terça-feira, 7 de abril de 2020

Sobre hidroxicloroquina, malária, Tucuruí e outras bandidagens


A ideia era somente prosear sobre malária

Foto: Paulo Santos/2002/Ecodebate


Conheci hidroxicloroquina a partir de uma piada recorrente pelos arredores de Tucuruí, sudeste paraense, idos da década de 90.


A cidade abriga a maior hidroelétrica genuinamente nacional, a quarta do mundo, a produzir energia no rio Tocantins, sudeste paraense. Terra de vida. Terra de morte matada, onde o filho chora e mãe nunca chega a saber, se a dor é de amor, se a dor é de doer ou se a dor é de morrer.

O projeto integrou o portfólio da ditadura civil militar, que ergueu os pilares para o aprofundamento da condição colonial da Amazônia.

U$$ 700 milhões era o custo estimado do projeto pensado e erguido para subsidiar empresas do capital mundial da cadeia do alumínio, Albras e Alunorte/CVRD/Norsk Hidro e o capital japonês, em Barcarena/PA, e Alumar/Alcoa/BHP Billiton, em São Luís/MA.

A obra que fez a fortuna da firma Camargo Corrêa foi a ruína para milhares de pessoas ao redor. Indígenas (Parakanã), camponeses e outros.

O custo final do negócio da China, ninguém sabe ao certo. O governo calcula em U$$ 4,5 bilhões, outros em U$$ 10 bilhões, e estudos da Comissão Mundial de Barragens estima em U$$ 7,5 bilhões, conta ensaio de Lúcio Flávio Pinto publicado em boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi, em 2012.

No mesmo ensaio o jornalista explicita que a obra durou 37 anos até chegar ao fim. Como se diz por aqui, pense na roubalheira, desde a sua concepção da década de 1970 até o encerramento da usina. A empreita catapultou o senhor Sebastião Camargo, o dono da firma, a figurar como o primeiro brasileiro bilionário nas páginas da Forbes e da Fortune.

A sangria não cessa, Pinto adverte que o subsídio de energia bancado pelo Estado e pela sociedade durante 20 anos, - desde os anos 1980 aos anos de 2000, - para as empresas Albras e Alunorte, totaliza uns U$$ 2 bilhões, dinheiro suficiente para construir outra planta industrial.

Somente as usinas do Pará consomem 3% de toda energia do país. Água e energia representam os principais insumos da cadeia. Tá ligado no saque das pessoas de bem?


As 23 turbinas da usina são responsáveis por quase 10% de toda energia gerada do país. A usina é tida como a maior obra pública já erguida na Amazônia, e consta entre as cinco maiores do país. Assim como em Belo Monte, Delfim Neto, um dos baluartes do regime, mediou as negociatas para a compra das turbinas de Tucuruí.


Como adverte Pinto e outros intelectuais, a bandidagem foi possível por conta do regime ditatorial, sustentado pelas Forças Armadas, em particular o Exército. Desgraçadamente, o mesmo modus operandi do Estado autoritário se registrou na construção de Belo Monte, no rio Xingu, em tese, em plena “democracia” sob a insígnia do PT, e com a “consultoria” do mesmo Delfim Neto.  A mesma desgraça desejam impor ao Tapajós, com o projeto da hidroelétrica de São Luiz. 


Vim aqui somente para falar de malária e da hidroxicloroquina, mas, como um bagulho puxa o outro. Por conta do lago que a usina de Tucuruí gerou, os indicadores de malária eram expressivos, assim como a produção de gás metano, por conta da floresta submersa, e por consequência, mosquitos de tudo que é jeito e tamanho.

A concentração de peões na obra fez germinar o território do Escorre Água, espaço reservado às delícias da carne e do amor fortuito. 


E a piada? A piada residia em dizer que na cidade havia tanta malária, que quando alguém usava camisa com botões os macacos assaltavam a pessoa pensando que era comprimido de hidroxicloroquina.


Vários colegas do trecho foram agraciados com uma ou mais cruzes de malária, como se diz por aqui, ou algum tipo de hepatite.


