quinta-feira, 22 de agosto de 2024
Ovo gelado
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 8/22/2024 10:24:00 PM 0 comentários
Doutor Honoris: Ufopa concede título ao alenquerense Benedicto Monteiro
O Conselho Superior da UFOPA
(Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em reunião no dia 21, ontem,
decidiu em conceder o título de doutor honoris a Benedicto Monteiro. Ele foi advogado,
político, gestor público, jornalista, professor, abnegado defensor de democracia
e dos direitos humanos.
Vivo fosse, Bené, com era tratado
pelos mais próximos, somaria 100 anos. Ao longo do ano, o defensor de posseiro
tem sido pauta de homenagens, republicação de parte de sua obra, palestras e
webinários em diferentes partes do país. A exemplo da agenda na Feira
Panamazônica do Livro, em Belém, no dia 24, a partir das 19h. Wanda Monteiro,
poeta e filha de Benedicto será a palestrante.
A iniciativa da chancela partiu do
curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional (Santarém e Alenquer), graduação
vinculada ao Instituto de Ciências da Sociedade (ICS), que também endossou a
comenda em reunião de seu conselho.
A turma do curso de Alenquer, cidade
natal do escritor, vem realizando inúmeros eventos em favor da publicização
sobre a obra do autor. A Câmara de vereadores fez uma moção de aplausos sob a
iniciativa do vereador e aluno do curso de Gestão, Luiz Alberto Freire.
Obra
A Terceira Margem integra o que
ficou consagrado como a tetralogia (Verde Vagomundo, Minossauro e Aquele Um) do
autor ximango (alenquerense), Benedicto Wilfred Monteiro, nascido no dia 29 de fevereiro de 1924 nas
paragens de Alenquer, no Baixo Amazonas, ou oeste paraense.
Por se tratar de um ano bissexto o registro de nascimento consta como nascido no dia 01 de março. Decisão tomada pelos pais Ludgero Burlamaqui Monteiro e Heribertina Batista
Monteiro.
Bené foi um homem múltiplo. Colheu na oralidade/sabença do universo da várzea de sua terra natal,
por entre furos, paranás, igapós e rios, a seiva que servirá de nutriente de
sua obra. Como salienta o professor Darci Ribeiro, Monteiro apresenta ao mundo
a civilização da várzea, as suas tramas, dramas, contradições e possibilidades.
Abílio Pacheco, professor da Universidade
Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), em Marabá, assina uma tese sobre
a obra de Benedicto. O trabalho foi realizado na Universidade de Campinas (Unicamp). O professor tem feito par com Wanda Monteiro em
palestras e seminários. A tese pode ser
acessada AQUI.
Acesse o documento que serviu de base para o título de doutor honoris AQUI
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 8/22/2024 04:48:00 PM 0 comentários
domingo, 4 de agosto de 2024
Frashdance TF: Terra Firme ambienta longa-metragem do jornalista e diretor Ismael Machado.
A atriz e diretora de teatro Vlad Cunha assina roteiro em parceria com Machado. Frashdance foi o único projeto paraense aprovado no edital de 2022 da Ancine.
Único projeto paraense aprovado no Edital Ancine 2022 Novos Realizadores, o longa-metragem de ficção Flashdance TF iniciou as filmagens no fim do mês passado, em Belém. O filme é uma realização da produtora paraense Floresta Urbana e tem filmagens previstas por todo o mês de agosto, com locações no bairro da Terra Firme e centro da capital.
Com direção de Ismael Machado e
roteiro dele em parceria com Vlad Cunha, o filme tem uma peculiaridade. Praticamente
todos os atores e atrizes são oriundos do bairro da Terra Firme. A preparação
do elenco ficou a cargo de Cláudio Barros. Um número significativo da equipe
técnica também é do mesmo bairro.
A história do filme se passa um ano
depois de uma noite de chacina que dizimou 15 pessoas no bairro da Terra Firme.
Uma das vítimas foi o pai dos personagens Greyce e JP. O casal de irmãos forma
um minigrupo de dança, ‘agenciado’ informalmente por um amigo chamado Pato. O
trio se divide entre ensaios e a luta pela sobrevivência no cenário de pobreza
que é o cotidiano de cada um.
A dupla irmã costuma se apresentar no
bairro fazendo ‘street dance’. Sem jeito para dança, Pato atua como um
empresário informal da dupla. É um jovem que vive de pequenos ‘expedientes’,
malandro, que se dá bem com todo mundo, mas é enrolado e vive no limite entre a
legalidade e a marginalidade.
No dia do ato em protesto pela impunidade da
chacina, o grupo fica sabendo que foi selecionado num concurso de dança
contemporânea no imponente Teatro da Paz. No mesmo dia, Pato testemunha uma
espécie de ‘sequestro’ de um amigo seu, Colorau. Pato filma a cena com seu
celular, e depois que o corpo do amigo é encontrado num matagal, sem pensar nas
consequências, compartilha o vídeo da última vez em que Colorau foi visto,
colocando a própria vida em risco.
O edital Ancine Novos Realizadores
2022 foi um certame nacional, envolvendo produtoras audiovisuais de todos os
quadrantes. Apenas seis projetos da Região Norte foram selecionados. Flashdance
TF foi o único paraense incluído na lista.
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 8/04/2024 09:13:00 AM 0 comentários
Búfalo antigo, livro de Charles Trocate encarna um contrato em favor da utopia
Lançado pela Mezanino Editorial, Búfalo antigo é a oitava cria da lavra de errâncias do pensador do front amazônico. Em primeira mão o poeta apresenta as suas armas e acende a fogueira de indignações e furor diante da encruza civilizatória
Charles Trocate é caboclo Amazônida, nascido e criado nas transitoriedades do Pará, e nosso intelectual corre-mundo como escreveu o professor Paulo Nunes em texto de orelha do livro em questão. Em poesia é sua oitava aparição desde que decidiu escrever para driblar a miséria que confrontava sua adolescência. Nas últimas duas décadas transformou-se em militante político e escritor, e escritor e militante político, pelo último livro que agora vem a público é fácil perceber que não se rendeu em nenhuma das frentes, alterando de maneira permanente estes lugares que escolheu para viver e imaginar.. A seguir, um dedo de prosa com o autor.
Blog furo: Em que consiste Búfalo Antigo – ou Gabriel e outras orquídeas no bolso?
CT: : É um livro que levei alguns dias para escrevê-lo, e foi a demora necessária sem a qual, não teria êxito algum. Pude com esta paciência captar as confrontações da linguagem, e no transmudo assumir estas escolhas rítmicas que me alegra pelo resultado. Diria que ele é o imitável do que se move na floresta sonora – não tem compromisso só com a palavra bem escrita, mas com a extinção que ela provoca quando se externaliza na mercadoria, ‘sobretudo mercadorias privadas’, dos efeitos subjetivos que cria – ou mesmo quando se personifica no sujeito oculto, mas do que socializa a circunstância. Ainda posso afirmar que é o livro de como percebo a lâmina da faca e a carne que ela corta tentando me opor ao esmeril em sono sonâmbulo.
Blog
Furo: “Me opor ao esmeril em sono sonambulo” como metáfora, isso se traduz em
que?
CT: Vamos lá, “Búfalo- Antigo” é um poema só, assinado em lugares e datas diferentes e sem cabeçalhos, quer dizer, sem títulos, começa com a seguinte construção – “em todo caso sei espantar a mosca, torcer a roupa que o corpo inventa”... e conclui, “e o charque repõe divisas nas preciosas pedras de amolar canivetes”. Isto para mim é o que pode fazer a poesia sobre este fatídico indivíduo que assimilamos e deve estar no centro das linguagens para libertar os entreatos da cooperação, ou ainda, renomear as coisas em equilíbro com a economia, a natureza e a sociedade, não pode ser texto para prazeres extra questões, só assim se tencionará para não ser escrita acessório à cata ventos.
