terça-feira, 18 de novembro de 2025

Em tempos de COP 30, descaso do Governo brasileiro prejudica familiares de vítimas de chacina da Fazenda Princesa, ocorrida no Pará há 40 anos 17 de novembro de 2025

 Diante da demora e o descaso do governo brasileiro em punir os responsáveis pelos crimes, a CPT, a SDDH e o CEJIL levaram o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da CIDH/OEA, que recomendou ao Estado Brasileiro a reparar integralmente as violações de direitos humanos ocorridas e indenizar os familiares das vítimas pelos danos suportados, sob o risco de uma nova condenação do Brasil, que já acumula outras sentenças condenatórias sobre violência no campo, como no caso Gabriel Sales Pimenta.

Somente em abril de 2025, o fazendeiro foi preso pela Polícia Federal após ser encontrado em São Paulo, utilizando um nome falso. Contudo, ainda restam incertezas desta indenização para as famílias, especialmente as viúvas, algumas delas com mais de 80 anos: há cerca de um mês, o governo federal tentou voltar atrás e negociar um acordo que já estava encaminhado, desrespeitando a dor e prolongando um sofrimento que já dura quatro décadas. Leia a íntegra da nota no site da CPT

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

COP 30: Sindicato dos Químicos de Barcarena/PA realizam seminário em sua sede

 A  COP 30 e a Cúpula dos Povos trazem à tona a urgência do tema sobre a crise climática e das medidas de enfrentamento ao aquecimento global. 


Visando contribuir com esse  debate o Sindicato dos Químicos de Barcarena realiza mais um importante seminário para tratar de um tema decisivo para o presente e o futuro: a transição energética justa na perspectiva do fortalecimento da ação sindical e da negociação coletiva.  O evento ocorre no dia 19, a partir das  8h30, na sede do SINDQUIMICOS, localizada na  Av. Dom Rômulo Coelho, Qd.377 Lt. 32 e 33 - Vila dos Cabanos. 

Em um momento em que mudanças tecnológicas e ambientais transformam profundamente a indústria, é fundamental garantir que não fiquemos de fora deste debate. 

Durante o Seminário, vamos discutir como a mineração e a química podem avançar rumo a modelos mais sustentáveis, assegurando direitos, proteção social, segurança no trabalho e participação efetiva dos trabalhadores nas decisões. A transição só será justa se incluir quem move a produção todos os dias. O futuro da energia começa agora — e precisa ser construído com justiça, democracia e trabalho digno.

Por conta de inúmeros problemas ambientais provocados pelas megas corporações que operam no município, a cidade já teve a alcunha de Cubatão. Nos dias recentes, por conta da continuação dos problemas, o município foi rebatizado de Chernobyl. 

Por  ironia, entre os patrocinadores da COP consta a  Nork Hydro. A empresa norueguesa controla as plantas da cadeia de alumínio em Barcarena.  As indústrias colecionam problemas ambientais na cidade. 

Enviado pelo Sindicato dos Químicos de Barcarena 


Movimentos sociais prestam solidariedade ao professor Rogerio Almeida por conta de perseguição judicial

 Mais de 30 instituições assinam manifesto em solidariedade ao professor da UFOPA, Rogerio Almeida, por conta de perseguição judicial

Os movimentos sociais, organizações, pastorais e instituições abaixo repudiam e prestam solidariedade irrestrita ao Prof. Dr. Rogerio Almeida, docente vinculado ao curso de Gestão Pública da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), frente ao processo de criminalização que vem sofrendo em decorrência direta de seu trabalho acadêmico, científico e de extensão na região do Maicá e Ituqui.

 

Desde o começo do mês de outubro o professor é alvo de duas ações judiciais, uma civil por danos morais, e outra criminal (queixa-crime) que lhe imputa o crime de calúnia. Ambas são movidas por representantes da Empresa Brasileira de Portos de Santarém (Embraps), responsável pelo projeto de implantação de um complexo portuário na região do Lago do Maicá, município de Santarém, no Oeste do Pará.

 

Os movimentos sociais e organizações aqui subscritas compreendem que as ações possuem como horizonte a intimidação e a tentativa de silenciamento do pensamento crítico frente aos processos de avanço do grande capital no Baixo Amazonas, que ao longo dos anos, desde a experiência da Ford em Aveiro e Belterra, promovem ganhos à seus defensores deixando um passivo ambiental e social ao conjunto das populações tradicionais. 

