terça-feira, 23 de outubro de 2018

Crime de Mariana/MG das mineradoras Vale e BHP Billiton soma três anos em novembro, Charles Trocate, do MAM, avalia a quebra de braço entre atingidos e as empresas

Charles Trocate da coordenação nacional do MAM Fala do crime da SAMARCO, VALE/ S.A, e BHP BILLITON, em Mariana, no estado de Minas Gerais, que em 5 de novembro de 2018 completa 3 anos!


Paracatu de Baixo - comunidade atingida pelo rompimento da barragem do Fundão. Milhares de vidas destruídas - Foto: Rogerio Almeida/2018

Furo- Qual o significado do rompimento da Barragem de Fundão em Mariana que dia 5 de novembro completa 3 anos?

Charles Trocate - Primeiro que se trata de um crime e o seu significado é de completa impunidade e se destaca, nesse cenário hostil aos direitos societários dos afetados pelo rompimento, pelas similitudes de outros crimes que vai do abrandamento das  punições pelas postergações que as empresas envolvidas Samarco, VALE/S.A e BHP Billiton, tem conseguido no decorrer desses três anos no ministério público e no judiciário.

Por outro lado,  as empresas envolvidas reclamam e exigem sem nenhum outro senso de responsabilidade pelo crime de Mariana as licenças para o reinício das operações em nome da economia de mercado e da fome de dinheiro dos acionistas para o início do ano 2019. Para isso contam com a negligencia política das autoridades estatais para a resolução de um problema importante da sociedade, de um problema que nos liga ao sistema mundo de produção de riquezas, a exportação de matérias-primas. A sofisticada economia industrial do centro do mundo capitalista está diretamente ligada à tragédia ao seu redor!

Além disso poderíamos enumerar para responder à pergunta um conjunto de significados dentro de uma razoabilidade. A de que estamos tratando de um setor da economia global em guerra ecológica contra aspectos geológicos e formações sociais de longa duração, como os índios e seus territórios consagrados históricos e em algumas regiões as populações quilombolas como expressão viva dos desdobramentos do nosso passado, de natureza colonial e escravocrata. Essas formações históricas possuem território, pequenas cidadelas, vilas, agrupamentos e estão em muitas cidades interioranas e organizam suas economias de pequena escala sem concorrentes ideológicos que os destrua com lógicas de rupturas céleres, como é o caso da implementação do circuito da produção mineral em larga escala, que por um lado gera impactos estruturantes imediatos e ao mesmo tempo elimina as outras formas de economias, se absolutizando como a máxima expressão de desenvolvimento e progresso. Comprando para isso o imaginário social, da inevitabilidade da mineração.

Catástrofes ou crimes políticos e/ou técnico-científicos numa primeira análise, como é do 5 de novembro de 2015, aprofundam os mecanismos da minério-dependência, quando a sociedade de modo geral é levada a aceitar o único consenso possível dessa guerra, lucro da empresa de um lado (incluso, burlando as leis e os tribunais) e os prejuízos ecológicos ambientais repartidos para a sociedade, sobretudo com os mais pobres, como é o caso das vítimas do esparramento do rejeito da barragem de Fundão que não só perderam um lugar, mas o sentimento de um lugar. Desse ponto de vista poderíamos citar estes dois movimentos dentro desse processo, a minério-dependência com toda força, dividindo inclusive a sociedade com o discurso de que as tragédias são o “custo a ser pago” pelo progresso e sobretudo pouca efetivação jurídica para o crime de projeção, não só porque envolve, nesse caso as maiores corporações do setor VALE S.A. e a BHP Billiton, mas porque sendo Minas Gerais um dos estados mais minerados do país, em números de minas em funcionamento, essa catástrofe implicou em perca de biodiversidade e territórios agrários, de pequena e média propriedade como também colocou em risco a segurança hídrica de milhões de habitantes das cidades ao longo da bacia do Rio Doce. Sem falar em percas até agora indescritíveis.


Furo- É possível estabelecer uma visão panorâmica desse acontecimento?

