos objetos na narrativa de Benedicto Monteiro, José Guilherme Castro. Leia AQUI

Projeto Biblioteca Benedicto Monteiro. Saiba mais AQUI

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Bacia do Tapajós: audiência pública discutirá gestão no dia 12, terça feira

O evento será online

Além da opção de participação presencial, as pessoas interessadas também poderão participar de forma on-line da audiência pública convocada pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) para discutir a gestão social da bacia hidrográfica do Rio Tapajós e seus recursos hídricos. O evento será realizado na próxima terça-feira (12), partir das 8h30, no auditório do MPPA em Santarém (PA). Saiba mais AQUI

terça-feira, 5 de agosto de 2025

MPF cobra do poder pública ação contra uso de agrotóxico no Planalto Santareno

O uso de veneno em monocultivos de soja afeta povos indígenas, camponeses e quilombolas. Mostra de urina dos moradores indica que todos os moradores da região foram afetados pelo agrotóxico


O Ministério Público Federal (MPF) entrou na Justiça Federal, nesta segunda-feira (4), com uma ação para obrigar a União, o estado do Pará, a Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Pará (Adepará) e o município de Santarém (PA) a elaborarem e executarem um plano emergencial para proteger as populações e o meio ambiente dos impactos da pulverização de agrotóxicos na região do Planalto Santareno.

O Planalto Santareno, localizado na região oeste do estado, fica a aproximadamente 42 km da área urbana de Santarém e é caracterizado pela expansão do agronegócio e pelo monocultivo de grãos. Na mesma região está a Terra Indígena (TI) Munduruku e Apiaká do Planalto Santareno, composta por cinco aldeias.

O objetivo central da ação é cobrar uma resposta efetiva dos órgãos públicos, com a elaboração urgente de um conjunto de normas que regulamente a atividade. O plano deve, necessariamente, estabelecer distâncias mínimas de segurança entre as áreas de aplicação de agrotóxicos e os locais onde vivem pessoas, como comunidades indígenas, quilombolas e de agricultores familiares, além de escolas, unidades de saúde e cursos d’água.

O plano ainda deve indicar coordenadores responsáveis, ações, prazos, metas e indicadores bem definidos e ter como conteúdo mínimo os seguintes itens:
  •     a identificação de todas as comunidades (indígenas, quilombolas, ribeirinhas, extrativistas e camponesas) do Planalto Santareno.
  •     o estabelecimento de distâncias mínimas de segurança entre as áreas de aplicação e núcleos populacionais (especialmente de comunidades tradicionais, como aldeias e quilombos), escolas, unidades de saúde, cursos d’água e outras áreas sensíveis.
  •      a realização de fiscalizações periódicas nos imóveis rurais que exerçam atividade agrícola na região do Planalto Santareno, sugerindo-se periodicidade mensal no primeiro ano.
  •     o monitoramento da saúde dos comunitários e dos cursos d’água, sugerindo-se periodicidade mensal no primeiro ano.
Após a aprovação do plano emergencial, o MPF pede que ele seja executado, sob supervisão judicial, e avaliado periodicamente, mediante relatórios trimestrais, até a sua conclusão por homologação judicial.

A ação é fruto de investigação que reuniu provas quanto ao risco aos quais pessoas e meio ambiente estão expostos. Um dos documentos centrais é um laudo pericial da Polícia Federal que constatou a proximidade excessiva das lavouras com as moradias. Os peritos encontraram plantações a apenas seis metros de casas na aldeia Açaizal e registraram a ausência total de barreiras de proteção, como faixas de segurança ou quebra-ventos. Imagens anexadas ao processo mostram caixas d'água comunitárias ao lado de plantações, e análises de solo revelaram a presença de três tipos de agrotóxicos: paration, alacloro e atrazina.

