quinta-feira, 4 de abril de 2019

5º Cinefront inicia no dia 12 abril em Marabá, no sudeste do Pará

A Comissão Pastoral da Terra (CPT),  instituição ligada à Igreja Católica é a homenageada 


Há cinco anos a cidade de Marabá, sudeste paraense, sedia o Festival Internacional Amazônida de Cinema de Fronteira.  O evento protagonizado pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) é realizado em parceria com os movimentos sociais da região, em particular os dedicados à luta pela terra. Evandro Medeiros, professor da Unifesspa coordena o evento. 

O festival que ocorre em abril, no mês da passagem do Massacre de Eldorado de Carajás (1996), este ano homenageia a Comissão Pastoral da Terra (CPT).  A instituição criada no apogeu dos anos onde mais se matou posseiros na região, anos de 1970, é ligada à Igreja Católica, e tem se dedicado a apoiar os movimentos sociais do campo.

O evento coloca ao centro do debate a fronteira amazônica, locus de expansão do capitalismo. Processo marcado pela expropriação dos que aqui residem, e toda ordem de violência, bem como formas de resistências. 

O festival ocorre de forma descentralizada em cidades do sul e sudeste do estado, e em cidades do Bico do Papagaio, a exemplo de Imperatriz, no oeste maranhense. Município igualmente marcado por assassinatos de camponeses e seus assessores, a exemplo do Padre Josimo, agente pastoral da CPT.  Saiba mais AQUI

sexta-feira, 29 de março de 2019

Ayala Ferreira, dirigente do MST do Pará recebeu ontem, 28, no RJ, prêmio nacional em defesa dos direitos humanos


Ferreira é ativista na região de Carajás, onde em 1996 tropas da PM executaram 19 sem terra no governo do médico Almir Gabriel (PSDB). 

Ayala Ferreira - dirigente do MST/PA

Ayala Ferreira é dirigente do MST no estado do Pará. O estado líder em execuções de sem terra em todo o país. Ela milita justo na região mais marcada pela aguda disputa pela terra no país, o sudeste e sul do estado. 

Em 1996 por ordem do então governador da época, Almir Gabriel (PSDB), e o secretário de segurança Paulo Sette Camara, sob o comando do coronel Mário Colares Pantoja, tropas da PM executaram 19 trabalhadores rurais sem terra e feriram outras dezenas, no dia 17 de abril de 1996, deixando muitos com sequelas para o resto da vida.

A pressão de instituições nacionais e internacionais teve como desdobramento o reconhecimento massivo de áreas ocupadas como projetos de assentamentos rurais [PAs]. A região hoje abriga o maior numero de PAs no país.

Apesar do reconhecimento da demanda dos trabalhadores rurais, as violências permanecem. Em 2017 a mesma PM executou 10 trabalhadores rurais na cidade de Pau D´arco, na mesma região.

Na semana passada o latifúndio executou a dirigente Dilma Ferreira, ativista do Movimento dos Atingidos por Barragens. Os pistoleiros executaram além da militante, o marido e um amigo da família.

É neste cenário marcado pela profunda disputa pela terra que mobiliza em campos opostos sem terra, indígenas e quilombola, grileiros, fazendeiros, grandes corporações de mineração (Vale), agronegócio e frigoríficos, que atua Ayala.  

A ativista, como outros pares do MST vivem em constante estado de alerta por conta de ameaças de morte.

Leia mais AQUI

Em tempos de obscurantismo, governo do Maranhão reconhece publicamente a contribuição do líder camponês Manoel da Conceição


Manoel da Conceição, Fonte: Imagem da internet 

Manoel da Conceição é um dos nomes mais expressivos no processo de luta pela terra e a redemocratização do país. Durante o estado de exceção foi preso, torturado e viveu no exílio.

Em seu retorno ao país foi ponta de lança no processo de formação do PT, CUT e ações de base em vários estados do país, entre eles Pernambuco, Minas Gerais e Maranhão na organização de representações camponesas na luta pela terra e desenvolvimento sustentável.

Mané, como é tratado pelas pessoas mais próximas, milita há anos numa região marcada pela aguda disputa pela terra no Brasil, o Bico do Papagaio – sul do Pará, oeste do Maranhão e norte do Tocantins. Trata-se de região onde mais se mata ativistas que defendem a reforma agrária e o meio ambiente no Brasil.

A sua atividade em defesa da reforma agrária e o meio ambiente teve reconhecimento da Universidade Federal do Maranhão [UFMA], que concedeu ao trabalhador rural o título de Doutor Honoris.

Parte das pelejas do dirigente camponês pode ser encontrada em trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses, e na obra Essa terra é nossa, recentemente reeditado pela UFMG.

Em tempos marcados pelo aprofundamento do obscurantismo, o governo do estado do Maranhão faz um reconhecimento público, no próximo dia 30, em São Luís, na Praça Maria Aragão, às 16h, com a concessão de pensão especial ao dirigente que passa por graves problemas de saúde.

Maria Aragão que em vida foi uma médica, ardorosa defensora pela democracia do Brasil.

Leia matéria sobre o ativismo de Mané na edição da revista Democracia Viva, do IBASE, AQUI

quarta-feira, 27 de março de 2019

Caso da execução da ativista Dilma Ferreira, do MAB: movimentos defendem união para enfrentamento da violência


Nota do coletivo Brigadas Populares do Pará critica modelo de desenvolvimento para a Amazônia, marcado pela expropriação e execuções de ativistas, simpatizantes e assessores


 Foto: arquivo do MAB
Massacres e chacinas no rastro de destruição!