Mais de duas décadas a rodar por aí, cabeça caiada, algumas cruzes de amores cravada ao peito, ainda continuo invicto de malária e hepatites...o que contar para os netos???

domingo, 5 de abril de 2020

Em plena tragédia do Covid 19, governo planeja expulsar comunidade quilombola no MA. Matéria de Ed Wilson explica o caso


As frações de classe que hegemonizam o comando do (des) governo nacional não nutrem o menor respeito pelas populações indígenas e quilombolas. O fato já foi materializado em inúmeros discursos, em nomeações para cargos estratégicos de representantes dos setores mais conservadores da sociedade.


O governo é uma ameaça à reprodução das comunidades indígenas, camponesas e quilombolas em todo o país. O fato mais recente reside na medida em expropriar quilombolas no município de Alcântara, no Maranhão, por conta da expansão da Base de Lançamento de Foguetes, em plena tragédia da Covid-19.
 O jornalista e professor Ed Wilson examina  o caso em Matéria de seu blog.

Em um momento em que ninguém esperava, sai uma resolução dessa e as pessoas ficam aflitas, nervosas, chegando até a adoecer – Dorinete Serejo, moradora da comunidade Canelatíua e coordenadora do Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (Mabe). Leia a íntegra AQUI


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Nova Correnteza



Para que serve a poesia, senão paga nem o pão ou a cachaça?
É a poesia uma danação do capeta a perturbar oco da cuca em dias de tese?
As rimas, aqui, mal ajambradas podem ser consideradas poesias?
Só sei que a culpa inspiratória é da horda de poetas do Poeme-se, São Luís/MA.
Como se diz por lá: tô nem aí.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Correntezas




A poesia não serve para nada. Nem para pagar o pão, mas, faz-se necessária como alimento para alma, ainda que o céu não esteja favorável a brigadeiro. 

O par confinado em Marabá, T.C. Esteves e R. Almeida, vez em quando, em intervalos de escritos de tese, xodós, bulinações, danações, fornos e fogões, rusgas e afetos parem versos.

Milton Rocha assina a colagem. Tem abrigo em Belém. Mirian Menezes, radicada em Santarém fez a diagramação.

A soma gerou o cartaz que denominamos de Correntezas, que seja de axé diante de dias marcados por profundas incertezas. 

Na cidade de São Luís existe um grupo poético chamado Poeme-se. Ele produz zines, saraus e cartazes de poesia. Ele é a  inspiração. 

sexta-feira, 27 de março de 2020

Crimes da Mineração em Barcarena/PA - UFPA/NAEA disponibiliza livro


Foto: Pedrosa Neto/Amazônia Real

Recursos naturais em abundância, energia barata e subsidiada, cessão de terras públicas, frágil controle social, renúncia fiscal, farta mão de obra barata e de baixa escolaridade, ineficiência no monitoramento e na fiscalização ambiental (cumplicidade?), além de os generosos financiamentos públicos são alguns dos fatores que concorrem para a presença de grandes empreendimentos na Amazônia, onde o setor público financia o saque privado.  

Há pelos uns 30 anos o município de Barcarena, ao norte do Pará, coleciona processos de expropriação e crimes de toda ordem por conta da instalação de um complexo industrial da cadeia do alumínio – Albras-Alunorte-, bem como da francesa Imerys, que explora o caulim.

Tempos em que o controle acionário era exercido pela mineradora Vale, quando a mesma ainda atendia pela alcunha de CVRD, antes de ser entregue ao capital especulativo no ano de 1997, mesmo ano da instalação da Lei Kandir, que amplia o faturamento das empresas por conta da isenção fiscal pelo não recolhimento do ICMS, o que fere de morte os estados exportadores de commodities.  

Sobre os crimes que se sucedem em diferentes da mineração por todo o Brasil, já em 2010, o coletivo Justiça nos Trilhos, alertava para a eminência de rompimentos das barragens de rejeitos.

Com reconhecimento nacional e internacional de mais de 30 anos de atuação, o Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (NAEA), da UFPA, acaba de disponibilizar o Dossiê Desastres e Crimes Ambientais da Mineração em Barcarena.  O documento foi lançado em janeiro, em Belém. 

A apresentação do livro esclarece que o mesmo resulta além das dinâmicas que regem a produção acadêmica, da necessidade em subsidias os movimentos sociais do município no enfreNtamento com as grandes corporações. 

Aqui reside uma ironia: o complexo Albras-Alunorte, hoje é controlado pela norueguesa Norsk Hidro, cujo país é/era o país que mais contribuía com o Fundo Amazônia.

