segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Memória de Santarém: Lúcio Flávio Pinto lança livro sobre memória de sua cidade natal

Repercuto aqui entrevista realizada por Elias Pinto, publica no Diário do Pará, do dia 15 de novembro, com a devida autorização do autor.  O livro terá lançamento em Belém, no dia 18

“Havia 40 pianos em Santarém numa época remota. Tinha-se a pretensão de ser uma civilização diferente, uma cultura próxima do litoral. Imagina se em Belém uma moça saísse de shortinho na década de 1960, 70... Em Santarém era normal”


“É UMA EDIÇÃO À ALTURA DA HISTÓRIA DE SANTARÉM”
Lúcio Flávio Pinto deixou Santarém, sua terra natal, aos cinco anos de idade. Mas Santarém e sua história jamais deixaram de lhe habitar as lembranças, o faro jornalístico, a memória. Que ele agora compartilha com o leitor nas 900 páginas da reedição ampliada de Memória de Santarém. O livro, através de um conjunto de dados e análises, ao iluminar o passado santareno, revela-o como “ferramenta para se posicionar hoje e amanhã”. Lúcio observa, na apresentação do volume (e que volume!), que “esse conjunto de informações, extraídas de jornais e outras fontes cotidianas, mostra que esta terra tem história e tem inteligência”.
O livro, que teve Miguel Nogueira de Oliveira e Nicodemos Sena, diretor da Editora Letra Selvagem, como organizadores, reúne crônicas e artigos publicados durante 25 anos no jornal O Estado do Tapajós (já extinto) e no portal www.oestadonet.com.br.
, editado a partir de Santarém pelo jornalista Miguel Oliveira.
“Quando decidimos organizar mais essa edição, verificamos que Lúcio Flávio continuava a produzir importantes textos sobre a vida econômica, política e cultural do Baixo Amazonas, que não estavam contidos na primeira edição. Além disso, nesse hiato de 15 anos, Lúcio teve acesso a documentos inéditos que, ora confirmavam ou davam nova versão a fatos ocorridos em Santarém”, enfatiza Miguel Oliveira. “Essa edição também incorpora resultados de pesquisas acadêmicas, por exemplo, sobre o período escravocrata em Santarém, com base em registros da Justiça. Há também a transcrição de mensagens radiofônicas destinadas a familiares de pessoas que moravam ou trabalhavam em lugares distantes no vale do rio Tapajós.”
Memória de Santarém será lançado em Belém na próxima terça-feira, às 18h, no auditório do Ministério Público Federal, na Domingos Marreiros. E em dezembro em Santarém.
Na entrevista a seguir, Lúcio Flávio Pinto, 76 anos, fala sobre o método na elaboração do livro, que reflete seu próprio trabalho jornalístico, em busca da verdade, do fato, que desenvolveu ao longo de seis décadas de profissão e o fez ser reconhecido como o mais importante jornalista da Amazônia, premiado não só no Brasil, mas também no exterior. Entre outras distinções, foi considerado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, como um dos mais importantes jornalistas do mundo, o único selecionado no Brasil para essa honraria.
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“A minha formação passa pelo método de pensar, que é rigoroso. Jornalismo é sentir o pulso da notícia, da informação”
P Esta é a segunda edição de Memória de Santarém, certo?
R Sim. Os artigos saíram durante um longo tempo como encarte no jornal O Estado do Tapajós, e foram reunidos, na primeira edição, em um álbum, mas com letras pequenas. Esta agora é uma nova edição, modificada, corrigida e ampliada, que resultaram em 900 páginas.
P Tudo que está no livro saiu antes no jornal?
R A parte noticiosa foi toda retirada de jornais de Santarém. A outra parte, sobre narrativa de viajantes, foi retirada de livros dos viajantes que percorreram o Baixo Amazonas.
P O que Memória de Santarém se aproxima e difere de outro grande livro sobre Santarém, o Tupaiulândia, de Paulo Rodrigues dos Santos?
R O Paulo Rodrigues dos Santos não fez uma história sistemática. Nem eu fiz também. Há passagens muito interessantes em Tupaiulândia: ele conversou com uma senhora em Santarém, de mais de 100 anos de idade, que foi amante de vários cabanos. O livro dele é uma espécie de antologia, reunião das crônicas que ele escreveu, muitas sob pseudônimos, como era costume na época, principalmente quando o assunto era mais picaresco. Inclusive, em 1971, publiquei duas páginas em A Província do Pará sobre esse livro que ele estava escrevendo. O governador Fernando Guilhon soube e mandou editar, muito mal editado, por sinal.
P Pela Imprensa Oficial do Estado.
R Sim. E depois o Cristovam Sena reeditou, com qualidade, pelo ICBS, o Instituto Cultural Boanerges Sena. Paulo Rodrigues foi o historiador da cidade. Ele publicava em O Jornal de Santarém. Há também uma história sobre Santarém do Arthur Cezar Ferreira Reis, mas que é muito fraca.
P O Rodrigues dos Santos não tinha formação como historiador...
R Não. E também não precisava ter formação como jornalista para escrever. Aliás, ele escrevia muito bem, ainda que de modo arcaico. Era poeta... Um beletrista.
P Agora, em Memória de Santarém, já temos o jornalista reunindo informações.
R Como jornalista eu não publico aquilo que não tenho como fundamentar. Não me baseio na memória livre, solta, mas em documentos que consegui reunir em jornais da época.
P Como conseguiste reunir esses jornais mais antigos de Santarém?
R Alguns eu próprio arranjei e também recebi de uma amiga uma coleção quase completa de O Jornal de Santarém. Mas às vezes eram fontes que não serviam, por trazerem poucas informações, ter muitos adjetivos. Tinha-se que ler vários exemplares para aproveitar alguma coisa. Consegui também documentos oficiais.
P Pesquisaste ainda em que outras fontes?
R Muitas informações tirei dos jornais de Belém. E também de inquéritos sobre o caso traumático da cassação do prefeito Elias Pinto: utilizei documentos que ainda não tinham sido acessados. Saiu também outro livro só sobre isso.
P A Tragédia de Santarém. A propósito, ao longo da publicação dos teus artigos no jornal O Estado de Tapajós, prosseguiste com a coleta de dados, de pesquisa, ou já estava tudo previamente reunido?
