sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Dorothy Stang, 20 anos de martírio


 

Lúcio Flávio Pinto lança livro de memórias



Como me tornei um Amazônida: Memórias de um jornalista investigativo na maior floresta tropical do planeta é uma obra marcante que entrelaça as experiências pessoais de Lúcio Flávio Pinto com suas quase seis décadas de cobertura jornalística na Amazônia. Ao longo de 35 capítulos, o jornalista investigativo revela não apenas as transformações da região, mas também sua própria metamorfose de observador a defensor apaixonado da floresta.  Matéria do site Amazônia Real. 


Sobrados, butecos e óbitos

Tachinha bateu o catolé. Crioulo também. Rosa, a filha do poeta Tribuzzi teve o mesmo destino. Em único folego o cabra enfia um obituário noutro. Tanta gente. Muitos não tenho a exata recordação de convivência. Não recordo a aparência. Tempos distantes. Anos de 1980. Muitos simplesmente sumiram.  Uma longaaa lista.

Tachinha era colega de goró. Negro retinto. Derradeira vez que o vi defendia um troco como segurança no banco de sangue da cidade. Uma ironia para um biriteiro dedicado.  Ao passar, ele gritou pelo meu apelido da guarita. Combinamos uma cerveja que nunca sucedeu.

Crioulo já era um senhor prestes a se aposentar quando o conheci. Deveria ter um metro e oitenta de altura. Esguio. Piadista incorrigível. Ainda que radicado no Maranhão há anos, guardava o jeito de antigos malandros da Lapa, do Rio de Janeiro.

Trejeitos expressos no jeito de falar, andar, brincar com os parceiros de bar. Ao ser interpelado por algum colega, sempre retrucava: sóóóóó!

Rosa era alvinha. Filha de um português jornalista e poeta. O pai era próximo ao Sarney.   Fazer parte do reinado da família em certa medida sinalizava boa ventura. A casa da família era generosa. Ficava em frente da residência do poeta Nauro Machado. Reconhecido escrevinhador, traduzido para alguns idiomas.

A funcionária pública acendia um cigarro no fiofó do outro. Uma compulsão. Ela era elemento feminino raro em espaço onde predominava a macharada. Todos a respeitavam. Ainda que cuspissem no chão, coçassem o saco com desenvoltura e despejassem toda ordem de machismo.

Entre os cabras, não havia quem não desejasse petiscar um gomo daquele corpo boleado. Roçar a barba mal feita naquele rosto de bolacha Maria ou beijar aquela boca de nicotina de elevada concentração. Um cinzeiro, praticamente. 

O coração tombou Tachinha e Rosa. Crioulo rodou prestes a somar 90 verões. Morava só. A casa tinha um sistema de vigilância. Não sei se a parentela distante tinha acesso.  O buteco cheira a fim de festa.

Produtos rareiam na prateleira, onde um dia tudo abundava. Inclusive um robusto caderno de fiados. O odor de fungo toma o ambiente onde imperam gambiarras na elétrica e hidráulica.

Naquela manhã um faz tudo passou por lá. Indagou da possibilidade de fazer o reparo das goteiras. Chove a cântaros esses dias. O biscaite não rolou. O comerciante justificou falta de recurso.

O Centro da cidade denota solidão. Mais de cem anos. Sobrados de todos os tamanhos espelham abandono. Tijolos fecham janelas. Paredes possuem seus azulejos saqueados. Alguns prédios metamorfosearam-se em estacionamentos.

Pedintes, dependentes químicos, aposentados, pés inchados, prestadores de serviços sexuais vicejam sobre os paralelepípedos, por entre becos e vielas.  Foram-se as fofoqueiras do Poema Sujo. Teimam alguns pregoeiros. Negociantes de cuscuz e sorvetes típicos.

Uma tristeza sem fim. Tristeza não tem fim.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Acampamento indígena de Belém esclarece manobras do governador Helder Barbalho

A coordenação do acampamento no prédio da Seduc e exige a revogação da Lei 10.820  e a exoneração do secretário 

Foto: @indiazinha.viajante


Os indígenas que ocupam o prédio da Seduc desde o dia 14 de janeiro informam que o movimento de ocupação continua e não houve, até então, nenhum acordo com o governo do Estado.

A agenda do governador Helder Barbalho na tarde de hoje, 3, foi com indígenas alinhados aos órgãos do próprio governo do Estado, alguns inclusive detentores de cargos comissionados. Eles não participam do movimento de ocupação e não têm legitimidade e nem autonomia para negociar a pauta do movimento indígena que ocupa a Seduc, uma vez que possuem estreitas relações com as autoridades que aprovaram a Lei 10.820, e atacam diretamente a educação pública, os povos indígenas e as comunidades tradicionais.

As lideranças que ocupam a Seduc estranham, também, a forma desigual e pouco isonômica com o que o governo do Estado trata os referidos movimentos, considerando que a reunião ocorrida na semana passada, articulada pelo Ministério dos Povos Indígenas, foi sob forte aparato militar, com indígenas sendo intimidados e até impedidos de fazer uso do celular na reunião.

