terça-feira, 17 de julho de 2018

Samba da Vela comemora 18 anos de resistência na próxima segunda feira, 23


A celebração ocorre no Clube Atlético Indiano


 Fotos: Thulla Esteves

Acender as velas já é profissão/quando não tem samba/tem desilusão invocava Zé Keti em tempos distantes. Ao lado do maranhense João do Vale, Nara Leão, em seguida Maria Bethânia, nos nebulosos anos da década de 1960, protagonizou um dos mais importantes manifestos-espetáculos da música popular brasileira, o show Opinião. 

Sob a direção de Augusto Boal, a iniciativa realizada em plena ditadura civil militar, no Teatro Arenas, no estado do Rio de Janeiro, teve o caráter de resistência, e se imortalizou em álbum homônimo.  Carcará, Peba na Pimenta, Borandá, Incelança, Malvadeza Durão integraram o repertório. A dupla linha de frente composta por dois negros, sendo um nordestino já confere à iniciativa um caráter de vanguarda. 

Há 18 anos, mais de cinco décadas depois do show Opinião, na quebrada paulistana, no bairro do Santo Amaro, a vela é acesa à cada segunda feira, por volta das 20h 45 para celebrar o samba autoral/raiz. A Casa de Cultura de Santo Amaro é o espaço que acolhe a manifestação nascida por iniciativa de um grupo de compositores do bairro, animada pelo saudoso Paquera [José Alfredo Gonçalves de Miranda] e os parceiros Magnu Souza, Maurílio de Oliveira e Chapinha.  

Assim como no Opinião, o Samba da Vela carrega o caráter de resistência. O mestre de cerimônia, o cearense apelidado de Chapinha [José Marilton da Cruz], insiste em sublinhar: “ aqui não temos o samba pelo samba. Vale a poesia. A acolhida de todos e todas”. 

O afeto transborda em formas de poesia recitada ou cantada. E, mesmo em agradecimentos públicos, como o que ocorreu nesta segunda, 16 de julho, quando o comandante do cavaquinho agradeceu aos atores Gero Camilo [também cearense] e Victor Mendes.  

Chapinha, migrante nordestino chegou em São Paulo na década de 1970, tangido pela seca. Assim como outros irmãos de região. Encarou o preconceito, e se consagrou como presidente da Vai Vai por duas décadas. Politizado, insiste sobre a necessidade em se punir os maus políticos no pleito eleitoral que se avizinha. 

O MC armado de bom humor e ternura puxa as canções clássicas da roda de samba, e convoca as pastoras da quebrada a engrossarem o coro numa canção que relembra a sobrevivência do sertanejo. O clima é de comoção. Palmas entrecortam os versos, o que aprofunda ainda mais o clima de comunhão.

Gente de tudo que é idade, cor ou raça se organiza em forma circular tendo a vela ao centro, acomodada numa espécie de redoma. A estratégia é evitar a aceleração do fim da chama por conta do vento. A mística consiste numa forma em organizar o horário de findar a celebração.  A forma circular acentua ainda mais o aspecto de inclusão.



Diz a lenda sobre o Samba da Vela, que nos primeiros encontros, ainda fechados somente para compositores, além de entoar os clássicos e autores locais, os encontros varavam a madrugada a dentro. 

É de integração a aura roda de samba que guarda semelhanças à um culto religioso. No dia dedicado às almas pelos católicos, e a exú pelos cultos de matriz africana [abre caminhos], a roda de samba que ocorre sem equipamentos sonoros, é organizada a partir das canções dos compositores do bairro, e de outras quebradas. É vedada a comercialização de cerveja, mas, um bar perto socorre os devotos do samba.

Na próxima segunda feira, dia 23, no Clube Atlético Indiano, a parti das 19h, a preço de R$15,00, a vela pelos 18 anos de resistência vai  alumiar o bairro de Santo Amoro.

Publicação franco brasileira do curso de Pós Graduação em Geografia da USP repercute projeto Arenas Amazônicas


Os dois primeiros volumes podem ser baixados no blog Furo



A revista franco brasileira Confins, vinculada ao curso de pós graduação em Geografia da Universidade de São Paulo (USP) repercutiu em sua edição de número 36, a série Arenas Amazônicas. A iniciativa é animada pelo professor Rogerio Almeida, do curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional, da Universidade Federal do Oeste do Pará. A coleção  é constituída por três volumes.

O primeiro volume enfoca parte das realidades das periferias da cidade de Belém e região metropolitana, com destaques para ações individuais e coletivas no campo da cultura, onde se sobressaem organizações de mulheres e do movimento negro. Este volume com o apoio do Banco da Amazônia acaba de ganhar uma versão impressa.

Grandes projetos e as formas de resistências das comunidades tradicionais onde os mesmos são impostos dão forma ao volume dois. O terceiro, ainda em fase de produção, tem como centro de gravidades formas de comunicação popular e alternativa em diferentes linguagens.

Os dos primeiros volumes podem ser baixados em PDF. As narrativas são jornalísticas. Boa parte do conteúdo foi publicado no site Carta Maior, e em espaços acadêmicos. Os jornalistas Daniel Leite Junior e Lilian assinam os primeiros volumes em parceria com Almeida, enquanto o projeto gráfico é de responsabilidade dos artistas Luciano Silva e Roger Almeida, da empresa RL|2 Design.

 Repercussão

A publicação internacional Confins é coordenada pelos professores Herve Thery e Neli de Mello-Thery, e conta com a qualificação A2, na plataforma da Capes, existe desde 2006.  Além da USP, o Instituto de Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional [IPPUR/UFRJ] em sua edição de número 10 faz referência ao projeto, bem como o boletim da Associação Brasileira de Pesquisadores em História da Mídia [Rede Alcar], na edição 56.


