sábado, 25 de outubro de 2025

Ameaçado de morte, Darlon Neres, jovem do PAE Lago Grande, vence Prêmio Nacional por defender a floresta




Na noite do dia 23, em São Paulo, Darlon Neres foi escolhido como destaque de jovem ativista do bioma Amazônia, no Prêmio Quem faz a esperança florescer, organizado pela plataforma Chico Vive.  Por conta de sua militância, ele tem sido perseguido por um grupo de madeireiros.  

Em setembro de 2023 o grupo de madeireiros foi à casa da família do jovem ambientalista para intimidá-lo.  Os idosos ficaram temerosos pela integridade do universitário.

Para os defensores do meio ambientes nestas paragens, sobreviver sob ameaças tem sido uma constante. Em março do mesmo ano, desta feita na região de Arapiuns, um pastor ameaçou de morte várias lideranças parelhadas na defesa do meio ambiente, reforma agrária e direitos humanos.

Neres faz parte de uma lista de 20 pessoas ameaçadas de morte no PAE Lago Grande, no município de Santarém, oeste do Pará.  

Pessoas ameaças de morte no PAE (Projeto de Assentamento Agroextrativista) Lago Grande, Santarém/PA.

 

Nome

Comunidade

01

Osvaldo Lima da Silveira

Retiro

02

Diego  do Rosário e Silva

Retiro

03

Ronald  Soares da Silva

Retiro

04

Alexandre Daniel do Rosário

Bom Jardim

05

Valdinho Nogueira

Bom Jardim

06

Janete Maria Branco

Terra Preta dos Viana

07

Darlon Neres

Cabeceira do Marco

08

Rosenilce dos Santos Vitor

Maranhão

09

Edilson Silveira Figueira

Maranhão

10

Raimunda L. da Costa Nunes

Igarapé Açu

11

Ricardo dos Santos Aires

Membeca

12

Ivete Bastos dos Santos

Dourado

13

Antônio Oliveira de Andrade

Aninduba/Bom Futuro

14

 

Siandre da Silva Batista

Vila Curuai

15

Darleilson de Sousa Mota

São José II

16

Osmarc dos Santos Sousa

Vila Gorete

17

Luziete da Silva Correa

Coroca

18

Sandrielem Correa Vieira

Coroca

19

Gildson Santos Braga

Coroca

20

Eliana da Silva Batista

Nazário

Fonte: Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais de Santarém/PA, outubro de 2025

Empresas mineradoras, grileiros, exploradores ilegais de madeira, facções criminosas, políticos e mesmo gente da própria comunidade constam como os ameaçadores.


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

COP 30: Charles Trocate, ativista do Movimento pela Soberania na Mineração analisa as consequências da crise ambiental e as firulas da Conferência.

 

 

Charles Trocate, coordenação nacional do MAM. Foto: redes sociais

Poeta, filósofo e doutor Notório Saber em Geografia Humana pela Universidade Federal da Bahia, (UFBA), professor visitante no Instituto de Geociências, e da Direção Nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração-MAM, Charles Trocate traça nesta entrevista um rápido panorama dos nossos impasses sobre crise climática e a dívida ecológica. Neste dedo de prosa, Trocate mobiliza elementos para uma crítica da razão capitalista, que separou indivíduo e da natureza. Nesta direção, contabiliza a origem da nossa crise de desenvolvimento pela abundância de natureza dos anos de 1990 para cá. E, por fim, discorre sobre o problema mineral brasileiro, de como ele está incontrolável em relação à economia, a natureza e a sociedade. Alerta que é urgente a organização de uma Conferência Nacional sobre o modelo mineral brasileiro.

 

Blog Furo: Charles Trocate, qual o panorama da crise ecológica e os rebatimentos na sociedade Brasileira?

 

Charles Trocate: Veja, o estado do capital é global, a esta altura não há lugar no mundo em que ele não condicione de algum modo as relações sociais. E ele é global exatamente pela desordem que ele provoca. O espírito do capitalismo é a desordem e aniquilamento. Esse diagnóstico já sabemos. No entanto, e este dado não é novo, é para onde vamos? Tenho dito e acredito dessa forma que se humanamente nós chegamos até aqui, que socialmente produzimos este individuo, ou se quisermos especificar, este homem burguês, cheio de penduricalhos privados, este comportamento social, que podemos denominar de civilização do consumo, baseadas na propaganda e no credito, só humanamente sairemos destes condicionamentos orquestrados pelo regime de poder. A ordem das questões é como sair do labirinto, como acumular força para tal?

 

Mas pelo menos três questões devemos levar em conta.  Ao invés de analisar que há uma crise política, ecológica, econômica e social, deveríamos rapidamente situá-la em sua totalidade. A crise é da razão capitalista razão que sistematicamente separou indivíduo e natureza pela rolagem perpétua do capital, esta fórmula social, de extração, transformação e consumo. Criação de novas necessidades e de novo a rolagem se externaliza, ou se muda por completo, ou se é aniquilado. Não se pode controlar as partes. Imaginando construir a partir disso outra sociabilidade, outro senso comum. Neste caso, para o argumento não ficar pela metade de todas as fases do capitalismo, quem mais aprofundou esta operacionalização do capital foram as fases do seu desenvolvimento monopolista e imperialista, tendo os EUA desempenhado papel fundamental nesta última. Mas hoje a tônica dos EUA é a antiglobalização, com um governo nativista e nacional chauvinista. Uma segunda questão é a de que para levar adiante essa perspectiva, o capital como produto das relações sociais maximiza as inúmeras funções do Estado, aquelas que neste momento, no nosso caso de Estado subalterno e subsoberano, objetifica a natureza, cientifica e precifica a natureza.  Nesta exata conjuntura, o Estado e a sua representação formal, governo e congresso decidem por quanto vão precificar a natureza. Neste caso os minerais necessários a expansão energética global, veja o caso da recente decisão para a extração de petróleo na foz do Amazonas.

