sábado, 16 de setembro de 2023

Madeireiros ameaçam de morte Darlan Neres, jovem ambientalista do Baixo Amazonas/PA

Neres mora no Lago Grande, o projeto de assentamento tem sido palco de constantes tensões e ameaças contra defensores do meio ambiente, reforma agrária e direitos humanos.  

Darlan é o primeiro à esquerda. Foto: divulgação Psol/PA.  

Viver nas Amazônias é bicho arriscoso.  Aparecido em ser jovem preto em grande centro. É como carregar um alvo nas costas. Ser jovem indígena, preto, ribeirinho, camponês pelos beirais destas terras distantes dos centros de poder, e, ter ciência da defesa do chão, subsolo, floresta e rio é bicho pra lá de perigoso.  

Darlan Neres que o diga. O filho da comunidade Cabeceira do Marco, que integra o Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande, no município de Santarém, bandas do oeste do Pará, tem sido perseguido por um grupo de madeireiros.  

No derradeiro dia 12, um grupo de madeireiros andava em sua caça.  Ousaram até visitar a casa do jovem ambientalista, que faz parte do coletivo Guardiões do Bem Viver.  Os idosos da família ficaram temerosos pela integridade do rebento.

Lago Grande, assim como outros territórios das Amazônias, vive sob constante ameaça da cobiça de grileiros, madeireiros, garimpeiros e mineradoras. A terra se avizinha à cidade de Juruti, que abriga projeto de exploração de bauxita da empresa estadunidense Alcoa.  Ela é um dos sujeitos interessados em explorar o subsolo do PAE.  

Para os defensores do meio ambientes nestas paragens, sobreviver sob ameaças tem sido uma constante. Em março, desta feita na região de Arapiuns, um pastor ameaçou de morte várias lideranças parelhadas na defesa do meio ambiente, reforma agrária e direitos humanos.  Recentemente tem-se o registro de ameaças aos indígenas da área Maró, como reporta o site Tapajós de Fato.

Sobre a ameaça a Darlan, a assessoria jurídica dos movimentos sociais do Baixo Amazonas já tomou as providências cabíveis. Bem como fez uma carta de solidariedade e apoio ao universitário.  Leia AQUI

Neres é graduando em Pedagogia da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), e integrou as fileiras da chapa coletiva do Psol, denominada de Bem Viver, que concorreu na última eleição à uma cadeira no legislativo local. Leia AQUI

PAE Lago Grande

Lago Grande. Foto; Yuri Rodrigues. Fase/PA

O PAE Lago Grande foi criado em 2005, concomitante ao início de operação da mineradora Alcoa na região. 35 mil pessoas distribuídas em 144 comunidade em território de 250 mil hectares dão corpo ao assentamento, que sobrevive do extrativismo e outras atividades. Até o presente momento a população aguarda a titulação coletiva.

A população do PAE é maior que a maioria dos municípios do Brasil, que possui a média calculada em 20 mil pessoas.

A modalidade de PAE foi criada Portaria nº 268 no dia 23 de outubro de 1996, e os define como “um assentamento destinado à exploração de área dotada de riquezas extrativas, através de atividades economicamente viáveis, socialmente justas e ecologicamente sustentáveis, a serem executadas pelas populações que ocupem ou venham ocupar as mencionadas áreas.”

A Federação das Associações de Moradores e Comunidades do Assentamento Agroextrativista da Gleba do Lago Grande (Feagle) é a principal representação política. Nos últimos anos tem sido palco de constantes tensões em diferentes dimensões, que passa por grilagem, assédio de madeireiros, garimpeiros e mineradoras.  Trata-se de uma área de lagos sob a influência dos rios Amazonas, Tapajós e o Arapiuns.

Até a última eleição para a presidência da República, era recorrente a presença de veículo na cidade de Santarém envelopado com louvação aos setores que refutam a presença de territórios considerados como tradicionais. 

A estampa do carro festejava madeireiros, grileiros, garimpeiros e mineradoras. Desde o resultado das eleições, nunca mais foi visto por estas plagas.

Conheça o Plano de Utilização do PAE Lago Grande, AQUI

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Família Bengston toca o terror contra sem terra no Pará

A família controla a denominação religiosa Igreja Quandrangular. Assassinato, pistolagem, destruição de lavouras e casas de farinha são alguns expedientes usados contra os sem terra. 

 

Marcos e Josué Bengston. Fonte: redes sociais. 

Ataque com agrotóxicos, assassinato, ameaças com pistolagem e destruição de lavouras e de casas de farinha são alguns dos expedientes usados pela família Bengston contra sem terra no município de Santa Luzia do Pará, denuncia o MST e a Sociedade Paraense de Defesa de Direitos Humanos (SDDH), em documento encaminhado para o secretário Jarbas Vasconcelos, titular da pasta de Igualdade Racial e de Direitos Humanos.

Marcos Begnston, filho de Josué, tem sido o linha de frente das ações contra os sem terra, sinaliza o documento, datado do dia 14, quinta-feira.  Josué, tio da ex ministra Damares, recentemente condenada por propagar informações falsas sobre o Marajó, foi cassado por corrupção no crime que ficou conhecido como a “Máfia das Ambulâncias” em 2018.