Blog Furo: Pensando aqui o livro que nos apresenta como “floresta sonora”, pode precisar este movimento da floresta?
CT: Este é um livro também “animista”, parte desta compreensão de que minha vida se sofistica com a dos outros animais nunca ao contrário, e é arte também a forma de percebê-la, nas outras vidas que tornamos moribunda e a expressão disso é a floresta, úmida, cultural, diversa. De certa forma, o livro se sobressai como protesto por esta “forma de matar, e por este jeito de morrer”, por este equívoco imperativo, de que podemos, mas que as outras vidas, no fundo, estamos eletrificados por esta perspectiva, e subverter isso pressupõem alterarmos o currículo da nossa forma de ser. Quando escrevo “eu beijei um a um membro efetivo da canga mineral, são os animais que bestializamos e tornamos sal e estrume esquecidos dentro do objeto industrial”, não é só a adesão solitária do indivíduo mimico, ou a comoção do eu lírico, é a forma de dizer que esta modernidade que nos dedicamos tanto a ter, a possuir sem pudor, se retroalimenta de algo finito, inclusive, nos arremessa à fábula da inevitabilidade, de que esta transgressão ecológica é o nosso ponto final.
Blog Furo: O livro ainda será lançado, mas já recebi em primeira mão, por isto, te indago, é um livro contra ordem, sobretudo pela poesia de densidade mineral que há nele?
CT: Diria que sim, e que também é um livro dialético, no entanto, sua mecânica não é para apascentar a ordem, torná-la aprazível, é contra sua forma de ser, arbitrária do moinho satânico e o seu tilintar cotidiano, seja pelas extremidades que provocam no sumiço repentino de geologias e os aforismos que há neles, como também pela cegueira política que abona tudo isso. Por exemplo, tem bienais de arte, as mais famosas delas, grandiosas festas literárias financiadas pelo dinheiro da commodity mineral, um sem fim de artistas que não quero aqui julgá-los, mas que, conscientes ou inconscientes, são envolvidos sem se perguntar – o que continua a ocorrer, no país, em Mariana e Brumadinho (MG), Barcarena (PA), quanto custa a natureza exaurida por esta forma de minerar e de lucrar, e financiar a arte? O que sei é que quando a arte e o artista se alienam da natureza, e as corporações da mineração constroem suas próprias subjetividades, estamos não só no limite ético, como estético também! Creio que não há mais espaço para esta acepção de que estamos bem, vivendo bem, neste modelo empresarial “que ergue e destrói coisas belas.”
Blog Furo: Qual tarefa tem o artista e a arte nessa fase de crise ecológica e transição energética?
CT:
Há
um pensamento em Umberto Eco – que “a arte só faz sentido para aqueles que não
estão prisioneiros dos meios de comunicação de massas”. Eis aí uma questão para
os movimentos políticos, contestatórios, de como fazer e comunicar a arte por
outros meios? E isso quer dizer muito, de como estamos interpretando a crise
climática e sobretudo – o que significa no fundamental a transição enérgica
para as nossas vidas e qual o sentido ela trará para a arte? Por exemplo, até
quando a técnica coordenará a política produzindo esse avesso das necessidades
humanas, ainda que seja produto da sua criação? Parece decisivo que ocorra o
contrário! No entanto, sei que a arte é a imitação da realidade, se ela estará
prisioneira das corporações a nos assombrar pelo volume de capital que se
realiza nela – nos grandes eventos de galeria como refinada maquiagem de que
tudo está mudando para não mudar, ou seguirá autônoma, porém, limitada pela
barbárie que assola o artista.
Blog Furo: Que fé depositar no artista?
CT:
O
que imagino sobre estas tensões é que o artista não pode fazer tudo, mas não
pode se conformar, deve seguir com seu farol e agir sem parcimônia e habilitar-se,
deve não só sentir, mas sem pedir licença, apresentar-se para evitar a queda do
céu, como nos alertou Davi Kopenawa!
Blog Furo: Há uma fascistização da palavra em curso?
CT: Este é um dos assuntos que tenho pensado demais, mas se consideramos que há um movimento social de ‘extrema direita’ na sociedade, é quase que natural que isso ocorra, e é deliberadamente sentido na repetição “da metafísica dos costumes”, o retorno ao passado, em tudo, a família era melhor no passado e etc... – minha impressão é que o neoliberalismo, se antes havia triunfado na economia e na desregulamentação no uso da natureza, por fim, transgrediu o indivíduo e a linguagem, e isto operacionaliza léxicos sociais do poder onde o consumo é a linguagem dos sentidos, claro que isto representa uma crise política estética onde tudo vira caricatura em estado degradante, onde o supérfluo se reconfigura pela padronização do gosto, seja nas amplificações de si para si e do dinheiro que se ganha com isso – como também, se expressa no esvaziamento de que a literatura e a cultura são direitos sociais e devem, ao meu ver, serem reconduzidos ao centro dos nossos dilemas...
Blog
Furo: Queres comentar, mas alguma questão...
CT:
Paro por aqui, com o que diz o poeta Mexicano, Octavio Paz, fiquemos com “as
perturbadoras propriedades das palavras”.
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 8/04/2024 09:02:00 AM 0 comentários
segunda-feira, 1 de julho de 2024
Incra do Oeste do Pará negligencia reforma agrária, denunciam entidades
A exclusão de várias entidades do processo de planejamento estratégico da instituição faz parte do rol das reclamações contra a direção do INCRA
Na data de 18 de junho de 2024, a Superintendência do Incra Oeste
do Pará realizou o que se chamou de “Reunião de Monitoramento do Planejamento
Estratégico Participativo do Incra”. Ocorre que,entidades representativas de
moradores/as de assentamentos, trabalhadores e trabalhadoras rurais e
comunidades não foram devidamente convidadas. Ainda que algumas pessoas e
entidades tenham conseguido participar, considera-se como grave a ausência da
maioria das lideranças interessadas, ausência esta ocasionada por falta de
comunicação da superintendência. Tal atitude, contrária ao diálogo aberto e
transparente, atenta contra a participação social como havia prometido o atual
Superintendente José Maria Melo.
Infelizmente não foi a
primeira vez. Na data de 14 e 15 de março ocorreu o Planejamento Estratégico
Participativo do Incra no auditório da UFOPA. Este planejamento foi avaliado
como ruim pelas lideranças locais em razão de que não tinham sido convidadas
com a devida antecedência. O que se conclui é que a gestão não tem sido
participativa, e se for estratégica, não é para a agricultura familiar.
É importante destacar que desde 2022 o Incra vem reduzindo,
cancelando e convertendo os assentamentos de Reforma Agrária no Oeste do Pará.
Antes do Governo Lula, havia sido cancelado o PAC Bela Terra, cuja área hoje
tem sua paisagem tomada por um imenso campo de soja. O PAC Araipacupu, no Médio
Tapajós, foi convertido em PA convencional com redução de milhares de hectares.
Tal como ocorreu com o PDS Esperança do Trairão (anteriormente chamado do PDS
Presidente Lula). Em todos assentamentos falta o maior imbróglio para o Incra:
a revisão ocupacional.
Em 2023, a Superintendência se justificou inúmeras vezes de que não
poderia atuar, nem fazer revisão ocupacional de assentamento, por falta de
orçamento. Neste ano, a situação mudou, mas pelo visto, os recursos disponíveis
não estão com sua aplicação sendo planejada junto com as entidades
representativas que se vêem deslegitimadas pelo atual superintendente. José
Maria Melo, mesmo sendo filiado ao Partido dos Trabalhadores, o PT, parece não
ter interesse na Reforma Agrária.