Surpreendentemente, na reunião de hoje com indígenas alinhados ao governo do Estado, o governador Helder Barbalho não exigiu reunir apenas com uma comissão, não fez uma operação de guerra com fechamento do trânsito e aparato militar e nem proibiu filmagens e o uso de imagens, como se quisesse usar nossos povos de forma folclórica e como peça de propaganda governamental.

Os indígenas que ocupam a Seduc ressaltam que, a fim de repor a verdade dos fatos, a Defensoria Pública da União ingressou com uma ação civil pública, exigindo que o governo do Pará seja impedido de propagar informações falsas sobre as negociações com o movimento indígena.

Por fim, os indígenas reiteram o convite para que o governador Helder Barbalho compareça a ocupação da Seduc, que segue em defesa da revogação da Lei 10.820 e da exoneração do secretário Rossieli Soares.

 

Belém, 3 de fevereiro de 2025.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Ufopa realiza webnário sobre ataque à educação indígena



Leia a programação AQUI

 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Paraíso

Não combina a dor com o meu carnaval, ainda que a estrada que leve ao Paraíso seja repleta de armadilhas, percalços e desprovida de asfalto.  É de barro o chão do Eden. Amarelo. Amarelinho, tal as águas do Amazonas.

Águas de chuva, águas de esgoto correm por entre as suas voçorocas da inquietude. Em gesto de teimosia, apesar das imundícies, germinam flores de Amsterdam em alegria. A alegria é um ato de amor, por mais obscuro soe o horizonte.

Noite alta. Corações ao léu, sob o sereno o Homem da Meia Noite e a Mulher do Meio Dia a caçarem o canto para um remanso. Um chamego. Um dengo. A ternura vence o cansaço. Amar é ponte. É potente. O choro da cuíca convida ao baile. Aquece o peito. Gostoso como uma comida quente.

Comida quente é que tem mais sabor. O sabor das bocas em festa não se taxa. Não tem preço. Vale o apreço. É ginga, é malícia, pés descalços. É tesão, é cerveja, é beijo, é calor. Coração aquecido.  Panos quentes cura qualquer dor.

A boca na boca. A boca na nuca. A boca na mama. A boca em todo canto entope o coração de festa. A boca cheia de fome devora o sexo. Dança em rejubilo sobre as cinzas da quarta feira. E, logo cedo, ao invés de café, sorve uma breja ao som de um samba de Dona Ivone. Mas, poderia ser Cartola. 

A madrugada anuncia o nascer do dia. Felinos em telhado de zinco quente a danar em carícias. Naquele momento, nenhuma guerra ali prospera. Importa quase nada a porta do hotel lacrada por lotação, e a outra por negligência. Urge o carinho. Madrugada adentro tonteiam os felinos de rua em busca de abrigo. Chove lá fora.

Todos foram expulsos do Paraíso. É imposto ganhar os dias com o fruto do suor. No Paraíso o amor e o sexo são punidos com o trabalho. O trabalho é castigo. Os felinos conspiram em favor da preguiça. Chamegos e delícias em estandarte mais elevado anuncia o bloco dos irrecuperáveis de afeto.

A madrugada assanha o corpo vencido de amor. Um toque. Um cheiro. O bloco na rua. Ela esguia. Toda nua. Dança. Esquiva-se das nuvens cinzas. Cheiro de sapoti. Carne de caju. Ri, chora, beija, goza. Estrebucha de prazer. Cachaça a lanhar a goela. Pimenta espremida no prato. Égua no cio.

É um querer bem a vida. Em variadas arenas o riso segue a combater o tédio dos dias.

Alvorada, na encruza é uma beleza. Não há tristeza! O sol a tudo colore: pandeiros, terreiros, ancas, risos, folhas, frutos, plantas, ebós, ratos, cães e gatos. 



Fazenda Mutamba: em meio à COP, juiz ordena reintegração de posse em favor de grileiro após execuções de camponeses

Três meses após execução de camponeses pela PM, juiz ordena medida de reintegração de posse em favor de grileiro

Três meses se passaram da chacina na Mutamba promovida pela Polícia Civil do Estado, sob o comando do ex-delegado da Delegacia Especial de Conflitos Agrários (DECA), Antônio Mororó, que de forma covarde, em uma madrugada, dispararam rajadas de tiros contra camponeses pobres sem terra, que dormiam em um barraco, resultando no assassinato de dois trabalhadores, na prisão ilegal de quatro deles e vários outros feridos. Trabalhadores que haviam chegado há poucos dias no local, na esperança de receberem um lote de terra, para morarem e produzirem alimentos.

Mesmo diante de lutas jurídicas travadas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), com apoio de organizações de defesa dos direitos humanos, ainda não foi possível processar e punir os policiais responsáveis pelos crimes. O delegado Mororó foi afastado da função de sua função, porém foi promovido a chefe da seccional urbana de Polícia Civil de Marabá, o que gera uma insegurança por parte das famílias que continuaram na área e daquelas que aos poucos estão retomando sua rotina.