Omissão do poder público – Segundo o procurador da República Vítor Vieira Alves, autor da ação, a omissão dos órgãos públicos é um fato incontroverso. O MPF destaca que a própria Adepará admitiu oficialmente, em 2022, que não realizava fiscalizações no Planalto Santareno por "inexistência, na legislação estadual, de critérios específicos para distâncias mínimas na pulverização terrestre". A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) chegou a reconhecer a necessidade das medidas e a elaborar minutas de normas, mas, até o momento, não as aprovou.

O MPF aponta que essa inércia ocorre apesar de o uso de agrotóxicos na região ter crescido 600%, conforme dados citados na ação. A situação levou o Conselho Indígena Munduruku e Apiaká do Planalto (Cimap) a denunciar ao MPF que o veneno é carregado para os igarapés, contaminando fontes de água e os açaizais. Os indígenas relataram o desaparecimento de diversas espécies de árvores frutíferas essenciais para sua economia e cultura, como graviola, piquiá, uxi e pupunha.

Impactos avassaladores – Os danos à saúde são um dos pontos mais alarmantes citados na ação. Um estudo do projeto Institutos Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (INCT) – Observatório das Dinâmicas Socioambientais (Odisseia) revelou que 100% das análises de urina de moradores da região continham resíduos do herbicida glifosato.

Outra pesquisa, da doutora em neurociências e biologia celular e professora na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) Eliza Maria da Costa Brito Lacerda, apontou déficits na discriminação de cores entre os moradores, um indicativo precoce de efeitos neurofisiológicos.

Em depoimento ao MPF, a pesquisadora transcreveu relatos que demonstram a gravidade da exposição: “As pessoas relatam que elas sentem o cheiro dos agrotóxicos sendo aplicados. Elas sentem o sabor dos agrotóxicos quando eles estão sendo aplicados. [...] Isso é um nível de exposição extremamente alto. É como se elas estivessem tomando eles, em gotas”.

Racismo ambiental – A ação cita ainda que 70% dos entrevistados em um estudo da doutora em toxicologia e professora da Ufopa Flávia Garcez da Silva apresentavam sintomas como cefaleia, vertigem e náuseas, além de alterações laboratoriais significativas, como dislipidemias. Um exemplo do perigo é o caso da escola municipal Professora Vitalina Motta, em Belterra (PA), que teve as aulas suspensas após uma "nuvem de veneno" invadir o espaço escolar.

O MPF argumenta que essa realidade configura um quadro de "racismo ambiental", em que populações vulneráveis são desproporcionalmente expostas aos riscos, e um "verdadeiro genocídio cultural", pois a degradação força o abandono de territórios e a perda de modos de vida tradicionais.

Pedidos de reparação – Além da elaboração do plano emergencial, a ação busca a reparação pelos danos já causados. O MPF pede a condenação dos réus à implementação de um plano de recuperação de áreas degradadas (PRAD). Requer também o pagamento de indenizações por danos morais coletivos e sociais, e o reconhecimento do direito à indenização individual para os moradores das comunidades afetadas desde o ano 2000. O valor total da causa foi estimado em R$ 900 milhões.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

V Congresso da CPT celebra mártires da luta pela terra

Foto: João Palhares / Agro É Fogo



Em meio à programação do V Congresso Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), uma celebração tomou as ruas escuras do centro histórico da cidade de São Luís (MA) na noite da quarta-feira (23), o terceiro dia do encontro, fazendo memória aos mártires, defensores e defensoras da vida no campo, nas águas e nas florestas. A celebração iniciou de forma animada, com concentração na Praça Deodoro, seguida de uma caminhada em romaria e terminando no local principal do Congresso, o Instituto Estadual do Maranhão (IEMA). Leia a íntegra no site da CPT

Violência contra povos indígenas: Cimi adverte para aumento da violência em 2024

O ano de 2024 foi o primeiro a iniciar sob a vigência da Lei 14.701/2023, aprovada pelo Congresso Nacional e promulgada nos últimos dias de dezembro de 2023. A expectativa dos povos indígenas e seus aliados era de que, dada a flagrante inconstitucionalidade e o evidente conflito com a recente decisão de repercussão geral sobre o tema, a chamada “Lei do Marco Temporal” fosse rapidamente derrubada por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).  Baixe o relatório AQUI

