sexta-feira, 3 de julho de 2020

Tiros de canhão contra a pandemia


Belém antiga. Imagem da internet. 

Lá pelos idos de 1850, pós Cabanagem, poucos anos depois do lançamento do Manifesto Comunista, a cidade de Belém, naquela época denominada de Pará pelos visitantes de além riomar, era acometida por surtos epidêmicos de febre amarela e de varíola.  O porto teria sido o canal de viabilidade das chagas.  

A febre amarela precipitava sobre brancos e mamelucos, enquanto a varíola acometia índios, negros e mestiços. Iniciadas em abril, em plena estação chuvosa, as pestes duraram uns seis meses.

No portfólio de ações sanitárias do governo da época no combate das pragas, uma se destacava, disparar tiros de canhão no afã de purificar o ar, nos conta Bates.

O naturalista, que a partir de Liverpool – renomado porto de tráfico negreiro- aportou em searas Amazônicas, ao lado de Wallace, igualmente cientista,  percorreram o rio Amazonas por demorados anos. As informações acima constam em Um Naturalista no Rio Amazonas.

A obra além de relatar as exuberâncias da floresta tropical, externaliza toda ordem de leitura preconceituosa contra os povos ancestrais, por ele tratadas de indolentes, bárbaros, selvagens e congêneres. Mesma tratativa recebe a insurreição Cabanagem.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

2020, o São João mais triste


Foto: Bumba meu Boi de Maracanã. fonte: facebook do Batalhão de Ouro

No São João mais amofinado que o mundo já viu, acomodei ao alforje uma fieira de estrelas para modo de enfeitar a cumieira do teu viver

No São João mais triste que o mundo já viu, nada de fogueira, arraiá de bandeiras, guarnicê ou brincadeiras

Nada de coco, coqueiro, Boi de Leonardo, Maracanã, Maioba, Ribamar, Coxinho, cacuriá...

No São João desprovido de matracas, pandeiros, o onça se perdeu no buraco fundo, aonde o vento faz a curva, na grota do Japão sem liberdade

No São João da ilha em baixo astral

Até a face da lua ficou caiada por gotas do banzo de África

No riomar de solidão

Melhor sair de fininho

Miudinho

Apito calado  

Ajuntar os versos noutro lugar

Águas em outro ribeirão

sábado, 20 de junho de 2020

Luta pela terra no Pará: tese recupera trajetória de ativistas mortos na década de 1980

Gringo, Benezinho ativistas sindicais e o advogado Paulo Fonteles são os casos tratados 



Professor Elias Sacramento. Fonte: foto da internet/site UFPA. 

Os anos da década de 1980 são os mais sangrentos na luta pela terra no estado do Pará. Trata-se do período da inserção econômica subordinada da Amazônia a outros centros mais desenvolvidos. A conjuntura era marcada pela apropriação do estado pelo grande capital.

A ordem do dia residia na instalação de grandes projetos marcados pela concentração de capital, sob o primado das rodovias da geopolítica da ditadura civil-militar de integração física. Tudo sob os auspícios da doutrina de segurança nacional de Golbery do Couto e Silva.

Uma toada regida pela expropriação dos povos da floresta de forma sistemática. Exploração da madeira, imposição da pecuária extensiva e mineração foram alguns dos polos econômicos eleitos como prioritários para alavancar o “desenvolvimento”. 

O estado autoritário impôs o terror aos moradores nativos e migrantes. Prisões, tortura, execuções e chacinas de seus opositores são ações que até os dias de hoje não foram reparadas.

Camponeses e seus aliados eram os eleitos como atravancadores do “progresso”, e assim como a floresta, deveriam ser eliminados. Nos anos de 1980 a ala mais reacionária dos fazendeiros edificou a União Democrática Ruralista (UDR), o braço armado do setor. Soma-se ao cenário da época, o espectro da Guerrilha do Araguaia, e a ameaça “comunista” na região.  

O major Curió é personagem central na definição de estratégias de repressão ao movimento sindical do campo naquele momento. A execução de Gringo tem relação com a eleição sindical em Conceição do Araguaia, onde ele era candidato a presidente.  

A tese de Elias Sacramento, apresentada no Departamento de História da UFPA, no dia, 17 do corrente mês, sob o título “É muito triste não conhecer o pai. A herança da violência e os familiares de Gringo, Benezinho e Paulo Fonteles” recupera fragmentos destes dias sangrentos do estado do Pará.

O professor e pesquisador também teve o pai assassinado durante a ditadura civil militar.  Sobre o pai, Sacramento dedicou a sua dissertação no mesmo departamento da UFPA, com o título Almas da Terra: a violência no campo paraense, apresentada em 2007. A dissertação e a tese contam com a orientação da professora Edilza Fontes.

Na tese o professor ilumina fatos de três casos de assassinatos de lideranças ligadas à luta pela terra no estado.  Dois casos dedicados a ativistas sindicais e sobre o advogado Paulo Fonteles, um dos fundadores da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH), assassinado em 1987.