R Já havia muita coisa quando comecei, mas aumentou muito durante o curso do trabalho. Posso dizer que não se tinha, antes deste livro que está sendo lançado em segunda edição, uma fonte segura de informações. Agora se tem, já que a anterior estava esgotada. E mesmo quem tem a primeira edição vai querer ter a nova, que ficou muito melhor. É uma edição à altura da história de Santarém. E do Baixo Amazonas.
P Bem, não és também historiador...
R Mas lembra que sou sociólogo.
P Sim, claro. Ia dizer que são poucas as cidades brasileiras, inclusive capitais, que dispõem de um livro como este Memória de Santarém. Principalmente se pensarmos nos municípios paraenses, tão carentes de memória.
R Temos em Vigia, Bragança, Alenquer, mas não é uma história sistemática. Nem a minha é. É uma história episódica. No caso de 1968 – da cassação do prefeito Elias Pinto, do MDB, afastado nove meses depois da posse pela Câmara Municipal, que tinha ampla maioria de vereadores da Arena, e da repressão violenta aos manifestantes de apoio ao prefeito, que resultou em três mortos e outros tantos feridos –, eu aprofundo bastante. De qualquer maneira, como este livro sobre Santarém, acredito não ter nenhum, com seu grau de aprofundamento. Memória de Santarém passa a ser obra de referência.
P Memória de Santarém é um legado ao lugar em que nasceste. Mas também tens o Memória do Cotidiano, em vários volumes, sobre Belém.
R Sim, saíram 12 volumes
P E estes 12, reunidos, dariam um volume considerável.
R Ah, sim. Mais que o de Santarém.
P Como situas Santarém e Belém em tua vida, digamos, afetiva.
R Vim para Belém com cinco anos. Então minha formação se deu aqui, mas nunca deixei de acompanhar Santarém, ainda que esteja há muito tempo sem voltar lá. Mas escrevi muito sobre Santarém. A primeira palestra que fiz na minha vida foi em Santarém, em 1966. Não havia muita informação sobre Santarém, que está tendo agora, mais acadêmica, com a Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará). Não fiz ciência, história etc. Fiz jornalismo, mas de rigor. A minha geração foi a que começou a entrar para a universidade. Na geração anterior ninguém queria ter formação acadêmica, entrar para a universidade. Era considerada a capacidade de escrever, de observar. A nossa geração percebeu que precisava ter uma formação acadêmica. E a minha é o método de pensar, que é rigoroso, e dele não abro mão. Tanto que uma das minhas características é que não se consegue desmentir o que publico, pois são fatos verificados. E contra fato não há argumento. Foi isso que fiz em relação a Santarém. Cada vez que ia de férias, trazia coisas para escrever sobre o município.
P Isso norteia o teu jornalismo, a comprovação do fato, o uso da documentação. Mas no caso de Memória de Santarém usaste como fonte o que foi publicado em jornal. Isso garante a informação?
R Olha, sempre fiz jornalismo, e para mim, em essência, ele é investigativo. Dizer jornalismo investigativo é pleonasmo. Quando fui escrever um artigo sobre Filipe Patroni, para uma seção que havia na Província, de retrospectiva, era o irmão do Dalcídio Jurandir que fazia, mas ele ficou doente e assumi o lugar durante um tempo. Foi quando descobri, aos 17 anos, o Patroni, mas sob outra ótica. Ele não era o doido, como se dizia. Ele teve problema mental no fim da vida, mas foi até advogado do imperador. Não é porque sai no jornal que você incorpora tudo. Sei fazer a diferença entre matéria boa e ruim, e esta, a ruim, não pode servir de referência.
P Durante tua trajetória jornalística já te queixaste de que a academia, à qual não deixas de pertencer como sociólogo, algumas vezes se utiliza como referência do jornalismo na linha de frente, apurado no calor da hora, mas sem citar esse uso na bibliografia, como se assim procedendo desmerecesse o rigor da pesquisa. No caso de Memória de Santarém, o que foi reproduzido de jornais, te preocupa a apuração, a checagem?
R Preciso checar. Não vou transmitir uma coisa errada. Neste caso, não uso ou vou aprofundar. Cabe nesse tipo de jornalismo o I-Juca Pirama, do Gonçalves Dias: meninos, eu vi. Nas minhas matérias, para vários lugares, só eu ia. Nas cheias do Baixo Amazonas, ia de voadeira testemunhar, reportar a realidade, às vezes com o Manoel Dutra. Por exemplo, ninguém fazia matéria sobre o ceifador de juta, o juteiro, que trabalhava sob condições terríveis, da metade do corpo para cima sob o sol, metade para baixo na água, duas temperaturas diferentes. Era um trabalho medieval em pleno século XX. Jornalismo é isso, sentir o pulso da notícia, da informação.
P Sei que a colônia santarena é grande em Belém, mas, em particular, como o leitor belenense, já que o livro será lançado primeiro aqui, deve receber o Memória de Santarém? O que representou Santarém para a capital, que já foi a segunda cidade do Pará, e o que representa hoje?
R Belém nunca admitiu que Santarém tivesse autonomia, isso criou um ressentimento, uma frustração na população local. Havia condições de Santarém ser capital do estado do Baixo Amazonas, do Tapajós, do Oeste. Tem uma cultura. Havia 40 pianos em Santarém numa época remota. Havia a pretensão de ser uma civilização diferente, um modo de vida litorâneo, porque tem a praia, as pessoas saíam de short. É uma cultura mais próxima do litoral, a praia na frente da cidade, como no Rio de Janeiro. Imagina se em Belém uma moça saísse de shortinho na década de 1960, 70... Em Santarém era normal.
P E como o santareno deve receber a sua memória?
R Deve receber com boa vontade, mas também cobrar se é bom ou não, o que está certo ou errado.
P E as novas gerações?
R Em geral, as pessoas não estão preocupadas com a história de Santarém. Há uma penetração muito grande de imigrantes.
P Que havia já com os arigós.
R É, mas os arigós cultivaram uma identidade. Atualmente, com a soja, e essa penetração, não se tem mais uma visão histórica, o que foi Santarém. Comparar Santarém com Parauapebas, Canaã dos Carajás, Marabá, o padrão de vida dessas cidades, em função de Carajás, é muito maior que em relação a Santarém. E vale a pena se aprofundar nessa história. A população que nasceu em Santarém vai poder conhecer muitas pessoas importantes, citadas no livro, e que já não se tem mais referência sobre elas.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Assassinatos e impunidade no campo do Pará: 1980-2024: obra será lançada no dia 20, em Belém, na Casa COP do Povo

