segunda-feira, 4 de agosto de 2025

O jornalista Alceu Castilho reflete a partida de Ariovaldo Umbelino e o silêncio da mídia corporativa

 

Foto: Alceu Castilho

O professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, do Departamento de Geografia da USP, formou várias gerações de pesquisadores em geografia agrária. A partir de uma linha teórica muito clara, que ressaltava a existência e resistência do campesinato. (Não proletários rurais. Camponeses.)
Sim, ele foi o mais importante geógrafo agrário do país, o que não é pouco em um país agrário. E um país agrário dominado por aristocracias manipuladoras e violentas. Ariovaldo não se cansava de descrever a grilagem como elemento crucial para entendermos este país.
Ele foi um teórico incisivo e decisivo, inspirado na sociologia de José de Souza Martins. E ia a campo. Correndo riscos. E ajudando os movimentos sociais a medir seus territórios. A noção de território costuma ser invisibilizada por nossas elites e era central na práxis de Ariovaldo Umbelino.
Sua morte sem referências na imprensa comercial mostra o quanto este país se tornou estúpido, o mesmo país que menciona com respeito cínico a passagem, também neste sábado, de um dos jornalistas mais inescrupulosos das últimas décadas, um golpista qualquer.
Curiosamente, eu conheci Ariovaldo Umbelino de Oliveira fazendo uma entrevista sobre imprensa e questão agrária, em 2006. Depois fui cursar Geografia e sua disciplina na pós-graduação da USP, "Agricultura e Capitalismo no Brasil", para tentar não escrever muita bobagem em meu livro "Partido da Terra".
E entrei no mestrado sob sua orientação. Cursei de novo a mesma disciplina, enquanto ele se recuperava de um AVC. Sua memória espetacular não era a mesma. Olho retrospectivamente e detecto um certo ar melancólico, alguma frustração por não ter sido realizada a reforma agrária em nosso país.
Uma das coisas que posso dizer em respeito às décadas de trabalho desse pesquisador é que o De Olho Nos Ruralistas tem na linha teórica defendida por Ariovaldo Umbelino uma de suas principais referências. Os dados — os fatos — mostram que ele sempre esteve certo.
A imprensa brasileira invisibilizou Ariovaldo durante todo esse tempo porque a ela interessa invisibilizar o território e os motivos estruturais (a grilagem, a marcha destruidora do capitalismo) da destruição dos biomas, da desigualdade e da violência no campo. Ou, em outras palavras: porque é cúmplice.
A geografia brasileira está em luto e o país deveria estar em luto.

Ariovaldo Umbelino, presente!



A notícia do falecimento do Professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, nosso Ari, Professor Titular aposentado do Depto de Geografia da FFLCH USP, ocorrida ontem, 02 de agosto, pegou a todos de surpresa e nos deixou sem voz e sem chão. Uma perda que restará inconsolável para quem o conheceu e teve a oportunidade de com ele aprender.

Ari foi vanguarda e resistência. Uma das primeiras gerações de filhos da classe operária a chegar na Universidade, como estudante nos anos 1960 e como professor nos anos 1980, tendo antes atuado como professor do ensino básico e como geógrafo no IPT, onde contribuiu para a criação de um projeto de solo-cimento que servia a baratear os custos de produção das casas da classe trabalhadora.

Coragem, firmeza e coerência eram suas qualidades mais marcantes. Ousou convencer seu orientador, Pasquale Petrone, a acompanhá-lo na construção de sua tese de doutorado construída sob o método materialista dialético, a primeira “tese marxista” da USP e do Brasil, defendida nos anos de chumbo da ditadura. 

Teve coragem para enfrentar uma banca e o anfiteatro de Geografia lotado, em uma longa defesa onde, como ele sempre recordava, parte estava para apoiá-lo e parte para ver sua derrota. 

Ele venceu, e desde então, formou gerações de estudantes com sua geografia crítica, socialmente empenhada e comprometida com a transformação da sociedade em que vivia, deixando claro que o discurso da ciência neutra não tinha lugar na sua sala de aula e que, ao contrário, a sua Geografia era feita para dar luz e voz àqueles que até então haviam sido invisibilizados pela academia: os camponeses, indígenas, quilombolas e de todos os que enfrentam a exclusão decorrente da violenta concentração fundiária do campo brasileiro. 

E esse compromisso o levou a trabalhar com a CPT durante anos, estando presente na construção dos Cadernos dos Conflitos no Campo que há décadas fornecem dados sobre a violência do latifúndio no Brasil. Era um geógrafo comprometido com seus princípios e a ciência que produzia, firme no método, militante crítico, o que o colocou em posição divergente em relação àquelas adotadas por movimentos sociais em determinados momentos da luta. Essas divergências não o abateram, ao contrário, o estimularam a consolidar a sua produção na busca por uma sociedade mais justa e socialmente solidária. 

Suas aulas, na Graduação e Pós-Graduação, encantavam pelo domínio do conteúdo e eloquência do discurso. Era possível não concordar com suas ideias e posturas, mas não com a firmeza de seus argumentos. Seus trabalhos de campo, muitos deles feitos para a Amazônia com dias de duração, eram oportunidades ímpares de um contato com o Brasil real e de muito aprendizado para todos os que puderam deles participar. 

Na USP, e nas universidades por onde passou após sua aposentadoria, auxiliando na democratização da Pós-Graduação, formou milhares de estudantes. Criou o SINGA, simpósio que hoje caminha sozinho com seus 22 anos de existência, cujos 20 anos foram comemorados em 2023 no DG, a casa onde ele nasceu, o que o encheu de orgulho. 

