domingo, 29 de maio de 2022

Vale mantém perseguição contra professor no interior do Pará, apesar de duas derrotas na Justiça

A mineradora processa o professor Evandro Medeiros cível e criminalmente por conta da participação dele em manifestação em solidariedade aos atingidos pelo crime que a Vale cometeu em Mariana/MG em 2015. O ato de solidariedade ocorreu em Marabá, sudeste do Pará.

Evandro Medeiros na EFC. Foto: Alexandra Duarte

No começo do mês de maio a Vale teve mais um recurso contra a vitória dos advogados do professor Evandro Medeiros negado. Na decisão do procurador do Ministério Público do Pará, Hezedequias Mesquita da Costa, ele sublinha a ausência de materialidade dos crimes que a mineradora imputa ao professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), onde realça que “Observa-se que o acervo probatório foi vastamente analisado pelo Egrégio Tribunal de Justiça do Pará, que concluiu pela inexistência de provas da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria contra EVANDRO COSTA DE MEDEIROS.” Veja a íntegra do documento AQUI

A Vale processa cível e criminalmente o professor pelo fato dele participar dele participar de um ato em solidariedade às pessoas atingidas pelo crime da Vale em Mariana, Minas Gerais, ocorrido em 2015. 

Após mais uma derrota a mineradora resolveu mobilizar esforços no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A sanha da Vale contra o professor Medeiros iniciou em 2015. O processo teve impacto da saúde do educador, e acarretou em obstáculos quando o mesmo cursava doutorado, além de constrangimentos dos filhos. 

Sobre as acusações da Vale contra o professor Evandro Medeiros leia mais AQUI.

Vale processa quase 200 pessoas - Espionar movimentos sociais, dirigentes, educadores e processar quem denuncia os abusos que a mineradora promove em seus locais de operação tem sido um modus operandi da Vale.  O total beira a casa de duas centenas, conforme reportagem da Agência Pública de 2017.

 

Posseiros, sem terra, lavradores, quilombolas e  educadores de pequenas cidades e vilarejos da área de influência da Estrada de Ferro de Carajás (EFC) são alguns dos alvos preferências da mineradora.

A ferrovia de aproximadamente 900 km, liga o sertão do Pará, a região de Carajás, sudeste do Pará, ao litoral do Maranhão, São Luís. A EFC foi duplicada por conta do maior projeto da Vale, o S11D, que explora ferro na cidade de Canaã de Carajás. As cifras do projeto são de bilhões de dólares. 

O mercado asiático é o maior consumidor do minério extraído no Pará. As duas cidades de Carajás, Parauapebas e Canaã juntas exportam mais que o município de São Paulo. No ano passado o Pará contou com o maior saldo na balança comercial do país. Tudo por conta da exportação de minérios. Situação que não se reflete na melhoria de indicadores socioeconômicos da região e do estado.

O economista e professor da UFPA, Gilberto Marques, alerta que a se considerar os indicadores do último censo do IBGE de 2010, o Pará ocupa a antepenúltima colocação em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), apesar de toda contribuição do PIB nacional, e do fato de ter superado o estado de Minas Gerais na exportação mineral. 

Um quadro que alerta sobre o cenário marcado pela pilhagem, saque e violências, estas traduzidas com assassinatos e chacinas de camponeses, ambientalistas, defensores dos direitos humanos, trabalho escravo, desmatamento e grilagens de terras.

Sobre grilagens de terra em Carajás, vale a pena a leitura da tese em Geografia apresentada na USP do professor Marcelo Terence, do IFSP. Baixe AQUI

Espionagem de movimentos sociais – o mesmo site do jornalismo independente alertava em 2013 para o serviço de espionagem que a Vale mantinha contra movimentos sociais, educadores, ativistas, religiosos, e mesmo jornalistas.

Segundo a reportagem, constavam na lista de espionados o educador Raimundo Gomes, radicado em Marabá/PA, o militante do Movimento pela Soberania na Mineração (MAM), Charles Trocate, residente em Parauapebas/PA, padre Dário, missionário Camboniano, na época morador da cidade de Açailândia/MA e um dos animadores da rede Justiça nos Trilhos, além do reconhecido jornalista especialista em Amazônia Lúcio Flávio Pinto.  Leia AQUI

sexta-feira, 27 de maio de 2022

"Gringo" Raimundo Ferreira Lima, presente! Há 42 anos o dirigente e agente da CPT era assassinado na região do Araguaia paraense

Os anos de 1980 são considerados os mais letais na luta pela terra no Pará. Sequestro, tortura, assassinados e chacinas faziam parte da Doutrina de Segurança Nacional do Estado, onde a coerção pública e privada imperavam contra os posseiros e seus aliados. 

 


Raimundo Ferreira Lima, mais conhecido como “Gringo” foi executado por pistoleiros no dia 29 de maio de 1980, quando somava apenas 43 anos, em São Geraldo do Araguaia, sudeste paraense. Além de sindicalista em Conceição do Araguaia, Lima era agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Junto a outros companheiros, Gringo empenhava esforços em tomar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais das mãos dos pelegos. Tomar os sindicatos era uma das pautas da época do movimento camponês, o que ficou conhecido como Oposição Sindical. Neste período o major do Exército, Sebastião de  Moura, Cuiró, pregava o terror contra camponeses e seus apoiadores, em particular contra religiosos.

