sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Benedicto Monteiro: solenidade de concessão de título doutor honoris pela Ufopa ocorrerá no dia 25, segunda feira.

Os filhos Wanda e Benedicto Monteiro Filho participarão da cerimônia.

Rogerio Almeida

Benedicto Monteiro. Fonte: redes sociais

A cerimônia que será presidida pela professora Aldenize Xavier,  reitora da Ufopa, ocorre a partir das 14h, do dia 25, na Unidade Tapajós. Os filhos Wanda Monteiro e Benedicto Monteiro filho representarão a família do escritor Benedicto Wilfred Monteiro. Detalhes AQUI

Além da agenda em Santarém, ocorrerá seminário na cidade natal de escritor, Alenquer, na noite do dia 29, na Câmara Municipal. Por coincidência, a 28ª edição da FeiraPanamazônica do livro homenageia Wanda Monteiro e o mestre de cultura popular Damasceno, quilombola marajoara, infelizmente, em delicado estado de saúde.

No Baixo Amazonas, Wanda, advogada e escritora apresentará as obras Chão de Exílio e Aquatempo. O primeiro é uma prosa poética que recupera parcela da memória do pai, lançado em 2022.

O centenário do autor celebrado em 2024 serviu de mote para uma série de ações sobre o conjunto da obra de Benedicto. Muitas restritas à capital, como foi o caso de uma exposição organizada pela Secretaria de Cultura do Pará (Secult), apesar de apelos para que a mesma circulasse no Baixo Amazonas. A Secult não respondeu aos ofícios de solicitação.

Na mesma toada de homenagens, a Imprensa Oficial do Estado reeditou a tetralogia amazônica do autor, composta pelas obras “Verdevagomundo (1972)", "O Minossauro (1975)", “A Terceira Margem (1983)” e “Aquele Um (1985)”. Obras geradas no apogeu da ditadura civil-militar, que representa uma grande inflexão sobre a conformação política, territorial, social e econômica da região,marcada pela hegemonia do capital internacional. 


Sobre Verde Vagomundo, a professora Maria de Fátima Nascimento, do curso de Letras, UFPA, realça que é nesta obra que emerge o principal personagem da tetralogia, Miguel Santos dos Prazeres. Um profundo conhecedor do universo da várzea do Baixo Amazonas. O romance ambientado em Alenquer, contempla a história do major Medeiros, que herda latifúndios, castanhais e balatais na região. 

Sobre o alterego do autor (Miguel dos Prazeres), a professora recorta o curioso fato da obra, em que com a mediação do militar, Miguel é escalado para ser o fogueteiro das celebrações do padroeiro da cidade, Santo Antônio. Ocorre que a festividade colide com o  golpe militar. E ao invés dos fogos serem disparados durante  a semana do festejo, por conta de perseguições, Miguel dispara tudo em único dia. Haverá uma situação de confronto entre o fogueteiro e as patrulhas, onde Miguel desaparece, vindo a reaparecer no romance o Minossauro, onde vai operar como mateiro e pescador de uma equipe de pesquisadores. 

A professora é entusiasta da obra de Monteiro. "O Benedicto deixou para o Pará uma obra valorosa. É dever da gente como educador e pesquisador incentivar a pesquisa sobre o conjunto que ele deixou. Estamos fazendo isso aqui na UFPA. É uma obra que fala das nossas questões, das nossas carências. O reconhecimento acadêmico da Ufopa é muito importante e bem vindo ao nosso grande autor, Benedicto", arremata a professora Nascimento. 

Por inciativa do edil de Alenquer, Luiz Alberto Freire, a Câmara realizou uma moção de aplausos. E, com vistas a publicizar a obra do autor, a turma do curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional da Ufopa, campus Alenquer, realizou inúmeros eventos

Para Wanda Monteiro, a filha que herdou a verve poética e a profissão do pai como advogada, “Toda vez em que o Benedicto é homenageado a gente da família considera como um resgate da memória. Não só da memória dele, mas, sobre a história do Pará. uma vez que a história do Benedicto se confunde com a história do Pará. Para a família é um sentimento de alento diante de tantos silenciamentos e apagamentos que ele sofreu durante toda a vida. A família tem um profundo sentimento de gratidão pela honraria concedida pela Ufopa ao Bené. A gente está muito feliz”.  

Paulo Nunes, escritor, professor da Uepa (Universidade do Estado do Pará) e da Unama, pesquisador da literatura amazônica na perspectiva geopoética, considera que “Benedicto honra Alenquer, o Baixo Amazonas e a todos nós que gostamos da região e de estudar a literatura que dela emana. É uma grande felicidade receber a notícia de uma universidade da grandeza da Ufopa reconhecer academicamente a obra de Benedicto Monteiro, assim como a sua trajetória em defesa dos direitos humanos, o direito à terra e em defesa da democracia do Brasil”.

Justa, merecida e necessária a comenda concedida pela Ufopa a Benedicto Monteiro, avalia Franssinete Florenzano, jornalista, advogada, membro da Academia de Letras do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós.

Para a imortal, “A literatura amazônica de Benedicto Monteiro é também expoente da literatura mundial. Seu personagem Miguel Dos Santos Prazeres, alter ego e porta-voz do caboclo amazônico e suas dores, já fazia, há tantas décadas, manifesto ecológico. Homem à frente de seu tempo, de talento multifacetado, era membro da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da Academia Paraense de Jornalismo. Ombreou as lutas de quilombolas, ribeirinhos, indígenas, balateiros, castanheiros, vaqueiros, atores de uma Amazônia situada em perspectiva universal. Ave, Bené!”

A dissertação apresentada na Universidade de Campinas (Unicamp) pela professora Maria de Fátima Nascimento, em 2004, examina a obra O Minossauro (1975), a partir das alegorias que coteja sobre a ditadura civil-militar. Período em que Benedicto Monteiro foi cassado e preso. A montagem a partir de discursos pretéritos e de outros autores  constitui um dos recursos adotados por Monteiro. A professora destaca o uso de canções, relatórios e  poemas.

No percurso do trabalho a professora alerta para e heterogeneidade de estilo que a obra enseja, onde de sobressai a voz de Miguel dos Santos dos Prazeres. Uma espécie de alter ego de Monteiro. É um caboco ribeirinho, sabedor das manhas da floresta, canoeiro e remeiro.  

Doutor Honoris – o fio da meada - Um seminário realizado de forma remota em abril de 2023, onde participaram Wanda Monteiro, escritora e filha do homenageado, e os professores Abílio Pacheco, da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará), Gilberto Marques, UFPA, com a mediação do professor Rogerio Almeida, Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará) em celebração ao centenário do escritor e político Benedicto Monteiro, foi a semeadura da ideia da elaboração do documento que culminou com a comenda de doutor honoris ao alenquerense Benedicto Wilfred Monteiro (in memoriam). Assim como a professora Nascimento, o professor Pacheco é autor de uma tese sobre Benedicto na mesma universidade.     

O tema foi sugerido pelo professor Rogerio Almeida foi pauta do III Ciclo de Debates sobre Políticas Públicas, do curso de Gestão Pública, do campus de Alenquer.  Outros conteúdos seguiram pautando a obra do autor.