Mesmo com as dificuldades nos acessos a área, causadas pelo polícia, com o propósito de prejudicar a locomoção das famílias na área, ou seja, o seu direito de ir e vir, ainda mais agora durante esse período, de chuvas frequentes, o que tem piorado as condições das estradas, muitas famílias já retornaram e estão desenvolvendo suas atividades produtivas, com plantio de culturas temporárias e criação de pequenos, médios e grandes animais, aguardando que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) faça a aquisição da área para fins de reforma agrária.

Tivemos a informação de que a direção do INCRA, em nível nacional, e da Superintendência do Sul e Sudeste do Pará, já demonstraram interesse em resolver o impasse em favor das famílias, que desde o ano de 2005 vêm lutando contra pistoleiros e policiais do Estado para garantirem a permanência na área.

Os advogados de defesa das famílias se manifestaram junto ao Tribunal de Justiça do Pará no sentido de solicitando a suspensão da sentença de reintegração de posse em favor do grileiro, mas o tribunal ainda não se manifestou. Diante da situação, o juiz da Vara Agrária de Marabá, Amarildo Mazute, conhecido como o pai dos latifundiários, mais que depressa, deferiu um pedido feito pelos advogados do grileiro, Aziz Mutran, de CUMPRIMENTO PROVISÓRIO DE SENTENÇA, que permite o pedido de reintegração de posse mesmo antes de serem julgados os recursos da apelação.

Ainda mais grave, é a covardia da parte da “justiça”, porque as famílias foram intimadas a desocuparem voluntariamente a área e, caso não façam, o juiz deve marcar uma audiência para determinar a data para a desocupação forçada. Com isto, mais uma chacina, de proporção maior, poderá ocorrer sob o comando do juiz, porque as famílias não estão dispostas a abandonarem suas posses

Diante de mais uma iminente chacina, convocamos todas entidades de apoio a luta pela terra, bem como todos os movimentos de lutas para, de imediato, compormos uma frente em defesa das famílias da ocupação Mutamba, junto com o Comitê de Defesa da Luta Camponesa no Sul e Sudeste do Pará que se encontra em conformação.

Viva luta camponesa! Viva a luta das famílias da Mutamba! Marabá, 17 de janeiro de 2025.


terça-feira, 31 de dezembro de 2024

O centenário de Benedicto Monteiro e a indiferença da Secretaria de Cultura com o interior

A exposição pela passagem do centenário de Benedicto Monteiro ficou restrita à Belém. 



No início do mês de outubro encaminhamos à Secretaria de Cultura do estado do Pará um ofício. A demanda posta residia em possibilitar aos moradores de Santarém e Alenquer acesso à exposição pela passagem do centenário do escritor, político, advogado e defensor dos direitos humanos Benedicto Monteiro. 

Por conta da indiferença, o reenviamos em outras ocasiões. Ainda assim, nunca obtivemos uma resposta oficia, apesar da troca de algumas mensagens a partir de aplicativos de comunicação da Secretaria.

A exposição ficou restrita ao público da capital do estado no primeiro semestre do corrente ano.

Publicizar o acesso de jovens professores e estudantes a obra do ximango era o horizonte da iniciativa dos professores Rogerio Almeida e Márcio Benassuly. Ambos do curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional, da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). 

Benedicto Monteiro

Monteiro é rebento das barrancas de Alenquer, Baixo Amazonas ou Oeste paraense. A sua obra versa sobre o universo da região. E, é justo sobre as realidades da várzea, o jeito de falar de sua gente, os elementos econômicos, os sociais e os políticos que a tetralogia versa: A Terceira Margem Verde Vagomundo, Minossauro e Aquele Um.

O Conselho Superior da UFOPA  concedeu ao escritor título de Doutor Honoris

Lonjuras

O vento soprou tão forte que uma estrela despencou do céu.

Desfolhou as frutíferas da casa vizinha

Inundou de secas folhas o quintal

Arrancou os grilos das paredes

Sufocou cigarras

Tombou felinos dos muros

Espantou as chuvas para outras paragens

Só não trouxe o meu amor

Mas, arrastou para outros mundos a sombra da bananeira

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Militante social do Pará é selecionado para ministrar aula na pós graduação da UFBA

Trocate ministrará aulas no curso de pós graduação de Geografia, da UFBA a partir de 2025. 
Por Rogerio Almeida

Foto: Ícaro Matos

Charles Trocate, militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) foi selecionado em concurso da Universidade Federal da Bahia (UFBA), para ministrar aulas no curso de Pós-Graduação em Geografia, na categoria de notório saber. A categoria confere título de doutor ao profissional ou especialista que contribui em determinada área de conhecimento/saber e na defesa dos direitos humanos.   

Trocate é morador da Vicinal do Limão, no projeto de assentamento da reforma agrária Palmares II do MST, localizado no município de Parauapebas, no sudeste do Pará. Uma delicada região de disputa pela terra, subsolo, rios e florestas. É deste ambiente que nasce o ser reflexivo sobre as realidades marcadas pela expropriação e a pilhagem das riquezas naturais. 

Filho de migrantes maranhenses, desde jovem fez parte dos quadros do MST. Dona Lurdes, a mãe, o conduziu. Nas fileiras do movimento aprendeu a ler o mundo, além de cultivar o apreço pela leitura, onde devorava de literatura de cordel a Tolstoi. 