Em 2010 a família matou o agricultor José Valmeristo Soares, conhecido como Caribé. A  morte foi precedida de sessões de tortura.  Um outro trabalhador rural, João Batista Galdino conseguiu escapar da morte. Na ocasião, Marcos Bengston chegou a ser preso pelos crimes.

Em maio, o avião da tendência neopentecostal foi preso pela Polícia Federal com 300 quilos de maconha.

A disputa pela terra envolvendo o MST se arrasta desde 2007.  O INCRA e o Instituto de Terras do Pará (Iterpa) fazem parte do processo. São longevas as pelejas pela terra pelas bandas de cá, onde grilagem, clientelismo, parcialidade do Judiciário e das polícias compõem o enredo.  Algumas das refregas chegam a durar mais de duas décadas.

Leia a nota da SDDH AQUI


sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Apanhados na fila da perícia médica


Logo cedo, 6h, corre para o outro lado da cidade. A missão é encarar um processo de perícia de deficiência. Já nem sabe qual é a fase e quantas vezes já foi ao soturno lugar.  Na espera, somente ele outro senhor de homens.

A maioria no corredor mal iluminado é composto por senhoras.  Elas falam de crises de depressão, coisas de desenlace, casa, útero, vagina e do coração. Ah, esse maltrato ente do peito.

Uma delas é muito grande. Como se em casa estivesse, deita em um dos bancos do corredor de espera. Há algo de filme de terror no ambiente. A senhora conta histórias de gravidez e abortos. Uns provocados, outros espontâneos. Para cada mal aventado, recomenda um tipo de garrafada. Diz que toma uns quatro tipos por dia. Foi a segunda a ser atendida. Ao levantar, a senha de atendimento despenca de uma de suas inúmeras dobrinhas. Anda com o apoio de uma bengala. Um esforço hercúleo, o apartamento do corpo da senhora do banco.

Uma outra, exímia contadora de causos, entre risos e expressões faciais tristes, roga aos colegas de fila uma ajuda para a passagem de volta para casa, apesar de ser passe livre. Diz que precisa de 20 contos para voltar paras a comunidade. Algumas pessoas ajudam. A solidariedade soa como se tática de sobrevivência fosse entre os despossuídos.

Ela dispara causos. Um no rabo do outro. “Meu irmão era feio mais que o cão. Tirava a vida na caça, ali na comunidade de Solimões. Fez filho mais que preá. Não fosse a diabete tombar ele, ainda hoje fazia menino. Vivo fosse somaria mês que vem 97. No Solimões é bom demais de viver. Tudo quieto”.

Noutro momento lembra do tempo de andanças pelo vasto mundo das águas do Amazonas, o rio. “Ponta do Cururu é lugar bonito, mas, é arriscoso. Periga de barco afundar. Maresia forte. Coisa de cobra gigante que tem por lá. Quando o barco afunda o jeito é ficar de bubuia. Como a gente perdeu farinha nesse desmantelo da vida”.

Meia vida. Meia morte. Meio dia. Resta esperançar. Sol de lascar. Antes do meio dia arrisca de ser atendido. Após o atendimento no ambulatório, precisa reapresentar o laudo à assistência social, e rogar que a carteira de passe livre chegue antes de 12 meses.

Carlos Walter Porto-Gonçalves, presente!

 

Um bamba no riscado das geo-grafias, que sempre deixou explicito em falas, escritas, prosas amistosas e em outras oportunidades, de que lado samba, ali, junto, colocado aos colocados em condições de subaltenização, em particular nas Amazônias e América Latina. 

Maracatu pesado, Carlos Walter Porto Gonçalves (CWPG) deixou este plano no dia 06. Todavia, os seus escrevinhamentos permanecem como marcas a serem seguidas, comentadas, criticadas e reinterpretadas neste mundo agoniado marcado pela gula capital, que a tudo fagocita.

No dia de sua partida/permanência proseávamos com jovens do curso de Engenharia Sanitária, da Ufopa, em Santarém, em quente tarde, a obra Amazônia: encruzilhada civilizatória, em uma disciplina ministrada pela professora Thulla Esteves.

Entusiasmados, os jovens empenharam esforços na construção de seminários sobre o livro. Um riscado estranho à grade em que são obrigados a cumprir para efeito de acesso a diploma.

Carlos Walter Porto-Gonçalves deixou este plano no dia 06. 

Para além das geo-grafias transborda os ensinamentos de CWPG. Sabença pra mais de metro, como se diz por estas paragens. Sabença ancestral é uma das balizas do ler/compreender/interpretar/escrevinhar de Walter.

Uma marcha junto a indígenas, quilombolas, camponeses e tantas gentes da vasta sociodiversidade das Amazônias. 

Nas quebradas do Acre, Xapuri, fez par com Chico, o Mendes, assassinado ao apagar das luzes do ano de 1988.

