sábado, 28 de junho de 2025

Ditadura na Amazônia: Comissão de Direitos Humanos realiza audiência pública em primeiro de julho

Em espaço inóspito para os setores populares da sociedade, Câmara escutará filhos/as e viúvas de camponeses executados durante a ditadura no Pará. 



Filhos e filhas de dirigentes camponeses assassinados durante a ditadura participam da audiência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, no dia 01 de julho, a partir das 10h.

Elias Sacramento, professor de História da UFPA em Cametá, Luzia Canuto, a mestre em História e professora da rede pública em Rio Maria, sul do Pará, Raimundo Junior e os filhos do gatilheiro Quintino Lira, Arlete e Alquides participarão da oitiva. 

Todos tiveram familiares mortos durante a ditadura civil-militar, em particular nos anos de 1980, considerado o mais letal na luta pela terra no Pará. Junior é filho de Raimundo Ferrera Lima, "Gringo", agente da CPT e dirigente sindical. Gringo foi o primeiro líder camponês assassinado no sul do Pará. 

Além dos filhos/as de dirigente executados por grileiros, pistoleiros e em muitos casos por agentes públicos da segurança pública do estado, participa da audiência o advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Marabá, José Batista Afonso.

Viúvas, filhos/as, irmãos/as entre outros parentes e amigos das pessoas que tombaram por lutarem pela reforma agrária, meio ambiente e direitos humanos no Pará estão empenhados há alguns meses em buscar reparações às famílias que perderam os seus entes queridos.

O derradeiro encontro ocorreu no fim de maio, em Redenção, por ocasião da audiência pública que discutiu o trabalho escravo na fazenda da Volkswagen, no município de Santana do Araguaia, nos anos de 1980. 

A empresa alemã é acusada de empreender trabalho análogo à escravidão no Pará e a ceder seus espaços em São Paulo para a realização de tortura de sindicalistas opositores ao regime. O caso tido atenção para imprensa internacional.

Execuções de dirigentes, chacinas de camponeses, execuções de apoiadores, onde constam advogados e religiosos, grilagem de terras, desmatamento são alguns dos desdobramentos dos projetos desenvolvimentistas empreendidos pelos militares e o grande capital na Amazônia, em particular no estado do Pará, com ênfase na região sudeste.

O conjunto de crimes perpetrados contra camponeses e outros sujeitos, a exemplo e indígenas e quilombolas é ungido pelo manto da impunidade, como esclarece a obra recente A lua pela terrana Amazônia: mortos na luta pela terra! Vivos na luta pela terra!.


Resultado de projeto de extensão da UFOPA em dialogo como os movimentos sociais e instituições de defesa dos direitos humanos, a obra de quase 800 páginas, registra boa parte dos crimes realizados contra os camponeses. Professores, pesquisadores, militantes, advogados, filhos, viúvas e sobrinhos entre outros assinam os trabalhos.

O livro foi lançado pela ocasião da passagem dos 40 anos do advogado Gabriel Pimenta.  Quatro décadas foram necessárias para o EstadoBrasileiro fosse responsabilizado pelo crime e algumas compensações aos familiares e à memória do defensor de direitos humanos efetivadas.

A responsabilização resulta de inúmeras mobilizações em escalas nacional e internacional. Pimenta foi executado em via pública por volta de meio dia na cidade de Marabá, após sair de um congresso partidário.    

Paulo Fonteles e João Batista, ambos parlamentares estaduais e igualmente advogados de posseiros tiveram o mesmo destino de Gabriel. Todos eles foram executados em via pública. O que desnuda a certeza de impunidade.

Sobre o Gatilheiro Quintino Lira, a jornalista e pesquisadora sobre o tema Lilian Campelo acaba de defender uma dissertação no programa de pós graduação de Comunicação Social, da UFPA.

O trabalho foi aclamado com louvor e recomendado para publicação. Quintino atuou na fronteira do Pará com o Maranhão, região do Gurupi. Enfrentou grileiros e pistoleiros em defesa de camponesas em refrega na Gleba Cidepar, até ser morto pelos policiais.  

Sobre a audiência saiba mais AQUI

O evento terá transmissão online. 

Mais informações - Elias Sacramento - (91) 99176-8821

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Maranhão: camponeses resistem à expropriação da empresa Suzano

 

Nesta manhã calorosa de terça feira(24/06), na cidade de São Pedro de Água Branca – MA, camponeses pobres sem terra se levantaram para protestar contra a latifundiária Suzano S.A., uma dentre as empresas mais poluidoras do Estado do Maranhão e opressora de trabalhadores em conluio com os órgãos públicos federais, estaduais e municipais. 

A manifestação ocorreu na Praça Central da cidade, organizada pelo acampamento Palmeiras e contou com a participação do presidente e dos membros da Associação da ocupação Canaã, da ocupação Sapucaia, moradores da cidade, representantes do CEPASP, do Coletivo de Defesa da Palestina, do Coletivo Taca Tinta e do SINDIUNIFESSPA-Sindicato dos Professores da Universidade Federal do sul e Sudeste do Pará.

 


A manifestação foi motivada pela necessidade de unir forças em defesa das terras ocupadas e reivindicadas por camponeses pobres sem terra, há mais de 30 anos vivendo e plantando nas áreas, e que em forma de grilagem, a Suzano se diz proprietária e junto ao poder judiciário conseguiu liminar para despejar em torno de 600 famílias dos municípios de São Pedro da Água Branca e Vila Nova dos Martírios, ambos no Maranhão.

Os representantes das famílias camponesas denunciaram a apropriação de mais de 3 milhões de hectares de terra feita pela empresa na região, enquanto os camponeses pobres sem terra não têm direito a sequer 20 hectares para garantir seu sustento, o que leva a uma crise de falta de alimentos e elevação do preço dos produtos nas prateleiras dos supermercados. 

Denunciaram também o grande desmatamento, a destruição e poluição dos mananciais com uso intensivo de venenos (agrotóxicos), a poluição dos solos, a escassez de água superficial e subterrânea que já se faz sentir na região,devido o plantio de eucalipto em toda a área, sendo essa árvore uma grande sugadora de água e destruidora do solo. 

Mais ainda, as famílias sacrificadas e permanentemente ameaçadas, encontram-se totalmente desamparada, devido aos prefeitos dos dois municípios se colocarem contra elas e em defesa dos interesses da empresa. Mesmo assim, a Associação do acampamento Palmeira protocolou na Prefeitura e na Câmara de Vereadores, documento chamando atenção dos poderes para a situação desastrosa e cobraram uma posição. 

A manifestação não foi só de denúncia e lamentação, os representantes das famílias de camponeses se posicionaram firmemente no sentido de fortalecer a luta em toda a região em defesa de suas terras, cobrar permanentemente do poder judiciário que seja feita justiça e que a luta continuará firme contra a Suzano, como também contra os latifundiários da soja e todos que se posicionam como inimigos do povo. 

Estenderam pela praça muitas faixas no sentido de chamar atenção da população para a luta das famílias em defesa de seus direitos, uma delas dizia: NINGUÉM COME EUCALIPTO! FORA SUZANO! A TERRA É NOSSA! 