Gringo foi o primeiro dirigente sindical assassinado na região marcada pela aguda  disputa pela terra no sudeste e sul do estado do Pará. Trata-se da região mais violenta do país no que tange à luta pela terra. Após Gringo foram executados membros da família Canuto, a exemplo de João, e em seguida o também dirigente sindical e poeta Expedito Ribeiro na cidade de Rio Maria. 

Registro da revista Pará Agrária da época sobre violência no campo do Pará. 


Mais de 40 anos após a execução de Gringo as matanças de dirigentes sindicais, ambientalistas, defensores de direitos humanos e camponeses permanece como marca indelével do avanço do grande capital sobre a fronteira amazônica. 

O caso mais recente recai sobre a chacina da família José Gomes, conhecido como “Zé do Lago” (61), a esposa Márcia Nunes Lisboa, (39) e a filha de 17 anos, Joane Nunes Lisboa, ocorrida em São Félix do Xingu em janeiro deste ano.  Em 2017 as policiais civil e militar assassinaram na cidade de Pau D´arco 10 camponeses da Liga dos Camponeses Pobres (LCP). E, em seguida, mataram a principal testemunha do caso, o igualmente camponês Fernando Araújo dos Santos em janeiro de 2021.

 

Os anos da década de 1980 são considerados os mais violentos nas margens dos rios Araguaia-Tocantins. Anos da criação da União Democrática Ruralista (UDR), braço armado dos ruralistas.

 

A organização foi articulada pelo médico e ruralista Ronaldo Caiado. Hoje, novamente, governador do estado do Goiás. A UDR assina inúmeras ações de violência que ceifaram a vida de posseiros, sindicalistas, agentes pastorais, advogados e dirigentes sindicais.

 

Neste processo de coerção em oposição à luta pela terra amontoam-se  militares de todas as estirpes e patentes, das forças armadas, relevo ao Exército, e as policias civil e militar.

 

Naqueles tempos o ambiente era tomado pela doutrina da segurança nacional. Tensão agudizada por conta do episódio da Guerrilha do Araguaia. A militarização imperava, em particular com a presença do Exército.

 

O principal suspeito pelo sequestro e execução do sindicalista Gringo, ocorrido em São Geraldo do Araguaia, quando o mesmo retornava de evento em São Paulo, recai sobre o fazendeiro Neif Murad, relata uma das edições do boletim Grito da PA 150. Jornal animados por leigos, religiosos e camponeses da região.

 

A formação de consórcio por parte dos ruralistas para eliminar os seus adversários, assim como hoje, era recorrente. E, ainda as listas de pessoas ameaçadas pelos fazendeiros e políticos da região. No caso de Gringo, suspeitas recaiam também sobre o então deputado estadual, o médico e pecuarista Giovanni Corrêa Queiroz, natural de Minas Gerais. O mineiro, desde sempre, integrou a “bancada do boi”.

 

Mais tarde a viúva, Maria Oneide Costa Lima, e outros agentes pastorais, após o assassinato do sindicalista, passaram a receber ameaças, e cartas anônimas colocadas sob a porta da casa pastoral, e ameaças de servidores do Grupo Executivo das Terra do Araguaia Tocantins (Getat) – instituição sob a tutela do Exército - como alerta a edição de nº 27 do Grito da PA-150. O nome de Gringo hoje nomeia uma escola pública em São Geraldo do Araguaia e o caso sobre a sua execução nunca foi a julgamento.

 

Violências - O boletim Grito da PA 150 ressalta ainda um episódio considerado um dos mais violentos contra os religiosos engajados na luta junto aos posseiros. No dia 31 do mês de agosto a Polícia Federal prendeu 13 posseiros do município de São Geraldo do Araguaia e os padres franceses Aristides Camilo e Francisco Goriou sob a acusação de incitação à desobediência civil. “Tudo indica que o ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel, com base no inquérito realizado pela Polícia Federal e instruído pelo Departamento Federal de Justiça, avaliou que a presença dos religiosos é “nociva” aos interesses e segurança nacionais, e sugeriu a expulsão de ambos”.  

 

Bispos do Araguaia presos pelo Exército na década de 1980. Fonte: site Memória da Democracia. 

Ativistas da época contam que a prisão dos religiosos provocou uma grande mobilização. Consta no rol de atos realizados pela soltura deles ocupar a procissão do Círio de Nazaré com faixas e cartazes pedindo a soltura dos missionários. Prender e torturar fazia parte do modus operandi dos agentes do regime. Na década de 1970, quando a agenda residia em sufocar a Guerrilha do Araguaia, o padre Roberto de Valicourt passou por experiência semelhante.  

 

Tem-se neste contexto o papel autoritário do Estado, e associação do mesmo com frações de classe do país e o grande capital nacional e internacional na apropriação de vastas extensões de terra na Amazônia. Bancos Econômico, Bradesco, Bamerindus e a empresa Volkswagen figuram como alguns beneficiários. Além de várias famílias das elites do Centro Sul do país. Muitas presentes na região, ainda hoje. A animar novos conflitos, execuções e chacinas.  

A saga de Gringo, João Canuto, Expedito Ribeiros, Irmã Dorothy, Padre Josimo Tavares, Paulo Fonteles, João Batista, Gabriel Pimenta, dentre outros, integra projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) sobre a luta pela terra na Amazônia. O livro deve ser lançado ainda em julho deste ano.