Na Pós-Graduação orientou, como se orgulhava sempre de dizer, mais de 100 estudantes entre Mestres e Doutores, exclusas as supervisões de pós-doutoramento, o que certamente faz com que seus ensinamentos estejam espalhados por muitos lugares neste país. 

Um orientador preciso, que nos estimulava a caminhar com autonomia e liberdade para ousar e que com poucas palavras nos fazia ver além do que estava diante a nós. Como sua última orientanda de doutorado disse em uma aula, “um homem de poucas palavras e muitas ações”. 

Deixou uma produção científica densa e de peso e contribuições para o estudo da Geografia Agrária e das ciências humanas no geral que permanecerão ao longo do tempo. Sentiremos muita falta de sua risada farta e de suas ponderações precisas, por vezes intransigentes, mas seu legado permanecerá vivo conosco e seguirá sendo transmitido para as gerações futuras. 

Ari querido, o Agrária seguirá mais triste, mas você seguirá presente em nossos corações e práxis.

Veja interpretações sobre o agrário nacional AQUI

Ari, Presente!

 

Marta Inez Medeiros Marques 

Valéria de Marcos

quinta-feira, 24 de julho de 2025

50 anos da CPT: Infelizmente a CPT ainda existe

Roberto Malvezzi (Gogó)

21 de julho de 2025


Em São Luiz do Maranhão, a CPT celebra seus 50 anos, em forma de um Congresso. Um grande número de agentes pastorais e trabalhadore(a)s vão debater as origens, o presente e o futuro da CPT.

Nascida no contexto do Regime Militar, 1975, quando as empresas começaram invadir a Amazônia, logo se espalhou pelo Brasil, chegando aqui no São Francisco em 1976, quando era construída a barragem de Sobradinho, deslocando 4 cidades e 72 mil pessoas.

Na raiz da CPT estão pessoas como Pedro Casaldáliga, Thomas Balduino. Vivos ainda estão Ivo Poletto e Ranulfo Peloso. Suponho que eles tenham sido convidados para o Congresso, já que são a memória viva de um “kairós” que não se repete todo dia na história.

Outro dia conversava com meu compadre Ruben Siqueira e falávamos da importância das CPT em nossas vidas. Foi um presente de Deus participar por tantas décadas dessa pastoral, continuando agora voluntariamente, ainda que mais na retaguarda, colaborando na formação aqui na CPT de Juazeiro da Bahia e na equipe da própria Bahia. Essa história pessoal mudou nossas vidas, nos deu um sentido outro do que seja pastoral, do que seja o evangelho, do que significa ser discípulos (mesmo com tantas falhas) de Jesus de Nazaré.

Hoje há muitas mudanças. Aquela pastoral que nasceu para servir aos agredidos pelo capital no campo, hoje tem que enfrentar as questões de gênero, de “raça”, ambientais, além das questões fundiárias. Ela que nasceu do impulso profético desses homens e mulheres únicos na história, agora experimenta a perda de seus precursores de origem, temos uma nova geração de agentes. Hoje temos poucos padres, religiosas, leigos e bispos com a disposição de colocar suas vidas em risco para servir aos injustiçados do campo.

Além desses fatores, hoje há muitos movimentos sociais no campo, como o MST, MAB, MPA, movimentos agroecológicos e o próprio sindicalismo rural. De alguma forma, dão respostas a muitos desses problemas do campo que antes estavam sob a responsabilidade da CPT.

Por outro lado, hoje o capital do campo é transnacional, ligado ao nacional, como as mineradoras, as empresas solares, eólicas e a expansão violenta do agronegócio nas terras públicas, territórios indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais.

Além de menos agentes, há menos recursos financeiros, o que torna precário muitas vezes o trabalho das equipes. Nesse momento da história, há um corte violento nos recursos das equipes por todo o Brasil.

Infelizmente a CPT ainda existe, porque se houvesse justiça no campo do Brasil ela não precisaria existir. Por outro lado, felizmente ela existe, porque a situação do campo ainda demanda a presença da CPT. Então, que ela exista enquanto for necessária.


domingo, 20 de julho de 2025

Curso de Geografia da UNB promove vivência na Amazônia

As atividades ocorrem entre os dias 18 de julho a 10 de agosto nos estados do Pará, Amazonas e Roraima

 

Saída da comitiva de Brasília, dia 18 de julho. 

Perto de 40 pessoas entre estudantes e professores do curso de Geografia da Universidade de Brasília (Unb) ficarão três semanas conhecendo parte da diversidade de três estados amazônicos, onde constam na agenda o Pará, Amazonas e Roraima. 

Trata-se do projeto Vivência Amazônica, organizado pelo Projeto de Extensão vinculado ao Núcleo de Estudos Amazônicos (Neaz), sob a coordenação do professor Manuel Pereira de Andrade.

A saída de Brasília ocorreu no dia 18 de julho, a previsão do encerramento é o dia 10 de agosto.  A comitiva aporta na cidade de Santarém na noite do dia 20, domingo.  O grupo  saiu de Brasília um dia depois da Câmara aprovar a PL da Devastação, o Projeto de Lei 2.159/2021. 

Trata-se da décima versão do projeto, que iniciou no ano de 2016. A ideia é possibilitar aos discentes a convivência com indígenas, quilombolas, extrativistas, agricultores/as familiares e camponeses.

Os/as estudantes terão a oportunidade de realizar algumas atividades acadêmicas e de extensão em uma parceria entre o Núcleo de Estudos Amazônicos (NEAz/CEAM/UnB) e o Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Fronteiras (PPGSOF) da Universidade Federal de Roraima (UFRR), no período de 28 de julho a 2 de agosto.

Roteiro da Vivência Amazônica

Nestes eventos o Neaz  apresentará alguns dos trabalhos realizados durante a disciplina “Tópicos Especiais sobre a Amazônia” e pelo projeto de extensão Vivência Amazônica.

