sábado, 15 de fevereiro de 2025
Anapu/PA: 20 anos após a execução da Irmã Dorothy, a violência persiste
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Postado por rogerio almeida às 2/15/2025 11:12:00 AM 0 comentários
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025
Transamazônica: relatos sobre uma desventura entre a Ladeira da Véia e a Ladeira do Sabão
Ao contrário de Teixeira, embananando-me em metro quadrado.
Perco-me em guia de meio fio. Meia vida. Meia morte. Ave Maria, Nossa Senhora
de Nazaré. Silencio quando o tempo era de falar. Tagarelo, quando o prudente
seria silenciar. Meto os pés pelas mãos. Misturo alhos com bugalhos. Arrisco a
mão em cumbuca. Confundo mulher com
parafuso. Desconheço sotaques, e se, por acaso, deixei saudade pelos lugares
por onde andei. Uma hecatombe bípede a pleitear vaga em Circo de Soleil, em
resumo.
Ainda assim, um ás em driblar a escassez, escapar de malária,
peixeira, febre amarela, olho grande, praga alheia, sarampo e bala.
Por estes dias, danei-me de saudades dos meus e cai no mundo. Um
tombo. Um tonto. Com numerário
contato, meti o pé de Santarém a São Luís. Sertão amazônico para o litoral
nordestino. Entre busão (Santarém-Marabá/PA) e trem (Marabá/PA-São Luís/MA),
umas 40h de trecho. Sei lá quantos km enfrentei. Boa parte percorrido pela Transamazônica, a
entrecortar as bacias Amazonas/Tapajós/Xingu e Tocantins-Araguaia.
A rodovia foi coisa de milico, como saída para a integração física e subordinada da região.
Entregação capital. Riqueza de poucos,
miséria de muitos, foi a equação. A opção virou a região pelo avesso.
Reconfigurou feições econômicas, políticas, sociais, culturais e territoriais. Sobre
os 50 anos da rodovia, o Centro de Memória do Oeste de Santa Catarina produziu
um belo caderno que busca debulhar a desgraceira.
E por falar em desgraceira, a seguir, apresento um pequeno relato
da minha via crucis sobre jornada de “revortê” para casa. Segue assim, como foi
concebido dentro do busão e disparado em rede social.
09/02/2025. Ladeira da Véia. Bandas de Pacajá. Faz umas 3h e uns quebrados que estamos impedidos de circular. Crianças choram, cachorros latem. Adultos irritados, idosos exauridos. Alguns insultam os governos. Nenhuma birosca perto. Um morador relata que passaram a máquina ontem. Com a chuva, tudo virou lama. Puro barro. Impossível circular. Os letrados no assunto recomendam prudência. Faz-se necessário esperar secar um pouco mais a terra. Por enquanto, os veículos somente descem a ladeira. Somente os mais destemidos encaram a subida. Uma garoa se pronuncia. A internet e os carregadores de celular operam no busão. O que permite a comunicação com parentes e a distração dos passageiros. Não fosse isso, espancariam o motora?
09/02/2025. Via de regra, os motoras que encaram as estradas da Amazônia são craques. Passados na casca no alho. Todavia, no inverno, o bagulho fica mais complicado. Assim, estamos com o carro preso na lama entre Uruará e Rurópolis, a aguardar algum encantado para ajudar. O carro quebrou por volta de 3h da manhã. Nenhuma birosca nas proximidades. Queria espiar o sinistro da Educação do Pará neste rolê. E, por falar nele, indígenas, quilombolas e trabalhadores da educação ocupam a Seduc em levante contra absurdos da pasta. Rossieli e Helder meteram goela abaixo um lei que fere de morte a modalidade de ensino modular. Tá bonito o movimento. Impossível não relacionar com a Cabanagem. Guardados contextos e proporções. "Nada sobre nós, sem nós", defende um tema de ordem. E, assim, a COP 30 começou....
10/02/2025. O carro atolado/danificado. Eu a pensar em banho, em
uma bela farofa, um café quente, dengo da companheira e a euforia do cachorro e
das plantas do quintal.
10/02/2025. Até os carrapatos dos bois das terras griladas/afanadas sabem que é sinistro esse período em vários trechos das estradas do Pará. Existe até mapa dos pontos mais delicados. Sabendo disso, o que impede o poder público, e mesmo as empresas em desenharem uma estratégia de socorro??? Interessante seria os executivos e governantes experimentarem o quão desumano é a jornada.
10/02/2025. O motora é natural do Amazonas. Corria Manaus-Boa
Vista. Tinha 14 anos de firma na carteira. Colecionava algumas experiências com
assaltos. Já levou coronhadas de pistola e fora vítima de facada. Exibe-se para
uma dama rechonchuda. Em um dos assaltos, policiais executaram três miliantes.
Um deles mantinha a peixeira nos costados do condutor, até que o policial
alvejou a cabeça do assaltante. "No Amazonas coleciono mais de 30
experiências com assaltos", conta sem muito entusiasmo. Ficou
traumatizado. Tomou remédio para
ansiedade. Por conta dos traumas, ficou
a correr somente no perímetro de Manaus. Mesmo, assim, sempre que alguém com
ares que ele considerava elemento suspeito adentrava a viatura, o motora parava
o carro e corria a rumo ignorado.
Contudo, foi a praga de um amor que o feriu de morte, deixando o
seu coração em migalhas. Morto de paixão por uma paraense, largou tudo e mudou
para Pacajá. O amor já tinha um filho, resultado de outro enlace. Ela estava
separada há dez anos quando consagrou matrimônio com o motorista. Ele narra que
ao mudar para o Pará, não tardou alguns meses, a moça voltou para o ex-marido.
O motora largou tudo. Mudou para Santarém. Na véspera de embarque de volta para
Manaus, foi chamado pela empresa Ouro e Prata. Ele diz que odeia correr o
trecho de Pacajá. O coração fica mofino de saudade da pessoa que o deixou com o
coração em desgraça. O amor é de morrer. O amor é de matar. " O pior é que
ela já viajou comigo algumas vezes. Pense num mundo sem graça", relembra.
Novamente apartada do pai do primeiro rebento, ela pediu perdão ao motora, e
rogou por reconciliação. Ele não topou. Ela voltou para Manaus. Ele espera em
breve largar a nova firma e seguir o mesmo rumo. Não aguenta mais tanto risco. Murro em ponta de faca.
