quarta-feira, 25 de abril de 2018

Entre São Luís a Carajás – 20 anos depois


A extração mineral em Canaã dos Carajás e a duplicação da Ferrovia ameaçam territórios indígenas, quilombolas e campesinos

Peguei o trem em Parauapebas para São Luís do Maranhão. E o trem danou-se naquelas brenhas, a ranger os trilhos, vencer misérias, solidões e distâncias. A queimar diesel por mais de 14 horas, a cortar áreas indígenas, quilombolas e territórios camponeses, a desagregar laços de amizade, solidariedade e familiares. Vez em quando a trucidar gentes e animais. E o trem danou-se.... 

Operários em trecho de duplicação da Estrada de Ferro de Carajás (EFC)



Não havia ar condicionado na classe econômica do trem da Vale quando pela vez primeira corri o trecho.  O magote de tempo tem perto de duas décadas. A ferrovia já somava pouco mais de dez anos. Tempos idos. Dias em que a professora Maria Celia Coelho organizou o livro sobre a primeira década da Estrada de Ferro de Carajás (EFC), pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicas da UFPA.  

A neófita geógrafa Elis Miranda assinava um relato sobre a viagem do trem entre Parauapebas, no sudeste do Pará, até o porto do Itaqui em São Luís, no Maranhão. Perto de mil quilômetros separam uma das principais províncias minerais do mundo da capital ludovicense. 

Naqueles dias a classe econômica do trem era uma versão atualizada da senzala. O calor causticante fazia crianças e idosos passarem mal. O odor de vômitos e diarreias enchiam os vagões. Uma sofrência só. O povo do trecho cheio de esperança carregava o bucho vazio. O povo levava todos penduricalhos que a pobreza permitia arrastar. 

Cheia do Rio Tocantins - Açailândia-MA



Os párias cheiravam a suor forte e cigarros vulgares. Em trajes rotos aguardavam a liberação do portão em busca de um lugar para sentar no vagão. A pobreza não tem cadeira numerada no maior trem do mundo. Meio mundo de gente a buscar dias menos doridos. Um turbilhão de humilhação. 

Entre um vagão e outro era permitido fumar. Havia um vão que concedia a entrada do vento. Mesmo vão que gente a padecer de mal de amor se jogava para fora do veículo. 

Naquele tempo homens, mulheres e crianças à cada parada das 14 estações em que o trem corta, afrontavam as cidadelas das janelas dos vagões da classe econômica. Vendiam de tudo: água, carne de caça, peixe frito, milho assado, maçãs, biscoitos, etc. 

Naqueles dias era vetado ao cliente da classe econômica percorrer para fora do seu quadrado. Ao passageiro da classe executiva tudo era permitido. A locução do veículo anuncia a próxima estação: Nova Vida. Serão cinco minutos para embarque e desembarque. Fosse naquele tempo, eu procuraria um milho assado. 
 Trecho em duplicação da EFC

As mãos calejadas da roça e outras tarefas deixavam as garrafas pet sujas por fora. Uma mistura de poeira com o degelo dos frascos.  O tempo do trem é pouco. Os que arriscavam passar sob o vagão, vez em quando não obtinham êxito. 

A carreira do trem de passageiro é desaperreada.  E, sempre que o trem de carga cruza o trecho, ele se acanha e para. É a lei do mercado. Força de contrato. O trem de passageiro é só uma compensação ao saque. 

Naquele tempo, os anos 90 emitiam os derradeiros suspiros. Por conta do Massacre de Eldorado, prestes a contabilizar 22 anos de impunidade, o Estado reconheceu em grande escala várias áreas ocupadas por sem terra de diferentes filiações como projetos de assentamento da reforma agrária. Em particular na Amazônia. Ênfase nas terras do massacre. 

Naqueles dias idos a onda privatista entregou a Vale de mão beijada. Tanto tempo depois, a lama da Vale sufocou Mariana nas Minas Gerais. Feriu de morte o Rio Doce e toda vizinhança. O rio não tá pra peixe, que o diga o povo de Barcarena. 

O tempo do trem é pouco. Na estação de Presa de Porco o cronômetro impõe três minutos para embarque e desembarque. O tempo do trem de passageiro é pouco. Durante a semana três dias são dedicados para ir ou voltar de Parauapebas a São Luís. E, vice-versa. É reggae, bumba meu boi, rumba e brega. Vizinhanças, arraiais, puteiros e currutelas. 
 Monocultivo de eucalipto - Açailândia-MA

Todos os dias por inúmeras vezes o trem de carga não cessa. É o maior do mundo. Mais de 300 vagões. Umas três locomotivas a fazer a máquina correr.  A fazer a máquina rodar. Riqueza a sangrar por mais de 30 anos. Quem vai colocar os pontos nos IS? Quem vai colocar tudo na ponta do lápis, a Lei Kandir em xeque? 