Além de veículos acadêmicos a produção foi publicizada em importantes veículos de mídia e redes, onde podemos sublinhar as revistas Carta Capital, Fórum, ambas com sede em São Paulo, Núcleo Piratininga de Comunicação/NPC/RJ, site Racismo Ambiental, Rede Justiça nos Trilhos/Direitos Humanos, Site Ecodebate/DF, Teia Popular de Comunicação.

 
Entre os veículos com sede em Belém, vale destacar o blog dedicado ao campo da cultura, o Holofote Virtual, coordenado pela jornalista Luciana Medeiros. Na derradeira edição da Feira do Livro de Belém a versão impressa do volume contou com uma sessão de autógrafos. Ainda na capital ocorreram sessões de autógrafos em espaços culturais Apoena e no Coisa de Negro, enquanto na cidade de Marabá o espaço Comuna Cepasp abrigou o diálogo.
 

sábado, 30 de junho de 2018

Pará, entre grilagens de terra, impunidades, arbitrariedades e balcões de negócios


Quem hoje é vivo corre perigo dos inimigos do verde, da sombra, o ar.


A parada fundiária/agrária é um dos maiores abacaxis no mundo Amazônia. E, em torno dele um catatau de redes de ilegalidades flutua. Este angu de caroço mobiliza escritórios advocatícios com más relações com a ética, grileiros de terras de variadas cepas e estampas daqui e de outras paragens, pistolagem travestida de empresa de segurança, funcionários públicos em desalinho com o interesse público, e um judiciário vigiante, ligeiro e engajado na manutenção e engorda do status quo. 

Tenho dito. Nada de novo no front. A grilagem de terras na região é um livro aberto escrito a sangue dos mais ferrados da cadeia alimentar dos dias e noites darwianas em que sobrevivemos. Sangue jorrado sobre as togas e ternos da fina flor da sociedade, em particular na década de 1980.  

Anos em que as ações da União Democrática Ruralista (UDR) desembestaram a matar gente. A tropa de elite dos fazendeiros foi forjada em terras do Goiás sob a batuta de Caiado. Nesta época Dorothy desenvolvia atividades justo na região onde mais se matou camponeses na Amazônia, o sudeste do Pará, na quebrada de Jacundá. Ali pertinho de Marabá.  Literalmente, o bicho comia. Até escritório de pistolagem havia. Sebastião da Terezona e Quincas Bonfim eram os “trezoitão” de fama.  

Levanto a bola para rabiscar porcas linhas sobre a prisão do migrante religioso, agente pastoral da Comissão Pastoral da Terra (CPT), padre Amaro. O maranhense foi parça da missionária estadunidense executada em 2005, Dorothy Stang. Com a execução da missionária, caiu no colo dele a pelota em tocar o barco na quebrada. 

Ele foi enquadrado e encarcerado por três meses sob acusações similares que tentaram colocar Stang para ver o sol nascer quadrado na escaldante cidade de Anapu, no ano de 2004. Num junho de 2004 o agronegócio a denunciou na justiça por formação de quadrilha, armar camponeses e esbulho possessório, e por aí vai. Ela depôs na “puliça” e tudo. No caso de Amaro, turbinaram com lavagem de dinheiro e abuso sexual. 

O crime Amaro reside em ser aliada dos mais desvalidos no sertão amazônico, em território agudamente disputado por grandes corporações de diferentes setores, entre eles os de infraestrutura, pecuária, mineração, etc. Assim como Amaro, tem um balaio de gente de várias frentes sendo enquadrada à régua e ao compasso da “lei” a serviço do deus mercado. 

No rosário de criminalização pela luta por direitos existem ativistas do MAB, MST, professores, assessores, advogados.  A quebra de braço entre as grandes empresas e as populações locais agrupa corporação do quilate da Vale, que literalmente manda no estado do Pará. Ela sozinha processa meio mundo de gente, são mais de 170 nos estados do Maranhão e no Pará. 

Com relação à justiça são emblemáticos alguns fatos ocorridos com relação às disputas territoriais nos grotões amazônicos no interstício da prisão do padre Amaro. O Massacre de Pau D´arco somou um ano de impunidade, os policiais envolvidos no episódio foram mandados para casa, o juiz Marco Aurélio Mello da suprema corte mandou soltar Regilvado Pereira Galvão, vulgo “Taradao”, o mandante da execução de Stang, condenado a 25 anos de prisão, e a “puliça” expulsou camponeses da região do Marajó de acampamento. 

O direito privado romano é foda. A peleja para se levar um acusado em matar camponeses e seus apoiadores é dura. Chega, em alguns casos, a durar mais de 20 anos, como os casos da família Canuto e de Expedito Ribeiro. Sejamos vigilantes. O rio não tá pra peixe. 

E, desde os anos 1990 tudo parece mais nublado nos cenários sobre a região. A nova fase do capital tende cada vez a subordinar as terras e as riquezas cá existentes aos seus interesses. Afinal, o que foi a medida em normatizar o uso de veneno? 

Rodovias, hidrovias, ferrovias para incrementar a cadeia da soja, um pacote de hidrelétricas de diferentes portes, mineração, e por aí vai, colocam em xeque o futuro da floresta, dos rios e as suas gentes. 

Como diz a canção: “ quem hoje é vivo corre perigo dos inimigos do verde, da sombra, o ar..”  Oxalá proteja Amaro e a todos nós!

Texto parido ao som do disco Deus é mulher – Elza Soares