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quinta-feira, 30 de julho de 2020

O simbolismo da vitória do professor Evandro Medeiros contra a mineradora Vale


"A vitória representa força dos movimentos sociais. A vitória também  é da universidade. É de todos nós" defende o professor.

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Prof, Evandro Medeiros. Foto de redes sociais. 

Manhã do dia 26 do corrente mês entra para a história do campo popular como o dia em que o professor venceu a mineradora Vale. Foi o dia em que a juíza Renata Guerreiro Milhomem de Souza, juíza da 1ª Vara Criminal da Comarca de Marabá, anunciou como improcedente as acusações da Vale contra o professor Evandro Medeiros (Unifesspa), do quadro do Programa de Educação do Campo, com sede no campus I.

A Vale acusou o educador de obstruir a ferrovia de Carajás, que liga as minas da empresa em Carajás aos portos em São Luís, no Maranhão. Em novembro de 2015 Medeiros era uma entre as quase 30 pessoas que integraram uma manifestação na periferia de Marabá, no sudeste do Pará.

O ato foi em solidariedade às famílias afetadas pelo crime ambiental da Vale em Mariana/MG.

A juíza Milhomem em sua sentença destaca que: “ A materialidade e autoria delitiva não restaram comprovadas. Isso porque, no dia dos fatos, ficou tão somente comprovado que o acusado, falando em um megafone, chamava a população para participar da manifestação”.

“[...] verifico que o acusado, longe de incitar a prática de qualquer crime, buscou, na realidade, expor, juntamente com os demais manifestantes, de maneira organizada e pacífica, apoiados no princípio constitucional do pluralismo político (fundamento estruturante do Estado democrático de direito), suas ideias, visões, concepções e críticas à atuação econômica e social da empresa Vale S.A, participando, como organizador ou não, desse evento social, amparado pelo exercício concreto dos direitos fundamentais de reunião, de livre manifestação do pensamento e de petição” destaca a juíza sobre o livre

A juíza Milhomem assentou a sua sentença nos princípios da defesa das ideias e da liberdade de expressão e de organização, onde argumenta que: “Com bem salientado pelo Eminente Ministro Celso de Melo no julgamento da ADPF n. 187: (...) a liberdade de expressão, considerada em seu mais abrangente significado, traduz, ela própria, o fundamento que nos permite formular idéias e transmiti-las com o intuito de provocar a reflexão em torno de temas que podem revelar-se impregnados de elevado interesse social. As idéias, (...), podem ser fecundas, libertadoras, subversivas ou transformadoras, provocando mudanças, superando imobilismos e rompendo paradigmas até então estabelecidos nas formações sociais. Leia a íntegra da sentença

O caso do professor não é o único que a Vale judicializou. No corredor de Carajás, como alertou uma matéria da Agência Pública, o total de pessoas processadas pela mineradora ultrapassa a casa de cem.

O educador conta que o processo de cinco de anos abalou toda a família. Impactou a mãe do professor, que temia que ele poderia sofrer algum atentado por conta da sua atuação política. Abalou os filhos pelas coisas que ouviam na escola, que o pai seria preso. Por cinco anos as crianças viveram esse drama. Notícias sobre o caso na imprensa, idas na delegacia para depoimentos.

Afetou a própria saúde do professor no percurso processual descobriu que tem hipertensão. “O ato de solidariedade ser tratado como crime, o Ministério Público ter aceitado a acusação da Vale, isso tudo provocou em nós um profundo sentimento de indignação e ao mesmo tempo de impotência. Isso tudo abala a gente de forma emocional e profissional” reflete Medeiros.

Para o professor a vitória se dá em vários planos. A pessoal, por conta em poder ter o mínimo de sossego familiar, sem o temor de ser preso e profissional. E o de caráter coletivo do conjunto de movimentos sociais que reivindicam em todos os locais onde a Vale opera respeito aos seus territórios e seus modos e vida, avalia o professor.

Medeiros reforça ainda que é uma vitória da universidade, por conta do empenho da mesma em fomentar pesquisa e projetos de extensão junto aos segmentos historicamente marginalizados da sociedade.

“ Hoje existe um clima em tentar promover o silenciamento de discentes, docentes e técnicos alinhados a estes segmentos. A vitória é simbólica também neste sentido, em valorizar o conhecimento que emancipa. Temos uma vitória que representa a todos”, acredita o educador.

