quinta-feira, 30 de abril de 2020

40 anos após a execução do dirigente sindical “Gringo”, Alex Lima, filho do sindicalista, apresenta dissertação sobre a luta pela terra no Pará na Unifesspa.


A defesa ocorreu a partir de portal da universidade, e foi marcada pela inclusão de sujeitos históricos da luta pela terra nos 1980, numa licença humana e poética ao protocolo do rito. 


Manifestação pela passagem do assassinato de Gringo. Fonte: internet. 

Raimundo Ferreira Lima, mais conhecido como “Gringo” foi executado por pistoleiros em maio de 1980, quando somava apenas 43 anos, em São Geraldo do Araguaia, sudeste paraense. Além de sindicalista em Conceição do Araguaia, Lima era agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Gringo foi o primeiro dirigente sindical assassinado na região marcada pela aguda de disputa pela terra no sudeste e sul do estado do Pará. Trata-se da região mais violenta do país no que tange à luta pela terra. Após Gringo foram executados Expedito Ribeiro e alguns membros da família Canuto. Ainda hoje a matança não cessou.

Os anos da década de 1980 são considerados os mais violentos nas margens dos rios Araguaia-Tocantins. Anos da criação da União Democrática Ruralista (UDR), braço armado dos ruralistas.

A organização foi articulada pelo médico e ruralista Ronaldo Caiado. Hoje, novamente, governador do estado do Goiás. A UDR assina inúmeras ações de violência que ceifaram a vida de posseiros, sindicalistas, agentes pastorais, advogados e dirigentes sindicais.

Neste processo de coerção em oposição à luta pela terra camponesa somam  militares de todas as estirpes e patentes, das forças armadas, relevo ao Exército, e as policias civil e militar.

Naqueles tempos o ambiente era tomado pela doutrina da segurança nacional. Tensão agudizada por conta do episodio da Guerrilha do Araguaia. A militarização imperava, em particular com a presença do Exército – inúmeros quartéis povoam a região -, cujo representante maior era o major Curió.

Voltando ao caso do Gringo, o principal suspeito pelo sequestro e execução do sindicalista, ocorrido em São Geraldo do Araguaia, quando o mesmo retornava de evento em São Paulo, recai sobre o fazendeiro Neif Murad, relata uma das edições do boletim Grito da PA 150.

A formação de consórcio por parte dos ruralistas para eliminar os seus adversários, assim como hoje, era recorrente. E, ainda as listas de pessoas ameaçadas pelos fazendeiros e políticos da região. No caso de Gringo, suspeitas recaiam também sobre o então deputado estadual, o médico e pecuarista Giovanni Corrêa Queiroz, natural de Minas Gerais. O mineiro, desde sempre, integrou a “bancada do boi”.

Mais tarde a viúva, Maria Oneide Costa Lima, e outros agentes pastorais, após o assassinato do sindicalista, passaram a receber ameaças, e cartas anônimas colocadas sob a porta da casa pastoral, e ameaças de servidores do Grupo Executivo de Terra do Araguaia Tocantins (Getat), como alerta a edição de nº 27 do Grito da PA-150. O nome de Gringo hoje nomeia uma escola pública em São Geraldo do Araguaia e o caso sobre a sua execução nunca foi a julgamento.

Gringo e D. Oneide. Fonte: internet. 

O boletim ressalta ainda um episódio considerado um dos mais violentos contra os religiosos engajados na luta junto aos posseiros. No dia 31 do mês de agosto a Polícia Federal prendeu 13 posseiros do município de São Geraldo do Araguaia e os padres franceses Aristides Camilo e Francisco Goriou sob a acusação de incitação à desobediência civil. “Tudo indica que o ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel, com base no inquérito realizado pela Polícia Federal e instruído pelo Departamento Federal de Justiça, avaliou que a presença dos religiosos é “nociva” aos interesses e segurança nacionais, e sugeriu a expulsão de ambos”.  


Ativistas da época contam que a prisão dos religiosos provocou uma grande mobilização. Consta no rol de atos realizados pela soltura dos mesmos ocupar a procissão do Círio de Nazaré com faixas e cartazes pedindo a soltura dos missionários. Prender e torturar fazia parte do modus operandi dos agentes do regime. Na década de 1970, quando a agenda residia em sufocar a Guerrilha do Araguaia, o padre Roberto de Valicourt passou por experiência semelhante.  

Tem-se neste contexto o papel autoritário do Estado, e associação do mesmo com frações de classe do país e o grande capital nacional e internacional na apropriação de vastas extensões de terra na Amazônia. Bancos Econômico, Bradesco, Bamerindus e a empresa Volkswagen figuram como alguns beneficiários. Além de várias famílias das elites do Centro Sul do país. Muitas presentes na região, ainda hoje. A animar novos conflitos.  