Para efeito burocrático, a comenda sugerida pelo professor Almeida foi aprovada no colegiado no curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional, em seguida passou pelo escrutínio do conselho do Instituto de Ciências da Sociedade (ICS), até ser aprovado pelo Consun (Conselho Superior da Universidade) da Ufopa em 22 de agosto de 2024.

A condição de escritor, gestor pública, professor, defensor da democracia e dos direitos humanos na condição de advogados de posseiros e outras categorias serviram de recurso no documento que solicitou a comenda ao filho de Alenquer.  

Benedicto Monteiro - vários

Advogado, político,professor, escritor e gestor público, Monteiro nasceu nas barrancas de Alenquer/PA. 

Apesar da família abastada e dona de terras, o socialismo servia de farol para o político. Ao tomar possa das terras da família, as compartilhou entre trabalhadores rurais de Alenquer. A opção política provocava tensões no seio familiar.

Monteiro correu o mundo em busca de formação. Idos das primeiras décadas do século XX, no Rio de Janeiro fez par com o marajoara Dalcídio Jurandir - igualmente comunista - após ter sido convidado a sair da casa do tio (um militar) por conta da sua opção política, recupera Abílio Pachêco, em perfil sobre o autor, em tese apresentada na Universidade de Campinas (Unicamp), em 2020.   No mesmo documento, o professor realça que Monteiro foi convidado por Marighela a engrossar as fileiras da luta armada. Acesse  a tese AQUI 

As informações aqui elencadas sobre Monteiro possuem como fonte dados sistematizados por Pachêco, que recupera que em as atividades na condição de advogado ou em campanha política, o ximango autor registra em gravações relatos dos trabalhadores. Nestas incursões ao longo dos anos reuniu mais de 100 fitas gravadas. Fitas k7 e um número expressivo de fichamentos sobre a linguagem local.

O horizonte residia em coletar informações para a produção de uma dissertação sobre o falar loca, e assim pleitear uma vaga no magistério superior.  Pachêco sublinha que todo esse material foi apropriado pelos militares, e nunca foi restituído ao autor.  A sanha contra o saber é de velha data.    

Preso, Benedicto fez da reclusão do cárcere o tempo para refletir e formatar narrativas e forjar personagens, a exemplo de Miguel dos Santos Prazeres.   Privado do assento político, o alenquerense fez da literatura a sua bandeira

O aclamado professor Darci Ribeiro, em prefácio da obra a Terceira Margem (1981), festeja que: “Nos textos de Benedicto Monteiro é onde melhor se destrança a trama humana desumana da vida social da Amazônia que é a verdadeira selva selvagem: a mata penetrada, assassinada, pela civilização predatória. Lá, metidos por milênios, povos índios morenos de mil falas e mil caras, decifram a mata, aprendendo a viver dela e com ela, cultivando, caçando e procriando. Um dia, sobreveio a hecatombe mercantil e cristã. Era a civilização. Como uma avalanche ela apodreceu os corpos com as pestes da raça branca. Escravizou os sobreviventes, para desgastar milhões no trabalho venal. Reproduziu-se no ventre de mil cunhãs. Entorpeceu o espírito das gentes com a desmoralização missionária das velhas crenças. Apodreceu suas almas no desengano da vida nova que não vale a pena ser vivida. A salvação para muitos foi a terceira margem”

Chove sobre os campos de cachoeira (1933), de Dalcídio Jurandir, aos olhos de Monteiro serve de farol sobre a construção da representação da Amazônia, em particular, sua especificidade da oralidade, o mundo das águas e da floresta e seus habitantes, em uma relação dialética entre sociedade e Abílio Pachêco apontam que Monteiro foi convidado por Marighela a engrossar as fileiras da luta armada, quando setores da sociedade organizavam movimentos com vistas a viabilizar guerrilhas urbana e rural. Tendo o comandante procurado advogado em sua residência em Belém. Neste contexto, o advogado teve a sua licença da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) cassada, e passou a colaborar com escritórios de amigos. Ele informa em relato do período que, sempre que era anunciada a visita de alguma “autoridade” do regime ao Pará, era preso com antecedência, e liberado vários dias após o evento. Em Transtempo, espécie de autobiografia, constam os episódios, acima, entre outros.

Pachêco (2020), nas informações elencadas sobre Monteiro, recupera que na condição de advogado, ou em campanha política, o ximango registrava em gravações os relatos dos trabalhadores em suas andanças pelo interior. Nestas incursões ao longo dos anos, reuniu mais de 100 fitas k7 gravadas   e um número expressivo de fichamentos sobre a linguagem local.

O horizonte residia em coletar informações para a produção de uma dissertação sobre o falar local, e assim, pleitear uma vaga no magistério superior.  Pachêco (2020) sublinha que todo esse material foi apropriado pelos militares, e nunca foi restituído ao autor ou a sua família.  A sanha contra o saber, a educação, a democracia e o conhecimento era a palavra de ordem. Um projeto de país. Um projeto de aniquilação e obscurantismo.    

Preso, Benedicto fez da reclusão do cárcere o tempo para refletir, formatar narrativas e forjar personagens, a exemplo de Miguel dos Santos Prazeres.  Uma espécie de altergo do autor.  Privado do assento político, o alenquerense fez da literatura sobre a latitude de nascença a sua bandeira e oxigênio. O Baixo Amazonas que gerou expressivos literatos, entre eles, Inglês de Souza e José Veríssimo, estes, assim como Monteiro, em outra quadra temporal, possuem repercussão para além das fronteiras nacionais.

No diversificado rosário de relações dos vários Benedictos, há  registro de diálogos com os intelectuais da Amazônia, onde encontramos nomes como Benedito Nunes, Lúcio Flávio Pinto, Rui Paranitinga Barata, Vicente Cecim, Samuel Benchimol, Artur Cézar Ferreira Reis, Max Martins, Márcio Souza (Editora Marco Zero), entre outros.  Bem como, trocou correspondências com Nélida Piñon, prosa com Jorge Amado e Darci Ribeiro. No campo político, além de Marighela, tem-se o presidente deposto pela ditadura civil-militar, João Goulart.

Sobre a repercussão dos escritos de Benedicto mundo afora, o site da UFPA alumeia que, na Europa, suas obras despertam interesse em países como Portugal, Holanda, Itália e Alemanha, onde foram traduzidas e geradoras de inúmeros trabalhos acadêmicos. Na Alemanha sobressai a investigação do pesquisador Klaus Meyer Koeken, intitulada "Die Illusion Von oraitãt im brasilianischen Roman": "Zur Simulation realer Sprechsituationen in drei ‘mündich erzählten Lebensgeschichten ".

Já nos Estados Unidos, destaca-se o trabalho do professor Macolm Silverman da San Diego State University – Califórnia, que em livro traduzido para o português intitulado "Protesto e o novo romance brasileiro".  Benedito Nunes, professor e ensaísta paraense de reconhecimento nacional, sobre Verde Vagomundo, em texto datado de 1973, adverte: “[...] um romance que, rompendo com as limitações do regionalismo, integre, numa narrativa universalmente representativa, o mais característico e o mais peculiar tanto ao meio físico quanto ao meio cultural quanto do estado das relações humanas, inclusive sociais e políticas, duma região quase sempre desgastada pela má literatura.” 

Em breve a revista Moara/UFPA apresentará um dossiê sobre a obra de Monteiro. 

