segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Araguaia-Tocantins: fios de uma História camponesa- 20 anos do lançamento do livro

 O livro é de livre acesso. Acesse o link no fim do texto. 

Faz 20 anos que a obra veio ao mundo. Nove capítulos lhe conferem corpo. Emergiu como uma homenagem pelos 40 anos de militância do maranhense Manoel da Conceição, o cabra da máxima; “minha perna! minha classe!.

Lá pelos idos dos anos de 1960, a violência de pistoleiros e policiais o feriram de morte. Na ocasião, por conta de tiros que alcançaram uma das pernas, e sem tratamento, teve a amputação como desfecho.

Figura rara, Mané pelejou pela democracia, reforma agrária, meio ambiente e direitos humanos. Correu o mundo durante o exílio. Nestes rolês, esteve com Mao, de quem ganhou uma prótese.

No exílio, com outros pares semeou a criação do PT e da CUT. Salvo engano, o nome de Mané figura como o terceiro no livro de fundação do partido. Além do capítulo sobre Conceição, reflete sobre políticas públicas daquele contexto de avanço das políticas neoliberais, realça a construção da hidroelétrica do Estreito, na fronteira do Maranhão com o Tocantins. 

Trata ainda de experiências contra insurgentes, a exemplo dos grandes acampamentos de camponeses em Marabá, o Projeto Frutos do Cerrado/MA, algumas experiências de comunicação popular, além de cotejar sobre a violência como um elemento estruturante e de permanência da territorialização do grande capital na região do Bico do Papagaio.

A violência possui dois registros. O primeiro trata da execução do dirigente José Dutra Costa (Dezinho), assassinado na porta de casa em Rondon do Pará.  Um segundo aborda o recrudescimento da violência como resultado da expressiva mobilização dos movimentos sociais.

Naquele período, no fim do texto, uma lista apontava para 24 pessoas ameaçadas de morte. Dentre elas constava Zé Cláudio, executado em Nova Ipixuna, em emboscada que também tirou a vida da esposa, Maria do Espírito Santo.

A lista dos ameaçados é uma constante em paragens do estado do Pará. Em livro recém lançado, somente em projeto de assentamento, o Lago Grande, no município de Santarém, há 20 pessoas na mira da bala. 

Manoel da Conceição e o autor do livro, por ocasião do lançamento. Creio que em João Lisboa, em um espaço de formação dos trabalhadores rurais, denominado de Cetral. 

Francisco Carlos Junior, mano dos tempos da UFMA foi essencial no processo de carpintaria/edição. Luciana Carla fez as correções gramaticais, o diagramador, músico, quadrinista e punk Joacy Jamys (não mais entre nós) assina a diagramação.  Rildo Brasil assina a obra da capa, um coletor de castanha do Pará. Um nanquim. Jorge Néri/MST assina a poética e bela apresentação. 

Os professores da UFPA Rosa Acevedo e Gutemberg Guerra fizeram a primeira leitura do esboço da iniciativa.  Recordo que fizeram recomendações. Mas, não recordo se as cumpri.

O livro resulta de vivências na região do Bico do Papagaio, na tríplice fronteira dos estados do Pará, Maranhão e Tocantins.  O local onde mais se mata na luta pela terra no Brasil.

Deu-se em 1997 o primeiro rolê. Foi no meio do ano. Época de queimadas. Calor infernal. Um ano após o Massacre de Eldorado. Eu estava na condição de entrevistador no processo de avalição da Rede Fórum Carajás. Creio que fiquei perto de 30 dias na estrada.

O orelhão a cartão era o recurso de comunicação. Viajei com dinheiro em espécie. Uma coleção de camisetas brancas no embornal, que voltaram para casa em tom amarelo barro de estrada.

As queimadas imperavam. As baterias de “rabos quentes” assim  eram tratados os fornos responsáveis pela queima da floresta para a produção de carvão vegetal que alimentava as empresas de gusa em Açailândia/MA e em Marabá/PA. 

Um verdadeiro desastre ambiental e humano, posto a cadeia produtiva embutir o trabalho escravo.

Em 1998 retornei à região. Em 1999 sentei praça em Marabá na condição de assessor do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp), onde fiquei até 2003. Uma referência na mediação da luta popular urbana e rural. 

Nos primeiros anos a república com gente de tudo que é canto foi o salva vidas. Eram mais de dez pessoas em sistema de rodízio, por conta das atividades de campo. Uma lindeza só. Nunca ocorreu uma briga. Ainda hoje tenho contato com os irmãos de errâncias destes tempos.

A vivência nesta quebrada foi fundamental em minha formação política, profissional, afetiva e como ser humano. Uma faculdade sem parede. Costumo brincar que foi a minha primeira pós-graduação sem papel. Talvez a mais valiosa.

O livro foi impresso com o apoio da Rede Fórum Carajás, a Comissão Pastoral de Balsas/MA e da Cooperativa de Serviços, Pesquisa e Assessoria Técnica. 

Duas pessoas foram fundamentais nesta jornada da retirada do litoral para o sertão. A educadora e agrônoma Marluze Pastor, que conferiu a missão das entrevistas, ainda que eu não fosse a primeira opção.