A burguesia, “fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e em nome das numerosas liberdades conquistadas estabeleceu a implacável liberdade de comércio. Em suma, substituiu a exploração, encoberta pelas ilusões religiosas e políticas, pela exploração aberta, única, direta e brutal.” (Manifesto Comunista de Marx e Engels, 1848).

Até a década de 1960 a dinâmica da região sudeste do Pará é determinada pelo poder da oligarquia dos castanhais, mandos e desmandos eram dirigidos por uma dezena de famílias proprietárias dos castanhais e seus subordinados, que dominavam a economia e o poder político, subservientes ao comando estadual.

“No dia de São José, de 1964, mulheres de boa família, acompanhadas de seus maridos, filhos e domésticos, saíram às ruas de São Paulo para realizar a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Pediam a intervenção das Forças Armadas no processo político e derrubada do governo constitucional do presidente João Goulart”. (A Militarização da Questão Agrária no Brasil, José de Souza Martins, 1984). Deram o golpe.

O sudeste do Pará vai ser incorporado à geopolítica traçada para a Amazônia, pelos militares, como parte importante aos interesses de grupos nacionais e internacionais, latifundiários e industriais, por seu grande potencial em madeira, minério e água para gerar energia elétrica, já até então identificado por empresas norte-americanas, que aqui pesquisavam e traficavam.

Pela política imposta, as terras aos poucos foram sendo transferidas do domínio dos donos de castanhais a pecuaristas, empresas agropecuárias e bancos (BRADESCO, BAMERINDUS), na sua maioria pelo processo de grilagem. Áreas de florestas, em poucos anos, são jogadas em baixo, queimadas e transformadas em pastagens, juquiras e áreas degradadas.

“Morreu quase todo bicho/esvaiu-se todo encanto/visagem caiu no mato/-pernas, pra que vos quero?-/passarinho foi embora/dizer para onde não sei/só ficamos nós, coitados,/presos no arame farpado/bando de bois entre bois.” (Trecho do poema EPÍLOGO, Ademir Braz, 1978).

Os coitados, entre arames e bois, sob a mira das armas das policias, de jagunços e milícias, para garantirem também o direito a espaços no imenso e cobiçado território, resistem e enfrentam as forças contrárias, com ganhos e perdas nos diversos conflitos travados no campo.

Despejos, torturas, assassinatos, chacinas e massacres de trabalhadores e trabalhadoras rurais, religiosos e advogados vão predominar na luta pela terra, que tem em um extremo trabalhadores; e noutro, o Estado com seu aparato administrativo, jurídico e policial, fazendeiros e jagunços armados.


Citamos algumas chacinas, massacres e assassinatos: da Guerrilha do Araguaia (década de 70) com desaparecimento/assassinato/tortura de indígenas e camponeses, além de dezenas de militantes políticos;  Caso da fazenda Ubá, 1985, oito mortos, entre os executadas havia uma jovem grávida, São Domingos do Araguaia;  Caso da fazenda Princesa, 1985, 6 mortos, entre os assassinados uma mulher, Marabá; Caso da Ponte do rio Tocantins, fala-se em 22 mortos, mas até hoje cogita-se que que o número de mortos tenha sido subestimado, 1989, Marabá; Massacre de Eldorado dos Carajás, 19 mortos, dezenas de lesionados, 1996, Eldorados dos Carajás; Caso de Morada Nova, 3 mortos (marido, esposa e filho), 2001, Marabá; Chacina de Pau Darco, dez mortos, 2017, Pau Darco;  Assassinato do advogado Gabriel Pimenta, 1982, Marabá; da Irmã Adelaide, 1985, Eldorado dos Carajás; assassinato da Irmã Dorothy, 2005, Anapú. Assassinatos de lideranças: Arnaldo Delcídio, 1993, em Eldorado dos Carajás; Dezinho, 2000, em Rondon do Pará; Fusquinha, Doutor, 1998, e Euclides, 1999, em Parauapebas; Zé Piau, 1981, em Jacundá; Raimundinho, 2009, em Tucuruí; Zé Claúdio e Dona Maria, 2011, em Nova Ipixuna.  

Os interesses pelo saque mineral e para que japoneses pudessem recuperar suas perdas com o fechamento de usinas no Japão, por conta da crise do petróleo, 1970, tem que ser gerado energia a preço de custo, impõe-se a construção da barragem de Tucuruí (PA). Para produção de alumina e alumínio, japoneses vão se instalar em Bercarena (PA), com a Albras/Alunorte e americanos vão se instalar em São Luis (MA), com Alcoa/Alumar, e depois em Juruti(PA), Alcoa.

“Em verdade, quando a construção da hidrelétrica foi decidida, em 1974, ela seria apenas o apêndice de um dos maiores complexos industriais de alumínio do mundo, a Albrás/Alunorte, um consórcio nipo-brasileiro que produziria 640 mil toneladas de alumínio metálico e 1.400.000 toneladas de sua matéria-prima, a alumina, obtida de um mineral abundante na Amazônia, a bauxita. Sozinho, esse empreendimento exigiria não menos do que 1,3 milhão de kw, sete vezes mais do que Belém, com seu primeiro milhão de habitantes, consome atualmente”. (Lucio Flávio Pinto, Carajás, o ataque no coração da Amazônia, 1981).

A hidrelétrica de Tucuruí, com o lago de 2.400 km², desalojou para mais de 6.000 famílias de agricultores, ribeirinhos, vasanteiros, pescadores e povos indígenas, moradores em cidades, vilas, povoados e as margens do rio Tocantins, que foram tomados pelas águas do lago. Muitas famílias, devido as várias elevações da cota da barragem, tiveram que ser remanejadas por mais de uma vez.