O jornalista Alceu Castilho reflete a partida de Ariovaldo Umbelino e o silêncio da mídia corporativa

 

Foto: Alceu Castilho

O professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, do Departamento de Geografia da USP, formou várias gerações de pesquisadores em geografia agrária. A partir de uma linha teórica muito clara, que ressaltava a existência e resistência do campesinato. (Não proletários rurais. Camponeses.)
Sim, ele foi o mais importante geógrafo agrário do país, o que não é pouco em um país agrário. E um país agrário dominado por aristocracias manipuladoras e violentas. Ariovaldo não se cansava de descrever a grilagem como elemento crucial para entendermos este país.
Ele foi um teórico incisivo e decisivo, inspirado na sociologia de José de Souza Martins. E ia a campo. Correndo riscos. E ajudando os movimentos sociais a medir seus territórios. A noção de território costuma ser invisibilizada por nossas elites e era central na práxis de Ariovaldo Umbelino.
Sua morte sem referências na imprensa comercial mostra o quanto este país se tornou estúpido, o mesmo país que menciona com respeito cínico a passagem, também neste sábado, de um dos jornalistas mais inescrupulosos das últimas décadas, um golpista qualquer.
Curiosamente, eu conheci Ariovaldo Umbelino de Oliveira fazendo uma entrevista sobre imprensa e questão agrária, em 2006. Depois fui cursar Geografia e sua disciplina na pós-graduação da USP, "Agricultura e Capitalismo no Brasil", para tentar não escrever muita bobagem em meu livro "Partido da Terra".
E entrei no mestrado sob sua orientação. Cursei de novo a mesma disciplina, enquanto ele se recuperava de um AVC. Sua memória espetacular não era a mesma. Olho retrospectivamente e detecto um certo ar melancólico, alguma frustração por não ter sido realizada a reforma agrária em nosso país.
Uma das coisas que posso dizer em respeito às décadas de trabalho desse pesquisador é que o De Olho Nos Ruralistas tem na linha teórica defendida por Ariovaldo Umbelino uma de suas principais referências. Os dados — os fatos — mostram que ele sempre esteve certo.
A imprensa brasileira invisibilizou Ariovaldo durante todo esse tempo porque a ela interessa invisibilizar o território e os motivos estruturais (a grilagem, a marcha destruidora do capitalismo) da destruição dos biomas, da desigualdade e da violência no campo. Ou, em outras palavras: porque é cúmplice.
A geografia brasileira está em luto e o país deveria estar em luto.

Ariovaldo Umbelino, presente!



A notícia do falecimento do Professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, nosso Ari, Professor Titular aposentado do Depto de Geografia da FFLCH USP, ocorrida ontem, 02 de agosto, pegou a todos de surpresa e nos deixou sem voz e sem chão. Uma perda que restará inconsolável para quem o conheceu e teve a oportunidade de com ele aprender.

Ari foi vanguarda e resistência. Uma das primeiras gerações de filhos da classe operária a chegar na Universidade, como estudante nos anos 1960 e como professor nos anos 1980, tendo antes atuado como professor do ensino básico e como geógrafo no IPT, onde contribuiu para a criação de um projeto de solo-cimento que servia a baratear os custos de produção das casas da classe trabalhadora.

Coragem, firmeza e coerência eram suas qualidades mais marcantes. Ousou convencer seu orientador, Pasquale Petrone, a acompanhá-lo na construção de sua tese de doutorado construída sob o método materialista dialético, a primeira “tese marxista” da USP e do Brasil, defendida nos anos de chumbo da ditadura. 

Teve coragem para enfrentar uma banca e o anfiteatro de Geografia lotado, em uma longa defesa onde, como ele sempre recordava, parte estava para apoiá-lo e parte para ver sua derrota. 