Outras violências se sucederam no decorrer destas quatro décadas. Inúmeras execuções de dirigentes se espraiaram por todo o território do Pará. No rol, consta a execução da missionária Dorothy Stang, em 2005, no município de Anapu, a sudoeste paraense. Antes precedido pelo Massacre de Eldorado do Carajás, em 1996. 

MOMENTO HISTÓRICO - No derradeiro dia do mês de abril de 2020, quando o Massacre de Eldorado de Carajás soma quase um quarto de século e a execução de Gringo 40 anos, um momento histórico transcorre com a mediação da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), no Programa de Pós Graduação em Dinâmicas Territoriais. 

A banca examinadora e Alex Lima. Canto superior esquerdo prof Airton, superior direito Alex Lima (com foto de Gringo ao fundo), canto inferior esquerdo, profª Edma e o prof Ricardo Rezende. 

Alex Costa Lima, sociólogo, filho de Gringo, professor em São Geraldo do Araguaia apresenta a dissertação Padres Posseiros de São Geraldo do Araguaia: o Caso de Cajueiro, sob a orientação do professor Airton Pereira (UEPA), e tendo como examinadores o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ricardo Rezende e a professora Edma Moreira (Unifesspa).

Quando da morte do pai, Alex Lima contabilizava somente nove meses de idade. Era o caçula de seis irmãos. Naquele momento Rezende era agente da CPT em Conceição do Araguaia nos tensos anos da década de 1980. O professor Airton também foi agente da CPT, décadas depois, na cidade de Marabá.

O trabalho de Lima buscou iluminar a partir do estudo de caso da luta pela terra no Castanhal de Cajueiro, o papel de frações da Igreja Católica junto aos posseiros.  Além dos arquivos da CPT de Xinguara, o professor fez uso do arquivo da família e de relatos de antigos funcionários do INCRA, leigos e padres, posseiros e outros sujeitos daquele contexto.

Professor Alex Lima. Fonte: facebook 

Para o pesquisador a luta pela terra em Cajueiro, bem como pelo projeto de desenvolvimento a partir do protagonismo dos posseiros, o modo de uso das riquezas da região representou um momento de resistência contra a ditadura civil-militar, e pela radicalização da democracia. 

No percurso do trabalho divido em quatro capítulos Lima realça a relevância do MLPA – Movimento de Libertação dos Presos do Araguaia – que aglutinou vários segmentos de diferentes correntes ideológicas, que mobilizaram ações no Brasil, na França e no Vaticano.   

40 anos se passaram do assassinato de Gringo. Em certa medida o posseiro da fronteira conseguiu se territorializar nas plagas do sul e sudeste do Pará. Hoje os projetos de assentamentos rurais controlam mais 50% do todo o território da região.  

O posseiro, em certa medida foi reconhecido pelo Estado. Ganhou status de assentado da reforma agrária. Logrou êxito em acessar alguns direitos garantidos na Carta Magna, nem que para isso tivesse que romper a cerca do latifúndio.

O reconhecimento tem como marco duas tragédias de violência do Estado e do capital contra trabalhadores rurais, o Massacre de Corumbiara (RO) e do Eldorado do Carajás (PA), estes, como gatilhos de reconhecimento em massa de áreas ocupadas na Amazônia por posseiros. Muitas há mais de duas décadas.

No entanto, isto não implica na equacionalização das lutas pela terra e as riquezas nela existente. O Estado, após quase meio século, mantém a ação autoritária e capturado pelas frações de classes. Bem como a democracia, tal os raquíticos meninos migrantes da década de 1980, continua capenga das pernas.   

Contudo, creio, nas terras do Araguaia-Tocantins, a educação talvez seja o nicho de ação onde mais se conseguiu radicalizar na democratização na região, a partir da demanda de camponeses e indígenas.

A Unifesspa espelha a luta de classes. Num flanco, tem-se a Educação do Campo, em franco dialogo com o conjunto de sujeitos que historicamente foram subalternizados, e noutro extremo, os cursos relacionados com áreas mais técnicas, a exemplo das engenharias, por onde gravitam os interesses da mineradora Vale.

É ela, que ao controlar tecnologia e capital, que acaba por deter a hegemonia na definição do território. É o território local que abriga o maior projeto da mineradora em todo o seu portfólio.

Em oposição à mineradora, ruralistas, as oligarquias locais e outros setores, crasso exemplo da peleja pela terra foi a edificação do Campus Rural do IFPA.  O antigo Castanhal grilado pela família Mutran, e ocupado pelo MST ao fim dos anos 1990, num enfrentamento que durou uns dez anos, hoje abriga uma instituição de ensino onde filhos de posseiros e indígenas conseguem estudar de forma digna num espaço público.