A Chico e às suas companheiras e companheiros de seringais e paragens mais é creditado a ideia de uma modalidade de reforma agrária para a floresta, onde o ser o humano não é apartado da natureza. Assim germinou a possibilidade das Resexs. Carlos falava com entusiasmado sobre o tema/ensinamento.

Bem, não tenho autoridade para falar de CWPG, apenas li algumas coisas de sua autoria e ouvi palestras.  Apenas sei um cadinho da sua relevante contribuição ao debate sobre a região e aos povos.

Aqui, apenas agradeço a sua generosidade em enviar um artigo para a composição de um Dossiê sobre o Baixo Amazonas, publicado em 2018.

O professor Bruno Malheiro (Unifesspa) foi o mediador da empreita.  

CWPG, agradecido! CWPG, presente!.

Acesse o Dossiê AQUI

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

No toca-fitas do carro nenhuma canção faz lembrar você

É o trecho uma longa estrada de corações despedaçados?

É o trecho uma longa estrada de corações despedaçados? Histórias de perdas abundam por todos os lados, como se oceano fosse. Seria o trecho uma supersafra de motes para riomares de melancolias? 

Trecho, solidão, conflito, aridez.  Trecho, demasiadamente árido. Um território de lonjuras. Longe de tudo: família, afeto ou ternura. Um aceno de carinho e o coração entrega-se enjaulado, submisso, de quatro.

Um coração partido no trecho é alerta de grave risco. Risco de vida. Risco de morte. Risco de peixeira cravada no pé do umbigo de quem o coração alheio despedaça. Mesmo que jovem. Inocente, puro e besta, com diria Raul.

Judiaria pior que Nero fez a moça ao motorista.  Aquele que guia o carro, nem sempre sabe para onde vai ou de onde veio. Não conhece todos os palmos do chão minado das lonjuras. Confunde tudo. Até mulher com parafuso.

O amor interrompido fez do motora cantor iniciante de música sertaneja em terra de garimpo e fogo, onde tudo é risco.

O amor interrompido o colocou no corner do ringue da dor de cotovelo. Dor acudida por comprimidos contra depressão e bebida. A judiação do amor apartado era turbinada com declarações de desprezo e retratos de devaneios com outros homens.  

Coração pisado por sandálias de arame. Um coturno de maldade de tropas a desfilar em 07 de setembro sobre o coração ferido de morte na encruza das distâncias. Morto de dor, morto de fome, morto de sede.

Uma bomba atômica de milhões de canções tristes. Vida no trecho não tem cabresto. Bezerro novo desembestado no pasto movediço da inexperiência.

A dor do amor rompido atravessou o coração do peão de meio a meio. O dia era dor. Acudida por comprimidos engolidos pela pujança da bebida. Ninguém ao redor.  Ao redor, solidão, lonjura, judiaria e morte.

Nada mais toca no toca-fitas do carro. 

 

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

O deficiente físico e a negligência da Sespa em Santarém/PA no atendimento do passe livre

URE/Sespa. Santarém/PA

O passe livre em transporte é um dos direitos da pessoa portadora de alguma deficiência. Consta em lei.  É direito constituído, e dever do Estado.  Para além da deficiência, existem obstáculos a perder de vista para conseguir alcançar os mesmos.

Creio que o primeiro resida em ter acesso à perícia médica.  A depender  da deficiência, a via crucis pode demorar mais de 12 meses. Em estimativa bem otimista.

Em seguida, percorrer as instituições para apresentação de vasta documentação, para além do laudo médico, que irão correr várias instâncias, até o cidadão receber a carteira.  No caso do passe livre para transporte intermunicipal, a mediação é realizada pela Secretaria de Saúde do Estado (Sespa).

Em Santarém, desde terça feira, 01 de agosto, inúmeras pessoas provenientes de inúmeros municípios da região, não conseguem atendimento na Sespa. No primeiro dia (01/08)  informaram que o atendimento ocorre somente no turno vespertino.   

As pessoas retornaram na quarta feira, 02/08, às 14h. Chegando no local (imediações da Av. Turiano), na porta da sala 40, dedica ao atendimento dos portadores de deficiência, um informe anunciava que o atendimento ocorreu pela manhã, até  13h.

Nova tentativa. 03/08. A porta do atendimento às pessoas deficientes estava fechada. Uma técnica aparece e informa que não haverá atendimento. E que as pessoas, mais uma vez, retornem no próximo dia, 04/08, às 14h. 

Segundo a técnica, que não se identificou, a assistente social responsável informou que estava na unidade regional em reunião com o governador para sanar demandas.  Ocorre que o governador Helder Barbalho retornou à Belém, na noite anterior, dia 02/08.

Entre as pessoas que realizaram a via crucis jovens, adultos e idosos de inúmeros municípios da região. Eis um pequeno retrato da negligência da Sespa em relação ao deficiente.

Canal de comunicação não existe. A sede da Sespa não conta com telefone fixo onde a pessoa possa tentar buscar informações. A informação é marcada pela precariedade. Ninguém indica um canal, nem mesmo de rede social. 

sexta-feira, 7 de julho de 2023

*Trecho, afinal, o que seria?