10/02/2025. A logística da Ouro e Prata lembra a gestão do general
"Pançuelo" na saúde durante a pandemia do desgoverno daquela praga
nacional que recuso em registrar o nome: um desastre. O motora consultou a
central do RS, que não autorizou a viagem por uma via alternativa, a
Transuruara, recentemente asfaltada. Trata-se de tradicional trecho de saque de
madeira e outros crimes.
10/02/2025. A jovem do banco da frente mora na roça, em Altamira. O
motora a mede com a gula de um retirante de crise climática. É do Maranhão. Maranhense abunda em terras
Paroaras. Eu mesmo sou da terra do poeta Ferreira Gullar. A jovem boleada, com
as gordurinhas a escaparem das vestes, tem como destino final a cidade de
Manaus. O senhor ao meu lado também vem da mesma cidade que a jovem da roça.
Ele vai para Sinop/MT, onde deve ficar uns três meses. Assim como a realidade
de outros municípios amazônicos, a cidade do Mato Grosso encarna um “case” do
exercício de grilagem. Tanto que o
próprio nome do município remete à empresa de colonização dos tempos da
ditadura civil-militar.
Voltando......O cabra já morou por lá. Por conta de envolvimento
com drogas do rebento mais novo, voltou para Altamira. A mulher zangou com ele.
Em Sinop considerava a vida menos aperreada. O casal tem três filhos. Ela
desejava internar a cria em clínica de reabilitação. Ele ponderou que o melhor
remédio seria o amor, o zelo. Ele conta que a cria já melhorou bastante. E
sobre as birras e ciúme da “conge”, recomenda dose cavalar de paciência. "
Não for assim, a gente aparta um do outro", acredita o viajante da
poltrona ao lado.
11/02/2025. Nesta modalidade de corre de lonjuras hercúleas em
terras Paroaras, o recomendado é andar armado. Tudo pode acontecer. Eu nunca
viajo sem carregar em meu embornal pelo menos uns quatro livros. A depender do
bus e da estrada é possível ler sem risco do descolamento da retina e dos
óculos despencarem das ventas. Nesta desventura que experimento desde sexta-feira,
carreguei duas obras de Benedicto Monteiro. Trata- se de releituras
ambicionando um possível artigo. Minossauro e Transtempo são os livros. Para
distração carrego dois livros de contos de Rubem Fonseca. Um craque no riscado.
Foi “puliça”, entre outras ocupações.
Dele, trouxe Pequenas criaturas e Axilas e outras histórias indecorosas.
Já li todos. Nestas andanças amazônicas que somam quase 30 anos, é a primeira
vez que fico tanto tempo retido no meio do nada. Nenhuma birosca à vista. Bico
seco. Só na água. Acho que vou reler o livro das Axilas. Há umas sacanagens bem
legais. Inspiradoras.
11/02/2025. O motora informa: estamos na melhor parte da estrada.
Lá na frente tem a Ladeira do Sabão!!!
11/02/2025. As senhoras do busão: a primeira, toda pávula fala para
a segunda que o único problema que possui é a gula. 60 e tantas primaveras.
Toda serelepe. A segunda com mais verões nas costas reclama de fibromialgia e
algumas hérnias. A terceira parelha a segunda em primaveras. Tá indo para o
Detrito Federal tratar um câncer. Há também crianças. Uma quase viajou sozinha.
Em Altamira, o motora agoniado com o atraso, deixou a mãe que fora pegar o de
comer para o bebê. Avisaram o condutor, mesmo assim ele seguiu, parando alguns
metros adiante. 20 minutos depois a mãe alcança o bus, e arreia indignação
contra o motora. Dispara que vai fazer B.O e meter processo na firma. Tomara
que cumpra a promessa.
11/02/2025. 10h depois do bus atolar na estrada, chega o socorro, outro
bus. Que capacidade.....!!! diria o cronista esportivo.
11/02/2025. Enquanto isso, na Ladeira do Sabão.... Momento de fé... mensagem na traseira de caminhão baú. Ainda sem nenhum vestígio de alguma birosca que possa socorrer a todos nós. “DEUS é tão generoso que te dá a liberdade de plantar o que você quiser. Mas, ele é tão justo, que você colhe somente o que PLANTOU”. Pelas bandas de cá, o grilo predomina. Assim como as cercas e o gado. “A cerca que cerca o gado é a mesma que cerca a fome”, assim versou César Teixeira, poeta maranhense. A cerca, o gado, o grilo, conluio de grileiros e policias notabilizou o Pará como o estado onde mais se mata em pelejas na luta pela terra. Em fevereiro, soma 20 anos da execução da agente da CPT, Dorothy Stang. Crime ocorrido em Anapu. Mortes de dirigentes sindicais precederam o assassinato da missionária. A exemplo dos casos de Dema e Brasília. Oh Deus, onde estais...?
11/02/2025. Ladeira do Sabão. Há um carro atravessado no meio do
caminho. No meio do caminho há um carro atravessado. Um trator opera a remoção.
Neste período do ano, por estas bandas do Norte, o trator é o rei.
11/02/2025. Em condições normais, eu já estaria em casa desde o
café. Saudade do meu dengo, do abraço estimulador de ocitocina, farofa, café
com pão e a alegria do Boroo, nosso cão. Não fosse a minha lesera e o cansaço,
eu teria atentado para o aviso da moça da Ouro e Prata, em Altamira. A jovem,
antes do bus partir, anunciou que daqui a mais três horas, um outro carro
chegaria e iria pela Transuruara. A rodovia asfaltada recentemente. Ninguém desceu. O receio era a demora. Mal
sabíamos que ficaríamos por mais de 15 horas na Ladeira do Sabão.
11/02/2025. Diário de bordo da Ladeira do Sabão. Passageiros buscam frutas na floresta. É
possível avistar algumas mangueiras. Ao redor, castanheiras persistem. A
questão é quebrar o ouriço. O ouriço é tão bruto quanto a vida. Há um busão
quebrado obstruindo a passagem. Estamos a aguardar um trator que foi remover
outro busão mais adiante. Estamos nesta situação desde às 3h da manhã. Soa que
o motora vai encarar o desafio. Oremos ...não tá chovendo.
11/02/2025. Diário de bordo da Ladeira do Sabão. Faz 13h que
estamos retidos. Transamazônica. Entre Uruará e Placas. Apareceu um carro do
DNIT. Não sei se vale de alguma coisa. Ainda há um cadinho de água no busão.