O dossiê agrupa 20 artigos articulados em quatro seções: I – Desastres socioambientais provocados pela mineração; II – Barcarena: sucessão de desastres socioambientais; III – Barcarena: sucessão de outros desastres socioambientais e IV – Mariana e Brumadinho: desastres e crimes da mineração em MG. 
A obra que pode ser baixada gratuitamente, conta com contribuição de pesquisadores de várias partes do país, onde podemos realçar Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Amazonas e Maranhão. 

Interessante o cotejamento que faz com relação aos projetos portuários. Os mesmos integram a cadeia de commodities na Amazônia, e representam um dos itens de logística do projeto Arco Norte, que pretende além de portos, a edificação de modal de transportes (rodovia, hidrovia e ferrovia) e edificação de inúmeras hidroelétricas de diferentes tamanhos.

A energia é um dos principais insumos da cadeia do alumínio. Na década de 1980, a hidroelétrica de Tucuruí, no sudeste do Pará, foi erguida no bojo do Programa Grande Carajás, com a finalidade de atender a demanda de Barcarena e São Luís, no caso, a estadunidense Alcoa. Energia subsidiada pela sociedade nacional.

Um dos artigos dá relevo ao caso de disputa territorial entre comunidades tradicionais de São Luís, na peleja contra o grande capital na comunidade de Cajueiro. Sublinhe-se ainda a seção dedicada aos crimes ocorridos pela Vale em Minas Gerais, Mariana e Brumadinho.  

A experimentada professora Edna Castro e um egresso do NAEA, Eunápio do Carmo assinam a organização da obra.
Baixe a obra AQUI

terça-feira, 24 de março de 2020

Planalto Santareno: notas sobre um visita em Ipaupixuna

Foto: caminho para Paupixuna
Cazula é sobrenome de ascendência Italiana e lusa, conta dona Irani, que vem a ser a mãe de Leandro, este professor de Geografia da UFOPA.  Os ancestrais da família baixaram em terra brasilis ao apagar das luzes do século de XIX, cuja missão consistia em substituir o braço escravo de África na cultura do café em solo paulista. 

Dava-se assim a origem ao colonato, como explica José de Souza Martins, em  Cativeiro da Terra. Tão explorados, quanto aqueles, os migrantes europeus ajudaram a operar a máquina da cadeia do café, esta responsável processo de “modernização” do país.

Martins dispara que a racionalidade do trabalho do colono continuou a ser a mesma realizada pelo escravo, mudando somente a forma de organização social do trabalho, do trabalho coletivo do eito, para o trabalho familiar.

A migração subsidiada pelo Estado colaborou na conformação na nova mão de obra, e consequentemente, no cálculo capitalista da produção cafeeira, que antes residia no tempo de vida do escravo, este considerado como capital fixo na contabilidade da época. O escravo integrava o patrimônio. O Museu do Migrante, localizado em São Paulo, evidencia parcela da história.

Irani baixou Santarém outro dia. Leandro a levou para conhecer o povo Munduruku do planalto.  Visita mediada pelo cacique Manoel da aldeia Ipaupixuna. Ela faz fronteira com o território de remanescentes de quilombolas do Tiningu.  Aproximadamente, uns 40km de lonjura da sede do município. 

O planalto sofre influência do mundo das águas do rio Amazonas e do Tapajós. Ali abundam igarapés, furos e rios, e o formoso Lago do Maicá, objeto de disputa e saques de diferentes frentes. Açaí, pescado, floresta secundária ajudam na composição da várzea.

A missão consistia em levar uns canos para dá vazão à água do poço da comunidade, que irá alimentar um roçado. No caminho apanhamos uma boia para o almoço. Um cadinho de carne. A recepção para a dona Irani foi a melhor possível.

A senhora assaltou acerola no meio do caminho, degustou da refeição produzida pela indígena Graciene, provou da pupunha, iguaria que não conhecia. Trocou prosa, tomou café.  Os distantes mundos não pareciam estranhos.

Talvez aproximados pela dor e agruras pretéritas, soavam antigos parentes.  Não foi possível provar do açaí, nesta época do ano, rareia. Nas aldeias e quilombos, o tempo passa desaperreado. As crianças correm desinibidas pelo chão de terra, despreocupadas com a dinâmica dos ponteiros dos relógios dos não índios. 

sábado, 21 de março de 2020

Crônica do trecho em tempo de crise e cheia de rios


Orla de Santarém-PA

Antônia beira a casa dos 60 invernos. Padece de hérnia de disco. Tem um joelho bichado. É uma senhora de estatura mediana. Boleada, com se diz por aqui. Maranhense de Bacabal, lá no meiâo do estado. Bacabal é uma cidade marcada pela pecuária.

