sábado, 22 de janeiro de 2022

Caso Gabriel Pimenta, advogado de camponeses, terá julgamento na OEA 40 anos após a sua execução em Marabá, no Pará

A década de 1980 é considerada a mais letal contra camponeses e seus apoiadores no estado do Pará. Latifundiários organizados a partir da União Democrática Ruralista (UDR) são responsáveis por chacinas e execuções de dirigentes sindicais e dos advogados Gabriel Pimenta, João Batista e Paulo Fonteles nos  anos finais da Ditadura Civil Militar. 

Gabriel Pimenta, advogado de posseiros, executado em Marabá, no Pará, em 1982

                                                    Fonte: arquivo da família. 

No mês de março a Corte Interamericana de DireitosHumanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) julgará o Estado Brasileiro por negligência e morosidade no processo sobre a execução do advogado de posseiros Gabriel Pimenta. O defensor dos lavradores foi assassinado em plena via pública no dia 18 de julho de 1982, na cidade de Marabá, sudeste do Pará, quando somava apenas 27 anos. 

A região sudeste do Pará é considerada a mais letal na dinâmica de luta pela terra do país, mesmo nos dias atuais, que registrou no dia 09 a chacina da família de ambientalistas em São Félix do Xingu, onde o pai, esposa e a filha adolescente foram executados.

Uma nota assinada por Rafael Pimenta, irmão do advogado, esclarece que a polícia encerrou as apurações do caso de Gabriel em 72 horas e o Ministério Público e Poder Judiciário demoraram 21 anos para a conclusão da sentença, onde o júri popular nunca chegou a ocorrer. A conjuntura do caso Gabriel Pimenta representa uma espécie de modus operandi do setor de segurança do estado e do Poder Judiciário, quando a questão envolve posseiros, camponeses, sem terra e seus aliados.

O evento que redundou na execução de Gabriel Pimenta tem relação com a defesa que o mesmo fez de 150 famílias de trabalhadores rurais em 1981 na cidade de Marabá, explica a nota do irmão Rafael.  Ao vencer a causa em favor dos posseiros, os grileiros de terras juraram pela morte de Pimenta, fato que ocorreu 15 dias após a vitória na Justiça.

Apelar para as cortes internacionais tem sido uma saída para que os casos ocorridos nos na década de 1980 e em anos subsequentes não consagre a impunidade como regra, ainda que a luta seja longeva, como no caso do advogado Pimenta.

O advogado Gabriel Pimenta - veio ao mundo no dia 20 de novembro de 1954, na Zona da Mata do estado de Minas Gerais, na cidade de Juiz de Fora. Uma cidade universitária. Agitada pelo fervor político. Gabriel foi o terceiro entre os sete filhos homens do seu Geraldo Pimenta e de Dona Glória. 

Pimenta cresceu no berço desta agitação política, quando o país ainda era asfixiado pelo obscurantismo da ditadura civil militar. Foi forjado na construção de centros e diretórios acadêmicos e na  reorganização da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em 1978, aos 24 anos, gradua-se em Direito.

No mesmo ano ingressou no Banco do Brasil via concurso público.  Não suportou a atividade no banco por mais de um ano, quando se desligou e mudou para Conceição do Araguaia, sul do Pará, para advogar na Comissão Pastoral da Terra (CPT). O contexto político era delicado, marcado pela militarização da questão agrária, e acirramento dos conflitos pela terra, e muita tensão por conta da Guerrilha do Araguaia, movimento organizado pelo PC do B.

Por diferença metodológica de ação junto aos camponeses com os religiosos da CPT, Gabriel migrou de Conceição do Araguaia para Marabá, por conta de vínculo de amizade com D. Alano, bravo religioso no combate contra o latifúndio da região.  Em 1981, após romper com a CPT, e ainda assim continuar na região a defender trabalhadores rurais, impediu uma reintegração de posse. A ação em favor dos posseiros rendeu ao advogado a jura de morte por fazendeiros da região.

No dia 18 de julho de 1982, no final da convenção municipal do PMDB de Marabá, ao sair à rua, Gabriel Pimenta foi covardemente assassinado com três tiros de revólver, pelas costas, disparados a curta distância pelo pistoleiro José Crescêncio de Oliveira, contratado pelo chefe de pistolagem José Pereira Nóbrega, o Marinheiro, sócio de Manoel Cardoso Neto, o Nelito. Gabriel Pimenta tombou sem vida aos 27 anos de idade. 

A breve e contundente trajetória de Pimenta é contada pela Associação Brasileira dos Advogados do Povo (Abrapo) e irmão de Gabriel, Rafael Sales Pimenta, bem como dos advogados Paulo Fonteles e João Batista fazem parte de um projeto de extensão universitária de produção de um livro que busca recuperar parte desta memória da luta pela terra no Pará. Conheça o projeto AQUI

Anos de 1980 – a década mais sangrenta no estado do Pará

A dissertação de Rogerio Almeida, apresentada junto a Núcleo de Altos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará, Territorialização do campesinato nosudeste do Pará, laureada com o Prêmio NAEA/2008, adverte que a década de 1980 é considerada a mais violenta na região na tríplice fronteira do Pará, Maranhão e norte de Goiás, hoje o estado do Tocantins. Os anos registram várias chacinas e execução de dirigentes sindicais camponeses e seus aliados, e mesmo de família, como no caso dos Canuto, da cidade de Rio Maria.

Ainda segundo a mesma pesquisa, por conta da atmosfera de violência, setores populares organizaram o Tribunal da Terra, uma instância de caráter simbólico, forjada no sentido em chamar a atenção do país e do exterior para o que ocorria no sertão amazônico.

                    Cartaz do Tribunal da Terra. O evento foi realizado na década de 1980

                                   Fonte: blog de Paulinho Fonteles

A iniciativa foi protagonizada pela Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH), e contou com o apoio da CPT, OAB, MMCC, CNBB, CUT e CEDENPA.  Ocorreu em Belém entre nos dias 18 e 19 de abril de 1986, no Palácio da Justiça. Teve como objetivo levantar denúncias contra multinacionais, Estado e o latifúndio. O advogado e deputado federal/PT/SP, Luiz Eduardo Greenhalgh, o cutista Jair Menegheli, Pe. Josimo Tavares, Avelino Ganzer, o advogado José Carlos Castro constavam como representação da sociedade civil.

O Pe. Ricardo Rezende trabalhou como advogado de acusação. As chacinas Surubim e Ubá constavam no rol de casos, que somou 83 mortes no ano de 1985 na região. Registraram-se ainda o assassinado do sindicalista Benedito Bandeira, no município de Tomé Açu, onde a comunidade revoltada com a execução destruiu a delegacia e matou os três pistoleiros, que receberam CR$ 5000,00 do fazendeiro Acrino Breda, que nunca chegou a ser preso pelo caso. A área em disputa era a fazenda Colatina. O caso é emblemático pela fato da rápida prisão dos pistoleiros, ocorreu no mesmo dia, e pelo  justiçamento ocorrido contra os pistoleiros, pelo das pessoas avaliarem como certa a impunidade.