Charles Trocate -O panorama é de desalento total, ainda que haja na nossa história país afora inúmeros crimes ambientais, como são os vazamentos da Norueguesa HYDRO, lançando em três décadas artefatos poluentes que contaminaram as aguas profundas da região de Barcarena, no Pará. tornando impróprias para qualquer tipo de atividade humana, sendo o último vazamento nos meses de fevereiro e março desse ano. O crime da Samarco, VALE/SA e da BHP Billiton em Mariana (MG) é emblemático e teríamos que sair dele com algo mais civilizatório do ponto de vista das leis que regem o setor no Brasil, o que não ocorreu. Levadas à votação em dezembro de 2017, foram  feitas duas medidas provisórias que definiram a criação da Agência Nacional de Mineração (ANM) e as novas alíquotas por minérios, da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais) e um conjunto de modificações que atende à dinâmica dos investimentos minerários, numa liberalização total. Ainda, o mundo do trabalho, e o mundo do trabalho da mineração já haviam sidos golpeados com a reforma trabalhista!

A recusa que havia mencionado tem como elemento, o conservadorismo estrutural resultado do golpe de agosto de 2016 e a manipulação sistemática do crime, pelas corporações midiáticas a partir de grandes contratos de propaganda. E é importante chamar a atenção que não conseguimos tirar lições da tragédia e nem levar até as últimas consequências, no sentido de evitar pela lei a antropofagia da empresa mineral, que mata tudo ao seu redor: natureza e força de trabalho, laços comunitários entre outras coisas replicada em larga escala. Um outro motivo desse desalento é que esse marco tem como base conjuntural as eleições de 2014, quando as empresas financiaram e foram determinantes para a eleição de vários governadores, senadores e deputados, onde ficam seus investimentos, com destaque para o Pará, Minas Gerais, Goiás e Bahia, além de ser decisiva para a eleição de 193 deputados federais, de inúmeros partidos! É a consagração do poder das elites predatórias

E esse desalento é mais perverso se considerarmos o ambiente ideológico da sociedade brasileira de pós-golpe, quando as vésperas de decidirmos as eleições no Brasil, apenas três candidatos trouxeram em seus programas de governo propostas para o setor! De qualquer forma a mineração já se configura como o conflito dessa e das próximas décadas, senão mudarmos a rota, da qual ela está implicada interno e internacionalmente!


 Furo - Três anos depois o que aconteceu para tentar ressarcir os inumeráveis prejuízos que o rompimento causou?

Charles Trocate -Nada, decisivamente nada. Toda a bacia do Rio Doce é um território conflagrado, cindido entre o antes e o depois da tragédia. Se optou primeiramente por judicializar o crime e perdemos, os TAC´S (Termo de Ajustamento de Conduta) funcionam contraditórios aos interesses dos despossuídos de biodiversidade e sociabilidade que a tragédia política ocasionou. Depois, os esforços de sair da tragédia, de ressarcir os prejuízos materiais, casa, terra e outras dimensões da economia dessas populações tem sido exercício de penúria.

A decisão da SAMARCO, VALE/SA e BHP Billiton e da Fundação Renova criada para se envolver nos problemas é precaríssima. Ou seja, o ritmo, que implica decisões com todos é talvez o maior dos problemas e isso tudo se configura em ambiente bem antidemocrático, a voz dos que estão sem nada é a apenas um eco contestado. Estão precisando que a sociedade faça pressão política para que o problema vá se resolvendo. Do ponto de vista mais geral, o prejuízo ecológico de desperdício de natureza com a poluição da terra e da água por exemplo, levará anos, e claro se a sociedade estiver atenta para sugerir alternativas ao resultado da tragédia e ajude a impor limites ao modelo mineral. Em entusiasmo é que teremos muitas lutas pela frente! 

E deste ponto de vista, as marcas da mineração, para além do “desenvolvimento e progresso”, “cantado em verso e prosa” pelos capitalistas do setor, demostra que o rompimento da Barragem de Fundão é um espaço de análise e reflexão e tomada de decisões institucionais.  E um dos muitos setores da sociedade que lançaram olhar e preocupação é importante destacar os movimentos populares que seguem se esforçando para nacionalizar um ponto de vista e a universidade ao redor, cujo estudo sistematizado tem  animado reflexões importantíssimas no país e mundo afora. O rompimento da barragem de rejeito de Fundão em Mariana é um conflito moderno de uma lógica abismal do capital e é muito importante assegurarmos não só reflexões mas lutas interessadas, que se sobressaiam sobre este bem finito aspectos soberanos juridicamente e de soberania popular com todos e todas ajudando a decidir o usufruto dos bens naturais.