O mesmo núcleo é responsável pela realização do Fórum Internacional sobre a Amazônia, que este ano ocorreu no mês de junho. Saiba mais sobre o FIA AQUI

 

Mais informações

Professor Manuel Pereira 61 98131-9813

Jean Muller – 61 98347 1138 (discente)

Jabuti acadêmico: obra que retrata saga de extrativistas assassinados no Pará é semifinalista do Jabuti

O professor  da UFBA, Felipe Milanez, assina a obra Lutar com a floresta, publicada pela Editora Elefante



José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foram assassinados em uma manhã do dia 24 maio de 2011, no município de Nova Ipixuna, sudeste do Pará. Região imortalizada onde mais se mata em disputas pela terra no Brasil.

Quando do anuncio do caso na Câmara Federal, a bancada ruralista festejou como se fosse uma final de campeonato. O mesmo Legislativo que acaba de passar a boiada sobre o licenciamento ambiental no ano em que a Amazônia sedia a COP. 

Como outros casos de execução de dirigentes sindicais, ambientalistas e defensores de direitos humanos, todos sabiam, até os carrapatos dos bois das terras griladas.

O nome do casal constava em lista de pessoas ameaçadas de morte,  a cada ano divulgada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). Nada foi feito.  José Cláudio chegou a denunciar as ameaças que o casal vinha sofrendo durante o evento Red Amazônia, realizado em Manaus, meses antes da tocaia.

Os extrativistas moravam no Projeto de Assentamento Agroextrativsita (PAE) Praialta Piranheira.  No contexto das contradições das disputas pela terra, o sul e o sudeste do Pará contabilizam um pouco mais de 500 projetos de assentamentos da reforma agrária (PAs).

Maria do Espírito Santo e José Cláudio. Foto: Felipe Milanez


O Praialta Piranheira é o único projeto com esse viés ambientalista. Até a criação do PAE os moradores contaram com a mediação de inúmeros sujeitos do campo democrático, onde constam frações da Igreja Católica, a exemplo da CPT, UFPA, Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), ONGs, partidos políticos, Conselho Nacional dos Seringueiros, entre outros sujeitos.  

Por longo tempo o Laboratório Socioambiental do Araguaia-Tocantins (LASAT) prestou assessoria com relação ao manejo florestal de base comunitária.  Na época o Lasat era vinculado a UFPA. Com relação ao manejo florestal de base comunitária, um conjunto de instituições propõe há mais de dez anos a efetivação de uma política estadual.  Saiba mais AQUI

A obra – o jornalista, documentarista e sociólogo Felipe Milanez assina a obra Lutar com a floresta, lançando em maio de 2024, pela Editora Efefante.

Ela resulta de trabalho de doutoramento realizado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, sob a orientação de um time de primeira linha, onde constam o economista Martinez Alier (Universidade Autônoma de Barcelona), a historiadora ambiental Stefania Barca (à época Universidade Coimbra) e o antropólogo Alf Hornborg (Universidade de Lund), em 2015.

O professor da Universidade Federal da Bahia esclarece que não se trata de uma biografia ou trabalho etnográfico. Mas, sim de um esforço em dialogar com as ideais do casal em defesa da floresta e a mobilização em um projeto para além das fronteiras do Antropoceno.

Sob a inspiração do sociólogo José de Souza Martins, Milanez sintetiza na apresentação do livro que “Não se trata apenas de um estudo de caso, mas também de um estudo a partir de um caso, uma investigação que utiliza um caso crucial enquanto analisador-revelador das contradições da sociedade capitalista”.

Com vistas a manter acesa a luta do casal, as famílias dos extrativistas criaram um instituto em defesa da memória dos mártires. Entre outras atividades, todo mês de maio a instituição realiza a Romaria dos Mártires da Floresta.  Ano passado Milanez lançou o livro em Marabá.

O livro de Felipe Milanez para além de iluminar sobre o martírio de José e Maria, a inoperância do estado em garantir a vida dos extrativistas, alerta para a possibilidade da construção de um projeto para além da apropriação privadas das riquezas e dos saberes da região.

O livro ombreia outras contribuições que buscam a edificação de um diálogo marcado pela horizontalidade entre os sujeitos e os diferentes saberes.


Adquira o livro AQUI

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Almeirim – por entre grilagem de terras, grandes projetos e o queijo manteiga


Rogerio Almeida


Relampeou mais de milhão antes da precipitação da tempestade. Eu sei que é julho, contudo, ainda chove. Águas grandes a arrebentarem os diques de olhos cansados. Agitado riomar Amazonas nos beirais de Almeirim, que soa menos quente que Santarém, Baixo Amazonas paraense.  

Miniaturas de madeira de tucunaré, pirarucu, tambaqui, acari e arraia estão expostos em um logradouro dedicado à produção artesanal e comida à beira do rio. O poder público o denomina de espaço gastronômico.   

Em ligeiro dedo de prosa com o artesão de carpintaria, ele explica que são estes os principais peixes no município, tanto no rio Amazonas, quanto no Paru e no Jari. É o derradeiro que aparta o Pará do Amapá.  Uma geografia de grilagens de terras, grandes projetos, conflitos e outras dinâmicas.

Apesar dos indicadores do IBGE sinalizarem para a hegemonia de pessoas negras e pardas na composição racial do município, a gestora é uma senhora abastada de pele clara oriunda do Monte Dourado, a cidade industrial do Projeto Jari. O distrito é uma cria dos militares anos de 1960.

Os educadores das escolas básicas apontam que o racismo é a questão mais delicada no cotidiano da educação. Chame o Benedito, santo padroeiro da cidade, a rivalizar a hegemonia com Nossa Senhora da Conceição. A igreja do santo preto é bem ajambrada.

