segunda-feira, 22 de julho de 2013

Bar do Parque - entre anões, profissionais do sexo e aposentados

Sol quente. Perto de 40º na Praça da República. Cerveja no Bar do Parque é o socorro. Apesar das férias o local tá cheio. Uma turma do Projeto Rondon circula na área. Ceará, um senhor encorpado, entre um gole de água e gracejos ironizando o Paysandu, comercializa triturador de verduras. Ao fim do expediente ele joga fora a tritura de dia inteiro: repolhos, cenouras, couves e beterrabas. Penso que poderia ter um destino mais nobre.
Taxistas, profissionais do sexo flutuam ali. O espaço na década de 1980 foi local de agrupamento de ativistas políticos e artistas. Duas vezes por mês, desde o ano passado, um coletivo intitulado Canalha ocupa a praça ao fim da tarde. Faz rodas de samba, choro e afoxé. Manifestos disso e daquilo e coisa e tal.
Não há energia elétrica. Gelo socorre o freezer. Um senhor de estatura modesta, cabeça branca disputa espaço no pequeno balcão. Ceará brinca com ele. Diz que uma senhora com quem ele fez sexo na semana passada foi a óbito, e que a causa mortis foi a língua. A língua do Orlando parece ser célebre entre os habitues do bar. Todos brincam.
Segunda cerveja. A prosa desfila. Iolanda, negra de uns 40 anos, corpo esguio engrossa o coro. Vestido negro com flores em cinza não oculta o sutiã e toscas tatuagens. A migrante de São Luís defende-se como profissional do sexo. Ela morou no bairro chamado Anjo da Guarda, próximo ao porto do Itaqui, que escoa o minério saqueado na Serra de Carajás, a sudeste do Pará.    
Iolanda pede cerveja para Orlando. Causos pipocam no intervalo de goles de cerveja. Ela alisa o pau do Orlando. Amassa. Ele ri. Fica vermelho. Não é de vergonha. Ela explica que é do trecho. Já andou meio mundo entre o Maranhão e o Pará.
Conta que um francês de 70 anos banca o apartamento dela. Orlando é aposentado e conhecedor de todos os puteiros do circuito da Cidade Velha. É uma pessoa habilitada para consultor no assunto, e a produção de guia de puteiros na Cidade Velha de Belém.
E tome amasso de Iolanda no pau de Orlando. Até o papo ser interrompido por um anão embriagado. O pequeno cidadão traja somente um short verde. Ele reclama por uma dose de cachaça. No Bar do Parque não vende pinga. Somente ovos coloridos, café, conhaque e coisa e tal.  Conhaque para o anão. Toma a metade do copo de única vez.
O nanico que diz já ter sido atleta do time de futebol Gigantes do Norte, um escrete de anões organizado pela Tuna Lusa faz graças para Iolanda. Elogia. Diz que ela é gostosa e coisa tal. Fica inconveniente, faz flexões com uma das mãos nas costas.    
Após quase meter a cabeça contra a parede no Bar do Parque resolve ir embora. A energia volta. O problema ocorreu na Av. José Malcher. Uns três caminhões operavam para equacionar o sinistro.
Terceira cerveja. Orlando aconselha que o melhor dia para visitar a Praia do Outeiro é segunda feira. Ele explica com entusiasmo o modus operandi. "A gente chega na barraca, pede uma cerva, algo para comer. Não tarda as meninas encostam e pedem algo. Meu chefe, a trepada morre por no máximo vinte contos. E todos ficam felizes”, arremata Orlando.
Pago a cerveja e sigo para contemplar a baía do Guajará no Ver o Peso. Mais cerva na barraca do finado PC. O carimbozeiro Curuperé e trupe encostam e puxam o som. Tento ajudar na percussão. Curiosos espiam. Vez em quando o chapéu circula. É mais de treze horas. A Preta chega. Pago a conta e vou embora para uns dedos de prosa.

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