Abaixo fala de Wanda Monteiro por ocasião da exposição sobre a obra de Benedicto Monteiro, em Belém/PA. 


Links de algumas obras sobre Benedicto Monteiro 

Tese - Territorialidades de enunciações: as Amazônias na tetralogia Amazônica, de Benedicto Monteiro. Airton Souza /UFPA.  Leia AQUI

Dissertação A REPRESENTAÇÃO ALEGÓRICA DA DITADURA MILITAR EM O MINOSSAURO, DE BENEDICTO MONTEIRO: FRAGMENTAÇÃO E MONTAGEM, Maria de Fátima Nascimento. Leia AQUI

Dissertação Educação e memória na Amazônia a partir do olhar de Miguel dos Santos Prazeres, de Benedicto Monteiro, CRISTINA DIAS NOGUEIRA. Leia AQUI

Artigo -Memória e modernidade em Benedicto Monteiro e Milton Hatoum, Tânia M. Pantoja. Leia AQUI 

Artigo - A magia dos objetos na narrativa de Benedicto Monteiro, José Guilherme Castro. Leia AQUI

Projeto Biblioteca Benedicto Monteiro. Saiba mais AQUI

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Bacia do Tapajós: audiência pública discutirá gestão no dia 12, terça feira

O evento será online

Além da opção de participação presencial, as pessoas interessadas também poderão participar de forma on-line da audiência pública convocada pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) para discutir a gestão social da bacia hidrográfica do Rio Tapajós e seus recursos hídricos. O evento será realizado na próxima terça-feira (12), partir das 8h30, no auditório do MPPA em Santarém (PA). Saiba mais AQUI

terça-feira, 5 de agosto de 2025

MPF cobra do poder pública ação contra uso de agrotóxico no Planalto Santareno

O uso de veneno em monocultivos de soja afeta povos indígenas, camponeses e quilombolas. Mostra de urina dos moradores indica que todos os moradores da região foram afetados pelo agrotóxico


O Ministério Público Federal (MPF) entrou na Justiça Federal, nesta segunda-feira (4), com uma ação para obrigar a União, o estado do Pará, a Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Pará (Adepará) e o município de Santarém (PA) a elaborarem e executarem um plano emergencial para proteger as populações e o meio ambiente dos impactos da pulverização de agrotóxicos na região do Planalto Santareno.

O Planalto Santareno, localizado na região oeste do estado, fica a aproximadamente 42 km da área urbana de Santarém e é caracterizado pela expansão do agronegócio e pelo monocultivo de grãos. Na mesma região está a Terra Indígena (TI) Munduruku e Apiaká do Planalto Santareno, composta por cinco aldeias.

O objetivo central da ação é cobrar uma resposta efetiva dos órgãos públicos, com a elaboração urgente de um conjunto de normas que regulamente a atividade. O plano deve, necessariamente, estabelecer distâncias mínimas de segurança entre as áreas de aplicação de agrotóxicos e os locais onde vivem pessoas, como comunidades indígenas, quilombolas e de agricultores familiares, além de escolas, unidades de saúde e cursos d’água.

O plano ainda deve indicar coordenadores responsáveis, ações, prazos, metas e indicadores bem definidos e ter como conteúdo mínimo os seguintes itens:
  •     a identificação de todas as comunidades (indígenas, quilombolas, ribeirinhas, extrativistas e camponesas) do Planalto Santareno.
  •     o estabelecimento de distâncias mínimas de segurança entre as áreas de aplicação e núcleos populacionais (especialmente de comunidades tradicionais, como aldeias e quilombos), escolas, unidades de saúde, cursos d’água e outras áreas sensíveis.
  •      a realização de fiscalizações periódicas nos imóveis rurais que exerçam atividade agrícola na região do Planalto Santareno, sugerindo-se periodicidade mensal no primeiro ano.
  •     o monitoramento da saúde dos comunitários e dos cursos d’água, sugerindo-se periodicidade mensal no primeiro ano.
Após a aprovação do plano emergencial, o MPF pede que ele seja executado, sob supervisão judicial, e avaliado periodicamente, mediante relatórios trimestrais, até a sua conclusão por homologação judicial.

A ação é fruto de investigação que reuniu provas quanto ao risco aos quais pessoas e meio ambiente estão expostos. Um dos documentos centrais é um laudo pericial da Polícia Federal que constatou a proximidade excessiva das lavouras com as moradias. Os peritos encontraram plantações a apenas seis metros de casas na aldeia Açaizal e registraram a ausência total de barreiras de proteção, como faixas de segurança ou quebra-ventos. Imagens anexadas ao processo mostram caixas d'água comunitárias ao lado de plantações, e análises de solo revelaram a presença de três tipos de agrotóxicos: paration, alacloro e atrazina.

Omissão do poder público Segundo o procurador da República Vítor Vieira Alves, autor da ação, a omissão dos órgãos públicos é um fato incontroverso. O MPF destaca que a própria Adepará admitiu oficialmente, em 2022, que não realizava fiscalizações no Planalto Santareno por "inexistência, na legislação estadual, de critérios específicos para distâncias mínimas na pulverização terrestre". A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) chegou a reconhecer a necessidade das medidas e a elaborar minutas de normas, mas, até o momento, não as aprovou.

O MPF aponta que essa inércia ocorre apesar de o uso de agrotóxicos na região ter crescido 600%, conforme dados citados na ação. A situação levou o Conselho Indígena Munduruku e Apiaká do Planalto (Cimap) a denunciar ao MPF que o veneno é carregado para os igarapés, contaminando fontes de água e os açaizais. Os indígenas relataram o desaparecimento de diversas espécies de árvores frutíferas essenciais para sua economia e cultura, como graviola, piquiá, uxi e pupunha.

Impactos avassaladores Os danos à saúde são um dos pontos mais alarmantes citados na ação. Um estudo do projeto Institutos Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (INCT) – Observatório das Dinâmicas Socioambientais (Odisseia) revelou que 100% das análises de urina de moradores da região continham resíduos do herbicida glifosato.

Outra pesquisa, da doutora em neurociências e biologia celular e professora na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) Eliza Maria da Costa Brito Lacerda, apontou déficits na discriminação de cores entre os moradores, um indicativo precoce de efeitos neurofisiológicos.

Em depoimento ao MPF, a pesquisadora transcreveu relatos que demonstram a gravidade da exposição: “As pessoas relatam que elas sentem o cheiro dos agrotóxicos sendo aplicados. Elas sentem o sabor dos agrotóxicos quando eles estão sendo aplicados. [...] Isso é um nível de exposição extremamente alto. É como se elas estivessem tomando eles, em gotas”.

Racismo ambiental – A ação cita ainda que 70% dos entrevistados em um estudo da doutora em toxicologia e professora da Ufopa Flávia Garcez da Silva apresentavam sintomas como cefaleia, vertigem e náuseas, além de alterações laboratoriais significativas, como dislipidemias. Um exemplo do perigo é o caso da escola municipal Professora Vitalina Motta, em Belterra (PA), que teve as aulas suspensas após uma "nuvem de veneno" invadir o espaço escolar.

O MPF argumenta que essa realidade configura um quadro de "racismo ambiental", em que populações vulneráveis são desproporcionalmente expostas aos riscos, e um "verdadeiro genocídio cultural", pois a degradação força o abandono de territórios e a perda de modos de vida tradicionais.