Em 2024, uma prioridade foi desconsiderada pelo Incra: as
conclusões dos trabalhos de georreferenciamento no PAE Lago Grande. O maior
assentamento da América Latina ainda não tem CCDRU, ou seja, o título coletivo
que dá garantia do território a mais de 120 comunidades tradicionais da
Amazônia. E sua priorização pelo Incra entra em xeque. Enquanto isso, ameaças
às lideranças do PAE Lago Grande não cessam, e a pressão para abrir a terra
para mineração de bauxita vem do município vizinho, Juruti, onde está implantada
a ALCOA e de onde vem o atual superintendente do Incra Oeste do Pará.
O PAE Lago Grande, assim como os demais assentamentos, coletivos e
convencionais, tem sido alvo de abertura da floresta nativa para pastagem, o
que ocasiona o assoreamento das nascentes dos rios e igarapés tornando as
comunidades rurais ainda mais vulneráveis. A Reforma Agrária no Oeste do Pará é
bandeira que não pode ser esquecida pelos companheiros, pois significa
território, bem viver, natureza protegida e garantia de soberania e segurança
alimentar.
Por esses motivos, nós, entidades abaixo assinadas, repudiamos a
falta de diálogo, a baixa transparência e a ausência de participação na gestão
do Incra Oeste do Pará.
18 de junho de 2024
STTR de Santarém
FEAGLE
CNS - Conselho Nacional de populações extrativistas
Grupo Mãe Terra Guardiões do Bem Viver
FASE
Amazônia Terra de Direitos
Coletivo Maparajuba
CPT Itaituba
Movimento Tapajós Vivo
Movimento de Atingidos/as por Barragens
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 7/01/2024 09:48:00 AM 0 comentários
quarta-feira, 5 de junho de 2024
Rua sem saída
Agosto amazônico. Calor causticante. Sol inclemente. Uma leseira toma o corpo como
se malária fosse. Como se cardume de puraquê acertasse o corpo em cheio num
nocaute elétrico. Abrupto esporão de arraia cravado no pé bom de bola.
O suor da testa alcança o olho. Cega. Trópico. Úmido e quente.
Quente pra burro. Tal uma buceta em anseio na festa da carne. Bingo de
quermesse. Catedral do amor. Abismo de
rosas. O corpo reclama igarapé. Banho de
bubuia. O cio balbucia.
A rua do bairro distante é de terra batida. A rua é assim em todo
bairro distante, onde o esgoto viceja como se furo encarnasse. Quando o sol
derreia, bacurizinhos tomam as portas das casas de madeira. A sombra rareia. Os
adultos disputam um punhado. É assim todas as tardes.
As crianças soltam pipas, brincam de futebol, tocam campainhas de
outras casas em estado menos precário, mães e pais fazem barricadas de fofoca.
Tiram meleca do nariz. Cospem no chão. Coçam o saco, ajeitam as calcinhas, ao
menos as que usam o apetrecho. Tomam um trago de café quente.
Na rua sem saída, as casas são de madeira e cobertas por telha
Brasilit. Inferno de Dante. É a casa que
a fome possibilitou erguer. Casas de gente pobre. Humilde. Barracão de zinco,
que a lua quando alumeia toma as frestas do teto; e quando em chuva, irriga a
miséria. Casa de gente de outros mundos.
Casa de penca de filhos.
Os gitinhos se misturam com a terra. Capitães de areia e de terra.
Um exército. Celebram a vida em meio a
cães, aves, urubus e a fome. Mais urubus
que cães. A fome é robusta por estas
bandas. A fome mata. A fome não dá trégua, enquanto uma mulher vasta em toalha
mínima estende roupas no varal que fica à rua. Cães e aves convivem em harmonia.
As crianças das bandas de cá seriam anfíbios como os filhos do
Arapiuns? Os bacurizinhos da rua sem saída estão longe do rio. O rio não dista tanto assim da rua sem saída.
Na rua sem saída, sem asfalto, o esgoto corre a céu aberto. Uma escola municipal
homenageia uma família de Confederados.
Uma frutaria poderia ser montada em uma das casas. O quintal vasto
abriga açaí, carambola, jambo, manga, jaca, coco, goiaba e outras árvores que
não sei identificar. Em um canto da rua sem cercas, abundam pés de mamão,
goiaba e banana. Qualquer um é livre para apanhar. Um monte de cheiros.
A dona do quintal de muitas frutas é uma mulher baixinha. Coleciona enlaces amorosos. Pelo menos uns três. É temente a Deus. Vez em quando entoa louvores. Os netos a seguem. Todos desafinados. Os galos fazem a segunda voz.
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 6/05/2024 08:05:00 AM 0 comentários
quinta-feira, 30 de maio de 2024
Romaria celebra saga dos extrativistas Zé Cláudio e Maria em Nova Ipixuna/PA
O casal foi executado no Projeto Agroextrativista Praialta Piranheira em maio de 2011
José Cláudio e
maria foram executados em uma tocaia promovida por grileiros de terra no dia 24
de maio de 2011, no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Praialta
Piranheira, localizado no município de Nova Ipixuna, sudeste do Pará. Como o
vasto rosário de execuções e chacinas que marcam a história de luta pela terra
na Amazônia, e em particular no estado do Pará, todos sabiam das ameaças que o
casal sofria.
Inúmeros foram
os boletins de ocorrência registrados, bem como cartas denuncia publicizadas e
registros nos relatórios da Comissão Pastoral da Terra (CPT). A execução poderia ter sido evitada. Assim
como tantas outras.
Em novembro de 2010, em Manaus, por ocasião da realização do evento Ted Amazônia, José voltou a registrar as ameaças que vinha sofrendo: “sou castanheiro desde os sete anos, defendo onde moro com minhas forças, denuncio, vou pra cima. Por isso vivo com a ameaça de levar uma bala na cabeça. Por isso eles acham que não devo viver”. Em outras ocasiões também já havia denunciado em entrevistas televisionadas nacionalmente sobre o risco que sofria. Nada foi feito.
A Romaria Mártires
da Floresta, que inicia amanhã, 31, na cidade de Marabá, e encerra no município
de Nova Ipixuna, no dia 02, nasce como ato em defesa da memória da militância
em defesa da floresta empreendida pelo casal.
Além de celebrar a trajetória dos extrativistas, a agenda da Romaria contemplará debate sobre mudanças climáticas, e contará com o lançamento do livro assinado pelo jornalista e professor da Universidade Federal do Bahia, Felipe Milanez, no dia 31. A obra, Lutar com a floresta:Lutar com a floresta resulta da vivência do ex editor da Nacional Geographic Brasil junto ao casal do PAE Praialta, uma exceção no expressivo universo de assentamentos rurais na região onde mais de se mata na luta pela terra no país.
Leia a
programação AQUI
Mais informações Claudelice Santos
94 98196-9760
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 5/30/2024 08:47:00 AM 0 comentários
sexta-feira, 12 de abril de 2024
IV Prêmio Frei Henri de Direitos Humanos homenageará mulheres ativistas
A chancela é uma iniciativa da OAB de Xinguara/PA e da Comissão Pastoral da Terra (CPT)
Como forma de homenagear ativistas e defensores de direitos humanos,
a Ordem dos Advogados do Brasil, Subseção Xinguara, localizada no sul do
Pará, realizará neste sábado (13) o IV Prêmio Frei Henri de Direitos Humanos.
O prêmio é
concedido a pessoas que de alguma forma possuem atuações relacionadas aos direitos
humanos, em nível municipal, regional e nacional. Por levar o nome de Frei
Henri, a premiação é uma forma de resistência em uma das regiões que possui
histórico de violações aos direitos humanos, principalmente no que tange à
violência no campo e desmatamento.