As organizações acima citadas que se fizeram presentes também se manifestaram em apoio irrestrito à luta enfrentada pelos camponeses na região, somada às diversas lutas do campo e da cidade nos Estados do Maranhão e Pará, na Amazônia, no país como um todo, como também, em defesa da vitoriosa Resistência Nacional Palestina e de todos os povos acossados pelo imperialismo mundo a fora e que têm resistido de todas as formas possíveis.

Marabá, 26 de junho de 2025.

Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular - CEPASP

 

domingo, 22 de junho de 2025

Suzano: gigante do setor de celulose ameaça sobrevivência de camponeses no Maranhão

Um ato em defesa dos territórios camponeses será realizado na terça-feri em São Pedro da Água Branca


Em São Pedro de Água Branca e Vila Nova dos Martírios, mais de 600 famílias de camponeses pobres sem terra estão ameaçadas pela empresa Suzano S.A., do ramo de papel e celulose, na área da chamada Gleba 01. A mesma situação acontece em Imperatriz, onde mais de 500 famílias ocupantes da área conhecida como Viva Deus, estão ameaçadas pela mesma dita empresa, no estado de latifundiários, o Maranhão.

A empresa Suzano que desde o ano de 1980 vem acumulando terras na parte oeste do Estado do Maranhão já acumula em torno de um milhão e trezentos mil hectares (1,3 milhão de ha), principalmente nos municípios de Imperatriz, Açailândia, Bom Jesus das Selvas, Buriticupu, São Pedro da Água Branca e Vila Nova dos Martírios), quase toda área coberta com plantio de eucalipto.

Além do grande crime contra a segurança alimentar a Suzano também comete um enorme crime ambiental devido o eucalipto ser um dos maiores sugadores de água superficial e subterrânea e que seu forte aroma expulsa todos animais originários da floresta amazônica. E que estes plantios seriam para implantação de uma planta de extração de celulose, tal planta foi implantada a 15 km da cidade de imperatriz que vem funcionando com significativos danos ambientais.

Das quatros áreas ameaçadas pela empresa e pelo Estado a de maior prejuízo tem sido o Acampamento Palmeiras, com 120 famílias, no município de São Pedro de Água Branca. Essas famílias, foram despejadas depois de dois anos cultivando a terra, tiveram seus barracos e plantações destruídas (macaxeira, banana, abacaxi, caju, manga, abacate, abacaxi, acerola, abóbora, arroz...), mas continuam acampados na área da antiga fazenda Jurema, sob pressão dos “guardas” da empresa fortemente armados rondando o acampamento e coagindo as pessoas nas estradas, como também a empresa está infestando a região com uso de venenos.

No dia 9 de maio deste ano o Supremo Tribunal Federal havia suspendido a reintegração de posse concedida pelo juiz Delvan Tavares, da Vara Agrária de Imperatriz, mas no dia 30 do mesmo mês, o mesmo Supremo voltou atrás e manteve a reintegração de posse, remarcando-a para o dia 30 de junho.

Diante da situação bastante coercitiva, vimos através desta nota repudiar todas atitudes dos poderes constituídos que se posicionam em defesa do crime ao meio ambiente, crime à segurança alimentar e contra centenas de famílias de camponeses pobres sem terra na sua maioria comprovadamente ocupantes das terras muito antes da Suzano iniciar sua apropriação das terras na década de 80.


Conclamamos a todos defensores da luta camponesa pela terra e dos direitos humanos a somar conosco nesta batalha em defesa das famílias camponesas em lutas e contra o latifúndio e a conivência dos poderes constituídos do Estado.

Nota do Cepasp - Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular- Marabá/PA

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Romaria Mártires da Floresta mantém acesa memória de extrativistas assassinados no Pará

Realizada de 06 a 08 de junho no Pará, a Romaria dos Mártires da Floresta relembra o legado de Zé Claudio e Maria na luta pela Amazônia. Foto: Francisco Alan / CPT


Três dias de caminhada, memória e esperança: assim se pode resumir a 10a Romaria dos Mártires da Floresta, realizada de 06 a 08 de junho nos municípios de Nova Ipixuna e Marabá, no Pará. A Romaria relembra o legado do casal Zé Claudio e Maria do Espírito Santo, mas também dos demais mártires na luta pela Amazônia. Leia mais no site da CPT

Tiro

 


Negro

Pobre

Desprovido de sobrenome

Pouco mais de 20 verões nos costados

Defendia-se no trapézio do biscaite

Meio dia

Sexta feira

Jazia o corpo sobre o asfalto quente

O tiro dilacerou o crânio

Espalhou nacos de cérebro sobre o chão

Juntou insetos, roedores, felinos e cães

O peixeiro, o vendedor de bananas e o bebum

Até um suíno rondou a área

Todos espiaram o corpo inerte sob o sol

Sem prece, vela ou atenção

Todos filmaram a cena


quarta-feira, 11 de junho de 2025

Paulo Fonteles, presente!

Fonteles foi um dos três advogados de posseiros executados pelo latifúndio, além de João Batista e Gabriel Pimenta. 

Há trinta e oito (38) anos, o latifúndio em conluio com a extrema-direita assassinou covardemente o pai de família, dirigente do PCdoB e advogado de posseiros e de trabalhadores rurais sem terra, Paulo Cézar Fonteles de Lima. Paulo tinha trinta e oito (38) anos de idade, cinco filhos para criar e estava exercendo sua profissão para sobreviver. Hoje estaria com 76 anos provavelmente junto ao povo brasileito em defesa de um Brasil soberano, democrático e socialmente desenvolvido, um Brasil socialista.


As três balas que ceifaram a vida do revolucionário e patriota Paulo Fonteles não conseguiram o objetivo insano de impedir que suas ideias se multiplicassem, que sua presença continuasse viva e altiva como um castanheiro, como uma frondosa samaumeira a espalhar ao vento sementes de esperança. Muitos foram os que entraram para a luta inspirados em seu exemplo de vida dedicada à causa da transformação social, da defesa intransigente dos direitos da classe trabalhadora, da reforma agrária, dos direitos humanos, dos desvalidos.


Um intelectual orgânico, sensível e carismático, estratégico e construtor de ideias, excelente orador e combatente leal,  comprometido e apaixonado por tudo o que empreendia, Paulo Fonteles viveu intensamente. Uma pessoa da classe média, simples e culta, desde jovem tomou o lado do povo por justiça social; no movimento estudantil universitário lutou por uma educação de qualidade pública e gratuita e por liberdades democráticas, pelo fim do regime militar; militante comunista contribuiu significativamente na fundação da SPDDH, sendo seu primeiro presidente, e do jornal Resistência; desceu ao Sul do Pará como advogado da CPT na arriscada e honrosa tarefa de defender os expropriados do campo.


Paulo Fonteles transformou-se no "advogado do mato" e amigo dos camponeses pobres e sem terra levantando bem alto a bandeira da Reforma Agrária. Impulsionado pelo desejo de mudanças organizou junto com lideranças e forças progressistas da região um forte movimento que deu visibilidade ao massacre feito pelos latifundiários no campo, que ocupou terras improdutivas gerando produção de alimentos, que venceu a pelegagem sindical,  que organizou diversos STTRs, e mudou a geografia da área. Paulo e tantos outros companheiros e companheiras de luta começaram a fazer parte da "Lista dos marcados pra morrer".


