sábado, 28 de novembro de 2020

Natal em novembro: é tudo água ao redor

 

Praia do Caolho. São Luís/MA.Pandemia/2020

É tudo água ao redor.  Água de mar.  Atlântico.  Em sua maioria imprópria para banho. Não existe tratamento de cocô na Ilha do Amor, São Luís, Maranhão.

Navios por todo canto. Lembra uma batalha naval. É bosta por todo o mar.  Não são de guerra as embarcações. São de saque dos minérios das terras dos Carajás, no sudeste do Pará. Uma cartografia de dor. Ah, dona Janaína...tanto mar..luz a ferir oszoin...

Ah encantados da floresta, é mina, é ferrovia, é porto, é saque,  é soco, é sangue...é um riomar de maldades...

São Luís do Mará. Tão bela. Tão turva. Vesga, talvez. Bulida, bolada, boleada, baleada. Ferida de morte por interesses capitais. Dunas e mangues sufocados.

Capitais interesses. Palácios. Palafitas. Caranguejos. Homens. Homens. Caranguejos. Pontes de madeira. Penínsulas.  Portos. Drogas por entre vilas e vielas. Fechados condomínios.  

Bairro da Alemanha. A cidade é uma cidade de cidades misturadas. Pandemia/2020/

Nela, uma cidade de pretxs, dois jovens brancos de partidos caretas disputam a cadeira do Palácio de La Ravardière. Colonização. Colonialidades. Êh lambaê, lambaio....

Há uns dois anos não pisava nas areias da praia da cidade, creio. Mainha contabiliza bem  mais tempo. Prestes a somar 90 verões, manteve o confinamento por oito meses. Mainha é de danar. Virada. Viração.

Magrinha, apoiada pelo neto Jonatha, arrodeou um pedaço de areia na Praia do Caolho. Tudo água ao redor. Tudo tranquilo. Uns cabras com a rede a teimar em peixe encontrar. Caymmi, Dorival, Bnegão...

Comovente ver o zelo do neto a amparar a avó. Bem como o carinho do bisneto Franklin. É ele quem toca o terror e mantém a chama da casa acesa. Rede de cuidados/trutas/tretas/carabinas/baionetas: Cristiane (irmã), Isabella (sobrinha). Diferentes gerações. Oxigênio. 

Antes da partida, dedo de prosa com velho amigo de tempos de faculdade, Antônio Carlos (Tontonho). Tempo pouco para 20 anos de hiato. Pouca breja para tanto assunto. Naqueles idos  corria o trecho entre a área do Itaqui-Bacanga-São Francisco e adjacências. Pinga, breja, sativa. Bar do Amauri (Sá Viana), Seu Adalberto (Reviver), Olho de Pombo (São Francisco), Bar do Jósimo (Rua do Alecrim-Centro).  

Um tiro curto foi a viagem. Três dias. Dois dedicados à Delza. Arretada. Valente. Valentia. Valentina. Memória em dia. Labareda. Ela não é de comer na rua. Escabreada. Desconfia do tempero e asseio alheios. No entanto, abriu uma exceção, e até elogiou o prato. 

A viagem de bate/volta foi o natal antecipado. Insistência da comps  Thulla Cristina. Um presente! A todos fez feliz. Chorei escondido no pós almoço. Inventei de lavar louça.

Assim, tudo se misturava à água do enxague de pratos, talhares e panelas. Água de sal dos meus zoin, sabão, punhados de saudades, alegria a confraternizar na pia, escorrer pelo ralo em tempos sinistros. Tudo misturado, rumo ao mar.   Ah, Janaína...Iemanjá...

 

Doce, obrigado!

sábado, 21 de novembro de 2020

Data Recovery HD/GO – Uma grande roubada. Evite!

Após boletins de ocorrências, queixa no Procon e em outras instâncias, cinco meses depois consegui que o equipamento fosse devolvido

Ao necessitar de serviços de recuperação de dados do seu HD, em hipótese alguma, sob nenhuma circunstância entregue o seu equipamento à empresa Data Recovery HD, firma com sede em Goiânia.

Fiz isso. Entrei numa grande roubada. A empresa garantiu dor de cabeça para mais de cinco meses.

A HD Recovery com sede à Av. T-08. Nº 478, Setor Bueno, juridicamente não existe. Opera sob o guarda chuva da MEDISON DO BRASIL ENGENHARIA E MANUTENCAO EM EQUIPAMENTOS HOSPITALARES EIRELI, cujo CNPJ é 21.566.797/0001-69, e o senhor Rogerio Ferreira Alves o empreendedor das firmas.  

 

Fachada da Medison do Brasil, empresa guarda chuva da Data Recovery

Resumo de uma grande dor de cabeça:

i)                 Ao contrário das empresas da mesma área, a Data Recovery cobra de taxa para avaliação de equipamento no valor de R$250,00;

Ordem de Serviço, 02 de julho de 2020

ii)                 Ao contrário do que propaga em sua página, não faz a avaliação do equipamento em 24h;

Print da página que promete diagnóstico em 24h

iii)           O meu equipamento chegou na firma nos primeiros dias do mês de julho, e nunca a empresa enviou um diagnóstico;

iv)        Após dez dias sem nenhuma informação técnica/contato passei a solicitar a devolução do equipamento. Comuniquei por escrito e via ligações, por várias vezes, que não desejava mais os serviços da empresa.  Comunicado feito ao suposto gerente da Data Recovery de prenome Denis e à secretária;

v)       O senhor Denis garantiu o envio do equipamento. Fato que nunca ocorreu. A partir da mediação de amigos foi possível conseguir uma pessoa em Goiânia para apanhar o equipamento.  Em duas ocasiões a primeira foi à empresa, que negou devolver o HD.  Isto, com tudo já comunicado à gerência e à secretária;

vi)           Mais ligações. Mais contatos. Uma segunda pessoa fez a mesma liturgia da primeira, também em duas ocasiões, e nada de devolver o equipamento;