Aportou no garimpo de Água Branca, no município de Itaituba, no oeste do Pará na década de 1980. No auge do garimpo. Não tardou, correu para Alenquer, até alcançar Curuá. Todas são cidades irrigadas pelo caudaloso Amazonas.

A senhora é mãe de cinco filhos, sendo duas mulheres e três homens. Somente um dos rapazes mora com ela. Anda meio avoada da cabeça depois de uma temporada na capital do Amazonas, onde moram as meninas. O tratamento é realizado com o guia espiritual. A proximidade com Manaus colabora com o processo migratório. A viagem de barco dura três dias.

Antônia viajou quase dois dias. Cortou o estado de oeste ao sudeste para encontrar outra parcela da família, que mora no município mineral de Parauapebas. Foram umas cinco horas de barco, e perto de dia e meio na BR 163, na Transamazônica [BR 230], e a PA 150.

É tempo de chuva. No percurso é comum peões a fazerem gambiaras em pinguelas (pontes de madeira). E como tem pinguela no trecho. Bem como caminhões quebrados. No perímetro do município de Placas, no oeste, e em Novo Repartimento, no sudeste o número era expressivo.

Amazônia. Terra de migrante. Terra de peão de trecho. Em Uruará, no oeste no Pará, uma escola faz referência ao fenômeno: Escola do Migrante. A cidade é conhecida pelo tráfico ilegal de madeira. Uma rodovia foi erguida para a missão, a Transuruará.

A circulação de ônibus ainda não foi suspensa no estado. Por conta da crise do Covid 19, as empresas estão fazendo descontos de até 30%.  Com receio do fechamento das rodoviárias, o número de pessoas era expressivo no ônibus que fez o trecho Santarém-Marabá.  1.200km. Estima-se que somente uns 400 km com asfalto.

Antônia faz a viagem para o enterro do pai. Enfermo há mais de três anos. Ela conta que ele era bravo.  Beliscava e chutava o cuidador quando da hora do banho.

Tempo de chuva. Tempo de água grande. Na cidade de Marabá o rio Tocantins desabriga moradores em vários bairros. Mesmo os idosos do asilo São Vicente foram para abrigos precários montados com compensados.

Bairros da Liberdade, Carajás e São Félix estão entre os impactados pelas águas do Tocantins. No abrigo montado na área da Colônia de Pescadores, Z-30, na frente do Núcleo Cidade Velha, na frente da cidade, as águas expulsaram os desabrigados pela segunda vez.


quarta-feira, 18 de março de 2020

163, BR


163
Galáxia da fronteira
Encruza sem delicadeza
Star Wars vira brincadeira
Mad Max, Blade Runner
Cuipiranga
Jesuíta não planta bananeira
Maró, morou, mano?
Tresoitão, ponto 40, peixeira
Branco, saque, madeira
Maicá, Arapiuns, Lago Grande
Eixo Forte
Front
Viatura, patrulha, milícia
Canoa, bajara, balsa, embarcação
Camionetes, caminhões, carretas e cilos
Milhões
Fogo, floresta, trama, cadeia
Grilo
Notas a nódoa no traje da nata grã-fina?
Ultraje, vingança
Sertão, droga, cacau, ouro, grão
Óbidos de Souza
Onça, paca, pataca, pepita, peteca, pepeca, potoca, vintém, cruzeiro, real, yen
Bolsas sem valores
Especulação, altar, Alter e o chão
Mercadão, pintado peixe, ervas, mandigas
Mendigos
Multidão
Tristeza ao tucupi
É vero, Veríssimo!
Farol, Faro, Aveiro, Ford, farinha
Esperança a ver navios
Pimenta, coentro, cheiro verde
Mestiço, indígena, povo preto, açaí
Campos de lamparinas movidas a Vinagre
Rio de insurreição a correr por ti
Estiva
Conceição
Chico e Raimundo.