À beira do rio negocia-se de tudo: queijo, camarão regional, muitas frutas e farinha. Cinco contos o litro da baguda. 

A baguda é tida como a modalidade mais bruta. A mais bruta é o meu xodó. Minha preferida para o desjejum com ovo ou o que deixou de ser consumido no dia anterior.

Negocia-se de tudo à beira do rio: frutas, búfalos, saudades, distâncias, tristezas e alegrias. O meio fio da avenida principal da cidade está caiado em tons pátrios: verde e amarelo. Tá tudo desbotado.

Comercio de farinha na orla de Almeirim. 
À beira do rio em dia de sol, uma nau carrega um rebanho  bubalino. Terá nexo com a abundante negociação do queijo à beira do rio?? O queijo manteiga e o coalho são os principais tipos.

Os carrinhos estão sempre ali à espreita da embarcação que se aproxima do cais. 50 contos o quilo. Contudo, os comerciantes negociam pedaços em sacos menores.

À beira dos rios Amazonas, Paru e Jari correm naus de todos os tamanhos, colorações e fins. Impossível avistar a outra margem do rio. Amarelo barro. Amarelo barro de gente. 

À beira do rio não encontrei pedintes. Rareia pés inchados. Um aqui, outro ali. Uma trupe de coroas disputa um bilhar. Crianças, jovens e adultos a andar, correr e pescar. Todas as ladeiras levam à beira do rio.

Longe demais das capitais, teatros, palácios e catedrais, o município dista quase mil quilômetros de Belém. Viagem para mais de dia. E quase sete mil quilômetros de sua homônima em Portugal. Tanto mar, tanto riomar...

Almeirim é homônimo de Portugal. Política colonial de Pombal para controle territorial. Tal ferro em brasa em coro do gado. Braço forte da coroa portuguesa, Pombal nomeou o mano como governador do Grão Pará e Maranhão, Mendonça Furtado.

O cabra danou-se a nomear no Maranhão, Pará e Amazonas vilas com nomes de cidades de Portugal. Assim brotaram Boim, Alter do Chão, Santarém, Alenquer, Aveiro, Faro, Monte Alegre, Bragança, São Caetano de Odivelas e tantas outras.

35, 36 mil pessoas é a população estimada da cidade. Transporte coletivo inexiste. O cavalo ferro é o principal meio de transporte. Moto de tudo que é tamanho e jeito. Capacete é luxo. Assim como a habilitação. Carrega-se toda a família. Avistei quatro pessoas em único veículo.   

Carrega-se de tudo: antena parabólica, isopor, sacos de gelo, bicicletas e o escambau a quatro. Há método para carregar algumas coisas na moto em Almeirim. O carona fica de costas para o condutor, e isso facilita que a pessoa que vai na garupa segure qualquer tipo de quinquilharia.

Desprovido de saneamento básico, coleta regular de lixo e aterro sanitário, fala-se quase nada sobre a COP no município, que em breve abrigará uma usina termoelétrica. Interesses capitais.

Bala com bala. O município integra a rota internacional de tráfico de drogas. Em janeiro policiais trocaram tiros com policiais. Trocando em miúdos, uma equipe fazia escolta para os traficantes que perderam perto de 200 quilos de entorpecentes.

Reportagens da época dão conta que a droga era transportada no barco-geleira Princesa Joanny. Nele  foram encontrados documentos de Joseldo Rodrigues dos Santos. A escolta das drogas era composta pelos agentes públicos: Sindeval Santos Miranda, 1º sargento da Polícia Militar do Pará (PMPA) aposentado; Valter Santos de Miranda, do Corpo de Bombeiros e Fernando Guilherme Lorenz Pereira, investigador da Polícia Civil do Pará. Até onde se sabe, todos ainda estão presos em Belém.

Empate do Jari - Ainda chove. Faz 10 anos que visitei o município. A missão residia em conhecer e reportar um empate realizado na comunidade de Pilões. Para quem não sabe, empate é uma tecnologia social forjada pelos seringueiros e seringueiras dos varadouros do Acre.

Tralhas dos extrativistas na comunidade de Pilões quando da realização do empate em 2014. Foto: Rogerio Almeida

Trata-se de evento de remotas eras do século passado, quando Chico Mendes ainda por cá respirava, antes de ser tombado pela sanha de grileiros. Um deles refugiado no estado do Pará, em Medicilândia, a chefiar um partido da extrema direita, PL. Trata-se de Darci Alves Pereira. “O império da lei há de chegar no coração do Pará”, ah Caetano....

Uma ironia, posto o nome da cidade representar uma referência ao mais sanguinário ditador do Brasil, Emilio Garrastazu Médici. Em diferentes contextos, tanto o momento histórico pombalino, quanto o militar priorizaram eternizar os seus, territorialmente. Construção de sentidos capitais.

O empate consistia em formar uma parede humana com vistas a evitar a destruição da floresta. O empate no Jari foi realizado às vésperas do natal de 2014.

A tática da empresa Jari era otimizar o período e se apossar de um castanhal do povo na quadra natalina na comunidade de Pilões. Naquela época, o grupo paulista Orsa controlava a iniciativa. O grupo tem como expediente vender a estampa de ambientalmente responsável e outras milongas do marketing verde.

A missão foi dada a trabalhadores terceirizados, que foram carregados por três ônibus. A população tomou conhecimento da operação da empresa e empreendeu a ação de r-existência e defesa territorial.

Não houve violência entre as partes envolvidas. Extrativistas e trabalhadores comungaram o nascimento de Jesus. Os ministérios públicos realizaram a mediação das refregas.