Tecnicamente, não é possível fazer nenhuma previsão de quando seguiremos
viagem. De onde estamos, conseguimos enxergar outros veículos parados mais
acima. Única notícia razoável é a ausência de chuva. Ao menos por enquanto. Uma
trupe de três patetas não cessa em gravar o esforço dos motoras em encarar a
péssima rodovia. Um tá fantasiado de patriota. O motora acaba de renovar o
estoque de água. Pelo andar da carruagem, ou seria o contrário? Não conseguirei
chegar em casa ainda hoje.
11/02/2025. Nestas lonjuras, sem única birosca para nos socorrer,
um pequeno trator é o rei. Tenho sede/fome de boca, breja, priquito, café,
comida quente......
11/02/2025. Diário da Ladeira do Sabão. Carretas, carros miúdos,
caminhões baú entre outras modalidades estão reféns da lama. Nestas lonjuras, o
trator reina. Alguém informa que os jovens da gravação são do canal: inverno
amazônico ou algo parecido. Tomei uma decisão que parece razoável, embarcar em
micro-ônibus e voltar para Uruará. E, em seguida, tomar outro transporte que vá
por outra via. No caso, a Transuruara, reconhecida região de exploração ilegal
de madeira. Nunca fiquei tão contente em rever a cidade. Já consegui assear os
pés cheios de barro. E até peguei uma breja, ainda que não seja do meu agrado e
uso rotineiro. Ao menos por cá há biroscas e equivalentes... após mais de 13h
de martírio....
12/02/2025 Então, como findou a via crucis na Ladeira do Sabão,
indagaram algumas pessoas. Lá vai... após umas 14/15h de martírio, decidi tomar
– quase de assalto – o primeiro micro-ônibus da Bururé que metesse a cara no
local, em direção à Uruará. Isso ocorreu por volta das 16h. Consegui acessar a
cidade ainda durante a luz do dia.
Contudo, por conta de inúmeras variáveis, não controladas pelas empresas
que fazem a linha para Santarém, só consegui embarcar por volta das 00h30,
chegando em casa por volta das 4h. A
Ouro e Prata, que praticamente monopoliza várias linhas, informou pelo menos
uns três horários diferentes, que variavam de 20h a 4h da manhã. Antes, porém,
foi possível um asseio, a troca de vestes, refeição e umas brejas para aliviar
a tensão. Eu estava na estrada desde a
noite de sexta-feira. Vinha de São Luís, onde fui visitar Mainha e demais entes
da família, posto não ter conseguido ir na quadra natalina. Como a tarifa do
transporte aéreo é algo impraticável, a saída foi o transporte multimodal: trem
e busão. A merda toda foi que deixei todo mundo preocupado: o meu Dengo em
Santarém e a família em São Luís. A boa, a colheita de relatos para compor uma
crônica. Repousar um cadinho, que daqui
a pouco tem aula.
PS: Os restaurantes, lanchonetes e hospedarias encarnam um capítulo a
parte nestas desventuras. Todavia, como ficamos presos entre o nada e lugar nenhum, não foi
possível o registro. Já o fiz em outra ocasião. Tentar recuperar qualquer dia
desses e socializar por aqui.
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Postado por rogerio almeida às 2/13/2025 05:43:00 PM 1 comentários
terça-feira, 11 de fevereiro de 2025
Dênis de Moraes, presente! José Paulo Neto celebra o amigo em artigo no site da Boitempo
![]() |
| Milton Temer, José Paulo Netto e Dênis de Moraes no final de 2024, último encontro dos três Foto: Leila Escorsim. |
Decerto que lerei hoje – sábado, 8 de fevereiro – vários necrológios de Dênis de Moraes, dando notícia de seu falecimento no passado dia 6 e de sua cremação na tarde seguinte, no Cemitério do Caju. Provavelmente serão todos elogiosos e verazes: resgatarão a sua carreira de jornalista de texto límpido, a sua impecável formação acadêmica, o seu profícuo magistério na Universidade Federal Fluminense e mencionarão suas principais obras (com destaque para o seu protagonismo no campo da teoria da comunicação e do biografismo). Em suma: com certeza quase absoluta, todos lamentarão a sua morte, com ele mal entrado nos 70 anos, e dirão da imensa perda sofrida pela inteligência brasileiro. Leia a íntegra AQUI
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Postado por rogerio almeida às 2/11/2025 10:39:00 AM 0 comentários
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025
Dorothy Stang, 20 anos de martírio
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Postado por rogerio almeida às 2/07/2025 01:45:00 PM 0 comentários
Lúcio Flávio Pinto lança livro de memórias
Como me tornei um Amazônida: Memórias de um jornalista investigativo na maior floresta tropical do planeta é uma obra marcante que entrelaça as experiências pessoais de Lúcio Flávio Pinto com suas quase seis décadas de cobertura jornalística na Amazônia. Ao longo de 35 capítulos, o jornalista investigativo revela não apenas as transformações da região, mas também sua própria metamorfose de observador a defensor apaixonado da floresta. Matéria do site Amazônia Real.
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Postado por rogerio almeida às 2/07/2025 01:31:00 PM 0 comentários
Sobrados, butecos e óbitos
Tachinha bateu o catolé. Crioulo também. Rosa, a filha do poeta Tribuzzi teve o mesmo destino. Em único folego o cabra enfia um obituário noutro. Tanta gente. Muitos não tenho a exata recordação de convivência. Não recordo a aparência. Tempos distantes. Anos de 1980. Muitos simplesmente sumiram. Uma longaaa lista.
Tachinha era colega de goró. Negro retinto. Derradeira vez que o vi
defendia um troco como segurança no banco de sangue da cidade. Uma ironia para
um biriteiro dedicado. Ao passar, ele
gritou pelo meu apelido da guarita. Combinamos uma cerveja que nunca sucedeu.
Crioulo já era um senhor prestes a se aposentar quando o conheci. Deveria
ter um metro e oitenta de altura. Esguio. Piadista incorrigível. Ainda que radicado
no Maranhão há anos, guardava o jeito de antigos malandros da Lapa, do Rio de
Janeiro.
Trejeitos expressos no jeito de falar, andar, brincar com os
parceiros de bar. Ao ser interpelado por algum colega, sempre retrucava:
sóóóóó!
Rosa era alvinha. Filha de um português jornalista e poeta. O pai
era próximo ao Sarney. Fazer parte do
reinado da família em certa medida sinalizava boa ventura. A casa da família
era generosa. Ficava em frente da residência do poeta Nauro Machado.
Reconhecido escrevinhador, traduzido para alguns idiomas.
A funcionária pública acendia um cigarro no fiofó do outro. Uma
compulsão. Ela era elemento feminino raro em espaço onde predominava a
macharada. Todos a respeitavam. Ainda que cuspissem no chão, coçassem o saco
com desenvoltura e despejassem toda ordem de machismo.