Rogerio Almeida, STM, março/2020

terça-feira, 17 de março de 2020

Poema para a Pérola do Tapajós


Foto: Marquinho Mota. Orla de Santarém/PA/2020

O esgoto corre a céu aberto, independente da existência de meio fio ou não. Corre sob um céu de fim de tarde de fazer inveja a Van Gogh.  O fio de esgoto percorre toda a cidade. Como se fosse a veia aorta. O que lhe confere vida. O que lhe é essencial. Naturalizado em sua existência, não provoca indignação entre os nativos, ou estranhos de além riomar. Mesmo perplexidade ante uma exuberante riqueza natural. O esgoto singra quebradas e o centro. Afronta rodovias e vicinais. Irriga fronts de casebres, de puteiros, das quitandas, dos botecos, de peixarias, dos palácios, dos parcos museus, dos templos, das tendas e das catedrais, quarteis até. O odor exala.  Casagrande e Senzala. O coração da cidade. Um poema sujo contemplado pelas garças mocozadas sobre as mangueiras da encruza da urbe. Garças que untam as passagens com as suas cagadas, e as tornam neve. Passagens onde urubus saqueiam vísceras dos sacos de lixo para a sua sobrevivência, como se matilha de cão fosse. Pérola cidade, deixa-me viver, que eu quero aprender a vossa poesia, por entre canoas, bajaras, barcos, navios e iates nos riomares das suas melancolias e desigualdades. Tempo de manga. À av. Presidente Vargas, forma um tapete, este vigiado pelos olhos fofoqueiros dos velhos das janelas e das portas das casas. Enquanto os pés inchados a tudo vigiam. 

Rogerio Almeida, STM, março/2020

sexta-feira, 13 de março de 2020

Bilhete no papel de pão



Docinho....a missão de achar o livro sobre conceitos de Geografia foi quase um fracasso total. No entanto, algum logro teve a operação. Nos interstícios por entre as caixas de livros, traças, carapanãs, aranhas, morcegos e outros bichos deparei-me com o pano da cozinha. Aquele perdido há dias. Comunico que ao mexer na rede de cor encarnada sangue de briga, achei a camiseta sumida. Aquela pela qual nutro um imenso xodó, apesar de todos furos que ela abriga.Aquela pela qual andei macambuzio. ...Agora falta apenas o pacote de sabão de coco...bjs

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Luta pela terra no Pará: mataram mais um, até quando?


No mês que soma mais um ano da execução da irmã Dorothy, execuções de dirigentes continuam a assombrar o Pará



“Mais um” é a expressão mais recorrente quando se anuncia a execução de pessoas envolvidas na luta pela terra ou pelejas semelhantes (meio ambiente, direitos humanos, moradia, etc).

O fato se repetiu quando do anuncio do assassinato do dirigente sindical Raimundo Paulino Silva, “Paulinho do PT”, morto com um tiro na cabeça na manhã de momo do dia 22, no município de Ourilândia do Norte, sudeste do Pará. 

Paulinho animava ocupações de terras griladas, era ligado à Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará (Fetagri), chegou a ser eleito vereador pelo PT. Ele liderou a ocupação da fazenda 1.200, que registra pelo menos três mortos.

No processo de luta pela terra na região, no início dos anos 2000, os movimentos sociais do campo conseguiram furar o cerco político e eleger inúmeros vereadores, vice-prefeitos e mesmo prefeitos na região.

Naquele momento, os movimentos sociais do campo da região conseguiam mobilizar até 20 mil pessoas em frente a sede do INCRA, com sede em Marabá.

Este fato ladeado pela ocupação de assentos em vários conselhos e a presença nos debates em universidades é avaliado como extremamente representativo no ambiente da frágil democracia nacional, onde o setor rural concentra amplos poderes, ainda mais na conjuntura atual, marcada pelo obscurantismo de toda ordem.

Sul e sudeste do Pará - A região é célebre em assassinatos de dirigentes, assessores e afins envolvidos na luta pela terra, meio ambiente e direitos humanos. Ela é considerada como a que mais mata pessoas no país nesta modalidade de conflito.

A coerção privada e pública é um dos elementos que integram o processo de violência estrutural que historicamente marca a expansão da fronteira do capital sobre as terras da Amazônia. O marco histórico é a instalação da ditadura civil-militar, que cimentou a integração subordinada da região a partir das rodovias, o acesso a terras e as riquezas da região.