Rogério Ferreira Alves - o dono da firma

vii)            O item 06 do Termo de Serviço da Data Recovery, reza: Após aprovação do serviço, os dados, assim como a mídia enviada, serão liberados após pagamento do serviço prestado;

viii)       Após a ligação de um/a advogado/a mediador/a fui informado que o equipamento não havia sido devolvido pelo fato do mesmo encontrar-se em  uma máquina de recuperação de dados,  e que por este motivo o mesmo não poderia ser retirado naquele momento;

ix)     Ocorre que eu nunca recebi nenhum diagnóstico, menos ainda um  orçamento, e nunca autorizei nenhum procedimento. Muito pelo contrário, desde o dia 15 de julho solicitava a devolução do HD; 

x)              O preço que a Data Recovery  cobrou é 100% mais caro que uma empresa que opera em todo o território nacional, e 250%  mais caro que uma com sede em São Paulo;

xi)         Algumas ações para reaver o equipamento: Fiz ocorrência na Delegacia do Consumidor de Goiânia, e na cidade onde moro, no Procon e em outras instâncias;

xi)       Por conta da greve dos Correios, enviei o documento do Procon via empresa privada de entrega. A Data Recovery simplesmente não aceitou em  receber a intimação.  O Procon reenviou. Somente com a mediação do Procon e audiência consegui acessar o equipamento, após mais de cinco meses;

xii)         O HD abriga material de tese, projetos de pesquisa e registros para um possível documentário sobre transformações urbanas em uma cidade da Amazônia. Dados acumulados ao longo de anos de trabalho, e nem todos copiados em outros suportes. 

xiii)       Por fim, Rogério Ferreira Alves, o empreendedor, sempre se negou em atender ligações. “Você nunca falará com o senhor Rogério”, pontuou o possível gerente da Data Recovery, em uma das muitas ligações que fiz.  No momento, o equipamento foi enviado a outra empresa no afã em ter os dados recuperados.

xiv)      Dito isto, recomenda-se não indicar os serviços  Data Recovery HD, com sede em Goiânia, ao seu mais desleal antagonista;

Faço o presente relato movido pela mais profunda indignação por conta do total desrespeito e ausência de profissionalismo da empresa Data Recovery, que não respeita nem mesmo o termo que ela mesma impõe ao cidadão. 

Barcarena: drama da Vila dos Cabanos - Hidro recua do despejo de idosos

 Casal de idosos continuará na casa, garante Alunorte, após denuncia do Sindicato dos Químicos de Barcarena 

Após denúncia do Sindicato dos Químicos de Barcarena sobre ação de despejo movida pela Alunorte/Hidro de um casal de idosos de uma das casas da Vila dos Cabanos, em Barcarena, a empresa declina da medida e afasta o advogado do caso, e promete que irá negociar o caso. O casal faz tratamento de câncer. 

A Alunorte integra a cadeia de alumínio controlada pela empresa pública norueguesa, Norsk Hidro, que ano passado teve um faturamento estimado em 8 bilhões de reais.

 

A Vila dos Cabanos foi erguida nos anos de 1980, no bolo do Programa Grande Carajás, com dinheiro público, quando a Vale ainda era pública, e era a maior acionária do empreendimento.

Informação do Sindicato dos Químicos de Barcarena, Pará

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Alunorte ameaça de despejo casal de idosos na Vila dos Cabanos em Barcarena

Casal ameaçado de despejo faz tratamento contra câncer

A Alunorte ameaça de despejo um casal de idosos de uma de suas casas na Vila dos Cabanos, no município de Barcarena, 50 quilômetros de Belém, denuncia o Sindicato dos Químicos do município.

Segundo informação da direção do sindicato, o casal (73 e 69 anos), em fase de tratamento de câncer, foi notificado oficialmente pela Justiça. Marco Antônio da Penha Corrêa foi a pessoa autuada.  

Dramas pessoais marcam a vida do par. Além do câncer que enfrenta, um dos filhos cometeu suicídio no ano passado, e o que trabalhava na Alunorte, após demissão, veio a óbito.

Santa Brigida, um dos diretores dos Químicos, conta que a indústria tem usado de uma empresa terceirizada para aterrorizar os moradores das casas da vila.

Segundo relatos coletados pela representação dos trabalhadores, a terceirizada contratada pela Alunorte tem promovido toda ordem de humilhação contra os ocupantes das casas.

O caso dos idosos não é algo isolado, conta o dirigente sindical Brigida.  Segundo ele, as empresas da cadeia do alumínio da cidade, uma das maiores plantas industriais do setor do mundo, não têm promovido o diálogo com as pessoas afetadas pelo problema.

“Os preços cobrados pela empresa terceirizada são abusivos. Antes as pessoas pagavam somente o preço do terreno. Não há humanidade no enfrentamento do problema por parte da indústria para equacionar uma situação grave das famílias”, avalia o sindicalista.

 Cadeia do Alumínio no Pará foi financiada com o dinheiro público

A Vila dos Cabanos faz parte da cadeia da produção de alumínio do município de Barcarena, cidade do norte do estado do Pará. O empreendimento fez parte do Programa Grande Carajás iniciado nos anos de 1980, do século passado. 

O programa remodelou boa parte do território do estado do Pará, e concedeu vastas extensões de terras públicas aos interesses do grande capital, e expropriou indígenas, quilombolas e campesinos. 

Trata-se recursos públicos, quando a Vale era a controladora da maioria das ações da cadeia do alumínio, antes da privatização no apagar das luzes dos anos de 1990, período da criação da Lei Kandir, que isenta as empresas em recolher imposto pela exportação.

Energia e água são os principais insumos da cadeia de produção dos lingotes de alumínio. Daí a construção da hidroelétrica de Tucuruí, ao sudeste do Pará.

A usina foi erguida no rio Tocantins para alimentar com energia paga pela sociedade brasileira a produção que hoje é controla pela empresa pública da Noruega, a Norsk Hidro, na cidade de Barcarena e a Alcoa, em São Luís, Maranhão.

Vila dos Cabanos - A company tawn (cidade empesa) como dizem os especialistas, é uma estratégia de controle da vida laboral e de lazer dos operários das fábricas.  A primeira experiência desse modelo foi implantada na Amazônia por Henri Ford, no Baixo Amazonas, nos anos de 1940.  