 

Blog furo: e a terceira questão?

Charles Trocate: Sim, claro, ela diz respeito de que a inevitabilidade da razão capitalista, assim posta nos levou a esta crise sentida em todos os seus aspectos, e daí duas grandes formulações decorrem para explicá-las. Entramos no antropoceno, período geológico quando um ser humano genérico mudou a idade geológica da terra mais do que todas as forças naturais juntas, ou a que afirma que ao invés, estamos no capitaloceno, de que se há um modo de produção social que mais moldou o mundo a sua imagem e semelhança. Em face que sua forma de ser provocou rupturas e fissuras metabólicas a vida planetária este modo é o capitalismo em que o desenvolvimento das forças sociais produtivas e as revoluções tecnológicas e o descontrole delas extrapolaram o limite natural do planeta terra.  Estamos vivendo a sexta extinção em massas, nenhuma antes, foi provocada pelos humanos, esta sim.

 

Blog Furo: quais destas implicações sentimos, mais a fundo, em especial no Brasil?

Charles Trocate: Devemos recordar que aderimos ao neoliberalismo nos anos 1990 e executamos profissionalmente os seus termos, privatização do estado público, adesão ao rentismo, a implosão da natureza brasileira pelas commodities.  Isso não é pouca coisa. Isso é exatamente a linha de demarcação da crise climática e social e do colapso ambiental radicalizado que estamos vivendo. Isto tudo junto vai caracterizar melhor os impasses e eles são assombrosos. Eles derivam da taxa de lucro crescente as do capital sobre economias nacionais. No brasileiro, em forma de pagamentos de juros que imobilizam e deterioram as funções do Estado e de governos. Colapso ambiental em face do modelo econômico, gestão da crise por medidas paliativas e adesão voluntária às políticas imperialistas. Além disso parecem não ter nexos a vida boa das elites mediante o sofrimento da população.

Blog Furo: Então vamos lá, transição ou expansão energética? 

Charles Trocate: Terminamos o século vinte com o argumento de que o planeta estava esquentando e era preciso esfriá-lo. A forma para isso era combinar esforços globais. A tese, ou a vontade escolhida em comum acordo era de esfriar o planeta aos patamares dos anos de 1900, diminuir até 2050 dois graus Celsius. E, assim , descarbonizar a indústria mundial, e para isso o método escolhido foi realizar a “Conferência das Partes”, a que ocorrerá em Belém, no próximo mês será a de número 30. O ânimo para algum acordo satisfatório é baixíssimo. No entanto, como léxicos dominantes começamos a repetir dois novos conceitos políticos que nada dizem sobre a nossa sociedade, o da “emergência climática” e o da “transição energética”. Eles sustentam ideologicamente a premissa de “adaptação às mudanças climáticas” e a “mitigação dos danos”. O clima, assim como o território é uma produção social. O  uso desigual do clima é uma decisão política e isto se consolida cada vez mais no paradoxo da descarbonização, descarbonizar para que? Para o livre arbítrio da mercadoria e da financeirização? Estamos sequestrados por esta perspectiva, e devemos urgentemente sair dela, pois está posta por inúmeros organismos hegemônicos como a única saída e não será. A urgência não é interrogar o futuro, mas de saber que o passado está ficando grande demais em relação a ele. E, aqui entra o negacionismo e o nacionalismo climático como medida absoluta para nos dizer que o capitalismo é eletrointensivo no uso de energias, e que não haverá acordo algum.  Cabe a nós saber que a ordem dos fatores, para além de longas explicações, que não precisamos mudar de fontes energéticas precisamos mudar o sistema que fagocita as energias vitais da terra. O multilateralismo precisa mudar de forma para mudar de conteúdo. A prerrogativa  aqui se inclui, a delicada situação da geopolítica internacional, a vigência de novos consensos que ultrapasse as marcas nada auspiciosas do presente.  

 

Blog Furo: e neste amaranhado de coisas como fica as Amazônias?