O sul e sudeste do Pará representam uma fronteira agromineral.  O estado de exceção incentivou a pecuária extensiva, a geração de energia (hidroelétrica de Tucuruí) e a mineração. Em disputa temos tanto a terra, quanto o subsolo.  O que torna mais complexa as situações de conflito, que além de camponeses, envolve indígenas. 

Ourilãndia (autoexplicativo) materializa este contexto. A região abriga tanto empreendimentos do campo mineral, quanto grilagens de terras, expansão da soja e concentra o maior rebanho de gado país, no município de São Felix do Xingu. Concomitantemente, onde mais se desmata na Amazônia.  

Soma-se ao cenário a fragilidade no processo de investigação, quando o mesmo chega a ser instaurado, a morosidade/parcialidade na Justiça e a limitada cobertura midiática, para não falar de deturpada.

Os representantes dos movimentos sociais tendem a realçar nesses casos o caráter seletivo nas execuções, onde os/as dirigentes mais articulados passam a ser o alvo por excelência de grileiros e latifundiários.  

Para citar um caso, lembremos a execução de José Dutra da Costa (Dezinho), assassinado em Rondon do Pará, na porta da própria casa, em 2000.  

Isto tudo motivado pela máxima da impunidade que impera como regra nestes casos. Os indicadores da Comissão Pastoral da Terra (CPT) retratam bem o ambiente. Vale realçar os crimes contra o povo Guajajara, o povo Guarani kaiowa, bem como as ameaças contra quilombolas em todo o território nacional. 

A expressão “mais um” externaliza a naturalização/banalização dos crimes que amiúde se reeditam em terras do Pará. Às vezes, mesmo entre dirigentes e apoiadores das lutas populares no campo amazônico ela escapa de forma involuntária, acompanhada de um “até quando?”.  

Rogerio Almeida acabou de lançar o livro Amazônia (s): pequenas inflexões sobre grandes abacaxis. A obra pode ser baixa gratuitamente.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Amazônia(s): pequenas inflexões sobre grandes abacaxis - em textos curtos e carregados em dados, o livro é um registro gestado direto do front amazônico


53 artigos do educador Rogerio Almeida, distribuídos por cinco seções dão alma e tutano ao livro gestado e produzido fora do eixo


Bispo do Rosário – Educador
Um conjunto pulsante de relatos colhidos direto do front, o livro Amazônia (s): pequenas inflexões sobre grandes abacaxis reúne 53 artigos agrupados em cinco seções i) Amazônia, ii) Nas terras dos Carajás, iii) Caso Dorothy, iv) Comunicação em pauta e v) Licenças nem tão poéticas.

A obra é uma produção da Editora Iguana, originada no sudeste do Pará. Obra e editora são iniciativas fora do eixo. Um intento alinhado à vida dos segmentos historicamente marginalizados. Um sopro de denuncia, urgência, ternura e poesia conferem ao livro certa unidade.

Assinada pelo educador Rogerio Almeida [Universidade Federal do Oeste do Pará], boa parte do conteúdo tem como origem uma coluna no site do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), ONG com sede no Rio de Janeiro, fundada pelo sociólogo Betinho [Herbert de Souza].

Em textos curtos, carregados em dados, algumas inflexões acadêmicas untadas por doses de ironia, o autor narra as disputas pela terra no Bico do Papagaio (sul do Pará, norte do Tocantins e oeste do Maranhão), e outros fronts. Os alinhavos contemplam a saga de camponeses em defesa de seus territórios, bem com as pelejas da categoria com a mineradora Vale, e questionamentos sobre a parcialidade e as limitações da mídia ao tratar temas complexos na Amazônia.

Os escrevinhamentos ligeiros de Almeida contextualizam as violências protagonizadas por fazendeiros, madeireiros, jagunços, pistoleiros e órgãos de segurança e a parcialidade do judiciário nestas tramas. Este, - via de regra - célere em expedir medidas de reintegração de posse, e, moroso em apurar chacinas e execuções de camponeses e seus apoiadores.

Apesar da região do Bico do Papagaio configurar o principal ambiente do conjunto de textos, constam inquietações sobre o Baixo Tocantins, Baixo Amazonas, Belém e São Luís, e algumas licenças poéticas [pura pretensão] fora do esquadro das disputas territoriais e simbólicas que cercam a região.

