sexta-feira, 27 de junho de 2014

Mundo do açaí - esquálidos apontamentos


Junho. Tempo de copa. O Nordeste em festa. É verão na Amazônia. Ainda assim chove. É entressafra do açaí. O produto de caboclos virou coqueluche em academias de abonados nas principais praças do país, e mesmo em escala mundial, entre os surfistas da Califórnia.

Aqui o comum é consumir após o almoço para dormir. Lá é tido como energético. Aqui, charque, camarão, peixe frito e tapioca fazem par com a iguaria. Lá, cereais e banana.  Açaí agora é marca. Como analisam os sabidos, foi ressignificado. Antes fonte de proteína de pobres, hoje, parada de descolado.

No dito mundo globalizado, pós um monte de coisas, a principal rede de TV do país já escalou em uma de suas telenovelas uma barraca de açaí em praia do Rio.  O Pará agora é moda. “Novos” expedicionários não cessam de brotar no cais.  A redescobrir um mundo tantas vezes saqueado.

É tempo de entressafra. Em Belém o litro do açaí grosso é comercializado a uns R$20,00. Desde muito tempo, vendedores adensam o produto com farinha de tapioca e corante. E mesmo com papel, como tem atestado a vigilância sanitária nas periferias da cidade.

Os negociantes da Feira do Açaí, um espaço dentro do complexo Ver o Peso, informam que nesta época o açaí consumido em Belém é proveniente do Amapá. Vem congelado. As vezes ocorre perda por conta disso.

Mas, quem consome o produto em Belém ou em outras praças, não calcula que a cadeia produtiva engendra a super exploração do trabalho de ribeirinhos, num contexto marcado pela apropriação de terras públicas por coronéis. E mesmo por gente que conhece a letra da lei, como ocorre entre Cachoeira do Arari e Ponta de Pedras, e na cidade suspensa de Afuá, região fronteiriça com o Amapá, apenas para pontuar algumas.

Existem fábricas na região metropolitana de Belém. Elas verticalizam a produção transformando o fruto em polpa, que é comercializada com agregação de valor para os estado do Sul e Sudeste. Não raro. as mesmas famílias que são “donas” das terras controlarem as fábricas.  

Quem faz o trabalho pesado mora em casa de madeira. Na maioria das vezes sem os serviços básicos: energia e água encanada, por exemplo. Pensar em saneamento é heresia. O lixo flutua entre nascentes, igarapés, furos e rios. Não há nada de bucólico nos rios marajoaras povoados de lixo. E a maioria das pessoas fora da região, não imagina que lá existe mais que búfalos, como é comum a ênfase nas lentes dos comerciais.

No complexo xadrez do mundo do açaí, algumas famílias se apropriam de faixas de terras. A divisão do território é realizada a partir de marcos geográficos da região. Furos por exemplo. E as vezes, o sobrenome da família acaba por nomear o lugar.  

O extrativista é o responsável pelo manejo e coleta do fruto, e repassa o produto ao “dono” da terra, que também é o dono do barco, e que possui agente que negocia a safra no Porto do Açaí ou no Porto da Palha, no bairro do Guamá.  O que lhe cabe neste jogo desigual depende do poder do patrão. Tudo é feito fora da lei. Não existe relação trabalhista.
Após anos de labuta, aquele que perde a força para o trabalho é convidado a sair da área sem nenhuma compensação. E os que questionam a relação são expulsos por jagunços, espancados e ameaçados. E pasmem, colocados sob as barras da lei. Em terra de coronel, polícia e justiça estão a seus préstimos. E não se fala mais nisso.  

Quem consome o açaí aqui, não sabe do duro mundo do Marajó, a mais empobrecida região do Pará.  

2 comentários:

Maria Trindade disse...

Marcados pela desigualdade social e econômica, municípios do Marajó apresentam o mais baixo IDH da região. O problema é que ninguém discute muito o que está por trás dos indicadores. Parece uma coisa mágica e intransponível. Parafraseando indicadores tem aos montes, a questão agora é modificá-los, mudar essa realidade.
Seu texto produz margem para muitas reflexões, uma delas é a de que nós, paraenses, estamos de fato à margem da história, pouco conhecemos sobre os recursos de toda espécie dessa terra amazônida. Conhecer é o combustível que move a luta, é o oxigênio da mudança. Abraço companheiro Rogério.

rogerio almeida disse...

Olá Trindade. O Pará profundo parece interessar, ser pautado pelas autoridades dos diferentes poderes.