Charles Trocate: Pois bem, acaba de ser lançado um livro e de caráter dominante sobre a “Nova Economia da Amazonia”. Ele deduz a região à economia. Os argumentos giram sob o tripé, bioeconomia, mineração inteligente e agronegócio. Isso é espantoso. A Amazônia ou as Amazônias, como preferia o professor Carlos Walter Porto Gonçalves, nesta etapa de acumulação capitalista é funcional ao sistema mundo de produção de mercadorias. Ela está encurralada por esta perspectiva e pesa o fato, de estas reverberações estarem em sintonia com os modelos hegemônicos de transição energética, na política e nos investimentos transnacionalizados. Sobretudo agora, muito se tem dito e muito se argumentará sobre o lugar da região e da floresta no equilíbrio do clima. A floresta é construção social e o resto é balela, mas, são estonteantes os dados que a modernidade da supressão lhe impõe. Há mesmo uma dívida ecológica incalculável com a  região, e que é tão pouco a ideia de chegamos ao ponto do não retorno da floresta. A Amazônia se transformou numa zona de acumulação intensiva de capital. A literatura indica que é preciso ir além, não por ser um depositório de carbono espetacular, mas o de produzir rios voadores, cuja as consequências, entre elas, a de se conectar com os demais biomas entre outras virtuoses. Neste ponto até poderia ser emblemático. Até poderia ser interessante a realização da Conferência das Partes, a COP30, na Amazonia.  Mas, as contingências do modelo tornam isso um desprestígio para a região, quando a interrogação não passou se Belém tinha ou não condições para realizar tal evento. Perdemos tempo demais neste ponto. E, eles venceram, não porque vão boicotar, seja ela pela discussão, seja na não discussão. Contudo, os adventos que levaram a decisão da COP30 ser realizada na Amazônia são os mesmos que valeram quando ela for em qualquer lugar. Não existe uma sintonia com a realidade do que podemos chamar de ruptura metabólica global!

Blog Furo: E o problema mineral brasileiro,  quais são as tarefas do Movimento pela Soberania Popular na Mineração diante da intensividade da indústria extrativa da mineração?

 

Charles Trocate: Veja, de maneira exemplificada, podemos dizer que o problema mineral brasileiro tem três características imediatas. A de ser organizado sempre de fora para dentro. Ele é estruturado na sua forma de decidir sempre de maneira antidemocrática e por consequência, seja lá onde for a decisão de implementá-lo, gerar o desenvolvimento do subdesenvolvimento.  São estas características que vão fazê-lo desde que vendemos o modelo estatal em 1997, esta incontrolável a economia, a natureza e a sociedade na sua forma e nos seus resultados. Exatamente por isso, dizemos que o problema mineral brasileiro produz afetações na economia nacional, a minério dependência nas zonas de mineração, ao mundo do trabalho da mineração e aos consumidores. Uma vez que quem consome não pode ficar ileso de como os minerais são arrancados do subsolo. De maneira geral saímos do nosso II Encontro Nacional, realizado este ano, refletindo sobre  os novos e velhos impasses dos minerais críticos, a guerra da transição energética afirmando a necessidade de debater com a sociedade a função social do subsolo.  Acrescentamos a necessidade de uma geodiversidade popular, ou seja, a garantia para fins não mineráveis de quem tem a posse do território, possa ter do subsolo também.  A nossa política permanente reside em  territórios livres de mineração, a democratização da renda mineral e o controle público do modelo mineral. E para esta conjuntura mensurar a necessidade pelas características dos debates e das proposições em relação aos minerais críticos a expansão energética o papel de uma Conferência Nacional sobre o setor de uma realidade que diz respeito a sociedade brasileira, em um dos muitos que seus resultados poderiam produzir, sobre escala e ritmo da mineração, era de um conselho ampliado para reorganizar a política mineraria nacional.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Cepasp, comuna de Marabá/PA, celebra memória dos ativistas Ademir Martins e Beta Moreira

 Cepasp existe desde os anos de 1980. Em 2024 somou 40 anos de peleja

No dia 18 de outubro tivemos a reabertura do Ponto de Cultura Comuna Cepasp e inauguração de dois novos ambientes: a Biblioteca Popular Ademir Martins e o Salão Multiuso Beta Moreira. Homenagem ao casal de companheiros fundadores do Centro de Educação, Pesquisa, Assessoria Sindical e Popular – CEPASP, organização que abriga o espaço cultural.

A reabertura contou com a presença de familiares, amigos e companheiros de luta do casal e foi marcada pelas lembranças dos primeiros encontros e amizades com os homenageados e momentos importantes da luta popular na região.

A reforma e criação de novos espaços é fruto de um projeto selecionado pelo edital EDITAL DE CHAMAMENTO PÚBLICO Nº 003/2025 - OBRAS, REFORMAS E AQUISIÇÃO DE BENS CULTURAIS, da Política Nacional Aldir Blanc -PNAB, organizado pela Secretaria de Cultura de Marabá/PA.

Cerimônia de inauguração dos espaços com familiares dos homenageados e fundadores do Cepasp


O Edital teve como objetivo selecionar espaços, ambientes e iniciativas artístico-culturais para receber subsídios destinados a obras, reformas e aquisição de bens culturais, com o intuito de fortalecer a infraestrutura cultural de Marabá/PA.

Além da reforma, o projeto contou com aquisição de equipamentos e uma campanha de arrecadação de livros. A iniciativa  arrecadou mais de 300 exemplares oriundos de doações individuais e de organizações, dentre elas a Estação Cultural de Marabá e do youtuber e professor João Carvalho.


A biblioteca Ademir Martins, comuna Cepasp. Foto: acervo do Cepasp. 