 

A motivação dos processos é um artigo em que o professor aborda de forma crítica os processos políticos, econômicos e sociais sobre as disputas territoriais no Lago do Maicá, publicado no fim do ano passado, na revista científica “Estudos, Sociedade e Agricultura”, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).   

 

Amparado em documentos e farta bibliografia, o trabalho reflete sobre as inconsistências nos relatórios de impacto ambiental e à indiferença aos direitos de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas, conforme previsto na Convenção nº 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário. Tais achados, longe de constituírem ofensa, representam o exercício legítimo da crítica científica, indispensável à função social da universidade pública e um franco alinhamento com os sujeitos historicamente colocados em condições de subalternização. 

 

Neste delicado momento de ataque às universidades e à democracia, reiteradas iniciativas em criminalizar os movimentos sociais, precarização das instituições públicas, é mister a garantia de análises críticas sobre o conjunto de grandes projetos agendados para o Baixo Amazonas. Projetos estes que colocam em xeque a reprodução política, econômica, social e cultural dos povos e populações tradicionais do Baixo Amazonas.

 

O ataque ao trabalho do professor Rogerio Almeida, que ao longo de quase 30 anos como comunicador, colaborador de movimentos sociais e instituições de assessoria sindical e popular e pesquisador, às vésperas da COP 30, reencarna o carcomido autoritarismo da casa grande, merecendo nosso mais absoluto repúdio.

 

Seguiremos firmes na luta por justiça, liberdade de pensamento e dignidade para nosso companheiro Rogério Almeida, e repudiamos veementemente qualquer tentativa de silenciamento, coerção ou intimidação de pesquisadores e pesquisadoras que cuidam de vocalizar as esperanças de segmentos que almejam a construção de um mundo melhor para as futuras gerações, pautado pela solidariedade e partilha do bem comum.

 

Município de Santarém-PA 09 de outubro de 2025.

 

Assinam esta nota:

1.     Frente de Defesa do Maicá/Ituqui

2.     Coletivo Maparajuba

3.     Movimento Tapajós Vivo

4.     Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras -CPP

5.     Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Santarém

6.     Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Santarém

7.     Movimento pela Soberania Popular na Mineração – MAM

8.     Conselho Indígena Tapajós/Arapinus – Cita

9.     Associação de Moradores do Bairro Pérola do Maicá - AMBAPEM

10.  Rede de Notícias da Amazônia – RNA

11.  Associação de mulheres da agroecologia do Tapajós- Coletivo Muvuca

12.  Comissão Pastoral da Terra - CPT

13.  Movimentos dos Pescadores e Pescadoras Artesanais – MPP

14.  Fase

15.  Pastorais Socioambientais da Arquidiocese de Santarém

16.  Conselho Munduruku e Apiaka do Planalto Santareno

17.  Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares no Pará – Renap/PA

18.  Comissão Pastoral da Terra/ Marabá – CPT/Marabá

19.  Najup Cabano

20.  Movimento dos Atingidos por Barragem – MAB

21.  Movimento dos Sem Terra – MST

22.  – Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos – SDDH

23.  Terra de Direitos – TDD

24.  Laboratório Terras, Paisagens, Imagens e Histórias - TEPAHI

25.  Co-Laboratório de Antropologia Rural e da Resistência (Co-LaRR)

26.  Sintepp Santarém

27.  Brigada Guardiões kumaruara

28.  Grupo de Estudos de Ecologia Histórica e Política nas Bacias do Trombetas, Tapajós e Xingu (GEHHeP)/UFOPA

29.  Associação de defesa dos Direitos Humanos e Meio Ambiente na Amazônia - ADHMA

30.  Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Santarém – STTR

31.  Instituto Zé e Maria

32.  Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepaps)

 

Sindicato dos professores/as da Ufopa manifesta repúdio e presta solidariedade ao professor Rogerio Almeida

O professor foi notificado no mês passado com duas ações judiciais por conta científico publicado em dezembro de 2024. O trabalho reflete sobre as disputas territoriais na cidade de Santarém entre um proheto portuário e comunidades tradicionais 

O SINDUFOPA vem a público repudiar e prestar sua solidariedade irrestrita ao nosso colega e sindicalizado Prof. Dr. Rogério Almeida, docente vinculado ao curso de Gestão Pública da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), frente ao processo de criminalização que vem sofrendo em decorrência direta de seu trabalho acadêmico, científico e de extensão.

