terça-feira, 17 de março de 2020

Poema para a Pérola do Tapajós


Foto: Marquinho Mota. Orla de Santarém/PA/2020

O esgoto corre a céu aberto, independente da existência de meio fio ou não. Corre sob um céu de fim de tarde de fazer inveja a Van Gogh.  O fio de esgoto percorre toda a cidade. Como se fosse a veia aorta. O que lhe confere vida. O que lhe é essencial. Naturalizado em sua existência, não provoca indignação entre os nativos, ou estranhos de além riomar. Mesmo perplexidade ante uma exuberante riqueza natural. O esgoto singra quebradas e o centro. Afronta rodovias e vicinais. Irriga fronts de casebres, de puteiros, das quitandas, dos botecos, de peixarias, dos palácios, dos parcos museus, dos templos, das tendas e das catedrais, quarteis até. O odor exala.  Casagrande e Senzala. O coração da cidade. Um poema sujo contemplado pelas garças mocozadas sobre as mangueiras da encruza da urbe. Garças que untam as passagens com as suas cagadas, e as tornam neve. Passagens onde urubus saqueiam vísceras dos sacos de lixo para a sua sobrevivência, como se matilha de cão fosse. Pérola cidade, deixa-me viver, que eu quero aprender a vossa poesia, por entre canoas, bajaras, barcos, navios e iates nos riomares das suas melancolias e desigualdades. Tempo de manga. À av. Presidente Vargas, forma um tapete, este vigiado pelos olhos fofoqueiros dos velhos das janelas e das portas das casas. Enquanto os pés inchados a tudo vigiam. 

Rogerio Almeida, STM, março/2020

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