 

 

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Travessões amazônicos

 

Travessão nos rincões amazônicos é muito mais que a haste superior da baliza do goleiro. Ele leva ao âmago do coração de lugar nenhum no meio do nada. No meio de tudo, quando em tempos remotos predominava uma frondosa e densa floresta. Lonjuras e distâncias onde um intrépido passeante ocasional duvidaria que alguém ali moraria. Um Verde Vagumundo, como diria Benedicto Monteiro. 

Manejo de gado na Transamazônica 

A denominação de Travessão predomina a sudoeste do estado do Pará. Noutras paragens, vicinal é o termo adotado. Uma imagem de satélite sobre a Transamazônica destes beirais, sugere uma espinha de peixe, onde a rodovia seria a coluna dorsal, e os travessões as espinhas.

Esse conjunto de travessões encarna vetor de povoamento e de saque da floresta. Legal e ilegal, com ênfase ao segundo.  Projeto de colonização do século passado. O slogan todos conhecem. O enquadramento do vazio demográfico. Aquela parada da terra sem homem.  

Uma parte expressiva da rodovia dos milicos ainda desconhece o asfalto. Em particular a fração a oeste, entre Rurópolis e Uruará, onde impera o saque ilegal de madeira, marcado pela presença de uma gambiarra batizada de Transuruará. Alguns a denominam de atalho para alcançar Santarém de forma mais ligeira. Vice-versa. A desventura não paga o risco.

Ali o bicho pega. O coro come. Todo mundo sabe da ilegalidade. Até os carrapatos dos bois, que aqui e ali, quando da passagem diurna pela rodovia, mais parecem bolinhas de algodão em meio ao pasto. Réstias de floresta, cercas, pasto, estrada de chão e inúmeras pinguelas sobre igarapés e riachos imperam entre Santarém à Marabá. Uns 1.200 km, aproximadamente.

Pinguela  na Transamazônica. A ponte improvisada é feita a partir da madeira da floresta

Aventura dura 24h de busão, com direito a restaurantes avaliados por cruzes, e não por estrelas.  A ordem é fazer o sinal de cruz e invocar uma proteção.                       

Esguia, alta e loira, uma jovem grávida, com um menino acomodado no dorso e puxando mais uns três barrigudin, pede ao motorista do busão que pare nas proximidades de uma bodega. Ali existe um Travessão. Muitos dos motoras já conhecem os moradores e as referências dadas. Surpreende a capacidade em identificarem, mesmo no escuro breu em noite de chuva, o Travessão onde residem.

A moça e a sua prole destoam dos traços, vocabulário usado e sotaque que marcam o povo originário das bandas de cá. A moça e sua trupe integram um exército de camponeses expropriados do Sul, quando a partir de lá, uma tal “revolução verde” os expulsou para estas latitudes. Expropriados de suas posses sentaram praça na “estranha” selva. Tempo de ditadura. 

Na página 18 do Jornal Bandeira 3, editado em 1975 pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto, esclarece que o projeto do governo era assentar nas proximidades de Altamira umas 2 mil famílias de camponeses do Sul do país.  

A meta era incrementar a produção mecanizada de ciclo curto e perene, com a utilização de adubo e corretivos químicos. Com a colaboração de cooperativa do Vale do Juí o projeto ambicionava comercializar além da madeira, os produtos da roça. A colonização oficial tinha denominação de Projeto de Integração e Colonização (PIC).

Tristes trópicos. Muitos tombaram de bala ou malária. A bala que tomba sem-terra não mata saudade. Travessões. Vicinais. Vicissitudes. Violência em Estado bruto e puro à paisana ou farda, com as benções da vossa excelência Justiça.

Ao contrário da terra de trabalho que almejava, o errante encontrou na cova rasa a terra que queria ver dividida. Ah, João, Ah, Cabral....Ah, Josué, nunca via tamanha desgraça...quanto mais sonho se tem, mais urubu ameaça...

 

 

terça-feira, 17 de maio de 2022

Santarém: veias abertas

A revisão do Plano Direitor representou o azeitamento para a territorialização do capital no município. 


Orla de Santarém, Av. Tapajós. 


Maio. Mês de Maria. Quadra das noivas. Chove diariamente. O rio alcançou o asfalto. As águas do Tapajós encontraram o esgoto na avenida homônima. Tudo agora é pura merda no cartão postal da Pérola do Tapajós. Um mundo de buracos por todas as latitudes. Queijo suíço dos trópicos. A realidade das ruas contraria os reclames da prefeitura. Poças d´água dominam a cidadela de um hotel e restaurante, que possui no nome um apelo de brasilidade: Mistura Brasileira. Marombas acodem o transeunte. Todavia, o fedor impregna tudo ao redor. Bombas insistem em um trabalho de Sísifo na retirada das águas do rio sobre o asfalto. 



Pontes improvisadas (marombas) e uma bomba a executar o trabalho de Sísifo na retirada da água. Av. Tapajós. 

A céu aberto o esgoto faz festa mesmo nos beirais do hospital municipal, em sua parte que dá para a Av. Pres. Vargas. Mato, parte do muro caído, pintura em frangalhos.  Quadro de abandono. O atendimento é terceirizado. Trabalho precário. Precarizado, espelha a gestão do alcaide. Mancomunação capital. A revisão do Plano Diretor que o diga. A tudo explicita.

O esgoto brota do muro dos fundos do Hospital Municipal. Av. Pres. Vargas. 