As execuções da missionária Adelaide Molinari e do sindicalista Arnaldo Deocídio  foram pontuadas no Tribunal. O Pe Josimo que coordenou a CPT de Imperatriz, Maranhão, morto no dia 10 de maio de 1986, participou do Tribunal para denunciar o atentado que sofrera. Um mês depois foi executado com tiros dados pelas costas. A sentença decidiu: que o Estado deveria ser controlado pelos operários; já as multinacionais seriam nacionalizadas, sendo controladas pelo Estado; e o latifúndio deveria acabar sendo as terras distribuídas de forma igualitárias para os trabalhadores rurais.

O advogado José Carlos Castro, escreveu: ”Esse Tribunal é um Tribunal porque não pode ser considerado apenas uma informação, porque tem uma expressão política muito forte para a consciência do povo, para a divulgação do que ocorre no campo. É um material de propaganda de novas idéias. (Jornal Resistência, Ano VIII, Nº 71, Belém, Pará, abril/maio de 1986). 

O Jornal Resistência foi editado pela primeira vez em 1978, e circulou de forma regular até 1983. Ganhou por três vezes o prêmio nacional de defesa dos direitos humanos Wladimir Herzog. Por conta do recrudescimento da violência nos anos de 2000, a SPDDH e a CPT, ombreadas por outras instituições realizaram o tribunal equivalente ao realizado nos anos de 1980.

Nos anos de 2000, por conta do recrudescimento da violência, marcado por novas chacinas, execuções de dirigentes, prisões e reintegração de posse, novamente setores populares organizaram  o Tribunal  Internacional dos Crimes do Latifúndio, ocorrido nos anos de 1980, como atesta o folder abaixo. O governador do Pará na época, o médico Almir Gabriel (já falecido), responsável pelo Massacre de Eldorado do Carajás, e o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso foram colocados na berlinda.  Ambos foram do PSDB. 

 
                              Fonte: arquivo pessoal 

Chacinas nos de 1980 - A defesa radical da propriedade da terra, ainda que em boa parte grilada e improdutiva, descortina na região o período mais sangrento. Entre as chacinas registradas nos arquivos da CPT, na década de 1980, pontuamos sete. Dos sete casos, em apenas dois foram iniciados os processos de apuração. As chacinas tratadas na tabela abaixo contabilizam 62 mortos num prazo de dois anos.

TABELA - Violência no Estado Pará- chacinas na década de 1980 no sul e sudeste do Pará

 

CASOS

 

LOCALIDADE

 

ANO

Nº DE MORTOS

SITUAÇÃO JURIDICA

Chacina dos Irmãos

Xinguara

Junho/1985

06

Sem processo

Chacina Ingá

Conceição do Araguaia

Maio/1985

13

Sem processo

Chacina Surubim

Xinguara

Junho/1985

17

Sem processo

Chacina Fazenda Ubá

São João do Araguaia

13.06.1985/

18.06.1985

08

Há 20 anos em tramitação

Chacina Fazenda Princesa

Marabá

28.09.1985

05

Há 19 em tramitação

Chacina Paraúnas

São Geraldo do Araguaia

10.06.1986

10

Sem processo

Chacina Goianésia

Goianésia do Pará

28.10.1987

03

Processo desaparecido

Total = 07

 

 

Total =62

 

Fonte: Violação dos Direitos Humanos na Amazônia: conflito e violência na fronteira paraense –CPT-2005

Os massacres que tiveram o processo de apuração iniciados são, a chacina da Ubá, ocorrida em São João do Araguaia, onde oito camponeses foram mortos. Já no caso da fazenda Princesa, cinco camponeses executados, onde alguns tiveram as cabeças decepadas, e os corpos jogados no rio. Ambos os processos tramitam há 21 anos. Já no episódio ocorrido em Goianésia do Pará, o processo é dado como desaparecido.

Permanências – a concentração da terra, as coerções públicas e privadas, as violências em suas múltiplas dimensões, o Estado autoritário, - independente da verve política do governo -  são alguns elementos de permanência nas experiências desenvolvimentistas impostas para a Amazônia, onde a execução de dirigente sindicais e chacinas permanecem como elementos estruturantes, como elencado abaixo. Independente do período histórico, seja na ditadura civil militar, seja na transição, na redemocratização ou nos dias atuais, a violência, bem como a impunidade como regra, insistem em balizar as dinâmicas de luta pela terra.

Alguns casos de execuções e chacinas da luta pela terra no Pará. 


CASOS

CIDADE

ANO

FILIAÇÃO

Raimundo Ferreira Lima (Gringo)

São Geraldo do Araguaia

1980

STR

Benedito Bandeira

Tomé Açu

1982

STR

Avelino da Silva

Santarém

1982

STR

João Canuto

Rio Maria

1985

 

Virgílio Sacramento

Moju

1987

STR

Expedito Ribeiro

Rio Maria

1991

STR

Arnaldo Ferreira

Eldorado do Carajás

1993

STR

Massacre de Eldorado (19 mortos)

Eldorado do Carajás

1996

MST

Fusquinha (Onalício Barros) e Doutor (Valentin Serra)

Parauapebas

1998

MST

Dezinho (José Dutra da Costa)

Rondon do Pará

2000

STR

Dedezinho (José Ferreira Lima  e família (esposa e filho)

Marabá

2001

STR

Ademir Federicci (Dema)

Altamira

2001

STR

Bartolomeu Morais da Silva

Castelo dos Sonhos

2002

STR*****

Dorothy Stang

Anapu

2005

CPT**

José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espirito Santo da Silva

Nova Ipixuna

2011

CNS*

Massacre de Pau d´arco (10 mortos)

Pau d´arco

2017

LCP***

Dilma Ferreira, esposa e um amigo

Baião

2017

MAB****

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 







Organizado pelo autor, Rogerio Almeida/2022

*CNS – Conselho Nacional dos Seringueiros

**CPT – Comissão Pastoral da Terra

***LCP – Liga dos Camponeses Pobres

****MAB – Movimentos dos Atingidos por Barragens

*****STR – Sindicato dos Trabalhadores Rurais 


domingo, 16 de janeiro de 2022

Chacina no Xingu: a morte e a morte tantas vezes anunciada nas terras do Pará

Ao longo de 40 anos o Pará registra  29 massacres, que envolveram 152 pessoas. 

           Família de Zé do Lago assassinada no 09 de janeiro. Fonte: redes sociais. 

