sábado, 22 de janeiro de 2022

Caso Gabriel Pimenta, advogado de camponeses, terá julgamento na OEA 40 anos após a sua execução em Marabá, no Pará

A década de 1980 é considerada a mais letal contra camponeses e seus apoiadores no estado do Pará. Latifundiários organizados a partir da União Democrática Ruralista (UDR) são responsáveis por chacinas e execuções de dirigentes sindicais e dos advogados Gabriel Pimenta, João Batista e Paulo Fonteles nos  anos finais da Ditadura Civil Militar. 

Gabriel Pimenta, advogado de posseiros, executado em Marabá, no Pará, em 1982

                                                    Fonte: arquivo da família. 

No mês de março a Corte Interamericana de DireitosHumanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) julgará o Estado Brasileiro por negligência e morosidade no processo sobre a execução do advogado de posseiros Gabriel Pimenta. O defensor dos lavradores foi assassinado em plena via pública no dia 18 de julho de 1982, na cidade de Marabá, sudeste do Pará, quando somava apenas 27 anos. 

A região sudeste do Pará é considerada a mais letal na dinâmica de luta pela terra do país, mesmo nos dias atuais, que registrou no dia 09 a chacina da família de ambientalistas em São Félix do Xingu, onde o pai, esposa e a filha adolescente foram executados.

Uma nota assinada por Rafael Pimenta, irmão do advogado, esclarece que a polícia encerrou as apurações do caso de Gabriel em 72 horas e o Ministério Público e Poder Judiciário demoraram 21 anos para a conclusão da sentença, onde o júri popular nunca chegou a ocorrer. A conjuntura do caso Gabriel Pimenta representa uma espécie de modus operandi do setor de segurança do estado e do Poder Judiciário, quando a questão envolve posseiros, camponeses, sem terra e seus aliados.

O evento que redundou na execução de Gabriel Pimenta tem relação com a defesa que o mesmo fez de 150 famílias de trabalhadores rurais em 1981 na cidade de Marabá, explica a nota do irmão Rafael.  Ao vencer a causa em favor dos posseiros, os grileiros de terras juraram pela morte de Pimenta, fato que ocorreu 15 dias após a vitória na Justiça.

Apelar para as cortes internacionais tem sido uma saída para que os casos ocorridos nos na década de 1980 e em anos subsequentes não consagre a impunidade como regra, ainda que a luta seja longeva, como no caso do advogado Pimenta.

O advogado Gabriel Pimenta - veio ao mundo no dia 20 de novembro de 1954, na Zona da Mata do estado de Minas Gerais, na cidade de Juiz de Fora. Uma cidade universitária. Agitada pelo fervor político. Gabriel foi o terceiro entre os sete filhos homens do seu Geraldo Pimenta e de Dona Glória. 

Pimenta cresceu no berço desta agitação política, quando o país ainda era asfixiado pelo obscurantismo da ditadura civil militar. Foi forjado na construção de centros e diretórios acadêmicos e na  reorganização da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em 1978, aos 24 anos, gradua-se em Direito.

No mesmo ano ingressou no Banco do Brasil via concurso público.  Não suportou a atividade no banco por mais de um ano, quando se desligou e mudou para Conceição do Araguaia, sul do Pará, para advogar na Comissão Pastoral da Terra (CPT). O contexto político era delicado, marcado pela militarização da questão agrária, e acirramento dos conflitos pela terra, e muita tensão por conta da Guerrilha do Araguaia, movimento organizado pelo PC do B.

Por diferença metodológica de ação junto aos camponeses com os religiosos da CPT, Gabriel migrou de Conceição do Araguaia para Marabá, por conta de vínculo de amizade com D. Alano, bravo religioso no combate contra o latifúndio da região.  Em 1981, após romper com a CPT, e ainda assim continuar na região a defender trabalhadores rurais, impediu uma reintegração de posse. A ação em favor dos posseiros rendeu ao advogado a jura de morte por fazendeiros da região.

No dia 18 de julho de 1982, no final da convenção municipal do PMDB de Marabá, ao sair à rua, Gabriel Pimenta foi covardemente assassinado com três tiros de revólver, pelas costas, disparados a curta distância pelo pistoleiro José Crescêncio de Oliveira, contratado pelo chefe de pistolagem José Pereira Nóbrega, o Marinheiro, sócio de Manoel Cardoso Neto, o Nelito. Gabriel Pimenta tombou sem vida aos 27 anos de idade. 