Corre o dia. Metade da viagem. Mais de meio dia. Açailândia/MA ficou para traz. Corre o tempo. O monocultivo de eucalipto impregna a paisagem. Açailândia era uma perna do polo de gusa do Projeto Grande Carajás. Marabá/PA a outra. A decadência nubla o polo desde os anos iniciais da década de 2000.  Passados perto de 20 anos. Tudo mudado. Menos de 60 minutos separam Nova Vida de Presa de Porco. Corre o trem.  

É tempo de chuva. Os dormentes antes de madeira dão lugar a dormentes de cimento. Enquanto o minério de ferro considerado de melhor teor do planeta, na Serra Norte, em Parauapebas míngua, a Serra Sul (S11D), em Canaã dos Carajás pulsa. 

A EFC está em fase de duplicação por conta do atual/velho cenário de saque. É ouro! É ferro! É níquel! É cobre! É minério de tudo que é jeito. É o fim do caminho? Quem cobrará pelo sangue derramado dos ancestrais?  É desmatamento! É execução! É massacre! É trabalho escravo a dar de pau! Aos contrários é processo na vara cível e criminal! O caminho tem fim? 

Quase vinte anos depois o trem de passageiro melhorou. Tanto a classe considerada executiva, como a catalogada como econômica contam com ar condicionado. Não existe mais vão entre um vagão e outro. Existe um vagão dedicado a refeição e o de lanchonete, que também atende com refeição. No trem de passageiro não há vagão para indignação.  

Os dias atuais continuam a desorganizar os territórios ancestrais.  Agora o epicentro é Canaã. Em São Luís a comunidade do Taim tem sofrido pressões a ceder suas terras aos interesses do grande do capital. Em Itapecuru Mirim, ainda no Maranhão, são os quilombolas os afrontados. Entre Canaã a São Luís onde existe leite e mel a jorrar?

E o trem danou-se naquelas brenhas.....

terça-feira, 17 de abril de 2018

Partiu D Ivone Lara, mas, quem disse que eu te esqueço!!!!



Arenas Amazônicas: jornalistas lançam livro sobre periferias de Belém e região metropolitana


Primeiro volume da coleção trata de coletivos do movimento negro, mulheres e cultura


Arenas Amazônicas: negros, mulheres, periferia, cultura e resistências será lançado terça feira, dia 17, às 19h no espaço cultural Apoena, dentro da agenda do Prêmio Exu de Música Afro-brasileira, evento que vai premiar músicos, intérpretes e compositores negros seja de comunidades quilombolas ou de povos tradicionais de matriz africana.

A obra é composta por sete narrativas assinadas pelos jornalistas Rogerio Almeida, Lilian Campelo e Daniel Leite Junior. A maior parte dos textos foi publicada pelo site paulista Agência Carta Maior. O conjunto de reportagens sublinha ações coletivas de jovens e pessoas mais experientes em diferentes flancos: cultura, política, direitos humanos e cidadania. A obra tem o patrocínio do Bando da Amazônia.

Os textos foram produzidos quando o educador Rogerio Almeida ainda era ligado ao setor privado, e morava em Belém. Na época Almeida era vinculado à Unama, Universidade da Amazônia. A ideia em produzir a coleção soma mais de seis anos, e só agora foi possível viabilizar o primeiro volume, que contempla frações da história das professoras Zélia Amador e Hecilga Veiga e da ativista do movimento negro Nilma Bentes.

As periferias da insular Belém, a exemplo da Pedreira, Icoaraci, Terra Firme e Guamá, e região metropolitana, caso do bairro da Guanabara são notados fora do esquadro comum dos meios de comunicação da cidade, que preferem o aspecto policialesco.
Os personagens; Grafiteiros, DJs, educadores, professores, estudantes, biscateiros, aposentados e desempregados são personagens da obra. Estes, a partir de inúmeros coletivos se impõem como protagonistas de sua própria História, onde afirmam suas identidades coletivas ou individuais como negros, artistas, cidadãos das “quebradas”, que em Belém são conhecidas como baixadas.