Frei Henri
Da
ordem dos dominicano, formado em Direito, Frei Henri atuou como advogado da
Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Goiás e no Pará, tornando-se um dos maiores
defensores dos direitos dos trabalhadores rurais e camponeses na região de
fronteira agrícola da Amazônia brasileira.
Como
advogado, teve atuação no Brasil a partir de 1984, quando obteve registro na
OAB Goiás, e pouco tempo depois foi para o estado do Tocantins e em seguida mudou-se
para o estado do Pará. Frei Henri atuou
na condenação dos assassinos dos líderes sindicais João Canuto, morto em Rio
Maria (PA) em 1985, e de seu sucessor, Expedito Ribeiro de Sousa, assassinado
em 1991.
Em 1994, o dominicano foi condecorado com a Legião de Honra da França,
e recebeu vários prêmios nacionais e internacionais por sua atuação em prol dos
direitos humanos.
Por
defender os pequenos agricultores e os sem-terra do Pará, Frei Henri foi
ameaçado de morte na região de Xinguara (PA), onde residia, pelos fazendeiros
locais. Na lista dos “marcados para morrer”, a sua cabeça valia R$100 mil. A da
irmã Dorothy Stang, assassinada em 2005, R$50 mil.
O frade dominicano faleceu
em Paris, aos 87 anos, no dia 26 de novembro
de 2017. Em 2018 as cinzas de Frei Henri foram sepultadas no assentamento Frei
Henri, localizado na PA-275, em Curionópolis (PA).
Premiação
A
ideia do prêmio foi ocorreu em 2009, por ocasião de uma redação vencedora em
âmbito nacional, sendo a partir daquele momento, suscitado a premiação para
pessoas que vivenciam em seu cotidiano alguma contribuição na defesa dos
direitos humanos. Em 2016, o Conselho da OAB de Xinguara formalizou a criação
da premiação tendo Frei Henri a denominação do prêmio.
A IV edição do
Prêmio homenageará mulheres defensoras dos direitos humanos inspiradas na
pessoa do religioso e advogado Frei Henri: Sueli Aparecida Bellato, advogada e
integrante da Comissão Brasileira de Justiça e Paz da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB) foi conselheira da Rede Social de Direitos Humanos e
compõe o Grupo de Trabalho Araguaia (GTA); Luana Tomaz de Souza, Diretora
Adjunta do Instituto de Ciências Jurídicas da UFPA, e Ayala Lindabeth Dias
Ferreira, pedagoga e dirigente do setorial de direitos humanos do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra no Estado do Pará (MST).
Programação
A premiação será a partir de 19h no auditório da OAB Xinguara com tema da palestra “O protagonismo das Mulheres na Defesa dos Direitos Humanos”.
A realização do
evento conta com a parceria da Comissão Pastoral da Terra e do MST, que
realizará no dia 14, no assentamento Frei Henri, em Curionópolis, celebração
ecumênica, aula pública sobre o tema “Lutar não é crime! Movimentos sociais e a
Democracia!”
Informações enviadas pela OAB de Xinguara/PA.
Mais informações
Rivelino Zarpellon
94 99240-1313
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 4/12/2024 08:14:00 AM 0 comentários
segunda-feira, 4 de março de 2024
Raimundo Gomes da Cruz Neto, manifesta suas impressões sobre o livro Crônicas sobre o trecho.
A cultura, a arte, a revolução: um passo adiante.
Esta noite de
sábado, segundo dia do mês de março, do ano de 2024, não deverá cair no
esquecimento tão cedo. Noite de poucos barcos navegando no rio Tocantins, de
poucas estrelas, sinais de chuva, uma brisa leve, um calor amazônico tolerável,
no cabelo seco, “bar da Ana”(da Ana e do Orlando). Ali chegavam pouco a pouco, professores,
estudantes, militantes históricos das lutas populares para prestigiarem o
glorioso lançamento do recente livro do companheiro Rogério Almeida. Um dia
após o lançamento do belíssimo livro do companheiro Ceará, intitulado: A
destruição da Amazônia pela besta fera do capital e outros cordéis.
Sob o som de
músicas de diversos gostos aos arredores de nossa concentração, com prazerosos
goles de cerveja, cachaça, refrigerante, água, acompanhados de tira gosto à moda da casa, servido
pela sorridente companheira Ana, transeuntes movimentando a noite daquele
trecho, a companheira Rose Bezerra com precisas palavras fez a abertura do que
foi o lançamento do livro AMAZÔNIA: crônicas sobre o trecho, bulinações e
alguns afetos.
O autor, com
sua simplicidade que lhe é peculiar, discorreu sobre a simbologia do lançamento
ser naquele trecho, bairro que mesmo com todas as influências do avanço
devastador do capital, não perdeu muitas de suas características de onde inicia
a cidade, pelos idos de 1898. Bairro composto de grande maioria de negros e
negras, que em lutas procuram manter tradições do trecho onde surgiu o boi
bumbá, o rouxinol, as lendas como a “porca de bobe” e a primeira escola de
samba de Marabá.
Tratou sobre a
construção do livro, das influências e sugestões brotadas das encruzilhadas e
trincheiras de dias e noites vividas entre desprazeres e prazeres, próprios de
quem se propõe a “cair no trecho” sem se perder nos impostos limites do
cotidiano, mas ter como princípio norteador para a vida de labor e afeto, o
horizonte.
É como diz
Rogério Almeida: “O Trecho nasce no caldo do desmatamento, da floresta que
sucumbe em nome do saque, colocando sob ameaça todos os seus encantados e
saberes ancestrais com os quais ela conflui. Saque permanente: vidas, terra,
floresta, minério, água, energia...”
Usando da
possibilidade de fala, o militante das Brigadas Populares, em nome da equipe do
CEPASP (Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular), Raimundinho,
agradeceu por mais uma contribuição que Rogério Almeida para a região de
Carajás, com a entrega pública de mais um livro com grandioso conteúdo, depois de nove anos atrás ter
lançado o valioso Pororoca Pequena, não mais e nem menos maior que o de agora.
Enfatizou a
tamanha perspicácia com que Rogério Almeida trata o cotidiano, na forma de
observar, registrar e relatar, dando visibilidade às pessoas, aos gestos, aos
tratos com solidariedade, que se somam e se dividem no trecho. Próprio de um
militante, marxista, revolucionário, que avança fronteiras convivendo e
compartilhando saberes necessários para os grandes saltos rumo a humanidade,
rompendo as amarras impostas pela ideologia burguesa.
Pausamos com a
poesia, pag. 149, Alguém Mandou. No morro, entre rimas, lágrimas, zincos e
madeiras/Balas, balas, balas, aos montes/Como se fossem nuvens e
gafanhotos/Balas, balas, balas em toneladas/A cada instante, todos os dias,
durante todo o ano/Balas, balas, balas de todos os calibres/Sobre o alvo do
corpo negro/Balas em crianças, balas em adultos e balas em velhos/A bala mata
toda a família com único disparo/A bala abala a quebrada inteira/O
surdo/Cansado, silencia velório das derradeiras crianças alvejadas/Flor da
idade/Morte à queima roupa/Alguém mandou.../Mandou matar de bala, de raiva e de
fome...
Recomendamos a
imediata aquisição e leitura dos valorosos livros. Como disse o próprio
Rogério, no lançamento: “não tem fins econômico, o que for arrecadado é para
tomarmos de cerveja e cachaça, passem a grana ao companheiro Eric.”
Marabá 02 de
março de 2024.