Desde o dia..., o nobre colega é alvo de duas ações judiciais, uma por danos morais e outra criminal (queixa-crime), que lhe imputa o crime de calúnia. Ambas são movidas por representantes da Empresa Brasileira de Portos de Santarém (Embraps), responsável pelo projeto de implantação de um complexo portuário na região do Lago do Maicá, município de Santarém, no Oeste do Pará.

O SINDUFOPA compreende que ações judiciais em decorrência de conteúdos de pesquisas, artigos e trabalhos científicos configuram uma tentativa de cercear a liberdade de cátedra, o livre pensamento e a liberdade de expressão, pilares constitucionais do Estado Democrático de Direito. Trata-se de um ato intimidatório que fere frontalmente o princípio da livre produção e difusão do conhecimento científico, previsto na Constituição Federal (art. 206, incisos II e III), na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) e nas normas da autonomia universitária (art. 207 da CF/88).

Cumpre destacar que o trabalho do Prof. Rogério Almeida, publicado na revista Estudos Sociedade e Agricultura (v. 32, n. 2, 2024), intitulado “Acumulação primitiva no Baixo Amazonas/PA: as disputas territoriais em torno do lago do Maicá e o Complexo Portuário da Embraps em Santarém – PA”, constitui uma pesquisa de reconhecida seriedade e relevância científica. O estudo adota uma abordagem teórica rigorosa de base marxista, sustentada em autores clássicos e contemporâneos como Karl Marx (2018), David Harvey (2009), Ariovaldo Umbelino de Oliveira (1994), Octavio Ianni (1978) e Milton Santos (2013), e apresenta um exame crítico fundamentado em fontes primárias, documentais e empíricas sobre a territorialização do capital na Amazônia.

A avaliação técnica da pesquisa evidencia que se trata de um trabalho de alta qualidade acadêmica, com metodologia consistente, análise interdisciplinar e compromisso ético com os direitos humanos e ambientais. O estudo identifica inconsistências nos relatórios de impacto ambiental, manipulações em processos de licenciamento e violação de direitos de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas, conforme previsto na Convenção nº 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário. Tais achados, longe de constituírem ofensa, representam o exercício legítimo da crítica científica, indispensável à função social da universidade pública.

Reiteramos que a liberdade acadêmica protege o pesquisador no desempenho de sua função crítica, investigativa e formativa, especialmente quando sua produção questiona interesses econômicos que impactam direitos coletivos, o meio ambiente e o patrimônio público. Criminalizar um docente por suas conclusões ou por sua atuação intelectual é criminalizar a própria universidade pública, sua autonomia e sua missão constitucional.

O SINDUFOPA, portanto, reafirma seu apoio integral ao Professor Rogério Almeida e repudia veementemente qualquer tentativa de silenciamento, coerção ou intimidação de docentes, pesquisadores e pesquisadoras da UFOPA. Tal episódio reforça a urgência de defesa intransigente da ciência crítica, da liberdade de cátedra e da autonomia universitária, princípios essenciais à construção de uma sociedade democrática e socialmente justa.

Reiteramos nosso apreço, solidariedade e respeito ao Professor Rogério Almeida, cuja trajetória intelectual se alicerça no compromisso com a verdade científica, a defesa dos territórios amazônicos e a denúncia das desigualdades produzidas por modelos de desenvolvimento excludentes. O SINDUFOPA permanece vigilante e atuante na defesa de seus sindicalizados e sindicalizadas, buscando providências jurídicas e institucionais para restabelecer e reparar o grave ataque à liberdade acadêmica e à integridade do trabalho científico.

Seguiremos firmes na luta por justiça, autonomia e dignidade para nosso companheiro Rogério Almeida, e para todas e todos que fazem da Universidade Pública um espaço de crítica, resistência e emancipação.

ICS/Ufopa se solidariza com o professor Rogerio Almeida

O professor vem sendo alvo de ações judiciais por conta de artigo acadêmico que reflete sobre grandes projetos 


O Instituto de Ciências da Sociedade da Universidade Federal do Oeste do Pará (ICS/UFOPA) manifesta seu mais veemente repúdio a qualquer forma de intimidação, criminalização ou tentativa de silenciamento das atividades de pesquisa, ensino e extensão que abordam os conflitos ambientais e territoriais na região Oeste do Pará. A liberdade acadêmica é um pilar fundamental da democracia e da produção científica comprometida com os direitos sociais, ambientais e territoriais das populações amazônicas. A atuação crítica e comprometida dos pesquisadores não pode ser cerceada por interesses econômicos ou políticos que se sobreponham ao bem comum.