Paulo Fonteles contribuiu para quebrar o silêncio oficial, a desvendar a verdade e a preservar a memória da Guerrilha do Araguaia, junto às caravanas, em busca dos desaparecidos. Se as lutas camponesas sequentes têm como inspiração a resistência heroica na selva amazônica contra a ditadura militar, a direção política das mesmas tem a participação dos comunistas na pessoa do Paulo e de outros camaradas. Assim o PCdoB e a região Sul/Sudeste do Pará possuem uma rica e inolvidável história de construções e lutas políticas traçadas por gestos heroicos, desprendimentos, alegrias e também sofrimentos. História que além de garantir terra às famílias vincou um pensamento político classista que contribuiu para a eleição do Paulo Fonteles a deputado estadual em 1982.


Paulo Fonteles realizou um mandato pautado na luta pela Reforma Agrária, contra a UDR, na denúncia das chacinas perpetradas pelos grandes fazendeiros contra os posseiros, no apoio às lutas sindicais, em defesa dos direitos humanos e na organização do seu Partido. Infelizmente a batalha acirrada pela Constituinte de 1988 não possibilitou sua eleição a deputado federal em 1986. Porém, o Paulo não se abateu assumindo o CEATRU e a tarefa de secretário sindical do PCdoB, conversando com trabalhadores, realizando encontros e cursos, acompanhando eleições sindicais. Assim, o camarada Paulo tombou  em plena ação política e vitalidade pessoal.


Ao encerrar essa pequena homenagem ao grande e inesquecível camarada Paulo Fonteles, filho de Cordolina Fonteles, pai de Paulinho, Ronaldo, Juliana, Joãozinho e Pedrinho, avô dos netos e netas que o não deixaram conhecer, reflito sobre o exemplo dele para nós e as novas gerações de lutadores. Paulo foi preso pelos generais, junto com sua companheira Hecilda Veiga, torturado barbaramente nos porões de Brasília, teve um filho nascido na prisão, cumpriu pena no presídio São José, saiu e continuou a luta. A convicção de construir um mundo melhor o movia, o fez suportar os suplícios da tortura sem entregar os parceiros da luta; o fez seguir em frente de forma destemida. Lutou bravamente contra os algozes da pátria, contra os destruidores das famílias brasileiras pela fome e pelo abandono, para que todos tivessem liberdade de escolher sua profissão de fé; inversamente aos golpistas, patéticos adoradores de "mito" e da bandeira norte-americana, fascistas promotores do retrocesso, ratos de quartel fantasiados de verde-amarelo que fogem e delatam no primeiro estalo de festim.

PAULO FONTELES VIVE!!!


Belém, 10 de junho de 2025

Érico Leal

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Crimes na luta pela terra: familiares buscam compensação pela morte dos seus entes

Familiares de camponeses, amigos e parlamentares em reunião para refletir sobre reparação. Redenção/PA. Fonte: rede social de Elias Sacramento. 

Família Canuto, Sacramento, Lima, Ribeiro, entre outras estão mobilizadas há alguns meses na busca por compensações pela morte de pais, irmãos e filhos/as em processos de luta pela terra no Pará. 

O grupo tem fomentado encontros para refletir sobre o assunto e buscado alianças em diferentes campos: parlamentares, universidades, ONGs, defensores de direitos humanos dentro e fora do Brasil.

A última reunião ocorreu em Redenção, no fim do mês de maio. Eles otimizaram a audiência ocorrida no dia 30, que analisou o trabalho análogo à escravidão cometido pela empresa alemã Volkswagem, na Fazenda Cristalino, em Santana do Araguaia.    

Por conta de inúmeras experiências desenvolvimentistas impostas para a Amazônia, o Pará ganhou notabilidade mundial no tema de violência na luta pela. Desde os anos de 1980, onde a violência foi mais aguda, o estado tem sido líder absoluto, como apontam os dados organizados e refletidos pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). Os indicadores recentes fazem paralelo com os a nos de 1980.

Elias Sacramento, professor do curso de História da UFPA, no município de Cametá é um dos principais animadores do debate sobre reparação. Ele esclarece que a rede almeja a realização de uma audiência na Comissão de Direitos Humanos do Congresso Nacional.

Impunidade e a busca por reparação

Resultado do avanço do capital sobre a Amazônia, ao longo dos processos históricos a violência na luta pela terra no estado do Pará vem sendo naturalizada. É como se fosse algo inerente à racionalidade do sistema.

A maioria dos casos que envolve a morte de dirigentes, chacinas, execução de advogados e religiosos é coberto pelo manto da impunidade.

O desdobramento combina pistolagem privada e pública, morosidade e uma certa cumplicidade do Judiciário. Uma das saídas mobilizadas pelos movimentos sociais e instituições de assessoria por conta do cenário tem sido responsabilizar o Estado Brasileiro em espaços internacionais, a exemplo do recente caso do advogado Gabriel Pimenta.

O mineiro de Juiz de Fora foi executado em via pública na cidade de Marabá por defender posseiros na região sudeste do Pará. Após mais de 40 anos do assassinato, o Brasil foi responsabilizado a promover um conjunto de reparações.   Outros casos precederam o de Pimenta, a exemplo de chacinas da década de 1980 e o assassinato de João Canuto na mesma quadra temporal.

Maio e os assassinatos nas terras do Pará

Maio é o mês em que a Igreja Católica celebra Maria, a mãe de todos. Neste mês, muitas mães e viúvas camponesas choram os seus mortos. A exemplo do dia 29 de 1980, quando do assassinato de Raimundo Ferreira Lima, conhecido como “Gringo”.  

A execução do dirigente sindical foi o pontapé inicial de caça aos defensores da reforma agrária, meio ambiente e aos direitos humanos no estado do Pará. Gringo era dirigente sindical e agente da CPT em São João do Araguaia, sul do Pará.  Foi o primeiro líder sindical executado na região.

Anos depois, em Nova Ipixuna, sudeste do estado, o casal de extrativistas José Cláudio e Maria do Espírito Santo, no dia 24 de 2011. O anúncio da execução chegou a ser anunciado no Congresso. A bancada da agricultura capitalista celebrou como se fosse uma final de campeonato brasileiro.

Romaria da Floresta celebra a memória dos extrativistas executados em Nova Ipixuna/PA, em 2011. Foto: Marquinho Mota/2025. 
Na mesma região, no município de Pau D´arco, no mesmo dia da morte dos extrativistas, 10 camponeses foram executados pelos policiais civil e militar. No começo de 2021 Fernando Araújo, principal testemunha da chacina foi assassinada com um tiro na cabeça.

Ainda em maio, mais de 40 anos depois, no dia 30 do corrente ano, no município de Redenção, uma audiência pública discutia o trabalho análogo à escravidão cometido pela empresa alemã Volkswagem.