O número 01 do Jornal Pessoal, editado pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto é dedicado à apuração do caso. A reportagem foi laureada com o   o Prêmio Fenaj de Jornalismo daquele ano. Leia AQUI  

Empresários do grupo Jonasa e Belauto eram tidos como suspeitos. Por isso o grupo Maiorana, responsável pela edição jornal do Liberal, não publicou a reportagem, o que provocou a criação do quinzenário do jornalista. Igualmente objeto de trabalhos de pós graduação.

Assim como Alex Lima, Elias disserta sobre a trajetória do agente pastoral da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Conceição do Araguaia, Raimundo Ferreira Lima, conhecido por "Gringo". Leia matéria AQUI

Alex, filho do agente, apresentou a dissertação faz pouco dias, na Unifesspa. Filhos de gringo são professores ou ativistas sindicais, a exemplo da filha Nedyma Lima, que lidera o sindicato da educação em São Geraldo do Araguaia. 

Outro caso analisado por Elias é o assassinato do dirigente sindical Benedito Alves Bandeira, conhecido por "Benezinho", morto em 1984 e que teve sua atuação no município de Tomé-Açú e Acará.  Na ocasião a PM conseguiu prender os três pistoleiros. Revoltada com o caso, a população fez justiçamento contra eles. Sete filhos do sindicalista ficaram na orfandade. Veja documentário AQUI

No processo da pesquisa, Elias enfrentou certa resistência dos herdeiros, até eles conhecerem parte da trajetória do professor. 

Sacramento além de recuperar o enredo dos crimes envolvendo os ativistas pela reforma agrária, indagou sobre o destino dos filhos, como a família encarou o legado de luta, se houve reparo por parte do Estado e sobre os traumas provocados pelas  violências.

Integraram a banca examinadora os professores Francivaldo Alves Nunes(UFPA), Airton dos Reis Pereira (UEPA/Marabá) e Raimundo Amilson de Sousa Pinheiro (UEPA).


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Fundação Palmares ameaça quilombolas do PA

Imagine se o governo resolve instalar dezenas de torres de energia de 44 metros de altura na porta da sua casa, e não pergunta a sua opinião? É o que pode acontecer com diversas comunidades quilombolas e ribeirinhas do norte do Pará, onde está prevista a construção de uma linha de transmissão de energia ligando os municípios de Óbidos, Juruti e Parintins. Ao dar o aval para o Ibama conceder a licença prévia ao empreendimento — antes que os moradores fossem consultados — a Fundação Cultural Palmares (FCP) parece atender ao pedido do Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de aproveitar a pandemia para “passar a boiada” na Amazônia. Leia a íntegra na Agência Pública

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Amazônia: pandemia em tempo de queimada

Verão na quebrada. Tempo de queimada nas terras griladas.



38º foi a estimativa de calor no sudeste paraense ontem. Sensação térmica pra mais de 40º. A chuva escasseia. Em condições normais, volta a baixar em novembro. É tempo de queimadas nas terras griladas. 

Não existe calçamento na maioria das ruas das cidades. O centro comercial de boa parte delas parece um formigueiro. Nesta temporada do ano a fumaça de queimadas impera. Soma-se ao ambiente a poeira das ruas. O calor é inclemente. 

É neste período que os postos de saúde são tomados por crianças e idosos com problemas respiratórios. Tudo por conta da fumaça e da poeira. É nesta conjuntura que o Estado resolveu abrir a porteira para o fluxo de pessoas no comércio, e almeja a retomada das aulas. Uma medida de matar???

Quilombolas da Amazônia repudiam ação da Fundação Palmares


FUNDAÇÃO PALMARES NÃO PODE TIRAR PROVEITO DA PANDEMIA E ATROPELAR OS DIREITOS QUILOMBOLAS!

A BOIADA NÃO VAI PASSAR!



Diante da impossibilidade de realizar a oitiva aos quilombolas por causa do isolamento social, a Fundação Palmares optou por dar o seu aval para que o processo de licenciamento ambiental siga para a próxima etapa sem a consulta que será, segundo a FCP, realizada posteriormente. As comunidades quilombolas sequer foram informadas de tal decisão. Leia a íntegra AQUI

domingo, 17 de maio de 2020

Morre aos 67 anos, em São Paulo, o jornalista Maklouf Carvalho


O jornalista paraense  perdeu a batalha para um  câncer no pulmão. O Cadete e o Capitão (sobre a vida militar de Bolsonaro) foi o último livro investigativo



“Resistir é o primeiro passo”, sob tal palavra de ordem circulou em Belém, capital do Pará, o Jornal Resistência. A Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) serviu-lhe de ventre para que o mesmo viesse ao mundo num sombrio 1978. A SDDH somava apenas um ano de vida.

Na vizinhança latina a esquadra Argentina levantava o troféu de campeã de futebol do Mundo. Cinco anos antes Allende era assassinado no Chile e Pinochet chefiava a ditadura no país.  No Brasil respirava-se o ocaso do milagre econômico. Uma tal de integração física da Amazônia ao resto do país regia a vida e a morte na taba. Com a proteção do guarda chuva do Estado, o capital adentrou na selva sem quase nenhum desconforto. Literalmente, sentou praça.