É médico o prefeito da urbe, que vez em quando, com a sua trupe, se refastela em butecos. Com a desenvoltura de craque de futebol, impõe a agenda musical. Duvidoso gosto. Costura tramas com edis. Vis. Face a face. Baronato de bufões a celebrar a estupidez. Com a mesma desenvoltura beija pés de adversários políticos em ritos religiosos. Cerra fileiras no Círio, congregações fundamentalistas e Çairé. Como diria Tim Maia: vale tudo!

O mato afronta o muro e a calçada do Hospital Municipal. 

Um dos escudeiros conclama a presença do chefe do Executivo da cidade à mesa. Desprovido de qualquer constrangimento, um assessor em alto tom, assim o convoca: “oh prefeito, libera logo a verba para está criatura”.  Até o surdo escutou.

Alta, esguia e clara, uma secretária é alvo de assédio dos homens.  Era um tal de passa mão aqui, passa mão ali e acolá, aperta, apalpa e chafurda.   Vexame nenhum.  O que ocorrerá no privado?

Cedo do dia, a rádio executa o Guarany de Carlos Gomes. Apesar de todo o descaso com a cidade, a horda de comunicadores baba a bajular o médico que “comanda” pela segunda legislatura a cidade polo do Baixo Amazonas.

Boca de rio. Boca de forno. Calada da noite. Chuva na taba. Águas sem fim. Jacaré Açú a caçar turistas em Alter. Ah, minha Nossa Senhora de Nazaré, ah meus tambores do candomblé. . Várzea encharcada por abismos de abandonos. O rio que mata a fome, morre envenenado: grilo, cimento e mercúrio.

Quem nos ajudará a não ser a própria gente? Chove na taba. Calada da noite. Boca de rio. Bajara ao riomar....esgoto por todos os cantos..cuieiras ...terras caídas...vidas sem abrigo..veias abertas...

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A maranhense Maria Firmina dos Reis, primeira romancista negra do Brasil, tem obra adaptada para História em Quadrinhos

“Úrsula” adaptado para os quadrinhos pelo roteirista e historiador Iramir Araujo sfoi lançado no dia 13 de maio, em São Luís em espaço cultural do MST que homenageia a escritora.

 


Úrsula, como qualquer jovem mulher, só queria viver intensamente seu grande amor com a pessoa que escolheu para seguir a vida. Porém, este direito, como tantos outros, lhe fora negado por um outro homem que julgava ser seu dono, levando às últimas consequências a sua insanidade. Este é o pano de fundo do romance “Úrsula”, escrito a exatos 163 anos por Maria Firmina dos Reis, adaptado aos quadrinhos pelos roteirista e historiador Iramir Araujo, que não por acaso escolheu a data de 13 de maio para o lançamento desta obra prima, no local que faz homenagem a escritora maranhense: Solar Maria Firmina dos Reis, localizado à Rua Rio Branco, no Centro de São Luís, às 19h, coordenado pelo MST.

O mais novo projeto de Iramir Araujo vai ao encontro do que se pode chamar de uma ode à literatura maranhense, tendo sido iniciado pela adaptação de “O Mulato”, publicado em 2019, a partir da obra do também escritor maranhense Aluisio Azevedo. Segundo Araujo, enquanto tiver fôlego e possibilidades de publicação, ele continuará trabalhando em obras literárias maranhenses, adaptando-as para os quadrinhos.

 “Úrsula em quadrinhos”, como o original de Maria Firmina dos Reis, narra a história de amor entre a protagonista homônima da história e um jovem branco rico, Tancredo. Úrsula uma pobre moça branca vive sozinha com sua mãe enferma, sob os cuidados de dois escravos: Túlio e Suzana, até que Tancredo, após sofrer grave acidente é resgatado por Túlio e também passa a ser cuidado pela jovem Úrsula. Com narrativa peculiar do estilo literário romântico da época oitocentista, a obra de Maria Firmina dos Reis sagra-se inovador por pelo menos dois fatores importantes: o primeiro, dar voz aos negros escravizados. Teria sido a primeira vez que os negros capturados e trazido do continente africano puderam, mesmo que por meio da ficção, falar sobre como era sua vida antes de terem sido feitos escravos; seus infortúnios, o medo e as violências sofridas em suas labutas, E o outro, é o fato de colocar a  violência sofrida a todo custo pelas mulheres, seja por seus pais, maridos, tios, numa sociedade escravocrata, machista, patriarcal e misógina.

Página da obra Ùrsula. Ilustração de Rom Freire. 
Segundo o Iramir Araujo, o leitor vai perceber nas páginas ilustrada de “Úrsula em Quadrinhos”, toda a firmeza encarada por Maria Firmina ao escrever seu romance, sendo ela mesma, uma mulher negra, descendente de mãe escrava, sem registro de pai, autodidata, pobre e moradora do interior do Estado do Maranhão. Ou seja, naquele tempo, quando ainda nem se pensava na Lei Áurea e na abolição da escravatura, sem nada a temer, Maria Firmina foi lá e fez, sem nada que impedisse sua força criativa, pulsante e a revolta sentida e transcrita por ela, para as páginas de seu romance.

 

O historiador e artista Iramir Araújo tem se especializado em adaptar obras da literatura para HQ

“’Úrsula’ é uma obra original e muito à frente do seu tempo, pois por meio dela, a autora dava voz e protagonismo a personagens negros, denunciava a escravidão, e, principalmente, marcava a escritora como a primeira mulher a publicar um romance no Brasil. Entretanto, após sua morte, toda a obra e biografia de Maria Firmina foram relegadas ao esquecimento. Uma lacuna na literatura maranhense se estendeu por mais de cem anos”, comenta Iramir.