Brigadas
Populares
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 3/04/2024 10:26:00 AM 0 comentários
terça-feira, 27 de fevereiro de 2024
Puxirum de Ideais – docentes e técnicos da UFOPA organizam lançamento de livros de forma coletiva
Puxirum de
ideias é uma iniciativa de docentes do curso de Gestão Pública e
Desenvolvimento Regional e convidados. O
princípio é tornar pública a produção da Ufopa para além dos muros da
instituição, com vistas a estabelecer trocas e s diálogos com a sociedade do
município. O lançamento coletivo também
consiste em uma singela homenagem aos 43 anos de existência do Instituto Cultural Boanerges Sena (ICBS),
iniciativa animada pelo Cristovam Sena e família.
O evento ocorre
na noite do dia 07 de março, a partir das 19h, no Quintal Sapucaia, localizado
na Av. São Sebastião, nº 1233 (entre 7 de Setembro e Morais Sarmento), na
semana da agenda pela passagem do Dia da Mulher.
Entre os livros
que serão comercializados e expostos, constam:
Autora: Lene
Oliveira – técnica da assessoria de comunicação da UFOPA – Doutora Universidade
Fernando Pessoa (UFP) e a UFRGS
“O mundo
encantado do Catalendas” é resultado da dissertação de mestrado defendida pela jornalista e
pesquisadora Jorgelene Santos, em 2008, no Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais – área de concentração Antropologia Social – do Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal do Pará. A obra foi editada e produzida pela Imprensa
Oficial do Estado (IOE).
Autora: Gisele
Alves – Gestão Pública
Pós-desenvolvimento
e Bem Viver na Amazônia: aspectos teóricos e perspectivas aplicadas é fruto de um
trabalho colaborativo entre docentes e discentes da Universidade Federal do
Oeste do Pará – UFOPA, que nasceu a partir das atividades do grupo de pesquisa
CADES – Críticas e Alternativas ao Desenvolvimento na Amazônia, criado em 2017.
O grupo nasceu com o objetivo de estudar, descrever e analisar as práticas
sociais comunitárias vivenciadas na Amazônia, em específico na região Oeste do
estado do Pará, sob a lente teórica do pós-desenvolvimento, e sob a perspectiva
prática das experiências de Bem Viver ao redor do mundo; registrando práticas
sociais de comunidades que possuem formas alternativas de organização da vida
social, distantes dos ditames do desenvolvimento hegemônico.
Autora: Raimunda
Monteiro – docente do curso de Gestão Pública cedida ao governo federal, ex
reitora.
“Amazônia: espaço-estoque, a negação da vida e
esperanças teimosas”. A
obra trata do modelo de integração da Amazônia ao Brasil e ao mundo, e das consequências
para os seus povos, no contexto dos 50 anos de construção da Rodovia
Transamazônica. Exploração, ocupação desordenada, violência contra os povos,
devastação e destruição ambiental ocupam muitas das páginas, que abrem espaço
também para falar de esperança. O livro é o resultado no âmbito de estágio
pós-doutoral na Universidade de Coimbra.
Autores/organizadores:
Anselmo Alencar Colares e Maria
Lília Imbiriba Sousa Colares
“A Pérola do Tapajós em Verso e Prosa” a publicação é uma homenagem à cidade de Santarém, reúne
trabalhos em diferentes formatos cujo enfoque é a Pérola do Tapajós. Os
professores organizadores são do Instituto de Ciências da Educação (Iced).
Autores: Florencio Vaz e Luciana Carvalho – docentes do curso
de Antropologia
“Isso tudo é encantado: Histórias, Memórias e
Conhecimentos dos Povos Amazônicos”. Produzida pelo projeto de extensão “Hora do
Xibé”, vinculado ao Núcleo Sacaca, a publicação reúne relatos feitos por
indígenas e moradores de comunidades tradicionais da região sobre suas crenças
e suas culturas.
Autor: Márcio Benassuly – docente do curso de Gestão Pública
“Santarém: dinâmicas da ocupação e uso do território (1542 -
2020). Editora CRV, Curitiba, 2021”. A publicação
é abordado as dinâmicas da ocupação e uso do território em Santarém, estado do
Pará no período entre 1542 - 2020, o que é justificado por ser 1542 a data do
primeiro relato de contato entre europeus e os índios Tupaius em território
santareno, a pesquisa de tem como marco temporal final o ano de 2020. A obra
está estruturada em sete capítulos.
Cristovam Sena, editor e mantenedor
do Instituto Cultural Boanerges Sena (ICBS)
"Tupaiulândia" - Paulo
Rodrigues dos Santos é uma das principais obras que contam a história do
município fundado em junho de 1661, pelo padre jesuíta de Luxemburgo, João
Felipe Bettendorff. Publicado originalmente em 1972, ganhou outras edições em
1974 e 1999. Foi o resultado de mais de 40 anos de anotações e pesquisas do
escritor Paulo Rodrigues dos Santos, falecido ainda nos anos 70, mas que deixou um profundo legado para a
memória e cultura local.
Autor - Rogerio Almeida – docente do curso de Gestão Pública
“A Destruição
da Amazônia pela besta fera do capital e outros cordéis”, do dirigente
sindical e ambientalista Francisco Valter Pinheiro Gomes, o Ceará do Pará é o
segundo livro do projeto de extensão Luta pela terra na Amazônia. Coordenado pelo coordenador pelo Rogerio
Almeida, teve a contribuição das
extensionistas Glenda Flávia Guimarães Cunha, Luana Vitória de Sousa Brito,
Bianca Emanuelle Bezerra
da Silva e Yasmin de Souza
Corrêa em dialogo com o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA),
Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Marabá e docentes da Faculdade de Educação
do Campo da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará).
“Crônicas sobre
o trecho”. 70 crônicas reunidas
ao longo de várias jornadas em diferentes regiões do estado do Pará e
vizinhança dão corpo ao livro. As
anotações encarnam uma espécie de diário de bordo. Em períodos curtos e urgentes, assim como a
maioria dos parágrafos, os escritos são registros telegráficos, como se o
escriba estivesse em fuga. Em suas errâncias (flanêur), Almeida manifesta o
zelo pela arte da escuta e da observação.
Maiores
informações
Rogerio
Almeida (93) 99228 1379
Rita
Peloso -93 99122 6622
Márcio
Benassuly - 91 982111961
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 2/27/2024 07:25:00 AM 0 comentários
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024
Livro de crônicas sobre a Amazônia tem no trecho a sua inquietação central.
70
crônicas dão corpo à obra do professor da Ufopa, Rogerio Almeida, do curso de
Gestão Pública
70 crônicas dão corpo ao livro
Amazônia: crônicas sobre o trecho, bulinações e alguns afetos. Assinado pelo
professor Rogerio Almeida, do curso de Gestão Pública, da
Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), o projeto foi selecionado pelo
edital da Lei Paulo Gustavo.
Os
lançamentos ocorrerão em Marabá e Santarém. Na primeira cidade o evento será na
noite do dia 02 de março, no Bar da Ana, no bairro do Cabelo Seco, núcleo Velha
Marabá, a partir das 19h. Já em Santarém, ocorre na noite
do dia 07, no espaço cultural Quinta Sapucaia, localizado na Av. São Sebastião, nº 1233 (entre
7 de Setembro e Morais Sarmento), a partir das 19h. O livro fará parte de evento coletivo
denominado de Puxirum de Ideias, que contará com lançamentos de obras de
professores/as e técnicos/as da Ufopa.
Peão de trecho, assim é tratada
a polissêmica categoria fronteira pelas pessoas que se mobilizam em busca de
trabalho em grandes obras na região. Bem como por riqueza “fácil” em garimpo,
fuga de secas e outras privações ou algum tipo de oportunidade longe de
seus locais de origem.
No livro, os períodos curtos imperam. Urgentes, assim como a maioria dos parágrafos. Registros telegráficos, como se o escriba estivesse em fuga. Em suas errâncias (flanêur), Almeida manifesta o zelo pela arte da escuta e da observação. Andar só é uma preferência. Ele acredita que a opção favorece o deslocamento. Referências a feiras, botecos fuleiros e puteiros são recorrentes em sua escrevivência.