A breve e contundente trajetória de Pimenta é contada pela Associação Brasileira dos Advogados do Povo (Abrapo) e irmão de Gabriel, Rafael Sales Pimenta, bem como dos advogados Paulo Fonteles e João Batista fazem parte de um projeto de extensão universitária de produção de um livro que busca recuperar parte desta memória da luta pela terra no Pará. Conheça o projeto AQUI

Anos de 1980 – a década mais sangrenta no estado do Pará

A dissertação de Rogerio Almeida, apresentada junto a Núcleo de Altos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará, Territorialização do campesinato nosudeste do Pará, laureada com o Prêmio NAEA/2008, adverte que a década de 1980 é considerada a mais violenta na região na tríplice fronteira do Pará, Maranhão e norte de Goiás, hoje o estado do Tocantins. Os anos registram várias chacinas e execução de dirigentes sindicais camponeses e seus aliados, e mesmo de família, como no caso dos Canuto, da cidade de Rio Maria.

Ainda segundo a mesma pesquisa, por conta da atmosfera de violência, setores populares organizaram o Tribunal da Terra, uma instância de caráter simbólico, forjada no sentido em chamar a atenção do país e do exterior para o que ocorria no sertão amazônico.

                    Cartaz do Tribunal da Terra. O evento foi realizado na década de 1980

                                   Fonte: blog de Paulinho Fonteles

A iniciativa foi protagonizada pela Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH), e contou com o apoio da CPT, OAB, MMCC, CNBB, CUT e CEDENPA.  Ocorreu em Belém entre nos dias 18 e 19 de abril de 1986, no Palácio da Justiça. Teve como objetivo levantar denúncias contra multinacionais, Estado e o latifúndio. O advogado e deputado federal/PT/SP, Luiz Eduardo Greenhalgh, o cutista Jair Menegheli, Pe. Josimo Tavares, Avelino Ganzer, o advogado José Carlos Castro constavam como representação da sociedade civil.

O Pe. Ricardo Rezende trabalhou como advogado de acusação. As chacinas Surubim e Ubá constavam no rol de casos, que somou 83 mortes no ano de 1985 na região. Registraram-se ainda o assassinado do sindicalista Benedito Bandeira, no município de Tomé Açu, onde a comunidade revoltada com a execução destruiu a delegacia e matou os três pistoleiros, que receberam CR$ 5000,00 do fazendeiro Acrino Breda, que nunca chegou a ser preso pelo caso. A área em disputa era a fazenda Colatina. O caso é emblemático pela fato da rápida prisão dos pistoleiros, ocorreu no mesmo dia, e pelo  justiçamento ocorrido contra os pistoleiros, pelo das pessoas avaliarem como certa a impunidade.

As execuções da missionária Adelaide Molinari e do sindicalista Arnaldo Deocídio  foram pontuadas no Tribunal. O Pe Josimo que coordenou a CPT de Imperatriz, Maranhão, morto no dia 10 de maio de 1986, participou do Tribunal para denunciar o atentado que sofrera. Um mês depois foi executado com tiros dados pelas costas. A sentença decidiu: que o Estado deveria ser controlado pelos operários; já as multinacionais seriam nacionalizadas, sendo controladas pelo Estado; e o latifúndio deveria acabar sendo as terras distribuídas de forma igualitárias para os trabalhadores rurais.

O advogado José Carlos Castro, escreveu: ”Esse Tribunal é um Tribunal porque não pode ser considerado apenas uma informação, porque tem uma expressão política muito forte para a consciência do povo, para a divulgação do que ocorre no campo. É um material de propaganda de novas idéias. (Jornal Resistência, Ano VIII, Nº 71, Belém, Pará, abril/maio de 1986). 

O Jornal Resistência foi editado pela primeira vez em 1978, e circulou de forma regular até 1983. Ganhou por três vezes o prêmio nacional de defesa dos direitos humanos Wladimir Herzog. Por conta do recrudescimento da violência nos anos de 2000, a SPDDH e a CPT, ombreadas por outras instituições realizaram o tribunal equivalente ao realizado nos anos de 1980.