CEPASP - referência em inúmeras pesquisas sobre a região de Carajas, dentro e fora do país, o Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular, emergiu no rebojo da redemocratização do país. Em 2024 somou 40 anos. Educadores, militantes, leigos, trabalhadores rurais, extrativistas, dentre outras categorias fizeram ou fazem parte da iniciativa. Saiba mais AQUI

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

MPF recorre para que obras de porto em Santarém (PA) sejam demolidas e empresa pague danos morais coletivos

Desde os anos 2000, quando a Cargill ergueu o porto na orla da cidade ao arrepio da Lei, a toada tem se repetido 

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com recurso, na última terça-feira (14), contra uma sentença da Justiça Federal considerada contraditória pelo órgão ministerial. A decisão judicial anulou as licenças ambientais para a construção de um terminal portuário às margens do Lago do Maicá, área de extrema importância ecológica e social em Santarém (PA). No entanto, negou os pedidos de demolição das estruturas já construídas e de condenação da empresa por danos morais coletivos. Leia mais no site do MPF

ASSASSINATOS NA FAZENDA MUTAMBA COMPLETAM UM ANO SEM RESPONSABILIZAÇÃO DOS CULPADOS

 O caso da Fazenda Mutamba envolve suspeita de apropriação de terras públicas, trabalho escravo e violências contra os sem terra 

No dia 11 de outubro de 2024, Adão Rodrigues de Sousa, 53 anos, casado, pai de 05 filhos e, Edson Silva e Silva, foram assassinados, por policiais civis da Delegacia de Conflitos Agrários (DECA) de Marabá, chefiados pelo então delegado, Antônio Mororó. Os policiais chegaram ao local onde ocorreram os crimes, por volta das quatro horas da manhã. Cerca de 18 trabalhadores se encontravam dormindo em redes em um barracão coletivo. Dois deles já estavam acordados preparando um café quando foram surpreendidos com os gritos dos policiais “perdeu, perdeu”, seguido de rajadas de tiros. No desespero e na escuridão cada um tentou se escapar como pôde dos tiros. O resultado foram dois mortos, vários feridos à bala e quatro presos.

Os quatro presos, em depoimento prestado perante o Ministério Público, confirmaram que os trabalhadores rurais foram surpreendidos pelos policiais que já chegaram atirando. Acordados com rajadas de tiros naquela hora da madrugada e na escuridão, não houve qualquer chance de se defenderem mesmo que tivessem um arsenal de armas. Só deu tempo de correr para escapar da morte. Ainda em depoimento, contaram que os policiais atiraram com as espingardas encontradas nos barracos para incriminar os trabalhadores mortos ou presos.

A alegação do delegado Mororó de que se tratava de uma operação para cumprir mandados de prisão e de buscas era apenas um pretexto para cometer os crimes. O discurso do delegado era que se tratava de uma organização criminosa fortemente armada, envolvida em venda ilegal de madeira, roubo de gado, entre outros crimes. O resultado da operação que envolveu dezenas de policiais, várias viaturas, dois helicópteros, foi a apreensão apenas de 7 espingardas cartucheiras e algumas munições. Nenhuma arma pesada, nenhum motosserra, nenhum caminhão de madeira, nenhum gado roubado, nada mais!

 A operação criminosa chefiada pelo então delegado Mororó teve o mesmo modus operandi de uma outra ocorrida na fazenda Santa Lúcia, no município de Pau D’Arco, em 2017. Ali, sob o pretexto de cumprir mandados de prisão e de buscas contra supostos criminosos, as polícias civil e militar assassinaram 10 trabalhadores no que ficou conhecido como o Massacre de Pau D’Arco.

Denunciado pelos movimentos sociais e entidades de direitos humanos por sua atuação perante à DECA de Marabá, a decisão da Secretaria de Segurança Pública do Estado foi tão somente a promoção na carreira de Mororó. Inicialmente ele foi promovido a responsável pela Seccional Urbana de Marabá e, no dia 15/09/2025, foi promovido a Superintendente Regional do Sudeste do Pará. Os crimes compensaram!

Mas o delegado Mororó não se contentou apenas com esse posto. Ele exigiu também manter o controle da DECA de Marabá. Com a saída dele dessa especializada, assumiu como titular o delegado Vannir que estava fazendo um trabalho sério e respeitoso, atuando com independência, tanto em relação aos fazendeiros quanto aos movimentos sociais. Tinha grande capacidade de diálogo e mediação, evitando o agravamento dos conflitos. Por essa razão, não agradava aos fazendeiros e a Mororó os quais o acusavam de muita tolerância com as ações dos movimentos sociais de luta pela terra. Em meados de julho, Vannir foi afastado do comando da delegacia por pressão de fazendeiros da região, articulados com Antônio Mororó. A alegação do grupo foi que Vannir se negava a cumprir determinações de interesse dos pecuaristas. Não teve qualquer denúncia de ilegalidades ou desvios de conduta praticados pelo delegado. A razão foi exclusivamente política.

O delegado Mororó não esconde para ninguém as suas relações viscerais com os latifundiários da região. Qualquer chamado desse grupo ele está pronto a atender. Por outro lado, quando se trata de apurar os assassinatos de trabalhadores rurais não tem o mesmo interesse. Conforme dados da CPT, nos últimos 10 anos, 15 assassinatos ocorridos na área de atribuição da DECA de Marabá, as autorias das mortes não foram esclarecidas. Embora criada com a atribuição de investigar os crimes no campo, quando ocorre um homicídio de trabalhadores os casos são encaminhados para outras delegacias. Para dificultar o monitoramento das organizações dos trabalhadores, é decretado segredo de justiça nas investigações. Assim, tem casos com mais de cinco anos sem inquérito concluído. A última chacina, ocorrida em 25/07/2025, na região do Assentamento Coco II, no município de Itupiranga, é um exemplo. Três trabalhadores acampados foram emboscados por uma milicia armada. Foram torturados, assassinados e seus corpos queimados dentro do carro que trafegavam. As investigações, a cargo da delegacia de homicídios de Marabá, não foram concluídas e ninguém foi responsabilizado pelas mortes. Na verdade, a Delegacia de Conflitos Agrários se transformou em delegacia de proteção ao latifúndio.