A maioria das famílias desalojadas pelas águas do lago formou um enorme aglomerado de pessoas, que se juntou a desempregados das empresas empreiteiras da Eletronorte, que em conjunto ampliaram a zona urbana da cidade de Tucuruí, com a criação de vários bairros. Pessoas que na sua maioria, sem oportunidade de trabalho, muitas se tornaram alcoólatras e mendigos, outras vivem do trabalho informal, ou, procuraram ocupar terras para trabalhar.

Desde o início da construção da hidrelétrica que as populações de Tucuruí e municípios vizinhos convivem em permanentes conflitos, que tem gerado vários assassinatos, muitos deles com requintes de crueldade. Militantes do Movimento de Atingidos por Barragens e do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Tucuruí, tem sido os principais alvos das perseguições, por terem enfrentado a Eletronorte e latifundiários.

Se buscarmos as informações, vamos perceber que as chacinas e assassinatos bárbaros, nesta região, ocorreram principalmente no governo de Jáder Barbalho e ainda dos militares (1982-1985). E agora, duas chacinas, uma logo depois da outra, contra trabalhadores(as), uma delas com corpos carbonizados e outra torturados até a morte, em governo federal militarizado e estadual do filho do Jáder Barbalho.   

Coincidência ou não, precisamos estar atentos para os acontecimentos que parecem se repetir, a violência contra a classe trabalhadora para estes se submeterem, sem reação, às ordens dos dominadores. É este o recado que querem nos passar, desde o assassinato de Marielle, no Rio de Janeiro, e agora da companheira Dilma, em Tucuruí. O governador, Elder Barbalho, já solicitou a força nacional para o Estado, mas não se manifestou sobre os assassinatos.

Nós, das Brigadas Populares do Pará, conclamamos a todos os movimentos de trabalhadores(as) a nos unirmos em uma frente de lutas, para além de nossas diferenças de encaminhamentos, para não nos deixarmos curvar diante da grande opressão que há muito se anuncia. Não podemos nos calar diante dos assassinatos. A guerra está declarada, no mínimo temos que cuidar de nossas autodefesas.

Marabá, 26 de março de 2019.
BRIGADAS POPULARES PARÁ

terça-feira, 19 de março de 2019

Teia de Comunicação Popular do Brasil completa um ano

Coletivo de comunicadores aglutina ativistas de Norte a Sul do país

Roda de conversa no lançamento da Teia, durante o FSM. Foto de Joka Madruga



De norte a sul do Brasil, existem muitas e diferentes experiências de comunicação contra-hegemônica. São jornais impressos, blogs, sites, coletivos de fotografia, programas de rádio e de TV que se dedicam a divulgar informações a partir da perspectiva dos trabalhadores, quilombolas, povos originários, sindicalistas, sem-terra, sem-teto e artistas populares. Pelas lentes dessas iniciativas, é possível conhecer o Brasil que sofre com a opressão, mas que também se organiza na resistência e na luta por direitos. Leia mais AQUI

segunda-feira, 18 de março de 2019

Barragens de rejeitos da Vale no Pará: movimento agenda encontro para abril em Canaã dos Carajás


Em abril Canaã dos Carajás recebe encontro sobre os impactos da Vale

Foto: Ocupação da Ferrovia de Carajás/Evandro Medeiros      

Redução do território da agricultura camponesa, conflitos agrários, abastecimento de água, e poluição de variadas formas foram alguns dos pontos debatidos reunião realizado no sábado, na Vila de Bom Jesus, no município de Canaã dos Carajás, no sudeste do estado do Pará.

O município abriga o maior projeto de exploração da Vale, o S11D, extrai ferro de alto teor de pureza. O movimento social do estado do Pará tem promovido vários diálogos com os afetados do estado de Minas Gerais, marcado por dois crimes da mineradora com relação a barragens.

A realização de um encontro para refletir sobre os impactos dos projetos da Vale e a consolidação de uma agenda comum de enfrentamento são alguns dos encaminhamentos da reunião ocorrida no ultimo sábado, 16. Leia a integra da memória do encontro AQUI

sexta-feira, 15 de março de 2019

Barragens da Vale no Pará: riscos serão discutidos amanhã, 16, em Canaã dos Carajás


Canaã dos Carajás abriga o maior projeto de mineração da Vale



Amanhã, dia 16, na Vila de Bom Jesus, no município de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, trabalhadores rurais e moradores em geral discutem os riscos da barragem do Projeto Sossego, da mineradora Vale.

A iniciativa é do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Canaã dos Carajás e da ONG com mais de 30 anos de atuação na região,  o Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp). 

Com investimentos estimados aproximadamente em  U$$ 500 milhões, foi inaugurado com toda pompa e circunstancia no ano de 2004.

O projeto que explora cobre é festejado no site da corporação como exemplo de responsabilidade social.  A produção estimada por ano é de 140 mil toneladas.

O município abriga o maior projeto de mineração da Vale, o S11D, que extrai minério de ferro, e deve conceder ao Pará a liderança no setor, superando o estado de Minas Gerais. 

Para viabilizar o projeto a mineradora duplicou a Estrada de Ferro de Carajás, incrementou estações de transbordo e as instalações portuárias em São Luís, no Maranhão. 

Trata-se do maior trem do mundo, com 330 vagões, puxados por quatro locomotivas que operam diuturnamente para alimentar o mercado asiático e aprofundar a condição colonial da região. 

A mineração afeta a vida de populações camponesas, indígenas e quilombolas nos estados do Pará e Maranhão. 




Latitude Amazônia: publicação eletrônica visa promover um debate crítico sobre a região.