Rom Freire, ilustrador da obra e parceiro de velha data do autor em outras iniciativas. 

 

“Úrsula em quadrinhos”, um projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura, do Governo do Estado do Maranhão e patrocinado pela Equatorial Energia do Maranhão, é a adaptação da obra que marcou a carreira literária de Maria Firmina, e se junta à miríade de produções literárias e artísticas voltadas para homenagear a autora no bicentenário de seu nascimento.

 

Ronilson Freire na produção de páginas de Úrsula. 

Tem roteiro de Iramir Araujo, arte de Rom Freire e Ronilson Freire e será lançado em um encontro de, antes de tudo, celebração a essa mulher que demonstrou a imensa capacidade de criação de nosso povo, em uma época em que tudo conspirava contra: o fato de ser mulher, negra e residente no interior da província. “Úrsula em quadrinhos” mescla em livre adaptação, aspectos da biografia da autora, e seu romance.

Sobre os realizadores

O roteirista

Iramir Araujo - Maranhense, historiador, mestre em História Social pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA);

Artista gráfico e roteirista, colaborou com os jornais O Imparcial e O Estado do Maranhão, onde publicou tiras diárias e artigos sobre histórias em quadrinhos;

Entre suas produções, destacam-se quadrinhos com fins educacionais para ONG's e órgãos do governo, como ‘‘Gatos pingados’’, ‘‘Os viajantes do pião do tempo’’, ‘‘Turminha do esporte’’’, ‘‘O misterioso segredo’’, entre outros;

Contando com a participação de artistas locais e nacionais, lançou a revista ‘‘Corpo de Delito’’, com HQ's de ficção policial;

Publicou o álbum ‘‘Balaiada – a guerra do Maranhão’’, ilustrado por Beto Nicácio e Ronilson Freire;

Também com arte de Ronilson Freire, publicou o álbum ‘‘Ajurujuba – a fundação da cidade de São Luís’’;

Sua dissertação de mestrado ‘‘A Flecha, a pedra e a pena –João Affonso, Aluísio Azevedo e a primeira revista ilustrada do Maranhão’’, venceu o 35o Concurso Cidade de São Luís, na categoria ensaios, sendo publicada em livro;

Adaptou para quadrinhos o romance “O mulato”, de Aluísio Azevedo, ilustrado por Ronilson Freire;

Publicou Além das lendas, com cinco histórias sobre lendas maranhenses, ilustradas por Amanda Belo, Beto Nicácio, Marcos Caldas, Rom Freire e Ronilson Freire;

Escreveu e publicou o romance policial ambientado em São Luís-Ma, ‘‘Cartas rubras’’.

Os artistas

Rom Freire - Trabalha profissionalmente com quadrinhos desde 2009, tanto para autores independentes brasileiros, quanto para pequenas editoras dos EUA. Em 2016 lançou seu personagem ‘‘Grimorium’’, por meio  de seu selo Subverso HQ. Em 2013, quadrinizou a obra ‘‘Fausto’’, de Göethe, publicada na coleção Clássicos em HQ da Editora Peirópolis (SP). O álbum recebeu, em 2017, o ‘‘Selo Seleção Cátedra 10’’ da Unesco. Trabalhou nos projetos Asa Branca e Gatos Pingados, do editor Iramir Araujo. Atualmente, escreve seu primeiro livro de ficção.

www.facebook.com/rom.freire  www.deviantart.com/romfreire

instagram.com/romfreirehq/

Ronilson Freire - Ilustrador, já trabalhou para editoras dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Ásia. O artista já ilustrou roteiros de Mark Waid, Grant Morrison, Nancy A. Collins, Peter Milligan, Stephen Bissette, Cristophe Bec e Dan Watters.  No mercado editorial brasileiro especializou-se em ilustrar clássicos da literatura, como o romance O Mulato, de Aluísio Azevedo, e as graphic novels  baseadas em fatos históricos, Ajurujuba – A fundação da cidade de São Luís e Balaiada – A Guerra do Maranhão, roteirizados por Iramir Araujo. Atualmente, desenha a série steampunk Myopia, da Dynamite Entertaiment, e Promethée Alfa, para a editora francesa Soleil.

instagram: @ronilson.freire/

 

SERVIÇO:

ÚRSULA – EM QUADRINHOS

120 páginas em preto e branco

Roteiro: Iramir Araujo

Arte: Rom Freire e Ronilson Freire

Contato: Iramir Araujo (98) 98608 7121

Enviado pelo autor.

Jornal Bandeira 3: em plena ditadura Lúcio Flávio Pinto e trupe animaram o noticioso em Belém

Três fases marcam a vida do Bandeira 3. A primeira entre os anos de 1971/1972, como encarte do jornal Província do Pará. A segunda como independente, que corresponde ao ano de 1975, e uma tentativa de relançamento em 1991. 


A edição de nº 02 contempla em sua capa a obra Verde Vagomundo,  de Benedicto Monteiro. Na edição consta uma entrevista e uma resenha sobre Minossauro.  

Amarrada por barbantes, impregnada por poeira, jogada em uma estante dedicada ao Pará, desprovida do cuidado que merece, na biblioteca Arthur Vianna, vinculada ao Centro Cultural e Turístico Tancredo Neves (Centur), na Av. Conselheiro Furtado, assim a hoje jornalista Camila Barros encontrou a coleção completa da segunda fase do jornal Bandeira 3, na cidade de Belém, no ano de 2011.