Quando do Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, Trocate integrava a marcha que assassinou 19 sem terra sob a ordem do governo Almir Gabriel (PSDB), Paulo Sette Cãmara, secretário de Segurança, e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), presidente da República.

Trata-se do momento de avanço das agendas neoliberais, quando o imperativo era privatizar setores estratégicos. Assim FHC viabilizou a entrega da Vale ao mercado financeiro e implementou a Lei Kandir, que pune os estados exportadores de produtos primários. Privar era a ordem, inclusive da vida. 

O título de doutor e a seleção no pleito para ministrar aulas na UFBA é um reconhecimento pelas contribuições nos campos das artes, da filosofia e  das reflexões que o poeta produz sobre a Amazônia ao longo dos anos. Uma toada marcada pelo zelo ao elemento estético, grande  sensibilidade política/poética e um profundo senso de justiça.

Na apresentação do memorial proposta pelo grupo Geografar/UFBA e outros pares, o professor Ricardo Junior de Assis Fernandes Gonçalves, sobre as contribuições do Charles, dispara que ". Com as orquídeas que carrega no bolso, o poeta enfrenta as máquinas de poder, o “amor trôpego do mundo”, as injustiças, os latifúndios, os crimes ambientais e as violências nos arrabaldes do país".  

O memorial realça tanto as contribuições no campo da poesia, quanto as obras consideradas como acadêmicas, os manifestos políticos, as proposições do campo da política, da economia e do social. Conta ainda com cartas de inúmeras instituições e de programas de pós graduação, onde é recorrente a presença do poeta militantes. 

E, ainda, manifestações de instituições entrincheiras nos combates de defesa pela reforma agrária, meio ambiente e direitos humanos, a exemplo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), MST e do próprio MAM.  Movimento forjado nas barrancas do Carajás, e hoje territorializado Brasil afora. 

Sobre a mineração, entre os títulos em que contribuiu de alguma forma como autor ou organizador, constam: A Questão Mineral no Brasil,cujo recorte espacial é a região de Carajás, no Pará, em parceria com o jornalista Márcio Zonta e o Tádzio Coelho, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Editora Iguana, 2018. Já o volume II tem como foco o crime ambiental da Vale/BHP Billiton em Mariana/MG; Quando vier o silêncio:o problema mineral brasileiro, Editora Expressão Popular em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo,2020, onde também divide a autoria com Tádzio Coelho.

No mesmo campo tem escrito prefácios e orelhas de inúmeras obras. Muitas delas resultado de dissertações e teses, a exemplo do livro de Juliana Barros, A mão de ferro da mineração nas terras de Carajás, 2024, tese apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Acesse AQUI

No texto de orelha, o filósofo adverte “Funcional ao sistema mundo de produção de mercadorias, o projeto Carajás amplifica retrocessos sociais. Foi delineado como extração infindável sem repartiação de riqueza produzida e acoberta o fundamental da trama: ruína na periferia e acumulação econômica no centro do capital – o que origina cálculos e equivocos de interpretação pela força que coloca na ideia de que estamos presos à inevitabilidade do capitalismo e à governança da despossessão”.  

Em seminários e simpósios sobre a luta pela terra, subsolo, rios e floretas amazônicas, a presença de Charles é recorrente nas principais universidades do país, e, mesmo no exterior, onde já correu o mundo proferindo reflexões sobre a Amazônia na América Latina, EUA e Europa, onde empilha  visitações em Oxford (Reino Unido), considerada a melhor universidade do mundo, e entre as mais antigas.

E, ainda Guayaquil (Equador), Universidade Nacional Autónoma do México (Unam) e Bilbao (Espanha). Em solo pátrio tem participado de prosas na Universidade de Brasília (Unb), Universidade de São Paulo (USP), UFPA, Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA).   

Ato Primavera, Poemas de Barricada,  Quando as armas falam, as musas calam? Bernado, meu poems de combate integram o rol de livros de poesia. Os livros de poesia, assim como a produção do campo da academia possuem como magma a luta coletiva dos historicamente colocados em condições de subordinação. Um embate crítico sobre a permanência de processos coloniais.  

Parte da obra do poeta já foi sujeito de pesquisa dentro e fora da Amazônia, como evidencia a dissertação de Messias Marques apresentada na Universidade Estadual  Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), com o título de Os conflitos territoriais na região de Carajás na poesia de Charles Trocate, apresentada este ano, no Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Territorial da América Latina e Caribe. Acesse o trabalho AQUI 

Rasuras no "Chão dos Lobos":. A poética de fronteira de Charles Trocate, nomeia a dissertação do laureado escritor e professor Airton Souza. O trabalho foi apresentado em 2019, na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), no programa de Pós Graduação em Letras.  Acesse AQUI


Charles Trocate é caboclo amazônida, nascido e criado nas transitoriedades do Pará, e nosso intelectual corre-mundo como escreveu o professor e poeta Paulo Nunes em texto de orelha do livro Búfalo antigo, a mais recente obra da safra do errante.