Marcos Colón, o realizador e  professor da Universidade de Madison, nos EUA é o ponta de lança da revista eletrônica Latitude Amazônia.  

Ela acabou de cair na rede com a intenção em promover uma reflexão critica sobre os problemas que afligem a hileia.

O principio é possibilitar a publicação de artigos analíticos sobre a região de estudantes, professores e pesquisadores a partir de um cardápio interdisciplinar.

Os trabalhos podem ser lidos em seis idiomas. Além do português, espanhol, inglês, francês, alemão e russo.

Eu colaboro com um pequeno artigo que trata sobre o delicado momento de incertezas que nubla os nossos dias. Ele pode ser acessado AQUI.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Caso Lago do Maicá - conheça todas as notas contra a decisão da Câmara de Vereadores e do prefeito Nélio Aguiar



Ao apagar das luzes de 2018 um ato combinado e covarde  entre o Legislativo e o Executivo do municipal mandaram às favas todo o processo de revisão do Plano Diretor do município de Santarém.  Os poderes acenaram positivamente ao  agronegócio ao liberar a construção de um complexo portuário na área do Lago do Maicá.  A decisão desrespeitou a assembleia final da revisão do plano, que acenou para a manutenção da área sem a estrutura que deve servir à logística de infraestrutura da produção de grãos do Brasil Central. 

A medida dos poderes repercutiu negativamente na cidade, no país, e mesmo no exterior. Por conta da decisão dos poderes legislativo e executivo do município, considerada arbitrária, vários setores da sociedade produziram notas em oposição aos poderes. Neste conjunto, temos desde setores da Igreja Católica, setores ligados ao urbanismo, professores de universidades centrais do país, a exemplo da USP, Ufscar,  grupo de professores da UFOPA, ONGs, entre outras.  Conseguimos acessar 15 destas notas.

Sobre a decisão do legislativo e o executivo local, o Sindicato dos Sociólogos do Estado do Pará (2018), critica:
A Câmara de vereadores de Santarém ao decidir pela autorização de obras portuárias no Maicá, passou por cima da Plenária final de Revisão do Plano Diretor Participativo, que reprovou a ideia. De nada valeram meses de intensos debates entre os mais diversos setores da sociedade – empresariais, acadêmicos, entes públicos e organizações sociais. Com a decisão, a Câmara demonstra não ter compromisso com os anseios da população e atua na contramão do desenvolvimento com sustentabilidade social, econômica e ambiental.  
           
Já o manifesto animado pela professora da USP, Erminia Maricato, que contou com a adesão de professores da UFRJ, Adauto Cardoso, UFPR, José Ricardo Vargas de Faria, UFSC, Maria Inês Sugai, entre outros, declara que:
A conferência municipal ocorrida nos dias 23 e 24 de novembro de 2017 foi, sem dúvidas, o fórum mais representativo do exercício da cidadania ativa pelas moradoras e moradores de Santarém. Estiveram presentes diversos segmentos da sociedade civil: associações de moradores, empresários, ambientalistas, pastorais, movimento indígena, quilombola, diversos coletivos, estudantes, professores, entre outros. Todas essas pessoas construíram esse espaço como forma de contribuir para discussões acerca do planejamento urbano da cidade, ações que impactam diretamente em suas vidas cotidianas. Nesse fórum, ficou registrada a rejeição do projeto de transformar a Área de Proteção Ambiental do Maicá em área portuária devido às evidentes consequências predatórias ao meio ambiente e às populações cujo sustento depende dos recursos naturais existentes na área.

A nota de repúdio da Federação das Associações de Moradores e Organizações Comunitárias de Santarém (Famcos), entidade que integrou a comissão executiva do processo de revisão do Plano Diretor, salienta que dos 21 vereadores que compõem a Câmara Municipal, somente três participaram de forma esporádica das jornadas de debates.  A Famcos esclarece que:
Na Conferência final do processo de revisão do Plano Diretor, duas propostas divergentes e relacionadas à questão portuária foram apresentadas. Numa delas, o agronegócio queria para si o Lago do Maicá, especificamente para a construção de um complexo portuário. Na outra proposta, defendida pela sociedade civil organizada e pelos movimentos sociais, priorizava-se o Lago do Maicá como área de pesca artesanal, turismo de base comunitária e também para embarque e desembarque de pequenos barcos. E foi esta segunda proposta a aprovada pela ampla maioria das pessoas presentes, em sintonia com as regras e com a dinâmica do Plano Diretor Participativo (PDP) que estava sendo conduzido pela própria prefeitura de Santarém. A vitória da proposta defendida pelos movimentos sociais não foi digerida pelos representantes do agronegócio que saíram ameaçando reverter a situação quando a votação do texto final na Câmara de Vereadores.
           
O caso repercutiu internacional a partir do artigo bilíngue assinado por Marcos Colón, publicado às vésperas do Natal. Colón é professor do Departamento de Português e Espanhol e membro do Center for Culture, History and Environment (CHE) do Nelson Institute for Environmental Studies, da Universidade de Wisconsin-Madison. Nele, o professor adverte sobre o risco da região vir a se tornar uma commoditie. Leia AQUI

A decisão da Câmara de Vereadores em atender a demanda do setor do agronegócio e o respectivo endosso do prefeito Nélio Aguiar convergem de forma direta para o contexto da fragilidade da democracia nacional. Bem como para o ambiente de reinserção da região aos circuitos mundiais de trocas desiguais, no qual é premissa pétrea a fragilização dos marcos jurídicos formais que, de certa forma, garantem os processos democráticos de revisão do Plano Diretor municipal.

Como bem analisado pelo antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida ao tratar de agroestratégias, o setor visa a fragilizar ou suprimir os direitos das populações consideradas, no campo da antropologia, como tradicionais, destaque aqui para os remanescentes de quilombolas.