Neste sentido, o ICS/UFOPA se solidariza com o Professor Dr. Rogério Almeida, docente do curso de Gestão Pública, que vem sendo alvo de ações judiciais em decorrência de sua atuação acadêmica e extensionista junto às comunidades das regiões do Maicá e Ituqui. Reafirmamos nosso apoio à sua trajetória e à sua contribuição para o debate público sobre os impactos socioambientais dos projetos de expansão portuária em Santarém. Defender o direito à crítica e à pesquisa é defender a universidade pública, plural e comprometida com a justiça social e ambiental.


Secretaria da Direção do ICS - Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, Unidade Tapajós - Campus Santarém - Sala 316-A, Bloco BMT 1, Fone (93) 2101-4987

Memória de Santarém: Lúcio Flávio Pinto lança livro sobre memória de sua cidade natal

Repercuto aqui entrevista realizada por Elias Pinto, publica no Diário do Pará, do dia 15 de novembro, com a devida autorização do autor.  O livro terá lançamento em Belém, no dia 18

“Havia 40 pianos em Santarém numa época remota. Tinha-se a pretensão de ser uma civilização diferente, uma cultura próxima do litoral. Imagina se em Belém uma moça saísse de shortinho na década de 1960, 70... Em Santarém era normal”


“É UMA EDIÇÃO À ALTURA DA HISTÓRIA DE SANTARÉM”
Lúcio Flávio Pinto deixou Santarém, sua terra natal, aos cinco anos de idade. Mas Santarém e sua história jamais deixaram de lhe habitar as lembranças, o faro jornalístico, a memória. Que ele agora compartilha com o leitor nas 900 páginas da reedição ampliada de Memória de Santarém. O livro, através de um conjunto de dados e análises, ao iluminar o passado santareno, revela-o como “ferramenta para se posicionar hoje e amanhã”. Lúcio observa, na apresentação do volume (e que volume!), que “esse conjunto de informações, extraídas de jornais e outras fontes cotidianas, mostra que esta terra tem história e tem inteligência”.
O livro, que teve Miguel Nogueira de Oliveira e Nicodemos Sena, diretor da Editora Letra Selvagem, como organizadores, reúne crônicas e artigos publicados durante 25 anos no jornal O Estado do Tapajós (já extinto) e no portal www.oestadonet.com.br.
, editado a partir de Santarém pelo jornalista Miguel Oliveira.
“Quando decidimos organizar mais essa edição, verificamos que Lúcio Flávio continuava a produzir importantes textos sobre a vida econômica, política e cultural do Baixo Amazonas, que não estavam contidos na primeira edição. Além disso, nesse hiato de 15 anos, Lúcio teve acesso a documentos inéditos que, ora confirmavam ou davam nova versão a fatos ocorridos em Santarém”, enfatiza Miguel Oliveira. “Essa edição também incorpora resultados de pesquisas acadêmicas, por exemplo, sobre o período escravocrata em Santarém, com base em registros da Justiça. Há também a transcrição de mensagens radiofônicas destinadas a familiares de pessoas que moravam ou trabalhavam em lugares distantes no vale do rio Tapajós.”
Memória de Santarém será lançado em Belém na próxima terça-feira, às 18h, no auditório do Ministério Público Federal, na Domingos Marreiros. E em dezembro em Santarém.
Na entrevista a seguir, Lúcio Flávio Pinto, 76 anos, fala sobre o método na elaboração do livro, que reflete seu próprio trabalho jornalístico, em busca da verdade, do fato, que desenvolveu ao longo de seis décadas de profissão e o fez ser reconhecido como o mais importante jornalista da Amazônia, premiado não só no Brasil, mas também no exterior. Entre outras distinções, foi considerado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, como um dos mais importantes jornalistas do mundo, o único selecionado no Brasil para essa honraria.
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“A minha formação passa pelo método de pensar, que é rigoroso. Jornalismo é sentir o pulso da notícia, da informação”
P Esta é a segunda edição de Memória de Santarém, certo?
R Sim. Os artigos saíram durante um longo tempo como encarte no jornal O Estado do Tapajós, e foram reunidos, na primeira edição, em um álbum, mas com letras pequenas. Esta agora é uma nova edição, modificada, corrigida e ampliada, que resultaram em 900 páginas.
P Tudo que está no livro saiu antes no jornal?
R A parte noticiosa foi toda retirada de jornais de Santarém. A outra parte, sobre narrativa de viajantes, foi retirada de livros dos viajantes que percorreram o Baixo Amazonas.