O boletim Resistência se constituiu como um marco da comunicação considerada alternativa no Pará, e circulou de forma regular entre 1978 e 1983. O advogado Luiz Maklouf Carvalho foi seu editor, falecido aos 67 anos, neste ultimo sábado, 16. A importância do boletim por ele editado consta na obra de Bernardo Kucinski, Jornalistas e Revolucionários (1991). Por divergências políticas, Carvalho polemizou com o autor em vários artigos.

O jornalista paraense migrou para São Paulo ainda na década de 1980, anos de grande recrudescimento da luta pela terra no estado do Pará.  Neste combate o jornalista perdeu o amigo, e um dos fundadores da SDDH, o advogado Paulo Fonteles. 

A reportagem investigativa  sobre o caso rendeu o livro Contido à bala.  Sobre o movimento de resistência armado à ditadura, escreveu sobre as mulheres que se engajaram, onde entre outras, trata da ex-presidenta Dilma. 

Além dos principais veículos de comunicação do eixo Rio-São Paulo, o jornalista contribui com o jornal Movimento, que há pouco foi agraciado com um livro sobre a sua trajetória. Iniciativa que o Resistência ainda aguarda.

Na década de 1990, quando terminava a graduação em São Luís, enviei via fax à redação da Folha de São Paulo, um resumo do meu trabalho de conclusão de curso na UFMA aos cuidados de Gilberto Dimenstein. Um escândalo do governo Roseana Sarney sobre um projeto de instalação um complexo de confecções com a China, denominado Chao-i, no município de Rosário, perto de São Luís era a pauta.  

Maklouf foi o escalado para a matéria, que foi publicada com direito à chamada de capa numa edição de domingo. O jornalista chegou a fazer contato via telefone para o local onde eu prestava serviço, mas, a secretária esqueceu de repassar o recado. Celebramos a cobertura com um vinho barato.   

O Cadete e o Capitão foi o derradeiro livro do paraense. Ele trata das peripécias do militar em processo militar cheio de reviravoltas, quando o militar projetou um ataque terrorista.   

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Grandes projetos e conflitos com populações tradicionais: livro é disponibilizado pela UFAM


 Livro com mais de 70 pesquisadores analisa situações de tensões nas Américas do Sul, Central, África e Índia. 



Perto de 70 pesquisadores/as de diferentes formações e países assinam artigos que buscam interpretar situações de conflitos entre grandes corporações de variadas matizes e as populações tradicionais nas Américas do Sul e Central, África e Índia, no volumoso livro Território, Cultura e Pueblos: megaprojetos, atos do Estado, Povos e Comunidades Tradicionais, disponibilizado no fim do mês passado no site do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, da  Universidade Federal da Amazônia (UFAM).

A obra com pouco mais de 700 páginas resulta do “II Seminário Internacional Megaprojetos, Atos de Estado, Povos e Comunidades Tradicionais”, realizado em outubro de 2018, na Universidade Autônoma do Ocidente, em Cali, Colômbia.

O livro homenageia o líder quilombola e defensor do direitos humanos Temístocles Machado Renteria, assassinado em 2018, aos 59 anos. A obra ilumina sobre a conjuntura da Amazônia brasileira, de países vizinhos e coirmãos de outros continentes. Em comum, todos são países da periferia do capitalismo. Estes marcados pela racionalidade econômica baseada em grandes projetos de mineração, agronegócios e obras de infraestrutura. 

Trata-se de projetos mediados ou induzidos pelo Estado, com vistas a acessar as riquezas naturais, e promover a expropriação das populações tradicionais, que tem tido como consequências, a mobilização destas a edificarem formas de estratégias e táticas de resistências.  

No caso amazônico, entre as inúmeras situações de tensões, constam artigos sobre a Base de Lançamento de Foguetes de Alcântara, no estado do Maranhão, que o governo federal, a partir de uma associação com o governo estadunidense de Trump, visa a promover outra expropriação de populações aquilombadas. No mesmo estado há registros sobre a comunidade de Cajueiro, ameaçada pelo capital Chinês, por conta de empreendimento portuário.

As populações quilombolas da região do Trombetas, no oeste do Pará, também são analisadas, por conta de projetos de infraestrutura voltados para atender o grande capital mundializado. Desde os anos de 1980 do século passado elas enfrentam problemas por conta da mineração da bauxita protagonizada pela Mineração Rio do Norte (MRN), atualmente sobre o controle da norueguesa Norsk Hidro. 

A mineração em Carajás, no sudeste paraense, iniciada no mesmo período da região do Trombetas, quando a Vale ainda era estatal, também é abordada na obra, quando a economia acreditava que a efetivação de polos de desenvolvimento (energia, mineração, madeira e pecuária) iria dinamizar a economia regional. 