Entre os cabras, não havia quem não desejasse petiscar um gomo
daquele corpo boleado. Roçar a barba mal feita naquele rosto de bolacha Maria
ou beijar aquela boca de nicotina de elevada concentração. Um cinzeiro,
praticamente.
O coração tombou Tachinha e Rosa. Crioulo rodou prestes a somar 90
verões. Morava só. A casa tinha um sistema de vigilância. Não sei se a
parentela distante tinha acesso. O
buteco cheira a fim de festa.
Produtos rareiam na prateleira, onde um dia tudo abundava.
Inclusive um robusto caderno de fiados. O odor de fungo toma o ambiente onde
imperam gambiarras na elétrica e hidráulica.
Naquela manhã um faz tudo passou por lá. Indagou da possibilidade
de fazer o reparo das goteiras. Chove a cântaros esses dias. O biscaite não
rolou. O comerciante justificou falta de recurso.
O Centro da cidade denota solidão. Mais de cem anos. Sobrados de
todos os tamanhos espelham abandono. Tijolos fecham janelas. Paredes possuem
seus azulejos saqueados. Alguns prédios metamorfosearam-se em estacionamentos.
Pedintes, dependentes químicos, aposentados, pés inchados, prestadores
de serviços sexuais vicejam sobre os paralelepípedos, por entre becos e vielas.
Foram-se as fofoqueiras do Poema Sujo.
Teimam alguns pregoeiros. Negociantes de cuscuz e sorvetes típicos.
Uma tristeza sem fim. Tristeza não tem fim.
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Postado por rogerio almeida às 2/07/2025 08:09:00 AM 0 comentários
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025
Acampamento indígena de Belém esclarece manobras do governador Helder Barbalho
A coordenação do acampamento no prédio da Seduc e exige a revogação da Lei 10.820 e a exoneração do secretário
![]() |
| Foto: @indiazinha.viajante |
Os indígenas
que ocupam o prédio da Seduc desde o dia 14 de janeiro informam que o movimento
de ocupação continua e não houve, até então, nenhum acordo com o governo do
Estado.
A agenda do
governador Helder Barbalho na tarde de hoje, 3, foi com indígenas alinhados aos
órgãos do próprio governo do Estado, alguns inclusive detentores de cargos
comissionados. Eles não participam do movimento de ocupação e não têm
legitimidade e nem autonomia para negociar a pauta do movimento indígena que
ocupa a Seduc, uma vez que possuem estreitas relações com as autoridades que
aprovaram a Lei 10.820, e atacam diretamente a educação pública, os povos
indígenas e as comunidades tradicionais.
As lideranças
que ocupam a Seduc estranham, também, a forma desigual e pouco isonômica com o
que o governo do Estado trata os referidos movimentos, considerando que a
reunião ocorrida na semana passada, articulada pelo Ministério dos Povos
Indígenas, foi sob forte aparato militar, com indígenas sendo intimidados e até
impedidos de fazer uso do celular na reunião.
Surpreendentemente,
na reunião de hoje com indígenas alinhados ao governo do Estado, o governador
Helder Barbalho não exigiu reunir apenas com uma comissão, não fez uma operação
de guerra com fechamento do trânsito e aparato militar e nem proibiu filmagens
e o uso de imagens, como se quisesse usar nossos povos de forma folclórica e
como peça de propaganda governamental.
Os indígenas
que ocupam a Seduc ressaltam que, a fim de repor a verdade dos fatos, a
Defensoria Pública da União ingressou com uma ação civil pública, exigindo que
o governo do Pará seja impedido de propagar informações falsas sobre as
negociações com o movimento indígena.
Por fim, os
indígenas reiteram o convite para que o governador Helder Barbalho compareça a
ocupação da Seduc, que segue em defesa da revogação da Lei 10.820 e da
exoneração do secretário Rossieli Soares.
Belém, 3 de
fevereiro de 2025.
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Postado por rogerio almeida às 2/03/2025 10:41:00 PM 0 comentários
quinta-feira, 30 de janeiro de 2025
Ufopa realiza webnário sobre ataque à educação indígena
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Postado por rogerio almeida às 1/30/2025 07:43:00 PM 0 comentários
segunda-feira, 27 de janeiro de 2025
Paraíso
Não combina a
dor com o meu carnaval, ainda que a estrada que leve ao Paraíso seja repleta de
armadilhas, percalços e desprovida de asfalto.
É de barro o chão do Eden. Amarelo. Amarelinho, tal as águas do
Amazonas.
Águas de chuva,
águas de esgoto correm por entre as suas voçorocas da inquietude. Em gesto de
teimosia, apesar das imundícies, germinam flores de Amsterdam em alegria. A
alegria é um ato de amor, por mais obscuro soe o horizonte.
Noite alta.
Corações ao léu, sob o sereno o Homem da Meia Noite e a Mulher do Meio Dia a
caçarem o canto para um remanso. Um chamego. Um dengo. A ternura vence o
cansaço. Amar é ponte. É potente. O choro da cuíca convida ao baile. Aquece o
peito. Gostoso como uma comida quente.
Comida quente é
que tem mais sabor. O sabor das bocas em festa não se taxa. Não tem preço. Vale
o apreço. É ginga, é malícia, pés descalços. É tesão, é cerveja, é beijo, é
calor. Coração aquecido. Panos quentes
cura qualquer dor.
A boca na boca.
A boca na nuca. A boca na mama. A boca em todo canto entope o coração de festa.
A boca cheia de fome devora o sexo. Dança em rejubilo sobre as cinzas da quarta
feira. E, logo cedo, ao invés de café, sorve uma breja ao som de um samba de Dona
Ivone. Mas, poderia ser Cartola.
A madrugada anuncia
o nascer do dia. Felinos em telhado de zinco quente a danar em carícias.
Naquele momento, nenhuma guerra ali prospera. Importa quase nada a porta do
hotel lacrada por lotação, e a outra por negligência. Urge o carinho. Madrugada
adentro tonteiam os felinos de rua em busca de abrigo. Chove lá fora.
Todos foram
expulsos do Paraíso. É imposto ganhar os dias com o fruto do suor. No Paraíso o
amor e o sexo são punidos com o trabalho. O trabalho é castigo. Os felinos
conspiram em favor da preguiça. Chamegos e delícias em estandarte mais elevado
anuncia o bloco dos irrecuperáveis de afeto.