Por outro lado, as famílias que ocupam a fazenda Mutamba há vários anos, vivem sob a ameaça de despejo. Em 2024, não foram despejadas porque o então juiz da Vara Agrária, Amarildo Mazutti, autorizou o despejo sem que o processo fosse encaminhado para a Comissão de Soluções Fundiárias, conforme determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). Em julgamento de recurso, o Ministro Cristiano Zanin determinou a suspensão do despejo. Nova data para o despejo foi marcada para o último dia 06 pelo juiz Jessiney que substitui Amarildo. Novamente não foram atendidas as recomendações da Comissão, razão pela qual, o mesmo Ministro determinou nova suspensão a pedido da Defensoria Pública. A esperança das famílias é que o INCRA possa promover a desapropriação da fazenda e encaminhar o assentamento das famílias.

A fazenda Mutamba, de propriedade da família Mutran, se assenta sobre um antigo castanhal que foi desmatado criminosamente para formação de pastagem. Há ainda suspeita de terra pública em parte do complexo. Já foi flagrada com trabalho escravo no início dos anos 2000 e, atualmente, é ocupada por mais de 200 famílias ligadas ao MST.

Por fim, a pergunta principal é? O assassinato dos dois trabalhadores na fazenda Mutamba, as tentativas de homicídios e as torturas vão ficar impunes? A julgar por outra chacina ocorrida em São Félix do Xingú, em 2020, onde o ambientalista Zé do Lago, sua esposa e filha foram assassinados, até hoje ninguém foi responsabilizado pelas mortes, o resultado pode ser o mesmo: A impunidade!

Marabá, 11 de outubro de 2025.

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST. Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares – FETAGRI.

Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar – FETRAF.

Comissão Pastoral da Terra – CPT. Instituto José Cláudio e Maria – IZM.

Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos – SDDH.

Coletivo Veredas.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Açaí na berlinda: relatório da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará aponta alternativas para a garantia de segurança alimentar e renda aos mais frágeis da cadeia produtiva.

38 instituições debateram entre março a outubro sobre gargalos e alternativas da cadeia produtiva do fruto. Atravessadores, assaltantes, ausência de assistência técnica, questão sanitária, crédito são alguns dos problemas a serem superados.

Em outubro de 2025 o mandato parlamentar estadual de Carlos Bordalo (PT/PA), que preside a Comissão de Direitos Humanos, da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), apresentou à sociedade o relatório sobre a crise de abastecimento do açaí no estado. Ele resulta de atividade de um grupo de trabalho (GT) que aglutinou prefeituras, ONGs, universidade, instituições públicas relacionadas com a questão, associações, cooperativas, sindicatos e vendedores do fruto. As atividades ocorreram entre março a outubro de 2025.

No rol constam, entre outras representações: prefeituras de Cametá, Igarapé Miri, Marituba, Barcarena e Acará. Entre as instituições públicas fizeram parte da jornada de construção do documento: Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará), Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Departamento de Vigilância Sanitária de Belém (DEVISA) Casa do Açaí e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

No caso da sociedade civil, colaboraram: Instituto Açaí é Nosso (IAN), Instituto Ver-o-Peso, Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Pará (Fetagri), Federação das Cooperativas da Agricultura Familiar do Pará (FECAF), Malungu, Cooperativa Agroindustrial Frutos da Amazônia (Coafra); e representando a universidade, a Clínica de Combate ao Trabalho Escravo da UFPA. Ao todo, 38 instituições integraram o GT, onde constam o poder público de várias instâncias, empresas, produtores, entidades de classe e membros da sociedade civil organizada.

Segundo o documento, o horizonte do GT residia em identificar alternativas sustentáveis e viáveis para a produção e comercialização e a garantia do equilíbrio da cadeia produtiva, bem como o acesso ao produto considerado essencial para a população paraense. O documento considera como uma alternativa estratégica a adoção da bioeconomia como parâmetro.  As indicações de alternativas foram realizadas em alinhamento com os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis).

Leia a íntegra do documento AQUI

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

UFMA sedia evento internacional sobre políticas públicas

 



Em uma conjuntura atravessada por inúmeras crises (capital, civilizatória, ambiental e humanitária), iniciou ontem, 16, em São Luís, Maranhão, a XXII da Jornada Internacional de Políticas Públicas (Joinpp), no Campus do Bacanga, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com o tema guarda chuva "Imperialismo, colonialismo, racismo, guerras: balanço e perspectivas emancipatórias". 

A mesa de abertura do evento notabilizado como um dos mais importantes do continente, teve em sua mesa de abertura no auditório do Centro Pedagógico Paulo Freire as professoras doutoras Claude Serfati, da Universidade de Versailles/França; e Rosane Borges, da PUC São Paulo. Borges é uma egressa do curso de Comunicação da UFMA, e uma referência no debate sobre racismo.