A defesa de Lima quebrou o protocolo do rito de passagem. Além da mãe, dona Oneide, fizeram intervenção os padres Aristides Camilo e Francisco Goriou, que foram detidos na década de 1980.  

A dissertação de Lima não representa um caso isolado no combate pela terra. Ela vem a se agregar a um conjunto de trabalhos de filhos de posseiros e indígenas que aportaram nestas terras do Araguaia-Tocantins em tempos idos do século passado. Enfrentaram todos os tipos de obstáculos, até alcançar uma universidade pública.

Todavia, o contexto politico e econômico nos dias de hoje, reflete aquele de tempos distantes, - uma vez mais - as populações locais  encontram-se ameaçadas pela expropriação pelo grande capital com a mediação do Estado, este apropriada pelas frações de classes – em particular ruralistas – e milicos talvez,  de forma mais agressiva que dantes.

Conheça mais relatos sobre a  luta pela terra no Araguaia Tocantins  escrita pelos protagonistas na obra Memorial da Terra dos Castanhais. Baixe AQUI



quarta-feira, 29 de abril de 2020

O médico Nélio Aguiar, prefeito de Santarém, vira piada nacional na Rádio Band News



O humorista José Simão deu um pito no prefeito pela medida em abrir o comercio, acreditando que o sol mata o vírus da Covid-19

O médico Nélio Aguiar (DEM) - prefeito de Santarém-PA- imagem de rede social

Santarém virou piada nacional na manhã de hoje na Rádio Bandeirantes News, no quadro do jornalista José Simão, 29/04. OUÇA AQUI

O motivo foi o argumento do prefeito Nélio Aguiar (DEM) para determinar o funcionamento do comercio local no intervalo de 9h as 15h. Ele acredita que o sol combate a pandemia do Covid.  Leia matéria do site UOL

Além da galhofa com o prefeito, que é médico, Simão fez referência ao risco que a medida pode causar às populações indígenas do município.

Cinco pessoas já foram a óbito no município, 48 estão infectadas, destes oito estão internadas no Hospital Regional do Estado, 21 estão em tratamento domiciliar, e os demais  se recuperam da doença.

Santarém é a principal cidade do Baixo Amazonas paraense. Funciona como um município polo. O Distrito de Alter do Chão, a Floresta Nacional e o encontro das águas conferem ao lugar visibilidade internacional. A cidade mantém contato comercial e de passeiros com Manaus, que experimenta o pico da pandemia. 

A medida do prefeito resulta da pressão do setor comercial. O interesse público parece não ser o forte do prefeito. Por ocasião da revisão do Plano Diretor do município, assim com o Legislativo da cidade, o chefe do executivo não respeitou a decisão da assembleia final do processo de revisão.

Em atendimento à demanda do setor do agronegócio, dentre outros, o prefeito sancionou pela construção de um complexo portuário na região do Lago do Maica.  A região abriga uma diversidade social onde podem ser encontrados camponeses, indígenas e quilombolas.  

Sobre o assunto a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) elaborou uma publicação que pode ser acessada AQUI

Outra medida do prefeito foi conceder ao juiz federal Airton Portela medalha em homenagem pela passagem do 358ª aniversário da cidade em julho de 2019. 

Em 2013 o juiz não reconheceu relatório sobre a existência do território indígena Maró, onde vivem indígenas do povo Borari e Arapium. Em 2015 a medida caiu pela decisão do juiz Érico Freitas.

Outra polêmica que o prefeito sinaliza em favor do interesse privado, é a construção de uma base de petróleo com a capacidade de 1.500.000 de litros no bairro da Prainha, da empresa Atem´s Distribuidora de Petróleo. O caso encontra-se judicializado. Veja AQUI

A tendência é a região abrigar outras situações de tensão envolvendo o grande capital e as populações tradicionais. Como o que já ocorre por conta do avanço da cadeia de grãos e obras de infraestrutura (portos, modal de transporte e hidroelétricas), e a mineração na fronteira com o município de Juruti, onde a estadunidense Alcoa deseja usar as terras da comunidade de Lago Grande.  Veja mais detalhes AQUI

domingo, 26 de abril de 2020

Conflitos no Campo 2019/CPT: Amazônia concentra situações de violências, e desmatamento dispara no governo Bolsonaro


O governo Bolsonaro representa uma licença para matar para os povos da Amazônia. 


Ainda hoje é caro a indígenas, a quilombolas e a campesinos a herança colonial edificada sobre os pilares da grande propriedade rural, baseada no monocultivo, este direcionado para o mercado externo, tendo como base o braço escravo. Modelo perpetuado ao longo dos séculos.