Entre coisas vividas,
vivenciadas e inventadas, o “vadio”, tal uma tia velha fuxiqueira, tece, uma
aquarela dos vencidos em lonjuras (fronteiras) marcadas pela gula do capital,
que a tudo fagocita, até o sorriso da tapuia após o coito matinal. O
recado consta em um poema.
Nas geografias das errâncias, as
estações do ano na Amazônia emergem ao queixar-se do sol inclemente, ou ao
retratar as agruras dos tempos de cheia. O trecho é a questão que o inquieta,
bem como os personagens que conferem forma, moldura e possível poesia e alma à
obra.
No trecho, o filho chora, e a
mãe não faz ideia dos aperreios. Garimpos, grandes obras de infraestrutura,
empreendimentos agropecuários funcionam como uma espécie de imã de errantes.
Tais sujeitos migram em busca de dias menos doridos. As privações que a
maioria experimenta é combustível de canções populares, muito bem sublinhadas
em suas anotações. Zé Geraldo, Elino Julião, Adelino Nascimento, Raimundo
Soldado, Bartô Galeno estão entre os cantadores citados.
O trecho é bruto, avalia o
autor. Todavia, para além das agruras, como acredita uma filha de garimpeiros
de Itaituba, a educadora Rose Bezerra, a quem a obra é dedicada, é possível
encontrar laços de solidariedade e amizades que perduram ao longo do tempo.
Rogerio crê que as andanças representam uma faculdade sem parede. Em conversa
sobre a origem da cria, ele explica que após atividades laborais precárias,
havia uma necessidade de fazer apontamentos sobre o que observara.
Em escrita ligeira, o professor
tece a trajetória de garimpeiros, donas de bar, bravas mulheres que o iluminam,
a exemplo da genitora e o matriarcado em que foi criado.
Em texto de orelha, Charles
Trocate, filosofo e poeta, sobre a obra considera “este livro tem a totalidade
de uma obra inigualável, seja pela experiência de escrever reportagens – a
primeira experiência literária do autor e a sofisticada paciência de compor o
enredo que a vida transborda aos que vivem mais da falta do que do excesso.
Diria que este livro expõe uma espécie de filosofia do trecho ou manual do que
é não viver vivendo. Do começo ao fim, de trás para frente, ou inverso, ou do
meio para o início, é como se percorrêssemos os milímetros, sem cansar, uma
jornada de desapego”.
O pdf do livro pode ser baixado AQUI
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 2/22/2024 06:30:00 PM 0 comentários
Projeto Luta pela terra na Amazônia lança livro do cordelista e dirigente sindical Ceará do Pará (Francisco Gomes) do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA).
Lançamentos ocorrerão em Marabá e Santarém em março
O livro A Destruição da Amazônia pela besta fera do capital e outros cordéis, do dirigente sindical e ambientalista Francisco Valter Pinheiro Gomes, o Ceará do Pará, será lançado no dia 01 de março no Hall Central do Prédio da Reitoria, Unidade/Campus 3, da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará), em Marabá, no dia 01 de março, a partir das 9h.
Já em Santarém, o evento ocorrerá na noite do dia 07, no espaço cultural Quintal Sapucaia, localizado na Av. São Sebastião, nº 1233 (entre 7 de Setembro e Morais Sarmento), a partir das 19h. O livro fará parte de evento coletivo denominado de Puxirum de Ideias, que contará com lançamentos de obras de professores/as da Ufopa.
Para a impressão da obra, o projeto contou com o apoio da Cese (Coordenadoria Ecumênica de Serviço) e a Cafod, uma agência internacional de desenvolvimento ligada à Igreja Católica.
O livro resulta do projeto de extensão da UFOPA, Luta pela terra na Amazônia, coordenador pelo Rogerio Almeida, do curso de Gestão Pública, e a contribuição das extensionistas Glenda Flávia Guimarães Cunha, Luana Vitória de Sousa Brito, Bianca Emanuelle Bezerra da Silva e Yasmin de Souza Corrêa.
No percurso do projeto, as discentes além de entrevista com o escritor, realizaram a leitura de artigos e debates sobre a questão da terra na Amazônia , o que teve como produto dois artigos a partir dos livretos de cordel, onde as autoras relacionam as conjunturas realçadas nos livretos, os sujeitos envolvidos nos processos e as políticas públicas.
Ambos os trabalhos foram selecionados para a apresentação no
Encontro Nacional da Rede Alcar (Associação Brasileira de Pesquisadores da
História da Mídia), ocorrido em Niterói, no mês de agosto de 2023. Todavia, o
elevado preço das passagens aéreas, além de outros custos inviabilizaram a
participação de um autor no evento. Além
dos artigos, Glenda Flávia realizou o trabalho de conclusão sobre a obra do
cordelista, a ser apresentado em março.
Para a produção do livro, o projeto estabeleceu diálogo com o escritor,
educadores da Faculdade de Educação do Campo da Unifesspa, em particular com o
professor Haroldo de Souza, com o Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e a
Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Marabá.
Na jornada os professores e pesquisadores Airton Pereira (Uepa) e
Fabíola Pinheiro doutorando da Unir (Universidade Federal Rondônia) colaboraram
em debates sobre as disputas territoriais no sudeste paraense e sobre escrita
científica. O artista Rildo Brasil de
Marabá assina a capa e outras ilustrações do livro, assim como Thulla
Christina.
A obra reúne quatro livretos de cordel produzidos pelo escritor
desde os anos iniciais da década de 2000. No conjunto da obra, Ceará registra
as formas de r-existência dos seus iguais, a exemplo do cordel que recupera a
ação direta dos camponeses no início da década de 2000. Os grandes acampamentos de Marabá, como a
ação ficou reconhecida, aglutinava perto de 20 mil pessoas na frente da sede do
INCRA. O ato demonstra a enorme capacidade de organização do conjunto dos
movimentos sociais ligados à luta pela terra, em plena conjuntura do avanço de
políticas neoliberais.
As políticas públicas desenvolvimentistas impostas para a Amazônia
também inquietam o cordelista. Nele, Ceará alumeia os sujeitos das pelejas das
disputas pela terra, trata das violências, dos crimes contra os camponeses e
camponesas e responsabiliza o Estado autoritário pelo avanço do capital sobre a
fronteira.
Para além da pecuária, em outra obra, o migrante e sindicalista
trata do poder da mineradora Vale, na região sudeste do estado, onde Ceará
reside e r-existe. Por conta da
hipertrofia do poder da mineradora, ela é considerada uma empresa maior que o
estado do Pará. A mineradora expropria,
proíbe acesso à terra, à floresta e ao rio. Vigia e processa os que ousam
denunciar os seus abusos.
Ceará já foi cabra marcado para morrer, como conta em sua
entrevista. Atualmente, é estudante do curso de Educação do Campo, da
Universidade Unifesspa, Campus de Marabá. Segue a teimar contra os muros altos.
O presente livro encontra-se assim organizado: prefácio,
apresentação, os dois artigos produzidos no projeto de extensão, uma entrevista
com o autor e os respectivos cordéis. Como alerta o samba enredo da Mangueira
de 2019, que exalta os sujeitos historicamente colocados em condições de
subalternização: “É na luta que a gente se encontra!”.
Os cordéis de Ceará do Pará é uma lição, que a alerta a todos que a
mão que lavra a terra, afronta as cercas do latifúndio e de terras griladas,
também se indispõe com as palavras, antes, monopólio de poucos.