A madrugada assanha
o corpo vencido de amor. Um toque. Um cheiro. O bloco na rua. Ela esguia. Toda
nua. Dança. Esquiva-se das nuvens cinzas. Cheiro de sapoti. Carne de caju. Ri,
chora, beija, goza. Estrebucha de prazer. Cachaça a lanhar a goela. Pimenta
espremida no prato. Égua no cio.
É um querer bem
a vida. Em variadas arenas o riso segue a combater o tédio dos dias.
Alvorada, na
encruza é uma beleza. Não há tristeza! O sol a tudo colore: pandeiros,
terreiros, ancas, risos, folhas, frutos, plantas, ebós, ratos, cães e gatos.
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Postado por rogerio almeida às 1/27/2025 11:29:00 AM 0 comentários
Fazenda Mutamba: em meio à COP, juiz ordena reintegração de posse em favor de grileiro após execuções de camponeses
Três meses após execução de camponeses pela PM, juiz ordena medida de reintegração de posse em favor de grileiro
Três meses se passaram da chacina na Mutamba promovida pela Polícia
Civil do Estado, sob o comando do ex-delegado da Delegacia Especial de
Conflitos Agrários (DECA), Antônio Mororó, que de forma covarde, em uma
madrugada, dispararam rajadas de tiros contra camponeses pobres sem terra, que
dormiam em um barraco, resultando no assassinato de dois trabalhadores, na
prisão ilegal de quatro deles e vários outros feridos. Trabalhadores que haviam
chegado há poucos dias no local, na esperança de receberem um lote de terra,
para morarem e produzirem alimentos.
Mesmo diante de lutas jurídicas travadas pela Comissão Pastoral da
Terra (CPT), com apoio de organizações de defesa dos direitos humanos, ainda
não foi possível processar e punir os policiais responsáveis pelos crimes. O
delegado Mororó foi afastado da função de sua função, porém foi promovido a
chefe da seccional urbana de Polícia Civil de Marabá, o que gera uma
insegurança por parte das famílias que continuaram na área e daquelas que aos
poucos estão retomando sua rotina.
Mesmo com as dificuldades nos acessos a área, causadas pelo
polícia, com o propósito de prejudicar a locomoção das famílias na área, ou
seja, o seu direito de ir e vir, ainda mais agora durante esse período, de
chuvas frequentes, o que tem piorado as condições das estradas, muitas famílias
já retornaram e estão desenvolvendo suas atividades produtivas, com plantio de
culturas temporárias e criação de pequenos, médios e grandes animais,
aguardando que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)
faça a aquisição da área para fins de reforma agrária.
Tivemos a informação de que a direção do INCRA, em nível nacional,
e da Superintendência do Sul e Sudeste do Pará, já demonstraram interesse em
resolver o impasse em favor das famílias, que desde o ano de 2005 vêm lutando
contra pistoleiros e policiais do Estado para garantirem a permanência na área.
Os advogados de defesa das famílias se manifestaram junto ao
Tribunal de Justiça do Pará no sentido de solicitando a suspensão da sentença
de reintegração de posse em favor do grileiro, mas o tribunal ainda não se
manifestou. Diante da situação, o juiz da Vara Agrária de Marabá, Amarildo
Mazute, conhecido como o pai dos latifundiários, mais que depressa, deferiu um
pedido feito pelos advogados do grileiro, Aziz Mutran, de CUMPRIMENTO
PROVISÓRIO DE SENTENÇA, que permite o pedido de reintegração de posse mesmo
antes de serem julgados os recursos da apelação.
Ainda mais grave, é a covardia da parte da “justiça”, porque as
famílias foram intimadas a desocuparem voluntariamente a área e, caso não
façam, o juiz deve marcar uma audiência para determinar a data para a
desocupação forçada. Com isto, mais uma chacina, de proporção maior, poderá
ocorrer sob o comando do juiz, porque as famílias não estão dispostas a
abandonarem suas posses
Diante de mais uma iminente chacina, convocamos todas entidades de
apoio a luta pela terra, bem como todos os movimentos de lutas para, de
imediato, compormos uma frente em defesa das famílias da ocupação Mutamba,
junto com o Comitê de Defesa da Luta Camponesa no Sul e Sudeste do Pará que se
encontra em conformação.
Viva luta camponesa! Viva a luta das famílias da Mutamba! Marabá,
17 de janeiro de 2025.
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Postado por rogerio almeida às 1/27/2025 11:28:00 AM 0 comentários
terça-feira, 31 de dezembro de 2024
O centenário de Benedicto Monteiro e a indiferença da Secretaria de Cultura com o interior
A exposição pela passagem do centenário de Benedicto Monteiro ficou restrita à Belém.
No início do mês de outubro encaminhamos à Secretaria de Cultura do estado do Pará um ofício. A demanda posta residia em possibilitar aos moradores de Santarém e Alenquer acesso à exposição pela passagem do centenário do escritor, político, advogado e defensor dos direitos humanos Benedicto Monteiro.
Por conta da indiferença, o reenviamos em outras ocasiões. Ainda assim, nunca obtivemos uma resposta oficia, apesar da troca de algumas mensagens a partir de aplicativos de comunicação da Secretaria.
A exposição ficou restrita ao público da capital do estado no primeiro semestre do corrente ano.
Publicizar o
acesso de jovens professores e estudantes a obra do ximango era o horizonte da
iniciativa dos professores Rogerio Almeida e Márcio Benassuly. Ambos do curso
de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional, da Universidade Federal do Oeste
do Pará (UFOPA).
Monteiro é
rebento das barrancas de Alenquer, Baixo Amazonas ou Oeste paraense. A sua obra
versa sobre o universo da região. E, é justo sobre as realidades da várzea, o
jeito de falar de sua gente, os elementos econômicos, os sociais e os políticos
que a tetralogia versa: A Terceira Margem Verde Vagomundo, Minossauro e Aquele
Um.
O Conselho Superior da UFOPA concedeu ao escritor título de Doutor Honoris.
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Postado por rogerio almeida às 12/31/2024 11:16:00 AM 0 comentários
Lonjuras
O vento soprou
tão forte que uma estrela despencou do céu.