Um riomar de sangue transborda por todos os quadrantes da História da “conquista” da Amazônia, onde o saque, a pilhagem, as violências representam elementos estruturantes. Execuções, assassinatos, chacinas constam por todo o território, a exemplo do recente caso ocorrido no município de São Félix do Xingu, sudoeste do Pará, onde a família do senhor José Gomes, “Zé do Lago” (61), a esposa Márcia Nunes Lisboa, (39) e a filha de 17 anos, Joane Nunes Lisboa foram executados a tiros, no dia 09 de janeiro.  Até o momento os órgãos de segurança do estado não possuem maiores informações sobre a motivação do crime.

Conforme a nota expedida pelo Comissão Pastoral da Terra (CPT), a família dedicava-se ao repovoamento de quelônios no rio Xingu há mais de duas décadas, em uma Área de Preservação Ambiental, a APA Triunfo do Xingu, sob a responsabilidade do Instituto de Terras do Pará (Iterpa), instituição do estado responsável pela questão agrária e gestão do Instituto do Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio). 

Trata-se de um território carcomido por ações ilegais que perpassam pela exploração ilegal de madeira, grilagem, garimpo e pecuária. Estima-se que pelo menos 40% do território da APA já tenham sido detonados por tais atividades. A APA ocupa uma área total de 1.679.280,52ha, localizada na fronteira com os igualmente conflituosos municípios de Altamira e Anapu. Vale onde a missionária e agente da CPT Dorothy Stang foi assassinada em fevereiro de 2005. Uma execução precedida pelas mortes dos dirigentes sindicais Ademir Federicci (Dema) e Bartolomeu Morais da Silva (Brasília).

Informações da mesma CPT advertem que o município e toda a região do Xingu não fogem à regra de foco de tensões do que ocorre por todo o Pará. No vale do Xingu madeireiros ilegais, garimpeiros, grileiros protagonizam situações de tensões junto a camponeses, pescadores, indígenas e extrativistas. Situações que têm desembocado em assassinatos, chacinas e trabalho escravo.

MORTES SEM FIM - 62 trabalhadores rurais foram assassinados em situações de conflito na luta pela terra no município, e em nenhum caso ocorreu de algum réu ir a julgamento. 29 massacres com o total de 152 vítimas transcorreram no Pará ao longo dos últimos 40 anos, sinalizam dados da CPT. A maioria sob o manto da impunidade, o principal indutor para a permanência de execuções e chacinas, bem como a parcialidade no Judiciário na mediação das situações de conflito, e inquéritos e investigações precários, quando os mesmos chegam a ser instaurados.

O episódio soma-se ao vasto inventário de casos de assassinatos de mortes na Amazônia, onde o estado do Pará tem se consagrado como líder absoluto em casos de situações de conflitos na luta pela terra. Situações onde via de regra tombam camponeses e camponesas, defensores e defensoras dos direitos humanos e do meio ambiente, e seus aliados, a exemplo de advogados e religiosos.

Neste cenário de luta pela terra a década de 1980 é considerada a mais letal. Tempos do apogeu da União Democrática Ruralista (UDR), de uma pujante e desinibida pistolagem por todo o Bico do Papagaio. Uma região que congrega o sudeste do Pará, o Norte do Tocantins e o Oeste do Maranhão.  Chacina da Fazenda Ubá, Chacina da Fazenda Princesa, assassinatos na família Canuto, dos advogados Paulo Fonteles, Gabriel Pimenta e João Batista, dos religiosos Padre Jósimo e da irmã Adelaide Molinati constam como alguns dos casos do período. Sem falar na coerção pública e privada, prisões arbitrárias, torturas, destruição de casas e roças.

SANGUE SEM CERCAS - A História da “conquista” da fronteira é uma história de expropriação de suas populações e assassinatos. Situações amalgamada por precárias investigações, processos morosos e inconclusos no Judiciário – quando os mesmos chegam a ser instaurados -, este celebre por sua parcialidade em situações de conflitos que envolvem grandes corporações, grileiros de terras e fazendeiros e a sociodiversidade local da região.

No início dos anos 2000, quando do recrudescimento da violência no campo nas paragens do sudeste do Pará, O sindicalista José Pinheiro Lima, conhecido como Dedezinho, a esposa Cleonice Campos Lima e o filho deles, Samuel Campos Lima, de 15 anos foram assassinados dentro da própria casa, no distrito de Morada Nova, em Marabá.

O dirigente sindical estava em uma rede acometido por malária quando da execução. O adolescente foi alvejado por tiro de escopeta pelas costas quando tentava fugir da sanha dos petroleiros. Os fazendeiros acusados pela chacina, João Davi de Melo e o ex-presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Marabá, Evandro Marcolino Caixeta foram absolvidos pela acusação em julgamento ocorrido no ano de 2016.

Em 2011 o casal de extrativistas do município Nova Ipixuna, sudeste do estado, José Cláudio e Maria do Espirito Santo, do Projeto Agroextrativista Praia Alta Piranheira teve o mesmo desfecho, vítima de tocaia encomendada por grileiros de terra. Em 2019 a dirigente do Movimento pelos Atingidos por Barragens (MAB) Dilma Ferreira da Silva (45) foi assassinada no município de Baião. Na mesma chacina tombaram ainda o esposo da dirigente, o senhor Claudionor Costa da Silva (43) e um conhecido da família, o senhor Hilton Lopes (38).

São Félix do Xingu – a cidade do boi -  O município de São Félix do Xingu é notório por concentrar o maior rebanho de gado do estado, 2,5 milhões de cabeças. Dados organizados pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto sinalizam que seriam 20 cabeças para cada um dos 140 mil habitantes da cidade.

Onde há gado, há grilagens de terras, crime organizado, e um pulsante desmatamento. Em 2019 o município desmatou 10% de seu território, o que equivale a 9,2 mil quilômetros quadrados, o que representa um terço de tudo que foi derrubado em toda a Amazônia naquele ano, analisa Pinto.

Por conta da alta presença da pecuária, o município também lidera a emissão CO2 na atmosfera. O Vale do Xingu, que um dia concentrou uma estonteante floresta do nobre mogno, foi palco de uma das maiores tentativas de grilagem de terra na Amazônia.

A ação foi protagonizada pelo paraense que fez fortuna no estado do Paraná, (eh Paraná), durante a ditadura civil militar com a construção de obras públicas, Cecílio de Rêgo Almeida, dono da empresa C.R Almeida. Tanta era a grana que o sujeito chegou a integrar a lista da Forbes. A tentativa de fraude envolvia uma área maior que o território do estado da Paraíba. Na Justiça do estado do Pará, Lúcio Flávio Pinto, por denunciar o crime foi condenado a pagar indenização ao grileiro, já falecido.