Uma década vencida, o castanhal continua de pé. Os moradores forjaram uma associação e buscam verticalizar a produção das riquezas da região, e assim incrementar a renda. O caso ganhou notoriedade nacional.

O horizonte da comunidade é a efetivação de um projeto de assentamento agroextrativista. Uma árdua tarefa sempre marcada pela morosidade das instituições públicas.

Situação equivalente ocorre em Santarém com relação ao PAE (Projetode Assentamento Agroextrativista) Lago Grande, onde a tensão é com a mineradora Alcoa, que extrai bauxita há 20 anos no município Juruti e exploradores ilegais de madeira.

O serviço de internet já alcançou a comunidade de Pilões. A comunidade vizinha aderiu à bandeira agroextrativista. Como é de praxe nestas tensões, a pessoa ou o grupo que exerce a linha de frente é perseguida pela grande corporação. No Pará a Vale processa mais de 100 pessoas por reivindicarem direitos e por pelejarem em defesa dos seus territórios.

A grilagem de terras no Jari – remete ao século XIX a presença do cearense Júlio de Andrade na região do Jari, que tomou na mão grande mais de 3 milhões de hectares nos estados do Pará e Amapá.

O pontapé inicial do crime sucedeu quando o sogro Manuel Maia da Silva Neno concedeu os primeiros títulos de propriedade. Após sucessivos conchavos com políticos, o coronel foi alçado à categoria de Czar da região, o rei das plagas de Mazagão/AP à Almeirim/PA.

Um crasso exemplo que conforma a formação do Brasil, onde as fronteiras do público e do privado, lícito e ilícito são sobrepostas em negociatas de alcova entre frações de classe. Ao melhor estilo da parte majoritária do nosso Congresso. Em terras paraenses, até a esposa do pastor agora tem dia a ser celebrado com as bençãos do Barbalho. Ah, está terra ainda de cumprir seu ideal...

A área apossada pelo político Andrade era maior que o território do estado de Sergipe, umas quatro vezes o território do Distrito Federal e maior que a Bélgica.

O coronel, nascido em São Francisco de Uruburetama/CE, tornou-se político (senador) e comprou o título de coronel junto à Guarda Nacional.  

A desgraça dos extrativistas fez a fortuna do coronel, que além de proprietários de terra,  embarcações e gado, negociava castanha, borracha, balata, andiroba, coro de onça, coro de bicho, coro de gente, entre outras riquezas naturais.

O tempo era do boom da economia gomífera. O aviamento encarnava a ferramenta de escravização por dívida dos extrativistas. É famosa a máxima de Euclides da Cunha, em que vaticina: "o seringueiro é um homem que trabalha para escravizar-se”.

Em artigo sobre a questão, o professor Márcio Meira (2018) esclarece que o aviamento estabelecia um vínculo de dívida entre o aviado e o aviador, o freguês e o patrão, este último definindo unilateralmente os preços tanto das mercadorias que “vendia” quanto dos produtos que “comprava”.

Este aspecto econômico e político, a constituição de uma dívida impossível de ser paga, forjou o surgimento de elites “brancas” que exerciam total controle e dominação da sua rede de fregueses ou aviados, esclarece o professor.  

Em síntese, o extrativista encontrava-se na base da pirâmide na produção de excedente de riqueza da economia baseada no extrativismo. Nela constavam o aviador no município, que pegava recursos do aviador da região, que pegava recursos de casas de aviar da capital do estado, que negociava com comerciantes dos principais centros econômicos de outras regiões mais desenvolvidas do país, que pegavam recursos de bancos nacionais e internacionais.

Teatros, palácios, rico casario colonial e catedrais de Belém e Manaus estão encharcados de sangue de nativos e migrantes. Em particular, nordestinos.  O extrativista era vampirizado por todos. Ainda assim, os que escapavam de bala, de bicho ou de malária batiam coxa em forrós.

No caso de Almeirim, sucedeu a exploração da balata, como recupera o cordel de Raimundo Benedito da Silva, Os Balateiros republicado em 2016 pelo projeto de extensão da UFOPA, do curso de Antropologia. Uma iniciativa da professora Luciana Carvalho.

No livreto de literatura de cordel, o autor enfileira inúmeras casas de aviamento do município, onde constam a Casa Aurora, controlada por Alexandre Ferreira, a Casa São Sebastião de propriedade do libanês Ofir Farah Sadala, a Casa Preferida, da família Nilo Costa e Irmãos. Assim como em Alenquer, tem-se ainda a parentela da família Gantus em Almeirim.  

Capa do livreto de cordel de Raimundo da Silva
Silva festeja os parceiros, onde destaca entre os celebres balateiros Zé do Pau, Moraeszinho, Duca Moraes, Petilique, Periquito, Zé Máximo craques das matas, corredeiras e de evitar onças.

No tempo do império do rádio de pilha, a festa da Anacleta era o oásis após a extenuante labuta. Em tempos de arraial um conjunto de Monte Alegre fazia as honras. Silva escala o escrete Beiço de Burro no Sax, Peixe Boi na bateria, enquanto Zé Pererê mandava no Banjo, e Candeeiro atacava no pandeiro.

Quase ao fim do livreto, Silva advoga: “Recorremos ao passado/Aonde fomos buscar/Inéditas informações/Muito rica e popular/Única fonte segura/Não podemos duvidar/De nossos conhecimentos/Outro não poder dar. Sobre a temática de oligarquias e o aviamento já é considerado um clássico a obra da professora Marília Emmi, A Oligarquia dos Castanhais

Em terras do Jari a grilagem é um novelo que desconhece fim. A terra grilada pelo coronel Andrade será repassada para um grupo português, que em seguida, será concedida para o multimilionário estadunidense Daniel Ludwig. Uma política entreguista dos militares. 