Nos dias atuais, os especialistas hegemônicos depositam as suas fichas na implantação de Eixos de Integração e Desenvolvimento (EIDs), onde os corredores de circulação de mercadorias possuem papel central, a exemplo do Arco Norte, que impactará o Baixo Amazonas paraense, com projetos de grandes hidroelétricas, hidrovia, rodovia e ferrovia, além de complexos portuários. 

No conjunto do livro, campesinos, indígenas e quilombolas representam o centro de gravidade das situações de tensões entre o grande capital e as populações tradicionais.

A coordenação da iniciativa coube aos experimentados professores Alfredo Wagner Berno de Almeida (UFAM), Rosa Acevedo Marin (UFPA) e de Jesús Alfonso Lópes, da Universidad Autonoma do Occidente (Colômbia). A Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Estadual do Amazonas (UEA) e a Universidade Autonoma do Occidente

“O temor de novos danos e perdas além do que já foi perdido semeia o pânico entre as famílias atingidas nestas situações mencionadas, que há pelo menos três ou quatro décadas padecem, aguardando os anunciados términos das obras” realça o professor Alfredo Wagner, em texto de apresentação.

Nesta complexa sociodiversidade contemplada no livro são tratados: comunidades afro-colombianas, palenques e raizales (Colômbia); quebradeiras de côco babaçu, seringueiros, castanheiros, quilombolas, piaçabeiros, peconheiros, vazanteiros e ribeirinhos (Brasil); povos Kokama e Tikuna (Colômbia, Peru, Brasil); Endorois, Camba e Turkana (Quênia); comunidades quilombolas (Brasil); povos de Narmada (Índia) e povos Gavião e Guajajara (Brasil), dentre outros.

Baixe a obra AQUI





segunda-feira, 11 de maio de 2020

Padre Josimo: há 34 anos o agente da CPT era assassinado em Imperatriz/MA


O padre negro do Bico do Papagaio era conhecido pela perseverança e uso de sandálias surradas

Padre Josimo,, morto quando somava apenas 33 anos. Foto: internet

Ricardo Rezende*

Em 10 de maio de 1986, padre Josimo Moraes foi assassinado em Imperatriz, Maranhão, por Geraldo Rodrigues da Costa, contratado pelo interesse do latifúndio.

A União Democrática Ruralista - UDR - tinha sido criada. Seu presidente era Ronaldo Caiado. 
A organização promovia leilões de gado, ameaçava os camponeses, e eram criadas as milícias armadas a serviço dos grandes proprietários. Em Goiânia, a Solução, coordenada por coronéis, em Cuiabá, a Sapucam. Em Marabá, o grupo mais importante de pistoleiro era coordenado por Sebastião da Terezona.
Caiado, após o assassinato do jovem sacerdote disse para a imprensa: "Quem planta vento, colhe tempestade". Criminalizar a vítima era e tem sido uma prática comum neste país da casa grande.

O pistoleiro tinha tentado matar Josimo em abril de 1986 com diversos tiros contra o carro que ele dirigia. Sobreviveu. Estivemos no final de abril, cinco bispos e eu, em Brasília com o presidente Sarney. Informamos o atentado e os riscos que continuava a correr. Apesar da promessa de protegê-lo, nada foi feito. Dez dias depois, subindo as escadas do prédio onde funcionava a CPT do Bico do Papagaio, em Imperatriz, com cópias do poema Páscoa Paz que havia escrito, foi alvejado pelas costas.

Em reunião na diocese de Tocantinópolis, poucos dias antes o clero e o bispo sugeriram que ele saísse da região. Josimo disse que não o faria, pois os trabalhadores rurais, também ameaçados, não podiam sair, e que ele não tinha ninguém para chorar por ele: nem esposa ou filhos. Tinha a mãe, dona Olinda, e sabia que cuidariam dela. Foi seu testamento espiritual.


Mas em um aspecto ele errou. Quando o corpo foi levado para Tocantinópolis, chegavam caminhões de lavradores de toda a região. Homens e mulheres vinham em prantos... choravam certamente por Josimo, mas também por si próprios e o tiro nos atingia a todos.

Domingo era dia das mães. No sábado à noite, o corpo de Josimo foi, por insistência minha e de frei Henri, transferido do salão paroquial onde estava para a catedral de Tocantinópolis. A igreja estava preparada para as celebrações voltadas para a festa das mães. Mas o corpo estava em frente ao altar. Era um grito que irrompia, uma denúncia que apontava os crimes do latifúndio, da ausência de uma política pública adequada, da ausência da Reforma Agrária prevista na lei do país e não executada.

Na celebração de despedida do corpo, a catedral era pequena para conter toda a gente que chegava das dioceses e de outras regiões do país. Entre os presentes, além dos amigos camponeses, padres e agentes de pastoral, o ministro da Reforma Agrária, Nelson Ribeiro, que tantas vezes havia recebido lavradores e o próprio Josimo em sua sala.
O ministro remava inutilmente conta a corrente. Sarney, o presidente, o utilizava para amortecer as pressões e não dava seguimento aos processos de desapropriação. As pilhas de processo se acumulavam no Palácio de Planalto e não eram assinadas. A emoção era grande, todos choravam: os bispos, que celebravam, os fiéis e o próprio ministro.
A caminho do cemitério, Pedro Tierra, pediu ao ministro que renunciasse. Eu já havia dito isso ao próprio ministro logo após audiência com o presidente. O presidente não confiava nele, mas nos chefe da Casa Civil.
Poucos dias depois, Nelson Ribeiro renunciou...