Maiores
Informações
Ceará
do Pará – (94) 99155-7624
Rogerio
Almeida – (93) 99228 1379
Haroldo
de Souza – (94) 99145-7737
Glenda
Flávia - 93 99653-8900
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 2/22/2024 03:32:00 PM 0 comentários
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024
Reflexões para o 19º aniversário de morte da Irmã Dorothy Mae Stang
O bispo realça o protagonismo das mulheres em defesa da floresta, quando da passagem de mais um ano da execução de Stang
Arquivo da CPT de Anapu/PA
Martírio na floresta
Neste dia 12 de fevereiro completam-se 19 anos da morte da Irmã Dorothy
Stang. Naquele sábado, bem cedo de manhã, em 2005, Irmã Dorothy foi assassinada
com seis tiros à queima-roupa numa estrada do interior de Anapu, município da
Transamazônica no Estado do Pará. Tinha 73 anos de idade.
Quem derramou o seu sangue pela causa mais nobre, o Reino de Deus, nunca
pode ser esquecido. A memória dos mártires faz parte da história e liturgia de
nossa Igreja. Esquecer os mártires é ignorar o Sangue derramado do próprio
Senhor Jesus, o Mártir por excelência de toda a história. O martírio é a doação total e irrestrita em
favor do Reino de Deus, levada até as últimas consequências. É amar até o fim
(cfr. Jo 13,1). Pode haver diversas razões, mas o motivo que leva ao martírio é
sempre o mesmo: o amor maior!
Na minha homilia na Missa de Corpo Presente em 15 de fevereiro de 2005
contei o que soube dos últimos momentos da vida de Dorothy. Antes de ser assassinada, Irmã Dorothy abriu sua sacola de
pano, cumprindo “ordem” de seus algozes que queriam saber se ela estava armada.
Mostrou-lhes o que ela chamava de sua arma: a Bíblia Sagrada. Este seu gesto
derradeiro é o último recado que Dorothy nos deixou. É sempre a Palavra de Deus
que nos inspira e orienta em nosso caminho. „As armas com que combatemos não
são humanas, o seu poder vem de Deus e são capazes de destruir fortalezas“
(2Cor 10,4).
Nas bem-aventuranças no Evangelho de Mateus (Mt
5,1-12) há várias que se referem explicitamente ao empenho em favor da
promoção da justiça e da paz: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de
justiça” (v.6), “bem-aventurados os misericordiosos” (v.7), “bem-aventurados os
que promovem a paz” (v.9), “bem-aventurados os que são perseguidos por causa de
justiça” (v.10). E aos que arriscam a vida em favor da justiça, em favor da
promoção humana, da dignidade humana, dos direitos humanos, é afirmado que “deles
é o Reino dos Céus”.
E tem mais. São considerados especialmente bem-aventurados aqueles e
aquelas que sofrem injúrias, perseguição, difamação, calúnia (v.12):
“Alegrai-vos e regozijai-vos…” Como alguém pode regozijar-se, ficar alegre
quando é perseguido, agredido naquilo que lhe é tão caro, o bom nome, a boa
reputação? Há um detalhe significativo no texto sagrado: o motivo da alegria
não são as agressões, as hostilidades em si, mas o sofrimento “por causa de
mim”. Aí reside a razão profunda do martírio, do martírio do sangue derramado,
mas também do martírio que é o testemunho de toda uma vida consagrada ao Senhor
e seu Reino. Esse martírio pressupõe uma paixão sem limites como nos revela São
Paulo: “Mas o que era para mim lucro tive-o como perda, por amor de Cristo. (…)
Por ele perdi tudo…” (Fil 3,7-8). E esse Cristo se identifica com os “excluídos
que não são apenas ‘explorados’”, mas considerados “’supérfluos’ e
‘descartáveis’” (Documento de Aparecida, 65).
Irmã Dorothy: uma “voz que clama no deserto”
Irmã Dorothy me pareceu uma “voz que clama do deserto” (Mc 1,3). O
deserto não é uma imensidão de areia a se perder nos horizontes. Na Amazônia é
a desgraça de homens sem dó nem piedade desertificarem o outrora inviolado
mundo de selvas e águas em que, desde tempos imemoriais, habitavam os povos
indígenas e posteriormente ribeirinhos que se alimentaram das frutas da
floresta e viviam em paz com a natureza. Em nome de uma equivocada busca de
progresso a qualquer preço, homens, apenas guiados pela expectativa de lucros
imediatos, entendem “benfeitoria” como sinônimo de “pôr abaixo”, de derrubar e
queimar a floresta. Esta perversidade se intensificou a partir da construção da
Rodovia Transamazônica no início dos anos 70. Nunca esqueço o delírio do
Presidente Medici e de sua comitiva, aplaudindo desvairados à derrubada de uma
castanheira-do-pará. Entendiam o tombo fragoroso desta gigantesca árvore no
chão previamente desnudado de sua vegetação como marco inaugural de uma nova
era. Uma placa incrustada no tronco deveria lembrar o evento em termos
bombásticos: “Nestas margens do Xingu, em plena selva amazônica, o
Sr. Presidente da República dá início à construção da Transamazônica, numa
arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde”. Foi em 10
de outubro de 1970. Mas a placa de bronze permaneceu pouco tempo no tronco. Foi
roubada! Ficou apenas o tronco, surrado pelas intempéries tropicais, como
trágica recordação de que outrora uma exuberante selva cobria toda a região do
Xingu.
Irmã Dorothy chegou 1982 na Prelazia do Xingu e viu de perto o frenesi
das derrubadas em grande escala. E desde que chegou falou e não mediu esforços,
querendo convencer a quem ouvia sua vozinha mansa – mansa era apenas sua voz – de que, num futuro bem próximo, frequentes
calamidades em cada vez maiores proporções serão consequência das violentas agressões
de homens insensatos à natureza.
Mataram a Irmã, calaram a sua voz profética, mas suas previsões se concretizam
de ano em ano sempre mais, nas secas antes nunca vistas na Amazônia, com
baixíssimos níveis dos rios e inundações desastrosas nos estados do sul e
sudeste.
Amazônia para uma vida saudável ou para a exploração inescrupulosa?
Nos primeiros dois governos de Lula divulgaram-se percentagens mais
moderados de deflorestação que nem sempre correspondiam à realidade. A questão
ecológica ganhou sempre mais defensores na esfera internacional. Provou-se
cientificamente que a Amazônia tem uma enorme importância para o equilíbrio
climático do planeta. Diante das reclamações vindas do exterior Lula respondeu
primeiro com irritação: “Nós precisamos mostrar ao mundo que ninguém mais do que nós queremos
cuidar da nossa floresta. Mas ela é nossa! E que gringo nenhum venha meter o
nariz onde não é chamado, que nós saberemos cuidar da nossa floresta e
saberemos cuidar do nosso desenvolvimento". “Deus lhe ouça!” rezei, pedindo a Deus que finalmente
se concretize a promessa de o Brasil cuidar das suas florestas.
A partir de 2018 o governo Jair Bolsonaro fez vistas grossas à
legislação ambiental. Favoreceu a expansão de fazendeiros e madeireiros e
estimulou o garimpo ilegal em áreas indígenas com todas as tétricas sequelas
para a vida, mormente das crianças e . adolescentes
dos povos originários. Durante a pandemia o presidente adotou o mote do
ministro Ricardo Salles: “passar a boiada”.
Lula, porém, prometeu no discurso de posse “desmatamento zero até 2030”:
“Nossa meta é alcançar o desmatamento zero na
Amazônia, a emissão zero de gases de efeito estufa na matriz energética, além
de estimular o reaproveitamento de pastagens degradadas“ e acrescentou em
relação aos povos indígenas: "Ninguém conhece melhor as nossas florestas,
nem é mais eficaz em defendê-las, que os que estavam aqui desde tempos
imemoriais. Cada terra demarcada é uma nova área de proteção ambiental". Lula foi aplaudido, e com razão, inclusive pela comunidade internacional,
pois deu um basta ao desmonte ambiental de seu predecessor.