Ele promoverá um dos maiores desmatamentos na Amazônia, para a implantação de monocultivos, cujo objetivo era a produção de celulose. Uma festa do agrotóxico. Em uma verdadeira epopeia, uma planta industrial será transportada do Japão até o sertão amazônico.

A ditadura empresarial-militar empreendeu todo tipo esforço para facilitar a presença do grande capital na região: concessão de terras, financiamento, renúncia fiscal e por aí vai. Um mar sem fim de benesses que a sociedade nacional socializa os custos.   

O distrito de Monte Dourado, separado do Amapá pelo rio Jari, foi a cidade industrial erguida pela empresa. Um recurso de controle da vida laboral e ociosa do empregado. Tudo era proibido, ao contrário do que ocorria em Laranjal do Jari, no Amapá. A babilônia.  Henri Ford havia inaugurado a tecnologia da cidade industrial nos anos 1930/1940 na fronteira de Itaituba com Aveiro. 

O jornalista Lúcio Flávio Pinto assina um livro sobre o assunto. O autor declara que é o melhor que realizou, posto ter contado com uma bolsa de uma universidade estrangeira, onde também lecionou.

Passado um mundaréu de tempo, não há nada de novo no front além de projeto com a mesma estampa, onde predomina a pilhagem, que a tudo fagocita e converte em mercadoria, até o riso da tapuia após a vitória do Garantido no festival.

A viagem – Santarém. 5h. Dia 30 de junho. As águas ainda estão grandes. O estado do Amazonas contabiliza os desabrigados. O destino é Almeirim. O deslocamento entre Santarém até lá de ferry boat, ou uma embarcação convencional costuma durar umas 20 horas. Em viagem de lancha, a jornada cai para seis ou sete horas.   

Carrego uns livros no embornal, onde destaco a obra A educação ambiental anticapitalista de Henrique Novaes, editado pela Boitempo.  Um socorro para as lonjuras da viagem na lancha Gold Star. 

Cento e tantos assentos é a capacidade. Na manhã do dia 15 de julho a embarcação sofreu um sinistro quando passava por manutenção. Um operação com soldas. Após incêndio na orla de Santarém, ela explodiu.  

A lancha oferece serviço de bordo, café, almoço e água são negociados. É vedada a venda de cerveja.  O serviço de internet custa R$50,00, apesar da passagem ser mais de R$300, enquanto na embarcação convencional ou ferry boat o preço cai pela metade. No ferry é permitido a venda de cerveja.

Monte Alegre foi a primeira parada. Em seguida  Prainha, até alcançar Almeirim antes do meio dia. Macapá é o destino final, em Santana. Faz sol. No porto de Almeirim um senhor negociava um queijo denominado de manteiga. Uma criança passou parte da viagem a lembrar os pais que desejava comprar um bom naco da iguaria.

Santarém/PA, Vila do Conde/PA, Itaituba/PA, Santana/AP, Itacotiara/AM, São Luís/MA integram o projeto Arco Norte, que visa consolidar a região como um corredor de exportação de commodities. Nada mais, nada menos que o atual governador do estado do São Paulo operou como consultor, tendo na retaguarda a nata do barroco nacional viciada em privilégios e patrimonialismo.  

Um técnico da Adepará informa que há pelo uns três pedidos de certificação de queijo. Um outro da Emater não sabe precisar a quantidade da produção do queijo, e nem o número exato do rebanho de búfalo, estimado em 50 mil cabeças. É desconhecido se a produção é oriunda do pequeno, médio ou o grande produtor.

Venda de queijo na orla da cidade de Almeirim. 

Barco da Fazenda Dom Bosco. Orla de Almeirim. 

Um técnico de uma instituição de assessoria rural do estado esclarece que os custos de levantamento de dados é elevado. E que seria necessário a criação de uma espécie de consórcio para realizar o trabalho. No município, a Ufopa oferta os cursos de Direito, Geografia e Engenharia Civil.  

O servidor público defende que o queijo de Almeirim é melhor do que o produzido na região do Marajó. Este já certificado e com registro de localização geográfica, reconhecido nacionalmente, comercializado em supermercados e casas do gênero. Além de incorporado ao universo gourmet, como outras iguarias amazônicas, aos moldes do açaí, cupuaçu, pirarucu e a pupunha.

A cadeia produtiva do queijo encarna uma possibilidade de desenvolvimento para o município?

Na orla um carrinho de mão fazia o papel de banca. Não consegui verificar o valor. A gente não dormiu por conta do horário de saída da embarcação de Santarém, 5h, o que implicava em levantar as 3h. Missão antecipada em uma hora por conta de um incidente doméstíco: o nosso cão vitimou um felino. Tomar o corpo da vítima do cão tomou um bom tempo. Missão quase impossível.

A embarcação de ida era confortável. As poltronas denotavam pouco uso e eram largas.   A lotação não estava completa, o que possibilitou o uso da poltrona vazia, leitura e mesmo uso de computador.  

Já a volta foi um suco de puro aperreio.  O embarque ocorreu as 11h.  O que impedia a realização da refeição. Pelo fato de a embarcação vir de Santana/AP, já estava lotada. A lancha era menor e com maior tempo de uso. 

Em outras palavras, uma festa de desconforto. Poltronas surradas e acanhadas. O que promovia dores nas costas.  Em alguns momentos era recorrente várias pessoas ficarem em pé no corredor por conta da péssima qualidade do assento.

A venda duplicada de assentos foi outro dissabor. Em todos os pontos de parada ocorreram rusgas entre passageiros e a tripulação. Cada parada dura menos cinco minutos. O embarque em Almeirim foi um desafio.

Coincidiu de a lancha e uma embarcação de uns três andares chegarem no mesmo momento. O que quase impediu o nosso embarque. Além de passageiros, afrontam a cidadela toda ordem de vendedores. Em particular, os negociantes de queijo.   