P O que Memória de Santarém se aproxima e difere de outro grande livro sobre Santarém, o Tupaiulândia, de Paulo Rodrigues dos Santos?
R O Paulo Rodrigues dos Santos não fez uma história sistemática. Nem eu fiz também. Há passagens muito interessantes em Tupaiulândia: ele conversou com uma senhora em Santarém, de mais de 100 anos de idade, que foi amante de vários cabanos. O livro dele é uma espécie de antologia, reunião das crônicas que ele escreveu, muitas sob pseudônimos, como era costume na época, principalmente quando o assunto era mais picaresco. Inclusive, em 1971, publiquei duas páginas em A Província do Pará sobre esse livro que ele estava escrevendo. O governador Fernando Guilhon soube e mandou editar, muito mal editado, por sinal.
P Pela Imprensa Oficial do Estado.
R Sim. E depois o Cristovam Sena reeditou, com qualidade, pelo ICBS, o Instituto Cultural Boanerges Sena. Paulo Rodrigues foi o historiador da cidade. Ele publicava em O Jornal de Santarém. Há também uma história sobre Santarém do Arthur Cezar Ferreira Reis, mas que é muito fraca.
P O Rodrigues dos Santos não tinha formação como historiador...
R Não. E também não precisava ter formação como jornalista para escrever. Aliás, ele escrevia muito bem, ainda que de modo arcaico. Era poeta... Um beletrista.
P Agora, em Memória de Santarém, já temos o jornalista reunindo informações.
R Como jornalista eu não publico aquilo que não tenho como fundamentar. Não me baseio na memória livre, solta, mas em documentos que consegui reunir em jornais da época.
P Como conseguiste reunir esses jornais mais antigos de Santarém?
R Alguns eu próprio arranjei e também recebi de uma amiga uma coleção quase completa de O Jornal de Santarém. Mas às vezes eram fontes que não serviam, por trazerem poucas informações, ter muitos adjetivos. Tinha-se que ler vários exemplares para aproveitar alguma coisa. Consegui também documentos oficiais.
P Pesquisaste ainda em que outras fontes?
R Muitas informações tirei dos jornais de Belém. E também de inquéritos sobre o caso traumático da cassação do prefeito Elias Pinto: utilizei documentos que ainda não tinham sido acessados. Saiu também outro livro só sobre isso.
P A Tragédia de Santarém. A propósito, ao longo da publicação dos teus artigos no jornal O Estado de Tapajós, prosseguiste com a coleta de dados, de pesquisa, ou já estava tudo previamente reunido?
R Já havia muita coisa quando comecei, mas aumentou muito durante o curso do trabalho. Posso dizer que não se tinha, antes deste livro que está sendo lançado em segunda edição, uma fonte segura de informações. Agora se tem, já que a anterior estava esgotada. E mesmo quem tem a primeira edição vai querer ter a nova, que ficou muito melhor. É uma edição à altura da história de Santarém. E do Baixo Amazonas.
P Bem, não és também historiador...
R Mas lembra que sou sociólogo.
P Sim, claro. Ia dizer que são poucas as cidades brasileiras, inclusive capitais, que dispõem de um livro como este Memória de Santarém. Principalmente se pensarmos nos municípios paraenses, tão carentes de memória.
R Temos em Vigia, Bragança, Alenquer, mas não é uma história sistemática. Nem a minha é. É uma história episódica. No caso de 1968 – da cassação do prefeito Elias Pinto, do MDB, afastado nove meses depois da posse pela Câmara Municipal, que tinha ampla maioria de vereadores da Arena, e da repressão violenta aos manifestantes de apoio ao prefeito, que resultou em três mortos e outros tantos feridos –, eu aprofundo bastante. De qualquer maneira, como este livro sobre Santarém, acredito não ter nenhum, com seu grau de aprofundamento. Memória de Santarém passa a ser obra de referência.
P Memória de Santarém é um legado ao lugar em que nasceste. Mas também tens o Memória do Cotidiano, em vários volumes, sobre Belém.
R Sim, saíram 12 volumes
P E estes 12, reunidos, dariam um volume considerável.
R Ah, sim. Mais que o de Santarém.
P Como situas Santarém e Belém em tua vida, digamos, afetiva.