Desfolhou as
frutíferas da casa vizinha
Inundou de
secas folhas o quintal
Arrancou os
grilos das paredes
Sufocou
cigarras
Tombou felinos dos muros
Espantou as
chuvas para outras paragens
Só não trouxe o
meu amor
Mas, arrastou
para outros mundos a sombra da bananeira
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Postado por rogerio almeida às 12/31/2024 10:09:00 AM 0 comentários
quinta-feira, 26 de dezembro de 2024
Militante social do Pará é selecionado para ministrar aula na pós graduação da UFBA
Foto: Ícaro Matos
Charles Trocate, militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) foi selecionado em concurso da Universidade Federal da Bahia (UFBA), para ministrar aulas no curso de Pós-Graduação em Geografia, na categoria de notório saber. A categoria confere título de doutor ao profissional ou especialista que contribui em determinada área de conhecimento/saber e na defesa dos direitos humanos.
Trocate é morador da Vicinal do Limão, no projeto de assentamento da reforma agrária Palmares II do MST, localizado no município de Parauapebas, no sudeste do Pará. Uma delicada região de disputa pela terra, subsolo, rios e florestas. É deste ambiente que nasce o ser reflexivo sobre as realidades marcadas pela expropriação e a pilhagem das riquezas naturais.
Filho de migrantes maranhenses, desde jovem fez parte dos quadros do MST. Dona Lurdes, a mãe, o conduziu. Nas fileiras do movimento aprendeu a ler o mundo, além de cultivar o apreço pela leitura, onde devorava de literatura de cordel a Tolstoi.
Quando do Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, Trocate integrava a marcha
que assassinou 19 sem terra sob a ordem do governo Almir Gabriel (PSDB), Paulo
Sette Cãmara, secretário de Segurança, e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), presidente da República.
Trata-se do momento de avanço das agendas neoliberais, quando o imperativo era privatizar setores estratégicos. Assim FHC viabilizou a entrega da Vale ao mercado financeiro e implementou a Lei Kandir, que pune os estados exportadores de produtos primários. Privar era a ordem, inclusive da vida.
O título de doutor e a seleção no pleito para ministrar aulas na UFBA é um reconhecimento pelas contribuições nos campos das artes, da filosofia e das reflexões que o poeta produz sobre a Amazônia ao longo dos anos. Uma toada marcada pelo zelo ao elemento estético, grande sensibilidade política/poética e um profundo senso de justiça.
Na apresentação do memorial proposta pelo grupo Geografar/UFBA e outros pares, o professor Ricardo Junior de Assis Fernandes Gonçalves, sobre as contribuições do Charles, dispara que ". Com as orquídeas que carrega no bolso, o poeta enfrenta as máquinas de poder, o “amor trôpego do mundo”, as injustiças, os latifúndios, os crimes ambientais e as violências nos arrabaldes do país".
O memorial realça tanto as contribuições no campo da poesia, quanto as obras consideradas como acadêmicas, os manifestos políticos, as proposições do campo da política, da economia e do social. Conta ainda com cartas de inúmeras instituições e de programas de pós graduação, onde é recorrente a presença do poeta militantes.
E, ainda, manifestações de instituições entrincheiras nos combates de defesa pela reforma agrária, meio ambiente e direitos humanos, a exemplo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), MST e do próprio MAM. Movimento forjado nas barrancas do Carajás, e hoje territorializado Brasil afora.
Sobre a mineração, entre os títulos em que contribuiu de alguma forma como autor ou organizador, constam: A Questão Mineral no Brasil,cujo
recorte espacial é a região de Carajás, no Pará, em parceria com o jornalista
Márcio Zonta e o Tádzio Coelho, professor
da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Editora Iguana, 2018. Já o volume II
tem como foco o crime ambiental da Vale/BHP Billiton em Mariana/MG; Quando
vier o silêncio:o problema mineral brasileiro, Editora Expressão
Popular em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo,2020, onde também divide a autoria
com Tádzio Coelho.
No mesmo campo tem escrito prefácios e orelhas de
inúmeras obras. Muitas delas resultado de dissertações e teses, a exemplo do
livro de Juliana Barros, A mão de ferro da mineração nas terras de Carajás,
2024, tese apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Acesse AQUI
No texto de orelha, o filósofo adverte “Funcional ao sistema mundo de
produção de mercadorias, o projeto Carajás amplifica retrocessos sociais. Foi delineado
como extração infindável sem repartiação de riqueza produzida e acoberta o
fundamental da trama: ruína na periferia e acumulação econômica no centro do
capital – o que origina cálculos e equivocos de interpretação pela força que
coloca na ideia de que estamos presos à inevitabilidade do capitalismo e à
governança da despossessão”.
Em seminários e simpósios sobre a luta pela terra, subsolo, rios e floretas amazônicas, a presença de Charles é recorrente nas principais universidades do país, e, mesmo no exterior, onde já correu o mundo proferindo reflexões sobre a Amazônia na América Latina, EUA e Europa, onde empilha visitações em Oxford (Reino Unido), considerada a melhor universidade do mundo, e entre as mais antigas.
E, ainda
Guayaquil (Equador), Universidade Nacional Autónoma do México (Unam) e Bilbao (Espanha). Em solo pátrio tem participado de prosas na Universidade de Brasília (Unb), Universidade de São Paulo (USP), UFPA, Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Ato Primavera, Poemas de Barricada, Quando as armas falam, as musas calam? Bernado, meu poems de combate integram o rol de livros de poesia. Os livros de poesia, assim como a produção do campo da academia possuem como magma a luta coletiva dos historicamente colocados em condições de subordinação. Um embate crítico sobre a permanência de processos coloniais.
Parte da obra do poeta já foi sujeito de pesquisa dentro e fora da Amazônia, como evidencia a dissertação de Messias Marques apresentada na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), com o título de Os conflitos territoriais na região de Carajás na poesia de Charles Trocate, apresentada este ano, no Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Territorial da América Latina e Caribe. Acesse o trabalho AQUI
Rasuras no "Chão dos Lobos":. A poética de fronteira de Charles Trocate, nomeia a dissertação do laureado escritor e professor Airton Souza. O trabalho foi apresentado em 2019, na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), no programa de Pós Graduação em Letras. Acesse AQUI
Charles Trocate é caboclo amazônida, nascido e criado nas transitoriedades
do Pará, e nosso intelectual corre-mundo como escreveu o professor e poeta
Paulo Nunes em texto de orelha do livro Búfalo antigo, a mais recente obra da safra
do errante.
Leia artigo recente sobre a Lei Kandir
Sobre o livro Búfalo antigo
A Geografização da poética de Trocate, por Flora Paidner. Leia AQUI
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Postado por rogerio almeida às 12/26/2024 09:00:00 AM 1 comentários
terça-feira, 26 de novembro de 2024
SOBRE MOMO E ALBERTO SILVA NETO
ISMAEL MACHADO
O psiquiatra José Ângelo Gayarsa, que se notabilizou por
fazer ‘sessões e consultas’ na televisão, costumava dizer que a família- pelo
menos a nossa família tradicional ocidental- era fonte das nossas maiores
mazelas e traumas psíquicos ao longo da vida. Creio que Nelson Rodrigues
assinaria embaixo dessa afirmação com um largo sorriso no rosto.