A obra recupera 45 anos de violação de direitos humanos na luta pela terra e pelo território no Pará, considerado o estado mais letal do País

 

Antônia Ferreira dos Santos e Marly Viana Barroso quebradeiras de coco babaçu no município de Novo Repartimento, no sudeste paraense, foram brutalmente assassinadas no dia 03 de novembro. No dia 07, às vésperas da abertura oficial da COP 30, o lavrador Sebastião Orivaldo da Fonseca Lopes foi executado no município de Ipixuna do Pará.  O agricultor do projeto de assentamento Campo de Boi vinha sendo ameaçado de morte.

As jornadas desenvolvimentistas impostas para a Amazônia engendraram e naturalizaram as violências como um componente inerente ao processo de expansão do capital sobre a fronteira amazônica. Nesta geografia de expropriações, mortes, chacinas e trabalho escravo, o estado do Pará possui destaque. 

O número de pessoas na mira na bala é incerto. Todavia, somente do Projeto Agroextrativista Lago Grande, na cidade de Santarém, conta-se 20 pessoas, adverte o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) do município. Na lista, constam os nomes da presidente e do vice do STTR, Ivete Bastos e Edilson Figueira, respectivamente.

É justo sobre este drama que a obra Assassinatos e impunidade no campo no Pará: 1980-2024 lança luzes. O livro é assinado pelo advogado José Batista Afonso e o historiador e professor da Universidade do Estado do Pará (UEPA), campus de Marabá, Airton dos Reis Pereira.

O livro tem a colaboração de especialistas e representações dos movimentos sociais ligados à luta pela terra, a exemplo do padre e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Ricardo Rezende, do professor da UFPA, Girolamo Treccani, de Luzia Canuto, do Comitê Rio Maria e de Ayala Ferreira (MST/PA).

O lançamento da obra que registra 45 anos de violência no campo ocorre no dia 20, a partir das 10h, na Casa COP do Povo, na Travessa da Piedade, nº 426, Reduto/Centro, em Belém. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Instituo Zé Cláudio e Maria (IZM) são os responsáveis pelo evento.

Sobre o livro – resultado da vivência e registros da CPT, os quais constam nos arquivos em Belém, Xinguara, Marabá e Goiânia. Em suas 800 páginas a obra recupera a morte de anônimos, chacinas e massacres no Pará ao longo de 45 anos. Ao todo, o livro trata de 1.003 assassinatos. O ponto de partida dos casos relatados deu-se com a execução do dirigente sindical e agente da CPT, Raimundo Ferreira Lima, conhecido como “Gringo”, ocorrido no ano de 1980.

Quatro capítulos conferem corpo à obra, que saiu pela editora Dialética/SP. O primeiro trata de casos de camponeses, indígenas e garimpeiros. O segundo trata dos casos das lideranças assassinadas. Enquanto o terceiro aborda chacinas e massacres, o derradeiro sublinha execução de peões mortos em conflitos trabalhistas e em condições análogas à escravidão.

Sobre o mesmo tema, os autores e movimentos sociais do Pará lançaram em 2022, o Luta pela terra na Amazônia: mortos na luta pela terra! Vivos na luta pela terra!, igualmente volumoso. 

Sobre os autores

Airton Pereira e José Batista são migrantes que aportaram pelas barrancas do Araguaia em Conceição do Araguaia no século passado. Foram forjados como pessoas e como profissionais sobre os auspícios da parcela progressista da Igreja Católica.  Nestas lonjuras, o advogado de posseiros e de sem-terra, frei Henri des Roziers serviu de farol. O francês foi um destacado defensor de direitos humanos no Pará.