Barros na época era estudante de jornalismo na Unama, no imponente prédio em Ananindeua.   Antes da universidade ser repassada a um grupo, que a transformou em um arremedo de instituição de ensino, onde impera a precariedade.  

O jornal era editado pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto na década de 1970. Em sua primeira fase foi encartado no falecido jornal a Província do Pará (1971-1972), e em seguida de forma independente no ano de 1975 teve sete edições. Consta ainda uma edição única no ano de 1991, numa tentativa de retomar o semanário. 

Barros acessou a coleção da segunda fase do jornal, a considerada independente. Sobre ela se debruçou para a produção de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que teve como membro da banca examinadora o professor e experimentado jornalista Antônio Carlos Pimentel. Maria Barbalho assina o TCC ao lado de Camila.  Todavia, foi Barros quem mais empenhou esforços em viabilizar o trabalho.

Capa do TCC de Camila Barros, apresentado em 2011. 

Há caldo para a produção de mais interpretações em diferentes campos do conhecimento sobre o Bandeira 3, citado numa obra considerada referência sobre a comunicação alternativa do Brasil, assinada por Bernardo Kucinski.

Em formato tablóide, com edições semanais, os números tinham vinte e quatro páginas, tiragem de dois mil exemplares e contava com uma diagramação moderna, na época em que a impressão em offset ainda era uma novidade no país.  

A caricatura do político Gerson Perez ilustra a capa de nº03, que contempla ainda debate sobre a questão indígena, 

Grandes projetos de desenvolvimento, questão indígenas, violência policial, a cena política do estado, a reorganização do espaço urbano de Belém, bem como aspectos culturais da capital compunham a pauta.  

Sublinho aqui a edição de número de 2, onde o boletim entrevista o militante e escritor de verve comunista Benedicto Monteiro, que naquela época lançava Verde Vagomundo (1972), que faz parte de uma tetralogia que inclui ainda O Minossauro (1975), A Terceira Margem (1983) e Aquele Um (1985). Uma referência sobre a vida na Amazônia.

Em 1975 a ditadura civil militar galopava a plenos pulmões. Sequestro, prisões, torturas e assassinatos tomavam o país de Norte a Sul. A integração subordinada da Amazônia tinha nos polos de produção uma das suas colunas, além da construção de rodovias, que remodelaria as feições física, política, social e econômica da região. Enquanto nos beirais do Araguaia, jovens do PC do B empenhavam esforços em barricadas de uma guerrilha sob a inspiração de Mao.

A trupe do Jornal

As editorias eram divididas por temáticas: “Nacional/Internacional” cabiam a Guilherme Augusto; “Amazônia” a Raymundo Costa; “Cidade” a Raimundo José Pinto (irmão mais velho de Lúcio); “Especial” a Walter Rodrigues e “Artes/ Espetáculos” a Regina Alves. Ademir Silva era o repórter fotográfico do. Na diagramação, o B3 contava com a colaboração de Antonio Carlos Guimarães. A ilustração era de Luis Antonio Pinto.

Nesta edição a capa é dedicada ao debate sobre a questão indígena e o Projeto Grande Carajás. 


Entre os repórteres constavam no escrete de prima  Nélio Palheta, Paulo Roberto Ferreira, Elias Pinto Jr., Fernando Lima e Francisco Guerra. Mas a redação do B3 se estendia por municípios do Pará e do Brasil. No Estado, eram correspondentes Manuel Dutra, em Santarém, e José Ademir Braz, em Marabá. Em Manaus (AM), havia a colaboração de Manuel Lima. Outro repórter responsável pela cobertura dos fatos na região Norte, era o jornalista Elson Martins, sitiado em Macapá (AP). Do Rio de Janeiro (RJ), as reportagens eram enviadas para a redação, em Belém, por Hamilton Bandeira. Na capital paulista (SP), eram correspondente Sérgio Buarque e Palmério Vasconcelos.

Arquivo sobre o Bandeira 3

Ao chafurdar em caixas com materiais que carrego ao longo de várias mudanças de  cidades e casas que já protagonizei, deparei-me com a versão impressa do TCC de Camila, bem como com um caderno de uma cópia em xerox da coleção do Bandeira 3. 

Ao comentar o assunto com o Elias Pinto, colunista do Diário do Pará, irmão caçula de Lúcio Flávio e parte da história do jornal, decidi escanear o material e disponibilizá-lo a quem interessar possa.  

Por fim, na algibeira da memória recordo que Camila havia manifestado um certo descontentamento pelo fato em não ter alcançado a nota máxima na avaliação da defesa do trabalho.  A consolei argumentando que ao menos um artigo a gente conseguiria publicar.

A seguir disponibilizo o artigo assinado por Camila Barros e por mim, o TCC e a coleção do Bandeira 3. Informo que a digitalização foi realizada em uma impressora doméstica a partir de uma matriz de xerox. O que pode comprometer a leitura do conteúdo.   

 

Acesso aqui o artigo

Acesse aqui o TCC

Acesse aqui a coleção do Bandeira 3

 

quinta-feira, 24 de março de 2022

Caso Gabriel Pimenta: Estado Brasileiro e acusação apresentarão alegações finais até o mês de abril, quando o Massacre de Eldorado soma 25 anos

José Batista Afonso, em intervenção no debate sobre o caso Gabriel Pimenta, na OEA

Após dois de dias de julgamento do caso Gabriel Pimenta, na Comissão Interamericana da Organização dos Estados Americanos (OEA), onde o Estado Brasileiro é acusado de omissão e negligência, as partes envolvidas no processo terão 30 dias para a apresentação das alegações finais, antes de conhecer o veredicto, a ser apresentado em dezembro.