Em poesia é sua oitava aparição desde que decidiu escrever para driblar a miséria que confrontava sua adolescência. Nas últimas duas décadas transformou-se em militante político e escritor, e escritor e militante político. Pelo último livro que agora vem a público é fácil perceber que não se rendeu em nenhuma das frentes, alterando de maneira permanente estes lugares que escolheu para viver e imaginar. 

O professor e jornalista Felipe Milanez (UFBA) sobre os combates empreendidos por Trocate no front da Amazônia, avalia que " É uma luta de ideias contra as formas hegemônicas de dominação e construção de mundos, formas pré-estabelecidas de se pensar, das epistemologias ocidentais que constroem os conhecimentos do mundo para servir a um tipo de mundo, o mundo colonial, machista, capitalista  desigual e contraditório". 

Parceiro do MST, Jorge Neri, ratifica a necessidade em incomodar o coro dos contentes e do afrontar as cercas do monopólio da palavra, que, assim como as cercas da terra grilada, necessitam ser afrontadas. Sobre Trocate,  argumenta" Charles é multifacético. É poeta, cantador, formador, agitador de massas, organizador, um cronista de seu tempo, tempo esse que dividido entre barracos de lona quente e as vezes o conforto do espaço de sua casa, aqui perto, na Vicinal do Limão, no assentamento Palmares. Ele se inclina a decifrar enigmas do tempo do não tempo, sabendo claro que o espaço das disputas que circulam no mundo das ideias, é o território onde se expressa de modo mais cruel, a exploração do homem pelo homem."

Sobre a comenda recebida, Charles Trocate expressa agradecimento pelo esforço coletivo dos inúmeros sujeitos envolvidos na peleja, e considera que, "só posso expressar um sentimento de contenteza. Digo a vocês e os muitos e muitas que saudaram essa iniciativa, com cuidado politico e com empolgação, os que foram além da razão, os que sentiram e o fizeram por prazer e por desprendimento este momento acontecer.  Sim, continuo acreditando que se há algo por fazer, façamos também pelas batalhas das ideias."

Leia artigo recente  sobre a Lei Kandir

Sobre o livro Búfalo antigo

A Geografização da poética de Trocate, por Flora Paidner. Leia AQUI

 




terça-feira, 26 de novembro de 2024

SOBRE MOMO E ALBERTO SILVA NETO

 ISMAEL MACHADO

O psiquiatra José Ângelo Gayarsa, que se notabilizou por fazer ‘sessões e consultas’ na televisão, costumava dizer que a família- pelo menos a nossa família tradicional ocidental- era fonte das nossas maiores mazelas e traumas psíquicos ao longo da vida. Creio que Nelson Rodrigues assinaria embaixo dessa afirmação com um largo sorriso no rosto.

É difícil olhar ao lado ou mesmo internamente e não ter uma sensação de que nossas fissuras emocionais não são causadas por esses anos de convivência familiar, negociando emoções, suprimindo dores, alimentando fantasmas de rancores, invejas e solidões. Há saída? Difícil dizer.

Alberto Silva Neto encontrou uma. Ou não, vá se saber, numa filosofia caetânica, de resto um ícone na vida de Alberto. Expor as fraturas e as feridas de um relacionamento com o pai e, por tabela, com um avô não conhecido (e que personagem fascinante) foi um modo de o ator Alberto exorcizar o pai, o avô, a família. Prestar homenagem ainda que às vezes sombria, foi uma solução para alguns demônios, anjos noturnos que podem atravessá-lo em noites perdidas, deitado na rede e olhando a cidade do alto.

Momo, o espetáculo exorcismo, o monólogo das entranhas, a peça divanesca, o teatro testemunho, ou qualquer outra definição que queiramos ou possamos dar é, antes de tudo, um atravessar por um terreno pedregoso. Sim, estamos vendo as águas do mar, a praia lá adiante, mas para chegar até ela, é necessário talvez cortar os pés nas pedras afiadas que nos separam dessa suposta recompensa. Não, não nos iludamos. Como o personagem em determinado momento, precisaremos arrancar fora os calçados e encarar os passos nus.

Alberto Silva Neto é um monstro. É um artista-ator que chegou a um momento de plenitude dramatúrgica onde a palavra assombro talvez seja a melhor a nos definir quando o assistimos em cena. Sou testemunha disso. Alberto fez parte de meu primeiro longa de ficção, Flashdance TF e eu, que sempre o cogitei para o papel desde a escrita do roteiro, admito não estar preparado para o que presenciei de forma tão íntima e tão intensa. Cláudio Barros, outro gigante amado, não me deixaria mentir.

Em Momo, Alberto se despe e se veste. Se traveste de armaduras e as joga longe. Ao encarar a vida e a morte do pai, entre cartas, recortes, missivas que mais parecem uma garrafa jogada ao mar, ele nos amarra ao pé da mesa da escuta. Só que essa escuta não é isenta de dor. Ela nos leva aos nossos próprios assombros, nossos escuros, ali onde algo nos escava feridas, nos atropela memórias. É dor feito gozo, como cantariam Gonzaguinha ou Djavan, que já abordaram essas funduras em letras musicais. Ou aquilo que Caio Fernando Abreu sempre dizia, sobre a dor de criar algo que é verdadeiro, no sentido não da palavra verdade, mas aquela coisa que não nos deixa mentir quando o espelho nos mira de volta nos sombrios momentos de solidão urbana.