Fonte: livro 10 anos do CAT, organizado pelo professor Jean Hébette

O dito mundo culto compreende o trecho como um espaço entre dois pontos no tempo e no espaço. Triste ortodoxia. Todavia, no vasto universo amazônico, o trecho é o horizonte do despossuído. O não lugar. A vida em movimento. Mutação.

O trecho não é mãe. Nem pai. Soa mais como incerteza. Um penhasco desconhecido ao peão. Elevado trapézio do circo da vida, sem rede ou equipe de socorro. Socorro!!! Não entendo nada. Um rio raso para toda dor que há no mundo. Um rio fundo. Vastidão de violência em combustão. Fronteira capital em acumulação primitiva. Armadilha para animal.

O trecho é bruto. Encruza de estranhos. Mundo de desconfiados, ornado de solidariedade e traição. Vida em farrapos nos confins do humano conservado em calda de álcool.  No trecho, logo cedo, o primeiro carinho é dado pelo beiço da morte em cama de pensão entupida de pulgas.

O trecho, paixão. Desassossego. Privação. Privado de tudo, resta o peito mudo. Privado de tudo, resta a gota de suor a infernizar o olho cego. No trecho, ao que se agarrar senão à esperança?

Os desencontros constituem a família nas andanças do trecho. A boroca é a mala que acomoda tudo que a pobreza permitiu acumular durante toda uma jornada de errância. Passo em falso sobre mar em chamas. Lonjuras de tudo.

Tudo que queria era tirar você deste lugar. Carregar tu para o Círio em Belém, ou delírios em Macapá. Amor sobre a mesa de bilhar. Riqueza ligeira em garimpo da Guiana Francesa, mon amour.  

No trecho, a dor não possui fronteira. Amor de peão desconhece barreira. No toca fita do carro, uma canção me faz lembrar você. Acendo mais um cigarro, driblo a rua da delegacia de polícia, esbarro no puteiro. 

Barracão de zinco.  Barracão prisão. Escravo por dívida não tem salvação. Escorre água. Escorre sangue em um banquete de ossos. Bem sabe quem fez a seringa sangrar ou catou ouriço de castanha em Marabá.

Tudo tarda. A sorte escapa.  Menino sem calça, bainha sem faca na forquinha do somehome ou no cogó da onça em quatro bocas com fome. Trecho, seria uma masmorra sem cela?

O trecho não é mãe, nem pai. Menos ainda um amor ou parente distante...um rio raso. Um rio fundo...abismo de rosas em riomar de tempestades. Anotações realizadas entre Alenquer e Santarém. Choro sufocado pela fome em amar.

O trecho é o lugar onde a vida encarna o que é possível. Retalhos de gentes despedaçadas no caminho. Juntadas no caminho. Separadas...O trecho devora o humano. Mói, mastiga, judia, maltrata, cospe e descarta. Peixeira cravada em bucho de criança na Sexta-Feira Santa.

Trecho. Trincheira. Sem terra, sem lar, sem família...errante desposado pelo álcool e drogas em alguidar, onde a rede acomoda o corpo sem vida, e o rosto da morte não usa véu.  

No trecho, morre-se de trairagem, vingança, desamor, bala e malária. A cova não é funda em terra medida. Terra que querias ver dividida.

A educadora Rose Bezerra, peã do trecho desde tenra idade, assim, o espelha: “Trecho é mais sobre o presente. O passado guardado apenas na memória revivida nos detalhes soltos do caminho... o futuro é só esperança. Qualquer lugar, torna-se lugar...

Existirá vida para além da terceira margem do rio?

O trecho, afinal, afinal, afinal.......o que seria?

 

*O esboço do texto foi gerado na madrugada do dia 06 de julho de 2023, em travessia de rio entre Alenquer-Santarém/PA.  Para a presente versão contou com as observações da educadora e peã do trecho Rose Bezerra. 

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Direitos Humanos e da Natureza: Ministério Público do Pará promove encontro em Marabá, a partir do dia 13



O objetivo do seminário é aproximar o MP da sociedade, em particular dos movimentos sociais. Além de especialistas em temas delicados à sociedade, a exemplo da questão da agrária, terão assento no evento que encerra no dia 14, representantes do MST, Federação dos Trabalhadores Rurais e Agricultores e Agricultoras do Pará (Fetagri), Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Fetraf), Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), representantes indígenas e da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

 Pesquisadores da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Universidade Federal do Pará (Ufpa), Universidade do Estado do Pará (Uepa).

Na ocasião, ocorrerá o lançamento do livro Luta pela terra na Amazônia: mortos na luta pela terra! Vivos na luta pela terra!. A obra resulta de projeto de extensão da Ufopa em dialogo com a Fetagri, MST, Sociedade Paraense de Defesa de Direitos Humanos (SDDH) e CPT. 

Rogerio Almeida (Ufopa), Elias Sacramento (Ufpa), Airton Pereira (Uepa), Luzia Canuto, militante dos direitos humanos e professora em Rio Maria são alguns dos autores de artigos que estarão participando do seminário.