Pedidos de reparação – Além da elaboração do plano emergencial, a ação busca a reparação pelos danos já causados. O MPF pede a condenação dos réus à implementação de um plano de recuperação de áreas degradadas (PRAD). Requer também o pagamento de indenizações por danos morais coletivos e sociais, e o reconhecimento do direito à indenização individual para os moradores das comunidades afetadas desde o ano 2000. O valor total da causa foi estimado em R$ 900 milhões.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

V Congresso da CPT celebra mártires da luta pela terra

Foto: João Palhares / Agro É Fogo



Em meio à programação do V Congresso Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), uma celebração tomou as ruas escuras do centro histórico da cidade de São Luís (MA) na noite da quarta-feira (23), o terceiro dia do encontro, fazendo memória aos mártires, defensores e defensoras da vida no campo, nas águas e nas florestas. A celebração iniciou de forma animada, com concentração na Praça Deodoro, seguida de uma caminhada em romaria e terminando no local principal do Congresso, o Instituto Estadual do Maranhão (IEMA). Leia a íntegra no site da CPT

Violência contra povos indígenas: Cimi adverte para aumento da violência em 2024

O ano de 2024 foi o primeiro a iniciar sob a vigência da Lei 14.701/2023, aprovada pelo Congresso Nacional e promulgada nos últimos dias de dezembro de 2023. A expectativa dos povos indígenas e seus aliados era de que, dada a flagrante inconstitucionalidade e o evidente conflito com a recente decisão de repercussão geral sobre o tema, a chamada “Lei do Marco Temporal” fosse rapidamente derrubada por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).  Baixe o relatório AQUI

O jornalista Alceu Castilho reflete a partida de Ariovaldo Umbelino e o silêncio da mídia corporativa

 

Foto: Alceu Castilho

O professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, do Departamento de Geografia da USP, formou várias gerações de pesquisadores em geografia agrária. A partir de uma linha teórica muito clara, que ressaltava a existência e resistência do campesinato. (Não proletários rurais. Camponeses.)
Sim, ele foi o mais importante geógrafo agrário do país, o que não é pouco em um país agrário. E um país agrário dominado por aristocracias manipuladoras e violentas. Ariovaldo não se cansava de descrever a grilagem como elemento crucial para entendermos este país.
Ele foi um teórico incisivo e decisivo, inspirado na sociologia de José de Souza Martins. E ia a campo. Correndo riscos. E ajudando os movimentos sociais a medir seus territórios. A noção de território costuma ser invisibilizada por nossas elites e era central na práxis de Ariovaldo Umbelino.
Sua morte sem referências na imprensa comercial mostra o quanto este país se tornou estúpido, o mesmo país que menciona com respeito cínico a passagem, também neste sábado, de um dos jornalistas mais inescrupulosos das últimas décadas, um golpista qualquer.
Curiosamente, eu conheci Ariovaldo Umbelino de Oliveira fazendo uma entrevista sobre imprensa e questão agrária, em 2006. Depois fui cursar Geografia e sua disciplina na pós-graduação da USP, "Agricultura e Capitalismo no Brasil", para tentar não escrever muita bobagem em meu livro "Partido da Terra".
E entrei no mestrado sob sua orientação. Cursei de novo a mesma disciplina, enquanto ele se recuperava de um AVC. Sua memória espetacular não era a mesma. Olho retrospectivamente e detecto um certo ar melancólico, alguma frustração por não ter sido realizada a reforma agrária em nosso país.
Uma das coisas que posso dizer em respeito às décadas de trabalho desse pesquisador é que o De Olho Nos Ruralistas tem na linha teórica defendida por Ariovaldo Umbelino uma de suas principais referências. Os dados — os fatos — mostram que ele sempre esteve certo.
A imprensa brasileira invisibilizou Ariovaldo durante todo esse tempo porque a ela interessa invisibilizar o território e os motivos estruturais (a grilagem, a marcha destruidora do capitalismo) da destruição dos biomas, da desigualdade e da violência no campo. Ou, em outras palavras: porque é cúmplice.
A geografia brasileira está em luto e o país deveria estar em luto.

Ariovaldo Umbelino, presente!



A notícia do falecimento do Professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, nosso Ari, Professor Titular aposentado do Depto de Geografia da FFLCH USP, ocorrida ontem, 02 de agosto, pegou a todos de surpresa e nos deixou sem voz e sem chão. Uma perda que restará inconsolável para quem o conheceu e teve a oportunidade de com ele aprender.

Ari foi vanguarda e resistência. Uma das primeiras gerações de filhos da classe operária a chegar na Universidade, como estudante nos anos 1960 e como professor nos anos 1980, tendo antes atuado como professor do ensino básico e como geógrafo no IPT, onde contribuiu para a criação de um projeto de solo-cimento que servia a baratear os custos de produção das casas da classe trabalhadora.

Coragem, firmeza e coerência eram suas qualidades mais marcantes. Ousou convencer seu orientador, Pasquale Petrone, a acompanhá-lo na construção de sua tese de doutorado construída sob o método materialista dialético, a primeira “tese marxista” da USP e do Brasil, defendida nos anos de chumbo da ditadura. 

Teve coragem para enfrentar uma banca e o anfiteatro de Geografia lotado, em uma longa defesa onde, como ele sempre recordava, parte estava para apoiá-lo e parte para ver sua derrota. 

Ele venceu, e desde então, formou gerações de estudantes com sua geografia crítica, socialmente empenhada e comprometida com a transformação da sociedade em que vivia, deixando claro que o discurso da ciência neutra não tinha lugar na sua sala de aula e que, ao contrário, a sua Geografia era feita para dar luz e voz àqueles que até então haviam sido invisibilizados pela academia: os camponeses, indígenas, quilombolas e de todos os que enfrentam a exclusão decorrente da violenta concentração fundiária do campo brasileiro. 

E esse compromisso o levou a trabalhar com a CPT durante anos, estando presente na construção dos Cadernos dos Conflitos no Campo que há décadas fornecem dados sobre a violência do latifúndio no Brasil. Era um geógrafo comprometido com seus princípios e a ciência que produzia, firme no método, militante crítico, o que o colocou em posição divergente em relação àquelas adotadas por movimentos sociais em determinados momentos da luta. Essas divergências não o abateram, ao contrário, o estimularam a consolidar a sua produção na busca por uma sociedade mais justa e socialmente solidária. 

Suas aulas, na Graduação e Pós-Graduação, encantavam pelo domínio do conteúdo e eloquência do discurso. Era possível não concordar com suas ideias e posturas, mas não com a firmeza de seus argumentos. Seus trabalhos de campo, muitos deles feitos para a Amazônia com dias de duração, eram oportunidades ímpares de um contato com o Brasil real e de muito aprendizado para todos os que puderam deles participar. 

Na USP, e nas universidades por onde passou após sua aposentadoria, auxiliando na democratização da Pós-Graduação, formou milhares de estudantes. Criou o SINGA, simpósio que hoje caminha sozinho com seus 22 anos de existência, cujos 20 anos foram comemorados em 2023 no DG, a casa onde ele nasceu, o que o encheu de orgulho. 