Vereda esta a aprofundar o hiato entre as classes sociais, a dinamizar a concentração de riquezas, poder político e a corroer a espinhela da macambuzia democracia. Seja em quebradas dos principais centros urbanos do país ou em territórios indígenas, quilombos ou nas várias modalidades de assentamentos e Unidades de Conservação (UCs), a exemplo das reservas extrativistas da Amazônia e outras regiões.

Tal estrutura consolidou um expressivo poder ao setor ruralista, que ao longo dos diferentes períodos históricos que conformam o país, tem se apropriado do Estado para a efetivação de sua reprodução econômica, política e social.

A expropriação (expulsão de suas terras e grilagens de terras públicas), a coerção pública (“puliças”) e privada (milícias), o trabalho escravo – mesmo em tempos contemporâneos - a parcialidade do poder judiciário nas refregas entre as classes antagônicas, a naturalização dos crimes cometidos contra os setores subalternizados nas arenas de disputas, representam algumas das expressões desta conjuntura.

Neste ambiente, o setor ruralista conta ainda com a importante contribuição dos meios de comunicação, este, alinhado aos interesses daquele, contribui de forma sistemática com a construção de sentidos, (visão de mundo), valores e preconceitos no campo simbólico do universo rural do Brasil. Exemplo clássico pode ser tomado com a campanha, ad infinitum  “O Agro é Pop”.

O viés da maioria da mídia ratifica o discurso das narrativas coloniais de religiosos, traficantes e escribas de aventureiros sobre a região sob o prisma da exuberância, do exótico, do vazio demográfico ou seres selvagens. A opereta bufa opera no sentido em justificar a “dominação” da terra, floresta, subsolo, das gentes e seus conhecimentos. Legitima desta forma o “civilizar”.  Nem que para se alcançar a missão tenha que matar. Morte por bala, medo, Lei, mídia ou veneno.

Na mesma toada, vocifera o presidente “O índio já parece mais com gente”. Neste diapasão não oculta a sua opção e alinhamento político, econômico e ideológico com ruralistas e outros setores, que a todo custo almejam ocupar as terras e territórios ancestrais. Seja ocupação para a exploração madeireira, do agronegócio ou a mineração.

Em meio às crises do setor de saúde por conta da pandemia, crise econômica e a crise política protagonizada pela desordem e ausência de rumo do primeiro ano do (des) governo Bolsonaro, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) apresentou no derradeiro dia 17, a 34ª edição do relatório anual sobre Conflitos no Campo no Brasil/ 2019.

17 DE ABRIL - O dia do lançamento do documento faz referência à data do Massacre de Eldorado do Carajás, ocorrido há 24 anos, na “Curva do S”, no município de Eldorado do Carajás, no sudeste do Pará, na época PA 150. A ordem para o massacre foi do então governador do PSDB, o médico Almir Gabriel e do secretário Paulo Sette Câmara. O comando de 150 PMs coube ao coronel Mario Colares Pantoja e do major José Maria Pereira de Oliveira, que resultou com a execução de 19 e 69 feridos sem terra do MST.

GOVERNO “BOZO” - TRAGÉDIA ANUNCIADA - Como era de se esperar, os números ganharam em robustez. E, como tem sido de praxe, a Amazônia ocupa lugar de destaque. A edificação da tragédia do “projeto” Bolsonaro não deixava dúvidas dos ataques que iriam se precipitar contra indígenas, quilombolas e camponeses.

Esvaziamento orçamentário de instituições fundamentais na relação com os setores populares do campo, nomeação de pessoas em cargos estratégicos, sem aptidão para as mesmas e alinhadas aos setores reacionários do país, punição e exoneração de técnicos, revisão de algumas garantias sancionada da Constituição de 1988 são alguns elos desta teia do ódio governista.  

Uma verdadeira licença para matar. Como os casos de execuções dos indígenas Guajajara, no estado do Maranhão, que culminou com quatro mortos entre novembro a dezembro de 2019.  Tem-se ainda a prisão de Pe Amaro, agente pastoral da CPT, da cidade de Anapu, no Pará, em 2018. O agente pastoral ficou preso por três meses. Criminalizar é a ordem. A mesma tática havia sido experimentada com a missionária Dorothy, antes de ser executada em 2005. Na mesma cidade, em dezembro de 2019, várias pessoas foramassassinadas.

INDICADORES DA TRAGÉDIA
A Amazônia concentrou 60% das situações de conflitos por terra ocorridos no Brasil no ano de 2019, com um contingente de 102.734 famílias (71%) do total nacional, calculado em 144.742. O indicador representa um aumento de 36% em relação ao ano de 2018 (75.447). Neste processo de violência 735 casas foram destruídas, o que representa 40% dos registros dos casos nacionais 1.826. A região que também concentrou a violência extremada, 27 (84,4%) dos 32 assassinatos registrados pela CPT.