O que Alberto busca e ele costuma enfatizar isso, é ultrapassar a barreira do mero ser-estar ator e ir um pouco além. Ou muito além. Alberto grita e chora e ri e sussurra e se cala. E entre os olhos umedecidos ele sorri e confessa ser teatro o que faz. Mas é uma armadilha também, pois nunca é só teatro. A vida pulsa. No efêmero e no eterno.

Há vícios e virtudes no caminho de qualquer artista. Egos impelidos a criar e dizer e mostrar algo que são como portas entreabertas, janelas que iluminam porões empoeirados, onde o fogo que queima gera uma cinza pouco acessível. Não é uma tarefa fácil sacudir os esqueletos de cada armário.

Em Momo há as compreensões e incompreensões sobre os papéis de cada um numa história masculina. Paternar. O pai, o filho, o desamparo materno, o pai que somos, os filhos que fomos, o futuro e o passado que se embolam. Onde o abraço? Onde o encontro? A voz tonitruante imperativa. A voz do pai. A voz do medo. Da distância, do afeto suprimido. Pai. Descasquemos as peles, arrancando as cascas de ferida. O que nos sobra?

Alberto entrega e pede de volta. Reclama compreensão e aceitação. Esse sou o eu descarnado. Talvez não seja. Talvez seja apenas teatro. Mas se teatro é vida, é a vida que está sendo jogada em nós?

Ou é simplesmente mais uma folia de momo num carnaval de ruas desertas?

O palhaço chora. E eu o observo de meu próprio picadeiro. Alberto?  Esse quer se equilibrar na corda lá em cima. A pergunta que me faço é: há rede para amparar a queda, se houver?

Ave, Alberto. Te saúdo.

ISMAEL MACHADO

 

terça-feira, 19 de novembro de 2024

O camponês e a ditadura

Mané faleceu em agosto de 2021, aos 86 anos

Foto: Marcelo Cruz

Manoel da Conceição foi um dirigente camponês das bandas do Maranhão. Durante a ditadura civil-militar foi preso, torturado e teve uma perna amputada. Dono de rara inteligência e perspicácia, Mané militou no Bico do Papagaio, onde foi engajado na organização sindical, educação popular e economia solidaria.  Certa feita, em intervalo durante  encontro de formação, ele afirmara que a ditadura não havia acabado. Inocente, puro e besta, confesso que fiquei perplexo diante da afirmativa do líder camponês.  Não compreendi. Passado tanto tempo, somente agora, com os recentes eventos que abalam a reles pública, consigo compreender o que ele refletira nos idos da década de 1990.  Tratava ele do ethos da nossa conformação como país, estruturado na concentração da terra, patriarcado, judiciário parcial, patrimonialismo, nepotismo, racismo, privilégio,  ideário autoritário e uma burguesia entreguista e golpista.  

Saiba mais sobre Mané AQUI

A luta pela terra no Maranhão: universidades e movimentos sociais organizam simpósio sobre o tema

 Simpósio inicia no dia 25, em São Luís

Refletir sobre o incremento da violência no estado é posto como o horizonte do Simpósio A Luta pela terra no Maranhão, que inicia no dia 25, em São Luís, Maranhão.  As universidades federal e estadual serão os espaços de realização dos seminários.  Além de pesquisadores, representantes dos movimentos sociais relacionados com o  tema engrossam o caldo da organização  do evento e das reflexões.  Saiba mais AQUI

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Tapajós Vivo: 2ª edição do festival celebra a defesa dos territórios do Baixo Amazonas

 O festival é um ato político em oposição aos grandes projetos na região do Baixo Amazonas



Ocupar a cidade a partir da arte como ferramenta de sensibilização para os males que afetam e ameaçam a região do Baixo Amazonas é o objetivo da 2ª Edição do Festival Tapajós Vivo.  Organizado pelo coletivo Movimento Tapajós Vivo, o ato ocorrerá na Praça Tiradentes, sexta feira, dia 15, a parir das 18h30. 

Artesanato DJ, exposição de fotografia, poesia com intervenções de Luci Nascimento e Jonhson Portela, e música constam na programação. Marcelle Almeida, Priscila Castro, Mestre Chico Malta, Sambatuque e Dan Salassie são algumas das atrações musicais.

O comunicado do evento esclarece que o ato representa um manifesto contra a contaminação do rio Tapajós, as constantes secas e uma oposição clara aos grandes projetos agendados para a região, onde constam obras de infraestrutura, entre elas a Ferrovia Ferrogrão, hidroelétricas, hidrovia e vários portos.

Arrecadação de alimentos:  o evento receberá cestas básicas e alimentos não perecíveis para atender as comunidades ribeirinhas que têm padecido com as constantes secas que abalam a região. Trata-se dos verdadeiros guardiões da floresta e de toda cosmologia e encantados que ela representa.