Na Pós-Graduação orientou, como se orgulhava sempre de dizer, mais de 100 estudantes entre Mestres e Doutores, exclusas as supervisões de pós-doutoramento, o que certamente faz com que seus ensinamentos estejam espalhados por muitos lugares neste país. 

Um orientador preciso, que nos estimulava a caminhar com autonomia e liberdade para ousar e que com poucas palavras nos fazia ver além do que estava diante a nós. Como sua última orientanda de doutorado disse em uma aula, “um homem de poucas palavras e muitas ações”. 

Deixou uma produção científica densa e de peso e contribuições para o estudo da Geografia Agrária e das ciências humanas no geral que permanecerão ao longo do tempo. Sentiremos muita falta de sua risada farta e de suas ponderações precisas, por vezes intransigentes, mas seu legado permanecerá vivo conosco e seguirá sendo transmitido para as gerações futuras. 

Ari querido, o Agrária seguirá mais triste, mas você seguirá presente em nossos corações e práxis.

Veja interpretações sobre o agrário nacional AQUI

Ari, Presente!

 

Marta Inez Medeiros Marques 

Valéria de Marcos

quinta-feira, 24 de julho de 2025

50 anos da CPT: Infelizmente a CPT ainda existe

Roberto Malvezzi (Gogó)

21 de julho de 2025


Em São Luiz do Maranhão, a CPT celebra seus 50 anos, em forma de um Congresso. Um grande número de agentes pastorais e trabalhadore(a)s vão debater as origens, o presente e o futuro da CPT.

Nascida no contexto do Regime Militar, 1975, quando as empresas começaram invadir a Amazônia, logo se espalhou pelo Brasil, chegando aqui no São Francisco em 1976, quando era construída a barragem de Sobradinho, deslocando 4 cidades e 72 mil pessoas.

Na raiz da CPT estão pessoas como Pedro Casaldáliga, Thomas Balduino. Vivos ainda estão Ivo Poletto e Ranulfo Peloso. Suponho que eles tenham sido convidados para o Congresso, já que são a memória viva de um “kairós” que não se repete todo dia na história.

Outro dia conversava com meu compadre Ruben Siqueira e falávamos da importância das CPT em nossas vidas. Foi um presente de Deus participar por tantas décadas dessa pastoral, continuando agora voluntariamente, ainda que mais na retaguarda, colaborando na formação aqui na CPT de Juazeiro da Bahia e na equipe da própria Bahia. Essa história pessoal mudou nossas vidas, nos deu um sentido outro do que seja pastoral, do que seja o evangelho, do que significa ser discípulos (mesmo com tantas falhas) de Jesus de Nazaré.

Hoje há muitas mudanças. Aquela pastoral que nasceu para servir aos agredidos pelo capital no campo, hoje tem que enfrentar as questões de gênero, de “raça”, ambientais, além das questões fundiárias. Ela que nasceu do impulso profético desses homens e mulheres únicos na história, agora experimenta a perda de seus precursores de origem, temos uma nova geração de agentes. Hoje temos poucos padres, religiosas, leigos e bispos com a disposição de colocar suas vidas em risco para servir aos injustiçados do campo.

Além desses fatores, hoje há muitos movimentos sociais no campo, como o MST, MAB, MPA, movimentos agroecológicos e o próprio sindicalismo rural. De alguma forma, dão respostas a muitos desses problemas do campo que antes estavam sob a responsabilidade da CPT.

Por outro lado, hoje o capital do campo é transnacional, ligado ao nacional, como as mineradoras, as empresas solares, eólicas e a expansão violenta do agronegócio nas terras públicas, territórios indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais.

Além de menos agentes, há menos recursos financeiros, o que torna precário muitas vezes o trabalho das equipes. Nesse momento da história, há um corte violento nos recursos das equipes por todo o Brasil.

Infelizmente a CPT ainda existe, porque se houvesse justiça no campo do Brasil ela não precisaria existir. Por outro lado, felizmente ela existe, porque a situação do campo ainda demanda a presença da CPT. Então, que ela exista enquanto for necessária.


domingo, 20 de julho de 2025

Curso de Geografia da UNB promove vivência na Amazônia

As atividades ocorrem entre os dias 18 de julho a 10 de agosto nos estados do Pará, Amazonas e Roraima

 

Saída da comitiva de Brasília, dia 18 de julho. 

Perto de 40 pessoas entre estudantes e professores do curso de Geografia da Universidade de Brasília (Unb) ficarão três semanas conhecendo parte da diversidade de três estados amazônicos, onde constam na agenda o Pará, Amazonas e Roraima. 

Trata-se do projeto Vivência Amazônica, organizado pelo Projeto de Extensão vinculado ao Núcleo de Estudos Amazônicos (Neaz), sob a coordenação do professor Manuel Pereira de Andrade.

A saída de Brasília ocorreu no dia 18 de julho, a previsão do encerramento é o dia 10 de agosto.  A comitiva aporta na cidade de Santarém na noite do dia 20, domingo.  O grupo  saiu de Brasília um dia depois da Câmara aprovar a PL da Devastação, o Projeto de Lei 2.159/2021. 

Trata-se da décima versão do projeto, que iniciou no ano de 2016. A ideia é possibilitar aos discentes a convivência com indígenas, quilombolas, extrativistas, agricultores/as familiares e camponeses.

Os/as estudantes terão a oportunidade de realizar algumas atividades acadêmicas e de extensão em uma parceria entre o Núcleo de Estudos Amazônicos (NEAz/CEAM/UnB) e o Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Fronteiras (PPGSOF) da Universidade Federal de Roraima (UFRR), no período de 28 de julho a 2 de agosto.

Roteiro da Vivência Amazônica

Nestes eventos o Neaz  apresentará alguns dos trabalhos realizados durante a disciplina “Tópicos Especiais sobre a Amazônia” e pelo projeto de extensão Vivência Amazônica.

O mesmo núcleo é responsável pela realização do Fórum Internacional sobre a Amazônia, que este ano ocorreu no mês de junho. Saiba mais sobre o FIA AQUI

 

Mais informações

Professor Manuel Pereira 61 98131-9813

Jean Muller – 61 98347 1138 (discente)

Jabuti acadêmico: obra que retrata saga de extrativistas assassinados no Pará é semifinalista do Jabuti

O professor  da UFBA, Felipe Milanez, assina a obra Lutar com a floresta, publicada pela Editora Elefante



José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foram assassinados em uma manhã do dia 24 maio de 2011, no município de Nova Ipixuna, sudeste do Pará. Região imortalizada onde mais se mata em disputas pela terra no Brasil.

Quando do anuncio do caso na Câmara Federal, a bancada ruralista festejou como se fosse uma final de campeonato. O mesmo Legislativo que acaba de passar a boiada sobre o licenciamento ambiental no ano em que a Amazônia sedia a COP. 

Como outros casos de execução de dirigentes sindicais, ambientalistas e defensores de direitos humanos, todos sabiam, até os carrapatos dos bois das terras griladas.

O nome do casal constava em lista de pessoas ameaçadas de morte,  a cada ano divulgada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). Nada foi feito.  José Cláudio chegou a denunciar as ameaças que o casal vinha sofrendo durante o evento Red Amazônia, realizado em Manaus, meses antes da tocaia.