 

Veja a programação do evento AQUI

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Justiça do Trabalho condena JBS por subnotificação de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho em unidades no Pará

JBS em Marabá/PA. Fonte: redes sociais

A Justiça do Trabalho condenou a JBS S/A ao cumprimento de uma série de obrigações para regularização das comunicações de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho em suas unidades no Pará. A decisão foi proferida pela 3ª Vara do Trabalho de Marabá, em ação civil pública (ACP) movida pelo Ministério Público do Trabalho no Pará e Amapá (MPT PA-AP).  Leia  íntegra AQUI

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Racismo: apresentador de webTV é condenado por discurso de ódio contra indígenas do Tapajós

Raymmond Klebbert, o miliante racista
Acolhendo pedidos do Ministério Público Federal (MPF), nesta terça-feira (9), a Justiça Federal condenou o apresentador de programa de TV pela internet (webTV) Raymmond Klebbert de Sousa e a empresa de comunicação proprietária da webTV Catraia por discurso de ódio e racismo contra 14 etnias indígenas da região do Baixo Tapajós, no Pará. A sentença determina que os condenados paguem indenização por danos morais coletivos, façam uma retratação pública e divulguem a cultura indígena. Leia a íntegra no site do MPF

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Territórios que falam: seminário reflete sobre grandes projetos na região do Maicá e Ituqui

 


O evento que refletirá sobre projetos de portos na região do Lago do Maicá e Ituqui, no município de Santarém, ocorre durante todo o dia 10, no auditório do prédio Laranjão, na unidade Tapajós da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará). A iniciativa é de um coletivo de organizações sociais do campo popular. Fase, CPP, Tapajós Vivo, Terra de Direitos são algumas das organizações.

A defesa dos territórios considerados como tradicionais é o horizonte do evento.  Segundo rede social dos coletivos, objetivo é fortalecer as vozes e as lutas das comunidades do Maicá e Ituqui diante das ameaças dos projetos portuários em Santarém, reafirmando modos de vida, saberes e denúncias dos impactos socioambientais.

Inúmeros portos estão sendo instalados ao arrepio na região. Há vários judicializados.  Assim como há projetos de grande envergadura e que se viabilizados, promoverá a desterritorialização de várias pessoas, que moram na região há anos, a exemplo de indígenas do povo munduruku, quilombolas e campesinos.

A construção de portos é uma das pautas do projeto Arco Norte, que almeja consolidar a região como um corredor de circulação de commodities. O modal de transporte (rodovia, ferrovia e hidrovia) também faz parte do projeto que teve consultor o atual governador e baluarte da anistia de golpistas, o governador de São Paulo. Fiesp, CNI (Confederação Nacional da Indústria) e CNA (Confederação Nacional da Agricultura) constam na retaguarda.

 

Sobre a questão, sugerimos visitar as seguintes fontes:

Artigo 01: A acumulação primitiva no Baixo Amazonas/PA: as disputas territoriais em torno do lago do Maicá e o Complexo Portuário da Embraps em Santarém – PA. Leia AQUI

Artigo 02 : Amazônia e a IIRSA – A Recente escala de Desenvolvimento e as SUAS Implicações para o Baixo Amazonas/PA. Leia mais AQUI

sábado, 6 de setembro de 2025

Jornalismo de primeira linha: José Hamilton Ribeiro e Lúcio Flávio Pinto são homenageados

 José Hamilton Ribeiro e Lucio Flávio Pinto são dois dos mais admirados jornalistas brasileiros de todos os tempos. E conquistaram essa admiração por décadas de um denodado trabalho, que elevou ao mais alto patamar o jornalismo de nosso País.

Por isso, não seria justo com eles − nem com os demais jornalistas que continuam na lida − que disputassem uma das vagas entre os 100+ Admirados Jornalistas Brasileiros. Mesmo tendo sido muito bem votados e com pontuação para engrossar esse time de notáveis, J&Cia decidiu fazer a eles uma homenagem que faz justiça à história dos dois, dando-lhes o título de Hors Concours do Jornalismo Brasileiro. Eles estão em outra dimensão!

José Hamilton tem mais de 60 anos de jornalismo, 40 deles dedicados à Globo. Tem uma importância gigantesca na existência de J&Cia e do Portal dos Jornalistas. Foi dele a ideia de criar, em 1991, a coluna Moagem no jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, sobre o vaivém profissional, escalando para a tarefa o então colega Eduardo Ribeiro, diretor de J&Cia. A coluna permaneceu ativa por 21 anos e tornou-se o FaxMOAGEM, que posteriormente acabou virando o Jornalistas&Cia. Leia mais AQUI

Livro de Paulo Emmanuel será lançado em Belém junto a exposição coletiva de cartunistas que defendem a Amazônia.


A Amazônia não é apenas fonte de biodiversidade, mas também de inspiração artística. Nos últimos anos, o cartum se consolidou como uma das linguagens mais afiadas para denunciar problemas ambientais, unindo humor e crítica social em um traço rápido e impactante.

Chamado de humor ambiental, esse movimento busca retratar com ironia e sarcasmo questões como desmatamento, queimadas, garimpo ilegal e mudanças climáticas. A combinação de humor e denúncia aproxima o público, especialmente os mais jovens, de temas que muitas vezes são tratados de forma árida ou excessivamente técnica.