O advogado natural de Minas Gerais foi assassinado em 1982, na cidade de Marabá, no sudeste do Pará, após ter vencido uma ação contra grileiros e fazendeiros na cidade. Também por alinhamento à luta pela reforma agrária,  além de Gabriel Pimenta foram executados os advogados João Batista e Paulo Fonteles, numa conjuntura marcada por assassinatos de posseiros, dirigentes sindicais e religiosos.

A acusação contra o Estado Brasileiro tem sido enfática ao sublinhar a negligência do setor de segurança do estado, bem como a cumplicidade do poder Judiciário em casos que envolvem posseiros, sem terra e defensores dos direitos humanos (DH) envolvidos na luta pela terra na Amazônia, e demais apoiadores.  

João Batista Afonso, advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), de Marabá, participou do segundo dia fazendo indagações ao perito, o doutor em Direito, Felipe Renan, escalado para o debate sobre as violações de direitos humanos no Brasil em casos sobre a luta pela terra.

Por conta de sua atuação no sudeste do Pará, Afonso coleciona ameaças e mesmo processos. Representou a Advocacia Geral da União (AGU), a senhora Thais Batista da Costa, entre outros assessores. Além das reflexões sobre os assassinatos de posseiros, sem terra e defensores de DH, foi sublinhado o trabalho análogo à escravidão, onde o estado Pará tem notoriedade nos indicadores nacionais.

Ainda sobre a conjuntura da luta pela terra, meio ambiente e DH, ponderou-se ainda sobre a criminalização da luta por direitos, onde dirigentes e suas organizações sofrem perseguições pelos setores conservadores do país.

Uma das medidas sugeridas para que o ciclo de mortes no campo efetivamente passe por arrefecimento, tem sido a criação de núcleos temáticos junto aos ministérios públicos e grupos temáticos para a apuração dos casos de mortes de defensores de DH. Todavia, cumpre salientar que o ambiente político de Brasília aponta em direção oposta.

O Estado Brasileiro já foi condenado pela violação de DH em casos sobre a luta pela terra no Pará nos casos das chacinas ocorridas em fazendas no sudeste do Pará na década de 1980, a exemplo dos das fazendas Ubá e Princesa. 

Bem como no caso do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria, João Canuto, igualmente transcorrido nos anos de 1980, na mesma região, considerada a mais letal na luta pela terra no Pará. Além de João, o latifúndio matou mais dois filhos do dirigente e Expedito Ribeiro, lavrador, poeta e líder sindical.

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terça-feira, 22 de março de 2022

Caso Gabriel Pimenta - 40 anos depois do assassinato do advogado: OEA iniciou hoje julgamento contra o Estado Brasileiro

  

O advogado e professor Rafael Pimenta, durante o julgamento contra o Estado Brasileiro na OEA. 

Quando do julgamento do caso do advogado Gabriel Pimenta, na manhã de hoje, na Organização dos Estados Americanos (OEA), após 40 anos da sua execução na cidade de Marabá, no sudeste do Pará, o assassinato da militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Dilma Ferreira da Silva, somava três anos de impunidade.  

Dilma Ferreira da Silva (45) foi assassinada no município de Baião, no Baixo Tocantins, nordeste do Pará. Na mesma chacina tombaram ainda o esposo da dirigente, o senhor Claudionor Costa da Silva (43) e um conhecido da família, o senhor Hilton Lopes (38). 

O avanço da fronteira do grande capital sobre a Amazônia engendrou entre as populações locais, dirigentes sindicais, do meio ambiente e dos direitos humanos, bem como de seus apoiadores o espectro da violência. Seguido da negligência na apuração do setor de segurança sobre os executores e dos responsáveis pela encomenda das execuções. Além da parcialidade da Justiça na mediação das relações de conflitos entre grileiros, fazendeiros e posseiros e camponeses.

Desde a integração subordinada da Amazônia a violência contra os setores populares se constitui como um elemento estruturante no cotidiano da luta pela terra na região. Violência seguida pelo manto da impunidade.

É justo sobre tal conjuntura que iniciou hoje o julgamento que coloca na berlinda o Estado Brasileiro, marcado pela permanência da violência contra militantes da reforma agrária e outros setores.

Visivelmente comovido e emocionado, o igualmente advogado, Rafael Pimenta, irmão de Gabriel Pimenta apresenta o caso à corte de Direitos Humanos da OEA, com o apoio da Comissão Pastora da Terra (CPT).

Rafael explicou sobre a militância do irmão junto aos posseiros da região do Araguaia-Tocantins, que durou três anos. Pimenta apresenta o caso que desembocou com a execução de Gabriel Pimenta, em 1982, na cidade de Marabá.

Sobre o início da busca de justiça para o caso de Gabriel, o advogado Rafael Pimenta explicou que, assim como outros casos que chegaram à OEA, a família não sabia como agir naquele momento, e que havia a crença que o Ministério Público cumpriria o seu papel.