Mas no fundo a sociedade mineira, que aceita a mineração nesses termos ditados pela VALE S.A., SAMARCO e BHP Billiton e suas empresas associadas, não está preparada para desvelar a sua real situação de sequestro de destino, e isto vale para as muitas regiões mineradas do país.

Furo- É possível mencionar um itinerário dessas tragédias?

Charles Trocate- Se persisti esta forma de uso dos recursos geológicos viveremos um holocausto ambiental. Dizem os especialistas e estudiosos da questão que nos últimos 100 anos tivemos inúmeros rompimentos de barragem de rejeito no mundo, ou seja, já há um enorme entendimento entre os ideólogos da indústria mineral que ela só se realiza produzindo efeitos, que na grande, mas grande maioria mesmo são socializados apenas com os pobres, da África e América Latina, onde ocorreram a maioria dos rompimentos. Além disso, extensão de territórios afetados por esses rompimento vem crescendo porque com o crescimento da extração cresceu também a geração de rejeitos.

Mas no caso brasileiro, o itinerário, ou seja o caminho dessa tragédia anunciada é o período de super ciclo da mineração ou o boom das comodities, dos anos de 2003 á 2012 . O que as mineradoras ganharam não tem precedentes, sair de uma participação de 1,5% para 4,6% do produto interno bruto (PIB) é algo fenomenal. Os custos disso vieram depois, com a queda do preço da tonelada de ferro, o que exigiu uma reestruturação produtiva, implicando em precarização do mundo do trabalho da mineração, flexibilização das leis ambientas e o que é o resultado de tudo isso, pouquíssimos investimentos em infraestrutura, nas minas, nas barragens de rejeitos e em equipamentos. A rodagem da mina não parou pois busca-se compensar a queda do preço com o aumento da produção, a mineração quase que dobrou em intensidade!

Por isso vivemos atordoados com as notícias que chegam todos os dias : as tragédias de alguma forma ligada à mineração. É possível mencionar vazamentos em barragens de rejeitos de mineração de 2015 para os dias atuais, em sua grande maioria no estado de Minas Gerais[H6] , além do risco presente de novos rompimentos em outras barragens.

Furo- Isto explica a vulnerabilidade do sistema de mineração no Brasil?

Charles Trocate - A pergunta é o que respalda o incontrolável poder das empresas mineradoras? A rigor nós temos uma dupla situação e uma variável de contornos específicos. A primeira a considerar é que não há quem controle a renda mineral, fora dos desígnios do próprio capitalista.

Por isso, o descompasso de regiões com formações geológicas – e o sistema de produção mineral, mina, circulação e exportação- é introduzida ao mundo caótico da administração da pouca renda que lhe compensa. Ou seja, a renda da mineração obtida pela arrecadação da CFEM retroalimenta um sistema de desigualdade através dos governos locais, que apostam tudo em grandes contratos e contribuem ainda mais para a estratificação social, gerando e muitas vezes se associando às elites predatórias. O dinheiro não ajuda a eliminar a pobreza porque não chega na pobreza, fica em muitas antessalas do sistema.

E junto com isto está deliberadamente como ponto inaugural, do que veio se tornar a mineração no Brasil, a inserção fiscal para os grandes projetos de mineração na implementação e nas exportações. A existência da lei Kandir é talvez o disfarce jurídico mais eficaz de apropriação por roubo de um recurso finito da sociedade brasileira.
Como dito no início da entrevista, estas formas de saque e apossamento estão explícitas em crimes das empresas de mineração, como é o caso, do maior deles, em Mariana, outros aspectos estão secundarizados por este, e que sintetizam que a mineração tem como marca nas regiões e nos país o “desenvolvimento do subdesenvolvimento”. Poderíamos enumerar outros aspectos, mas esse como já mencionei corrobora exemplarmente!