Pereira, natural do estado de Goiás, chegou a fazer parte do quadro da Comissão da Terra nas dioceses de Conceição Araguaia e Marabá. Em seguida tornou-se professor da UEPA. Suas pesquisas retratam as disputas pela terra no sul e sudeste do Pará. Regiões consideradas as mais letais do país. O professor é autor de inúmeros artigos e livros sobre o assunto. A tese de doutoramento de Pereira, apresentada na Universidade Federal de Pernambuco, foi finalista do Prêmio Nacional da CAPES. 

José Batista Afonso é advogado da CPT em Marabá. Já fez parte da direção da instituição.  Possui mestrado em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia pela Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará).  Milita na região há mais de 30 anos. Entre os inúmeros processos em que participou, consta o conturbado processo do Massacre de Eldorado do Carajás, que ano que vem soma 30 anos.

 

Serviço:

Assassinatos e impunidade no campo do Pará: 1980-2024

Editora Dialética

800 páginas

Preço: 169,90

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Thiago Martins, artista visual de Marabá, ministra oficina sobre técnicas de lambe e stencil

 Entre jovens, adultos e idosos, 20 pessoas participaram



A intervenção denominada de Retratos da Terra, do artista visual, professor e técnico da Unifesspa   Thiago Martins foi um dos projetos selecionados no Edital Aldir Blanc, de Marabá.

Pelo menos 20 pessoas entre jovens, adultos e idosos, 20 pessoas participaram do diálogo, ocorrido na Comuna Cepaps, no fim de outubro. A oficina que tratou sobre as técnicas de lambe e stencil.



A oficina contou com um público diverso, tanto com relação à idade dos participantes, quanto procedência, onde constam pessoas do campo e da cidade, entre camponeses,  estudantes, professores e trabalhadores urbanos.

A atividade que  durou um dia, além de apresentar as técnicas, refletiu sobre os cenários do sudeste paraense, cotejando reflexões sobre a questão agrária, a mineração e seus impactos, em particular os provocados pela mineradora Vale.



Além das produções individuais, uma obra coletiva homenageou o dirigente camponês maranhense Manoel da Conceição. Uma referência nacional pela reforma agrária, educação e o meio ambiente.

sábado, 25 de outubro de 2025

Ameaçado de morte, Darlon Neres, jovem do PAE Lago Grande, vence Prêmio Nacional por defender a floresta




Na noite do dia 23, em São Paulo, Darlon Neres foi escolhido como destaque de jovem ativista do bioma Amazônia, no Prêmio Quem faz a esperança florescer, organizado pela plataforma Chico Vive.  Por conta de sua militância, ele tem sido perseguido por um grupo de madeireiros.  

Em setembro de 2023 o grupo de madeireiros foi à casa da família do jovem ambientalista para intimidá-lo.  Os idosos ficaram temerosos pela integridade do universitário.

Para os defensores do meio ambientes nestas paragens, sobreviver sob ameaças tem sido uma constante. Em março do mesmo ano, desta feita na região de Arapiuns, um pastor ameaçou de morte várias lideranças parelhadas na defesa do meio ambiente, reforma agrária e direitos humanos.

Neres faz parte de uma lista de 20 pessoas ameaçadas de morte no PAE Lago Grande, no município de Santarém, oeste do Pará.  

Pessoas ameaças de morte no PAE (Projeto de Assentamento Agroextrativista) Lago Grande, Santarém/PA.

 

Nome

Comunidade

01

Osvaldo Lima da Silveira

Retiro

02

Diego  do Rosário e Silva

Retiro

03

Ronald  Soares da Silva

Retiro

04

Alexandre Daniel do Rosário

Bom Jardim

05

Valdinho Nogueira

Bom Jardim

06

Janete Maria Branco

Terra Preta dos Viana

07

Darlon Neres

Cabeceira do Marco

08

Rosenilce dos Santos Vitor

Maranhão

09

Edilson Silveira Figueira

Maranhão

10

Raimunda L. da Costa Nunes

Igarapé Açu

11

Ricardo dos Santos Aires

Membeca

12

Ivete Bastos dos Santos

Dourado

13

Antônio Oliveira de Andrade

Aninduba/Bom Futuro

14

 

Siandre da Silva Batista

Vila Curuai

15

Darleilson de Sousa Mota

São José II

16

Osmarc dos Santos Sousa

Vila Gorete

17

Luziete da Silva Correa

Coroca

18

Sandrielem Correa Vieira

Coroca

19

Gildson Santos Braga

Coroca

20

Eliana da Silva Batista

Nazário

Fonte: Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais de Santarém/PA, outubro de 2025

Empresas mineradoras, grileiros, exploradores ilegais de madeira, facções criminosas, políticos e mesmo gente da própria comunidade constam como os ameaçadores.


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

COP 30: Charles Trocate, ativista do Movimento pela Soberania na Mineração analisa as consequências da crise ambiental e as firulas da Conferência.

 

 

Charles Trocate, coordenação nacional do MAM. Foto: redes sociais

Poeta, filósofo e doutor Notório Saber em Geografia Humana pela Universidade Federal da Bahia, (UFBA), professor visitante no Instituto de Geociências, e da Direção Nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração-MAM, Charles Trocate traça nesta entrevista um rápido panorama dos nossos impasses sobre crise climática e a dívida ecológica. Neste dedo de prosa, Trocate mobiliza elementos para uma crítica da razão capitalista, que separou indivíduo e da natureza. Nesta direção, contabiliza a origem da nossa crise de desenvolvimento pela abundância de natureza dos anos de 1990 para cá. E, por fim, discorre sobre o problema mineral brasileiro, de como ele está incontrolável em relação à economia, a natureza e a sociedade. Alerta que é urgente a organização de uma Conferência Nacional sobre o modelo mineral brasileiro.