Ele venceu, e desde então, formou gerações de estudantes com sua geografia crítica, socialmente empenhada e comprometida com a transformação da sociedade em que vivia, deixando claro que o discurso da ciência neutra não tinha lugar na sua sala de aula e que, ao contrário, a sua Geografia era feita para dar luz e voz àqueles que até então haviam sido invisibilizados pela academia: os camponeses, indígenas, quilombolas e de todos os que enfrentam a exclusão decorrente da violenta concentração fundiária do campo brasileiro. 

E esse compromisso o levou a trabalhar com a CPT durante anos, estando presente na construção dos Cadernos dos Conflitos no Campo que há décadas fornecem dados sobre a violência do latifúndio no Brasil. Era um geógrafo comprometido com seus princípios e a ciência que produzia, firme no método, militante crítico, o que o colocou em posição divergente em relação àquelas adotadas por movimentos sociais em determinados momentos da luta. Essas divergências não o abateram, ao contrário, o estimularam a consolidar a sua produção na busca por uma sociedade mais justa e socialmente solidária. 

Suas aulas, na Graduação e Pós-Graduação, encantavam pelo domínio do conteúdo e eloquência do discurso. Era possível não concordar com suas ideias e posturas, mas não com a firmeza de seus argumentos. Seus trabalhos de campo, muitos deles feitos para a Amazônia com dias de duração, eram oportunidades ímpares de um contato com o Brasil real e de muito aprendizado para todos os que puderam deles participar. 

Na USP, e nas universidades por onde passou após sua aposentadoria, auxiliando na democratização da Pós-Graduação, formou milhares de estudantes. Criou o SINGA, simpósio que hoje caminha sozinho com seus 22 anos de existência, cujos 20 anos foram comemorados em 2023 no DG, a casa onde ele nasceu, o que o encheu de orgulho. 

Na Pós-Graduação orientou, como se orgulhava sempre de dizer, mais de 100 estudantes entre Mestres e Doutores, exclusas as supervisões de pós-doutoramento, o que certamente faz com que seus ensinamentos estejam espalhados por muitos lugares neste país. 

Um orientador preciso, que nos estimulava a caminhar com autonomia e liberdade para ousar e que com poucas palavras nos fazia ver além do que estava diante a nós. Como sua última orientanda de doutorado disse em uma aula, “um homem de poucas palavras e muitas ações”. 

Deixou uma produção científica densa e de peso e contribuições para o estudo da Geografia Agrária e das ciências humanas no geral que permanecerão ao longo do tempo. Sentiremos muita falta de sua risada farta e de suas ponderações precisas, por vezes intransigentes, mas seu legado permanecerá vivo conosco e seguirá sendo transmitido para as gerações futuras. 

Ari querido, o Agrária seguirá mais triste, mas você seguirá presente em nossos corações e práxis.

Veja interpretações sobre o agrário nacional AQUI

Ari, Presente!

 

Marta Inez Medeiros Marques 

Valéria de Marcos

quinta-feira, 24 de julho de 2025

50 anos da CPT: Infelizmente a CPT ainda existe

Roberto Malvezzi (Gogó)

21 de julho de 2025


Em São Luiz do Maranhão, a CPT celebra seus 50 anos, em forma de um Congresso. Um grande número de agentes pastorais e trabalhadore(a)s vão debater as origens, o presente e o futuro da CPT.

Nascida no contexto do Regime Militar, 1975, quando as empresas começaram invadir a Amazônia, logo se espalhou pelo Brasil, chegando aqui no São Francisco em 1976, quando era construída a barragem de Sobradinho, deslocando 4 cidades e 72 mil pessoas.

Na raiz da CPT estão pessoas como Pedro Casaldáliga, Thomas Balduino. Vivos ainda estão Ivo Poletto e Ranulfo Peloso. Suponho que eles tenham sido convidados para o Congresso, já que são a memória viva de um “kairós” que não se repete todo dia na história.