Ao contrário do que o nome do município sugere, foi ele o berço da União Democrática Ruralista (UDR), em terras paruaras. A milícia do setor ruralista mobilizava uma série de ferramentas com vistas a arrecadar fundos para financiar a pistolagem. O fato celebrizou o Bico do Papagaio, o sudeste do Pará, o norte do Tocantins e o oeste do Maranhão, como a região mais letal do Brasil na luta pela terra.

As violências, o trabalho análogo à escravidão, o desmatamento, a corrupção, a grilagem de terras são alguns dos desdobramentos de todas as experiências desenvolvimentistas impostas à região desde o período Vargas, quando da instalação da Ford na fronteira de Itaituba e Aveiro e ganha robustez durante a ditadura civil-militar.

A violência constitui um elemento de permanência no bojo de todas as políticas de desenvolvimento impostas sobre a Amazônia e em particular no estado do Pará, como podemos com os casos aqui pontuados, assim como a impunidade. 

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Volkswagen: audiência no sul do Pará discute reparação por trabalho escravo da empresa durante a ditadura

Sede da fazenda em Santana do Araguaia/PA. 


No próximo dia 30 de maio (sexta feira), a partir das 8:30hs, ocorrerá uma audiência de instrução e julgamento na Justiça do Trabalho em Redenção/PA. A audiência faz parte de uma ação movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) contra a montadora de automóveis Volkswagen, em razão de, na década de 1980, a empresa ter utilizado trabalho escravo na fazenda de uma subsidiária sua – a Companhia Vale do Rio Cristalino Agropecuária Comércio e Indústria (CVRC), no município de Santana do Araguaia, com relatos que chegam a 800 trabalhadores escravizados. Leia a íntegra no site da CPT

COP 30: emergências climáticas - Manaus sedia seminário até o dia 30

 


Economia, questão agrária, racismo ambiental, segurança alimentar, democracia são alguns dos pontos de pauta de seminário Emergência climática na Amazônia: diálogos para a COP 30, que inicia hoje em Manaus, com vistas a promover informações que possam subsidiar a sociedade. 

Universidade Estadual do Amazonas (UEA), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Embrapa, Instituto Nacional de Pesquisa da Amazonia (INPA) e os Ministérios Públicos do Pará e do Amazonas são alguns dos protagonistas da iniciativa que mobiliza uma série de pesquisadores de variados campos do conhecimento.

Entre eles constam o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, o economista Gilberto Marques (UFPA), Marcos Montysuma, historiador natural do Acre, radicado em Santa Catarina, onde é professor na pós graduação interdisciplinar na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), as promotoras Ione Nakamura (MPPA), Lilian Braga (MPPA) e Aurely Freitas (MPAM). No campo popular o seminário contará com a fala da presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém, a lavradora e ambientalista Ivete Bastos.

A iniciativa é do debate é da professora Girlian Silva (UEA), economista que teve projeto selecionado no edital de financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). O evento ocorre em meio a fortes chuvas no Amazonas, que tem desabrigado um número significativo de pessoas e prejudicado a produção da agricultura de base familiar. 

Os efeitos extremos sobre a região têm sido recorrentes. Ora secas, ora tempestades, que tendem a atingir os setores já colocados em situações de vulnerabilidade, a exemplo de indígenas, remanescentes de quilombolas, campesinos, pescadores e outras modalidades de extrativistas.

Em 2023 a seca foi tão profunda que possibilitou que sítios arqueológicos pudessem ser visualizados no leito do rio Amazonas. As estiagens entre outros danos, pune os mais vulneráveis com relação a acesso a água potável, ameaça a segura alimentar, posto não terem acesso à pesca e à coleta  de frutos na floresta. E, a depender do lugar, serem punidos com o isolamento por conta da seca dos rios.

O seminário pode ser acompanhado pelo Instagram do MPPA.

Acesse a programação AQUI

A transmissão pode ser acompanhada AQUI

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Belém: O lado obscuro da COP30

Por  Brenda Takeda 

Escolhida como sede da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30), Belém do Pará é palco de mais de 30 obras realizadas a toque de caixa e enfrenta o dilema entre perpetuar velhos modelos que beneficiam a especulação imobiliária e o racismo ambiental e preparar de fato a cidade para os desafios do presente e do futuro.  Leia a íntegra no Outras Palavras

A COP na taba

Fonte: Carpinteiro da Poesia

A COP conseguirá superar o patamar de balcão de negócios ou o status de perfumaria para as grandes corporações surfarem e venderem a imagem de bom samaritano??

O paradoxal estado do Pará – tão rico, tão empobrecido – possui mais da metade da população na linha da miséria, outra parcela defende o almoço no mercado informal, cidades desprovidas de saneamento básico, oligarquias imperam no comando político, ratos e urubus na fantasia.

Pilhado e saqueado desde remotas eras pelos mais diferentes sujeitos nacionais e das cadeias globais, o Pará notabilizou-se mundialmente pelo assassinato de indígenas, quilombolas, camponeses e seus pares. É mister em desmatamento, por longo foi top em trabalho escravo e espancamento de servidores da Educação, a indiferença às periferias ou a criminalização delas.

Crimes ungidos pelo manto da impunidade, em um ambiente onde a “puliça” faz par com milícias.  Colocando sob o tapete dos palácios de salões de cafés (cofre break, como preferem os cerimonialistas) tais temas, a COP não passará de mera perfumaria.  

Longe de palácios, catedrais e carnavais da Sapucaí, os colocados em condições de subalternização promovem levantes, a exemplo do que fizeram os indígenas, quando das medidas autoritárias do governo Barbalho e seu secretário de Educação.  Nesta direção, um coletivo do bairro da Marambaia promoveu um gira para prosear sobre bendita COP.

Espie aqui o primeiro comunicado.


terça-feira, 13 de maio de 2025

Arreda homem, que lá vem mulher

Fonte: Hector Carybé. Redes sociais

Ri em êxtase.  Está feliz. Baila nua. Um “padede” ao tucupi. Esfuziante. A rodopiar sem a saia do carimbó. No entanto, a simula.  Ri, ri e ri sem cessar.  A padilhar sem atabaque, agogô, ganzá ou um ponto.  A menina dança.

O corpo preto gira sem se cansar. Pés descalços.  O corpo boleado cheio de felicidade só quer celebrar.  O corpo feliz espanta banzo. Exalta o amar. Como se o amanhã não fosse nascer, os rodopios insistem, qual pião, em sentido anti-horário. Abre caminho na encruza. Nijra. Ciata. Patchouli.

As mamas turgidas implicam com a gravidade. Redondas, tal um pão de queijo, as nádegas entopem o cômodo de cio. A vencer todo e qualquer tormento e as águas turvas.  Uma graça.  Grávida de riso, ela ri, ri e ri.

A menina dança. O mundo para. Ela é toda alma. Ela é toda corpo. Corpo e alma. Encantes a vibrarem por todo canto. Terra, floresta, rios e cios. Oxum na cachoeira. Sentada, enquanto a menina gira. Padilha.