Geraldo, o pistoleiro, foi condenado em 1997 e morreu na prisão. Foram condenados, no mesmo ano, como mandantes, Geraldo Vieira, seu filho Adailson, e Guiomar Teodoro Filho.
É professor da UFRJ, na época era agente da CPT em Conceição do Araguaia/PA.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Covid no Amazonas: um Estado à deriva


O colapso na saúde do Amazonas coloca em xeque a periferia e os povos indígenas 


Periferia de Manaus. Fonte: R. Almeida

Lindomar de Jesus de Sousa Silva*

Em quarentena, tento, sem sucesso, atualizar minhas informações do agravamento acelerado do coronavírus no Amazonas. Quem diria que uma “gripezinha” fosse capaz de colocar Manaus em grande destaque nos meios de comunicação do mundo afora, quadruplicar enterros e desnudar a falência do sistema público de saúde e de todos os outros que orbitam ao seu redor.

As mortes se multiplicam em leitos de hospitais, Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e em casas. Imagens de caixões empilhados, enterrados em valas comuns ou trincheiras chocam o mundo. O problema é que ao considerar as condições estaduais, todas as informações divulgadas parecem ser apenas o prenúncio de uma catástrofe. Lembremos que temos apenas subnotificações.

O Amazonas possui a maior taxa de mortalidade do País, com 45 óbitos por milhões de habitantes e com uma acelerada expansão de casos para o interior. Dos 62 municípios, 49 já têm casos confirmados.

Nesse contexto, a preocupação aumenta a cada dia diante da debilidade do sistema de saúde no estado, assim como o fato de Manaus ser a única cidade de todo o Amazonas que possui leitos de UTI. Leitos esses, segundo as informações, que se encontram totalmente ocupados.

A dificuldade de transportar pacientes para a capital, devido às distâncias dos municípios é muito grande, e é um fato agravante para a recuperação de pacientes. Os barcos, em condições normais são a principal forma de integração do interior com a capital, mas são lentos. As pessoas doentes dos municípios do estado precisam contar com a ajuda da prefeitura ou do estado para o resgate aéreo, que nem sempre está disponível.

Além dos leitos com UTI, segundo a publicação da Demografia Médica do Brasil, do Conselho Federal de Medicina (CFM), a cidade de Manaus concentra 93,1% dos profissionais registrados no Amazonas, o que agrava ainda mais a situação do interior do estado.

Outro fator agravante é o avanço da infecção para os bairros da periferia da capital, que têm alta densidade populacional, um sistema de saneamento ineficiente, fornecimento de água intermitente e têm dificuldades para adquirir produtos de desinfecção. Soma-se a esse fato a extrema dificuldade da população em ficar em casa, já que a geração de renda é fruto da informalidade. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, em 2019, 333 mil pessoas estavam na informalidade.

A capital concentra as atividades econômicas, em particular por conta da Zona Franca. Dois milhões de habitantes é a população estimada da capital do Amazonas, a maior unidade da federação em extensão territorial.

Tal Belém, a capital manauara cresceu de costas para os rios, a sufocá-los. Manaus coleta 10,18% do esgoto, e trata somente 23,80%, o que a ranqueia em 5º lugar entre as maiores cidades do país em ausência de cobertura em saneamento básico.  Igarapés, lagos e o rio Negro recebem o esgoto sem tratamento.
O Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS) a coloca entre as dez piores cidades em saneamento do país. Para análise o SNIS considera abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto. Entre as piores Manaus rivaliza com Ananindeua/PA (0,75%), Porto Velho/RO (3,39%), Santarém/PA (4,29%), Macapá/AP (8,91%).

Na verdade, o que estamos vendo em Manaus é o prenúncio da repetição de mais um ciclo vicioso, em que a população abandonada à própria sorte, marginalizada e invisível, que ocupa as áreas periféricas da cidade, estas desprovidas de infraestrutura, passa a ser a mais impactada pela doença.

Essa população é a que terá maior dificuldade em acessar o sistema público de saúde e qualquer outra forma de auxílio ou ajuda solidária. É o ciclo que se repete no Amazonas, desde a chegada dos colonizadores e suas doenças, como foi a varíola, a dengue, a tuberculose, a leptospirose e tantas outras que não foram sanadas no interior do Amazonas e na periferia da capital, Manaus. Chagas que ameaçam  em particular os povos indígenas.

A pandemia do coronavírus expôs a face perversa da opção por um modelo industrial concentrador, que abandonou o interior à própria sorte, concentrou a população, segregou-a e contribuiu para o seu empobrecimento.

A concentração populacional forçada pelas circunstâncias produziu uma altíssima densidade demográfica, devido aos pequenos lotes urbanos na periferia. Como consequência produziu também uma alta densidade domiciliar, um ambiente insalubre, que torna impraticável qualquer forma de isolamento, aumentando a suscetibilidade à contaminação.