Leia a íntegra do release AQUI

Maiores informações

Festival Tapajós Vivo 

Data: 15 de Novembro 

Horário: 18h30 

Local: Praça Tiradentes- Santarém/PA

Saiba mais do Festival nas redes:

Instagram: Movimento Tapajós Vivo (@tapajosvivo)

Facebook: Movimento Tapajós Vivo

Comunicação Movimento Tapajós Vivo: 93 99145-0364 (Kamila Sampaio)


domingo, 10 de novembro de 2024

Tio Walter

 

Cantou para subir o tio Walter.  Casa dos 80 verões pra diante. Caçula, era o bendito fruto de um matriarcado arretado.  Morava na zona rural de São Luís, em um sítio, onde mantinha um comércio.  Em Quebra Ponte, caso eu não esteja enganado.  

Dos resquícios da memória de uma rara visita à casa dele, emerge a beleza e o cheiro doce de um jenipapeiro. A frondosa árvore produzia uma bela sombra. Os frutos esparramados pelo chão perfumavam a entrada da casa. Compotas, doces, licores são produzidos a partir do jenipapo.

Fala-se que os galhos da árvore é o mais recomendado para a produção do arco do berimbau. Berimbau sim, berimbau não....berimba, berimba, berimbau...tio Walter cantou pra subir....foi fazer meia lua em outro arraial.

Ao contrário das meninas, que sempre organizavam reuniões, o tio era recluso. Era miúdo. Franzino. Pouquinho. Quando jovem foi atropelado por um caminhão. Ficou todo esbandalhado. Inúmeras vezes recordo de ir ao hospital levar refeições para ele. Não lembro por quanto tempo ficou internado. Todavia, saiu com sequelas.

Em uma das recorrentes idas a São Luís para visitar Mainha, ele apareceu para um almoço. Divertido e falador. Queria saber como eu tinha ficado.  Conheceu Docinho, que morria de rir das potocas dele.

Na ocasião, contou um causo que teria ido de bicicleta até às proximidades do município de Rosário. Trata-se de uma espécie de região metropolitana de São Luís. Salve engano, a proeza foi por conta de algum rabo de saia. O esforço o fez sangrar. No dia do almoço, antes de partir, fez a "intera" para a breja. 

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Pesquisadora Thiane Neves apresenta tese sobre apropriações de tecnologias por coletivos de mulheres negras do Baixo Amazonas



NEGUINHAS QUE ARMAM QUIZUMBA: debates sobre ações políticas e apropriações das tecnologias pelas herdeiras de Ananse da Amazônia Paraense nomeia a tese de autoria da pesquisadora paraense Thiane  Neves, apresentada em julho,  na Universidade Federal da Bahia, no Programa de Pós Graduação em Comunicação.  Ela será apresentada nesta quarta-feira, dia 06, na sala 208, no Prédio Laranjão, no campus da Ufopa Tapajós.

Em linhas gerais a investigação aborda o uso das tecnologias por coletivos de mulheres negras, na construção de ações e redes de políticas afirmativas. Analisa as múltiplas relações destes grupos com as tecnologias digitais, seus enredamentos, usos e as especificidades de seus processos de apropriações.

A banca examinadora considerou o trabalho como de excelência, e o recomendou para publicação. A iniciativa do evento faz parte do projeto de extensão Luta pela terra na Amazônia, vinculado ao curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional.   

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Expropriação e resistência camponesa na Amazônia é tema de seminário do Curso de Pós Graduação de Geografia da USP

 O debate terá contribuições de pesquisadores da Amazônia e de movimentos sociais. 

Entre os dias 7 e 8 de novembro de 2024, às 17h30, na Sala de Vídeo do Departamento de Geografia, ocorrerá o  Seminário Expropriação, (re) produção do capital e resistência camponesa na Amazônia nos anos 2020.  A iniciativa é do Laboratório de Geografia Agrária, o formato é híbrido.  

O Objetivo do evento é contribuir para uma reflexão sobre o momento atual das disputas territoriais na Amazônia e a centralidade da luta pela terra para os processos de acumulação no capitalismo contemporâneo.

Constam na agenda de debates pesquisadores da UEPA, UFOPA, UNESP, IFSP e USP, e representantes do MST, MAM (Movimento pela Soberania Popular na Mineração ) e da  CPT (Comissão Pastoral da Terra).




sexta-feira, 1 de novembro de 2024

A campanha

2º turno. Nada de fila na zona. Nem santinhos nas ruas. Menos ainda na política.  Vale tudo no amor e na política? Em Santarém os dramas/tramas políticos promoveram a convergência de três oligarquias em um flanco. Noutro, um nem-nem com mais 40 anos,  ombreado por uma jovem oriunda da agricultura capitalista do MT. Arrearam grana no intento em levar no 1º round. Não rolou.  O embate mais parecia um cortejo de estupidez. 

O barulho imperou no Centro e nas periferias com motociatas e carreatas usadas como o principal instrumento de “comunicação”. Ganha quem mais ruído promove? Veículos de aplicativos, táxis convencionais e mototáxis dão corpo à ópera bufa. Fala-se em compensações com dinheiro e combustível. Na ruidosa marcha do grotesco passageiros sentam-se na janela de veículos, agitam bandeiras. Ora do candidato, ora do Brasil. 