Um turbilhão. Uma tempestade. Apoteose. Psicose em transe em forma de gente. Deus e o diabo no mesmo corpo-alma.  Sob o sol ou a chuva, a menina dança. Por entre as rosas, ventos e espinhos das veredas da vida. No balancê do baque solto da alfaia. Maracatu de mais de tonelada.

A menina...em espiral....vibra em riso para o tambor sob a luz do candeeiro...limpa o terreiro eh..limpa o terreiro ah....

oh como ela é linda, é linda demais...não mexe com ela...abre a roda....deixa a menina...ela tem peito de aço e o coração de sabiá...oh abre a roda...que ela não mexe com ninguém.... oh arreda ..que lá vem mulher...encantada...senhora da magia...lavanda em flor...gira, gira, gira, oh girandola.....riso e pólvora. Dói, dói, dói...um amor faz chorar, dois faz sofrer...navalha na carne, regalo. 

quinta-feira, 8 de maio de 2025

A viagem na nave Cidade de Oriximiná

 


Alenquer. É maio. Ainda chove. As águas estão altas. Em Santarém pareia o asfalto. A lua em quarto crescente a tudo espia. A rede é a acomodação do navio. Ganchos de ferro facilitam a operação de armar. Antes era necessário o uso de cordas.

Até 1h aportaremos em Santarém. Quatro horas dura a viagem nesta modalidade de nau. O veículo saiu 20h30. Cidade de Oriximiná é o nome da nave. Seu Luís é o responsável. Os  irmãos Aquino (Tomás e Rubens) os proprietários. Ela carrega gentes e cargas. R$50,00 é o preço da passagem no Cidade.  Caso fosse ferry boat seria R$50,00 ou R$40,00, a depender do ferry. Ele carrega além de gente e cargas, automóveis.

No caso da lancha, a viagem nesta época do ano dura duas horas ao preço de R$80,00 a passagem. A lancha é de fibra. Infelizmente deixaram de negociar cerveja. A saída é abastecer o bucho na plataforma de embarque e mocozar pelo menos uma garrafinha na boroca. As embarcações tradicionais deixaram de circular faz uns cinco anos. As talhadas na madeira.

O Cidade de Oriximiná possui três andares. É imponente. É de ferro. O último acomoda o bar. Sofrência é a trilha sonora. Pablo na veia. No último volume. Um jogo de luz enfeita o teto. Ao canto um casal em chaveco. Bichos de luz simulam pilotos kamikaze. Periga chover. Quando isso ocorre uma lona socorre.

Uma senhora atende na cantina. Além de breja, negocia água, refrigerante, biscoitos...10 "real" o serviço de nete. Venta forte. Assanha alegrias e tristezas. Só não tira a lua do lugar. O trem é de ferro e você não avisou que estava passando pelo meu coração só de visita ...verso de alguma canção.

Uma jovem clara, cabelo tingido em amarelo em trajes inadequados para o vento frio atende as poucas mesas. Ela usa um short claro onde é possível avistar as figuras de  joaninhas da calcinha. A blusa negra  não alcança o umbigo. Desprovidos de corpete, os seios sacodem ao rebojo das águas. Venta frio. Ar de chuva.

Um senhor negro a corteja. Paga lanche, um misto e brejas. Parece eufórico. Usa tênis, calça jeans e camiseta. Vez em quando grava um áudio no celular. A depender da canção, a moça simula uns passos. Faz charme. Espia de soslaio para se saber notada. 

A lua em quarto crescente reflete no rio. A sofrência troa em elevado volume. Quem é de dormir, dorme. Quem não é flutua entre os pisos da embarcação. Os conhecidos do trecho confraternizam.

Uma trupe parece parte da tripulação. Misturam refrigerante com algo mais porrada: pinga ou conhaque. A outra turma checou as passagens. Eu dei carteirada. Cego não tá nem vendo. Mas, enxerga na escuridão, acredita o poeta.  As luzes ficam apagadas no redário.

O céu é puro breu. Pontos de luz distantes sinalizam a cidade. Uma embarcação desponta ao léu. Uma grande, outra miúda. O vento ressoa no oco do ouvido. A sofrência insiste. Uma assombração. Reclama um coracão jogado de cima do muro.

A jovem da quitanda da nave inicia os serviços. Ataca uma cerveja barata. Uma lata alcunhada de periguete. Alguns tripulantes fazem a segunda voz do Pablo. Talvez seja efeito do conhaque. Um manga do outro. Ri..zomba..quizomba...

Após uma overdose de Pablo, alguém reclama Zé Ramalho. Ufa...Chão de Giz. Único tiro curto a gente pinta o sete em exíguo tempo. Em outro extremo do terceiro piso um jovem esquálido não aparta do aparelho de celular.

A canção de Rossi domina a atmosfera. A Raposa e as Uvas. As luzes da cidade soam mais próximas. Noutro momento distantes... garçom, aqui, nesta mesa de bar....as estrelas do céu parecem mais perto.

Agora, nada mais, nada menos que Dalziza. A mulher que não tem coração. A destruidora dos corações dos peões do trecho.”Me iludiu pra roubar o meu dinheiro/Só pra depois ela me deixar na mão”, Julio Nascimento a entoa.

Leidiane rivaliza em maldade com a Dalziza.  Leidiane gastava o dinheiro que Nascimento ganhava no garimpo com outros homens no cabaré.  Apesar da judiaria, ele reclama a presença da musa e jura a ela perdão pela maldade que cometera: “Lidiane, Leidiane, meu amor/Leidiane, eu te quero, you my love/Leidiane, eu te peço pra você voltar/Ah volte meu bem que eu sei que vou te perdoar”.

“Bebo, eu bebo mesmo. Eu boto é pra beber. Ah, como os amigos eu bebo com prazer”, sugere a canção. Em algumas quebradas e momentos é a única possibilidade de transcendência. “bebo, eu bebo mesmo”....

 

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Trairão, pequeno registro

 

Trecho da BR 163, Trairão/PA.

Traíra é peixe de escama. Comum em açudes, lagos e rios. É um bicho territorialista. Tal Batman, devota a escuridão. É considerado inadequado para piscicultura. Traíra ou trairagem nomeia modus operandi na cena política nacional.

Neste horizonte – abundante fauna -, entre outros, Eduardo Cunha, Arthur Lira e Michel Temer encarnam a excelência da espécie. Contudo, Trairão é uma pequena cidade na BR 163, no oeste do Pará. Longe de palácios, catedrais e carnavais. Mas, no caminho do Mato Grosso.

O município é um desdobramento da colonização espontânea nos anos de 1970. Apogeu da ditadura civil-militar. A cruzada fez a fortuna de poucos. Atividades no setor madeireiro, da agricultura, da pecuária e em garimpos conformam a história da cidade. O nome resulta de uma pesca no rio Itapacurá, quando um morador pescou um traíra de 40 quilos. Praticamente, um senador em terceiro mandato.  Assim explica o site oficial da prefeitura.

A cidade é entrecortada por inúmeras unidades de conservação. Como boa parte do estado, a fronteira encarna um quadrante de conflitos. Comenta-se que impera por estas lonjuras a tendência obscurantista e negacionista. Ainda hoje há gente que não toma vacina acreditando que vai virar jacaré. E, por falar no animal, ele nomeia um hotel e um balneário.