A dificuldade do estado em responder a grave crise que vivemos decorre de uma visão elitista, sempre orientada por uma  miragem industrial, excludente, voltada a favorecer  o mercado e as grandes empresas.

 Neste contexto, diante da atitude “negacionista” e de desprezo pela vida humana, pelo conhecimento, a ciência, a cultura e à arte encontra-se sintetizada no “E daí”? do presidente da república, somada à lógica transloucada de fazer política de muitas pessoas, que insistem em teses conspiratórias e a espalhar fake news, só me resta uma conclusão: estamos à deriva, onde rareia o bote salva vidas.

*Sociólogo, pesquisador e membro do conselho editorial da Revista Terceira Margem Amazônia.

domingo, 3 de maio de 2020

Delza: 89 primaveras


Delza e o bisneto, Franklin

Comer melancia na Avenida Beira Mar era a grande diversão na remota quadra da década dos anos 50 do século passado, na ainda hoje provinciana São Luís. E, urinar em algum canto no percurso de volta para casa encarnava um ato de subversão. Aos meus olhos a cidade soa enjaulada em uma era distante. Impressão?

No passeio de fim de semana o risco rareava.  Nada comparado às tensões dos dias e noites de hoje.  A violência pulsa por todos os cantos. Facções criminosas delimitam territórios com pichações nas quebradas, e mesmo no Centro da capital do Maranhão, um logradouro portuário. A principal vereda de escoamento do minério saqueado no Pará. Maranhão é terra de preto, terra de aquilombação.

Em tempos idos, recitais de poesia tomavam a Praça Gonçalves Dias, espaço do Centro da cidade, que também abriga a Igreja dos Remédios e o antigo prédio da faculdade de Filosofia, o Palácio Cristo Rei, rememora Nelba Almeida. Lá fez parte da primeira turma do curso no estado. A praça tem o Atlântico como espelho. Praça dos Amores é o terno apelido.

Nelba atende pela alcunha de Delza. O nome Nelba soava estranho à maioria das pessoas.  Naqueles dias era comum o estudo do Latim, Francês, conta Delza ainda hoje. A memória é pródiga, ainda que pese o beirar dos 90 anos, hoje soma 89 nos costados de inúmeras pelejas como educadora, mãe, que criou com a solidariedade de outras irmãs, primas e comadres dois rebentos. Um casal.  

Soava subversivo urinar na rua naqueles dias, calcule uma mulher se indispor com os pressupostos de Platão ou Sócrates. Ali se encontra o embrião da Universidade Federal do Maranhã (UFMA). 

Por conta de tramas de alcova do então reitor da época, um cônego, que a preteriu em detrimento do seu par amoroso, Delza não ingressou no magistério superior. Chateada meteu a perna no mundo, e ganhou as entranhas do pauperizado estado. Em projeto solo já tinha duas crias.  Ainda que um ex colega de turma, que posteriormente assumiu a reitoria, a houvesse convidado a assumir uma vaga. Turrona.

Um matriarcado formava a ciranda da nossa infância. Era um matriarcado invocado.  Maria José, Maria do Socorro, Graça, Roselys e tantas outras comadres da capital e de Buriti Bravo, onde militou nos anos de 1960, davam corpo ao colegiado feminista. Cada uma a seu jeito. Cada uma com suas idiossincrasias e contradições.   

Eram tantas as madrinhas e tias postiças que eu era obrigado a tomar bença, que escapa o nome de todo o escrete. Dona Neguinha e Diloca (acho que era assim) guardo na memória. Mas, tinha muito mais gente.

Era comum compartilharem víveres quando o bicho pegava. Neste matriarcado a solidariedade mútua dá liga ao profundo laço de amizade, apreço e respeito entre as partes. Uma lição silenciosa que guardo. “Amigo a gente distingue no momento de aperreio”, repetia.

Graça era uma negra linda. Partiu muito cedo. Devotava com apreço uma boa cerveja. Um infarto a golpeou. A visitava com imenso prazer. Assim como a avó, Edinete, uma enfermeira. Roselys também se foi. Era uma negra retinta. Ao contrário de Graça era de reza.  Delza, Socorro e Roselys encararam o magistério.

Tantas temporais se passaram. E, cá estamos a encarar uma pandemia. A resistir. Ainda que separados por alguns quilômetros, no entanto, unidos pela teimosia em seguir em frente, gosto pela leitura, música, carne de porco e cerveja.   

Felicitações por quase um século de navegares em mares turvos, e apesar de tudo sorrir.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

40 anos após a execução do dirigente sindical “Gringo”, Alex Lima, filho do sindicalista, apresenta dissertação sobre a luta pela terra no Pará na Unifesspa.


A defesa ocorreu a partir de portal da universidade, e foi marcada pela inclusão de sujeitos históricos da luta pela terra nos 1980, numa licença humana e poética ao protocolo do rito. 