Nos anos de 2000, por conta do recrudescimento da violência, marcado por novas chacinas, execuções de dirigentes, prisões e reintegração de posse, novamente setores populares organizaram  o Tribunal  Internacional dos Crimes do Latifúndio, ocorrido nos anos de 1980, como atesta o folder abaixo. O governador do Pará na época, o médico Almir Gabriel (já falecido), responsável pelo Massacre de Eldorado do Carajás, e o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso foram colocados na berlinda.  Ambos foram do PSDB. 

 
                              Fonte: arquivo pessoal 

Chacinas nos de 1980 - A defesa radical da propriedade da terra, ainda que em boa parte grilada e improdutiva, descortina na região o período mais sangrento. Entre as chacinas registradas nos arquivos da CPT, na década de 1980, pontuamos sete. Dos sete casos, em apenas dois foram iniciados os processos de apuração. As chacinas tratadas na tabela abaixo contabilizam 62 mortos num prazo de dois anos.

TABELA - Violência no Estado Pará- chacinas na década de 1980 no sul e sudeste do Pará

 

CASOS

 

LOCALIDADE

 

ANO

Nº DE MORTOS

SITUAÇÃO JURIDICA

Chacina dos Irmãos

Xinguara

Junho/1985

06

Sem processo

Chacina Ingá

Conceição do Araguaia

Maio/1985

13

Sem processo

Chacina Surubim

Xinguara

Junho/1985

17

Sem processo

Chacina Fazenda Ubá

São João do Araguaia

13.06.1985/

18.06.1985

08

Há 20 anos em tramitação

Chacina Fazenda Princesa

Marabá

28.09.1985

05

Há 19 em tramitação

Chacina Paraúnas

São Geraldo do Araguaia

10.06.1986

10

Sem processo

Chacina Goianésia

Goianésia do Pará

28.10.1987

03

Processo desaparecido

Total = 07

 

 

Total =62

 

Fonte: Violação dos Direitos Humanos na Amazônia: conflito e violência na fronteira paraense –CPT-2005

Os massacres que tiveram o processo de apuração iniciados são, a chacina da Ubá, ocorrida em São João do Araguaia, onde oito camponeses foram mortos. Já no caso da fazenda Princesa, cinco camponeses executados, onde alguns tiveram as cabeças decepadas, e os corpos jogados no rio. Ambos os processos tramitam há 21 anos. Já no episódio ocorrido em Goianésia do Pará, o processo é dado como desaparecido.

Permanências – a concentração da terra, as coerções públicas e privadas, as violências em suas múltiplas dimensões, o Estado autoritário, - independente da verve política do governo -  são alguns elementos de permanência nas experiências desenvolvimentistas impostas para a Amazônia, onde a execução de dirigente sindicais e chacinas permanecem como elementos estruturantes, como elencado abaixo. Independente do período histórico, seja na ditadura civil militar, seja na transição, na redemocratização ou nos dias atuais, a violência, bem como a impunidade como regra, insistem em balizar as dinâmicas de luta pela terra.

Alguns casos de execuções e chacinas da luta pela terra no Pará. 


CASOS

CIDADE

ANO

FILIAÇÃO

Raimundo Ferreira Lima (Gringo)

São Geraldo do Araguaia

1980

STR

Benedito Bandeira

Tomé Açu

1982

STR

Avelino da Silva

Santarém

1982

STR

João Canuto

Rio Maria

1985

 

Virgílio Sacramento

Moju

1987

STR

Expedito Ribeiro

Rio Maria

1991

STR

Arnaldo Ferreira

Eldorado do Carajás

1993

STR

Massacre de Eldorado (19 mortos)

Eldorado do Carajás

1996

MST

Fusquinha (Onalício Barros) e Doutor (Valentin Serra)

Parauapebas

1998

MST

Dezinho (José Dutra da Costa)

Rondon do Pará

2000

STR

Dedezinho (José Ferreira Lima  e família (esposa e filho)

Marabá

2001

STR

Ademir Federicci (Dema)

Altamira

2001

STR

Bartolomeu Morais da Silva

Castelo dos Sonhos

2002

STR*****

Dorothy Stang

Anapu

2005

CPT**

José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espirito Santo da Silva

Nova Ipixuna

2011

CNS*

Massacre de Pau d´arco (10 mortos)

Pau d´arco

2017

LCP***

Dilma Ferreira, esposa e um amigo

Baião

2017

MAB****

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 







Organizado pelo autor, Rogerio Almeida/2022

*CNS – Conselho Nacional dos Seringueiros

**CPT – Comissão Pastoral da Terra

***LCP – Liga dos Camponeses Pobres

****MAB – Movimentos dos Atingidos por Barragens

*****STR – Sindicato dos Trabalhadores Rurais 


domingo, 16 de janeiro de 2022

Chacina no Xingu: a morte e a morte tantas vezes anunciada nas terras do Pará

Ao longo de 40 anos o Pará registra  29 massacres, que envolveram 152 pessoas. 