 

Blog Furo: Charles Trocate, qual o panorama da crise ecológica e os rebatimentos na sociedade Brasileira?

 

Charles Trocate: Veja, o estado do capital é global, a esta altura não há lugar no mundo em que ele não condicione de algum modo as relações sociais. E ele é global exatamente pela desordem que ele provoca. O espírito do capitalismo é a desordem e aniquilamento. Esse diagnóstico já sabemos. No entanto, e este dado não é novo, é para onde vamos? Tenho dito e acredito dessa forma que se humanamente nós chegamos até aqui, que socialmente produzimos este individuo, ou se quisermos especificar, este homem burguês, cheio de penduricalhos privados, este comportamento social, que podemos denominar de civilização do consumo, baseadas na propaganda e no credito, só humanamente sairemos destes condicionamentos orquestrados pelo regime de poder. A ordem das questões é como sair do labirinto, como acumular força para tal?

 

Mas pelo menos três questões devemos levar em conta.  Ao invés de analisar que há uma crise política, ecológica, econômica e social, deveríamos rapidamente situá-la em sua totalidade. A crise é da razão capitalista razão que sistematicamente separou indivíduo e natureza pela rolagem perpétua do capital, esta fórmula social, de extração, transformação e consumo. Criação de novas necessidades e de novo a rolagem se externaliza, ou se muda por completo, ou se é aniquilado. Não se pode controlar as partes. Imaginando construir a partir disso outra sociabilidade, outro senso comum. Neste caso, para o argumento não ficar pela metade de todas as fases do capitalismo, quem mais aprofundou esta operacionalização do capital foram as fases do seu desenvolvimento monopolista e imperialista, tendo os EUA desempenhado papel fundamental nesta última. Mas hoje a tônica dos EUA é a antiglobalização, com um governo nativista e nacional chauvinista. Uma segunda questão é a de que para levar adiante essa perspectiva, o capital como produto das relações sociais maximiza as inúmeras funções do Estado, aquelas que neste momento, no nosso caso de Estado subalterno e subsoberano, objetifica a natureza, cientifica e precifica a natureza.  Nesta exata conjuntura, o Estado e a sua representação formal, governo e congresso decidem por quanto vão precificar a natureza. Neste caso os minerais necessários a expansão energética global, veja o caso da recente decisão para a extração de petróleo na foz do Amazonas.

 

Blog furo: e a terceira questão?

Charles Trocate: Sim, claro, ela diz respeito de que a inevitabilidade da razão capitalista, assim posta nos levou a esta crise sentida em todos os seus aspectos, e daí duas grandes formulações decorrem para explicá-las. Entramos no antropoceno, período geológico quando um ser humano genérico mudou a idade geológica da terra mais do que todas as forças naturais juntas, ou a que afirma que ao invés, estamos no capitaloceno, de que se há um modo de produção social que mais moldou o mundo a sua imagem e semelhança. Em face que sua forma de ser provocou rupturas e fissuras metabólicas a vida planetária este modo é o capitalismo em que o desenvolvimento das forças sociais produtivas e as revoluções tecnológicas e o descontrole delas extrapolaram o limite natural do planeta terra.  Estamos vivendo a sexta extinção em massas, nenhuma antes, foi provocada pelos humanos, esta sim.

 

Blog Furo: quais destas implicações sentimos, mais a fundo, em especial no Brasil?

Charles Trocate: Devemos recordar que aderimos ao neoliberalismo nos anos 1990 e executamos profissionalmente os seus termos, privatização do estado público, adesão ao rentismo, a implosão da natureza brasileira pelas commodities.  Isso não é pouca coisa. Isso é exatamente a linha de demarcação da crise climática e social e do colapso ambiental radicalizado que estamos vivendo. Isto tudo junto vai caracterizar melhor os impasses e eles são assombrosos. Eles derivam da taxa de lucro crescente as do capital sobre economias nacionais. No brasileiro, em forma de pagamentos de juros que imobilizam e deterioram as funções do Estado e de governos. Colapso ambiental em face do modelo econômico, gestão da crise por medidas paliativas e adesão voluntária às políticas imperialistas. Além disso parecem não ter nexos a vida boa das elites mediante o sofrimento da população.

Blog Furo: Então vamos lá, transição ou expansão energética? 

Charles Trocate: Terminamos o século vinte com o argumento de que o planeta estava esquentando e era preciso esfriá-lo. A forma para isso era combinar esforços globais. A tese, ou a vontade escolhida em comum acordo era de esfriar o planeta aos patamares dos anos de 1900, diminuir até 2050 dois graus Celsius. E, assim , descarbonizar a indústria mundial, e para isso o método escolhido foi realizar a “Conferência das Partes”, a que ocorrerá em Belém, no próximo mês será a de número 30. O ânimo para algum acordo satisfatório é baixíssimo. No entanto, como léxicos dominantes começamos a repetir dois novos conceitos políticos que nada dizem sobre a nossa sociedade, o da “emergência climática” e o da “transição energética”. Eles sustentam ideologicamente a premissa de “adaptação às mudanças climáticas” e a “mitigação dos danos”. O clima, assim como o território é uma produção social. O  uso desigual do clima é uma decisão política e isto se consolida cada vez mais no paradoxo da descarbonização, descarbonizar para que? Para o livre arbítrio da mercadoria e da financeirização? Estamos sequestrados por esta perspectiva, e devemos urgentemente sair dela, pois está posta por inúmeros organismos hegemônicos como a única saída e não será. A urgência não é interrogar o futuro, mas de saber que o passado está ficando grande demais em relação a ele. E, aqui entra o negacionismo e o nacionalismo climático como medida absoluta para nos dizer que o capitalismo é eletrointensivo no uso de energias, e que não haverá acordo algum.  Cabe a nós saber que a ordem dos fatores, para além de longas explicações, que não precisamos mudar de fontes energéticas precisamos mudar o sistema que fagocita as energias vitais da terra. O multilateralismo precisa mudar de forma para mudar de conteúdo. A prerrogativa  aqui se inclui, a delicada situação da geopolítica internacional, a vigência de novos consensos que ultrapasse as marcas nada auspiciosas do presente.  