A região representou 57% das famílias despejadas (5.977) em todo o Brasil (10.362). Com relação ao ano de 2018 (3.223) o incremento em 2019 foi de 82%. No que tange à pistolagem a Amazônia acumulou 58% dos casos (5.945) de todo o país (10.171).  O aumento foi de 29% em relação ao ano de 2018 (4.598). 26. 621 famílias de 67 territórios indígenas experimentaram algum de tipo de invasão – garimpeiro ou madeireiro em todo o Brasil. Mais de 80% dos crimes ocorreram na Amazônia. 

Não bastassem todos os indicadores, o Ministério do Meio Ambiente foi entregue a uma pessoa sem a menor sensibilidade ou compromisso com as populações nativas. Salles foi condenado por impropriedade administrativa no governo de Alckmin, acusado de adulterar mapas em favor de várias corporações do mercado.

No ministério, Salles mostrou-se ágil em desmantelar o Ibama e perseguir funcionários. Feriu de morte o Fundo Amazônia, satanizou ONGs, além de boicotar fóruns internacionais. O ministro faz par perfeito com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que amiúde, libera todo tipo de veneno. Mais de 500 agrotóxicos foram liberados em 2019.  Com relação ao desmatamento, dados do INPE indicam o aumento em 85% em 2019.

No rosário de violências tem-se ainda a MP 910, que visa normatizar a grilagem de terras, a invasão de inúmeros territórios indígenas por garimpeiros e madeireiros, o “Diado Fogo” organizado por fazendeiros do oeste paraense, a invasão por fazendeiros durante a audiência da OEA no mesmo oeste paraense, e a tentativa em bagunçar o evento realizado em Altamira, também no estado do Pará, “AmazôniaCentro do Mundo” são alguns exemplos que merecem relevo.

Para não citar a criminalização dos brigadistas na cidade de Santarém e a invasão e assalto à casa da líder do povo Munduruku, Alessandra Korap. Todos os casos ocorridos no estado do Pará.

Independente das estampas partidárias as tragédias têm se repetido na Amazônia. Mesmo nos governos petistas os setores reacionários mantiveram influência. O desenho desenvolvimentista foi mantido. As grandes obras erguidas, a exemplo de Belo Monte, no Xingu e Santo Antônio e Jirau, no rio madeira. Esta com transbordamento de problemas para os países vizinhos.  

Abundancia de terras, - a região representa mais de 50% do território nacional -, as riquezas que elas embutem, bem como o subsolo, a floresta, as riquezas hídricas, o fabuloso banco de germoplasma, a riqueza mineral e o conhecimento ancestral conferem à região uma centralidade nas arenas de disputas dos mais heterogêneos interesses, em variadas escalas, a mobilizar uma infinidade de sujeitos articulados em redes.


terça-feira, 7 de abril de 2020

Sobre hidroxicloroquina, malária, Tucuruí e outras bandidagens


A ideia era somente prosear sobre malária

Foto: Paulo Santos/2002/Ecodebate


Conheci hidroxicloroquina a partir de uma piada recorrente pelos arredores de Tucuruí, sudeste paraense, idos da década de 90.


A cidade abriga a maior hidroelétrica genuinamente nacional, a quarta do mundo, a produzir energia no rio Tocantins, sudeste paraense. Terra de vida. Terra de morte matada, onde o filho chora e a mãe nunca chega a saber, se a dor é de amor, se a dor é de doer ou se a dor é de morrer.

O projeto integrou o portfólio da ditadura civil militar, que ergueu os pilares para o aprofundamento da condição colonial da Amazônia.

U$$ 700 milhões era o custo estimado do projeto pensado e erguido para subsidiar empresas do capital mundial da cadeia do alumínio, Albras e Alunorte/CVRD/Norsk Hidro e o capital japonês, em Barcarena/PA, e Alumar/Alcoa/BHP Billiton, em São Luís/MA.

A obra que fez a fortuna da firma Camargo Corrêa foi a ruína para milhares de pessoas ao redor. Indígenas (Parakanã), camponeses e outros.

O custo final do negócio da China, ninguém sabe ao certo. O governo calcula em U$$ 4,5 bilhões, outros em U$$ 10 bilhões, e estudo da Comissão Mundial de Barragens estima em U$$ 7,5 bilhões, conta ensaio de Lúcio Flávio Pinto publicado em boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi, em 2012.

No mesmo ensaio o jornalista explicita que a obra durou 37 anos até chegar ao fim. Como se diz por aqui, pense na roubalheira, desde a sua concepção na década de 1970 até o encerramento da usina. A empreita catapultou o senhor Sebastião Camargo, o dono da firma, a figurar como o primeiro brasileiro bilionário nas páginas da Forbes e da Fortune.