 Números da Vale. AQUI

sábado, 20 de setembro de 2008

Veropa, meu amor

Veropa meu amor Os abastados da província costumam virar o nariz quando se afirma que o Veroca (Mercado do Ver o Peso) é uma espécie de síntese do povo do Pará, que nesta época do festejo do Círio de Nazaré pulsa a todo vapor. 

O Veropa é chique, arquitetura de ferro secular de origem belga abriga o setor dedicado a peixe e carne. Cada um em canto oposto. Santa Maria do Grão Pará, nome oficial de Belém, nasceu às margens do rio Amazonas, lá num distante 1616, quando imperava nestas terras o povo Tupinambá. 

Os (as) pesquisadores (as) dedicados (as) na investigação sobre o urbano sinalizam que é junto aos postos de troca de mercadoria que as cidades germinam. Lá pertinho, o forte do Castelo aguarda os novos saqueadores. Ainda hoje os canhões estão apontados para a baía. 

A cidade é quase uma ilha. Pena ter crescido de costas para o rio, subjugado pela corrida imobiliária, assim como Manaus, que rivaliza a hegemonia política e tragédias urbanas na Amazônia: a concentração de palafitas, problemas de trânsito e saneamento. 

 Os territórios do Veropa são múltiplos e os senhores (as) deles diversos conforme o horário do dia, da noite ou da madruga: o setor de venda de peixe, praça de alimentação, praça de birita, vendedoras de ervas, feira do açaí e o mercado de carne. 

Ao varar do sol estivas, vendedores de hortifrutigranjeiro, compradores, as barraqueiras do café controlam o pedaço. Ao meio dia os (as) comerciários (as) afrontam a cidadela, que ganha outros entes (encantados e reais) com a aproximação da noite, tais como “as meninas”. 

Os barcos atracados no porto balançam sobre as águas na baía do Guajará, onde os urubus disputam vísceras dos peixes, celebrados pelo casario colonial. Um secular relógio marca o tempo, anseia a passagem da imagem da Santa sempre a cada segundo domingo de outubro. Isso faz mais de duzentos anos. 

Já a cada sábado a romaria é fluvial, onde afluem os ribeirinhos. Vendedores (as) de badulaques, policiais, profissionais liberais, poetas, funcionários públicos, “as meninas” os (as) malandros (as) oxigenam a vida do lugar, em demasia barulhento quando apita as seis da tarde.  Ferve o lugar, peixes ardem nas frigideiras encardidas, vendedores de churrasquinho, queijo, amendoim.

 “As meninas” sorriem serelepes, como se declarassem uma paixão antiga a quem acabaram de conhecer. Penso em Itararé, - o Barão-, Lima Barreto, João Antonio, no teatro de Plínio Marcos, nos vencidos de Dalton Trevisan, nos marginais de Genet, Bruno de Menezes e Dalcídio Jurandir. 

Aqui soa um mundo solidário na alegria e na dor. Quantas amazonias ocultam a ignorância e preconceito da metrópole? O mundo das feiras, da terra firme, várzea, igarapés e o rio-mar (Araguaia, Tocantins, Xingu, Tapajós). 

Os filtros em que tentam tratar da região transitam pelo exótico: eldorado, inferno verde ou um imenso almoxarifado. O barro desta terra gerou gente do quilate do escritor Dalcídio Jurandir, Benedito Nunes, um dos mais expressivos críticos de literatura do país, a romancista Eneide de Moraes, o poeta Max Martins, homenageado na derradeira feira do livro, dedicada a Cuba. 

 O Veropa tem a cor, a dor, a alegria, o cheiro, o perfume e o fedor dos humildes. Ao redor do Veropa um universo paralelo frutua. Os inferninhos – ou seriam paraísos - encravados nas ruas estreitas se agitam. Meninos (as) cheiram cola, assaltam, repartem com os pares e policiais a renda. 

Uma terra farta em imagens e signos os mais variados abriga um pólo de fotografia, que tem entre os animadores o coletivo FOTOATIVA. 

Belém é uma metrópole sonora, sedia um dos antigos conservatórios, o Carlos Gomes, mas também tem punk e hard-rock, instrumentais, orquestras, chorões de primeira linha, e o arrastão do Pavulagem, que anima a quadra junina há 20 anos, e muito engarrafamento, que sempre atrasa a chegada até o Veropa, coração e sexo da cidade. Ainda que uma pequena parte da população torça o nariz.