Nada pode ser relativizado e é importante chamar atenção para o dia 5 de novembro o seu trágico significado, e que aos poucos a sociedade vá delimitando o poder das mineradoras por contestação popular. Como é caso do Movimento pela Soberania Popular na Mineração-MAM, que começou a exigir a revisão da Lei Kandir e o uso democrático do CFEM nos municípios minerados. Já é um começo, porque é histórico o imobilismo popular na precisão desse conflito, que atormenta em maior ou menor grau a nação!

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Amazônia: UFT lança dossiê sobre Comunicação, Política e Amazônia


27 trabalhos assinados por 64  pesquisadores da própria região e fora dela dão corpo ao documento

64 pesquisadores colaboram a partir da produção de 27 artigos na composição do Dossiê Comunicação, Política e Amazônia. A publicação é divida em duas partes, sendo a segunda dedicada a temas livres. A primeira seção agrupa conteúdos de pesquisadores de universidades da própria região. A iniciativa é ancorada a partir da Revista Observatório da Universidade Federal do Tocantins (UFT).
A coordenação da empreitada coube às professoras Cynthia Mara Miranda, Universidade Federal do Tocantins (UFT), Danila Gentil Rodriguez Cal, Universidade Federal do Pará (UFPA) e Li-Chang Shuen, Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Os professores Nelson Russo de Moraes, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) e Francisco Gilson Rebouças Porto Junior, Universidade Federal do Tocantins (UFT) organizaram os temas livres.
Representação da mulher quilombola, sobre indígenas, questão de gênero, análise de discurso e de narrativas de variadas vertentes dão corpo ao documento. No escopo é possível verificar: cobertura midiática sobre as disputas politicas no estado do Maranhão entre a família Sarney e atual governador reeleito, Flávio Dino (PC do B), ações em rede a partir dos setores populares, a exemplo das intervenções do coletivo Justiça nos Trilhos e da Rádio Rural de Santarém, que soma mais de 50 anos de r/existência.
Entre os professores da própria região é possível sublinhar pesquisadores de instituições dos estados de Roraima, Maranhão, Pará, Tocantins e Amazonas; e mesmo de novas universidades, como ocorre no caso das federais do oeste (UFOPA) e sul e sudeste do estado do Pará (UNIFESSPA).
Além dos pesquisadores da/na Amazônia, há contribuições de outras regiões do país, e mesmo fora dela, como demonstra uma contribuição oriunda do Chile.
Confira a revista AQUI

sábado, 6 de outubro de 2018

Coronéis de toga punem jornalista de Sergipe por crônica

Cristian Góes foi penalizado a pagar 66 mil a desembargador 

O Coletivo Carolina Maria de Jesus de Pesquisa em Jornalismo e Cultura lança esta campanha como um ato político e em solidariedade ao jornalista Cristian Góes, acusado pelo desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe (TJSE), Edson Ulisses, e condenado em 2013, pelo mesmo tribunal, por conta da publicação do texto fictício "Eu, o coronel em mim".
Agora, após cumprir pena criminal por 8 meses, prestando serviços num posto de saúde da capital sergipana, o jornalista é obrigado a pagar indenização de R$ 54.221,97 ao desembagador. Serão acrescidos ainda a esse valor os honorários advocatícios, fazendo com que a conta chegue à casa dos R$ 66.000,00.

Todas e todos sabemos que esse é um valor altíssimo para a grande maioria das trabalhadoras e trabalhadores. Por isso, decidimos somar esforços para coletivamente colaborar com a arrecadação, que pode ser de qualquer valor.
Entendemos também que se engajar nessa causa, contribuindo financeiramente e divulgando o caso, para além de apoiar o jornalista, é acima de tudo um ato em defesa da liberdade de expressão e do fortalecimento da democracia.