Acesse todas as notas AQUI

Livro sobre migração, luta pela terra e educação do campo será lançado em seminário da Unifesspa, nesta sexta,22


A educação é a face mais expressiva no processo de luta pela terra no sul e sudeste do estado do Pará. A região considerada a mais violenta do país, é onde mais se matou camponeses e seus apoiadores. São casos considerados clássicos as execuções da família ´Canuto e do sindicalista Expedito Ribeiro e de Raimundo Ferreira Lima (Gringo).

As regiões constituem-se como lócus marcado pelas políticas de integração do regime ditatorial do século passado. Políticas que reconfiguraram as feições territoriais, econômicas, sociais, culturais e políticas. 

Desta forma, grandes projetos, a exemplo da construção da hidrelétrica de Tucuruí, a exploração mineral em Carajás, e a edificação de rodovias federais descortinaram um novo momento histórico marcado pela inserção subordinada aos grandes mercados mundiais. 

Boa parte destes contextos estão registrados em pesquisas de inúmeras universidades da região, do país e mesmo mundiais. Neste memorial, educadores, camponeses, na condição de migrantes narram a sua própria saga. A maioria é oriunda da região do Nordeste, ênfase do estado do Maranhão. Aportaram na Amazônia fugidos da seca de forma espontânea ou induzida, numa perspectiva de frear as tensões sociais daquela região. 

Trata-se de uma relato comovente e vivo para quem a universidade pública sempre foi um muro muito alto, quase intransponível. Os 13 relatos aqui elencados, com predominância para a presença de mulheres, materializam uma nuance da luta pela terra e pela democratização da educação em diferentes níveis. 

Neste memorial sobre a luta pela terra nos castanhais da Amazônia Oriental, os educadores do campo subvertem a ordem da condição subordinada, e se afirmam como protagonistas e narradores da sua própria história.

As narrativas são fragmentos dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) da turma de 2011, do curso de Licenciatura Plena em Educação do Campo (LEPC), do Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica (PARFOR), da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).

A organização do livro é dos professores Rogerio Almeida, da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA, Haroldo de Souza (Unifesspa) e da educadora Luciana Barbosa de Melo, com edição e revisão de texto da professora e doutorando em Antropologia da UFPA, Maria de Nazaré Trindade.

A capa é uma gentileza do artista plástico e professor da Universidade Federal do Rio do Janeiro, padre Ricardo Rezende, que na década de 1980 foi assessor da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Conceição do Araguaia.  Esta versão da obra resulta de uma parceria do Curso de Educação do Campo da Unifesspa e da Editora Iguana, com sede em Marabá. A Iguana tem dedicado esforços em editar obras da luta popular.  

Baixe o livro AQUI
Veja a programação do seminário AQUI

sábado, 12 de janeiro de 2019

O modelo de Fordândia ainda persiste entre nós a partir do monocultivo da soja e outras experiências , sinaliza o filme sobre o tema


Beyond Fordlândia tem abocanhado prêmios por onde passa desde 2017


O professor Marcos Colón realizou um  documentário sobre a presença de Henri Ford na Amazônia, no Baixo Amazonas paraense. 

O filme está correndo o mundo em inúmeras festivais, e já abocanhou um cipoal prêmios.

A película possibilita uma rica variedade de vozes de dentro da própria da região, incluídos aí os historicamente marginalizados, e doutos da terra e fora dela.  Lúcio Flávio Pinto, João de Jesus Paes Loureiro, Pe Edilberto Sena, entre eles.  Bem como agricultores, ex funcionário do projeto e o cacique Munduruku.

Sob a inspiração de Mário de Andrade, Colón faz um mergulho sobre o processo que culminou na experiência do multimilionário Ford no começo do século passado na região.

Elucida a partir de ricas imagens da época a tentativa em domesticar a floresta do estadunidense, e o quanto tem sido desalentador o exemplo por ele legado como modelo em “dominar” a natureza. 

O filme faz um paralelo como os dias atuais, em particular ao iluminar o processo de avanço da fronteira agrícola  a partir do monocultivo da soja. 

Coteja informações e dados esclarecedores sobre as dinâmicas de expropriação, empobrecimento e os danos ambientais e à saúde das populações nativas.  Conheça um pouco sobre o autor. 


Teaser do filme, que ainda não foi disponibilizado para acesso por conta de agenda em festivas.  Veja https://vimeo.com/239074969


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Rádio Brasil Atual repercute luta em torno do Lago do Maicá



O ativista ambiental e padre Edilberto Sena, a professora Ana Beatriz e Sara Pereira relatam o golpe promovido pelo legislativo de Santarém-PA.  Ouça AQUI

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A complexa peleja em torno do Lago Maicá

Os advogados Laiza Santos e Pedro Martins colaboram no entendimento sobre a redes que se mobilizam na disputa territorial. O trabalho consta no Dossiê Baixo Amazonas. publicado pela Terceira Margem Amazônia. 