           Família de Zé do Lago assassinada no 09 de janeiro. Fonte: redes sociais. 

Um riomar de sangue transborda por todos os quadrantes da História da “conquista” da Amazônia, onde o saque, a pilhagem, as violências representam elementos estruturantes. Execuções, assassinatos, chacinas constam por todo o território, a exemplo do recente caso ocorrido no município de São Félix do Xingu, sudoeste do Pará, onde a família do senhor José Gomes, “Zé do Lago” (61), a esposa Márcia Nunes Lisboa, (39) e a filha de 17 anos, Joane Nunes Lisboa foram executados a tiros, no dia 09 de janeiro.  Até o momento os órgãos de segurança do estado não possuem maiores informações sobre a motivação do crime.

Conforme a nota expedida pelo Comissão Pastoral da Terra (CPT), a família dedicava-se ao repovoamento de quelônios no rio Xingu há mais de duas décadas, em uma Área de Preservação Ambiental, a APA Triunfo do Xingu, sob a responsabilidade do Instituto de Terras do Pará (Iterpa), instituição do estado responsável pela questão agrária e gestão do Instituto do Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio). 

Trata-se de um território carcomido por ações ilegais que perpassam pela exploração ilegal de madeira, grilagem, garimpo e pecuária. Estima-se que pelo menos 40% do território da APA já tenham sido detonados por tais atividades. A APA ocupa uma área total de 1.679.280,52ha, localizada na fronteira com os igualmente conflituosos municípios de Altamira e Anapu. Vale onde a missionária e agente da CPT Dorothy Stang foi assassinada em fevereiro de 2005. Uma execução precedida pelas mortes dos dirigentes sindicais Ademir Federicci (Dema) e Bartolomeu Morais da Silva (Brasília).

Informações da mesma CPT advertem que o município e toda a região do Xingu não fogem à regra de foco de tensões do que ocorre por todo o Pará. No vale do Xingu madeireiros ilegais, garimpeiros, grileiros protagonizam situações de tensões junto a camponeses, pescadores, indígenas e extrativistas. Situações que têm desembocado em assassinatos, chacinas e trabalho escravo.

MORTES SEM FIM - 62 trabalhadores rurais foram assassinados em situações de conflito na luta pela terra no município, e em nenhum caso ocorreu de algum réu ir a julgamento. 29 massacres com o total de 152 vítimas transcorreram no Pará ao longo dos últimos 40 anos, sinalizam dados da CPT. A maioria sob o manto da impunidade, o principal indutor para a permanência de execuções e chacinas, bem como a parcialidade no Judiciário na mediação das situações de conflito, e inquéritos e investigações precários, quando os mesmos chegam a ser instaurados.

O episódio soma-se ao vasto inventário de casos de assassinatos de mortes na Amazônia, onde o estado do Pará tem se consagrado como líder absoluto em casos de situações de conflitos na luta pela terra. Situações onde via de regra tombam camponeses e camponesas, defensores e defensoras dos direitos humanos e do meio ambiente, e seus aliados, a exemplo de advogados e religiosos.

Neste cenário de luta pela terra a década de 1980 é considerada a mais letal. Tempos do apogeu da União Democrática Ruralista (UDR), de uma pujante e desinibida pistolagem por todo o Bico do Papagaio. Uma região que congrega o sudeste do Pará, o Norte do Tocantins e o Oeste do Maranhão.  Chacina da Fazenda Ubá, Chacina da Fazenda Princesa, assassinatos na família Canuto, dos advogados Paulo Fonteles, Gabriel Pimenta e João Batista, dos religiosos Padre Jósimo e da irmã Adelaide Molinati constam como alguns dos casos do período. Sem falar na coerção pública e privada, prisões arbitrárias, torturas, destruição de casas e roças.