No município de São Félix até o prefeito grila. Reportagem de Phillippe Watanabe publicada pelo site UOL em dezembro do ano passado, alerta que o fazendeiro e prefeito da cidade, João Cleber pelo PMDB – partido do cacique político Jader Barbalho -, desmata a fazenda Bom Jardim desde pelo menos 2008. Uma área que faz parte de uma Unidade de Conservação (UC), consequentemente, terra grilada.  Iniciativas que por ironia, apesar de toda a cadeia de ilegalidade, ainda conseguem acessar financiamentos públicos.

A reportagem de Watanabe adverte que a fazenda, que também invade território Kaiapó, coleciona multas e embargos no Ibama. A fazenda usada para a criação de gado é um dos fornecedores do grupo JBS.

A Gestão das Unidades de Conservação (UC) no estado e a Política Estadual de Manejo Florestal Comunitário e Familiar (PEMFCF)

Em 2019, a contragosto do manifesto apresentado pelos funcionários do Ideflor-Bio, que desejavam um colega de carreira, o governador nomeou a pedagoga Karla Bengtson.  A educadora é nora do ex deputado federal e pastor da Igreja Quadrangular, Josué Bengtson.  O líder religioso perdeu o mandato em 2018 por envolvimento na “máfia das ambulâncias”. O filho, Marcos, é acusado de articular a morte do lavrador do MST Valmeristo Soares. Valmeristo – conhecido como Caribé.

Em sete de setembro de 2010 Marcos chegou a ser preso por conta do crime ocorrido no dia quatro do mesmo mês em Santa Luzia do Pará. Em 2014 Karla pleiteou sem sucesso uma cadeira no legislativo do estado. Na Câmara Federal, apesar da cassação do patriarca, o filho, igualmente pastor, Paulo, foi eleito e integra a Comissão de Ética.

Apesar do ambiente político adverso, é justo contra este ambiente de indicadores de desmatamento, exploração ilegal da madeira, concentração da terra,  monocultivo homogeneizadores, uso de agrotóxicos e  violências que um conjunto de organizações de vários campos defendem a institucionalização de uma Política Estadual de Manejo Florestal Comunitário e Familiar (PEMFCF), onde os diferentes sujeitos sociais historicamente marginalizados do estado possam ter assegurado o direito de sua reprodução econômica, política, social e cultural a partir de seus territórios, como legítimos guardadores da terra, da floresta e dos rio. Faz mais de uma década que um conjunto de sujeitos deseja a efetivação da PEMFCF.  Tentativa amiúde boicotada pelo Ideflor.

63% das florestas públicas do Pará encontram-se em territórios de comunidades tradicionais. A área equivale aproximadamente a 1,2 milhões de hectares, sob domínio de indígenas, extrativistas, remanescentes de quilombos, quebradeiras de coco babaçu, camponeses, e outras diversidades sociais, esclarece a minuta do documento da PEMFCF. Este é um dos principais argumentos de defesa da política, bem como os péssimos indicadores de desmatamento e violência contra as populações.  

Com relação à proposta da PEMFCF no âmbito do Pará, informações do site do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio), esclarecem que a proposta da política emerge como um instrumento de regulamentação dos preceitos do artigo 3 da lei estadual 6.462, de 4 de julho de 2002, a qual estabelece a Política Estadual de Florestas no Pará.  

Nos incisos XVI e XVIII do artigo terceiro, a lei prevê que deve ser estimulada “a implantação de formas associativas na exploração florestal e no aproveitamento de recursos naturais da flora” e ordenadas “as atividades de manejo florestal, criando mecanismos de exploração autossustentada dos recursos florestais”. O Ideflor-Bio é a autarquia responsável na condução do processo da PEMFCF.

Neste sentido a proposta para a política propõe o fortalecimento das cadeias produtivas; a regularização fundiária e ambiental para o manejo florestal comunitário e familiar; o desenvolvimento científico e tecnológico que respeite os conhecimentos tradicionais; e a proteção das comunidades e famílias nas relações comerciais.

Saiba mais sobre PEMFCF na série de reportagens publicada no Brasil de Fato/RS AQUI

Caetano, em sua poética, por conta da permanência de elementos das formas de acumulação dos passos iniciais do capitalismo nas terras do Pará, assim reflete:

Quem matou meu amor tem que pagar/
E ainda mais quem mandou matar/O império da lei há de chegar no coração no Pará. 

Interroga-se: quando?


segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Camarada Amauri, presente!! O bar mais underground do Sá Viana e vizinhança

 O Bar do Amauri, no Sá Viana, nos anos de 1990 abrigou shows de rock de bandas protagonizadas por estudantes da UFMA . 

Camarada Amauri e Beto Scansette (Comportamento Estranho). Foto: rede social de Beto. 

Anos 1990. Fim de século. O tornado da cartilha neoliberal varria boa parte do planeta. A ordem residia em responsabilidade fiscal, privatizar e desregulamentar. Azeitar a estrutura para a melhorar a desenvoltura do capital. Saciar a gula das corporações. A ferrar os países ao redor.

Nas perifas do Brasil setores populares empenhavam esforços em colocar nos trilhos demandas represadas por mais de duas décadas de ditadura. Tempo em recolocar representações da classe trabalhadora de pé. Tristes trópicos. O Estado ao centro pressionado pela agenda das agências multilaterais e pelos setores populares.

Mother Love Stone, Pearl Jam, Alice Chains e Stone Pilots, entre outras iniciativas encarnavam o que ficou conhecido como sonoridade Grunge, a emanar a partir de Seatle e fazer a cabeça da moçada. Mais que sonoridade, representava estilo.

Abaixo da linha do Equador, a partir dos mangues do Recife, jovens turbinavam elementos de matriz africana. Guitarra de Maia. As alfaias ganharam o Brasil e o mundo. É mangue. Maracatu pesado. Caranguejo com cérebro. É beat. É bite. É Chico. É Science.

São Luís. O mar toma a cidade. Água por todos os lados. Nos beirais da UFMA, na área Itaqui-Bacanga, no bairro do Sá Viana, um buteco fuleiro acolheu uns meninos errantes. Havia de tudo. Comunista, anarquista, liberal, maluco, maloqueiro, até policial. Creio que o nome dele era Wilson. Negro retinto. Estudante de artes. Quando o álcool transbordava em sua cuca, ficava um saco. Baixava nele a essência do capitão do mato.

O Bar do Amauri era simples. Contudo, bem localizado. Ficava numa esquina. Ponto de ônibus. Ao lado da UFMA.  Ozimo, estudante de Física, creio, era o mais fiel e frequente habitue. Mesas de sinuca. Um som precário executava as fitas cassetes de rock da moçada. 

Ozimo é grande. Em todos os sentidos. Cara de mal. O rosto abrigava uns buracos de espinhas remanescentes da juventude.  Cabelo longos.  Um coração de borboleta. Chorava de amor quando tocava uma canção de axé do Araketu. Não sei a responsável pela judiaria.  Oz, toca múltiplos instrumentos. Todavia, sempre andava com uma gaita. 