R Vim para Belém com cinco anos. Então minha formação se deu aqui, mas nunca deixei de acompanhar Santarém, ainda que esteja há muito tempo sem voltar lá. Mas escrevi muito sobre Santarém. A primeira palestra que fiz na minha vida foi em Santarém, em 1966. Não havia muita informação sobre Santarém, que está tendo agora, mais acadêmica, com a Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará). Não fiz ciência, história etc. Fiz jornalismo, mas de rigor. A minha geração foi a que começou a entrar para a universidade. Na geração anterior ninguém queria ter formação acadêmica, entrar para a universidade. Era considerada a capacidade de escrever, de observar. A nossa geração percebeu que precisava ter uma formação acadêmica. E a minha é o método de pensar, que é rigoroso, e dele não abro mão. Tanto que uma das minhas características é que não se consegue desmentir o que publico, pois são fatos verificados. E contra fato não há argumento. Foi isso que fiz em relação a Santarém. Cada vez que ia de férias, trazia coisas para escrever sobre o município.
P Isso norteia o teu jornalismo, a comprovação do fato, o uso da documentação. Mas no caso de Memória de Santarém usaste como fonte o que foi publicado em jornal. Isso garante a informação?
R Olha, sempre fiz jornalismo, e para mim, em essência, ele é investigativo. Dizer jornalismo investigativo é pleonasmo. Quando fui escrever um artigo sobre Filipe Patroni, para uma seção que havia na Província, de retrospectiva, era o irmão do Dalcídio Jurandir que fazia, mas ele ficou doente e assumi o lugar durante um tempo. Foi quando descobri, aos 17 anos, o Patroni, mas sob outra ótica. Ele não era o doido, como se dizia. Ele teve problema mental no fim da vida, mas foi até advogado do imperador. Não é porque sai no jornal que você incorpora tudo. Sei fazer a diferença entre matéria boa e ruim, e esta, a ruim, não pode servir de referência.
P Durante tua trajetória jornalística já te queixaste de que a academia, à qual não deixas de pertencer como sociólogo, algumas vezes se utiliza como referência do jornalismo na linha de frente, apurado no calor da hora, mas sem citar esse uso na bibliografia, como se assim procedendo desmerecesse o rigor da pesquisa. No caso de Memória de Santarém, o que foi reproduzido de jornais, te preocupa a apuração, a checagem?
R Preciso checar. Não vou transmitir uma coisa errada. Neste caso, não uso ou vou aprofundar. Cabe nesse tipo de jornalismo o I-Juca Pirama, do Gonçalves Dias: meninos, eu vi. Nas minhas matérias, para vários lugares, só eu ia. Nas cheias do Baixo Amazonas, ia de voadeira testemunhar, reportar a realidade, às vezes com o Manoel Dutra. Por exemplo, ninguém fazia matéria sobre o ceifador de juta, o juteiro, que trabalhava sob condições terríveis, da metade do corpo para cima sob o sol, metade para baixo na água, duas temperaturas diferentes. Era um trabalho medieval em pleno século XX. Jornalismo é isso, sentir o pulso da notícia, da informação.
P Sei que a colônia santarena é grande em Belém, mas, em particular, como o leitor belenense, já que o livro será lançado primeiro aqui, deve receber o Memória de Santarém? O que representou Santarém para a capital, que já foi a segunda cidade do Pará, e o que representa hoje?
R Belém nunca admitiu que Santarém tivesse autonomia, isso criou um ressentimento, uma frustração na população local. Havia condições de Santarém ser capital do estado do Baixo Amazonas, do Tapajós, do Oeste. Tem uma cultura. Havia 40 pianos em Santarém numa época remota. Havia a pretensão de ser uma civilização diferente, um modo de vida litorâneo, porque tem a praia, as pessoas saíam de short. É uma cultura mais próxima do litoral, a praia na frente da cidade, como no Rio de Janeiro. Imagina se em Belém uma moça saísse de shortinho na década de 1960, 70... Em Santarém era normal.
P E como o santareno deve receber a sua memória?
R Deve receber com boa vontade, mas também cobrar se é bom ou não, o que está certo ou errado.
P E as novas gerações?
R Em geral, as pessoas não estão preocupadas com a história de Santarém. Há uma penetração muito grande de imigrantes.
P Que havia já com os arigós.
R É, mas os arigós cultivaram uma identidade. Atualmente, com a soja, e essa penetração, não se tem mais uma visão histórica, o que foi Santarém. Comparar Santarém com Parauapebas, Canaã dos Carajás, Marabá, o padrão de vida dessas cidades, em função de Carajás, é muito maior que em relação a Santarém. E vale a pena se aprofundar nessa história. A população que nasceu em Santarém vai poder conhecer muitas pessoas importantes, citadas no livro, e que já não se tem mais referência sobre elas.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Assassinatos e impunidade no campo do Pará: 1980-2024: obra será lançada no dia 20, em Belém, na Casa COP do Povo