Mesmo assim ficam duas preocupações:
1- Desmatamento
Zero até 2030? O prazo é muito longo e, se nos anos vindouros até 2030 as
derrubadas e queimadas continuam no mesmo ritmo do ano 2023, milhões de
hectares de floresta tropical serão varridos da face do planeta. Só no prazo de
janeiro até novembro de 2023 foram constatados 93.945 incêndios na Amazônia
brasileira. Mesmo que em relação aos 11 meses de 2022 (112.027) haja uma
diminuição de 16 %, o fogaréu que se alastrou pela Amazônia foi apocalíptico.
Quem esteve em Altamira, Pará, na segunda quinzena de outubro e na primeira de
novembro lembra com horror essas semanas em que, além de extremamente forte
calor, o povo foi condenado a respirar um ar poluído, tão nocivo à saúde
especialmente de crianças, idosos e gestantes. E Altamira, mesmo sendo o maior
município da Amazônia e do Brasil (159.500 km2), é apenas uma fatia
desta Amazônia.
2- Mesmo que Lula aumentou os recursos para o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para poder fiscalizar com mais afinco madeireiros e
fazendeiros e impedi-los a derrubar a floresta, todo o dinheiro não vai
garantir o êxito almejado se no Congresso continua a vigorar o espírito de
“passar a boiada”. A legislação ambiental fala de derrubada “ilegal” dando a
entender que há uma derrubada “legal”, permitida pela legislação ambiental. É
uma contradição! Se queremos chegar ao “desmatamento zero”, não pode existir uma
derrubada “legal” e outra “ilegal”. Derrubar ou queimar a floresta é “crime
ambiental” a ser punido severamente por sanções penais e administrativas.
Em todos os conflitos está em jogo a legislação
ambiental brasileira e a própria Constituição Federal que garante a existência
de terras fora do mercado capitalista, por exemplo áreas indígenas (Art. 232 e
233) ou parques nacionais. E é contra estes parâmetros constitucionais que o
agronegócio e seus aliados sempre de novo se insurgem. Sua palavra de ordem é:
“Nenhuma terra fora do mercado! Todas as terras devem ser usadas e aproveitadas
para produzirem e gerarem rendimentos e lucros”. Quem defender o contrário:
“Toda a terra é dom de Deus. Os povos indígenas, os quilombolas, os agricultores
familiares, os ribeirinhos têm direito às suas terras ancestrais, chão sagrado de
seus mitos e ritos e de sua própria subsistência, garantia de sua Vida, também em
vista das futuras gerações” sempre correrá o risco de ser taxado de inimigo do
progresso e desenvolvimento e, na pior hipótese, de ser “eliminado” como a Irmã
Dorothy e tantos outros na Amazônia, por contrariar interesses e a ganância de
quem vê na terra, na floresta, na água e até no ar meros artigos de negócio, de
mercado, de transações para o proveito próprio ou de grupos, em detrimento de
outras camadas sociais e, quase sempre, contra as mais elementares regras de
cuidado com o meio ambiente. São dois projetos que estão em confronto: um a
favor da terra para a Vida, o outro a favor da terra para o negócio.
O protagonismo das mulheres na sociedade e na Igreja
Estou há quase 60 anos no Xingu e muitas foram as lutas em favor da
dignidade e dos direitos humanos nessas seis décadas passadas. Em todas elas havia
uma constante que saltava à vista. Foram as mulheres que tomaram a dianteira.
Na época em que Altamira passou uma fase horrorosa por causa dos crimes que
vitimaram crianças e adolescentes, as mulheres não apenas prantearam com as
famílias os filhos vitimados, mas fundaram o “Comitê em Defesa das Crianças e
Adolescentes de Altamira”. Existia em Altamira uma Círculo Operário e há também
um Sindicato de Trabalhadores Rurais. Já que o empenho destes órgãos foi pouco
eficiente, as mulheres tomaram a iniciativa de criar o “Movimento das Mulheres
do Campo e da Cidade”. A grande maioria de conselheiros do Conselho Tutelar nos
vários municípios do Xingu e da Transamazônica é continua sendo de mulheres.
Na Prelazia do Xingu surgiram após o Encontro dos Bispos da Amazônia em
Santarém 1972 centenas de Comunidades Eclesiais de Base. Na sua maior parte elas
foram e são até hoje dirigidas e coordenadas por mulheres. O mesmo se pode
dizer dos Conselhos Paroquias e Pastorais e das equipes litúrgicas. Sem as
mulheres a nossa Igreja em muitas regiões nem existiria sequer!
Especialmente no contexto da construção da hidrelétrica Belo Monte,
muitas vezes me perguntei qual seria a razão profunda do protagonismo feminino
em todos os protestos, manifestações e passeatas? Os homens de Altamira e
municípios circunvizinhos sonharam dia e noite com chuvas de dinheiro e um
aumento significativo de chances de empregos bem assalariados. Custou-lhes
muito a se darem conta de que seus sonhos foram rasgados em pedaços e deixaram
a amarga sensação de terem sido ludibriados com promessas que nunca seriam
cumpridas. As mulheres, no entanto, foram desde o início mais “críticas” e não
se deixaram enganar. Quando descobriram que as “condicionantes”, elencadas pelo
IBAMA e a FUNAI, que deveriam ser cumpridas antes de iniciar a obra, só foram
promessas para tranquilizar o povo, passaram a chamar Belo Monte de “Belo
monstro”. Não hesitaram em denunciar a deterioração do rio e meio ambiente, o
sumiço de vilas inteiras com a promessa de reconstruí-las em outras áreas, a descoberta
de toneladas de peixes mortos e, na região, a falta de suficientes postos de
saúde e assistência médica, insuficiência de unidades escolares, encarecimento
de gêneros alimentícios, falta de saneamento básico, esgotos a céu aberto, aumento
da criminalidade na cidade, poluição sonora, e outros itens indispensáveis para
o bem-estar das pessoas e uma infraestrutura condigna para a vida urbana.
Creio que a mulher, seja ela mãe biológica ou não, é mais propensa a
dedicar-se à “prole”, intui perigos e riscos, ameaças e violências, mas seu
coração também pressente alegrias e vitórias. Não é mero instinto. É o entrelaçamento
do espiritual e do emocional com o racional que é capaz de fazer desabrochar
intuições que se situam além do raciocínio lógico de causa e efeito ou de uma
conclusão das premissas em um silogismo aristotélico. Em outras palavras: as
mulheres do Xingu raciocinam mais com o coração!
“Dorothy vive”
Irmã Dorothy foi assassinada, mas suas Irmãs de Notre Dame que conviviam
com ela continuam o caminho, dedicando-se ao povo que ela não quis deixar
entregue à própria sorte. No dia 2 de fevereiro de 2005, dez dias antes de ser
morta falou ainda a um jornalista – e eu estava presente e ouvi o que ela disse:
“Sei que eles querem me matar, mas não vou fugir. Meu
lugar é aqui, ao lado dessas pessoas constantemente humilhadas por gente que se
considera poderosa”.
Hoje são também leigas e leigos, mulheres e homens,
jovens e pessoas idosas que se consagram à nobre causa pela qual Irmã Dorothy não
hesitou de doar sua vida. O entusiasmo se manifesta no refrão, repetido
ano após ano, sempre de novo, pelo povo reunido nas Santas Missas de
aniversário de sua morte: “Dorothy vive, vive! Para sempre!”
Altamira, 12 de fevereiro de 2024
Erwin Kräutler C.PP.S.
Bispo em. do Xingu
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 2/12/2024 07:46:00 PM 0 comentários













%20-%20Copia.jpeg)
.jpeg)