DETALHES SOBRE O CASO
Em 29 de maio de 2012, o jornalista Cristian Góes publicou em um portal de notícias de Sergipe o texto ficcional intitulado “Eu, o coronel em mim”, uma crônica sobre o exercício de poder que poderia se adequar a qualquer contexto, época, local e personagens.
Entretanto, sob a interpretação dúbia e fundada de subjetividade, o Desembargador e atual Vice-Presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe, Edson Ulisses, e o Ministério Público Estadual de Sergipe (MPE) moveram dois processos - um criminal e outro cível - contra o jornalista, alegando que o personagem “jagunço das leis” se traduziria na figura do Desembargador.
Em julho de 2013, em um julgamento extremamente ágil, o Judiciário sergipano já condenava o jornalista a mais de sete meses de prisão.
A partir da defesa integral da liberdade de expressão, o caso começou a ganhar uma repercussão nacional e internacional, inclusive com uma denúncia formalizada na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA), em outubro de 2013.
No entanto, mesmo com toda pressão exercida em torno do caso, em mais uma posição refratária do Poder Judiciário brasileiro, o recurso impetrado no Supremo Tribunal Federal com o pedido de revisão da condenação em solo sergipano foi negado, no dia 15 de agosto, sem sequer ter o seu mérito julgado.

MAIS INFORMAÇÕES
Texto alvo da acusação "Eu, o coronel em mim": http://artigo19.org/centro/wp-content/uploads/2017/04/Cr%C3%B4nica.pdf
Página de apoio no Facebook: https://www.facebook.com/somoscristiangoes/
Documentário produzido pela Artigo 19: https://www.youtube.com/watch?v=BWqd7oa-O0s

Algumas matérias publicadas sobre o caso

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Estudo inédito aponta que desenvolvimento social em Canaã dos Carajás não acompanha receita dos royalties da mineração



Os dados da pesquisa serão apresentados nesta quinta-feira (6) no município a gestores públicos e movimentos populares

Canaã dos Carajás, sudeste do Pará, abriga duas grandes minas de exploração de recursos minerais e apesar de exibir uma renda per capita sete vezes maior que o próprio estado o município apresenta um antagonismo em seu desenvolvimento social. É o que aponta um estudo inédito sobre o uso dos royalties da mineração.

Contradições do desenvolvimento e o uso da CFEM em Canaã dos Carajás foi uma pesquisa promovida pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) sob consultoria da professora da Faculdade de Economia da Universidade Federal do Pará (UFPA), Maria Amélia Enríquez.

“Chegamos à conclusão que existe um paradoxo muito grande no seu desenvolvimento. Por um lado, um crescimento muito expressivo das variáveis econômicas: renda per capita, PIB, receita, mas que não são acompanhadas pelas variáveis de desenvolvimento”, explana a pesquisadora.

O estudo traça um diagnóstico sobre a participação da CFEM a partir da análise e metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), programa de indicadores sociais que compõem a agenda internacional de desenvolvimento social proposta pelas Nações Unidas, e que são adotados por Canaã dos Carajás.

Os resultados serão apresentados nesta quinta-feira (6) em Canaã dos Carajás na sede do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação Pública do Pará (Sintepp) a agentes públicos e movimentos sociais da região. A realização do evento conta com a parceria do o Sindicato dos Trabalhadores (a) Rurais de Canaã dos Carajás (STTRC).

Visibilidade

Ainda de acordo com a professora o estudo é considerado inédito e pontua que Canaã do Carajás é um grande polo de exploração mineral com destaque no cenário econômico nacional e internacional. No município existem duas minas em atividade, a Sossego, cuja operação iniciou em 2004 e de onde é extraído cobre, e a S11D, considerada a maior mina de ferro do mundo. Ambas administradas pela empresa Vale S/A.

Em 11 anos, entre 2005 e 2016 Canaã recebeu R$ 224,4 milhões de compensação de royalties da mineração. Apesar de proporcionar um significativo aumento no volume da arrecadação do município ainda é grande o desconhecimento do que seja a CFEM, a que se destina e como essa receita pode melhorar a vida da população de municípios em regiões mineradoras.

Nahyda Franca, coordenadora do Ibase no Rio de Janeiro, afirma que o objetivo do estudo é “ampliar o debate público visando incidência política, fortalecimento da sociedade em geral, principalmente dos movimentos e da sociedade civil”.

Em dezembro de 2017 foi publicada a nova legislação para CFEM, a Lei nº 13.540, e um dos seus dispositivos exige “absoluta transparência na gestão dos recursos da CFEM”. Conforme a pesquisadora, embora a Prefeitura Municipal de Canãa de Carajás tenha todos os relatórios acerca da receita decorrente da extração de minérios um cidadão terá dificuldades para entender e ter acesso a essas informações. Com a nova lei as “Prefeituras que recebem compensação financeira terão que se adaptar a essa exigência”.