A obra recupera 45 anos de violação de direitos humanos na luta pela terra e pelo território no Pará, considerado o estado mais letal do País

 

Antônia Ferreira dos Santos e Marly Viana Barroso quebradeiras de coco babaçu no município de Novo Repartimento, no sudeste paraense, foram brutalmente assassinadas no dia 03 de novembro. No dia 07, às vésperas da abertura oficial da COP 30, o lavrador Sebastião Orivaldo da Fonseca Lopes foi executado no município de Ipixuna do Pará.  O agricultor do projeto de assentamento Campo de Boi vinha sendo ameaçado de morte.

As jornadas desenvolvimentistas impostas para a Amazônia engendraram e naturalizaram as violências como um componente inerente ao processo de expansão do capital sobre a fronteira amazônica. Nesta geografia de expropriações, mortes, chacinas e trabalho escravo, o estado do Pará possui destaque. 

O número de pessoas na mira na bala é incerto. Todavia, somente do Projeto Agroextrativista Lago Grande, na cidade de Santarém, conta-se 20 pessoas, adverte o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) do município. Na lista, constam os nomes da presidente e do vice do STTR, Ivete Bastos e Edilson Figueira, respectivamente.

É justo sobre este drama que a obra Assassinatos e impunidade no campo no Pará: 1980-2024 lança luzes. O livro é assinado pelo advogado José Batista Afonso e o historiador e professor da Universidade do Estado do Pará (UEPA), campus de Marabá, Airton dos Reis Pereira.

O livro tem a colaboração de especialistas e representações dos movimentos sociais ligados à luta pela terra, a exemplo do padre e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Ricardo Rezende, do professor da UFPA, Girolamo Treccani, de Luzia Canuto, do Comitê Rio Maria e de Ayala Ferreira (MST/PA).

O lançamento da obra que registra 45 anos de violência no campo ocorre no dia 20, a partir das 10h, na Casa COP do Povo, na Travessa da Piedade, nº 426, Reduto/Centro, em Belém. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Instituo Zé Cláudio e Maria (IZM) são os responsáveis pelo evento.

Sobre o livro – resultado da vivência e registros da CPT, os quais constam nos arquivos em Belém, Xinguara, Marabá e Goiânia. Em suas 800 páginas a obra recupera a morte de anônimos, chacinas e massacres no Pará ao longo de 45 anos. Ao todo, o livro trata de 1.003 assassinatos. O ponto de partida dos casos relatados deu-se com a execução do dirigente sindical e agente da CPT, Raimundo Ferreira Lima, conhecido como “Gringo”, ocorrido no ano de 1980.

Quatro capítulos conferem corpo à obra, que saiu pela editora Dialética/SP. O primeiro trata de casos de camponeses, indígenas e garimpeiros. O segundo trata dos casos das lideranças assassinadas. Enquanto o terceiro aborda chacinas e massacres, o derradeiro sublinha execução de peões mortos em conflitos trabalhistas e em condições análogas à escravidão.

Sobre o mesmo tema, os autores e movimentos sociais do Pará lançaram em 2022, o Luta pela terra na Amazônia: mortos na luta pela terra! Vivos na luta pela terra!, igualmente volumoso. 

Sobre os autores

Airton Pereira e José Batista são migrantes que aportaram pelas barrancas do Araguaia em Conceição do Araguaia no século passado. Foram forjados como pessoas e como profissionais sobre os auspícios da parcela progressista da Igreja Católica.  Nestas lonjuras, o advogado de posseiros e de sem-terra, frei Henri des Roziers serviu de farol. O francês foi um destacado defensor de direitos humanos no Pará.

Pereira, natural do estado de Goiás, chegou a fazer parte do quadro da Comissão da Terra nas dioceses de Conceição Araguaia e Marabá. Em seguida tornou-se professor da UEPA. Suas pesquisas retratam as disputas pela terra no sul e sudeste do Pará. Regiões consideradas as mais letais do país. O professor é autor de inúmeros artigos e livros sobre o assunto. A tese de doutoramento de Pereira, apresentada na Universidade Federal de Pernambuco, foi finalista do Prêmio Nacional da CAPES. 