Um bar. Um canto. Um lugar de abrigo de renegados que se opunham ao Bambu Bar. Contraponto. Algumas mesas ajudavam na composição do salão, onde era recorrente desafio de xadrez. Fábio, estudante de Direito e o mano Lavousier empenhavam horas sobre o tabuleiro. Eu nunca aprendi a mexer nem nos peões. Saber de torres e reis. Xeque. Dirá sacar o movimento dos cavalos. E por falar neles, as carroças logo na estrada do bar representavam o cartão de visitas.  Bar do Amauri. Um território de paz entre os diferentes.

Uma pororoca confluía para o bar. Os meninos e meninas de Filosofia - os Ribas -, a turma das artes, Silvia, Mônica, Célida, Núbia (Letras), Fabiano Lumbrega (Ciências Sociais), os cabras do rock, Carlos Pança (Pereira), estudante de Ciências Econômicas faz parte da banda Amnésia, enquanto Pedro e Beto integram ainda hoje a Comportamento Estranho. Havia mais gente. Não consigo rememorar todos.

Amnésia, Comportamento Estranho e Fome descortinaram no Amauri um movimento coletivo para a realização de shows. Os meninos já agitavam o movimento em outros cantos da cidade. Assim nasceu a Cooperativa do Rola o Rock. Havia até identidade visual no bar do Camarada Amauri.


Show da Comportamento Estranho. Bar do Amauri, década de 1990. Foto: redes sociais Memória do Rock no Maranhão. 

Se a memória não falha, o pescador, carroceiro e comerciante era filho da Baixada Maranhense. A turma que cursava Comunicação Social fazia os espetáculos de rock do Bar do Amauri repercutirem na mídia local. Era rotina a inclusão na agenda cultural e nas editorias de cultura, capas de cadernos, pauta nos programas de rádio.

Amauri vez em quando apresentava uns peixes fritos para a rapaziada. Pescado ali pertinho, na barragem do Bacanga. Lanche para amenizar a larica. Estica, modela e castiga. Território livre.

O senhor raramente usava camisa ou quando a usava não a abotoava. Era comum ele guardar os nossos cadernos e livros na sexta para a gente apanhar na segunda. Bar do Amauri.  O começo da farra, que desembocava para a Praia Grande, depois para o reggae do Espaço Aberto, no São Francisco, até encerrar numa praia ou seria um novo recomeçar de festejos?

Amauri ficou todo orgulhoso ao ver o nome do bar na agenda da TV. Os parentes do interior ligaram para ele. Ganhei umas Belcos devidamente quentes como agradecimento. O Joacy Jamis era o responsável pela produção dos cartazes. Não mais entre nós. Vivo entre nós. Fanzineiro, roqueiro, punk, poeta e diagramador.

Amauri vendia bem quando da realização dos shows. Era tempo da cerveja Belco. O freezer não ajudava muito. O comum era a breja quase tirada da grade. Conhaque com limão e mel também fazia parte do repertório etílico.

A turma avaliava que o bar não resistiria ao avanço do capital. À especulação imobiliária. Dito e feito. Estrategicamente localizado, possuía a régua e o compasso para um comércio com maior musculatura. Um comércio da fé que espoca em todo canto com a rapidez e violência de uma pandemia.  A profecia se realizou.

O camarada Amauri partiu na semana passada. Padecia de úlcera crônica. Ao seu jeito tolerou e abrigou uma horda de gente inquieta em jornada de formação política, cultural, afetiva, e coisa e tal.  

Após o êxito de venda de breja e pinga no primeiro show organizado pela Cooperativa do Rock, Amauri indagava: “Quando faremos outra orquestra?”  

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Mineração em debate: Movimento pela Soberania na Mineração realiza ciclo de debates sobre mineração no Pará.

O seminário encerra o ciclo de debates que ocorreu em todas as regiões do país.  
Mineração em Carajás/PA

O projeto Diálogos da Mineração fecha seu ciclo remoto de debates promovido ao longo do ano de 2021 no Estado do Pará, maior exportador de minério do país. O evento acontece na próxima terça e quarta-feira (23 e 24), às 18h, no canal do Youtube do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

No primeiro dia a mesa abordará aspectos gerais sobre a questão mineral no Pará e, mais especificamente, dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do setor da mineração. O debate contará com as contribuições de Márcio Zonta, da Coordenação Nacional do MAM e comunicador popular, que acompanha os dilemas da mineração em países da América Latina e África, e de Rubens Moraes Junior, advogado trabalhista, Conselheiro estadual da Ordem dos Advogados do Brasil-Pará (OAB-PA) e Coordenador Regional da Comissão de Assuntos Minerários da OAB-PA. A mediação é de Ariel Barros, da Coordenação Regional MAM-PA e engenheiro ambiental.

"Carajás, por exemplo, é um dos principais fornecedores de matéria-prima para a indústria de alta tecnologia mundial, sobretudo as que são convertidas em produtos industriais na China e repassadas para o mundo. Embora tenha essa ligação com o que há de mais avançado em termos de tecnologia industrial, ela reproduz em sua região as mais diversas formas de violência e destruição, seja do ponto de vista étnico, racial, das modalidades de povos, de vida. É uma conta que não bate: fornecer matéria-prima para a alta indústria tecnológica 4.0 ao custo de muita destruição social, ambiental e cultural", dispara Márcio Zonta, referindo-se às contradições geradas em contrapartida à extração de minério de ferro, níquel, cobre e manganêsna região.

Já no segundo dia a mesa irá se debruçar sobre a questão da saúde do trabalhador e da trabalhadora na mineração. O dia contará com as contribuições do Enfermeiro do Trabalho Adilson Moraes Borges e da Engenheira de Segurança do Trabalho do Centro de Referência em Saúde do trabalhador, Ana Paula Santana Pereira, ambos do CEREST Regional Itacaiunas/Tocantins, e de Aline Coutinho Cavalcanti, Professora Adjunta da Faculdade de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).

Com mediação de Dioclécio Gomes - MAM, o segundo dia também vai contar com a apresentação do filme "Descartáveis", que faz parte do Cine Crítico Mineral, projeto do MAM que utiliza a linguagem audiovisual para disseminar a luta, resistência e as denúncias de comunidades afetadas pelas desigualdades da mineração. 

O 'Diálogos da Mineração' edição Pará faz parte da programação da III Jornada de Debates na Mineração, e é uma realização da Unifesspa, MAM, Fiocruz, POEMAS, Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração e projeto De Olho na CFEM. O evento teve, ao longo por objetivo, ao longo de 2021, mapear e discutir  os principais impactos socioambientais do setor da mineração para trabalhadores e trabalhadoras, comunidades afetadas pelos empreendimentos minerários, impactos econômicos e na saúde em seis estados brasileiros minerados. Toda a programação está disponível no canal www.youtube.com/MAMnacional

 

 Serviço

Diálogos da Mineração Pará
Terça e quarta-feira (23 e 24 de novembro), às 18h
Link direto para o DIA 23.11: https://youtu.be/eOcToXjYtOE

Link direto para o DIA 24.11: https://youtu.be/-pJmFCCEOo0


 Assessoria do MAM



 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

João Batista, presente! Vivo fosse hoje completaria 69 anos.