Manifestação pela passagem do assassinato de Gringo. Fonte: internet. 

Raimundo Ferreira Lima, mais conhecido como “Gringo” foi executado por pistoleiros em maio de 1980, quando somava apenas 43 anos, em São Geraldo do Araguaia, sudeste paraense. Além de sindicalista em Conceição do Araguaia, Lima era agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Gringo foi o primeiro dirigente sindical assassinado na região marcada pela aguda de disputa pela terra no sudeste e sul do estado do Pará. Trata-se da região mais violenta do país no que tange à luta pela terra. Após Gringo foram executados Expedito Ribeiro e alguns membros da família Canuto. Ainda hoje a matança não cessou.

Os anos da década de 1980 são considerados os mais violentos nas margens dos rios Araguaia-Tocantins. Anos da criação da União Democrática Ruralista (UDR), braço armado dos ruralistas.

A organização foi articulada pelo médico e ruralista Ronaldo Caiado. Hoje, novamente, governador do estado do Goiás. A UDR assina inúmeras ações de violência que ceifaram a vida de posseiros, sindicalistas, agentes pastorais, advogados e dirigentes sindicais.

Neste processo de coerção em oposição à luta pela terra camponesa somam  militares de todas as estirpes e patentes, das forças armadas, relevo ao Exército, e as policias civil e militar.

Naqueles tempos o ambiente era tomado pela doutrina da segurança nacional. Tensão agudizada por conta do episodio da Guerrilha do Araguaia. A militarização imperava, em particular com a presença do Exército – inúmeros quartéis povoam a região -, cujo representante maior era o major Curió.

Voltando ao caso do Gringo, o principal suspeito pelo sequestro e execução do sindicalista, ocorrido em São Geraldo do Araguaia, quando o mesmo retornava de evento em São Paulo, recai sobre o fazendeiro Neif Murad, relata uma das edições do boletim Grito da PA 150.

A formação de consórcio por parte dos ruralistas para eliminar os seus adversários, assim como hoje, era recorrente. E, ainda as listas de pessoas ameaçadas pelos fazendeiros e políticos da região. No caso de Gringo, suspeitas recaiam também sobre o então deputado estadual, o médico e pecuarista Giovanni Corrêa Queiroz, natural de Minas Gerais. O mineiro, desde sempre, integrou a “bancada do boi”.

Mais tarde a viúva, Maria Oneide Costa Lima, e outros agentes pastorais, após o assassinato do sindicalista, passaram a receber ameaças, e cartas anônimas colocadas sob a porta da casa pastoral, e ameaças de servidores do Grupo Executivo de Terra do Araguaia Tocantins (Getat), como alerta a edição de nº 27 do Grito da PA-150. O nome de Gringo hoje nomeia uma escola pública em São Geraldo do Araguaia e o caso sobre a sua execução nunca foi a julgamento.

Gringo e D. Oneide. Fonte: internet. 

O boletim ressalta ainda um episódio considerado um dos mais violentos contra os religiosos engajados na luta junto aos posseiros. No dia 31 do mês de agosto a Polícia Federal prendeu 13 posseiros do município de São Geraldo do Araguaia e os padres franceses Aristides Camilo e Francisco Goriou sob a acusação de incitação à desobediência civil. “Tudo indica que o ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel, com base no inquérito realizado pela Polícia Federal e instruído pelo Departamento Federal de Justiça, avaliou que a presença dos religiosos é “nociva” aos interesses e segurança nacionais, e sugeriu a expulsão de ambos”.  


Ativistas da época contam que a prisão dos religiosos provocou uma grande mobilização. Consta no rol de atos realizados pela soltura dos mesmos ocupar a procissão do Círio de Nazaré com faixas e cartazes pedindo a soltura dos missionários. Prender e torturar fazia parte do modus operandi dos agentes do regime. Na década de 1970, quando a agenda residia em sufocar a Guerrilha do Araguaia, o padre Roberto de Valicourt passou por experiência semelhante.  

Tem-se neste contexto o papel autoritário do Estado, e associação do mesmo com frações de classe do país e o grande capital nacional e internacional na apropriação de vastas extensões de terra na Amazônia. Bancos Econômico, Bradesco, Bamerindus e a empresa Volkswagen figuram como alguns beneficiários. Além de várias famílias das elites do Centro Sul do país. Muitas presentes na região, ainda hoje. A animar novos conflitos.  

Outras violências se sucederam no decorrer destas quatro décadas. Inúmeras execuções de dirigentes se espraiaram por todo o território do Pará. No rol, conta a execução da missionária Dorothy Stang, em 2005, no município de Anapu, a sudoeste paraense. Antes precedido pelo Massacre de Eldorado do Carajás, em 1996. 

MOMENTO HISTÓRICO - No derradeiro dia do mês de abril de 2020, quando o Massacre de Eldorado de Carajás soma quase um quarto de século e a execução de Gringo 40 anos, um momento histórico transcorre com a mediação da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), no Programa de Pós Graduação em Dinâmicas Territoriais. 