Algumas narrativas alumiam intervenções das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e Comissão Pastoral da Terra (CPT), e sobre o caso do assassinato da missionária Dorothy Stang.   Ao lado do Movimento de Educação de Base (MEB), as CEBs e a CPT encarnaram a santa trindade da fração da Igreja Católica aliada à luta camponesa. Prática que iniciativas como a encíclica  Laudato si e o Sínodo Pan amazônico buscam recuperar.

Os dias manifestam-se tensos na fronteira amazônica. De novo, no front, tem-se o aprofundamento da hegemonia dos setores mais retrógrados da sociedade nos mais variados campos. Em ações marcadas pelo obscurantismo, a aversão à educação, à cultura e à arte, onde frações de classe ameaçam as parcas conquistas consagradas na Constituição de 1988, em franco discurso de ódio a indígenas, quilombolas e campesinos, entre outros.

É tempo de resistir, como realça o artigo que trata do Boletim Resistência, periódico editado pela Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH), em tempos sombrios, na capital do Pará.

Sobre o autor
Rogerio Almeida é maranhense de São Luís/MA. É devoto do samba, maracatu, jongo, ciranda, tambor de crioula e outras manifestações de matriz africana. Possui graduação em Comunicação Social pela UFMA. Cursou especialização e mestrado em Planejamento do Desenvolvimento pelo NAEA/UFPA. Atualmente cursa doutorado em Geografia Humana, DINTER USP/UNIFESSPA/UFOPA e IFPA. É professor do Curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA).

Baixe AQUI

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Diálogos Essenciais: iniciativa do Sindifisco PA inova em ocupar as redes sociais com conteúdo de excelente qualidade


No ar  desde novembro, o programa inova em profissionalismo e qualidade

Fonte: site do Sindifisco/PA

Diálogos Essenciais é uma iniciativa inovadora em comunicação popular do Sindicato dos Servidores do Fisco do Estado do Pará (Sindifisco). Produzido com esmero e profissionalismo, o Diálogos tem como missão a promoção de um debate público sobre temas relevantes que afetam toda a sociedade.


Ancorado pela experiente jornalista Renata Ferreira, o programa vai ao ar semanalmente nas redes sociais (Youtube  e Spotify) desde novembro. Ele inova pelo menos em dois níveis. Primeiro com relação à produção profissional e o segundo com pautas que ultrapassam as cercas da corporação sindical, e correntes partidárias do campo da esquerda.


No conjunto de tema já debatidos constam: meio ambiente, reforma da previdência, Lei Kandir, serviço público, educação fiscal e reforma tributária.  Entre os debatedores podem ser encontradas autoridades reconhecidas do estado, como Charles Alcântara, presidente da Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), o jornalista Lúcio Flávio Pinto, a professora Edna Castro, e mesmo expressões nacionais, a exemplo da Maria Lucia Fattorelli, coordenadora da ONG Auditoria Cidadã da Dívida.

Para efeito de sugestão de pautas, seria interessante contemplar temas caros ao Pará, como é o caso da questão agrária, questão indígena e quilombola, violência no campo tendo como linha de frente no debate os sujeitos historicamente marginalizados e alijados de voz. E, ainda a violência policial recorrente na capital, as condições precárias dos bairros, a cultura a partir de seus produtores, a comunicação pública e popular.

À primeira vista, a louvável ousadia do Sindifisco retira o tema comunicação do fundo da sede do sindicato, - como comumente é tratado o assunto no campo popular - e coloca em primeiro plano, com a devida atenção estratégica que a mesma exige num cenário de aguda disputa no universo simbólico eivado por notícias falsas.

Antônio Catete, presidente do sindicato, esclarece que a “iniciativa do Sindifisco Pará  aposta em um novo projeto de comunicação para discutir os desafios do estado brasileiro e qualificar os debates sobre os serviços públicos e outros temas. Quanto mais informação de qualidade disponível, maior o indicador de cidadania de todos”.