Os extrativistas moravam no Projeto de Assentamento Agroextrativsita (PAE) Praialta Piranheira.  No contexto das contradições das disputas pela terra, o sul e o sudeste do Pará contabilizam um pouco mais de 500 projetos de assentamentos da reforma agrária (PAs).

Maria do Espírito Santo e José Cláudio. Foto: Felipe Milanez


O Praialta Piranheira é o único projeto com esse viés ambientalista. Até a criação do PAE os moradores contaram com a mediação de inúmeros sujeitos do campo democrático, onde constam frações da Igreja Católica, a exemplo da CPT, UFPA, Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), ONGs, partidos políticos, Conselho Nacional dos Seringueiros, entre outros sujeitos.  

Por longo tempo o Laboratório Socioambiental do Araguaia-Tocantins (LASAT) prestou assessoria com relação ao manejo florestal de base comunitária.  Na época o Lasat era vinculado a UFPA. Com relação ao manejo florestal de base comunitária, um conjunto de instituições propõe há mais de dez anos a efetivação de uma política estadual.  Saiba mais AQUI

A obra – o jornalista, documentarista e sociólogo Felipe Milanez assina a obra Lutar com a floresta, lançando em maio de 2024, pela Editora Efefante.

Ela resulta de trabalho de doutoramento realizado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, sob a orientação de um time de primeira linha, onde constam o economista Martinez Alier (Universidade Autônoma de Barcelona), a historiadora ambiental Stefania Barca (à época Universidade Coimbra) e o antropólogo Alf Hornborg (Universidade de Lund), em 2015.

O professor da Universidade Federal da Bahia esclarece que não se trata de uma biografia ou trabalho etnográfico. Mas, sim de um esforço em dialogar com as ideais do casal em defesa da floresta e a mobilização em um projeto para além das fronteiras do Antropoceno.

Sob a inspiração do sociólogo José de Souza Martins, Milanez sintetiza na apresentação do livro que “Não se trata apenas de um estudo de caso, mas também de um estudo a partir de um caso, uma investigação que utiliza um caso crucial enquanto analisador-revelador das contradições da sociedade capitalista”.

Com vistas a manter acesa a luta do casal, as famílias dos extrativistas criaram um instituto em defesa da memória dos mártires. Entre outras atividades, todo mês de maio a instituição realiza a Romaria dos Mártires da Floresta.  Ano passado Milanez lançou o livro em Marabá.

O livro de Felipe Milanez para além de iluminar sobre o martírio de José e Maria, a inoperância do estado em garantir a vida dos extrativistas, alerta para a possibilidade da construção de um projeto para além da apropriação privadas das riquezas e dos saberes da região.

O livro ombreia outras contribuições que buscam a edificação de um diálogo marcado pela horizontalidade entre os sujeitos e os diferentes saberes.


Adquira o livro AQUI

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Almeirim – por entre grilagem de terras, grandes projetos e o queijo manteiga


Rogerio Almeida


Relampeou mais de milhão antes da precipitação da tempestade. Eu sei que é julho, contudo, ainda chove. Águas grandes a arrebentarem os diques de olhos cansados. Agitado riomar Amazonas nos beirais de Almeirim, que soa menos quente que Santarém, Baixo Amazonas paraense.  

Miniaturas de madeira de tucunaré, pirarucu, tambaqui, acari e arraia estão expostos em um logradouro dedicado à produção artesanal e comida à beira do rio. O poder público o denomina de espaço gastronômico.   

Em ligeiro dedo de prosa com o artesão de carpintaria, ele explica que são estes os principais peixes no município, tanto no rio Amazonas, quanto no Paru e no Jari. É o derradeiro que aparta o Pará do Amapá.  Uma geografia de grilagens de terras, grandes projetos, conflitos e outras dinâmicas.

Apesar dos indicadores do IBGE sinalizarem para a hegemonia de pessoas negras e pardas na composição racial do município, a gestora é uma senhora abastada de pele clara oriunda do Monte Dourado, a cidade industrial do Projeto Jari. O distrito é uma cria dos militares anos de 1960.

Os educadores das escolas básicas apontam que o racismo é a questão mais delicada no cotidiano da educação. Chame o Benedito, santo padroeiro da cidade, a rivalizar a hegemonia com Nossa Senhora da Conceição. A igreja do santo preto é bem ajambrada.

À beira do rio negocia-se de tudo: queijo, camarão regional, muitas frutas e farinha. Cinco contos o litro da baguda. 

A baguda é tida como a modalidade mais bruta. A mais bruta é o meu xodó. Minha preferida para o desjejum com ovo ou o que deixou de ser consumido no dia anterior.

Negocia-se de tudo à beira do rio: frutas, búfalos, saudades, distâncias, tristezas e alegrias. O meio fio da avenida principal da cidade está caiado em tons pátrios: verde e amarelo. Tá tudo desbotado.

Comercio de farinha na orla de Almeirim. 
À beira do rio em dia de sol, uma nau carrega um rebanho  bubalino. Terá nexo com a abundante negociação do queijo à beira do rio?? O queijo manteiga e o coalho são os principais tipos.

Os carrinhos estão sempre ali à espreita da embarcação que se aproxima do cais. 50 contos o quilo. Contudo, os comerciantes negociam pedaços em sacos menores.

À beira dos rios Amazonas, Paru e Jari correm naus de todos os tamanhos, colorações e fins. Impossível avistar a outra margem do rio. Amarelo barro. Amarelo barro de gente. 

À beira do rio não encontrei pedintes. Rareia pés inchados. Um aqui, outro ali. Uma trupe de coroas disputa um bilhar. Crianças, jovens e adultos a andar, correr e pescar. Todas as ladeiras levam à beira do rio.

Longe demais das capitais, teatros, palácios e catedrais, o município dista quase mil quilômetros de Belém. Viagem para mais de dia. E quase sete mil quilômetros de sua homônima em Portugal. Tanto mar, tanto riomar...

Almeirim é homônimo de Portugal. Política colonial de Pombal para controle territorial. Tal ferro em brasa em coro do gado. Braço forte da coroa portuguesa, Pombal nomeou o mano como governador do Grão Pará e Maranhão, Mendonça Furtado.

O cabra danou-se a nomear no Maranhão, Pará e Amazonas vilas com nomes de cidades de Portugal. Assim brotaram Boim, Alter do Chão, Santarém, Alenquer, Aveiro, Faro, Monte Alegre, Bragança, São Caetano de Odivelas e tantas outras.

35, 36 mil pessoas é a população estimada da cidade. Transporte coletivo inexiste. O cavalo ferro é o principal meio de transporte. Moto de tudo que é tamanho e jeito. Capacete é luxo. Assim como a habilitação. Carrega-se toda a família. Avistei quatro pessoas em único veículo.   

Carrega-se de tudo: antena parabólica, isopor, sacos de gelo, bicicletas e o escambau a quatro. Há método para carregar algumas coisas na moto em Almeirim. O carona fica de costas para o condutor, e isso facilita que a pessoa que vai na garupa segure qualquer tipo de quinquilharia.

Desprovido de saneamento básico, coleta regular de lixo e aterro sanitário, fala-se quase nada sobre a COP no município, que em breve abrigará uma usina termoelétrica. Interesses capitais.

Bala com bala. O município integra a rota internacional de tráfico de drogas. Em janeiro policiais trocaram tiros com policiais. Trocando em miúdos, uma equipe fazia escolta para os traficantes que perderam perto de 200 quilos de entorpecentes.