José Batista Afonso é advogado da CPT em Marabá. Já fez parte da direção da instituição.  Possui mestrado em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia pela Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará).  Milita na região há mais de 30 anos. Entre os inúmeros processos em que participou, consta o conturbado processo do Massacre de Eldorado do Carajás, que ano que vem soma 30 anos.

 

Serviço:

Assassinatos e impunidade no campo do Pará: 1980-2024

Editora Dialética

800 páginas

Preço: 169,90

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Thiago Martins, artista visual de Marabá, ministra oficina sobre técnicas de lambe e stencil

 Entre jovens, adultos e idosos, 20 pessoas participaram



A intervenção denominada de Retratos da Terra, do artista visual, professor e técnico da Unifesspa   Thiago Martins foi um dos projetos selecionados no Edital Aldir Blanc, de Marabá.

Pelo menos 20 pessoas entre jovens, adultos e idosos, 20 pessoas participaram do diálogo, ocorrido na Comuna Cepaps, no fim de outubro. A oficina que tratou sobre as técnicas de lambe e stencil.



A oficina contou com um público diverso, tanto com relação à idade dos participantes, quanto procedência, onde constam pessoas do campo e da cidade, entre camponeses,  estudantes, professores e trabalhadores urbanos.

A atividade que  durou um dia, além de apresentar as técnicas, refletiu sobre os cenários do sudeste paraense, cotejando reflexões sobre a questão agrária, a mineração e seus impactos, em particular os provocados pela mineradora Vale.



Além das produções individuais, uma obra coletiva homenageou o dirigente camponês maranhense Manoel da Conceição. Uma referência nacional pela reforma agrária, educação e o meio ambiente.

sábado, 25 de outubro de 2025

Ameaçado de morte, Darlon Neres, jovem do PAE Lago Grande, vence Prêmio Nacional por defender a floresta




Na noite do dia 23, em São Paulo, Darlon Neres foi escolhido como destaque de jovem ativista do bioma Amazônia, no Prêmio Quem faz a esperança florescer, organizado pela plataforma Chico Vive.  Por conta de sua militância, ele tem sido perseguido por um grupo de madeireiros.  

Em setembro de 2023 o grupo de madeireiros foi à casa da família do jovem ambientalista para intimidá-lo.  Os idosos ficaram temerosos pela integridade do universitário.

Para os defensores do meio ambientes nestas paragens, sobreviver sob ameaças tem sido uma constante. Em março do mesmo ano, desta feita na região de Arapiuns, um pastor ameaçou de morte várias lideranças parelhadas na defesa do meio ambiente, reforma agrária e direitos humanos.

Neres faz parte de uma lista de 20 pessoas ameaçadas de morte no PAE Lago Grande, no município de Santarém, oeste do Pará.  

Pessoas ameaças de morte no PAE (Projeto de Assentamento Agroextrativista) Lago Grande, Santarém/PA.

 

Nome

Comunidade

01

Osvaldo Lima da Silveira

Retiro

02

Diego  do Rosário e Silva

Retiro

03

Ronald  Soares da Silva

Retiro

04

Alexandre Daniel do Rosário

Bom Jardim

05

Valdinho Nogueira

Bom Jardim

06

Janete Maria Branco

Terra Preta dos Viana

07

Darlon Neres

Cabeceira do Marco

08

Rosenilce dos Santos Vitor

Maranhão

09

Edilson Silveira Figueira

Maranhão

10

Raimunda L. da Costa Nunes

Igarapé Açu

11

Ricardo dos Santos Aires

Membeca

12

Ivete Bastos dos Santos

Dourado

13

Antônio Oliveira de Andrade

Aninduba/Bom Futuro

14

 

Siandre da Silva Batista

Vila Curuai

15

Darleilson de Sousa Mota

São José II

16

Osmarc dos Santos Sousa

Vila Gorete

17

Luziete da Silva Correa

Coroca

18

Sandrielem Correa Vieira

Coroca

19

Gildson Santos Braga

Coroca

20

Eliana da Silva Batista

Nazário

Fonte: Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais de Santarém/PA, outubro de 2025

Empresas mineradoras, grileiros, exploradores ilegais de madeira, facções criminosas, políticos e mesmo gente da própria comunidade constam como os ameaçadores.