Faturamento –8 bilhões de reais foi o faturamento da Norsk Hidro no ano passado no conjunto dos empreendimentos que controla no estado do Pará, Alunorte, que transforma bauxita – matéria prima – em alumina, a Albras que transforma a alumina em alumínio, e a Mineração Paragominas, que lavra a bauxita.

As empresas colecionam notificações de crimes ambientais na cidade de Barcarena, como o transbordamento dos resíduos dos processos de produção dos lingotes de alumínio das suas bacias de rejeitos, em particular  a soda cáustica.

Por conta de crimes ambientais, em vários momentos a produção do alumínio experimentou períodos de suspensão.

O problema é recorrente em períodos de chuva, como o que estamos vivendo. Estudos da UFPA comprovam que várias substâncias dos processos de transformação da cadeia do alumínio provocam canceres.

Por abrigar vária industrias com grande potencial poluidor, Barcarena chegou a ganhar a alcunha de Cubatão da Amazônia.

Resposta da Hidro sobre o caso

A Albras, uma associação entre a Hydro e NAAC, informa que possui propriedades na Vila dos Cabanos, alugadas para empregados próprios e da Alunorte. A locação está vinculada ao contrato de trabalho. Uma vez encerrado o vínculo empregatício, o imóvel deve ser desocupado conforme o contrato firmado.

 

A empresa reitera que está disposta a regularizar a situação habitacional de ex-empregados que permanecem residentes de forma irregular nos imóveis da Albras. Nesse sentido, a empresa iniciou um trabalho em conjunto com o Tribunal de Justiça do Estado, através do Núcleo de Mediação, para solucionar as pendências jurídicas. Dos 78 convocados para o Mutirão de Mediação, realizado em 2018, apenas 23 não demonstraram interesse ou não entraram em acordo.

 

A empresa informa ainda que não tinha conhecimento do caso específico citado e reforçará o diálogo com os ocupantes do imóvel para - através dos meios legais cabíveis - encontrar a melhor forma de resolver a questão.

Assessoria da Hidro 


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Caso Dezinho: execução de dirigente sindical de Rondon do Pará soma duas décadas de impunidade

20 anos depois  da execução de José Dutra da Costa, polícia prende em MG o intermediário no assassinato, Rogério de Oliveira Dias. É o único envolvido do assassinato que está preso. 


Rogerio Oliveira - intermediário na execução de Dezinho, preso em MG nesta semana

No próximo dia 21, o assassinato do dirigente José Dutra da Costa soma 20 anos. “Dezinho”, como era conhecido o dirigente sindical do município de Rondon do Pará, no sudeste do estado, foi morto na porta da própria casa, aos 43 anos, a mando do grileiro de terras e dono de serrarias Décio José Barroso Nunes, vulgo “Delsão’.

Somente duas décadas depois do ocorrido o intermediário da empreita, Rogério de Oliveira Dias foi preso em Belo Horizonte.   Estabelecer uma cadeia de mediadores dos crimes de encomenda é uma estratégia usada pelos consórcios de fazendeiros do estado, com ramificações em todo o país, esclarece vasta bibliografia e documentos que denunciam tais episódios.  

Nestes casos via de regra ocorre queima de arquivo dos intermediários. E, desta forma, nunca se alcança o responsável pela encomenda do crime.

No episódio de Dezinho, o pistoleiro foi preso imediatamente por conta da vítima ter entrado em luta corporal com o pistoleiro Wellington de Jesus Silva, baiano de apenas 19 anos, que veio a ser preso por populares e quase linchado. Fato que não ocorreu por conta da intervenção da viúva, dona Maria Joel. 

Com a execução de Dezinho, dona Joel veio a assumir a direção do sindicato, e tal o esposo assassinado, passou a sofrer ameaças de morte. 

 

Dezinho (ao centro, de bigode, ao lado de outros dirigentes da Fetagri de Marabá/PA). Foto: arquivo da família 

O açougueiro Ygoismar Mariano Silva, primo do pistoleiro é outro elo da rede de um crime anunciado desde 1996, quando as ameaças foram denunciadas ao então secretário de Segurança do Estado, Paulo Sette Câmara, esclarecem relatos da Comissão Pastoral da Terra (CPT), da Fetagri e da família de Dezinho, que espera que o intermediário denuncie a encomenda do crime, apesar de todo o tempo do fato ocorrido. 15 mil teria sido o pagamento pelo crime.  

A morosidade e a parcialidade do judiciário nublam o rosário de execuções de ativistas da reforma agrária, direitos humanos e do meio ambiente no Pará. O estado é líder absoluto no país em assassinatos de camponeses desde a década dos anos de 1980, quando da criação da União Democrática Ruralista (UDR), o braço armado dos ruralistas, que teve no atual governador de Goiás, Ronaldo Caiado, o principal expoente e animador.

Uma luta maior que a morte

Três votos impediram que Dezinho ocupasse uma cadeira na Câmara Municipal em Rondon, sob a legenda do Partido dos Trabalhadores (PT), nas eleições de 2000. Foi o mais votado candidato do PT.  Três tiros de revólver calibre 38 o retiraram da luta pela reforma agrária para sempre.

Dezinho estava à frente do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR) de Rondon há oito anos quando de sua morte.  O nome de Dezinho sempre constou entre as lideranças que incomodavam os “donos” de terras, por isso, sempre fez parte de listas das lideranças sindicais que deveriam ser caladas.


Manifestação em Rondon do Pará, após a soltura de Dezinho de prisão arbitrária por conta de entrevista em rádio local, onde defendeu a reforma agrária e denunciou grilagens de terras. Foto: arquivo da família. 

Em 2002 a CPT, a SDDH, a Fetagri, e demais entidades de apoio à luta pela reforma agrária das regiões sul e sudeste paraense encaminharam documentação denunciando a existência de lista de marcados para morrer às instituições estaduais e federais ligadas à problemática da reforma agrária. Em 2000 a lista era composta por dezesseis nomes.

O discurso das autoridades estaduais e federais presentes na região obedece o mesmo mote: "prometemos empenho na investigação, prisão e condenação dos envolvidos... para isso estamos fazendo todo os esforços possíveis". O tal do empenho foi encerrado com a suspensão das investigações e a soltura do principal acusado de mando da execução de Dezinho.