Modelo de desenvolvimento

A coordenadora do Ibase afirma que o objetivo do estudo é “ampliar o debate público visando incidência política, fortalecimento da sociedade em geral, principalmente dos movimentos e da sociedade civil”.

Ela ainda explica que, para além de dar visibilidade ao debate sobre a forma de uso, gestão e se a sociedade está participando ou não dessas decisões, há um questionamento sobre o modelo de desenvolvimento aplicado e levanta o debate.

“Será que esse modelo minero-exportador é o único modelo de desenvolvimento que o Brasil quer ter? Esse modelo é o único modelo de desenvolvimento que Canãa quer ter? (...). Será que esse desenvolvimento sustentável ele está sendo compatível com o modelo minero-exportador? Há compatibilidade entre esses dois modelos? Como que essa renda arredada atrás da CFEM poderia influenciar na construção de um modelo de desenvolvimento mais desejável, com outras alternativas (...) e influenciar em um modelo de desenvolvimento mais sustentável para o futuro de Canaã? Acho que são essas evidencias que a gente quer ver discutidas”.

Os minérios são considerados produtos não renováveis, logo as minas apresentam uma vida útil, o que implica que a receita decorrente dessa extração que dá origem a CFEM tem prazo.

Texto: Ibase, enviado por Lilian Campelo

domingo, 2 de setembro de 2018

Canaã dos Carajás - movimentos sociais e pesquisadores discutem resultado de estudo sobre compensação da exploração mineral


 O evento inicia no 06 de setembro na sede do Sindicato dos Professores
 

Na próxima quinta-feira, dia 6, em Canaã dos Carajás, na sede do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação Pública do Pará (Sintepp), será apresentado o estudo sobre o uso das rendas geradas pela mineração, em especial a Compensação Financeira por Exploração de Recursos Minerais (CFEM), realizado pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores (a) Rurais de Canaã dos Carajás (STTRC).

O evento tem como objetivo apresentar a pesquisa e apuração de dados realizada sob a consultoria da economista e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), Maria Amélia Enríquez, a agentes públicos e movimentos sociais da região.

Canaã dos Carajás está localizado no sudeste do Pará, e é o segundo maior arrecadador da CFEM do Brasil. A compensação, também internacionalmente denominada de royalty da mineração, é uma receita decorrente da exploração de recursos minerários.

Em 11 anos, entre 2005 e 2016, Canaã recebeu R$ 224,4 milhões de compensação de royalty da mineração. Apesar de proporcionar um significativo aumento no volume da arrecadação do município ainda é grande o desconhecimento do que seja a CFEM, a que se destina e como essa receita pode melhorar a vida da população de municípios em regiões mineradoras.

A apresentação do estudo na próxima quinta-feira (6) traça um diagnóstico sobre a participação da CFEM a partir da análise e metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), programa de indicadores sociais que compõem a agenda internacional de desenvolvimento social proposta pelas Nações Unidas, e que são adotados por Canaã dos Carajás.

Em linhas gerais a pesquisa revela um cenário de contradição no desenvolvimento social no município. Com relação ao crescimento econômico, à educação e à saúde houve uma melhora nos índices estabelecidos pelos ODS, por outro lado problemas sociais relacionados à pobreza, desigualdade racial e de gênero e à violência se agravaram.

Serviço
Data: 06/09/18
Local: Sede do Sintepp – Rua Novo Horizonte, 89, Centro
Horário: 9h30 às 16h

Contatos
Lilian Campelo - 91 98113 7998 / liliancampelo13@gmail.com
Maria Clara Araújo – 21 98848 8260 / mclara@ibase.br

Sugestões para entrevistados
Nahyda Franca: Coordenadora do IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas no Rio de Janeiro
Jane Souza da Silva – Colaboradora o IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas no Pará
Maria Amélia Enríquez: Professora e Pesquisadora da Faculdade de Economia da Universidade Federal do Pará. 

Veja a programação AQUI