A banca examinadora e Alex Lima. Canto superior esquerdo prof Airton, superior direito Alex Lima (com foto de Gringo ao fundo), canto inferior esquerdo, profª Edma e o prof Ricardo Rezende. 

Alex Costa Lima, sociólogo, filho de Gringo, professor em São Geraldo do Araguaia apresenta a dissertação Padres Posseiros de São Geraldo do Araguaia: o Caso de Cajueiro, sob a orientação do professor Airton Pereira (UEPA), e tendo como examinadores o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ricardo Rezende e a professora Edma Moreira (Unifesspa).

Quando da morte do pai, Alex Lima contabilizava somente nove meses de idade. Era o caçula de seis irmãos. Naquele momento Rezende era agente da CPT em Conceição do Araguaia nos tensos anos da década de 1980. O professor Airton também foi agente da CPT, décadas depois, na cidade de Marabá.

O trabalho de Lima buscou iluminar a partir do estudo de caso da luta pela terra no Castanhal de Cajueiro, o papel de frações da Igreja Católica junto aos posseiros.  Além dos arquivos da CPT de Xinguara, o professor fez uso do arquivo da família e de relatos de antigos funcionários do INCRA, leigos e padres, posseiros e outros sujeitos daquele contexto.

Professor Alex Lima. Fonte: facebook 

Para o pesquisador a luta pela terra em Cajueiro, bem como pelo projeto de desenvolvimento a partir do protagonismo dos posseiros, o modo de uso das riquezas da região representou um momento de resistência contra a ditadura civil-militar, e pela radicalização da democracia. 

No percurso do trabalho divido em quatro capítulos Lima realça a relevância do MLPA – Movimento de Libertação dos Presos do Araguaia – que aglutinou vários segmentos de diferentes correntes ideológicas, que mobilizaram ações no Brasil, na França e no Vaticano.   

40 anos se passaram do assassinato de Gringo. Em certa medida o posseiro da fronteira conseguiu se territorializar nas plagas do sul e sudeste do Pará. Hoje os projetos de assentamentos rurais controlam mais 50% do todo o território da região.  

O posseiro, em certa medida foi reconhecido pelo Estado. Ganhou status de assentado da reforma agrária. Logrou êxito em acessar alguns direitos garantidos na Carta Magna, nem que para isso tivesse que romper a cerca do latifúndio.

O reconhecimento tem como marco duas tragédias de violência do Estado e do capital contra trabalhadores rurais, o Massacre de Corumbiara (RO) e do Eldorado do Carajás (PA), estes, como gatilhos de reconhecimento em massa de áreas ocupadas na Amazônia por posseiros. Muitas há mais de duas décadas.

No entanto, isto não implica na equacionalização das lutas pela terra e as riquezas nela existente. O Estado, após quase meio século, mantém a ação autoritária e capturado pelas frações de classes. Bem como a democracia, tal os raquíticos meninos migrantes da década de 1980, continua capenga das pernas.   

Contudo, creio, nas terras do Araguaia-Tocantins, a educação talvez seja o nicho de ação onde mais se conseguiu radicalizar na democratização na região, a partir da demanda de camponeses e indígenas.

A Unifesspa espelha a luta de classes. Num flanco, tem-se a Educação do Campo, em franco dialogo com o conjunto de sujeitos que historicamente foram subalternizados, e noutro extremo, os cursos relacionados com áreas mais técnicas, a exemplo das engenharias, por onde gravitam os interesses da mineradora Vale.

É ela, que ao controlar tecnologia e capital, que acaba por deter a hegemonia na definição do território. É o território local que abriga o maior projeto da mineradora em todo o seu portfólio.

Em oposição à mineradora, ruralistas, as oligarquias locais e outros setores, crasso exemplo da peleja pela terra foi a edificação do Campus Rural do IFPA.  O antigo Castanhal grilado pela família Mutran, e ocupado pelo MST ao fim dos anos 1990, num enfrentamento que durou uns dez anos, hoje abriga uma instituição de ensino onde filhos de posseiros e indígenas conseguem estudar de forma digna num espaço público.

A defesa de Lima quebrou o protocolo do rito de passagem. Além da mãe, dona Oneide, fizeram intervenção os padres Aristides Camilo e Francisco Goriou, que foram detidos na década de 1980.  

A dissertação de Lima não representa um caso isolado no combate pela terra. Ela vem a se agregar a um conjunto de trabalhos de filhos de posseiros e indígenas que aportaram nestas terras do Araguaia-Tocantins em tempos idos do século passado. Enfrentaram todos os tipos de obstáculos, até alcançar uma universidade pública.

Todavia, o contexto politico e econômico nos dias de hoje, reflete aquele de tempos distantes, - uma vez mais - as populações locais  encontram-se ameaçadas pela expropriação pelo grande capital com a mediação do Estado, este apropriada pelas frações de classes – em particular ruralistas – e milicos talvez,  de forma mais agressiva que dantes.

Conheça mais relatos sobre a  luta pela terra no Araguaia Tocantins  escrita pelos protagonistas na obra Memorial da Terra dos Castanhais. Baixe AQUI