Reportagens da época dão conta que a droga era transportada no barco-geleira Princesa Joanny. Nele  foram encontrados documentos de Joseldo Rodrigues dos Santos. A escolta das drogas era composta pelos agentes públicos: Sindeval Santos Miranda, 1º sargento da Polícia Militar do Pará (PMPA) aposentado; Valter Santos de Miranda, do Corpo de Bombeiros e Fernando Guilherme Lorenz Pereira, investigador da Polícia Civil do Pará. Até onde se sabe, todos ainda estão presos em Belém.

Empate do Jari - Ainda chove. Faz 10 anos que visitei o município. A missão residia em conhecer e reportar um empate realizado na comunidade de Pilões. Para quem não sabe, empate é uma tecnologia social forjada pelos seringueiros e seringueiras dos varadouros do Acre.

Tralhas dos extrativistas na comunidade de Pilões quando da realização do empate em 2014. Foto: Rogerio Almeida

Trata-se de evento de remotas eras do século passado, quando Chico Mendes ainda por cá respirava, antes de ser tombado pela sanha de grileiros. Um deles refugiado no estado do Pará, em Medicilândia, a chefiar um partido da extrema direita, PL. Trata-se de Darci Alves Pereira. “O império da lei há de chegar no coração do Pará”, ah Caetano....

Uma ironia, posto o nome da cidade representar uma referência ao mais sanguinário ditador do Brasil, Emilio Garrastazu Médici. Em diferentes contextos, tanto o momento histórico pombalino, quanto o militar priorizaram eternizar os seus, territorialmente. Construção de sentidos capitais.

O empate consistia em formar uma parede humana com vistas a evitar a destruição da floresta. O empate no Jari foi realizado às vésperas do natal de 2014.

A tática da empresa Jari era otimizar o período e se apossar de um castanhal do povo na quadra natalina na comunidade de Pilões. Naquela época, o grupo paulista Orsa controlava a iniciativa. O grupo tem como expediente vender a estampa de ambientalmente responsável e outras milongas do marketing verde.

A missão foi dada a trabalhadores terceirizados, que foram carregados por três ônibus. A população tomou conhecimento da operação da empresa e empreendeu a ação de r-existência e defesa territorial.

Não houve violência entre as partes envolvidas. Extrativistas e trabalhadores comungaram o nascimento de Jesus. Os ministérios públicos realizaram a mediação das refregas.

Uma década vencida, o castanhal continua de pé. Os moradores forjaram uma associação e buscam verticalizar a produção das riquezas da região, e assim incrementar a renda. O caso ganhou notoriedade nacional.

O horizonte da comunidade é a efetivação de um projeto de assentamento agroextrativista. Uma árdua tarefa sempre marcada pela morosidade das instituições públicas.

Situação equivalente ocorre em Santarém com relação ao PAE (Projetode Assentamento Agroextrativista) Lago Grande, onde a tensão é com a mineradora Alcoa, que extrai bauxita há 20 anos no município Juruti e exploradores ilegais de madeira.

O serviço de internet já alcançou a comunidade de Pilões. A comunidade vizinha aderiu à bandeira agroextrativista. Como é de praxe nestas tensões, a pessoa ou o grupo que exerce a linha de frente é perseguida pela grande corporação. No Pará a Vale processa mais de 100 pessoas por reivindicarem direitos e por pelejarem em defesa dos seus territórios.

A grilagem de terras no Jari – remete ao século XIX a presença do cearense Júlio de Andrade na região do Jari, que tomou na mão grande mais de 3 milhões de hectares nos estados do Pará e Amapá.

O pontapé inicial do crime sucedeu quando o sogro Manuel Maia da Silva Neno concedeu os primeiros títulos de propriedade. Após sucessivos conchavos com políticos, o coronel foi alçado à categoria de Czar da região, o rei das plagas de Mazagão/AP à Almeirim/PA.

Um crasso exemplo que conforma a formação do Brasil, onde as fronteiras do público e do privado, lícito e ilícito são sobrepostas em negociatas de alcova entre frações de classe. Ao melhor estilo da parte majoritária do nosso Congresso. Em terras paraenses, até a esposa do pastor agora tem dia a ser celebrado com as bençãos do Barbalho. Ah, está terra ainda de cumprir seu ideal...

A área apossada pelo político Andrade era maior que o território do estado de Sergipe, umas quatro vezes o território do Distrito Federal e maior que a Bélgica.

O coronel, nascido em São Francisco de Uruburetama/CE, tornou-se político (senador) e comprou o título de coronel junto à Guarda Nacional.  

A desgraça dos extrativistas fez a fortuna do coronel, que além de proprietários de terra,  embarcações e gado, negociava castanha, borracha, balata, andiroba, coro de onça, coro de bicho, coro de gente, entre outras riquezas naturais.

O tempo era do boom da economia gomífera. O aviamento encarnava a ferramenta de escravização por dívida dos extrativistas. É famosa a máxima de Euclides da Cunha, em que vaticina: "o seringueiro é um homem que trabalha para escravizar-se”.

Em artigo sobre a questão, o professor Márcio Meira (2018) esclarece que o aviamento estabelecia um vínculo de dívida entre o aviado e o aviador, o freguês e o patrão, este último definindo unilateralmente os preços tanto das mercadorias que “vendia” quanto dos produtos que “comprava”.

Este aspecto econômico e político, a constituição de uma dívida impossível de ser paga, forjou o surgimento de elites “brancas” que exerciam total controle e dominação da sua rede de fregueses ou aviados, esclarece o professor.  

Em síntese, o extrativista encontrava-se na base da pirâmide na produção de excedente de riqueza da economia baseada no extrativismo. Nela constavam o aviador no município, que pegava recursos do aviador da região, que pegava recursos de casas de aviar da capital do estado, que negociava com comerciantes dos principais centros econômicos de outras regiões mais desenvolvidas do país, que pegavam recursos de bancos nacionais e internacionais.

Teatros, palácios, rico casario colonial e catedrais de Belém e Manaus estão encharcados de sangue de nativos e migrantes. Em particular, nordestinos.  O extrativista era vampirizado por todos. Ainda assim, os que escapavam de bala, de bicho ou de malária batiam coxa em forrós.

No caso de Almeirim, sucedeu a exploração da balata, como recupera o cordel de Raimundo Benedito da Silva, Os Balateiros republicado em 2016 pelo projeto de extensão da UFOPA, do curso de Antropologia. Uma iniciativa da professora Luciana Carvalho.

No livreto de literatura de cordel, o autor enfileira inúmeras casas de aviamento do município, onde constam a Casa Aurora, controlada por Alexandre Ferreira, a Casa São Sebastião de propriedade do libanês Ofir Farah Sadala, a Casa Preferida, da família Nilo Costa e Irmãos. Assim como em Alenquer, tem-se ainda a parentela da família Gantus em Almeirim.  

Capa do livreto de cordel de Raimundo da Silva
Silva festeja os parceiros, onde destaca entre os celebres balateiros Zé do Pau, Moraeszinho, Duca Moraes, Petilique, Periquito, Zé Máximo craques das matas, corredeiras e de evitar onças.