 

Vivo fosse João Batista hoje completaria 69 anos.  O comunista Batista era advogado de camponeses no Pará.  Foi assassinado quando somava apenas 36 anos. Ao lado de Paulo Fonteles e Gabriel Pimenta enfrentou latifundiários e grileiros de terra.   Pedro Batista, autor de livro sobre as jornadas de luta do irmão faz homenagem a João. Pedro também assina artigo que faz parte de uma coletânea em processo de produção (Luta pela terra na Amazônia: memória dos mártires da terra), que recupera parte destas histórias dos mártires da luta pela terra no Pará.


Manifestação pelo 1º de maio em Paragominas (PA). Foto: arquivo da família

 

A seguir, a loa de Pedro a João.

Se meu irmão, João Carlos Batista, estivesse vivo completaria hoje 69 anos.

 

Aos 36 ele foi assassinado, depois de ter sofrido três atentados, na quarta tentativa conseguiram calar sua voz, tirar sua vida.

 

Batista para muitos, Tauá para mim, teve uma vida de combate. Desde menino viveu a contradição no campo. Aos 14 anos foi vaqueiro, em uma fazenda em Paragominas, acompanhava meu pai, enquanto nossa mãe, Izaura, trabalhava na cozinha. Somente aos 21 retomou os estudos, quando nos mudamos para Belém. Fez supletivo, cursou direito e dedicou-se a defender trabalhadoras do campo e da cidade.

 

Batista priorizou suas origens. Atuou com firmeza na organização camponesa, concentrou-se na defesa da Reforma Agrária e no combate ao latifúndio e sua histórica violência contra mulheres e homens pobres com mãos calejadas do trabalho de sol a sol.

 

Foi eleito deputado estadual em 86. Em apenas 17 meses de mandato fez o que se parecia impossível: organizou milhares de trabalhadores do campo, usando com maestria revolucionária a luta organizada, a unidade do povo, a tribuna parlamentar e as brechas da lei a serviço da transformação social.

 

Cedo se assumiu socialista revolucionário. Militou clandestina e publicamente. Subiu em tamboretes, fez agitação,  vendeu jornais, pichou muros, escreveu discursos e cartilhas. Conspirou e agiu. Não teve posses, nem origem em família tradicional. Foi do trecho, sem terra, sem títulos ou riquezas.

 

Tauá ou Batista, o mesmo homem, justo, fraterno, duro e firme, convicto e corajoso. Sabia quem era seus inimigos. Denunciou Ronaldo Caiado e todos fazendeiros que fundaram a UDR e mataram dezenas. Denunciou a burguesia. Denunciou o oportunismo e o revisionismo. Acreditou no socialismo, defendeu e organizou a Revolução.

 

Hoje, 19.11, é seu natalício, estaria entre nós, fortalecendo o combate contra o fascismo e seus agentes, os mesmos que o caluniavam, atentaram contra a sua vida até conseguirem o assassinar.

 

Em 6 de dezembro próximo fará 34 anos que Batista recebeu um tiro fatal.

O seu compromisso, dedicação e exemplo revolucionário seguem nos inspirando e apontando a direção, sem vacilar, nem se deixar encantar com os luxos e prebendas que a burguesa propaga e distribui.

O empoderamento divisionista, que carreiristas e oportunistas propagam para enfraquecer a luta revolucionária nega a luta revolucionária e trai os exemplos de homens e mulheres que caíram na gloriosa caminhada.


Honra eterna aos mártires da luta do povo.

Batista presente!

Viva o socialismo!

Seu exemplo revolucionário anima a caminhada.

Venceremos!

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Consciência Negra em Marabá/PA: coletivos do Movimento Negro apresentam manifesto

 

MANIFESTO

AQUILOMBAR-SE CONTRA O RACISMO:

PELA VIDA E DIGNIDADE DO POVO NEGRO.

Crianças indígenas Gavião da aldeia Akrãtikatejê no cortejo do bairro Cabelo Seco. Marabá/PA,2019.  Foto: enviada por Eric Belém

 

Qualquer ato de insubordinação contra o racismo em qualquer canto, por menor que possa parecer é representativo em memória dos nossos ancestrais que se rebelaram contra a opressão da Casa Grande e da Senzala. Aquilombar-se é preciso! Sempre!!!

Quase 400 anos de opressão contra o povo negro deixaram marcas de permanência em nossa frágil democracia. Os indicadores sobre o genocídio da juventude negra é uma destas expressões. Bem como os da população encarcerada nos presídios.

Somente nos derradeiros anos a presença da população negra nas universidades sofreu alteração por conta da pressão dos movimentos sociais negros do país em defesa de uma política de Cotas. Trata-se de uma conquista, mas, a reparação é bastante discreta diante de quase quatro séculos de opressão e toda ordem de violências: físicas e simbólicas.  Aquilombar-se é preciso!!! Sempre!

Qualquer tambor soado em qualquer canto é representativo. Bem como o grafite, a poesia, canções, filmes, marchas e intervenções. O combate contra o racismo é um combate de todos e todas alinhados na radicalização da democracia do país.  

Uma democracia ameaçada desde a posse do sinistro da República que sataniza indígenas e o povo aquilombado, mulheres, grupos LGBTQI+, a ciência, a cultura e a dignidade.

Há quase quatro séculos o povo negro aquilomba-se. “Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”, como poetiza o samba antigo. Nos quilombos e nas favelas por todo o Brasil foi e está sendo a população negra a mais vulnerável e atingida pela pandemia da Covid. Aquilombar-se é preciso!!! Sempre!  Contra toda e qualquer ameaça à democracia e contra o racismo. 

Chama Verequete, chama Conceição Evaristo, mestre Pastinha, Ruth de Souza, Aniceto do Império, Martinho da Vila, Marielle Franço, Dona Ana, Raimundinho. Chama Margarida, Rosemayre, Iara Reis, Jane, Maria José, Marcelo Melo e Vandinha. Chama Grande Otelo, Lázaro Ramos, Milton Nascimento, Luiz Carlos da Vila , Tia Ciata, Clara Nunes, Chico Science. Chama Mãe Menininha, Bethânia, João do Vale... Gilberto Gil, Bloco Ilê Ayê, Clóvis Moura, Abdias do Nascimento, Zélia Amador de Deus. Chama Zezé Motta, Taís Araújo, Antônio Pitanga, Ademir Brás, Castro Alves, Lima Barreto, Milton Santos, Garrincha, Mano Brown, Racionais MC, Emicida, Bruno de Menezes. Chama Zumbí, Ganga Zumba e Dandara... Chama Dona Ivone Lara, Pixinguinha, Cartola, João da Baiana. Chama Clementina de Jesus, Dorival Caymmi, Mariguella... E todos e todas que ousaram aquilombar-se.