À época Pastor era coordenadora da rede, que operava a partir de um espectro internacional, com capilaridade pelas barrancas da Alemanha e EUA,  a partir de um leque de heterogêneos sujeitos, onde encontrávamos de pesquisadores a metalúrgicos, pescadores, quebradeiras de coco babaçu, etc.

O igualmente agrônomo e cientista social, Raimundo Gomes da Cruz Neto, vulgo, Raimundinho do Cepaps fez o convite para que eu fosse experienciar os combates populares na luta pela terra na região mais emblemática do país sobre a questão.

Mundinho é veterano de guerra. É dos tempos da Guerrilha do Araguaia. Assim como tantos outros com quem, de alguma forma, tive a oportunidade de conviver.

Chove em Santarém, onde mês que vem somarei uma década de jornada. Assalta-me uma certa melancolia.    “O rio corre e vai sem ter começo/nem foz, e o curso, que é constante, é vário/Vai nas águas levando, involuntário/luas onde me acordo e me adormeço.” Ferreira Gullar – sete poemas portugueses. 

Acesse o livro AQUI

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Na batida do ganzá da virada do ano, Mirosmar bamburra em Marabá

 O artista é acusado de usar playback  em show

Mirosmar e o prefeito de Marabá, Toni Cunha (PL). Foto: redes sociais


Mirosmar, o Zezé de Camargo ficou um pouco mais abastado nesta virada do ano. Ele abocanhou mais um R$ 1 milhão em suas contas bancárias.

O espetáculo foi classificado como precário por testemunhas oculares e virtuais. O uso de playback foi o motivo do desconforto, reporta matéria do Diário do Pará, que esclarece ainda que mesmo antes do fim da primeira canção, a prefeitura interrompeu a transmissão do evento em seus canais de comunicação.

Playback é uma artimanha que adota recurso pré gravado ao invés do valendo do cantador na hora H.

Rusgas entre a União e a gestão do prefeito do PL, Toni Cunha, precederam o réveillon. A questão era quem iria pagar o mimo/cachê. Até o ministério publico do estado entrou em campo por conta da questão.

O show que embalou a chegada de 2026 sucedeu na cidade de Marabá, no sudeste do Pará.

Marabá é considerada a capital da região sudeste do Pará. A latitude é a mais letal do país quando o assunto é a luta pela terra.  A região concentra o maior rebanho de bovino do Brasil, onde o município de São Félix do Xingu possui mais gado que gente.

A conformação territorial é composta por grandes latifúndios e inúmeros projetos de assentamentos rurais (PAs). Classes em luta.  É a região de maior concentração de PAs do Brasil.

Farinha pouca meu pirão primeiro - A média de cachê para os artistas locais é de R$ 3 mil reais. Para um trabalhador da cultura do município alcançar o cachê recebido por Mirosmar, ele terá de labutar quase todos os dias do ano.

O valor do cachê somente do sertanejo chega a representar pelo menos 12,5% do orçamento da pasta de cultura estabelecido na LOA (Lei Orçamentária Anual) do município, estimado em R$ 8 milhões. O fato do recurso constar na LOA, não implica que ele será aplicado.

A tática em engordar os dividendos negociando espetáculos em cidades médias e pequenas no interior do Brasil consta no portfólio de estratégia da fauna sertaneja. Uma ação coordenada por frações de classe do mesmo campo da sociedade: a agricultura capitalista e pares, onde constam chefes de executivos país a fora.

O mesmo setor também se especializou em captar recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como registra a reportagem de 2022, de Célio Turino, publicada no site Outras Palavras.

Segundo Turino, o setor captou R$320 milhões a partir de empresas recém constituídas, um mês antes da liberação do empréstimo para gestar as carreiras dos artistas.

A mão grande na cumbuca do dinheiro público

O cachê de Mirosmar só foi inferior aos recebidos pelos artistas Ana Castela e Bruno & Marrone, que receberam R$1,1 milhão, na virada de 2024/2025. Todos os shows realizados em capitais, esclarece reportagem do site UOL, assinada por Rodrigo Ortega.

O primeiro em São Paulo e o segundo em São Luís.  Cachês milionários em extremos, uma capital considerada a locomotiva da economia do país, e a segunda de um estado empobrecido, marcado pela hegemonia de coronéis.

Sobre os cachês milionários daquela passagem, a reportagem de Ortega realça que Castela e a dupla Bruno & Marrone, recebiam à época R$ 700 mil e R$600 mil, respectivamente. Contudo, tiveram os cachês turbinados.

Na fauna sertaneja, o cantor Gustavo Lima desponta como o maior cachê, R$1,2 milhão. Não à toa, o nicho, ocupa os primeiros lugares em acesso aos recursos da Lei Rouanet.

A música sertaneja é uma mercadoria típica do nosso tempo. Um produto criado e difundido em uma cadeia poderosa que articula o público e o privado para a sua difusão, seja a partir de grandes conglomerados de mídia, em feiras agropecuárias ou em aniversários de pequenas e médias cidades em uma simbiose com o que o Brasil possui de mais reacionário, “os senhores de terras”.

Antigos pensadores já alertavam que quem controla os meios de produção material, tende a controlar os meios de produção intelectual. No caso em tela, a tese fica mais que evidente.

O dito popular, assim esclarece o caso: “ isso é um garimpo sem malária!”