Tulipa Negra, o grilo que motivou o crime

Dados sistematizados pela CPT de Marabá sinalizam que no mês de junho de 2000, 150 famílias organizadas por Dezinho ocuparam a Fazenda Tulipa Negra, área de 3 mil hectares, que pertenceria ao fazendeiro Kyume Mendes Lopes. O título da fazenda teria sido expedido pelo Governo do Estado em 1918. No entanto, o documento expedido pelo Estado possuía uma área maior, 44 mil hectares. A Tulipa Negra seria um desmembramento justo desta área.

 

Dezinho à direita de cavanhaque, junto do dona Maria Joel e familiares. Foto: arquivo da família. 

Desde outubro Dezinho estava convencido da falsificação do título, posto que o Estado do Pará não titulava terras no ano de 1918, em áreas no que hoje é o território de Rondon do Pará. Em resumo, a área em disputa e vizinhança foram/são terras griladas.

No rosário de suspeita de grilagem, representavam a santa trindade que mandava em Rondon do Pará o fazendeiro Delsão com a “propriedade"  situada no Rio Ouro, Olávio Rocha, com a propriedade Boi Bom Lote 96, e Josélio Barros, com a fazenda Serra Morena.  Todas as propriedades são próximas à área Tulipa Negra, conta denúncia dos movimentos de reforma agrária da região, na época do assassinato do sindicalista.

Em pesquisa realizada pela CPT de Marabá no Instituto de Terras do Pará (Iterpa), após a morte de Dezinho, constatou-se que o título de propriedade maior, o de 44 mil hectares foi oficialmente declarado falso pelo Iterpa em 1978.

Além disso, prossegue documento da CPT e da Fetagri, tomou-se conhecimento que o extinto Getat (Grupo Executivo de Terras do Araguaia Tocantins), em 1983 havia discriminado os títulos do Estado do Pará referente à área onde se localiza a Tulipa Negra (Gleba Água Azul), sem validade.

A luta pela terra no estado do Pará encarna uma saga de crimes de toda ordem: grilagem de terra, execuções de trabalhadores rurais e sindicalistas, assessores e religiosos, coerção pública e privada, morosidade e parcialidade do judiciário, córregos que desaguam no vasto riomar de impunidade.

Manifestações de artistas sobre o caso. Veja AQUI

Familiares, pesquisadores e amigos das pessoas que tombaram na luta pela terra no Pará esperam lançar até o ano que vem obra que recupera parte de uma vasta história de impunidade no estado, Luta Pela Terra na Amazônia: Mortos na Luta pela Terra. Vivos na Luta Pela Terra é o nome provisório do livro. 

Massacre de Eldorado: morre em Belém coronel Pantoja, um dos comandantes da chacina de sem terra no Pará

É o terceiro da cúpula que protagonizou o Massacre de Eldorado dos Carajás  a morrer


Coronel Pantoja - Foto: imagem de internet


Sangue, sangue, sangue...a narrativa sobre a luta pela terra em solo brasilis é uma narrativa de sangue. Não se trata se sangue de qualquer um. Trata-se de sangue dos colocados em condições de subalternização, e daqueles a eles alinhados: religiosos, advogados, e outras modalidades de mediadores.  

A tragédia da concentração da terra no pais é encharcada de sangue de indígenas, campesinos e quilombolas. História marcada pela parcialidade da Justiça, pela coerção pública (“puliças”) e privada (pistolagem ou “firmas de segurança”), pela apropriação do Estado por frações de classes. Violência institucionalizada desde a pisada inaugural do colonizador primeiro.

Mortes aos borbotões. Naturalizadas em sua maioria, como se fosse o tempero essencial do processo de avanço do capital. Em resumo, uma violência estrutural. Violências simbólicas e físicas, a se reproduzirem e atualizarem nos dias atuais.

Neste rol a perder de vista, quando do avanço das políticas neoliberais dos vindouros anos da década de 1990, dois massacres de campesinos colocaram, mais uma vez, a Amazônia e a luta pela terra no centro do debate político nacional e mundial.

Eram anos do governo do professor Fernando Henrique Cardoso, num agosto de 1995, em Corumbiara, em Rondônia, “puliças”, jagunços e camponeses protagonizaram um tiroteio, que resultou em número incerto de mortos, que oscila entre 10 a 16, entre eles uma criança de nove anos e dois policiais.  Os camponeses alegam que mais de 100 pessoas foram executadas.

17 de abril de 1996, na Curva do S, no município de Eldorado dos Carajás, no estado do Pará, durante o governo do médico Almir Gabriel (PSDB), e do secretariado de segurança de Paulo Sette Câmara, 155 PMs, sob o comando major José Maria Pereira de Oliveira e do coronel Mário Colares Pantoja assassinaram 19 trabalhadores sem terra filiados ao MST.

Em comunicado publicado no site da CPT, Carlos Guedes, um dos advogados do caso na época, assim detalha os requintes de crueldade adotados contra os 19 sem terra:

Altamiro Ricardo da Silva recebeu dois tiros na cabeça e um na perna. Antônio Costa Dias, um tiro no tórax. Raimundo Lopes Pereira foi vitimado com três tiros: dois na cabeça e um no peito. Leonardo Batista de Almeida foi atingido por uma bala na testa. Graciano Olímpio de Souza, dois tiros, sendo um na nuca e outro no peito. A necropsia no corpo de José Ribamar Alves de Souza mostrou que ele recebeu dois tiros e um deles, na cabeça, foi à queima-roupa. Ao atirarem em Manoel Gomes de Souza, os autores queriam matar o rapaz. A prova são os três tiros disparados que atingiram a testa e o abdômen, regiões altamente letais. Lourival da Costa Santana foi atingido no coração. Antônio Alves da Cruz levou um tiro no peito e teve ferimentos com arma branca. O laudo apontou como causa morte uma hemorragia interna e externa com explosão do coração e do pulmão esquerdo por instrumento corto contundente. Abílio Alves Rabelo morreu com três tiros, dois no pescoço e um na coxa direita. João Carneiro da Silva teve morte por esmagamento do crânio, indicando ter sido ele vítima de extrema violência e crueldade. Ao prestar depoimento, Luiz Wanderley Ribeiro da Silva revelou que viu um policial militar atacar João Carneiro com um pau, que foi introduzido na cabeça da vítima, partindo-a e expondo os seus miolos. Antonio, conhecido apenas como “Irmão”, morreu com um tiro na nuca. João Alves da Silva levou dois tiros: um na cabeça, por trás, e um na canela direita. A trajetória do projétil que o atingiu na região temporal fez um percurso de cima para baixo e de trás para diante, indicando ter sido ele alvejado quando se encontrava no chão. Robson Vitor Sobrinho levou quatro tiros – dois pelas costas e à queima-roupa, na altura do tórax, um no braço e outro no rosto – enquanto estava no chão. Amâncio Rodrigues dos Santos recebeu três tiros, sendo um na cabeça, um na parte pélvica e um na região axilar. Valdemir Pereira da Silva levou um tiro no peito. Dois tiros atingiram o peito e um a região axilar direita de Joaquim Pereira Veras. A trajetória de entrada do projétil na axila mostra que a vítima encontrava-se num plano inferior ao agente que disparava a arma de fogo. João Rodrigues Araújo foi atingido por um tiro no braço direito e morreu devido a hemorragia pelo seccionamento da artéria femural esquerda pelo uso de arma branca.

 

Sem informar a causa da morte, na noite de ontem, 11, a mídia de Belém anunciou a morte do coronel Pantoja, que estava internado no hospital da Unimed, e portava tornozeleira eletrônica.  

16 anos separaram a condenação e prisão de Pantoja e Oliveira, que só ocorreu em 2012, com condenação de 280 anos para ambos. Pantoja cumpriu quatro anos de reclusão, quando recorreu por prisão domiciliar alegando problemas de saúde.

Dos quatro principais protagonistas do Massacre de Eldorado de Carajás, Almir Gabriel morreu em 2013, aos 80 anos, por falência múltipla dos órgãos.  Paulo Sette Câmara, que recebera medalha de honra ao mérito do Conselho de Segurança do Estado (Consep), em fevereiro de 2019, faleceu de Covid em maio deste ano, aos 84 anos.

Terá o Consep considerado o Massacre de Eldorado em sua ficha funcional para a concessão da medalha?

O império da lei um dia alcançará o coração do Pará?

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Santarém: pautas comuns e trabalho de base consagram iniciativa de chapas coletivas

 Mulheres indígenas e quilombolas e jovens protagonizam o fazer político em região marcada por interesses de grandes corporações. 


Em poema Cecília Meirelles adverte: “A vida só é possível reinventada! ”. Em tempos eclipsados pelo obscurantismo, urge a vida reinventar.  Já a canção Cio da Terra, autoria de Milton Nascimento e Chico Buarque, defende: “Debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo para que todos se fartem de pão”. 

Quão necessário faz-se o se fartar de pão, ternura, delicadeza em dias tão brutais. Dias e noites de desalentos. Perdas de entes queridos pela pandemia. Dias e noites de desencantamento fomentado por mentiras, disseminação do ódio em rede, de ignorâncias celebradas em ruas, defendidas em como fossem verdades únicas.  

Reinventar a vida, debulhar cada bago do trigo, fecundar a terra é o que têm feito as duas chapas coletivas do Psol da cidade de Santarém, que pleiteiam assento no Legislativo eivado de representantes do poder oligárquico e corporativo que ameaçam as terras ancestrais de indígenas, quilombolas e campesinos.

As chapas coletivas nascem do chão, do cuidado coletivo, para além dos vícios do personalismo e tantos outros, como as tretas, que tanto favorecem interesses capitais. Dolores, dólares....

Na cidade de Santarém, a trama da revisão do plano diretor é o exemplo mais vivos, quando o interesse privado se sobrepôs sobre o interesse público e coletivo.

As chapas psolistas da cidade de Santarém, - bela cidade cotejada pela pujança dos rios Amazonas e Tapajós - brotam do chão da necessidade coletiva em travar o bom combate em defesa do bem comum. Bem comum daqueles sujeitos que historicamente têm arcado com toda com o ônus da festa dos palácios.

A chapa das mulheres é composta por indígenas e quilombolas.  Achapa dos jovens defende o Bem Viver. Ambas possuem os pés fincados na rica sociodiversidade que compõe o território do município.

É com elas que sigo em marcha, a reinventar a vida, debulhar o trigo, tocar o tambor, celebrar e lutar com as bandeiras nas ruas, a alegria, a solidariedade, porque a vida só é possível reinventada, o que ela deseja da gente é coragem.   

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Trabalho escravo: 39 pessoas são resgatadas em garimpo no sudoeste do Pará

 O caso ocorreu no garimpo de Pau Rosa, em Jacareacanga/PA


Trabalhadores reunidos pela equipe de fiscalização 

Os trabalhadores foram resgatados no Garimpo do Pau Rosa, localizado no município de Jacareacanga, a 310 quilômetros de Itaituba, no Pará. A fiscalização constatou que os 39 trabalhadores estavam submetidos à condição análoga à de escravos, mantidos em condições degradantes de trabalho e de vida. Leia mais no site do MPT

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Ver o Peso de minhas saudades...


 


“30 real o pendrive com mais de mil músicas. Música para chifre a dar de pau. Promoção”, anuncia o equipamento de som montado sobre uma bicicleta, sob um sol inclemente e um Ver o Peso coalhado de gente.

Agonia em ziguezague. Ruído ao redor. Frigideiras em chamas. Peixe, fígado, frango e carne. Mini saia. Mini blusa. Frondosas mamas ao calor. Fios de suor. Vida por um fio. Boca sem dentes. Cigarro ao canto. Pandemia em carnaval.

O locutor da sonora  bicicleta anuncia furo de reportagem: “tomem conhecimento. Nova onda do corona se aproxima. Fiquem em casa. Ela pegará somente os cornos”.  Existe uma tara sobre o tema em Belém. Nem José escaparia à galhofa. Sobraria para o Espirito Santo o papel de pé de pano.

Taxar o outro de corno é quase uma instituição na capital paraense. Qualquer dia desses um edil propõe uma data oficial no calendário municipal. Fico a imaginar a comemoração....

