sábado, 21 de março de 2020

Crônica do trecho em tempo de crise e cheia de rios


Orla de Santarém-PA

Antônia beira a casa dos 60 invernos. Padece de hérnia de disco. Tem um joelho bichado. É uma senhora de estatura mediana. Boleada, com se diz por aqui. Maranhense de Bacabal, lá no meiâo do estado. Bacabal é uma cidade marcada pela pecuária.

Aportou no garimpo de Água Branca, no município de Itaituba, no oeste do Pará na década de 1980. No auge do garimpo. Não tardou, correu para Alenquer, até alcançar Curuá. Todas são cidades irrigadas pelo caudaloso Amazonas.

A senhora é mãe de cinco filhos, sendo duas mulheres e três homens. Somente um dos rapazes mora com ela. Anda meio avoada da cabeça depois de uma temporada na capital do Amazonas, onde moram as meninas. O tratamento é realizado com o guia espiritual. A proximidade com Manaus colabora com o processo migratório. A viagem de barco dura três dias.

Antônia viajou quase dois dias. Cortou o estado de oeste ao sudeste para encontrar outra parcela da família, que mora no município mineral de Parauapebas. Foram umas cinco horas de barco, e perto de dia e meio na BR 163, na Transamazônica [BR 230], e a PA 150.

É tempo de chuva. No percurso é comum peões a fazerem gambiaras em pinguelas (pontes de madeira). E como tem pinguela no trecho. Bem como caminhões quebrados. No perímetro do município de Placas, no oeste, e em Novo Repartimento, no sudeste o número era expressivo.

Amazônia. Terra de migrante. Terra de peão de trecho. Em Uruará, no oeste no Pará, uma escola faz referência ao fenômeno: Escola do Migrante. A cidade é conhecida pelo tráfico ilegal de madeira. Uma rodovia foi erguida para a missão, a Transuruará.

A circulação de ônibus ainda não foi suspensa no estado. Por conta da crise do Covid 19, as empresas estão fazendo descontos de até 30%.  Com receio do fechamento das rodoviárias, o número de pessoas era expressivo no ônibus que fez o trecho Santarém-Marabá.  1.200km. Estima-se que somente uns 400 km com asfalto.

Antônia faz a viagem para o enterro do pai. Enfermo há mais de três anos. Ela conta que ele era bravo.  Beliscava e chutava o cuidador quando da hora do banho.

Tempo de chuva. Tempo de água grande. Na cidade de Marabá o rio Tocantins desabriga moradores em vários bairros. Mesmo os idosos do asilo São Vicente foram para abrigos precários montados com compensados.

Bairros da Liberdade, Carajás e São Félix estão entre os impactados pelas águas do Tocantins. No abrigo montado na área da Colônia de Pescadores, Z-30, na frente do Núcleo Cidade Velha, na frente da cidade, as águas expulsaram os desabrigados pela segunda vez.


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