É difícil olhar ao lado ou mesmo internamente e não ter uma
sensação de que nossas fissuras emocionais não são causadas por esses anos de
convivência familiar, negociando emoções, suprimindo dores, alimentando
fantasmas de rancores, invejas e solidões. Há saída? Difícil dizer.
Alberto Silva Neto encontrou uma. Ou não, vá se saber, numa
filosofia caetânica, de resto um ícone na vida de Alberto. Expor as fraturas e
as feridas de um relacionamento com o pai e, por tabela, com um avô não
conhecido (e que personagem fascinante) foi um modo de o ator Alberto exorcizar
o pai, o avô, a família. Prestar homenagem ainda que às vezes sombria, foi uma
solução para alguns demônios, anjos noturnos que podem atravessá-lo em noites
perdidas, deitado na rede e olhando a cidade do alto.
Momo, o espetáculo exorcismo, o monólogo das entranhas, a
peça divanesca, o teatro testemunho, ou qualquer outra definição que queiramos
ou possamos dar é, antes de tudo, um atravessar por um terreno pedregoso. Sim,
estamos vendo as águas do mar, a praia lá adiante, mas para chegar até ela, é
necessário talvez cortar os pés nas pedras afiadas que nos separam dessa
suposta recompensa. Não, não nos iludamos. Como o personagem em determinado
momento, precisaremos arrancar fora os calçados e encarar os passos nus.
Alberto Silva Neto é um monstro. É um artista-ator que chegou
a um momento de plenitude dramatúrgica onde a palavra assombro talvez seja a
melhor a nos definir quando o assistimos em cena. Sou testemunha disso. Alberto
fez parte de meu primeiro longa de ficção, Flashdance TF e eu, que sempre o
cogitei para o papel desde a escrita do roteiro, admito não estar preparado
para o que presenciei de forma tão íntima e tão intensa. Cláudio Barros, outro
gigante amado, não me deixaria mentir.
Em Momo, Alberto se despe e se veste. Se traveste de
armaduras e as joga longe. Ao encarar a vida e a morte do pai, entre cartas,
recortes, missivas que mais parecem uma garrafa jogada ao mar, ele nos amarra
ao pé da mesa da escuta. Só que essa escuta não é isenta de dor. Ela nos leva
aos nossos próprios assombros, nossos escuros, ali onde algo nos escava
feridas, nos atropela memórias. É dor feito gozo, como cantariam Gonzaguinha ou
Djavan, que já abordaram essas funduras em letras musicais. Ou aquilo que Caio
Fernando Abreu sempre dizia, sobre a dor de criar algo que é verdadeiro, no
sentido não da palavra verdade, mas aquela coisa que não nos deixa mentir
quando o espelho nos mira de volta nos sombrios momentos de solidão urbana.
O que Alberto busca e ele costuma enfatizar isso, é
ultrapassar a barreira do mero ser-estar ator e ir um pouco além. Ou muito
além. Alberto grita e chora e ri e sussurra e se cala. E entre os olhos
umedecidos ele sorri e confessa ser teatro o que faz. Mas é uma armadilha
também, pois nunca é só teatro. A vida pulsa. No efêmero e no eterno.
Há vícios e virtudes no caminho de qualquer artista. Egos
impelidos a criar e dizer e mostrar algo que são como portas entreabertas,
janelas que iluminam porões empoeirados, onde o fogo que queima gera uma cinza
pouco acessível. Não é uma tarefa fácil sacudir os esqueletos de cada armário.
Em Momo há as compreensões e incompreensões sobre os papéis
de cada um numa história masculina. Paternar. O pai, o filho, o desamparo
materno, o pai que somos, os filhos que fomos, o futuro e o passado que se
embolam. Onde o abraço? Onde o encontro? A voz tonitruante imperativa. A voz do
pai. A voz do medo. Da distância, do afeto suprimido. Pai. Descasquemos as
peles, arrancando as cascas de ferida. O que nos sobra?
Alberto entrega e pede de volta. Reclama compreensão e
aceitação. Esse sou o eu descarnado. Talvez não seja. Talvez seja apenas
teatro. Mas se teatro é vida, é a vida que está sendo jogada em nós?
Ou é simplesmente mais uma folia de momo num carnaval de ruas
desertas?
O palhaço chora. E eu o observo de meu próprio picadeiro.
Alberto? Esse quer se equilibrar na
corda lá em cima. A pergunta que me faço é: há rede para amparar a queda, se
houver?
Ave, Alberto. Te saúdo.
ISMAEL MACHADO
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Postado por rogerio almeida às 11/26/2024 04:10:00 PM 0 comentários
terça-feira, 19 de novembro de 2024
O camponês e a ditadura
Mané faleceu em agosto de 2021, aos 86 anos
Manoel da Conceição foi um dirigente camponês das bandas do Maranhão.
Durante a ditadura civil-militar foi preso, torturado e teve uma perna
amputada. Dono de rara inteligência e perspicácia, Mané militou no Bico do
Papagaio, onde foi engajado na organização sindical, educação popular e economia
solidaria. Certa feita, em intervalo durante
encontro de formação, ele afirmara que a
ditadura não havia acabado. Inocente, puro e besta, confesso que fiquei
perplexo diante da afirmativa do líder camponês. Não compreendi. Passado tanto tempo, somente
agora, com os recentes eventos que abalam a reles pública, consigo compreender
o que ele refletira nos idos da década de 1990.
Tratava ele do ethos da nossa conformação como país, estruturado
na concentração da terra, patriarcado, judiciário parcial, patrimonialismo,
nepotismo, racismo, privilégio, ideário
autoritário e uma burguesia entreguista e golpista.