O contexto nos ajuda a entender que o conflito é, apesar de local, também global, marca o interesse de uma empresa, mas também de um mercado financeiro que reorganiza os territórios conforme as ondas de desenvolvimento do capital. Com a demanda para aumento da exportação da soja, as obras de infraestrutura e logística avançam. Leia o artigo AQUI

Caso Maicá - o golpe do Legislativo de Santarém ao apagar das luzes de 2018

Em evento secreto vereadores beneficiam setor do agronegócio, e jogam no lixo processo de revisão do Plano Diretor da cidade

Após reunião com segmentos do agronegócio, como Sirsan (Sindicato Rural de Santarém) e grupos econômicos interessados na exploração da região, os vereadores – no encerramento das atividades legislativas e sem espaço para participação da população – definiram a área do Lago do Maicá como Zona Portuária 3. O projeto de revisão do Plano Diretor segue para sanção do prefeito ainda neste ano. Leia a íntegra no site Terra de Direitos

A batalha do Lago Maicá

Sena, religioso e ativista ambiental mesmo antes da decisão em atropelar a decisão que revisou o Plano Diretor da cidade já alertava para o risco do golpe 

"O plano é outra batalha. Felizmente conseguimos vencer e manter a região como Área de Proteção Ambiental (APA), e vetar a proposta em verticalizar o nosso paraíso Alter do Chao. No entanto existe um porém, a Câmara Municipal é frágil aos encantos do capital. Lá tá cheio de gente seduzida pelas empresas, que ao menor descuido nosso, passa os interesses das empresas. Precisamos manter a vigilância, alertava Edilberto Sena, antes da decisão da Câmara de Vereadores em desrespeitar a decisão da Assembleia de reformulação do Plano Diretor do município, e ter o endosso do prefeito. A entrevista foi concedida semanas após a assembleia. A mesma poder lida do Dossiê Baixo Amazonas, publicado no fim do ano pela Terceira Margem Amazônia. Leia a entrevista AQUI

Caso do Complexo Portuário do Lago do Maicá, Santarém-PA. Professor Marcos Colón, da Universidade de Wisconsin-Madison analisa a questão

Construção de megaempreendimento para exportação de soja na Amazônia coloca em perigo comunidades, povos tradicionais e meio ambiente

Há quase dois séculos, os naturalistas e exploradores britânicos Henry Walter Bates e Alfred Russel Wallace passaram cerca de três anos estudando animais e insetos na região do Lago do Maicá, no município de Santarém, em plena Amazônia Legal. Apesar das dificuldades, a dupla celebrou o que chamaram de “floresta gloriosa”. Estima-se que ao final da empreitada de três anos, eles tenham coletado mais de 14.000 espécies, que fizeram parte de um amplo estudo, que serviu de base para The Naturalist on the River Amazon, considerado um clássico de Bates. Leia a íntegra no site Envolverde

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Novo, velho ano



Av. Paulista. Garoa. Primeiras horas do novo, velho ano. Sob as marquises em traje e cobertores em desalinho, seres humanos buscam abrigo. Contraditórias contradições, no espaço dedicado a grandes negociatas e desfiles de patos amarelos pessoas passam privações.


“Tenho fome. Me ajude” roga um cartaz de papelão segurado por um adulto em um dos acessos do metrô. Não há tanta luz na avenida.  São escassos os enfeites nas edificações.  “Outrora ocorria uma espécie de competição entre as empresas”, informa Thulla, a companheira. “O normal era tudo iluminado até o dia 10 de janeiro”, arremata.   

Tal um carro alegórico pós desfile de carnaval, o palco que abrigou shows da virada do ano ainda ocupa a rua. Gal e Jorge Bem foram as atrações principais.

Tempo lento. Ao menos esta noite, a via opera assim.  Grupos e casais de todas as tendências e idades circulam na mesma velocidade. Alguns assistiram ao novo longa-metragem de Spike Lee no Espaço das Artes.

Os conflitos raciais configuram o centro de gravidade. Entendi como uma provocação à reflexão sobre a aurora/ocaso dos nossos dias. A película ilumina arenas onde rivalizam os grupos Pantera Negras e a KKK.

Cenas de violências nos dias atuais ocorridas nos EUA encerram o filme, entrecortadas por discursos de ativistas e do atual presidente. Antes do acender das luzes decretando o fim da seção, ecoam gritos em oposição ao presidente do Brasil, e aplausos ao filme.

O mesmo desfecho teve o delicado musical dedicado à vida de Elza Soares, encenado num espaço do Sesc. A apoteose ocorreu durante a canção que protesta sobre a carne negra do mercado sendo a mais barata.

Assim com os/as Panteras Negras, as interpretes cometeram o gesto do punho cerrado e o braço erguido em protesto. Comovente. Confesso: as lágrimas ocorreram em mais de uma ocasião.

Estranhamento: árvores no centro da medusa concreta.

Novo, velho ano. Portela celebra Clara Nunes, Mangueira em um samba suntuoso exalta o povo preto [Brasil, meu nego deixa eu te contar aquilo que a história não conta..] enquanto Salgueiro invoca Xangô. Oxalá nos alumie.



sábado, 29 de dezembro de 2018

Naqueles dias....


Partidas
Cais
Torpor
Existem cordas
Para conter um
Mar de ais?

A partir da Rua da Viração, berço de Gullar, o Ferreira, enviarei a esquadra de aviões produzidos de isopor para o Detrito Federal. Tudo para atazanar a posse. Na infância, em São Luís, era comum metamorfosear as bandejas de isopor do supermercado Lusitana [extinto] em aviões.

Você podia simplesmente lançar ao vento, ou amarrar uma linha de costura subtraída do kit familiar. As talas dos coqueiros faziam parte da arquitetura de papagaios e curicas. As velhas Havaianas colaboravam na composição de carros, tratores e caminhões e afins na condição de rodas. Havaianas inúmeras vezes otimizadas com pregos e arames para incrementar a longevidade. O atrito ao chão promovia um barulhinho bom.

A engenharia de lata tinha nas embalagens do óleo de Salada o outro componente. Naqueles dias, qualquer pedaço de rua ganhava ares de arena sofisticada para peladas e outras atividades: rouba bandeira, pica esconde, amarelinha, cai no poço, e outras que a memória não alcança.