Nestes tempos, as águas grandes exigem do condutor da embarcação grande habilidade, por conta dos troncos de madeira que são arrancados pela força das águas do Amazonas. Amarelo barro. Amarelo barro de gente.

Em tempos de COP, o setor ambiental do estado acaba de autorizar a construção de uma usina termoelétrica no município. Será movida a gás. Mas, aí já são outros quinhentos. Outros dedos de prosa.

Rogerio Almeida- anima o blog, é professor da UFOPA, é pós doutorando da UFSC, com orientação do professor Marcos Montysuma.


sábado, 28 de junho de 2025

Ditadura na Amazônia: Comissão de Direitos Humanos realiza audiência pública em primeiro de julho

Em espaço inóspito para os setores populares da sociedade, Câmara escutará filhos/as e viúvas de camponeses executados durante a ditadura no Pará. 



Filhos e filhas de dirigentes camponeses assassinados durante a ditadura participam da audiência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, no dia 01 de julho, a partir das 10h.

Elias Sacramento, professor de História da UFPA em Cametá, Luzia Canuto, a mestre em História e professora da rede pública em Rio Maria, sul do Pará, Raimundo Junior e os filhos do gatilheiro Quintino Lira, Arlete e Alquides participarão da oitiva. 

Todos tiveram familiares mortos durante a ditadura civil-militar, em particular nos anos de 1980, considerado o mais letal na luta pela terra no Pará. Junior é filho de Raimundo Ferrera Lima, "Gringo", agente da CPT e dirigente sindical. Gringo foi o primeiro líder camponês assassinado no sul do Pará. 

Além dos filhos/as de dirigente executados por grileiros, pistoleiros e em muitos casos por agentes públicos da segurança pública do estado, participa da audiência o advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Marabá, José Batista Afonso.

Viúvas, filhos/as, irmãos/as entre outros parentes e amigos das pessoas que tombaram por lutarem pela reforma agrária, meio ambiente e direitos humanos no Pará estão empenhados há alguns meses em buscar reparações às famílias que perderam os seus entes queridos.

O derradeiro encontro ocorreu no fim de maio, em Redenção, por ocasião da audiência pública que discutiu o trabalho escravo na fazenda da Volkswagen, no município de Santana do Araguaia, nos anos de 1980. 

A empresa alemã é acusada de empreender trabalho análogo à escravidão no Pará e a ceder seus espaços em São Paulo para a realização de tortura de sindicalistas opositores ao regime. O caso tido atenção para imprensa internacional.

Execuções de dirigentes, chacinas de camponeses, execuções de apoiadores, onde constam advogados e religiosos, grilagem de terras, desmatamento são alguns dos desdobramentos dos projetos desenvolvimentistas empreendidos pelos militares e o grande capital na Amazônia, em particular no estado do Pará, com ênfase na região sudeste.

O conjunto de crimes perpetrados contra camponeses e outros sujeitos, a exemplo e indígenas e quilombolas é ungido pelo manto da impunidade, como esclarece a obra recente A lua pela terrana Amazônia: mortos na luta pela terra! Vivos na luta pela terra!.


Resultado de projeto de extensão da UFOPA em dialogo como os movimentos sociais e instituições de defesa dos direitos humanos, a obra de quase 800 páginas, registra boa parte dos crimes realizados contra os camponeses. Professores, pesquisadores, militantes, advogados, filhos, viúvas e sobrinhos entre outros assinam os trabalhos.

O livro foi lançado pela ocasião da passagem dos 40 anos do advogado Gabriel Pimenta.  Quatro décadas foram necessárias para o EstadoBrasileiro fosse responsabilizado pelo crime e algumas compensações aos familiares e à memória do defensor de direitos humanos efetivadas.

A responsabilização resulta de inúmeras mobilizações em escalas nacional e internacional. Pimenta foi executado em via pública por volta de meio dia na cidade de Marabá, após sair de um congresso partidário.    

Paulo Fonteles e João Batista, ambos parlamentares estaduais e igualmente advogados de posseiros tiveram o mesmo destino de Gabriel. Todos eles foram executados em via pública. O que desnuda a certeza de impunidade.

Sobre o Gatilheiro Quintino Lira, a jornalista e pesquisadora sobre o tema Lilian Campelo acaba de defender uma dissertação no programa de pós graduação de Comunicação Social, da UFPA.

O trabalho foi aclamado com louvor e recomendado para publicação. Quintino atuou na fronteira do Pará com o Maranhão, região do Gurupi. Enfrentou grileiros e pistoleiros em defesa de camponesas em refrega na Gleba Cidepar, até ser morto pelos policiais.  

Sobre a audiência saiba mais AQUI

O evento terá transmissão online. 

Mais informações - Elias Sacramento - (91) 99176-8821

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Maranhão: camponeses resistem à expropriação da empresa Suzano

 

Nesta manhã calorosa de terça feira(24/06), na cidade de São Pedro de Água Branca – MA, camponeses pobres sem terra se levantaram para protestar contra a latifundiária Suzano S.A., uma dentre as empresas mais poluidoras do Estado do Maranhão e opressora de trabalhadores em conluio com os órgãos públicos federais, estaduais e municipais. 

A manifestação ocorreu na Praça Central da cidade, organizada pelo acampamento Palmeiras e contou com a participação do presidente e dos membros da Associação da ocupação Canaã, da ocupação Sapucaia, moradores da cidade, representantes do CEPASP, do Coletivo de Defesa da Palestina, do Coletivo Taca Tinta e do SINDIUNIFESSPA-Sindicato dos Professores da Universidade Federal do sul e Sudeste do Pará.