No tempo do império do rádio de pilha, a festa da Anacleta era o oásis após a extenuante labuta. Em tempos de arraial um conjunto de Monte Alegre fazia as honras. Silva escala o escrete Beiço de Burro no Sax, Peixe Boi na bateria, enquanto Zé Pererê mandava no Banjo, e Candeeiro atacava no pandeiro.

Quase ao fim do livreto, Silva advoga: “Recorremos ao passado/Aonde fomos buscar/Inéditas informações/Muito rica e popular/Única fonte segura/Não podemos duvidar/De nossos conhecimentos/Outro não poder dar. Sobre a temática de oligarquias e o aviamento já é considerado um clássico a obra da professora Marília Emmi, A Oligarquia dos Castanhais

Em terras do Jari a grilagem é um novelo que desconhece fim. A terra grilada pelo coronel Andrade será repassada para um grupo português, que em seguida, será concedida para o multimilionário estadunidense Daniel Ludwig. Uma política entreguista dos militares. 

Ele promoverá um dos maiores desmatamentos na Amazônia, para a implantação de monocultivos, cujo objetivo era a produção de celulose. Uma festa do agrotóxico. Em uma verdadeira epopeia, uma planta industrial será transportada do Japão até o sertão amazônico.

A ditadura empresarial-militar empreendeu todo tipo esforço para facilitar a presença do grande capital na região: concessão de terras, financiamento, renúncia fiscal e por aí vai. Um mar sem fim de benesses que a sociedade nacional socializa os custos.   

O distrito de Monte Dourado, separado do Amapá pelo rio Jari, foi a cidade industrial erguida pela empresa. Um recurso de controle da vida laboral e ociosa do empregado. Tudo era proibido, ao contrário do que ocorria em Laranjal do Jari, no Amapá. A babilônia.  Henri Ford havia inaugurado a tecnologia da cidade industrial nos anos 1930/1940 na fronteira de Itaituba com Aveiro. 

O jornalista Lúcio Flávio Pinto assina um livro sobre o assunto. O autor declara que é o melhor que realizou, posto ter contado com uma bolsa de uma universidade estrangeira, onde também lecionou.

Passado um mundaréu de tempo, não há nada de novo no front além de projeto com a mesma estampa, onde predomina a pilhagem, que a tudo fagocita e converte em mercadoria, até o riso da tapuia após a vitória do Garantido no festival.

A viagem – Santarém. 5h. Dia 30 de junho. As águas ainda estão grandes. O estado do Amazonas contabiliza os desabrigados. O destino é Almeirim. O deslocamento entre Santarém até lá de ferry boat, ou uma embarcação convencional costuma durar umas 20 horas. Em viagem de lancha, a jornada cai para seis ou sete horas.   

Carrego uns livros no embornal, onde destaco a obra A educação ambiental anticapitalista de Henrique Novaes, editado pela Boitempo.  Um socorro para as lonjuras da viagem na lancha Gold Star. 

Cento e tantos assentos é a capacidade. Na manhã do dia 15 de julho a embarcação sofreu um sinistro quando passava por manutenção. Um operação com soldas. Após incêndio na orla de Santarém, ela explodiu.  

A lancha oferece serviço de bordo, café, almoço e água são negociados. É vedada a venda de cerveja.  O serviço de internet custa R$50,00, apesar da passagem ser mais de R$300, enquanto na embarcação convencional ou ferry boat o preço cai pela metade. No ferry é permitido a venda de cerveja.

Monte Alegre foi a primeira parada. Em seguida  Prainha, até alcançar Almeirim antes do meio dia. Macapá é o destino final, em Santana. Faz sol. No porto de Almeirim um senhor negociava um queijo denominado de manteiga. Uma criança passou parte da viagem a lembrar os pais que desejava comprar um bom naco da iguaria.

Santarém/PA, Vila do Conde/PA, Itaituba/PA, Santana/AP, Itacotiara/AM, São Luís/MA integram o projeto Arco Norte, que visa consolidar a região como um corredor de exportação de commodities. Nada mais, nada menos que o atual governador do estado do São Paulo operou como consultor, tendo na retaguarda a nata do barroco nacional viciada em privilégios e patrimonialismo.  

Um técnico da Adepará informa que há pelo uns três pedidos de certificação de queijo. Um outro da Emater não sabe precisar a quantidade da produção do queijo, e nem o número exato do rebanho de búfalo, estimado em 50 mil cabeças. É desconhecido se a produção é oriunda do pequeno, médio ou o grande produtor.

Venda de queijo na orla da cidade de Almeirim. 

Barco da Fazenda Dom Bosco. Orla de Almeirim. 

Um técnico de uma instituição de assessoria rural do estado esclarece que os custos de levantamento de dados é elevado. E que seria necessário a criação de uma espécie de consórcio para realizar o trabalho. No município, a Ufopa oferta os cursos de Direito, Geografia e Engenharia Civil.  

O servidor público defende que o queijo de Almeirim é melhor do que o produzido na região do Marajó. Este já certificado e com registro de localização geográfica, reconhecido nacionalmente, comercializado em supermercados e casas do gênero. Além de incorporado ao universo gourmet, como outras iguarias amazônicas, aos moldes do açaí, cupuaçu, pirarucu e a pupunha.

A cadeia produtiva do queijo encarna uma possibilidade de desenvolvimento para o município?

Na orla um carrinho de mão fazia o papel de banca. Não consegui verificar o valor. A gente não dormiu por conta do horário de saída da embarcação de Santarém, 5h, o que implicava em levantar as 3h. Missão antecipada em uma hora por conta de um incidente doméstíco: o nosso cão vitimou um felino. Tomar o corpo da vítima do cão tomou um bom tempo. Missão quase impossível.

A embarcação de ida era confortável. As poltronas denotavam pouco uso e eram largas.   A lotação não estava completa, o que possibilitou o uso da poltrona vazia, leitura e mesmo uso de computador.  

Já a volta foi um suco de puro aperreio.  O embarque ocorreu as 11h.  O que impedia a realização da refeição. Pelo fato de a embarcação vir de Santana/AP, já estava lotada. A lancha era menor e com maior tempo de uso. 

Em outras palavras, uma festa de desconforto. Poltronas surradas e acanhadas. O que promovia dores nas costas.  Em alguns momentos era recorrente várias pessoas ficarem em pé no corredor por conta da péssima qualidade do assento.

A venda duplicada de assentos foi outro dissabor. Em todos os pontos de parada ocorreram rusgas entre passageiros e a tripulação. Cada parada dura menos cinco minutos. O embarque em Almeirim foi um desafio.

Coincidiu de a lancha e uma embarcação de uns três andares chegarem no mesmo momento. O que quase impediu o nosso embarque. Além de passageiros, afrontam a cidadela toda ordem de vendedores. Em particular, os negociantes de queijo.   

Nestes tempos, as águas grandes exigem do condutor da embarcação grande habilidade, por conta dos troncos de madeira que são arrancados pela força das águas do Amazonas. Amarelo barro. Amarelo barro de gente.

Em tempos de COP, o setor ambiental do estado acaba de autorizar a construção de uma usina termoelétrica no município. Será movida a gás. Mas, aí já são outros quinhentos. Outros dedos de prosa.

Rogerio Almeida- anima o blog, é professor da UFOPA, é pós doutorando da UFSC, com orientação do professor Marcos Montysuma.