Nenhum quintal escapava impune à sanha da tropa da rua e vizinhança. Era comum assaltar os pés de manga rosa, cajá, goiabeira, carambola, etc. E tudo ficava mais lindo quando a herdeira do pomar tomava banho descuidada. Era a visão do paraíso.

Naqueles dias distantes a soma das meias da gurizada ganhava status de bola após o catecismo [nunca conclui]. Uma fatia do Atlântico era a nossa piscina de luxo. Ali, na frente da Praça Gonçalves Dias, após a fuga da Igreja dos Remédios.  

Naqueles dias, a pobreza era rica em inventividade. Nas noites de queda de energia, havia mais luz. As estrelas alumiavam sagas sem fim.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Amazônia sob nuvens cinzas, Charles Trocate, do MAM, analisa o ambiente de incertezas

“O que a vitória de Bolsonaro fez foi bagunçar a trajetória da democracia, já estava a um passo da oligarquização, as forças democráticas precisam impedir que ela se complete nesse sentido”.

Foto: assaltada da grande rede

Charles Trocate é Amazonida, do estado Pará. É escritor, filosofo e militante político que atua na coordenação nacional do Movimento pela Soberania popular na Mineração-MAM. É um dos organizadores da coleção “A questão mineral no Brasil”, em seu último livro, “Quando as armas falam, as musas calam? ” Ambos pela editora iGuana, faz um balanço das lutas populares amazônicas em seu itinerário de enfrentamentos a espacialização dos capitais destrutivos sobre a região.

Nessa entrevista ao Blog Furo comenta temas políticos que elevaram a eleição de Bolsonaro e sua indisposição ao diálogo. “Governos frágeis e condescendentes são perigosos, tanto na esfera econômica como na resolução dos conflitos internos.  Um governo que opta pela ignorância e refuga o melhor da inteligência nacional precipita seu próprio ato de governar.”

Assim, como observa que o ponto nevrálgico do governo é a sua ampliação desagregadora sobre a Amazônia, “É bom que se saiba a Amazônia é por natureza criadora de impasses, políticos e jurídico institucional, do ciclo militar ao FHC e dele ao Lula, ela movimenta o nosso sentido de país e por isso, não tão fácil, assimilá-la e nem a modificá-la em um curto espaço de tempo como o querem”.  

Em tom crítico assevera, este governo será um governo impopular. “Arrisco a dizer que o pacto, que conduz Bolsonaro é precário em demasia, revanchista da qual nenhuma fração de classes, dominantes, ou força auxiliar terá condições de manter em médio ciclo, por exemplo, como fez o Partido dos Trabalhadores”. E que não há saída, para o campo popular senão “acumular força como profissão de fé”.

Segue a entrevista:

Furo: O que representa a vitória Bolsonaro?

Charles Trocate- Compartilho, sempre da ideia, preservando os limites de análises, da vitória voto a voto, e não de governo, que a eleição de Bolsonaro derrotou mais a direita clássica brasileira do que o campo democrático progressista. O que está na berlinda agora é a classe média inculta, defensora de privilégios e não de direitos universalizantes, ao seu favor, só a barbárie do empobrecimento lhe atormentando.

A adesão e o consentimento das amplas massas a sua personagem, tem muito mais haver com identificação política momentânea, do fato inglório, que outra definição. É sabido na conjuntura política brasileira que alternamos sempre popularidade com crises de impopularidade, e isso logo lhe alcançará como malfeito de governo e calculo mental do mandatário.

A impopularidade de Dilma recuperou ao nosso itinerário político de crises o oportunismo de um congresso nefasto, que gerou não só a quebra do pacto do presidencialismo de coalização desfigurado durante a ditadura civil militar, mas, reinventado nas eras de FHC e Lula, como também os fatores políticos que desaguam na eleição liquidada, a dispêndio da nossa reação, o que será o Bolsonarismo de resultados?
Arrisco a dizer que o pacto, que conduz Bolsonaro é precário em demasia, revanchista da qual nenhuma fração de classes, dominantes, ou força auxiliar terá condições de manter em médio ciclo, por exemplo, como fez o Partido dos Trabalhadores. De certo modo, o antipetismo que ganhou as eleições turbinou o fracasso de muitos partidos á direita e virará seu próprio pesadelo.

Furo: Como se comportará o baixo clero no governo?

Charles Trocate- O Baixo clero não pensa unanime e a sua virtuose é a barganha bruta. São híbridos ideologicamente, e não se reúnem por projetos de longo alcance na sociedade, a mesura deles é o palavrão e a bravata. No entanto, está claro, que no caso brasileiro pelo menos por agora não se faz política sem eles, eles existem, ampliaram com ou sem merecimento seu poder.

E embora momentaneamente a tendência é voo seguro, o projeto de transformar a sociedade brasileira do avesso, modernizando “o estado dependente” numa zona do globo onde prevalece a “colônia congelada” ou ampliar o conservadorismo para além das raias que se encontra, tem limites. Como aconteceu com os seus sucessores, logo parecerá velho demais!

Todavia, é verdade que voto descolado da constituinte de 1988, pelo golpe de 2016, em uma eleição fraudulenta, deturpou o plano dos valores éticos, rebaixou o raciocínio exequível à noção de direitos humanos, e sobrepôs a teocracia, a democracia numa emergência de resultados inconciliáveis. Como, por exemplo, para qual dos poderes republicanos apelar quando seus próprios fundamentos são destituídos de valor político?