A sangria não cessa, Pinto adverte que o subsídio de energia bancado pelo Estado e pela sociedade durante 20 anos, - desde os anos 1980 aos anos de 2000, - para as empresas Albras e Alunorte, totaliza uns U$$ 2 bilhões, dinheiro suficiente para construir outra planta industrial.

Somente as usinas do Pará consomem 3% de toda energia do país. Água e energia representam os principais insumos da cadeia. Tá ligado no saque das pessoas de bem?


As 23 turbinas da usina são responsáveis por quase 10% de toda energia gerada do país. A usina é tida como a maior obra pública já erguida na Amazônia, e consta entre as cinco maiores do país. Assim como em Belo Monte, Delfim Neto, um dos baluartes do regime de exceção, mediou as negociatas para a compra das turbinas de Tucuruí.


Como adverte Pinto e outros intelectuais, a bandidagem foi possível por conta do regime ditatorial, sustentado pelas Forças Armadas, em particular o Exército. Desgraçadamente, o mesmo modus operandi do Estado autoritário se registrou na construção de Belo Monte, no rio Xingu, em tese, em plena “democracia” sob a insígnia do PT, e com a “consultoria” do mesmo Delfim Neto.  A mesma desgraça desejam impor ao Tapajós, com o projeto da hidroelétrica de São Luiz. 


Vim aqui somente para falar de malária e da hidroxicloroquina, mas, como um bagulho puxa o outro. Por conta do lago que a usina de Tucuruí gerou, os indicadores de malária eram expressivos, assim como a produção de gás metano, por conta da floresta submersa, e por consequência, mosquitos de tudo que é jeito e tamanho.

A concentração de peões na obra fez germinar o território do Escorre Água, espaço reservado às delícias da carne e do amor fortuito. 


E a piada? A piada residia em dizer que na cidade havia tanta malária, que quando alguém usava camisa com botões os macacos assaltavam a pessoa pensando que era comprimido de hidroxicloroquina.


Vários colegas do trecho foram agraciados com uma ou mais cruzes de malária, como se diz por aqui, ou algum tipo de hepatite.


Mais de duas décadas a rodar por aí, cabeça caiada, algumas cruzes de amores cravada ao peito, ainda continuo invicto de malária e hepatites...o que contar para os netos???

Ah, quando gitinho foi acometido por sarampo no sertão do Maranhão. Mas, aí, já são outros quinhentos. Tristeza pra mais de metro, de fazer até o burro da carroça chorar. 

domingo, 5 de abril de 2020

Em plena tragédia do Covid 19, governo planeja expulsar comunidade quilombola no MA. Matéria de Ed Wilson explica o caso


As frações de classe que hegemonizam o comando do (des) governo nacional não nutrem o menor respeito pelas populações indígenas e quilombolas. O fato já foi materializado em inúmeros discursos, em nomeações para cargos estratégicos de representantes dos setores mais conservadores da sociedade.


O governo é uma ameaça à reprodução das comunidades indígenas, camponesas e quilombolas em todo o país. O fato mais recente reside na medida em expropriar quilombolas no município de Alcântara, no Maranhão, por conta da expansão da Base de Lançamento de Foguetes, em plena tragédia da Covid-19.
 O jornalista e professor Ed Wilson examina  o caso em Matéria de seu blog.

Em um momento em que ninguém esperava, sai uma resolução dessa e as pessoas ficam aflitas, nervosas, chegando até a adoecer – Dorinete Serejo, moradora da comunidade Canelatíua e coordenadora do Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (Mabe). Leia a íntegra AQUI


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Nova Correnteza



Para que serve a poesia, senão paga nem o pão ou a cachaça?
É a poesia uma danação do capeta a perturbar oco da cuca em dias de tese?
As rimas, aqui, mal ajambradas podem ser consideradas poesias?
Só sei que a culpa inspiratória é da horda de poetas do Poeme-se, São Luís/MA.
Como se diz por lá: tô nem aí.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Correntezas




A poesia não serve para nada. Nem para pagar o pão, mas, faz-se necessária como alimento para alma, ainda que o céu não esteja favorável a brigadeiro. 

O par confinado em Marabá, T.C. Esteves e R. Almeida, vez em quando, em intervalos de escritos de tese, xodós, bulinações, danações, fornos e fogões, rusgas e afetos parem versos.

Milton Rocha assina a colagem. Tem abrigo em Belém. Mirian Menezes, radicada em Santarém fez a diagramação.

A soma gerou o cartaz que denominamos de Correntezas, que seja de axé diante de dias marcados por profundas incertezas. 