Marabá, Pará




Coletivo Consciência Negra em Movimento - CCNM e Grupo de Mulheres do Cabelo Seco: As raízes de Marabá.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Cargil em Santarém/PA: estudo da ONG Terra de Direitos recupera histórias de abusos da empresa

 A licença de operação da empresa venceu em novembro do ano passado. 

Porto da Cargil em Santarém/PA. Foto: Rogerio Almeida/2021


Com a licença de operação vencida desde 22 de novembro de 2020, a trajetória da empresa estadunidense Cargil em Santarém, no oeste do Pará é um rosário de irregularidades e indiferença à diversidade social que integra a região, marcada pela densa presença de indígenas, camponeses e quilombolas, que tiveram os seus direitos desrespeitados, posto a empresa e o Estado não efetivarem a Consulta prévia livre e informada, como estabelecem as normas da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Como em outras experiências de grandes projetos na Amazônia, a empresa tem a anuência e a conivência do Estado no processo em que se apropriou de uma área pública, a Praia de Vera Paz, na área urbana da cidade de Santarém.  A área ocupada pela empresa é parte de um sítio arqueológico denominado de Porto, considerado por especialista o mais importante do município. Trata-se de vestígios de ocupação pré-colombiana do território de cerca de 10 mil anos do Povo Tapajós. O que implica na destruição da memória ancestral.

A empresa sentou praça em Santarém nos anos inicias da década de 2000 sem apresentar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto no Meio Ambiente (RIMA). Somente após a mobilização de setores afetados pela empresa, ainda de forma precária e negligente, a Cargil apresentou o EIA-RIMA sete anos após o início de suas operações.

Estrutura da Cargil

A Companhia Docas do Pará (CDP) e a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas) são os ponta de lança da empreitada.  A Cargil obteve as licenças para iniciar a construção de uma Estação de Transbordo de Carga (ETC) em 2000 e passou a operar em 2003, após idas e vindas nas cortes judiciais, recupera estudo recém lançado pela ONG Terra de Direitos, Sem licença para destruição: a violação de direitos no Tapajós, Santarém.

A pesquisa esclarece que além da ETC na orla na cidade, no encontro dos rios Tapajós e Amazonas, que “em 2010 a Cargill instalou um armazém de grãos e cereais, na comunidade de Cipoal, às margens da BR 163, ainda em Santarém. O armazém conta como uma estrutura de silos com capacidade de armazenamento de 30 mil toneladas de grãos e uma área de pátio para carreta”.

Na memória de abusos da Cargil a pesquisa relata que “em 2012 as obras de ampliação, com a implementação de um silo com capacidade para 30.000 toneladas de grãos na área retro portuária da empresa. Em 2014, a expansão continuou, com a instalação de três silos metálicos com capacidade de armazenamento para 54.000 toneladas, um píer flutuante coberto para recebimento de barcaças, e um descarregador de rosca (Barge Unloader) com capacidade de movimentação de 1.500 toneladas/hora. A ampliação foi concluída em 2017, com investimento total de R$ 240 milhões, que aumentou a capacidade anual de escoamento de 2 para 5 milhões de toneladas de grãos”.  O processo se deu tendo como base um EIA-RIMA precário.

 

Entre as irregularidades elencadas pela Cargil, o documento sublinha: i) Invisibilização de povos e comunidades tradicionais; ii) Fragilidades nos diagnósticos de uso e ocupação dos solos; iii)  Omissões quanto aos processos de organização social das áreas de influência da ETC; iv) Não realização de consulta prévia e informada a povos e comunidades tradicionais; v) Frágeis análises de questões ambientais; vi)  Diagnósticos elaborados predominantemente com dados secundários.

 

 A instalação da Cargil no começo dos anos de 2000 representa o pontapé de avanço da soja na região. No Planalto Santareno comunidades quilombolas e indígenas, a exemplo do território quilombola de Bom Jardim e a aldeia Açaizal do povo Munduruku  convivem com o cultivo há pelo menos uma década. A contaminação de mananciais da região pelo uso de agrotóxico representa um dos danos, além da redução da área de cultivo.

A ETC da Cargil é uma das estruturas que visa consolidar a região como um grande corredor de exportações de commodities do Brasil Central, ênfase ao estado do Mato Grosso. A síntese dos projetos encontra-se no documento Arco Norte, que elenca complexos portuários, a exemplo dos instalados na cidade de Itaituba, hidrovias e a Ferrovia EF 170, batizada de Ferrogrão, que almeja ligar Sinop/MT ao distrito de Miritituba, em Itaituba, no Pará.

Assim como a experiência de irregularidades da Cargil, a agenda desenvolvimentista ameaça a reprodução de indígenas, camponeses e quilombolas.  Leia o documento da Terra de Direitos AQUI

sábado, 13 de novembro de 2021

Flor de Gume, de Monique Malcher, cria de Santarém/PA, concorre ao Prêmio Jabuti

Gume é um riomar de mulheres. É a filha, a mãe e avó em pororoca de encontros e desencontros em prosa poética de elevado grau de concentração. 

“As mulheres são como as águas, quando se juntam, ninguém as detém”. A frase é mais ou menos neste rumo. É palavra de ordem recorrente em coletivos de mulheres das bandas das Amazônias, a exemplo do Baixo Amazonas, o oeste paraense.

É terra de Monique Malcher, filha de Santarém. Hoje, largada no mundo. A doutorar-se em Antropologia pelas bandas do Sul.  A terra de Malcher é encharcada pelas águas dos rios Tapajós e Amazonas. O primeiro dono de águas azuladas/verdes. Ainda não estou convencido da cor exata. Já com relação ao segundo, não resta dúvida, é barrento o tom. Tom das mágoas deixadas na trilha da escritora e artista plástica pelo patriarcado.  

O pai é violência. Os homens rasos. Apesar das águas de mágoas, a poesia resiste, ainda que alcancem o pescoço. Ameacem de morte. Flor de Gume, livro indicado para o Prêmio Jabuti é poesia e ternura em elevado grau de concentração: “quem arriscou a vida e crenças para atravessar as águas, os rios encantados das histórias da minha infância, não foi um homem, mas uma mulher, que tinha nome doce, mas sentia o amargor da miséria. Dulce”.   Fração do conto O Barco e as cartografias da esperança.

As águas grandes não respeitam barreiras. Afrontam as margens que as comprimem. Provocam erosões. Ainda que o rio seja um mar de lágrimas. O riomar da prosa poética de Malcher é um mundo de mulheres: a filha, a mãe e a avó. A senhorinha de Ponta de Pedras, que nunca mais voltou a reencontrar. É encontro de amores com as mulheres aguerridas com quem se deparou.