Saiba mais sobre inscrições e a programação AQUI


segunda-feira, 29 de maio de 2023

Faz 43 anos que o agente pastoral e dirigente sindical Gringo (Raimundo Ferreira Lima) foi assassinado no Araguaia

 Gringo, presente!!!






Em 29 de maio de 1980, sequestrado em Araguaína, Gringo foi assassinado. A última pessoa da equipe pastoral com quem Gringo falou foi com a Heloisa na varanda de nossa casa em Conceição do Araguaia, em 28 de maio de 1980.  Ele, antes de ir para a rodoviária, passou na casa.

Gringo era da equipe da CPT e da pastoral da paróquia de São Geraldo e também candidato a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município.

Me aguardava dois dias em Conceição do Araguaia, vindo de São Paulo e eu estava em Brasília onde, em coletiva de imprensa, defendia a equipe da paróquia de São Geraldo.

Alguns fazendeiros, inclusive o prefeito de Conceição do Araguaia,  Geovane Queiroz, afirmavam que a morte de Fernão Leitão Dinis tinha sido armada pela igreja que havia munido os posseiros com armas pesadas.

Na coletiva, contestei a informação e disse que algumas lideranças da paróquia de São Geraldo eram ameaçadas, inclusive o Gringo.

Na véspera do assassinato, seu nome era veiculado na imprensa como ameaçado.

Deixou como viúva  Oneide e, órfãos,  seis filhos pequenos.


Relato de Ricardo Rezende- padre e professor da UFRJ. 


Conheça mais sobre a História e outros ativistas AQUI

sábado, 13 de maio de 2023

Pistolagem no Pará: Justiça concede alvará de soltura a pistoleiro foragido desde 2007

No Pará, por entre as “frestas” da Lei e inépcia do estado, o crime compensa


O pistoleiro Wellington de Jesus Silva. Imagem de redes sociais

 

No dia 30 de abril do corrente ano o juiz da Vara de Execução de Pena Privativa da Comarca de Belém, Deomar Alexandre de Pinho Barroso expediu alvará de soltura ao pistoleiro Wellington de Jesus Silva, foragido de justiça desde 2007. O assassino  havia sido condenado por unanimidade a 29 anos de prisão em abril do mesmo ano.   

Silva somava 19 anos quando matou com três tiros de revólver calibre 38 o dirigente sindical José Dutra da Costa (Dezinho), em Rondon do Pará, sudeste do Pará, no dia 21 de novembro de 2000. Dezinho foi assassinado na porta de sua casa, diante da esposa e dos quatro filhos pequenos.

Wellington de Jesus Silva foi preso por populares na ocasião da execução de Dezinho, que apesar de baleado, entrou em luta corporal com o assassino, caindo sobre o corpo dele em uma vala na rua onde morava.  

Não é praxe a agilidade do setor de segurança pública e da justiça do estado alcançar pistoleiros e a cúpula desta modalidade de crime que desde os anos de 1980 impera no Pará sob o manto da impunidade.  

Quem financiou a fuga, a subsistência, o ocultamento e advogados do pistoleiro, que em 2019 impetraram novo processo com base em prescrição,  é um elemento que intriga a família.

Na véspera do Dia das Mães, o sentimento da família do sindicalista é de perplexidade, revolta e de tensão. Maria Joel, viúva de Dezinho, após a morte do sindicalista assumiu a direção do Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Rondon, e desde então é obrigada a andar com escolta policial por conta de ameaças de morte. 

O caso Dezinho – outros envolvidos



Por intermediar a morte do sindicalista, Rogerio Dias de Oliveira, irmão do pistoleiro, foi condenado a 16 de prisão em dezembro do ano passado.  22 anos após a execução do sindicalista, e 20 anos de foragido.  Oliveira foi preso em Minas Gerais, provável paradeiro de Wellington. Nestes casos, a morosidade impera.

Em 2013 o fazendeiro Lourival de Souza Costa e seu capataz Domício de Souza Neto foram absolvidos. Em 2019 o fazendeiro Décio José Barroso Nunes, conhecido pela alcunha de Delsão, uma espécie de “dono” da cidade de Rondon, foi condenado a 12 anos de prisão. Todavia, responde em liberdade. Igosmar Mariano, primo de Rogerio e Wellington encontra-se foragido.

Tulipa Negra, o grilo que motivou o crime

Dados sistematizados pela CPT de Marabá sinalizam que no mês de junho de 2000, 150 famílias organizadas por Dezinho ocuparam a Fazenda Tulipa Negra, uma área de 3 mil hectares, que pertenceria ao fazendeiro Kyume Mendes Lopes.

O título da fazenda teria sido expedido pelo governo do Pará em 1918. No entanto, o documento expedido pelo estado possuía uma área maior, 44 mil hectares. A Tulipa Negra seria uma espécie de desmembramento desta área.

Desde outubro Dezinho estava convencido da falsificação do título, posto que o estado do Pará não titulava terras no ano de 1918, em áreas no que hoje é o território de Rondon do Pará. Em resumo, a área em disputa e vizinhança foram/são terras griladas.