SANGUE SEM CERCAS - A História da “conquista” da fronteira é uma história de expropriação de suas populações e assassinatos. Situações amalgamada por precárias investigações, processos morosos e inconclusos no Judiciário – quando os mesmos chegam a ser instaurados -, este celebre por sua parcialidade em situações de conflitos que envolvem grandes corporações, grileiros de terras e fazendeiros e a sociodiversidade local da região.

No início dos anos 2000, quando do recrudescimento da violência no campo nas paragens do sudeste do Pará, O sindicalista José Pinheiro Lima, conhecido como Dedezinho, a esposa Cleonice Campos Lima e o filho deles, Samuel Campos Lima, de 15 anos foram assassinados dentro da própria casa, no distrito de Morada Nova, em Marabá.

O dirigente sindical estava em uma rede acometido por malária quando da execução. O adolescente foi alvejado por tiro de escopeta pelas costas quando tentava fugir da sanha dos petroleiros. Os fazendeiros acusados pela chacina, João Davi de Melo e o ex-presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Marabá, Evandro Marcolino Caixeta foram absolvidos pela acusação em julgamento ocorrido no ano de 2016.

Em 2011 o casal de extrativistas do município Nova Ipixuna, sudeste do estado, José Cláudio e Maria do Espirito Santo, do Projeto Agroextrativista Praia Alta Piranheira teve o mesmo desfecho, vítima de tocaia encomendada por grileiros de terra. Em 2019 a dirigente do Movimento pelos Atingidos por Barragens (MAB) Dilma Ferreira da Silva (45) foi assassinada no município de Baião. Na mesma chacina tombaram ainda o esposo da dirigente, o senhor Claudionor Costa da Silva (43) e um conhecido da família, o senhor Hilton Lopes (38).

São Félix do Xingu – a cidade do boi -  O município de São Félix do Xingu é notório por concentrar o maior rebanho de gado do estado, 2,5 milhões de cabeças. Dados organizados pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto sinalizam que seriam 20 cabeças para cada um dos 140 mil habitantes da cidade.

Onde há gado, há grilagens de terras, crime organizado, e um pulsante desmatamento. Em 2019 o município desmatou 10% de seu território, o que equivale a 9,2 mil quilômetros quadrados, o que representa um terço de tudo que foi derrubado em toda a Amazônia naquele ano, analisa Pinto.

Por conta da alta presença da pecuária, o município também lidera a emissão CO2 na atmosfera. O Vale do Xingu, que um dia concentrou uma estonteante floresta do nobre mogno, foi palco de uma das maiores tentativas de grilagem de terra na Amazônia.

A ação foi protagonizada pelo paraense que fez fortuna no estado do Paraná, (eh Paraná), durante a ditadura civil militar com a construção de obras públicas, Cecílio de Rêgo Almeida, dono da empresa C.R Almeida. Tanta era a grana que o sujeito chegou a integrar a lista da Forbes. A tentativa de fraude envolvia uma área maior que o território do estado da Paraíba. Na Justiça do estado do Pará, Lúcio Flávio Pinto, por denunciar o crime foi condenado a pagar indenização ao grileiro, já falecido.

No município de São Félix até o prefeito grila. Reportagem de Phillippe Watanabe publicada pelo site UOL em dezembro do ano passado, alerta que o fazendeiro e prefeito da cidade, João Cleber pelo PMDB – partido do cacique político Jader Barbalho -, desmata a fazenda Bom Jardim desde pelo menos 2008. Uma área que faz parte de uma Unidade de Conservação (UC), consequentemente, terra grilada.  Iniciativas que por ironia, apesar de toda a cadeia de ilegalidade, ainda conseguem acessar financiamentos públicos.

A reportagem de Watanabe adverte que a fazenda, que também invade território Kaiapó, coleciona multas e embargos no Ibama. A fazenda usada para a criação de gado é um dos fornecedores do grupo JBS.

A Gestão das Unidades de Conservação (UC) no estado e a Política Estadual de Manejo Florestal Comunitário e Familiar (PEMFCF)

Em 2019, a contragosto do manifesto apresentado pelos funcionários do Ideflor-Bio, que desejavam um colega de carreira, o governador nomeou a pedagoga Karla Bengtson.  A educadora é nora do ex deputado federal e pastor da Igreja Quadrangular, Josué Bengtson.  O líder religioso perdeu o mandato em 2018 por envolvimento na “máfia das ambulâncias”. O filho, Marcos, é acusado de articular a morte do lavrador do MST Valmeristo Soares. Valmeristo – conhecido como Caribé.