Em Suas sandálias me cabem? A encruza de Malcher se manifesta: “Eu cresci acreditando que as mulheres não poderiam me dar amor, que eu mesma não era o suficiente para o funcionamento da minha existência. Era urgente que os homens me amassem, aos moldes do amor que meu pai me dava, com seus excessos e controles. Conforme o tempo devorava os dias e me sentia estática, meu corpo não agia da mesma forma. Ele foi rompendo no meu estomago uma urgência infinita”.

37 contos ou seriam gotas de lágrimas, amor e suor?  Dão corpo ao livro de Malcher divido em três seções: i) os nomes escritos nas árvores, os umbigos enterrados no chão, ii) Quando os lábios roxos gritam em caixas de leis herméticas e, iii) O reflorestar do corpo, o abandonar das pragas.

Jarid Arraes, responsável pela edição do livro, igualmente escritora, em orelha da obra, adverte: “Flor do Gume é um livro para pele cortadas. Literatura como mergulhar as pernas nos rios do Pará e ouvir palavras que contam meninas presas em infâncias machucadas, mães e mulheres que crescem como plantas de verde profundo, apesar da realidade de violência, e avós que nutrem raízes, que aplicam ervas restauradoras no corpo ferido”.  

 

A mãe, a filha e a avó se entendem. Desentendem-se. As mulheres quando se juntam são como as águas....


Espia a Monique AQUI

 

Serviço

Flor do Gume

Monique Malcher

Editora Pólen

R$45,00

 

Conheça melhor Monique AQUI

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Danação em dia de chuva em rede de algodão

 



Dias. Tudo bem contigo? Espero que sim. Sonhei que a gente se bulia numa rede algodão. Havia apreensão em seus olhos. O risco da chegada inesperada de alguém. O desassossego de interrupção do rito amoroso. Um flagrante. Crime passional. Gritos, insultos, soco, faca e bala. Corpos nus desprovidos de vida. Um sobre o outro. Um dentro do outro. Angu de sangue. Notícia de jornal.

A tarde estava tomada de chuva.  Céu de amor em casa avarandada. Passarinhos em revoada. Vento suave. Folhas e frutos ao chão. Rede de algodão. Cheirosinha. Amaciante de bulinação. Você a judiar do meu corpo e da minha alma. O cego forte. Rijo. Qual um sorvete de doce algodão a enfrentar vento de praia no litoral do Maranhão. Touro de São Sebastião. 

Ecumênico ateu a rogar por forças a Jesuscristinho, Nossa Senhora de Nazaré, e aos tambores do candomblé. Mautiner atômico em maracatu aperreado em ladeira da Cidade Velha. Danação dos diabos em ebulição. Arrebatação. Arrebentação. Tensões. Tesões. Muro de arrimo em ruínas. Só ruínas.....

Sonhei que a gente se bulia numa rede de algodão. Um forró fora da quadra de São João abençoado pelas maldades do deus Baco.  Capitães da areia em capoeira. Um combate de bocas e pernas.

Bulinação de rede. Pressas e desassossegos. Agonia e lentidão. Suspiros profundos entregozos.  Tempestade tropical. Beira de rio.  Amores líquidos. Café forte. Cuscuz de arroz em forma de coração. Cochilo profundo. Sem forças. Moribundo do amor sob laje de grande cidade. Sem pernas para fuga, acorrentado aos braços de uma deusa de ébano à espera do juízo final... o sol...há de brilhar mais uma vez....

domingo, 31 de outubro de 2021

Carta do Encontro de Saberes da Amazônia e Mudanças Climáticas

 

 

Abertura do evento 

Entre os dias 20 a 23 de outubro, Belém sediou o encontro de Saberes da Amazônia e Mudanças Climáticas.  O objetivo era claro, além de animar o debate sobre o delicado quadro que passa a região, possibilitar o diálogo entre os sujeitos locais, e enviar um recado à cúpula que coordena a COP 26, conferência mundial sobre as mudanças climáticas, que inicia hoje, em Glasgow, na Suécia.   

Ao contrário de debates anteriores, onde o Brasil exercia protagonismo, desde a posse do militar na presidência, o país foi catapultado ao papel de pária.

Leia a íntegra do documento do encontro Saberes da Amazônia AQUI

E o primeiro dia de debate  AQUI

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Registro: Agência Amazônia Real tem trabalho reconhecido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)

 Eliane Brum participou da cerimônia de entrega da chancela realizado pela Amazônia Real. 

As homenageadas Kátia e Elaíze receberam as placas na redação da agência das mãos das jovens jornalistas Alicia Lobato e Maria Cecília Costa, respectivamente (Foto de divulgação Amazônia Real)


Fazer Jornalismo é tarefa árdua. Exige disciplina, trabalho em equipe, paciência para se indispor com dados, fontes, checagem, entrevistas, redação, edição, seleção de iconografia, produção de tabelas, gráficos, etc. 

Realizar a tarefa na Amazônia torna a missão ainda mais desafiadora. A começar pelo hercúleo desafio na busca de dados quantitativos e qualitativos. Consultar fontes sérias dentro e fora da região, com vistas a calçar a informação de forma qualificada.

E, a todo tempo fugir a apelos fáceis, clichês e sensacionalismos que marcam a maioria das coberturas sobre a região. Neste sentido, a Agência Amazônia Real, cravada em Manaus, no Amazonas tem cumprido com louvor o nobre desafio na produção de informações sobre a Amazônia.

Animada pelas jornalistas Kátia Brasil, uma mulher negra, e Elaize Farias, uma mulher indígena, a Amazônia Real teve no mês de agosto o reconhecimento de seus pares associados na Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), durante encontro internacional realizado em agosto.  

Os bambas sobre o tema participaram da sessão de entrega da chancela, entre os craques, nada mais, nada menos Eliane Brum.  Leia mais AQUI

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Luta pela terra no Pará: projeto busca recuperar a saga dos que tombaram na defesa da reforma agrária no estado

José Ferreira Lima (Gringo), João Canuto, Expedito Ribeiro, Irmã Dorothy, Massacre de Eldorado são alguns dos casos contemplados na proposta do projeto do livro


A Amazônia sofre historicamente com o avanço da exploração sobre o território e populações. O Pará é considerado o mais violento do país no que se refere a luta pela terra. Ao longo de décadas, foram muitos os militantes assassinados e chacinas promovidas. A fim de trazer à reflexão este cenário, está em produção o livro “Luta pela terra na Amazônia: mortos da luta pela! Vivos na luta pela terra!”, que recupera parte da saga dos defensores da reforma agrária, do meio ambiente e dos direitos humanos no estado localizado na Amazônia Legal. Leia mais no site do Brasil de Fato/RS