 

Blog Furo: e neste amaranhado de coisas como fica as Amazônias?

Charles Trocate: Pois bem, acaba de ser lançado um livro e de caráter dominante sobre a “Nova Economia da Amazonia”. Ele deduz a região à economia. Os argumentos giram sob o tripé, bioeconomia, mineração inteligente e agronegócio. Isso é espantoso. A Amazônia ou as Amazônias, como preferia o professor Carlos Walter Porto Gonçalves, nesta etapa de acumulação capitalista é funcional ao sistema mundo de produção de mercadorias. Ela está encurralada por esta perspectiva e pesa o fato, de estas reverberações estarem em sintonia com os modelos hegemônicos de transição energética, na política e nos investimentos transnacionalizados. Sobretudo agora, muito se tem dito e muito se argumentará sobre o lugar da região e da floresta no equilíbrio do clima. A floresta é construção social e o resto é balela, mas, são estonteantes os dados que a modernidade da supressão lhe impõe. Há mesmo uma dívida ecológica incalculável com a  região, e que é tão pouco a ideia de chegamos ao ponto do não retorno da floresta. A Amazônia se transformou numa zona de acumulação intensiva de capital. A literatura indica que é preciso ir além, não por ser um depositório de carbono espetacular, mas o de produzir rios voadores, cuja as consequências, entre elas, a de se conectar com os demais biomas entre outras virtuoses. Neste ponto até poderia ser emblemático. Até poderia ser interessante a realização da Conferência das Partes, a COP30, na Amazonia.  Mas, as contingências do modelo tornam isso um desprestígio para a região, quando a interrogação não passou se Belém tinha ou não condições para realizar tal evento. Perdemos tempo demais neste ponto. E, eles venceram, não porque vão boicotar, seja ela pela discussão, seja na não discussão. Contudo, os adventos que levaram a decisão da COP30 ser realizada na Amazônia são os mesmos que valeram quando ela for em qualquer lugar. Não existe uma sintonia com a realidade do que podemos chamar de ruptura metabólica global!

Blog Furo: E o problema mineral brasileiro,  quais são as tarefas do Movimento pela Soberania Popular na Mineração diante da intensividade da indústria extrativa da mineração?

 

Charles Trocate: Veja, de maneira exemplificada, podemos dizer que o problema mineral brasileiro tem três características imediatas. A de ser organizado sempre de fora para dentro. Ele é estruturado na sua forma de decidir sempre de maneira antidemocrática e por consequência, seja lá onde for a decisão de implementá-lo, gerar o desenvolvimento do subdesenvolvimento.  São estas características que vão fazê-lo desde que vendemos o modelo estatal em 1997, esta incontrolável a economia, a natureza e a sociedade na sua forma e nos seus resultados. Exatamente por isso, dizemos que o problema mineral brasileiro produz afetações na economia nacional, a minério dependência nas zonas de mineração, ao mundo do trabalho da mineração e aos consumidores. Uma vez que quem consome não pode ficar ileso de como os minerais são arrancados do subsolo. De maneira geral saímos do nosso II Encontro Nacional, realizado este ano, refletindo sobre  os novos e velhos impasses dos minerais críticos, a guerra da transição energética afirmando a necessidade de debater com a sociedade a função social do subsolo.  Acrescentamos a necessidade de uma geodiversidade popular, ou seja, a garantia para fins não mineráveis de quem tem a posse do território, possa ter do subsolo também.  A nossa política permanente reside em  territórios livres de mineração, a democratização da renda mineral e o controle público do modelo mineral. E para esta conjuntura mensurar a necessidade pelas características dos debates e das proposições em relação aos minerais críticos a expansão energética o papel de uma Conferência Nacional sobre o setor de uma realidade que diz respeito a sociedade brasileira, em um dos muitos que seus resultados poderiam produzir, sobre escala e ritmo da mineração, era de um conselho ampliado para reorganizar a política mineraria nacional.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Cepasp, comuna de Marabá/PA, celebra memória dos ativistas Ademir Martins e Beta Moreira

 Cepasp existe desde os anos de 1980. Em 2024 somou 40 anos de peleja

No dia 18 de outubro tivemos a reabertura do Ponto de Cultura Comuna Cepasp e inauguração de dois novos ambientes: a Biblioteca Popular Ademir Martins e o Salão Multiuso Beta Moreira. Homenagem ao casal de companheiros fundadores do Centro de Educação, Pesquisa, Assessoria Sindical e Popular – CEPASP, organização que abriga o espaço cultural.

A reabertura contou com a presença de familiares, amigos e companheiros de luta do casal e foi marcada pelas lembranças dos primeiros encontros e amizades com os homenageados e momentos importantes da luta popular na região.

A reforma e criação de novos espaços é fruto de um projeto selecionado pelo edital EDITAL DE CHAMAMENTO PÚBLICO Nº 003/2025 - OBRAS, REFORMAS E AQUISIÇÃO DE BENS CULTURAIS, da Política Nacional Aldir Blanc -PNAB, organizado pela Secretaria de Cultura de Marabá/PA.