Em sete de setembro de 2010 Marcos chegou a ser preso por conta do crime ocorrido no dia quatro do mesmo mês em Santa Luzia do Pará. Em 2014 Karla pleiteou sem sucesso uma cadeira no legislativo do estado. Na Câmara Federal, apesar da cassação do patriarca, o filho, igualmente pastor, Paulo, foi eleito e integra a Comissão de Ética.

Apesar do ambiente político adverso, é justo contra este ambiente de indicadores de desmatamento, exploração ilegal da madeira, concentração da terra,  monocultivo homogeneizadores, uso de agrotóxicos e  violências que um conjunto de organizações de vários campos defendem a institucionalização de uma Política Estadual de Manejo Florestal Comunitário e Familiar (PEMFCF), onde os diferentes sujeitos sociais historicamente marginalizados do estado possam ter assegurado o direito de sua reprodução econômica, política, social e cultural a partir de seus territórios, como legítimos guardadores da terra, da floresta e dos rio. Faz mais de uma década que um conjunto de sujeitos deseja a efetivação da PEMFCF.  Tentativa amiúde boicotada pelo Ideflor.

63% das florestas públicas do Pará encontram-se em territórios de comunidades tradicionais. A área equivale aproximadamente a 1,2 milhões de hectares, sob domínio de indígenas, extrativistas, remanescentes de quilombos, quebradeiras de coco babaçu, camponeses, e outras diversidades sociais, esclarece a minuta do documento da PEMFCF. Este é um dos principais argumentos de defesa da política, bem como os péssimos indicadores de desmatamento e violência contra as populações.  

Com relação à proposta da PEMFCF no âmbito do Pará, informações do site do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio), esclarecem que a proposta da política emerge como um instrumento de regulamentação dos preceitos do artigo 3 da lei estadual 6.462, de 4 de julho de 2002, a qual estabelece a Política Estadual de Florestas no Pará.  

Nos incisos XVI e XVIII do artigo terceiro, a lei prevê que deve ser estimulada “a implantação de formas associativas na exploração florestal e no aproveitamento de recursos naturais da flora” e ordenadas “as atividades de manejo florestal, criando mecanismos de exploração autossustentada dos recursos florestais”. O Ideflor-Bio é a autarquia responsável na condução do processo da PEMFCF.

Neste sentido a proposta para a política propõe o fortalecimento das cadeias produtivas; a regularização fundiária e ambiental para o manejo florestal comunitário e familiar; o desenvolvimento científico e tecnológico que respeite os conhecimentos tradicionais; e a proteção das comunidades e famílias nas relações comerciais.

Saiba mais sobre PEMFCF na série de reportagens publicada no Brasil de Fato/RS AQUI

Caetano, em sua poética, por conta da permanência de elementos das formas de acumulação dos passos iniciais do capitalismo nas terras do Pará, assim reflete:

Quem matou meu amor tem que pagar/
E ainda mais quem mandou matar/O império da lei há de chegar no coração no Pará. 

Interroga-se: quando?


segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Camarada Amauri, presente!! O bar mais underground do Sá Viana e vizinhança

 O Bar do Amauri, no Sá Viana, nos anos de 1990 abrigou shows de rock de bandas protagonizadas por estudantes da UFMA . 

Camarada Amauri e Beto Scansette (Comportamento Estranho). Foto: rede social de Beto. 

Anos 1990. Fim de século. O tornado da cartilha neoliberal varria boa parte do planeta. A ordem residia em responsabilidade fiscal, privatizar e desregulamentar. Azeitar a estrutura para a melhorar a desenvoltura do capital. Saciar a gula das corporações. A ferrar os países ao redor.

Nas perifas do Brasil setores populares empenhavam esforços em colocar nos trilhos demandas represadas por mais de duas décadas de ditadura. Tempo em recolocar representações da classe trabalhadora de pé. Tristes trópicos. O Estado ao centro pressionado pela agenda das agências multilaterais e pelos setores populares.

Mother Love Stone, Pearl Jam, Alice Chains e Stone Pilots, entre outras iniciativas encarnavam o que ficou conhecido como sonoridade Grunge, a emanar a partir de Seatle e fazer a cabeça da moçada. Mais que sonoridade, representava estilo.