Saiba mais sobre Mané AQUI
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Postado por rogerio almeida às 11/19/2024 05:17:00 PM 0 comentários
A luta pela terra no Maranhão: universidades e movimentos sociais organizam simpósio sobre o tema
Simpósio inicia no dia 25, em São Luís
Refletir sobre o incremento da violência no estado é posto como o horizonte do Simpósio A Luta pela terra no Maranhão, que inicia no dia 25, em São Luís, Maranhão. As universidades federal e estadual serão os espaços de realização dos seminários. Além de pesquisadores, representantes dos movimentos sociais relacionados com o tema engrossam o caldo da organização do evento e das reflexões. Saiba mais AQUI
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Postado por rogerio almeida às 11/19/2024 09:20:00 AM 0 comentários
quinta-feira, 14 de novembro de 2024
Tapajós Vivo: 2ª edição do festival celebra a defesa dos territórios do Baixo Amazonas
O festival é um ato político em oposição aos grandes projetos na região do Baixo Amazonas
Ocupar
a cidade a partir da arte como ferramenta de sensibilização para os males que
afetam e ameaçam a região do Baixo Amazonas é o objetivo da 2ª Edição do
Festival Tapajós Vivo. Organizado pelo
coletivo Movimento Tapajós Vivo, o ato ocorrerá na Praça Tiradentes, sexta feira,
dia 15, a parir das 18h30.
Artesanato DJ, exposição de fotografia, poesia com intervenções de
Luci Nascimento e Jonhson Portela, e música constam na programação. Marcelle
Almeida, Priscila Castro, Mestre Chico Malta, Sambatuque e Dan Salassie são
algumas das atrações musicais.
O comunicado do evento esclarece que o ato representa um manifesto contra
a contaminação do rio Tapajós, as constantes secas e uma oposição clara aos
grandes projetos agendados para a região, onde constam obras de infraestrutura,
entre elas a Ferrovia Ferrogrão, hidroelétricas, hidrovia e vários portos.
Arrecadação de alimentos: o evento receberá cestas
básicas e alimentos não perecíveis para atender as comunidades ribeirinhas que
têm padecido com as constantes secas que abalam a região. Trata-se dos
verdadeiros guardiões da floresta e de toda cosmologia e encantados que ela
representa.
Maiores
informações
Festival Tapajós Vivo
Data: 15 de Novembro
Horário: 18h30
Local: Praça Tiradentes- Santarém/PA
Saiba mais do Festival nas redes:
Instagram: Movimento Tapajós Vivo (@tapajosvivo)
Facebook: Movimento Tapajós Vivo
Comunicação Movimento Tapajós
Vivo: 93 99145-0364 (Kamila Sampaio)
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Postado por rogerio almeida às 11/14/2024 09:19:00 AM 0 comentários
domingo, 10 de novembro de 2024
Tio Walter
Cantou para subir o tio
Walter. Casa dos 80 verões pra diante. Caçula,
era o bendito fruto de um matriarcado arretado.
Morava na zona rural de São Luís, em um sítio, onde mantinha um comércio.
Em Quebra Ponte, caso eu não esteja enganado.
Dos resquícios da memória de uma rara
visita à casa dele, emerge a beleza e o cheiro doce de um jenipapeiro. A frondosa
árvore produzia uma bela sombra. Os frutos esparramados pelo chão perfumavam a
entrada da casa. Compotas, doces, licores são produzidos a partir do jenipapo.
Fala-se que os galhos da árvore é
o mais recomendado para a produção do arco do berimbau. Berimbau sim, berimbau
não....berimba, berimba, berimbau...tio Walter cantou pra subir....foi fazer
meia lua em outro arraial.
Ao contrário das meninas, que
sempre organizavam reuniões, o tio era recluso. Era miúdo. Franzino. Pouquinho. Quando
jovem foi atropelado por um caminhão. Ficou todo esbandalhado. Inúmeras vezes
recordo de ir ao hospital levar refeições para ele. Não lembro por quanto tempo
ficou internado. Todavia, saiu com sequelas.
Em uma das recorrentes idas a São
Luís para visitar Mainha, ele apareceu para um almoço. Divertido e falador. Queria
saber como eu tinha ficado. Conheceu
Docinho, que morria de rir das potocas dele.
Na ocasião, contou um causo que teria ido de bicicleta até às proximidades do município de Rosário. Trata-se de uma espécie de região metropolitana de São Luís. Salve engano, a proeza foi por conta de algum rabo de saia. O esforço o fez sangrar. No dia do almoço, antes de partir, fez a "intera" para a breja.
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Postado por rogerio almeida às 11/10/2024 01:31:00 PM 0 comentários
terça-feira, 5 de novembro de 2024
Pesquisadora Thiane Neves apresenta tese sobre apropriações de tecnologias por coletivos de mulheres negras do Baixo Amazonas
NEGUINHAS QUE ARMAM QUIZUMBA: debates sobre ações políticas e apropriações das tecnologias pelas herdeiras de Ananse da Amazônia Paraense nomeia a tese de autoria da pesquisadora paraense Thiane Neves, apresentada em julho, na Universidade Federal da Bahia, no Programa de Pós Graduação em Comunicação. Ela será apresentada nesta quarta-feira, dia 06, na sala 208, no Prédio Laranjão, no campus da Ufopa Tapajós.
Em linhas gerais a investigação aborda o uso das tecnologias por coletivos
de mulheres negras, na construção de ações e redes de políticas afirmativas.
Analisa as múltiplas relações destes grupos com as tecnologias digitais, seus
enredamentos, usos e as especificidades de seus processos de apropriações.
A banca examinadora considerou o trabalho como de excelência, e o recomendou
para publicação. A iniciativa do evento faz parte do projeto de extensão Luta
pela terra na Amazônia, vinculado ao curso de Gestão Pública e Desenvolvimento
Regional.
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Postado por rogerio almeida às 11/05/2024 07:59:00 PM 0 comentários
segunda-feira, 4 de novembro de 2024
Expropriação e resistência camponesa na Amazônia é tema de seminário do Curso de Pós Graduação de Geografia da USP
O debate terá contribuições de pesquisadores da Amazônia e de movimentos sociais.
Entre os dias 7 e 8 de novembro
de 2024, às 17h30, na Sala de Vídeo do Departamento de Geografia, ocorrerá o Seminário Expropriação, (re) produção do
capital e resistência camponesa na Amazônia nos anos 2020. A iniciativa é do Laboratório de Geografia
Agrária, o formato é híbrido.
O Objetivo do evento é contribuir
para uma reflexão sobre o momento atual das disputas territoriais na Amazônia e
a centralidade da luta pela terra para os processos de acumulação no
capitalismo contemporâneo.
Constam na agenda de debates
pesquisadores da UEPA, UFOPA, UNESP, IFSP e USP, e representantes do MST, MAM
(Movimento pela Soberania Popular na Mineração ) e da CPT (Comissão Pastoral da Terra).
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Postado por rogerio almeida às 11/04/2024 09:16:00 AM 0 comentários

