É recorrente entre os “motora” de busão o aceno da mão com dois dedos em sinal de chifre. Nas “rádia” da cidade os programas mais populares celebram o fenômeno. Fazem dedicação aos acometidos pelo “mal”, colocam no ar provocações de ouvintes contra colegas de trabalho ou de bar.  

Pedintes. Ambulantes. Hippies. Camelôs.  Meninas em enlace de mãos. Adiante a senhora adverte transeunte: “atente com pulseiras, cordões e brincos”. Faz mais de 20 anos que ando pelo Veropa. Nenhum B.O até o momento. Até celular já esqueci em barracas e o mesmo foi devidamente devolvido.

Há três anos não pisava na área. Indaguei do marajoara Tadeu para a dona Socorro, vizinha de barraca, ela informa que o mesmo operou de vesícula. “Tamo aqui tocando a firma dele enquanto ele se recupera”, comunica.

Pergunto do Jean, o “Coração de Boi”, no caso em questão, não se trata de relação com chifre, mas, uma anomalia que o mesmo diz ter – coração grande -, o que o impede de fazer trabalhos braçais.

No entanto, o mesmo sempre é visto a bailar em festas de aparelhagem em excelente performance, a esbanjar saúde.  Ele negociava CDs e DVDs nos gloriosos dias da pirataria.

Não vi o menino que organizava a roda de samba aos sábados. Vende de tudo. O cabra se defendia na percussão e no canto. Saca toda a discografia do Bezerra.  A “banda” é formada com a turma do mercado. No Ver o Peso o peão tem de jogar nas 11. Se virar como for possível.  

A paga da roda de samba era o litrão para a galera. Vez em quando rolava até tira-gosto.  Também não enxerguei um fiel escudeiro do sambista. A dupla formava uma espécie de Cosme e Damião do pedaço. Ele negociava isqueiros.

Notei ao largo a senhora negra, que mediava sexo com jovens para os veteranos do espaço. Vez em quando andava com uma criança. Dizia que era neta. Uns alertavam: “qualquer dia tu puxas uma cana por conta disso”.  Uma das pernas parecia bem inchada. Vender panos de cozinha é o caô por ela aplicado. Parecia bem acabrunhada. Assim como um tatuador de obras rotas. Um das antigas. Velhos barcos de trapiche sem idas e vindas.

Outro “brother” das antigas, que vi em cadeira de rodas após ser agraciado por batida da “puliça” e ser alvejado por vários tiros, tá roliço.  Tá toba, como se diz em minha terra. Quando em recuperação pelos tiros recebidos, ele rodava o mercado de cadeira de rodas auxiliado por um ajudante. Uma das pernas era cheia daqueles ferros de recuperação. Ele é do DI (Distrito Industrial), de Ananindeua, reconhecida quebrada da crônica policial.  

“ Caralho doido, tu ainda tá na pista, maluco. Égua, nem a Covid tomba vocês”, o saúdo. Ele sorri e pede um copo de cerveja. Defender-se é preciso. Morrer não é preciso.  

Sol de moer. Gente. Gente. Gente aos montes. Não vi tanto cabo eleitoral a sacudir bandeira. A mesma bicicleta do pendrive propaga o número de candidato ao legislativo de uma cidade em frangalhos. Ao fim do anúncio, vaias sucediam.  Patriotas, creio que era o partido.

Um ex atleta do Remo, esguio, negro sempre anda aprumado. Tá sempre na área. Ele diz ter feito parte da esquadra que derrotou o Flamengo no século passado em pleno Maracanã por 2x1, em 1975. Vez primeira que um time do Norte fez tombar o time de Zico, Rondinelli e Junior em pleno Maracanã.

Alcino e Mesquita foram os responsáveis pelos tentos do Remo, enquanto Zico diminuiu pelo Urubu, em peleja testemunhada por 30 mil pessoas no mês de outubro, quando é celebrado o Círio em Belém. Terá sido milagre?

O ex atleta sempre toma uma no Veropa, faz circuito nas imediações da rodoviária, corre puteiros inclassificáveis.  Ele se diz advogado.  Fui agraciado com dedo de prosa com ele. Treta que ganhou em riqueza com um comparsa de 83, um cearense morador da comunidade de Corta Corda, em Santarém, oeste paraense.

 

O senhor atarracado é peão de trecho. Diz ter chegado do Ceará, onde tem filho juiz. Sempre repete a prosa com orgulho. Já expansivo pelas cervejas consumidas, dana a provocar o advogado. Chamá-lo de bandido e de corno. O ex atleta leva na esportiva.

O baixinho alvo alega que o esportista anda com esposa de “puliça”. Tudo é risos até o negro esguio chamar o baixinho de viado. Zanga. Troca de rispidez. Fim de linha. Fim de papo. Cada um para o seu lado. Uma jovem gordinha em trajes mínimos, altura mediana, fofura a transbordar as vestes, a tudo espia. Tal um felino selvagem a espreitar a lebre.

Ao contrário do Veropa, no Mercado de São Braz, abundavam cabos eleitorais de diferentes tendências, com proeminência à candidatura do professor psolista.  

Um farrapo, assim se encontra o belo mercado, tomado por lixo e urubus. Espelho do desprezo de duas legislaturas tucanas, cujo principal empenho reside em tudo privatizar. 

Ver o Peso de minhas graças. Mercado de peixe, carne, ratos, urubus e garças.  Ver o Peso de minhas de alegrias e mágoas.  Ver o rio-mar, contemplar as ancas das moças e senhoras, sorrir com os convivas dos causos contados, o corre aquieta. Até breve, espero.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Bem Viver é a principal bandeira de chapa coletiva de jovens de Santarém

Jovens das periferias e da zona de rural em puxirum disputam cadeira do legislativo 


Da esquerda para a direita: Darlon, Diana, Sandrielem e Thiago

Barrar o rio é barrar a vida.  Arruinar a floresta segue a mesma trilha.  Envenenar a terra é negar o ciclo natural da existência. O rio, a floresta e a terra são unos e fundamentais para a sobrevivências dos povos da floresta.