Abaixo da linha do Equador, a partir dos mangues do Recife, jovens turbinavam elementos de matriz africana. Guitarra de Maia. As alfaias ganharam o Brasil e o mundo. É mangue. Maracatu pesado. Caranguejo com cérebro. É beat. É bite. É Chico. É Science.

São Luís. O mar toma a cidade. Água por todos os lados. Nos beirais da UFMA, na área Itaqui-Bacanga, no bairro do Sá Viana, um buteco fuleiro acolheu uns meninos errantes. Havia de tudo. Comunista, anarquista, liberal, maluco, maloqueiro, até policial. Creio que o nome dele era Wilson. Negro retinto. Estudante de artes. Quando o álcool transbordava em sua cuca, ficava um saco. Baixava nele a essência do capitão do mato.

O Bar do Amauri era simples. Contudo, bem localizado. Ficava numa esquina. Ponto de ônibus. Ao lado da UFMA.  Ozimo, estudante de Física, creio, era o mais fiel e frequente habitue. Mesas de sinuca. Um som precário executava as fitas cassetes de rock da moçada. 

Ozimo é grande. Em todos os sentidos. Cara de mal. O rosto abrigava uns buracos de espinhas remanescentes da juventude.  Cabelo longos.  Um coração de borboleta. Chorava de amor quando tocava uma canção de axé do Araketu. Não sei a responsável pela judiaria.  Oz, toca múltiplos instrumentos. Todavia, sempre andava com uma gaita. 

Um bar. Um canto. Um lugar de abrigo de renegados que se opunham ao Bambu Bar. Contraponto. Algumas mesas ajudavam na composição do salão, onde era recorrente desafio de xadrez. Fábio, estudante de Direito e o mano Lavousier empenhavam horas sobre o tabuleiro. Eu nunca aprendi a mexer nem nos peões. Saber de torres e reis. Xeque. Dirá sacar o movimento dos cavalos. E por falar neles, as carroças logo na estrada do bar representavam o cartão de visitas.  Bar do Amauri. Um território de paz entre os diferentes.

Uma pororoca confluía para o bar. Os meninos e meninas de Filosofia - os Ribas -, a turma das artes, Silvia, Mônica, Célida, Núbia (Letras), Fabiano Lumbrega (Ciências Sociais), os cabras do rock, Carlos Pança (Pereira), estudante de Ciências Econômicas faz parte da banda Amnésia, enquanto Pedro e Beto integram ainda hoje a Comportamento Estranho. Havia mais gente. Não consigo rememorar todos.

Amnésia, Comportamento Estranho e Fome descortinaram no Amauri um movimento coletivo para a realização de shows. Os meninos já agitavam o movimento em outros cantos da cidade. Assim nasceu a Cooperativa do Rola o Rock. Havia até identidade visual no bar do Camarada Amauri.


Show da Comportamento Estranho. Bar do Amauri, década de 1990. Foto: redes sociais Memória do Rock no Maranhão. 

Se a memória não falha, o pescador, carroceiro e comerciante era filho da Baixada Maranhense. A turma que cursava Comunicação Social fazia os espetáculos de rock do Bar do Amauri repercutirem na mídia local. Era rotina a inclusão na agenda cultural e nas editorias de cultura, capas de cadernos, pauta nos programas de rádio.

Amauri vez em quando apresentava uns peixes fritos para a rapaziada. Pescado ali pertinho, na barragem do Bacanga. Lanche para amenizar a larica. Estica, modela e castiga. Território livre.

O senhor raramente usava camisa ou quando a usava não a abotoava. Era comum ele guardar os nossos cadernos e livros na sexta para a gente apanhar na segunda. Bar do Amauri.  O começo da farra, que desembocava para a Praia Grande, depois para o reggae do Espaço Aberto, no São Francisco, até encerrar numa praia ou seria um novo recomeçar de festejos?

Amauri ficou todo orgulhoso ao ver o nome do bar na agenda da TV. Os parentes do interior ligaram para ele. Ganhei umas Belcos devidamente quentes como agradecimento. O Joacy Jamis era o responsável pela produção dos cartazes. Não mais entre nós. Vivo entre nós. Fanzineiro, roqueiro, punk, poeta e diagramador.

Amauri vendia bem quando da realização dos shows. Era tempo da cerveja Belco. O freezer não ajudava muito. O comum era a breja quase tirada da grade. Conhaque com limão e mel também fazia parte do repertório etílico.