Reclame do balneário Jacaré. Ponto de parada dos ônibus. Fonte: T.C Esteves

Quando da ação conjunta de ruralista em prol da destruição da Amazônia, que ficou conhecida como Dia do Fogo, em agosto de 2019, Trairão integrou o consórcio de devotos pela piromania, que teve como epicentro a cidade de Novo Progreso, ainda no estado do Pará, na fronteira com o Mato Grosso. 

Ombrearam o transloucado gesto ruralistas das cidades de Itaituba, Altamira, Jacareacanga e São Félix do Xingu, este reconhecida pelo retumbante rebanho bovino. Há mais boi na cidade que gente. Nestas paragens, onde o quadrúpede abunda, ponteia desmatamento, violência e grilagem. A bandidagem é a ordem. Marcada a ferro e fogo.

O governo federal daquele contexto chancelava tais despautérios (Bozooesfera). O próprio ministro do meio ambiente declarou desconhecer Chico Mendes e que era chegada a hora de passar a boiada de baciada. Ele advogava a desregulamentação do setor ambiental em massa. Uma franco e generoso favorecimento ao capital. Pilares neoliberais ao estilo Haeyk, Tatcher e Reagan. Uma guerra contra o estado de bem estar social, a democracia e à sociedade.

Trairão é minado chão. Trata-se de um delicado espaço, agora mesmo acabaram de assassinar um dirigente camponês em Anapu. Um dia após a passagem do Massacre de Eldorado. Foi justo em Anapu que grileiros executaram a agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a missionária Dorothy Stang em 2005. Um senhora de mais de 70 anos, que media metro e meio.

Nestas distâncias tudo é puxado. A intercorrência do serviço de internet impediu a atualização do transcurso entre Santarém/Trairão a todo instante. No entanto, conseguimos alcançar o ermo lugar. O corre durou umas 7h. Rango em Rurópolis. Comida na BR é sempre um desafio. É onde os fracos não têm vez.

Buracos dominam a estrada. E, mesmo um afundamento grave em Santarém, ainda no perímetro da Floresta Nacional do Tapajós. Talvez provocado pelos rios. Teria sido um erro de cálculo de engenharia? Teriam desprezado a força das águas quando das chuvas? O Batalhão de Engenharia de Construção (BEC) do Exército tem sido o responsável pelo abacaxi desde remotas eras.

A mesma situação se repetirá na entrada de Rurópolis. Este é quase um patrimônio histórico. Um arremedo que reclama remendo a todo momento.  Ainda chove. O fluxo de carretas bitrem é intenso. O asfalto não resiste. Algum asfalto resiste ao intenso fluxo destes monstrengos?  

Em Trairão é comum os motoristas estacionarem os veículos na própria BR. Ocupam as duas vias. Fora da lei? Ah, Caetano, quando o império da lei triunfará em terras do Pará? Pelo andar da boiada, nem a COP ajudará. Barbada. Barbalhadas. 

Mata-se por muito. Mata-se por nada. Mata-se de fome, injustiças, miséria, faca, bala, desvios de verbas, malária e raiva. Até por derrota do Remo ou Paysandu. Melancolias ao tucupi com pitadas de areia. 

O busão lotado possui como destino final Porto Alegre, Bah! É feriado. Os espaços dos primeiros assentos são deveras acanhados. Viajamos bem apertados. Assim como o trecho da Transamazônica entre Rurópolis e Uruará, o que corresponde entre Rurópolis/Trairão, pela BR163, desconhece asfalto.

Parte da rodovia foi concedida para a Via Brasil. É o trecho menos ruim. A parte desprovida de calçamento torna a viagem mais lenta e perigosa. Na rodoviária de Rurópolis avistei uma sede de uma rádio comunitária. No século passado havia um pulsante movimento na Transamazônica. Era recorrente a PF lacrar as emissoras e tomar os equipamentos. Uma ação demandada pelas grandes corporações do País. Anos do governo do professor FHC.

Em Trairão impera um deserto de notícias. Não há rádio, TV, jornal, site ou blog. Assim reporta matéria da Agência Pública produzida por Rubens Valente e José Cícero, no fim do ano passado. Nesta latitude grupos de aplicativos de mensagens prosperam. Uma ação que gera um punhado de querelas pessoais, econômicas, amorosas e políticas. Tem gente sequelada no hospital e o algoz a usar tornozeleira. É poeira, é tiro, é  porrada e carretas a perder de vista.

Somente uma operadora de celular funciona a contento. Já imaginou se todas tivessem um bom desempenho? A depender da região do estado, sempre há variações. Nestes dias a cidade tem padecido de constantes quedas de energia elétrica. Uma rotina. Copiará os apagões de São Paulo?

Trairão é um traíra grande, o que contrasta com a miúda cidade, que beira a casa de 15 mil habitantes distribuídos em 12 mil km ², carentes de inúmeros serviços e os parcos que que possuem podem ser catalogados como precários. Na segunda feira de feriado não havia nenhum espaço de refeição ou lanche aberto. Oxalá o supermercado funcionava. Nele pegamos breja e água. Nesta ordem.  Um pastel de feira socorreu a broca.

Não há serviço de aplicativo de transporte. Todavia, três taxistas prestam o serviço. É fácil encontrar algum no local onde os ônibus param, assim como mototaxistas. Não há rodoviária.

Em peregrinações em busca de um rango foi possível avistar casas em morros. Impossível não lembrar favelas do Rio de Janeiro. As casas são grandes, onde impera uma arquitetura de madeira. Nestas andanças por entre as lonjuras deste mundão amazônico emerge uma interrogação: é plausível denominar/classificar tais aglomerados forjados a partir da força bruta do capital como cidades?

Na rodovia motoqueiros/as ignoram o uso de capacete. Lá pelas tantas, após mais uma queda de energia, uma carreta de festa cruzou o horizonte. Dessas carretas cheias de luz de led a executar pancadões.

Em tardes modorrentas, cães latem ao longe, enquanto moradores proseiam nas portas das casas.

Ah Gabriel Garcia Márquez, Ah Sérgio Leone e irmãos Coen.


domingo, 20 de abril de 2025

Corpo sem vida

 

Fazia alguns dias, o corpo jazia sobre a laje fria. Por entre empoeiradas caixas de recortes de notícias antigas, resguardadas por grossas cortinas de teias de aranha. Relíquias inúteis de vidas pretéritas. Malas de viagem entupidas de vazios. Ferro e tábua de passar roupas, cristaleiras, cômodas, quinquilharias de ginástica, pipas, algodão, tubos de linha e roupas de banho. E, ainda um pequeno sofá antigo, suporte de colchão, abajures desmantelados e alguns sacos de trigo de 60kg.

Jazia o corpo sobre laje fria, fazia uns dias, vigiado por amores mofados do último feriado o corpo desprovido de vida. Entre gavetas e mais gavetas de mágoas e pororocas de tristezas diante de solo de violinos de rancores, rangeres de ódios e melancolias. Ruídos de solidões dos porões de tumbeiros e o latido dos cães de rua.  Procissão de desvalidos em marcha lenta.