Vida em sua amplitude. Para além do peixe, do fruto, do pão.  O rio, a floresta e terra abrigam as lendas. São tributários dos encantados. É um mundo sem cerca. Parente a ombrear parente em um tempo próprio.

Trata-se de um mundo ímpar.  Sem correrias. Um tempo particular. Em um espaço inundado de particularidades próprias.  O celebrar a vida. O rio, a floresta e a terra e as dinâmicas dos povos que nela vivem representam o Bem Viver (tekoporá, tekovekatu ou outras versões).

É o gitinho criado na creche no mundo em uma terra sem males e cercas, como defende a cultura do povo Guarani. As riquezas usadas em puxirum (mutirão), como se diz pelas bandas do Baixo Amazonas. Em forma coletiva. Em ciranda da vida. Aos moldes da jornada das mulheres indígenas e quilombolas do Psol, os jovens da cidade de Santarém erguem na cumeeira mais elevada a bandeira do Bem Viver.

Há distinção nas duas chapas coletivas que pleiteiam assento no legislativo municipal. Legislativo que ao apagar das luzes de 2018, em desrespeito à consulta pública, acenaram para as grandes empresas que desejam erguer um complexo portuário na cidade. Portos da soja. Obras a afetarem indígenas e quilombolas.

O golpe do Legislativo foi imediatamente sancionado pelo atual prefeito. Ambos ignoraram a decisão do povo: a defesa dos territórios de indígenas, quilombolas e camponeses. Setores que não possuem cadeira no poder que possibilite a defesa de suas bandeiras. A defesa de suas vidas em plenitude.

Assim, os jovens da zona rural e das periferias da cidade de Santarém dão um exemplo de consciência política e encaram o desafio de enfrentar as oligarquias locais e outros estranhos da cadeia da soja, o setor interessado no complexo portuário do Lago do Maicá, e ainda a mineradora Alcoa, que chafurda para se apossar de terras de Lago Grande, um assentamento agroextrativista.

Unidades de conservação, terras indígenas, terras quilombolas, terras de camponeses, terras de beiradeiros  integram as feições territoriais do Baixo Amazonas. Terra de povo cabano. É terra farta em floresta em ainda, apesar de ações de grileiros e madeireiros.  Muitos deles vereadores ou apoiadores deles. 

neste combate desigual temos na linha de frente temos Thiago Rocha, um jovem advogado de traços indígenas há 08 anos militando no campo popular. É defensor dos direitos humanos, e também graduado em Gestão Pública e Desenvolvimento Regional pela UFOPA. É assessor referencial da Pastoral da Juventude no Pará e Amapá (Regional Norte II), coordena a Comissão Justiça e Paz na Arquidiocese de Santarém, e é educador Popular na ONG FASE.

A ribeirinha Sandrielem Vieira é nascida da comunidade de Coroca, no Rio Arapiuns. Soma 20 anos, é universitária na área da educação Matemática e Física na UFOPA. É militante dos movimentos sociais no interior de Santarém. Liderança que realiza serviço Pastoral com a Juventude de sua região, e luta por uma política participativa advinda do coletivo.

Darlon Neres nasceu na comunidade Cabeceira do Marco, no Assentamento Agroextrativista PAE Lago Grande, Santarém-PA. Tem 19 anos, é graduando do curso de Pedagogia. Defensor dos Direitos Humanos, militante dos movimentos sociais, atua na luta em defesa do território e na construção coletiva do Bem Viver. É agricultor familiar e faz ativismo para que as vozes dos povos da floresta ecoem nos espaços de decisão.

Diana Maria é cria do bairro do Uruará, tem 29 anos, é acadêmica do curso Bacharelado em Ciência e Tecnologia das Águas, UFOPA. Atual coordenadora da Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Santarém. Militante dos movimentos sociais e engajada nas lutas em defesa e construção coletiva do Bem Viver.  

Sobre o bem viver, o coletivo explica “O bem viver é inspirado nas vivências históricas de povos indígenas andinos e amazônicos. A essência do Bem Viver é comunitária, sustentada pela diversidade cultural e um profundo respeito a todas as formas de vida, e assegura os projetos coletivos de futuro, baseados na dignidade, justiça social e ecológica”.

Em tempo marcado por nuvens cinzas de um governo de morte, que a todo momento anuncia um novo dano, é pra lá de bem vindo o puxirum da rapaziada, que bem conhecem as ruas e os rios das quebradas da cidade.



Reconhecimento internacional: Alessandra Korap Munduruku é laureada com prêmio internacional em defesa dos Direitos Humanos



A notícia chegou durante uma reunião virtual com membros da ONG Robert F. Kennedy, sediada nos Estados Unidos: Alessandra Munduruku, líder indígena, havia sido escolhida para o prêmio de Direitos Humanos, dado pela instituição há 37 anos. Ela é a primeira brasileira laureada. Leia a íntegra no site DW

domingo, 18 de outubro de 2020

Para conter o avanço da institucionalização da necropolítica

O professor de Geografia da Unifesspa analisa a conjuntura baseada em exportação de produtos primários, e a indica como um dos vetores de expansão do fascismo do país 

Por Bruno Malheiro

 


Há dois anos, após o fim do primeiro turno das eleições de 2018, ficava desenhada para nós uma geografia do fascismo no Brasil, pela impressionante semelhança de dois mapas: o da votação do atual anti-presidente que nos governa e o da expansão de commodities, como a soja, o milho, entre outras! Tínhamos ali a exata noção que a expansão do capitalismo de fronteira é, também, de um gosto musical, de um sabor, de um modo de se vestir e se comportar, enfim, de um modo de vida violento e absolutamente refratário à diferença!

 

A expansão do fascismo no Brasil, portanto, tem tudo a ver com a expansão aviltante das commodities no campo, assim como também tem a ver com a banalização da violência e a expansão do mercado da morte pelas milícias nas cidades! A geografia do fascismo coincide com uma certa geografia da destruição da experiência. Parece mesmo que a tempestade do progresso realmente nos levou à catástrofe, como já havia alertado Walter Benjamin, como um “aviso de incêndio”!