Como em outras casos de sindicalistas e pares, a morte de Dezinho poderia ter sido evitada. O estado do Pará tinha conhecimento das ameaças. Havia sido formalmente informado pelas instituições que mobilizam a luta pela reforma agrária no sudeste do estado.

O enredo das mortes sem fim em terras do Pará é conhecido, impera a morosidade, negligência em investigação, quando não conivência com os acusados em execuções e chacinas contra os defensores da reforma agrária, meio ambiente e direitos humanos.  

O livro sobre a luta pela terra na Amazônia lançado no ano passado, projeto de extensão da UFOPA, escrito por educadores, familiares, jornalistas e amigos de pessoas envolvidas nestes casos, evidencia isso. Baixe AQUI

Veja o documentário sobre Dezinho produzido pelo professor Evandro Medeiros AQUI

 

domingo, 30 de abril de 2023

Abril indígena da UFOPA foi marcado por expulsão de frente parlamentar pró garimpo e grilagem de terras.

A Ufopa é considerada a universidade que mais acolhe discentes indígenas e quilombolas do país.  

Abril. Sexta-feira, 28. O calor é causticante. O mês é dicado aos povos indígenas. Legítimos senhores destas terras, que ocupam o Planalto Central em ato pró defesa de seus territórios, tantas vezes vilipendiados. Tantas vezes encharcados de sangue dos seus. Abril é o mês da passagem do Massacre de Eldorado, ocorrido no dia 17, do ano de 1996. A chacina da PM executou 19 trabalhadores rurais sem terra.   

No miniauditório do prédio dedicado a questões administrativas da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), discentes do Instituto Ciência e Sociedade (ICS) realizam colação de grau de gabinetes. São indígenas e quilombolas em sua maioria. Entre eles, uma senhora faz um relato comovente.

Colação de grau no mini auditório do ICS/UFOPA. 

Ela soma mais de 50 anos. Conseguiu graduar e aprovação no mestrado graças à solidariedade e apoio da família durante o percurso. Ela encarna a maior parcela da sociedade. Os que foram expropriados pelos impérios coloniais. E, continuam a enfrentar o mesmo dilema por conta da racionalidade do capital, movido pela insaciável necessidade em incorporar e subordinar territórios ainda não mercantilizados. Como salienta estudante de Direito da Ufopa e líder munduruku, Alessandra Korap, recentemente laureada com prêmio na Alemanha, “o que eles apresentam para gente é um projeto de morte”.

A colação daqueles sujeitos ocorria no mesmo momento em que uma frente parlamentar que agrupa representantes dos estados do Pará e do Mato Grosso, capitaneada pelo senador Zequinha Marinho (PL/PA), tentava colocar em pauta no auditório da mesma universidade, a defesa de legalização de garimpos, grilagem de terras, monocultivos e a defesa de obras de infraestrutura.

Manifestação de estudantes da UFOPA contra a frente parlamentar pró garimpo e grilagem de terras. Fonte: redes sociais. 

Pautas que colocam em xeque a reprodução econômica, política e social destes sujeitos que hoje representam uma expressiva fatia do corpo discente da Ufopa, que ainda carece dos mesmos na condição de educadores e pesquisadores.

A dívida que a sociedade brasileira tem com estes sujeitos, historicamente colocados em condição de subalternização é imensa. Os que foram colocados em cativeiros, surrados e assassinatos, e que ousaram e ousam cursar uma graduação, apesar de todas os obstáculos.  Felizmente, um coletivo de estudantes ocupou o espaço do auditório em protesto, e evitou a realização do evento.

Fonte:; redes sociais. 

Sobre a UFOPA abrigar o referido encontro, o colegiado do curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional, em nota manifestou “ser inaceitável os discursos difundidos no âmbito desse evento de negação da ancestralidade dos povos indígenas, bem como de outras culturas, como elemento definidor da nossa identidade, a qual merece respeito e proteção”.

O Sindicato dos Docentes da UFOPA cobra da reitoria que “autoridades constituídas se expressem publicamente como se deu o processo para que esta instituição pública viesse a abrigar um evento que tem conotação política totalmente diferente às metas e planos do atual governo federal e do que os povos amazônidas locais vem reivindicando para essa região”.

O Programa de Antropologia e Arqueologia (PAA), que abriga o contingente mais expressivos de indígenas e quilombolas, em nota sobre o evento manifesta solidariedade a indígenas e quilombolas, onde “nos solidarizamos com os povos e comunidades indígenas, quilombolas, tradicionais e camponesas – muitas das quais estão representadas por discentes da universidade – que já estão sendo gravemente impactados por essas iniciativas e manifestamos nosso repúdio e vergonha pelo fato da nossa instituição, construída com recursos públicos e que deve atender a sociedade, hospedar tal evento, que está na contramão das verdadeiras mudanças que necessitamos diante da emergência climática. Repudiamos ainda a truculência exibida por membros do referido evento, um dos quais ofendeu docente do nosso programa, aos gritos, dizendo que a universidade pertencia a eles. Exigimos ser respeitados. Estamos no nosso lugar de trabalho”.  