Artistas amazônidas têm se destacado nessa vertente. Usando personagens cômicos ou situações absurdas, eles transformam tragédias reais em reflexões que despertam riso e incômodo ao mesmo tempo. Não é incomum que uma tira ou cartum viralize nas redes sociais, transformando uma crítica pontual em debate nacional.

A floresta também pode ser defendida com traços e sorrisos. No próximo dia 11 de setembro (quinta-feira), Belém recebe o lançamento do livro Amazônia Meu Humor – 40 anos em defesa da Amazônia, de Paulo Emmanuel, no tradicional espaço cultural Ná Figueredo, das 18h às 22h. Leia mais AQUI

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Oriximiná sediará o VIII Colóquio de Geografia do Oeste do Pará

O evento reunirá pesquisadores, professores da educação básica e superior, estudantes e demais interessados para refletir sobre a relação entre a Amazônia e os desafios contemporâneos das mudanças climáticas, abordando a tríade Natureza, Sociedade e Educação sob uma perspectiva geográfica. A programação contará com conferências, mesas temáticas, apresentação de projetos e os Espaços de Diálogos e Práticas (EDPs), com discussões de trabalhos acadêmicos. Leia mais AQUI

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Volkswagen é condenada por trabalho escravo

Por dano moral coletivo a empresa alemã foi condenada a pagar um multa de R$165 milhões

 

Fazenda Cristalino, no sul do Pará. Fonte: redes sociais

Mais de 40 anos após o crime perpetrado na fazenda Cristalino, em Santana do Araguaia, no sul paraense, a empresa alemã é condenada pela prática de trabalho escravo.  A multa estipulada é de R$165 milhões por dano moral coletivo. A ação foi movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) da 8ª região em dezembro de 2024. A decisão foi assinada hoje,  pelo Juiz Otávio Bruno da Silva Pereira. A condenação é de primeira instância. Ela pode ser lida AQUI

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

2ª Bienal das Amazônias abre em Belém com trabalhos de 74 artistas e coletivos de oito países Pan-Amazônicos

A semana de abertura será marcada por uma programação intensa de performances e encontros públicos. Um dos momentos centrais será a homenagem ao artista acreano Roberto Evangelista

Marta Brasil

2ª Bienal das Amazônias abrirá ao público no dia 27 de agosto de 2025 em Belém (PA) com o conceito curatorial Verde-Distância. A mostra, que reúne trabalhos de 74 artistas e coletivos de oito países da Pan-Amazônia e do Caribe, seguirá aberta até 30 de novembro, com entrada gratuita. Esta edição apresenta uma constelação de práticas artísticas que atravessam territórios, sonhos, memórias, linguagens e escutas. A curadoria é de Manuela Moscoso (curadora-chefe), junto com Sara Garzón (curadora adjunta), Jean da Silva (cocurador do programa público), e Mónica Amieva (curadora pedagógica). Leia a íntegra AQUI

Fazenda palco do Massacre de Pau D´arco é desapropriada para fins de reforma agrária.

Decisão foi assinada ontem pelo juiz federal Eneas Dornellas, da subseção de Redenção

Enterro de vítimas de massacre no Pará. Foto: Lunae Parracho/Reuters

A Justiça Federal autorizou a desapropriação por interesse social da Fazenda Santa Lúcia, no sul do Pará, onde em 2017, 10 trabalhadores rurais foram assassinados, no que ficou conhecido como Massacre de Pau D'arco. Lá também uma testemunha do crime, Fernando, foi assassinada 4 anos depois, após sofrer diversas ameaças, e o advogado que defendia os trabalhadores, Vargas, chegou a ser preso, após armação dos latifundiários. Isso inclusive é retratado no documentário Pau D'arco. É uma grande vitória da luta pela terra na Amazônia. Leia a íntegra da decisão  AQUI

FEIRA PAN-AMAZÔNICA DO LIVRO: ENTREVISTA COM O POETA E ENSAÍSTA PAULO NUNES

 Tornou-se a Feira mero oba-oba de vitrine??? 

Professor da UEPA e da Unama e poeta Paulo Nunes. Fonte: rede social 

Repercuto aqui a bela entrevista realizada pelo cronista Leal Kostav. Grato pela gentileza em autorizar a publicação neste modesto espaço. 

Na tarde úmida de Belém, entre o rumor das mangueiras e um vento que parece antigo, encontro-me com Paulo Nunes. Professor doutor, poeta, ensaísta: três modos de olhar o mesmo rio. A Pan-Amazônia corre nele como memória e urgência. Não se trata de polêmica, mas de nitidez. À mesa, uma xícara que já esfriou e um caderno com anotações atravessadas por setas — como se o pensamento precisasse de flechas para abrir passagem. O que segue é uma conversa que tenta ouvir o que o livro sussurra quando a feira faz barulho demais.

ENTREVISTA

Leal Kostav: Quando o senhor diz que a Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes “perdeu o foco”, o que exatamente se desfocou: o olhar de quem organiza, o espelho que a feira oferece ao público, ou a luz que deveria incidir sobre a literatura?

Paulo Nunes: Desfocou-se o conjunto. Uma feira não é só vitrine, é instrumento de formação. Quando o espetáculo toma o lugar do debate, a luz vira holofote e cega. O foco deveria estar no livro como experiência estética e crítica, nas multivozes como pluralidade real, não como adereço. Sem eixo curatorial firme, vira oba-oba — e o leitor, que é sujeito, passa a ser tratado como plateia.