Penso, inclusive, que estamos olhando no espelho e não vendo feição alguma! O governo Bolsonaro andara às margens da Constituição numa predicação de passado e presente e a poucos dias para instaurar seu governo, já é assimilável nos estertores do poder um autogolpe, ainda mais regressivo que o transcorrido de 2016. A esta altura o presidencialismo não é tudo, precisa combinar o jogo para além do apoio aparente e ideologias teológicas estimuladas no Congresso Nacional que assumirá.

Furo: O que devemos temer?

Charles Trocate- Governos frágeis e condescendentes são perigosos, tanto na esfera econômica como na resolução dos conflitos internos.  Um governo que opta pela ignorância e refuga o melhor da inteligência nacional precipita seu próprio ato de governar. Revoluções sociais são mudanças drásticas de senso político, e em nosso curso histórico num intervalo de trinta anos simulamos o país e a República, duas vezes, em 1989 na eleição de Fernando Collor, e de agora, nos dois casos a política foi rebaixada à não política. Um jogo pesado desmontou qualquer resolução pensada, longe da euforia, para os problemas que ambientam a nossa crise.

Esta mudança de senso comum só foi possível porque houve a combinação dos tempos políticos, do baixo desempenho econômico, as fissuras no pacto de governabilidade e inúmeras disputas intraburguesas na condução das saídas, e para o nosso espanto, a eleição de Bolsonaro demostra que alguma coisa deu errado. Ou seja, nesse exato momento estamos entre o poder e o antipoder. Como não nos salvaguardamos em nada o antipoder, dos militares é o que devemos temer.  O poder está deturpado pelo judiciário. 

O militarismo intruso que de novo nos atormenta goza de privilégios, se desponta pelas mesmas razões de antes, está sem controle, atua de livre arbítrio como também o judiciário. Bolsonaro como soldado da guerra cultural não é nada sem a ameaça dos militares e o sequestro do poder pelo judiciário.

Furo: Já é assimilável a gênese desse governo?

Charles Trocate- Sim, a gênese desse governo é o ultra liberalismo na economia e conservadorismo na política. Nessa área tudo será cópia indecorosa de fora aliada à nossa esquizofrenia social, democracia de baixa intensidade e autoritarismo elitista. Este será um governo de um único senso: a do patrimonialismo, dos que tem contra os que não tem.Na busca de popularidade, tenderá a constituir força a base de concessão de privilégios, e está disposto a tudo, inclusive, a cair junto com seu programa para não ceder no que lhe é fundamental. Mudar a rota civilizatória da qual carecemos no dia a dia. É claro que não será um governo alheio, terá desafetos e bajuladores e desde já está implicado com uma oposição natural, o fisiologismo sistêmico. Nessa tendência, olhando com caleidoscópio, estamos em ápice e levando para um único momento esse desdobramento. Só uma nova constituição será capaz de alterar os estragos que ele fará. O Governo resultado de uma eleição atípica será fundamentalmente um governo atípico. Não tem condições alguma de produzir sínteses inovadoras para os dilemas brasileiros!

Furo: O bloco de poder não se ampliou?

Charles Trocate- Sem soma de dúvidas, se ampliou muito mais como resultado dos fatores externos, a avalanche do rentismo sobre as economias coloniais do que o de natureza nativa. A elite está no cadafalso com o que aconteceu, é arriscado demais este movimento e o nosso padrão de desigualdade joga em desfavor. A sociedade brasileira é muito complexa e logo a corda poderá arrebentar. Sobretudo nos setores populares, que contará com a memória que houve recentemente na sua vida melhoria econômica. Ainda que não associe isso ao PT, distinguirá que viveu bem melhor do que os dias atuais. E não haverá igreja que impeça de vela. No entanto é preciso notar que o bloco de poder se ampliou, sobretudo a destruição consentida do mundo do trabalho com a reforma trabalhista e agora com a extinção do Ministério do Trabalho. Nisso é preciso argumentar que o caminho da servidão, será a tônica traduzida em medidas impopulares. O controle hegemônico do bloco de poder implica em estrondosa subalternidade. É urgente incidi na organização política do mundo do trabalho!

Furo: O que é a Amazônia no Governo Bolsonaro?

Charles Trocate- Ela é o centro de uma disputa que não se iniciou agora, e até digo, a Amazônia é o vetor do governo Bolsonaro, ninguém até agora na história a castigou, em adjetivos negativos como ele, por isso este governo só dará certo, se quebrar os marcos civilizatórios inerentes a região. Todavia é bom que se saiba a Amazônia é por natureza criadora de impasses, políticos e jurídico institucional, do ciclo militar ao FHC e dele ao Lula. Ela movimenta o nosso sentido de país e por isso, não tão fácil, assimilá-la e nem a modificá-la em um curto espaço de tempo como o querem. É como se mais uma vez reajustássemos nossos impasses a lutas decisivas. Falando de outra forma o Estado colonial brasileiro nasceu sem a Amazônia e contra ela, contra a suas civilizações, como é o caso da terra “Raposa Serra do Sol” o conflito de ponta, entre outros de caráter mineral, agrário e agrícola, em rolagem perpétua de capital transnacional. Bom, depois não venham pedir complacência! O que podemos dizer é que se abrirá para exercitamos dentro e fora da Amazônia lutas criativas, e que o campo popular deverá trabalhar pedagogicamente para acumular força política como profissão de fé!

Furo: Uma ideia conclusiva.

Charles Trocate- O que a vitória de Bolsonaro fez foi bagunçar a trajetória da democracia, já estava a um passo da oligarquização, as forças democráticas precisam impedir que ela se complete nesse sentido.  E mais dia menos dia, creio, se abrirá um período de reformas radicais, está nele a nossa sorte política mais imediata! É não andar em recuo e não desperdiçar a energia política das massas com  frivolidades!