 


A manifestação foi motivada pela necessidade de unir forças em defesa das terras ocupadas e reivindicadas por camponeses pobres sem terra, há mais de 30 anos vivendo e plantando nas áreas, e que em forma de grilagem, a Suzano se diz proprietária e junto ao poder judiciário conseguiu liminar para despejar em torno de 600 famílias dos municípios de São Pedro da Água Branca e Vila Nova dos Martírios, ambos no Maranhão.

Os representantes das famílias camponesas denunciaram a apropriação de mais de 3 milhões de hectares de terra feita pela empresa na região, enquanto os camponeses pobres sem terra não têm direito a sequer 20 hectares para garantir seu sustento, o que leva a uma crise de falta de alimentos e elevação do preço dos produtos nas prateleiras dos supermercados. 

Denunciaram também o grande desmatamento, a destruição e poluição dos mananciais com uso intensivo de venenos (agrotóxicos), a poluição dos solos, a escassez de água superficial e subterrânea que já se faz sentir na região,devido o plantio de eucalipto em toda a área, sendo essa árvore uma grande sugadora de água e destruidora do solo. 

Mais ainda, as famílias sacrificadas e permanentemente ameaçadas, encontram-se totalmente desamparada, devido aos prefeitos dos dois municípios se colocarem contra elas e em defesa dos interesses da empresa. Mesmo assim, a Associação do acampamento Palmeira protocolou na Prefeitura e na Câmara de Vereadores, documento chamando atenção dos poderes para a situação desastrosa e cobraram uma posição. 

A manifestação não foi só de denúncia e lamentação, os representantes das famílias de camponeses se posicionaram firmemente no sentido de fortalecer a luta em toda a região em defesa de suas terras, cobrar permanentemente do poder judiciário que seja feita justiça e que a luta continuará firme contra a Suzano, como também contra os latifundiários da soja e todos que se posicionam como inimigos do povo. 

Estenderam pela praça muitas faixas no sentido de chamar atenção da população para a luta das famílias em defesa de seus direitos, uma delas dizia: NINGUÉM COME EUCALIPTO! FORA SUZANO! A TERRA É NOSSA! 

As organizações acima citadas que se fizeram presentes também se manifestaram em apoio irrestrito à luta enfrentada pelos camponeses na região, somada às diversas lutas do campo e da cidade nos Estados do Maranhão e Pará, na Amazônia, no país como um todo, como também, em defesa da vitoriosa Resistência Nacional Palestina e de todos os povos acossados pelo imperialismo mundo a fora e que têm resistido de todas as formas possíveis.

Marabá, 26 de junho de 2025.

Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular - CEPASP

 

domingo, 22 de junho de 2025

Suzano: gigante do setor de celulose ameaça sobrevivência de camponeses no Maranhão

Um ato em defesa dos territórios camponeses será realizado na terça-feri em São Pedro da Água Branca


Em São Pedro de Água Branca e Vila Nova dos Martírios, mais de 600 famílias de camponeses pobres sem terra estão ameaçadas pela empresa Suzano S.A., do ramo de papel e celulose, na área da chamada Gleba 01. A mesma situação acontece em Imperatriz, onde mais de 500 famílias ocupantes da área conhecida como Viva Deus, estão ameaçadas pela mesma dita empresa, no estado de latifundiários, o Maranhão.

A empresa Suzano que desde o ano de 1980 vem acumulando terras na parte oeste do Estado do Maranhão já acumula em torno de um milhão e trezentos mil hectares (1,3 milhão de ha), principalmente nos municípios de Imperatriz, Açailândia, Bom Jesus das Selvas, Buriticupu, São Pedro da Água Branca e Vila Nova dos Martírios), quase toda área coberta com plantio de eucalipto.

Além do grande crime contra a segurança alimentar a Suzano também comete um enorme crime ambiental devido o eucalipto ser um dos maiores sugadores de água superficial e subterrânea e que seu forte aroma expulsa todos animais originários da floresta amazônica. E que estes plantios seriam para implantação de uma planta de extração de celulose, tal planta foi implantada a 15 km da cidade de imperatriz que vem funcionando com significativos danos ambientais.

Das quatros áreas ameaçadas pela empresa e pelo Estado a de maior prejuízo tem sido o Acampamento Palmeiras, com 120 famílias, no município de São Pedro de Água Branca. Essas famílias, foram despejadas depois de dois anos cultivando a terra, tiveram seus barracos e plantações destruídas (macaxeira, banana, abacaxi, caju, manga, abacate, abacaxi, acerola, abóbora, arroz...), mas continuam acampados na área da antiga fazenda Jurema, sob pressão dos “guardas” da empresa fortemente armados rondando o acampamento e coagindo as pessoas nas estradas, como também a empresa está infestando a região com uso de venenos.

No dia 9 de maio deste ano o Supremo Tribunal Federal havia suspendido a reintegração de posse concedida pelo juiz Delvan Tavares, da Vara Agrária de Imperatriz, mas no dia 30 do mesmo mês, o mesmo Supremo voltou atrás e manteve a reintegração de posse, remarcando-a para o dia 30 de junho.

Diante da situação bastante coercitiva, vimos através desta nota repudiar todas atitudes dos poderes constituídos que se posicionam em defesa do crime ao meio ambiente, crime à segurança alimentar e contra centenas de famílias de camponeses pobres sem terra na sua maioria comprovadamente ocupantes das terras muito antes da Suzano iniciar sua apropriação das terras na década de 80.


Conclamamos a todos defensores da luta camponesa pela terra e dos direitos humanos a somar conosco nesta batalha em defesa das famílias camponesas em lutas e contra o latifúndio e a conivência dos poderes constituídos do Estado.

Nota do Cepasp - Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular- Marabá/PA