A Amazônia Legal e indígenas foram os mais penalizados em conflitos no campo, indicam dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

No governo anterior (2019 a 2022) 42 indígenas foram assassinatos. O aumente foi de 200% em relação ao período anterior, sinalizam dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Em 2022 a mesma fonte indica que ocorreram 553 conflitos em áreas rurais do Brasil. O que representa um aumento de 50% em relação a 2021 (368).

No governo marcado pelo desmantelamento de instituições, políticas, programas e orçamento, além de nomeação de pessoas sem nenhuma identificação e conhecimento relacionados com questões indígenas, quilombolas, camponesas, agrárias, ambientais e educacionais 1.065 perderam a vida em 2022, indica o relatório da CPT, apresentado em Brasília, Unb (Universidade de Brasília), no dia 19. 72,4% destas mortes ocorreram na Amazônia Legal, sendo 38% de indígenas.

A frente parlamentar encarna o que Brasil tem de mais arcaico, o poder econômico, político e social assentado no poder da concentração da terra. Uma concentração construída sobre os pilares mais profundas de uma ordem conservadora, escravocrata, violenta e criminosa, onde a prática de grilagem constitui-se como recurso ilegal para a apropriação privada de terras públicas em uma combinação de redes que mobiliza sujeitos públicos e privados.

Até o presente momento, o site da universidade não apresenta nenhuma manifestação da reitoria sobre o caso. 

 

sábado, 22 de abril de 2023

Será o Benedicto? Centenário de Benedicto Monteiro e o mundo das águas de Alenquer

 Encontro no Campus da Ufopa de Alenquer inicia a celebração do centenário de Benedicto Monteiro. 

 

Orla de Alenquer. Foto: Rogerio Almeida


É a Amazônia é o império das águas? Por todos os lados, de diferentes colorações, a água predomina. Olhos, furos, paranás e rios configuram riomares. Nas cidades ribeirinhas, trapiches e portos encarnam espaços fundamentais e estratégicos no fluxo de informações, mercadorias e gentes, em tempo considerado pela Geografia como lento. É justo este espaço-tempo que será a seiva essencial da obra de Benedicto Monteiro, marcada pela inquietação em justiça social e no jeito do falar do povo das barrancas do Baixo Amazonas.  

Cá, nestas paragens parauaras, três horas de barco separam Santarém de Alenquer.  A viagem ocorre duas vezes ao dia, o que representa um indicador de demanda. A viagem também é possível por via terrestre, todavia, sem o lirismo das águas.  

Casas de madeira, redes de pesca, redes de dormir, embarcações de tudo que é tamanho e coloração integram a paisagem, bem como currais de gado e árvores tombadas por conta da dinâmica das águas, que a tudo afronta. A pecuária em pequena escala predomina em Alenquer, onde nasceu há quase cem anos, o advogado, gestor público, político de verve comunista – ainda que a família fosse considerada abastada- e escritor, Benedicto Monteiro. 

A orla é a alma do universo ribeirinho. Trocas materiais e simbólicas são ali materializadas. Hotéis e alguns comércios estão articulados no mesmo perímetro, bem como o mercado municipal, além de palafitas relacionadas com a pesca e o lazer. Casa das Malhadeiras, loja localizada à orla de Alenquer, sinaliza para a importância da atividade pesqueira, bem como as embarcações de variados calibres que embelezam o local.  Para além de Santarém, cidade polo da região do Baixo Amazonas, de Alenquer é possível alcançar Manaus/AM, Óbidos/PA e Monte Alegre/PA.


Frente do Mercado Municipal de Alenquer. Foto Rogerio Almeida

Registros históricos e geográfico apontam que Surubiú ou Alenquer nomeia o braço do Amazonas, que compõe o mundo de águas que alumeia o front da cidade de Alenquer, um homônimo de Portugal, elevada à categoria de vila lá pelas remotas eras do ano de 1758, pela ordem do então governador Mendonça Furtado, irmão de Marques de Pombal, e ao status de cidade em 1881.  

No portifólio do processo civilizatório e de domínio territorial de Pombal, constava além de nomear cidades com nomes portugueses, o incentivo ao comercio do tráfico negreiro para a Amazônia, quando no Velho Mundo, graças ao saque nas colônias, o processo industrial ganhava corpo, e o trabalho assalariado era debatido. Marcas coloniais.  Sob inspiração inglesa, Pombal criou uma companhia de comércio para este fim.

Santarém, Óbidos, Almeirim, Faro, Aveiro, Monte Alegre são outros municípios desta composição lusa. Registros indicam que Abarés ou Barés era povo indígena que predominava na região antes da chegada de religiosos capuchinhos, tidos como “fundadores” da cidade, que antes da atual localização, ficava às margens do rio Curuá. Por conta da oscilação das águas, mudou-se a vila para o rio Surubiú.  

Os dados do IBGE indicam que a população estimada de Alenquer é de 57,390 habitantes distribuídos em um território de 23.645,452 km, sendo o Índice de Desenvolvimento Humano (2010) de 0564, patamar que é considerado médio.  A mesma base de dados indica que a cobertura educacional na faixa até 14 anos é de 95,6%, e a mortalidade infantil é de 34,58 óbitos por mil.