Na narrativa os rios serpenteiam a cidade cortada por canais. Num deles, o dos Mundurukus, à Rua dos Pretos, migrantes maranhenses oriundos do município de Cururupu, Baixada Maranhense a partir do Tambor do Crioula e da Escolinha do Reggae delimitam seus territórios como migrantes negros do vizinho estado. Assim, tambores de crioula, danças, canções, manifestações religiosas e ocupação de espaços públicos e ações em mídias digitais são alguns dos recursos usados.
Na Pedreira, bairro do amor e do samba, à Rua Álvaro Adolfo, o Coletivo Rádio Cipó germinou. O mesmo aglutinou gerações diferentes. O grupo hoje extinto, ganhou o mundo nos anos 2000. A vedete Dona Onete segue carreira com boa aceitação no país e fora dele. Os diferentes artífices continuam a atuar, a exemplo do DJ Montalvão, que segue em sua carreira autoral.

As mulheres ocupam lugar de destaque do volume um da série. Thiane Neves e Nega Suh são jovens ativistas do movimento negro, que em certa medida seguem os exemplos das pioneiras Zélia Amador e Nilma Bentes. Diferentes gerações ocupam a mesma trincheira.

Outra experiente ativista incensada no livro é a professora Hecilda Veiga. Histórica militante pela defesa dos direitos humanos do estado encerra a obra. A professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e o seu companheiro, o advogado Paulo Fontelles, assassinado na década de 1980 por defender camponeses na luta pela reforma agrária foram fundadores da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH).

Arenas Amazônicas – o projeto da coleção é a publicação de três volumes. O segundo tomo enfocará a peleja das populações locais e suas formas de enfrentamento aos grandes projetos. Encontra-se em fase de revisão, e até o início de maio poderá ser baixado na grande rede. O terceiro tem a ambição de tratar sobre a comunicação popular. Este consta em fase de pesquisa e produção.

-Sobre os autores do volume I

Rogerio Almeida - maranhense de São Luís/MA é graduado em Comunicação Social pela UFMA, e possui especialização e mestrado em Planejamento do Desenvolvimento pelo NAEA/UFPA, com pesquisa laureada com o Prêmio NAEA. Atualmente cursa doutorado em Geografia Humana/USP. É professor do Curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). E-mail: araguaia_tocatins@hotmail.com

Lilian Campelo - paraense de Belém é graduada em Comunicação Social pela Universidade da Amazônia - Unama/PA. É Especialista em Gestão de Conteúdo em Comunicação pela Metodista/SP e trabalha como correspondente na região Norte para o site Brasil de Fato. E-mail: liliancampelo13@gmail.com

Daniel Leite - formado em Comunicação Social – Jornalismo, com pós-graduação em Mídia, Informação e Cultura pelo Centro de Estudos Latino-Americanos em Comunicação e Cultura da Universidade de São Paulo (USP), mas também é escritor e compositor quando o silêncio
permite uma travessia escrita. No ano de 2015, fundou a Lêstrada, por onde lançou seu primeiro livro de poesia chamado “Alguém para quem”, junto com o CD “Quem para alguém” com canções dos poemas do livro, os dois projetos participaram do “Panorama Internacional de Zines e Publicações Independentes 2015” realizado pela Ugra Press para o Ugra Zine Fest no Centro Cultural de São Paulo. No ano de 2016 realizou o Festival de Arte Livre Lêstrada na cidade de Belém-Pará por meio do edital de "Intercâmbio cultural" do Ministério da Cultura aprovado com a Lêstrada. Também, faz pesquisas com performances por meio do projeto "A luz semi-aberta do Stradentrus" construída para conclusão do curso "Interfaces Contemporâneas: processos híbridos de criação" na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro e a ação performático-literário “Poeme-se” realizada desde 2014 quando participou da Ocupação Solar das Artes e da Virada Cultural Belém, assim como, também, por meio da sua pesquisa em criação literária realizou nos anos de 2016 e 2017 a oficina de “Escrita Criativa” na Fundação Cultural do Pará – Casa da Linguagem.

SERVIÇO: Lançamento do livro Arenas Amazônicas: negros, mulheres, periferia, cultura e resistências
Onde: Espaço Cultural Apoena, na Av. Duque de Caxias, 450 (esquina da Tv. Antônio Baena)

Dia: 17 de abril
Hora: 19hs
Preço: R$20,00

Mais informações
Rogerio Almeida - (91) 98759 5303
Daniel Leite Jr - (91) 98937 5883
Lilian Campelo - (91) 981137998