Cerimônia de inauguração dos espaços com familiares dos homenageados e fundadores do Cepasp


O Edital teve como objetivo selecionar espaços, ambientes e iniciativas artístico-culturais para receber subsídios destinados a obras, reformas e aquisição de bens culturais, com o intuito de fortalecer a infraestrutura cultural de Marabá/PA.

Além da reforma, o projeto contou com aquisição de equipamentos e uma campanha de arrecadação de livros. A iniciativa  arrecadou mais de 300 exemplares oriundos de doações individuais e de organizações, dentre elas a Estação Cultural de Marabá e do youtuber e professor João Carvalho.


A biblioteca Ademir Martins, comuna Cepasp. Foto: acervo do Cepasp. 

CEPASP - referência em inúmeras pesquisas sobre a região de Carajas, dentro e fora do país, o Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular, emergiu no rebojo da redemocratização do país. Em 2024 somou 40 anos. Educadores, militantes, leigos, trabalhadores rurais, extrativistas, dentre outras categorias fizeram ou fazem parte da iniciativa. Saiba mais AQUI

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

MPF recorre para que obras de porto em Santarém (PA) sejam demolidas e empresa pague danos morais coletivos

Desde os anos 2000, quando a Cargill ergueu o porto na orla da cidade ao arrepio da Lei, a toada tem se repetido 

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com recurso, na última terça-feira (14), contra uma sentença da Justiça Federal considerada contraditória pelo órgão ministerial. A decisão judicial anulou as licenças ambientais para a construção de um terminal portuário às margens do Lago do Maicá, área de extrema importância ecológica e social em Santarém (PA). No entanto, negou os pedidos de demolição das estruturas já construídas e de condenação da empresa por danos morais coletivos. Leia mais no site do MPF

ASSASSINATOS NA FAZENDA MUTAMBA COMPLETAM UM ANO SEM RESPONSABILIZAÇÃO DOS CULPADOS

 O caso da Fazenda Mutamba envolve suspeita de apropriação de terras públicas, trabalho escravo e violências contra os sem terra 

No dia 11 de outubro de 2024, Adão Rodrigues de Sousa, 53 anos, casado, pai de 05 filhos e, Edson Silva e Silva, foram assassinados, por policiais civis da Delegacia de Conflitos Agrários (DECA) de Marabá, chefiados pelo então delegado, Antônio Mororó. Os policiais chegaram ao local onde ocorreram os crimes, por volta das quatro horas da manhã. Cerca de 18 trabalhadores se encontravam dormindo em redes em um barracão coletivo. Dois deles já estavam acordados preparando um café quando foram surpreendidos com os gritos dos policiais “perdeu, perdeu”, seguido de rajadas de tiros. No desespero e na escuridão cada um tentou se escapar como pôde dos tiros. O resultado foram dois mortos, vários feridos à bala e quatro presos.

Os quatro presos, em depoimento prestado perante o Ministério Público, confirmaram que os trabalhadores rurais foram surpreendidos pelos policiais que já chegaram atirando. Acordados com rajadas de tiros naquela hora da madrugada e na escuridão, não houve qualquer chance de se defenderem mesmo que tivessem um arsenal de armas. Só deu tempo de correr para escapar da morte. Ainda em depoimento, contaram que os policiais atiraram com as espingardas encontradas nos barracos para incriminar os trabalhadores mortos ou presos.

A alegação do delegado Mororó de que se tratava de uma operação para cumprir mandados de prisão e de buscas era apenas um pretexto para cometer os crimes. O discurso do delegado era que se tratava de uma organização criminosa fortemente armada, envolvida em venda ilegal de madeira, roubo de gado, entre outros crimes. O resultado da operação que envolveu dezenas de policiais, várias viaturas, dois helicópteros, foi a apreensão apenas de 7 espingardas cartucheiras e algumas munições. Nenhuma arma pesada, nenhum motosserra, nenhum caminhão de madeira, nenhum gado roubado, nada mais!

 A operação criminosa chefiada pelo então delegado Mororó teve o mesmo modus operandi de uma outra ocorrida na fazenda Santa Lúcia, no município de Pau D’Arco, em 2017. Ali, sob o pretexto de cumprir mandados de prisão e de buscas contra supostos criminosos, as polícias civil e militar assassinaram 10 trabalhadores no que ficou conhecido como o Massacre de Pau D’Arco.

Denunciado pelos movimentos sociais e entidades de direitos humanos por sua atuação perante à DECA de Marabá, a decisão da Secretaria de Segurança Pública do Estado foi tão somente a promoção na carreira de Mororó. Inicialmente ele foi promovido a responsável pela Seccional Urbana de Marabá e, no dia 15/09/2025, foi promovido a Superintendente Regional do Sudeste do Pará. Os crimes compensaram!

Mas o delegado Mororó não se contentou apenas com esse posto. Ele exigiu também manter o controle da DECA de Marabá. Com a saída dele dessa especializada, assumiu como titular o delegado Vannir que estava fazendo um trabalho sério e respeitoso, atuando com independência, tanto em relação aos fazendeiros quanto aos movimentos sociais. Tinha grande capacidade de diálogo e mediação, evitando o agravamento dos conflitos. Por essa razão, não agradava aos fazendeiros e a Mororó os quais o acusavam de muita tolerância com as ações dos movimentos sociais de luta pela terra. Em meados de julho, Vannir foi afastado do comando da delegacia por pressão de fazendeiros da região, articulados com Antônio Mororó. A alegação do grupo foi que Vannir se negava a cumprir determinações de interesse dos pecuaristas. Não teve qualquer denúncia de ilegalidades ou desvios de conduta praticados pelo delegado. A razão foi exclusivamente política.