Entre os dias 19 e 20 uma atividade no Campus da UFOPA, junto ao Curso de Gestão Pública, na agenda do III Ciclo de Debates sobre Políticas Públicas. Wanda Monteiro, filha do notório autor, igualmente advogada e poeta, e os professores Gilberto Marques (Economia/UFPA) e Abílio Pachêco (Letras/Unifesspa) colaboraram na primeira mesa de debate, que residia em refletir sobre economia, sociedade e natureza na obra de Benedicto Monteiro, 59 anos após a sua prisão no território quilombola de Pacoval, durante a ditadura empresarial-militar, em 15 de abril de 1964.  Acesse o diálogo AQUI

Será o Benedicto?

Benedicto Monteiro. Fonte: redes sociais

Apesar da família abastada e dona de terras, o socialismo servia de farol para o político. Ao tomar possa das terras da família, as compartilhou entre trabalhadores rurais de Alenquer. A opção política provocava tensões no seio familiar.

Monteiro correu o mundo em busca de formação. Idos das primeiras décadas do século XX, no Rio de Janeiro fez par com o marajoara Dalcídio Jurandir - igualmente comunista - após ter sido convidado a sair da casa do tio (um militar) por conta da sua opção política, recupera Abílio Pachêco, em perfil sobre o autor, em tese apresentada na Universidade de Campinas (Unicamp), em 2020.   No mesmo documento, o professor realça que Monteiro foi convidado por Marighela a engrossar as fileiras da luta armada. Acesse  a tese AQUI 

As informações aqui elencadas sobre Monteiro possuem como fonte dados sistematizados por Pachêco, que recupera que em as atividades na condição de advogado ou em campanha política, o ximango autor registra em gravações relatos dos trabalhadores. Nestas incursões ao longo dos anos reuniu mais de 100 fitas gravadas. Fitas k7 e um número expressivo de fichamentos sobre a linguagem local.

O horizonte residia em coletar informações para a produção de uma dissertação sobre o falar loca, e assim pleitear uma vaga no magistério superior.  Pachêco sublinha que todo esse material foi apropriado pelos militares, e nunca foi restituído ao autor.  A sanha contra o saber é de velha data.    

Preso, Benedicto fez da reclusão do cárcere o tempo para refletir e formatar narrativas e forjar personagens, a exemplo de Miguel dos Santos Prazeres.   Privado do assento político, o alenquerense fez da literatura a sua bandeira.

O Museu de Alenquer

Não há energia elétrica na casa. Por falta de pagamento o serviço foi suspenso. O fato é recorrente em cidades que possuem essa modalidade de equipamento de cultura. O Museu do Marajó que o diga. A casa da foto abriga o museu de Alenquer. Ele possui um acervo bem bacana de livros, fotos, equipamentos antigos das áreas de saúde, comércio e algumas peças indígenas.

Frente e interior do Museu de Alenquer. Foto: Rogerio Almeida

Proseamos por horas com o senhor Nivaldo, o zelador do espaço. Um autodidata que adora História. Falou coisas sobre os intelectuais da cidade, em particular sobre Benedicto Monteiro. Mas, também de outros, a exemplo do Aldo Arrais, professora Raimunda Brilhante, Joaquim Bentes.

Nivaldo lembra que quando em Alenquer, Monteiro mantinha contato constante com os setores populares.  Ao notar a segregação social com trabalhadores e negros na cidade, criou um time de futebol com inspiração socialista, e junto com os moradores, nasceu assim o Internacional, uma referência ao hino comunista. Ainda hoje o prédio existe na cidade.

Bem antes da China se consagrar na geopolítica como uma nova força mundial na arena de poder, peças provenientes de Taiwan já eram encontradas no Baixo Amazonas, a exemplo de um moedor de gelo. 

Moedor de gelo. Peça do Museu de Alenquer. Foto: Rogerio Almeida

Outra relíquia encontrada no museu é uma espécie de purificador de água. A operação levava mais de 24. Foi uma ação na área de saúde da Spvea (Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia), que precedeu a Sudam (Superintendia de Desenvolvimento da Amazônia). Medida das políticas do tempo de Vargas, o primeiro a elaborar políticas de desenvolvimento para a Amazônia.

Purificador de água. Peça do Museu de Alenquer. Foto: Rogerio Almeida

A Despedida

Avisei a Nivaldo que andar de bermuda de vastos bolsos era uma estratégia para subtrair livros por onde ando. Ele respondeu" sua aparência não deixa dúvidas". A brincadeira foi sucedida por risos. Nivaldo zela pelo museu de Alenquer. Dele ganhei dois livros e a licença para escanear um terceiro.

Noutro encontro na casa professora Raimunda Brilhante foi agraciado com mais dois mimos. Tenho fé: um livro muda vidas. Agradecido demais pelos mimos. Voltarei, cuidado com o acervo da casa Nivaldo. Fitei com apreço o livro do Lúcio Flávio Pinto sobre o Projeto Jari.

Encaminhamentos – estamos a matutar ações em celebração ao centenário de Benedicto Monteiro.