Em um cômodo acanhado o corpo foi encontrado. Fundo de casa. Fundo d´alma, fundo do poço sem fundo.  Não estava em decúbito dorsal. O peito apontava para o céu. Como a reclamar prece, oferenda, afeto, xodó, um ebó, um gostoso beijo e bom sexo.

O corpo sem vida coleciona muitas vidas. Ali, solitário, sobre a laje fria, ninguém jamais cogitaria. Imaginaria algum vestígio de riso ou alegria. Jazia o corpo por entre traças de tumores de esquizofrenia. Rascunhos sem valor de esboço de poesias. Augusto, anjo sem corpo. Alma em formol. 

terça-feira, 15 de abril de 2025

Alenquer em julho

 

Alenquer. Julho. O calor exaure a fração de vigor. Na rua em que estou alojado um senhor faz plantão diário na porta da casa, onde o esgoto viceja. Será dele a casa? Espio o ambiente. Ele guarda um freezer e prateleiras. Lembra um comercio. 

O senhor, armado de um rádio de pilha, acomoda-se em uma cadeira de macarrão. O negro tem a carapinha grisalha. Vez em quando traja a camisa do Paysandu.  Cedo, na minha volta do café consumido no mercado municipal, ele está de guarda. 22h, ao voltar para a hospedagem, lá está ele a postos. Nunca o vi a prosear com outrem.  

No café no mercado, diariamente, um senhor de estatura mediana, branco, exibe desinibidamente, um frondoso bucho. Cumprimenta a todos. Não há muita gente no mercado.  Alguns espaços vendem café e refeição. Um açougue atende aos poucos fregueses. Uma banca vende frutas e verduras. O tempo é desprovida de agonia. O cachorro cochila em um canto. Pode ser por conta do calor. 

O mercado abriga vários espaços vazios.  Sem uso. Alguns justificam o preço imposto pela prefeitura como justificativa. O prédio antigo guarda um telhado novo.  Um pouco distante dali, logo cedo, jovens e adultos jogam futebol em quadra coberta recém inaugurada.  

Em uma viela um quarteirão ou dois do centenário mercado, um outro negocia somente peixes. Fica na ilharga do rio em uma rua desprovida de calçamento.  Uma estrutura precária, onde o esgoto corre a céu aberto e urubus vivem em rejubilo. 

Na orla havia uma feira da agricultura familiar. A estrutura encontra-se abandonada. Outros serviços também foram deslocados para outra parte da cidade por conta das cheias dos rios, a exemplo dos bancos. 

A orla concentra um bom número de hotéis. Em um deles é recorrente uma presença massiva de prestadores de serviço da Equatorial.  Após a privatização da empresa pública, a Rede Celpa,  o preço do serviço alcançou as galáxias e a qualidade foi para as profundezas dos abismos. 

O calor amofina a gente. Tanto que é comum os jovens empenarem pipa durante a noite. A competir com os morcegos. Ave noturna, insônia. Vagalumes de fogo avoando da boca da noite do Surubiú por entre carros de boi e rebojos por um melhor devir.  

 

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Charles Trocate, discurso proferido por ocasião da titulação notório saber/UFBA


A escola é a primeira estrutura que o movimento ergue quando da ocupação da terra grilada. É sob a lona preta que crianças, jovens e adultas fazem o letramento para além da junção de sílabas. É em ocupações, marchas e acampamentos que Charles Trocate fez-se poeta, filosofo, pensador e escritor. Fez-se doutor nos rincões do Pará, em terras dos Carajás, solo onde mais se mata nas pelejas pela terra no Brasil.

Ainda gito Trocate engrossou as fileiras da marcha pela reforma agrária que redundou no Massacre de Eldorado, há 29 anos, na Curva do S. morte matada. Morte anunciada, ordem de governador. Em suas errâncias a praxe era carregar livro em seu embornal. As fileiras do MST foi o seu açude de saber. A escola desprovida de paredes e grade curricular. Escapou de veneno de cobra, escassez, peixeira e bala. Correu o mundo, EUA, Europa e América Latina a refletir sobre os descaminhos das amazônias.

É doutor mais que muito doutor. No derradeiro dia 10, a Universidade Federal da Bahia (UFBA), concedeu a ele e outros mestres o título de doutor por notório saber em Geografia Humana. Mas, poderia ser em Política ou Filosofia e arte de sobreviver em seara de escassez.  Agora Trocate é doutor do mundo e do papel. Ainda que já reconhecido por outros doutores de mundo e de academia, doutores de empates, bares, feiras e currutelas. Não à toa assina uma penca de prefácios, orelhas e apresentações de publicações mundo afora.

Quantos/as outros/as doutores do mundo e do papel foram tombados/as pela fome, moléstias, peixeira e bala???

 A seguir, o discurso que realizou na UFBA quando do recebimento da comenda. Sawe!!

Amigas, amigos, camaradas, companheiras, companheiros, gente desta parte do coração.

Há uma marcha humana desde os sertões e os seus interiores melódicos que já dura mais de 200 anos. Os andrejos que daqui partiram chegaram a Amazônia parte setentrional do pais para nos dizer como cantou Belchior “que o nordeste é uma ficção, nordeste nunca houve”. Chegaram como sertanejos, colonos, posseiros, garimpeiros, nômades cronicamente nômades. Chegaram sem o estado e contra o estado. Artífices de si mesmos, cooperando com a floresta e com as sociedades da floresta. Produziram empates, guerras camponesas e o homem histórico – Chico Mendes para nos dizer que há uma dívida ecológica do norte global com o sul global, bem antes da Amazonia transformar-se em refúgio do antropoceno pelas dinâmicas da supressão. As mutações do capital. 

Nesta marcha da qual sou parte originada do Ceará se movimentando contra a cerca e contra a seca, saímos Tomé, no Piauí fomos Torquato e na transição para a imensa floresta nos transformamos em Trocate. A corruptela do sobrenome indica as adaptações ou as recriações num sucedâneo de acontecimentos. Nesta marcha levaram o que tinham e tudo me alcançou porque sou eles, e a primeira vez foi quando aprendi a ler pela literatura de cordel. As sextilhas me avisaram da coragem.  Aprendi a ler cantando a forma de ser e ter alegria, a de ser gente e a de enfrentar a escassez por ela.

Descobrir Chico Mendes este homem das múltiplas florestas e dos seringais contra a ideologia da floresta vazia em 1990. Era a primeira idade da vila de Parauapebas que havia se transformado em cidade em 1988, depois de termos cruzado a rua do Arame, que separava a Vila do Rio Verde dos primeiros habitantes.  Construímos o Bairro da Paz, e nossa casa ficou na esquina da rua Marabá com Chico Mendes e está esquina se transformou no meu mundo de criança e adolescente.

Dois anos depois em 1992 passou por lá um grupo de jovens em trabalho de base para ocupar uma terra. A campesina Lourdes minha mãe se entusiasmou – nos transformamos em Sem Terra porque sem terra já éramos, nos transformamos em classes perigosas porque a miséria era nosso último limite. Foi a segunda vez que o Nordeste me alcançou, a insurreição da terra! 