 

Passados dois anos, novas eleições, agora municipais, e vivemos o momento de consolidação da institucionalização da necropolítica, que iniciou sua escalada de corrosão de todas as instituições democráticas brasileiras, nas fatídicas eleições de 2018. De lá pra cá, mais de 150 mil mortes (que podem ser colocadas na conta desse governo negligente e absolutamente irresponsável) e todos os nossos biomas ardendo em chamas, não foram suficientes para uma mudança na percepção política geral! Pelo contrário, a subjetividade fascista parece se alimentar de morte, fogo e destruição, e não é que os candidatos que representam o necrocapitalismo que se instituiu pós-2018, ainda têm força na maioria das nossas cidades, basta vermos os 118 políticos com multas ambientais que disputam prefeituras na Amazônia, segundo levantamento da agência pública.

 

Estamos diante da possibilidade real de consolidação do que se iniciou em 2018, o que fica bem claro quando as quatro principais bancadas, que expressam bem nosso capitalismo rentista de morte, a dos bancos, a da bala, a do boi e a da Bíblia (isso para não falar da bancada da bula que vem se consolidando pela influência dos laboratórios farmacêuticos na política institucional), lançam seus candidatos!

 

De forma diferencial, cada bancada se dissemina no territorio a partir de uma racionalidade que lhe é própria: a bancada dos bancos, que se nutre da destruição de todos os bens públicos e/ou coletivos, se vê mais presente nas nossas maiores metrópoles, que são nossos centros financeiros, e haja campanha financiada; a bancada da bala, que se nutre do mercado da morte e da exploração rentista das periferias, segue os índices de violência, geralmente em grandes e médias cidades; a bancada do boi, que ganha com a renda da terra, a renda mineral..., alimenta-se de um patrimonialismo político que, em alguns casos, está consolidado em grandes cidades, mas é bem comum em pequenas e médias; e a bancada da Bíblia, rentista como as outras, surfa no mercado da fé e parece se pulverizar seguindo os rumos de influência geográfica das igrejas que representam!

 

Mas todas essas bancadas têm nome e número que podemos identificar, seja quando formos votar para prefeito, seja para vereador.

 

Segundo um levantamento do início de 2020 do Congresso em Foco, são os partidos abaixo listados, com seus respectivos números e porcentagem de fidelidade a esse governo genocida, que formam a base do nosso necrocapitalismo:

 

19- Podemos (92%);

51- Patriota (90%);

17- PSL (85,4%);

45- PSDB (81%);

14- PTB (78%);

20- PSC (78%);

15- MDB (77%);

25- DEM (77%);

23- Cidadania (74%);

22- PL (74%);

55- PSD (74%);

30- Novo (71%);

11- PP (67%); e dá pra colocar mais gente nessa lista:

90- PROS;

70- AVANTE.

 

Sabemos que existem diferenças e particularidades locais dos partidos, mas, convenhamos, devemos desconfiar de qualquer candidat@ que continue em tais legendas, depois de tanta desgraça desse desgoverno, mesmo aceitando pouquíssimas exceções ainda dignas!

 

Não bastasse o atrelamento ao bolsonarismo, a força de muitos desses candidat@s do necrocapitalismo, também se constrói com o jogo sujo das fake news e pelo seu atrelamento ao consórcio de mídia hegemônica torpe que só se afunda mais ma lama, vide o cancelamento de quase todos os debates à prefeitura de São Paulo, após o crescimento da chapa Boulos/Erundina, os ataques virtuais a Manuela D’Ávila em Porto Alegre, e as muitas Fakes News já inventadas contra candidatos que se posicionam no outro extremo político desses grupos, como as já inventadas contra Edmilson Rodrigues em Belém.

 

Diríamos, então, que votar nessas eleições tornou-se um ato para barrar a disseminação da geografia do fascismo! Temos ferramentas para avaliar se os candidatos fazem parte dessa engrenagem de morte, e será uma opção de cada um e cada uma votar ou não nessa máquina de moer gente!

 

Até porque várias são as candidaturas que não apenas se colocam na contramão dos representantes do necrocapitalismo, mas apresentam ideias que conseguem conviver com a democracia, e nunca foi tão fundamental ouvir, participar e interferir na política como agora, além, lógico, de votar em quem consegue conviver com as diferenças, para defender o que ainda nos resta de dignidade democrática. E nessa direção, o aumento das candidaturas de indígenas, de lideranças populares femininas e as candidaturas coletivas são um alento!

 

A força dos movimentos sociais, das feministas, dos indígenas, das lutas populares ainda encontra espaço em candidaturas contra à barbárie, e precisamos procurá-las no meio de tanto lixo e esgoto.

 

Estamos enfrentando a catástrofe e, se em 2018, estávamos entre a democracia e o fascismo (e escolhemos o fascismo), 2020 deixou ainda mais claro as consequências de nossas escolhas, agora, não que antes não fosse, é vida ou morte. Em meio ao colapso metabólico e o genocídio da pandemia, não é possível continuar escolhendo a morte e o fascismo!

 

Para não acabar essa reflexão sem uma posição clara - e se ainda importa a posição de um professor, nesse mundo que prefere notícias falsas a qualquer análise mais séria - eu sou Edmilson Rodrigues 50 em Belém, cidade que nasci, Rigler 50, em Marabá, lugar que moro, além de nutrir profundo respeito a Guilherme Boulos 50 em Sampa e Manuela D’Ávila 65 em POA. E não esqueçamos que só se governa com uma câmara de vereadores séria, então, é preciso evitar os partidos que formam a base da nossa desgraça e dar chance aos partidos que ainda carregam dignidade democrática! 

 

Sabemos que a política partidaria tem muitos límites, por isso preferimos as forças instituintes, que vêm das lutas dos povos, às instituições e seus vícios. Mas também sabemos como uma eleição pode interferir na nossa vida, por isso, não dá para ser negligente, nem por radicalismo bobo, nem por radicalismo pseudoesclarecido, precisamos devolver aos esgotos as forças milicianas que nos governam e juntar forças para instituir caminhos alternativos, capazes de inverter prioridades, democratizar os processos decisórios, caminhos que estejam não na vanguarda, mas na retaguarda de quem efetivamente inventa um mundo novo na sua persistência pela vida!

 

#ForaBolsonaro