Na cidade de São Luís existe um grupo poético chamado Poeme-se. Ele produz zines, saraus e cartazes de poesia. Ele é a  inspiração. 

sexta-feira, 27 de março de 2020

Crimes da Mineração em Barcarena/PA - UFPA/NAEA disponibiliza livro


Foto: Pedrosa Neto/Amazônia Real

Recursos naturais em abundância, energia barata e subsidiada, cessão de terras públicas, frágil controle social, renúncia fiscal, farta mão de obra barata e de baixa escolaridade, ineficiência no monitoramento e na fiscalização ambiental (cumplicidade?), além de os generosos financiamentos públicos são alguns dos fatores que concorrem para a presença de grandes empreendimentos na Amazônia, onde o setor público financia o saque privado.  

Há pelos uns 30 anos o município de Barcarena, ao norte do Pará, coleciona processos de expropriação e crimes de toda ordem por conta da instalação de um complexo industrial da cadeia do alumínio – Albras-Alunorte-, bem como da francesa Imerys, que explora o caulim.

Tempos em que o controle acionário era exercido pela mineradora Vale, quando a mesma ainda atendia pela alcunha de CVRD, antes de ser entregue ao capital especulativo no ano de 1997, mesmo ano da instalação da Lei Kandir, que amplia o faturamento das empresas por conta da isenção fiscal pelo não recolhimento do ICMS, o que fere de morte os estados exportadores de commodities.  

Sobre os crimes que se sucedem em diferentes da mineração por todo o Brasil, já em 2010, o coletivo Justiça nos Trilhos, alertava para a eminência de rompimentos das barragens de rejeitos.

Com reconhecimento nacional e internacional de mais de 30 anos de atuação, o Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (NAEA), da UFPA, acaba de disponibilizar o Dossiê Desastres e Crimes Ambientais da Mineração em Barcarena.  O documento foi lançado em janeiro, em Belém. 

A apresentação do livro esclarece que o mesmo resulta além das dinâmicas que regem a produção acadêmica, da necessidade em subsidias os movimentos sociais do município no enfreNtamento com as grandes corporações. 

Aqui reside uma ironia: o complexo Albras-Alunorte, hoje é controlado pela norueguesa Norsk Hidro, cujo país é/era o país que mais contribuía com o Fundo Amazônia.

O dossiê agrupa 20 artigos articulados em quatro seções: I – Desastres socioambientais provocados pela mineração; II – Barcarena: sucessão de desastres socioambientais; III – Barcarena: sucessão de outros desastres socioambientais e IV – Mariana e Brumadinho: desastres e crimes da mineração em MG. 
A obra que pode ser baixada gratuitamente, conta com contribuição de pesquisadores de várias partes do país, onde podemos realçar Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Amazonas e Maranhão. 

Interessante o cotejamento que faz com relação aos projetos portuários. Os mesmos integram a cadeia de commodities na Amazônia, e representam um dos itens de logística do projeto Arco Norte, que pretende além de portos, a edificação de modal de transportes (rodovia, hidrovia e ferrovia) e edificação de inúmeras hidroelétricas de diferentes tamanhos.

A energia é um dos principais insumos da cadeia do alumínio. Na década de 1980, a hidroelétrica de Tucuruí, no sudeste do Pará, foi erguida no bojo do Programa Grande Carajás, com a finalidade de atender a demanda de Barcarena e São Luís, no caso, a estadunidense Alcoa. Energia subsidiada pela sociedade nacional.

Um dos artigos dá relevo ao caso de disputa territorial entre comunidades tradicionais de São Luís, na peleja contra o grande capital na comunidade de Cajueiro. Sublinhe-se ainda a seção dedicada aos crimes ocorridos pela Vale em Minas Gerais, Mariana e Brumadinho.  

A experimentada professora Edna Castro e um egresso do NAEA, Eunápio do Carmo assinam a organização da obra.
Baixe a obra AQUI

terça-feira, 24 de março de 2020

Planalto Santareno: notas sobre um visita em Ipaupixuna

Foto: caminho para Paupixuna
Cazula é sobrenome de ascendência Italiana e lusa, conta dona Irani, que vem a ser a mãe de Leandro, este professor de Geografia da UFOPA.  Os ancestrais da família baixaram em terra brasilis ao apagar das luzes do século de XIX, cuja missão consistia em substituir o braço escravo de África na cultura do café em solo paulista. 

Dava-se assim a origem ao colonato, como explica José de Souza Martins, em  Cativeiro da Terra. Tão explorados, quanto aqueles, os migrantes europeus ajudaram a operar a máquina da cadeia do café, esta responsável pelo processo de “modernização” do país.

Martins dispara que a racionalidade do trabalho do colono continuou a ser a mesma realizada pelo escravo, mudando somente a forma de organização social do trabalho, do trabalho coletivo do eito, para o trabalho familiar.