A turma avaliava que o bar não resistiria ao avanço do capital. À especulação imobiliária. Dito e feito. Estrategicamente localizado, possuía a régua e o compasso para um comércio com maior musculatura. Um comércio da fé que espoca em todo canto com a rapidez e violência de uma pandemia.  A profecia se realizou.

O camarada Amauri partiu na semana passada. Padecia de úlcera crônica. Ao seu jeito tolerou e abrigou uma horda de gente inquieta em jornada de formação política, cultural, afetiva, e coisa e tal.  

Após o êxito de venda de breja e pinga no primeiro show organizado pela Cooperativa do Rock, Amauri indagava: “Quando faremos outra orquestra?”  

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Mineração em debate: Movimento pela Soberania na Mineração realiza ciclo de debates sobre mineração no Pará.

O seminário encerra o ciclo de debates que ocorreu em todas as regiões do país.  
Mineração em Carajás/PA

O projeto Diálogos da Mineração fecha seu ciclo remoto de debates promovido ao longo do ano de 2021 no Estado do Pará, maior exportador de minério do país. O evento acontece na próxima terça e quarta-feira (23 e 24), às 18h, no canal do Youtube do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

No primeiro dia a mesa abordará aspectos gerais sobre a questão mineral no Pará e, mais especificamente, dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do setor da mineração. O debate contará com as contribuições de Márcio Zonta, da Coordenação Nacional do MAM e comunicador popular, que acompanha os dilemas da mineração em países da América Latina e África, e de Rubens Moraes Junior, advogado trabalhista, Conselheiro estadual da Ordem dos Advogados do Brasil-Pará (OAB-PA) e Coordenador Regional da Comissão de Assuntos Minerários da OAB-PA. A mediação é de Ariel Barros, da Coordenação Regional MAM-PA e engenheiro ambiental.

"Carajás, por exemplo, é um dos principais fornecedores de matéria-prima para a indústria de alta tecnologia mundial, sobretudo as que são convertidas em produtos industriais na China e repassadas para o mundo. Embora tenha essa ligação com o que há de mais avançado em termos de tecnologia industrial, ela reproduz em sua região as mais diversas formas de violência e destruição, seja do ponto de vista étnico, racial, das modalidades de povos, de vida. É uma conta que não bate: fornecer matéria-prima para a alta indústria tecnológica 4.0 ao custo de muita destruição social, ambiental e cultural", dispara Márcio Zonta, referindo-se às contradições geradas em contrapartida à extração de minério de ferro, níquel, cobre e manganêsna região.

Já no segundo dia a mesa irá se debruçar sobre a questão da saúde do trabalhador e da trabalhadora na mineração. O dia contará com as contribuições do Enfermeiro do Trabalho Adilson Moraes Borges e da Engenheira de Segurança do Trabalho do Centro de Referência em Saúde do trabalhador, Ana Paula Santana Pereira, ambos do CEREST Regional Itacaiunas/Tocantins, e de Aline Coutinho Cavalcanti, Professora Adjunta da Faculdade de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).

Com mediação de Dioclécio Gomes - MAM, o segundo dia também vai contar com a apresentação do filme "Descartáveis", que faz parte do Cine Crítico Mineral, projeto do MAM que utiliza a linguagem audiovisual para disseminar a luta, resistência e as denúncias de comunidades afetadas pelas desigualdades da mineração. 

O 'Diálogos da Mineração' edição Pará faz parte da programação da III Jornada de Debates na Mineração, e é uma realização da Unifesspa, MAM, Fiocruz, POEMAS, Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração e projeto De Olho na CFEM. O evento teve, ao longo por objetivo, ao longo de 2021, mapear e discutir  os principais impactos socioambientais do setor da mineração para trabalhadores e trabalhadoras, comunidades afetadas pelos empreendimentos minerários, impactos econômicos e na saúde em seis estados brasileiros minerados. Toda a programação está disponível no canal www.youtube.com/MAMnacional

 

 Serviço

Diálogos da Mineração Pará
Terça e quarta-feira (23 e 24 de novembro), às 18h
Link direto para o DIA 23.11: https://youtu.be/eOcToXjYtOE

Link direto para o DIA 24.11: https://youtu.be/-pJmFCCEOo0


 Assessoria do MAM