Outro dia conversava com meu compadre Ruben Siqueira e falávamos da importância das CPT em nossas vidas. Foi um presente de Deus participar por tantas décadas dessa pastoral, continuando agora voluntariamente, ainda que mais na retaguarda, colaborando na formação aqui na CPT de Juazeiro da Bahia e na equipe da própria Bahia. Essa história pessoal mudou nossas vidas, nos deu um sentido outro do que seja pastoral, do que seja o evangelho, do que significa ser discípulos (mesmo com tantas falhas) de Jesus de Nazaré.

Hoje há muitas mudanças. Aquela pastoral que nasceu para servir aos agredidos pelo capital no campo, hoje tem que enfrentar as questões de gênero, de “raça”, ambientais, além das questões fundiárias. Ela que nasceu do impulso profético desses homens e mulheres únicos na história, agora experimenta a perda de seus precursores de origem, temos uma nova geração de agentes. Hoje temos poucos padres, religiosas, leigos e bispos com a disposição de colocar suas vidas em risco para servir aos injustiçados do campo.

Além desses fatores, hoje há muitos movimentos sociais no campo, como o MST, MAB, MPA, movimentos agroecológicos e o próprio sindicalismo rural. De alguma forma, dão respostas a muitos desses problemas do campo que antes estavam sob a responsabilidade da CPT.

Por outro lado, hoje o capital do campo é transnacional, ligado ao nacional, como as mineradoras, as empresas solares, eólicas e a expansão violenta do agronegócio nas terras públicas, territórios indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais.

Além de menos agentes, há menos recursos financeiros, o que torna precário muitas vezes o trabalho das equipes. Nesse momento da história, há um corte violento nos recursos das equipes por todo o Brasil.

Infelizmente a CPT ainda existe, porque se houvesse justiça no campo do Brasil ela não precisaria existir. Por outro lado, felizmente ela existe, porque a situação do campo ainda demanda a presença da CPT. Então, que ela exista enquanto for necessária.


domingo, 20 de julho de 2025

Curso de Geografia da UNB promove vivência na Amazônia

As atividades ocorrem entre os dias 18 de julho a 10 de agosto nos estados do Pará, Amazonas e Roraima

 

Saída da comitiva de Brasília, dia 18 de julho. 

Perto de 40 pessoas entre estudantes e professores do curso de Geografia da Universidade de Brasília (Unb) ficarão três semanas conhecendo parte da diversidade de três estados amazônicos, onde constam na agenda o Pará, Amazonas e Roraima. 

Trata-se do projeto Vivência Amazônica, organizado pelo Projeto de Extensão vinculado ao Núcleo de Estudos Amazônicos (Neaz), sob a coordenação do professor Manuel Pereira de Andrade.

A saída de Brasília ocorreu no dia 18 de julho, a previsão do encerramento é o dia 10 de agosto.  A comitiva aporta na cidade de Santarém na noite do dia 20, domingo.  O grupo  saiu de Brasília um dia depois da Câmara aprovar a PL da Devastação, o Projeto de Lei 2.159/2021. 

Trata-se da décima versão do projeto, que iniciou no ano de 2016. A ideia é possibilitar aos discentes a convivência com indígenas, quilombolas, extrativistas, agricultores/as familiares e camponeses.

Os/as estudantes terão a oportunidade de realizar algumas atividades acadêmicas e de extensão em uma parceria entre o Núcleo de Estudos Amazônicos (NEAz/CEAM/UnB) e o Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Fronteiras (PPGSOF) da Universidade Federal de Roraima (UFRR), no período de 28 de julho a 2 de agosto.

Roteiro da Vivência Amazônica

Nestes eventos o Neaz  apresentará alguns dos trabalhos realizados durante a disciplina “Tópicos Especiais sobre a Amazônia” e pelo projeto de extensão Vivência Amazônica.