Em 1993 tornei militante político do MST e decidi fazer militância política como profissão de fé- mobilizado pelas leituras e pelas descobertas decidi escrever (sem saber escrever). Tudo que viera depois  da virgula pela luta é uma consequência desta forma de estar em embate, pelo que falta, para se intelectualizar através de longos e demorados processos de formação. Porque o conhecimento valido é para mim aquele que é dialógico e transformador, no MST me encontrei com a filosofia, a arte de enxergar o palmo diante do nariz. E sigo utilizando-a para isso!

Por essas exegeses de quererem saber tudo- quando me perguntam como escritor qual é minha escola literária – eu respondo, o MST e se dobram a pergunta de qual é meu estilo literário – repito, a minha mãe.

Passei quase duas décadas como militante do MST no Pará – e nos últimos treze anos dedico meus esforços na construção do Movimento pela Soberania Popular na Mineração -MAM. Entendi pela ação cultural da ocupação da terra a dinâmica da luta de classes no solo. Falei e escrevi sobre tal e com os meus camaradas agir- e nos últimos anos, como se virasse a terra de cabeça para baixo em circunstâncias adversas – o de entender a função social do subsolo, e a luta de classes  pelo caráter da extração e uso dos minerais.

A experiência prática como coletivo nos levou a classifica-lo como problema mineral cujas as preliminares estão  em sempre ser organizado de fora para dentro, de ser antidemocrático nas suas decisões e de ser economicamente a expressão do desenvolvimento do subdesenvolvimento. Nos levando a minério-dependência em circuito fechado.

Quando decidimos nacionalizar o conflito Carajás – o tirando da Amazonia demos o apelido de MAM, o seu exercício chegou e continua a chegar em outros lugares- a maldição da abundância é o imperativo do moinho satânico – e agora chega para amedrontar na sua forma de realizar capitais, nas expressões de emergência climática e transição energética – o capital é eletrointensivo, digamos então expansão energética.

O parlamento empresarial brasileiro fustiga o nosso papel nos negócios da transição energética – chegar a 10% do Produto Interno Bruto pela mineração. Desde que vendemos o modelo mineral brasileiro em 1997, alteramos os ciclos e agora ele está incontrolável, a economia, a natureza e a sociedade, obstinadamente pagamos por esta rotina que nos consome por inteiro.

Para ser exato e com as perturbações da dialética escrevi para o livro da Baiana Juliana Barros – A política da mão de ferro da mineração nas terras de Carajás – o que é o arquétipo dessa dinâmica que nos interroga a toda hora como agentes do presente seja onde for:

‘O Programa Grande Carajás (PGC) é ainda indecifrável – enigma que cada vez mais se ideologiza em seu modelo proposto e na decisão de implementá-lo. E, quando se conclui que parece não haver mais nada a ser interrogado, soam descabidos, para muitos, os tons do debate e da crítica política. Desse sentimento, sobressai com precisão o livro A mão de ferro da mineração nas terras de Carajás de Juliana Barros. Em sua pesquisa, o PGC, aos poucos, decifra-se em aspectos até então incomunicáveis: produzir o progresso pela ruína.

Ao fim e ao cabo, não se trata de quanta ruína é assimilada ou a quantos ela atingirá, afinal, trata-se de uma construção política. Carajás tornou-se um princípio que arrasta consigo uma totalidade de relações e de mutações empresariais. E se transmuta de acordo com interesses dos que manuseiam esse projeto, burguesias institucionais que o criaram e o determinam numa variação de associações e jogos de poder. Ao mesmo tempo, é a mais radical ação econômica, para dentro e para fora, a fagocitar tudo, com enorme custo para a economia nacional.

A invenção de Carajás – como escreve Juliana Barros – é o não reconhecimento pelo Estado monocultor das diferenças, da alteridade e se legitima na objetificação e precificação da natureza. Esse sistema de poder inferioriza o outro, seja pela subalternização na exortação da acumulação, seja pelo tecnicismo da linguagem jurídica.

Em A mão de ferro da mineração nas terras de Carajás, a tomada de terra constitui o fundamento máximo das commodities minerais e a lei da propriedade torna-se arbítrio no modus operandi da empresa mineradora em detrimento do direito do outro subjugado e da destruição da natureza. Sobre essa imperiosa face do modelo mineral, Juliana Barros foi incisiva e nos ajuda a reordenar pensamentos e, ao mesmo tempo, refazer perguntas acerca das relações de poder na tomada de terra.

Carajás é funcional ao sistema-mundo de produção de mercadorias, isto é, legitima o papel das burguesias dadivosas e amplifica retrocessos sociais. No caso do Programa Grande Carajás, o projeto foi delineado como extração infindável sem repartição da riqueza produzida e acoberta o fundamental da trama: ruína na periferia e acumulação econômica no centro do capital – o que origina cálculos e equívocos de interpretação, pela força que coloca na ideia de que estamos presos à inevitabilidade do capitalismo e à governança da despossessão.

Portanto, enfatizo a originalidade deste livro e o compromisso intelectual da autora. O enfoque dado não esmorece o entendimento dos fundamentos do problema, ao contrário, ressalvados limites de tempo e de espaço, é possível consagrar o ineditismo da provocação que a pesquisa realizada por Juliana nos traz: uma conjuntura em que o aprisionamento da terra, em mecanismos de poder, retroalimenta o sistema de acumulação pela mineração, assim como cristaliza suas artimanhas e seus impactos na vida de excluídos da repartição das riquezas’.

E porque o problema mineral não foi interrogado antes – porque é difícil percebe-lo dentro das suas forças de desenvolvimento e progresso? Agora pouco importa saber porque não antes, mais se juntam a nossa inquietude o de somar a função social da terra com a função social do subsolo este é o ecossistema da questão – porque esta forma de vender natureza e ganhar dinheiro continua a nos empobrecer, desde os efeitos geofísicos das minas que ficam aqui – ao invés de um país minerador somos é minerado numa crescente desestabilização do território nacional.

Dizer e enxergar isso nos custa muito caro, no entanto há compensações, por exemplo chego ao nordeste “esta região que nunca houve que é uma ficção” pela terceira vez, (das muitas vezes que cheguei) para receber o título de notório saber em geografia humana- chego trazido pelas mãos do Geografar e por muitos e muitas que vibraram com esse processo e pelo consentimento acadêmico de que este acontecimento tem sua boa hora. Não chego sozinho, tenho comigo uma espantosa multidão, chego sem adereços, sem penduricalhos ou mesmo caprichos. Passei a vida entre universidades, a universidade nos cabe também! 

Por fim, reconhecer que a construção do MAM na região é a forma de percorrer em turno contrário – a marcha contínua dos que um dia saídos daqui chegaram lá, e é a forma de introduzir nos nossos dilemas outras conjurações – a bem dizer de Chico Mendes este inconfundível revolucionário, precisamos em circunstâncias como essa ao menos empatar, provocar empates ao capital mineral. 

Salão Nobre da Reitoria da UFBA, Salvador, Bahia, 11 de abril de 2025

Veja a cerimônia AQUI