Leal Kostav: O senhor reverencia Wanda Monteiro e Mestre Damasceno, “o vigor do não canônico”. O que o não canônico tem que a feira esqueceu? E por que assusta tanto?

aulo Nunes: O não canônico desarruma prateleiras. Ele traz oralidade, fricção, contradição. É a floresta falando no entremeio da página. Assusta porque exige escuta e risco; não se mede em cifras fáceis. Homenagear esses nomes é sinal de vida, mas a homenagem precisa irradiar para a programação: mesas que confrontem paradigmas, editores independentes com espaço real, um público provocando e sendo provocado.

Leal Kostav: “Cadê o intercâmbio Pan-Amazônico e internacional?” Como seria, para o senhor, um intercâmbio que não vire apenas turismo literário?

Paulo Nunes: Troca de método e de imaginário. Convidar autoras indígenas do Peru e da Colômbia não para exotarizar, mas para discutir política linguística, direitos autorais em territórios tradicionais, circulação transfronteiriça. Oficinas bilíngues, traduções em processo abertas ao público, coedições entre pequenas editoras da região, residências de crítico e tradutor. Intercâmbio é ponte por onde passam livros, sim, mas também passam políticas, protocolos, afetos.

Leal Kostav: O senhor cita autoras e autores do Pará — Mônica Malcher, Rosângela Darwich, Airton Souza, Isadora Salazar, Roberta Tavares, Antônio Moura, Giselle Ribeiro, Vasco Cavalcante. Em que medida a curadoria falha com essa casa de força? E como reparar sem cair no “localismo obrigatoriamente ufanista”?

Paulo Nunes: Falha quando transforma a presença local em cota. Esses nomes não pedem concessão, pedem leitura. Reparar é dar centralidade crítica, não apenas estande. É colocar essas obras na mesa mais nobre, em diálogo com outras cenas, e convocar mediação qualificada. O local não é um cercado, é um portal. Ufanismo se desfaz quando a exigência estética é critério — e ela o é.

Leal Kostav: “Literatura não é produto fru-fru.” Porém há planilhas, patrocinadores, metas. O que fazer com o número quando ele fica com ciúmes do sentido?

Paulo Nunes: Ensinar o número a ler. Métrica não precisa ser inimiga do mérito. Avaliar impacto por bibliodiversidade, formação de leitores, permanência de acervos nas escolas, número de traduções iniciadas, contratos assinados por editoras pequenas. O show traz gente? Ótimo. Mas que essa gente encontre pensamento. Caso contrário, a feira vira shopping de brochuras.

Leal Kostav: O senhor fala em “pedir consultoria” quando falta equipe com escuta e projeto. Que consultoria, de quem, e para quê?

Paulo Nunes: Curadores com experiência em feiras de formação, bibliotecárias públicas, professoras da rede, lideranças indígenas, quilombolas, editoras independentes, livreiros de sebo — como o do Gueto —, tradutoras, pesquisadoras de políticas do livro. Um conselho curatorial plural, com mandatos e transparência. Para quê? Para montar eixos temáticos, rever critérios de convite, mapear lacunas, medir efeitos. Humildade institucional não diminui ninguém: amplia.

Leal Kostav: Homenagear, em 2026, um autor de “qualidade duvidosa”, como o senhor disse, é um gesto simbólico. O símbolo pode ser corrigido? Ou será sempre uma mancha?

Paulo Nunes: Símbolo é escolha de linguagem. Dá para corrigir mudando a gramática: estabelecer critérios públicos de homenagem, com pareceres técnicos, consulta à comunidade literária, leitura crítica documentada. Se insistirem no atalho, vira mancha pedagógica: ensina o pior às novas gerações — que prestígio é ruído, não obra.

Leal Kostav: O senhor saúda PakaTatu, sebo do Gueto, editoras universitárias, IHGP, o estande democrático de autores paraenses, a ousadia da IOEPA reeditando Dalcídio, Benedicto, Haroldo. Nessa constelação, o que falta acender?

Paulo Nunes: Falta o circuito. Reedição sem circulação é vela ao vento. Precisamos de clubes de leitura nas periferias com mediação paga, compras públicas inteligentes para bibliotecas, formação continuada de professores, políticas de desconto para livrarias de bairro, laboratórios de leitura em praças, logística para o interior. Dalcídio vivo é Dalcídio lido.

Leal Kostav: Se a SECULT-PA aceitasse hoje o “tempo de repensar”, qual seria seu plano de 100 dias?

Paulo Nunes: Três frentes. Curadoria: conselho plural instituído, eixos temáticos definidos, edital público para mesas e oficinas. Formação: calendário de mediações, parceria com redes de ensino, cota de ingressos e transporte para escolas e bibliotecas, kit de acervo básico. Circulação: convênios com editoras pequenas, política de preço justo, feira satélite no interior. E, sobretudo, transparência radical: publicar orçamento, critérios, avaliações.

Leal Kostav: Por fim, professor: o que é, para o senhor, o silêncio de uma feira de livros depois do último dia?

Paulo Nunes: É um teste. Se o silêncio for vazio, a feira foi ruído. Se o silêncio vibrar nas casas, nas escolas, nas leituras que começam, então o livro ficou. Eu trabalho para esse vibrato — que não é oba-oba, é permanência.