O mesmo núcleo é responsável pela realização do Fórum Internacional sobre a Amazônia, que este ano ocorreu no mês de junho. Saiba mais sobre o FIA AQUI

 

Mais informações

Professor Manuel Pereira 61 98131-9813

Jean Muller – 61 98347 1138 (discente)

Jabuti acadêmico: obra que retrata saga de extrativistas assassinados no Pará é semifinalista do Jabuti

O professor  da UFBA, Felipe Milanez, assina a obra Lutar com a floresta, publicada pela Editora Elefante



José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foram assassinados em uma manhã do dia 24 maio de 2011, no município de Nova Ipixuna, sudeste do Pará. Região imortalizada onde mais se mata em disputas pela terra no Brasil.

Quando do anuncio do caso na Câmara Federal, a bancada ruralista festejou como se fosse uma final de campeonato. O mesmo Legislativo que acaba de passar a boiada sobre o licenciamento ambiental no ano em que a Amazônia sedia a COP. 

Como outros casos de execução de dirigentes sindicais, ambientalistas e defensores de direitos humanos, todos sabiam, até os carrapatos dos bois das terras griladas.

O nome do casal constava em lista de pessoas ameaçadas de morte,  a cada ano divulgada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). Nada foi feito.  José Cláudio chegou a denunciar as ameaças que o casal vinha sofrendo durante o evento Red Amazônia, realizado em Manaus, meses antes da tocaia.

Os extrativistas moravam no Projeto de Assentamento Agroextrativsita (PAE) Praialta Piranheira.  No contexto das contradições das disputas pela terra, o sul e o sudeste do Pará contabilizam um pouco mais de 500 projetos de assentamentos da reforma agrária (PAs).

Maria do Espírito Santo e José Cláudio. Foto: Felipe Milanez


O Praialta Piranheira é o único projeto com esse viés ambientalista. Até a criação do PAE os moradores contaram com a mediação de inúmeros sujeitos do campo democrático, onde constam frações da Igreja Católica, a exemplo da CPT, UFPA, Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), ONGs, partidos políticos, Conselho Nacional dos Seringueiros, entre outros sujeitos.  

Por longo tempo o Laboratório Socioambiental do Araguaia-Tocantins (LASAT) prestou assessoria com relação ao manejo florestal de base comunitária.  Na época o Lasat era vinculado a UFPA. Com relação ao manejo florestal de base comunitária, um conjunto de instituições propõe há mais de dez anos a efetivação de uma política estadual.  Saiba mais AQUI

A obra – o jornalista, documentarista e sociólogo Felipe Milanez assina a obra Lutar com a floresta, lançando em maio de 2024, pela Editora Efefante.

Ela resulta de trabalho de doutoramento realizado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, sob a orientação de um time de primeira linha, onde constam o economista Martinez Alier (Universidade Autônoma de Barcelona), a historiadora ambiental Stefania Barca (à época Universidade Coimbra) e o antropólogo Alf Hornborg (Universidade de Lund), em 2015.

O professor da Universidade Federal da Bahia esclarece que não se trata de uma biografia ou trabalho etnográfico. Mas, sim de um esforço em dialogar com as ideais do casal em defesa da floresta e a mobilização em um projeto para além das fronteiras do Antropoceno.

Sob a inspiração do sociólogo José de Souza Martins, Milanez sintetiza na apresentação do livro que “Não se trata apenas de um estudo de caso, mas também de um estudo a partir de um caso, uma investigação que utiliza um caso crucial enquanto analisador-revelador das contradições da sociedade capitalista”.

Com vistas a manter acesa a luta do casal, as famílias dos extrativistas criaram um instituto em defesa da memória dos mártires. Entre outras atividades, todo mês de maio a instituição realiza a Romaria dos Mártires da Floresta.  Ano passado Milanez lançou o livro em Marabá.

O livro de Felipe Milanez para além de iluminar sobre o martírio de José e Maria, a inoperância do estado em garantir a vida dos extrativistas, alerta para a possibilidade da construção de um projeto para além da apropriação privadas das riquezas e dos saberes da região.

O livro ombreia outras contribuições que buscam a edificação de um diálogo marcado pela horizontalidade entre os sujeitos e os diferentes saberes.


Adquira o livro AQUI