Sobre a defesa do caso de Gabriel, o irmão explica que, “Os advogados temiam pela própria vida e se afastavam. Chegamos a constituir uns cinco defensores. Todos abandonaram o caso, marcado pela morosidade da Justiça.  21 anos foi o tempo para que a Justiça do Pará se pronunciasse sobre o caso”.

Rafael avalia a questão da morosidade da Justiça como uma conivência com o cenário da violência no campo do Brasil. Ele recupera que pelo menos em dez ocasiões,  que o Ministério Público e seus juízes demoram pelo menos um ano para se pronunciarem. “Há uma conivência do Judiciário com o caso. O processo criminal encerrou sem condenar ninguém”, avalia Rafael.

Ainda sobre a morosidade da Justiça, Rafael rememora que concluiu a graduação na década de 1990. Oito anos após a execução do irmão, quando foi à Marabá, quando tomou conta que o pedido de vistas dos advogados dos assassinos que deveria durar cinco dias, durou dois anos.

O advogado esclarece ainda que ao longo das quatro décadas do assassinato de Gabriel Pimenta, a família chegou a ganhar na Justiça no estado do Pará uma causa por perdas e danos. Todavia, o Judiciário do Pará recorreu. A família prosseguiu o combate por busca de direitos, contudo, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) seguiu a mesma toada do estado do Pará, e decidiu por extinguir o processo.

O julgamento contra o Estado Brasileiro prossegue amanhã, a partir das 11h, com transmissão pelos canais da Comissão de Direitos Humanos da OEA.

Acompanhe o primeiro dia primeiro caso AQUI

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Luta pela terra na Amazônia: Estado Brasileiro vai a julgamento na OEA por conta do assassinato do advogado Gabriel Pimenta, ocorrido há 40 anos

O advogado Gabriel Pimenta foi executado a mando do latifúndio na década de 1980, na cidade de Marabá, sudeste do Pará.  A década é considerada a mais violenta na luta pela terra. Além de Gabriel, foram mortos os advogados Paulo Fonteles e João Batista. 




Inicia hoje,  a partir das 11h, horário de Brasília, na Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) o julgamento contra o Estado Brasileiro por negligência e morosidade no processo sobre a execução do advogado de posseiros Gabriel Pimenta. 

O defensor dos lavradores foi assassinado em plena via pública no dia 18 de julho de 1982, na cidade de Marabá, sudeste do Pará, quando somava apenas 27 anos.  A década de 1980 é considerada como o mais letal na luta pela terra no Brasil. Execuções de dirigentes, chacinas, religiosos e advogados foram articuladas a partir da mobilização de grileiros de terras e fazendeiros da região. O julgamento encerra amanhã. 

O caso pode ser acompanhado pelas sociais sociais da OEA. 
https://www.facebook.com/CorteIDH
https://www.youtube.com/channel/UCD1E1io4eeR0tk9k4r5CI9w

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Rafael Pimenta, irmão de Gabriel, igualmente advogado, apresenta o caso AQUI


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Tapajós sob ameaça: movimentos sociais exigem ação imediata do Estado contra garimpos ilegais na região

 

                            Rio Tapajós, cidade de Santarém, Pará, 2022. Fonte; Rogerio Almeida

Notoriedade por conta de agendas negativas tem sido recorrente no histórico do estado do Pará. A condição de almoxarifado na trama da geopolítica mundial como uma região de estoque de riquezas colabora para a composição do cenário, que tem consagrado a região como a que mais desmata, mata dirigentes sindicais, ambientalistas e defensores de direitos humanos nas pelejas da luta pela terra, recordista em trabalho entre outros itens negativos.

O ano inicia com a chacina de ambientalistas na região do Xingu, onde um casal e uma filha adolescente foram executados. Tem-se ainda o avanço do garimpo na região do Tapajós, que tem conferido visibilidade mundial à área de reserva de Alter de Chão, consagrada no mercado de turismo como Caribe Amazônico. Negócios, negociatas.

Pelo menos 3 mil garimpeiros operam em unidades de conservação e outras modalidades de territórios da região. Sem falar em grileiros de terras e saqueadores de madeiras.  Um riomar de ilegalidades, que ganhou endosso do presente sinistro governo que destroça o país.

A atividade garimpeira é uma desgraça em variados níveis, alerta nota publicada pelo conjunto de movimentos sociais da região do Tapajós, que sublinha o uso intensivo de mercúrio na atividade, que compromete todo o ciclo da bacia rica bacia hidrográfica, existem ainda as dimensões humanas, como a prostituição, alcoolismo e uso de drogas. A historiografia sobre a questão sinaliza que grande boom da atividade ocorreu nos anos de 1980.

O recrudescimento da atividade, combinado com o esvaziamento de instituições que possuem a fiscalização, esvaziamento do orçamento, precarização e assédio do trabalho, e ainda a nomeação de pessoas sem a devida qualificação para cargos estratégicos em órgãos considerados estratégicos para a defesa da Amazônia representam um aceno do governo aos protagonistas das atividades ilegais. Exemplo recente é o ataque terrorista sofrido pelas aeronaves do Ibama em Manaus.

Sufocar os rios é sufocar a vida de milhares de pessoas que possuem neles fonte de proteínas e renda, e ferir de morte toda uma cosmologia que faz parte do vasto e rico universo de pessoas que possuem no rio, na terra e na floresta a sua condição primordial para a sua reprodução política, econômica, cultural e social.  

A nota do conjunto dos movimentos sociais exige das instituições públicas dos mais variados níveis uma ação imediata contra os crimes cometidos na região. Leia a nota AQUI.