O delegado Mororó não esconde para ninguém as suas relações viscerais com os latifundiários da região. Qualquer chamado desse grupo ele está pronto a atender. Por outro lado, quando se trata de apurar os assassinatos de trabalhadores rurais não tem o mesmo interesse. Conforme dados da CPT, nos últimos 10 anos, 15 assassinatos ocorridos na área de atribuição da DECA de Marabá, as autorias das mortes não foram esclarecidas. Embora criada com a atribuição de investigar os crimes no campo, quando ocorre um homicídio de trabalhadores os casos são encaminhados para outras delegacias. Para dificultar o monitoramento das organizações dos trabalhadores, é decretado segredo de justiça nas investigações. Assim, tem casos com mais de cinco anos sem inquérito concluído. A última chacina, ocorrida em 25/07/2025, na região do Assentamento Coco II, no município de Itupiranga, é um exemplo. Três trabalhadores acampados foram emboscados por uma milicia armada. Foram torturados, assassinados e seus corpos queimados dentro do carro que trafegavam. As investigações, a cargo da delegacia de homicídios de Marabá, não foram concluídas e ninguém foi responsabilizado pelas mortes. Na verdade, a Delegacia de Conflitos Agrários se transformou em delegacia de proteção ao latifúndio.

Por outro lado, as famílias que ocupam a fazenda Mutamba há vários anos, vivem sob a ameaça de despejo. Em 2024, não foram despejadas porque o então juiz da Vara Agrária, Amarildo Mazutti, autorizou o despejo sem que o processo fosse encaminhado para a Comissão de Soluções Fundiárias, conforme determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). Em julgamento de recurso, o Ministro Cristiano Zanin determinou a suspensão do despejo. Nova data para o despejo foi marcada para o último dia 06 pelo juiz Jessiney que substitui Amarildo. Novamente não foram atendidas as recomendações da Comissão, razão pela qual, o mesmo Ministro determinou nova suspensão a pedido da Defensoria Pública. A esperança das famílias é que o INCRA possa promover a desapropriação da fazenda e encaminhar o assentamento das famílias.

A fazenda Mutamba, de propriedade da família Mutran, se assenta sobre um antigo castanhal que foi desmatado criminosamente para formação de pastagem. Há ainda suspeita de terra pública em parte do complexo. Já foi flagrada com trabalho escravo no início dos anos 2000 e, atualmente, é ocupada por mais de 200 famílias ligadas ao MST.

Por fim, a pergunta principal é? O assassinato dos dois trabalhadores na fazenda Mutamba, as tentativas de homicídios e as torturas vão ficar impunes? A julgar por outra chacina ocorrida em São Félix do Xingú, em 2020, onde o ambientalista Zé do Lago, sua esposa e filha foram assassinados, até hoje ninguém foi responsabilizado pelas mortes, o resultado pode ser o mesmo: A impunidade!

Marabá, 11 de outubro de 2025.

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST. Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares – FETAGRI.

Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar – FETRAF.

Comissão Pastoral da Terra – CPT. Instituto José Cláudio e Maria – IZM.

Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos – SDDH.

Coletivo Veredas.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Açaí na berlinda: relatório da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará aponta alternativas para a garantia de segurança alimentar e renda aos mais frágeis da cadeia produtiva.

38 instituições debateram entre março a outubro sobre gargalos e alternativas da cadeia produtiva do fruto. Atravessadores, assaltantes, ausência de assistência técnica, questão sanitária, crédito são alguns dos problemas a serem superados.

Em outubro de 2025 o mandato parlamentar estadual de Carlos Bordalo (PT/PA), que preside a Comissão de Direitos Humanos, da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), apresentou à sociedade o relatório sobre a crise de abastecimento do açaí no estado. Ele resulta de atividade de um grupo de trabalho (GT) que aglutinou prefeituras, ONGs, universidade, instituições públicas relacionadas com a questão, associações, cooperativas, sindicatos e vendedores do fruto. As atividades ocorreram entre março a outubro de 2025.

No rol constam, entre outras representações: prefeituras de Cametá, Igarapé Miri, Marituba, Barcarena e Acará. Entre as instituições públicas fizeram parte da jornada de construção do documento: Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará), Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Departamento de Vigilância Sanitária de Belém (DEVISA) Casa do Açaí e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

No caso da sociedade civil, colaboraram: Instituto Açaí é Nosso (IAN), Instituto Ver-o-Peso, Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Pará (Fetagri), Federação das Cooperativas da Agricultura Familiar do Pará (FECAF), Malungu, Cooperativa Agroindustrial Frutos da Amazônia (Coafra); e representando a universidade, a Clínica de Combate ao Trabalho Escravo da UFPA. Ao todo, 38 instituições integraram o GT, onde constam o poder público de várias instâncias, empresas, produtores, entidades de classe e membros da sociedade civil organizada.

Segundo o documento, o horizonte do GT residia em identificar alternativas sustentáveis e viáveis para a produção e comercialização e a garantia do equilíbrio da cadeia produtiva, bem como o acesso ao produto considerado essencial para a população paraense. O documento considera como uma alternativa estratégica a adoção da bioeconomia como parâmetro.  As indicações de alternativas foram realizadas em alinhamento com os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis).

Leia a íntegra do documento AQUI