Abaixo os links das redes do programa. 





quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Vice governador do Pará é denunciado pelo MPF por participação em organização criminosa e lavagem de dinheiro

A organização criminosa concentrava a maior parte das suas operações com o desvio de recursos da merenda escolar 



O Ministério Público Federal (MPF) denunciou à Justiça, nessa quarta-feira (8), o vice-governador do Pará, Lúcio Vale, por integrar organização criminosa que desviou R$ 39,6 milhões de dez municípios paraenses por meio de fraudes em licitações entre 2013 e 2017, principalmente com o uso de empresas de fachada. A maior parte dos recursos deveria ter sido destinada à compra de merenda escolar. Também foram identificados desvios de recursos da saúde e da assistência. Leia mais AQUI

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Fazendeiro tenta matar esposo de professora da UFPA em Altamira/PA


Armado e com jagunços, o fazendeiro Silvério Fernandes invadiu restaurante e atenta contra a vida de esposo de professora da UFPA em Altamira/PA

O fazendeiro Silvério Fernandes atentou contra a vida de Eduardo Modesto, esposo da coordenadora  do campus da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Altamira,  a professora Maria Ivonete Silva. O caso ocorreu em um restaurante no município de Altamira, sudoeste do estado, na noite de ontem, 17.

Armado e acompanhado por jagunços, o fazendeiro agrediu o esposo da professora. O mesmo grupo já havia invadido o evento Amazônia Centro Mundo, ocorrido em novembro, com vistas a promover balbúrdia e sabotar o encontro. Leia matéria da Agência Pública AQUI

Um professor da associação de docentes da UFPA informa que mesmo diante dos policiais o fazendeiro atentou contra o marido da educadora.  O casal registrou boletim de ocorrência. Fernandes ficou detido por alguns instantes, e em seguida foi liberado. 

A família Fernandes chegou a ser investigada pelo assassinato da missionária Dorothy, e é suspeita em articular a prisão do agente pastoral de Anapu, o padre Amaro, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). 

A mesma associação de professores denunciou recentemente que o grupo de fazendeiros ameaça agricultores no município. Leia nota do ANDES AQUI

Ódio como ordem
Ódio é a bandeira mais elevada do governo federal. Ódio á indígenas, quilombolas, camponeses, LGBT, à educação, cultural, à alegria, ao carnaval, ao funk, ao povo preto e pobre, à diferença e ao contraditório.  

Os discursos e ações do governo como relação ao mundo rural representam uma licença para matar. Isso tem se expressado com a invasão de terras indígenas, quilombolas e camponesas.

E ainda com relação aos assassinatos de indígenas do povo Guajajara no estado do Maranhão, ao assalto à casa da liderança do Munduruku, Alessandra Korap, em Santarém, no oeste do Pará.

Plano Diretor de Santarém/PA: obra ilumina processo de revisão que favoreceu grandes empreendimentos no município.

Há um ano o Legislativo e o Executivo  desrespeitavam a decisão da assembleia de revisão do Plano Diretor da cidade em favor do agronegócio 

Capa do livro organizado pela UFOPA em parceria com os movimentos sociais do município 

Faz um ano que ao melhor estilo dos subterrâneos de Chicago dos anos 30 do século XX, o legislativo municipal de Santarém, no oeste paraense, cometeu o crime em não respeita a decisão da assembleia consultiva da revisão do plano diretor da cidade.

Decisão que contou com o não menos indiferente às leis, o prefeito Nélio Aguiar. O crime foi cometido ao apagar das luzes do ano passado. Momento onde a maioria dos segmentos que vigiava os poderes estava a organizar os seus recessos e avaliações.

As tramas para favorecer setores da especulação imobiliária e do agronegócio foram inúmeras. Insignificante publicidade sobre as reuniões e a assembleia. Mudança do local da assembleia final com vistas a driblar a participação dos setores que defendem a reprodução econômica, política, social e cultural dos povos tradicionais.

Artigos, trabalhos de conclusão de curso registram o enredo.  Realço aqui a obra A luta pelo direito à cidade na Amazônia: o processo de revisão do Plano Diretor de Santarém. a obra resulta do projeto de pesquisa coordenado pela professora Beatriz Reis, do Curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional da UFOPA. 

Além da professora, aprovada em seleção de doutoramento na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), assina a obra o discente/bolsista Yuri Rodrigues.  Leia o livro AQUI

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Foragido: justiça caça fazendeiro miliciano de Marabá/PA

Acusado pela formação de milícia, o fazendeiro Marcos Antônio Fachetti Filho está foragido. 


Fotos: enviadas pelo MPF
Ele e o pai, que foi preso, são acusados de organização de milícias contra camponeses de Marabá.  As denúncias podem encaminhadas para o seguinte contato do MPF: 181 ou  (94) 3312-0200, Saiba mais sobre o caso AQUI