A migração subsidiada pelo Estado colaborou na conformação na nova mão de obra, e consequentemente, no cálculo capitalista da produção cafeeira, que antes residia no tempo de vida do escravo, este considerado como capital fixo na contabilidade da época. O escravo integrava o patrimônio. O Museu do Migrante, localizado em São Paulo, evidencia parcela da história.

Irani baixou Santarém outro dia. Leandro a levou para conhecer o povo Munduruku do planalto.  Visita mediada pelo cacique Manoel da aldeia Ipaupixuna. Ela faz fronteira com o território de remanescentes de quilombolas do Tiningu.  Aproximadamente, uns 40km de lonjura da sede do município. 

O planalto sofre influência do mundo das águas do rio Amazonas e do Tapajós. Ali abundam igarapés, furos e rios, e o formoso Lago do Maicá, objeto de disputa e saques de diferentes frentes. Açaí, pescado, floresta secundária ajudam na composição da várzea.

A missão consistia em levar uns canos para dá vazão à água do poço da comunidade, que irá alimentar um roçado. No caminho apanhamos uma boia para o almoço. Um cadinho de carne. A recepção para a dona Irani foi a melhor possível.

A senhora assaltou acerola no meio do caminho, degustou da refeição produzida pela indígena Graciene, provou da pupunha, iguaria que não conhecia. Trocou prosa, tomou café.  Os distantes mundos não pareciam estranhos.

Talvez aproximados pela dor e agruras pretéritas, soavam antigos parentes.  Não foi possível provar do açaí, nesta época do ano, rareia. Nas aldeias e quilombos, o tempo passa desaperreado. As crianças correm desinibidas pelo chão de terra, despreocupadas com a dinâmica dos ponteiros dos relógios dos não índios. 

sábado, 21 de março de 2020

Crônica do trecho em tempo de crise e cheia de rios


Orla de Santarém-PA

Antônia beira a casa dos 60 invernos. Padece de hérnia de disco. Tem um joelho bichado. É uma senhora de estatura mediana. Boleada, com se diz por aqui. Maranhense de Bacabal, lá no meiâo do estado. Bacabal é uma cidade marcada pela pecuária.

Aportou no garimpo de Água Branca, no município de Itaituba, no oeste do Pará na década de 1980. No auge do garimpo. Não tardou, correu para Alenquer, até alcançar Curuá. Todas são cidades irrigadas pelo caudaloso Amazonas.

A senhora é mãe de cinco filhos, sendo duas mulheres e três homens. Somente um dos rapazes mora com ela. Anda meio avoada da cabeça depois de uma temporada na capital do Amazonas, onde moram as meninas. O tratamento é realizado com o guia espiritual. A proximidade com Manaus colabora com o processo migratório. A viagem de barco dura três dias.

Antônia viajou quase dois dias. Cortou o estado de oeste ao sudeste para encontrar outra parcela da família, que mora no município mineral de Parauapebas. Foram umas cinco horas de barco, e perto de dia e meio na BR 163, na Transamazônica [BR 230], e a PA 150.

É tempo de chuva. No percurso é comum peões a fazerem gambiaras em pinguelas (pontes de madeira). E como tem pinguela no trecho. Bem como caminhões quebrados. No perímetro do município de Placas, no oeste, e em Novo Repartimento, no sudeste o número era expressivo.

Amazônia. Terra de migrante. Terra de peão de trecho. Em Uruará, no oeste no Pará, uma escola faz referência ao fenômeno: Escola do Migrante. A cidade é conhecida pelo tráfico ilegal de madeira. Uma rodovia foi erguida para a missão, a Transuruará. Por aqui, até os caparanãs contam as histórias de crimes. 

A circulação de ônibus ainda não foi suspensa no estado. Por conta da crise do Covid 19, as empresas estão fazendo descontos de até 30%.  Com receio do fechamento das rodoviárias, o número de pessoas era expressivo no ônibus que fez o trecho Santarém-Marabá.  1.200km. Estima-se que somente uns 400 km com asfalto.

Antônia faz a viagem para o enterro do pai. Enfermo há mais de três anos. Ela conta que ele era bravo.  Beliscava e chutava o cuidador quando da hora do banho.

Tempo de chuva. Tempo de água grande. Na cidade de Marabá o rio Tocantins desabriga moradores em vários bairros. Mesmo os idosos do asilo São Vicente foram para abrigos precários montados com compensados.

Bairros da Liberdade, Carajás e São Félix estão entre os impactados pelas águas do Tocantins. No abrigo montado na área da Colônia de Pescadores, Z-30, na frente do Núcleo Cidade Velha, na frente da cidade, as águas expulsaram os desabrigados pela segunda vez.