Um desfile pelo engajamento ao recrudescimento do obscurantismo. Todos tocam as buzinas. Seja carro ou moto. O clímax  da marcha reside em tocar foguetes onde ocorre alguma concentração de gente.  Refletir sobre os males que afligem a população de forma séria e com algum estofo, mas, qual o quê....tudo rasteiro. Mais rasteiro que o cu da cobra, como versa o adágio popular. 

Independente de que vencer, perde a população de um município estratégico tanto como possibilidade em promover um horizonte para além das quatro linhas do grande capital, quanto para a agenda dos grandes projetos em pauta, que a tudo fagocita, até a alegria do guariba.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Cepasp, ONG de Marabá, soma 40 anos de pelejas

O Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp) nasce na década de 1980, no rebojo da chamada redemocratização do país.

A vida só é possível reinventada – Cecília Meirelles

Marcha de sem terra em Marabá/PA, anos de 1990, quando da realização de grandes acampamentos em frente ao INCRA. A ação reunia perto de 20 mil pessoas durante dias. Fonte: arquivo Cepasp. 

Havia uma pedra no meio do caminho. No trecho sempre há mais de uma pedra a obstruir o caminho para a construção de um mundo menos injusto. No caso brasileiro, uma burguesia tacanha e entreguista, ainda que publicize um falso discurso de pátrio amor. Mera potoca (mentira).

A potoca como método tem sido o potente instrumento usado pelos setores mais conservadores do Brasil. Lembremos, foi justo sob os pilares mais profundos do conservadorismo que a pátria foi erguida, tendo o privilégio como ordem. Raras são as rachaduras na estrutura.

Na frágil edificação da democracia liberal burguesa do país, ditaduras entrecortam períodos. A mais longeva durou mais de duas décadas (1964-1985). Um projeto de tirania contra a América Latina acionado pelos EUA. Imperialista cultura. Assim como hoje, vendia-se a ideia de ameaça comunista.

O blefe persiste. Nesta feita em um emaranhado de distorções onde predomina o medo. Este mobilizado a partir de vozes de vendilhões do templo.  Falsos profetas de todo quilate e tipo. Assim como prolifera uma ideia de abissal individualismo, onde possuem destaque coach (treinador/a), gurus de todo tipo de estampa. Um obscurantismo a projetar falsos messias de Norte a Sul a ocuparem o território da política.

As pedras nos caminhos são várias. Todavia, caminhar é necessário e urgente. Navegar em oposição ao estabelecido urge. Neste sentido, no ano de 1984, mesmo antes do “fim” formal da ditadura civil militar, nascia nos rincões da Amazônia, na cidade de Marabá, sudeste do Pará, o Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp). 

Entrada da sede do Cepasp, Rua Sororó, bairro do Novo Horizonte, Marabá/PA, anos de 1980. 

O delicado período de transição consagrou a região como a mais violenta do Brasil no que diz respeito à luta pela terra. O setor ruralista levantou ao cume mais elevado o combate à reforma agrária. Nesta direção forjou a milicia União Democrática Ruralista (UDR).

Ronaldo Caiado, eterno dirigente das forças obscurantistas do estado do Goiás, novamente governador, era o ponta de lança da organização. Matou-se aos borbotões: posseiros, garimpeiros, advogados, religiosos. Chacinas eram recorrentes. Agências de pistolagem proliferaram no Bico do Papagaio (Maranhão, Goiás e Pará). 

Raimundo Ferreira Lima (Gringo), Agente Pastoral e sindicalista foi o primeiro líder camponês a ser executado nos anos de 1980. Fonte: arquivo da família

Polícias e pistoleiros a defenderem a terra grilada diante de um judiciário parcial. Assim como nos dias de hoje. O Judiciário notório na ligeireza a expedir reintegração de posse, manifesta-se modorrento na apuração de crimes contra os trabalhadores/as rurais. A Justiça tem classe, e enxerga, mesmo no escuro, onde a ordem tem sido criminalizar a pobreza e os que se opõem a ela.

Ainda assim navegar é preciso! O Cepasp emerge no riomar de instalação de grandes projetos na região de Carajás. Pecuária, madeira, mineração e geração de energia foram os principais polos de desenvolvimento impostos pelos governos. Ditatoriais ou não.

Uma opção de entrega do patrimônio, onde grandes empresas do capital internacional, a exemplo da Volkswagem, mineradoras, frações de classe dos estados do sudeste, bancos tais como Bamerindus, Bradesco, Econômico apossaram-se de vastas extensões de terras. A floresta foi amansada na pata do boi. A floresta e suas gentes eram compreendidas e enquadradas como um impedimento ao “desenvolvimento”.

Desmatamento, violências contra a sociodiversidade local, com ênfase a execuções de camponeses e seus apoiadores e o trabalho escravo são alguns dos passivos socializados. A barbárie instala-se como ordem. Em oposição, faz-se necessário formar parelhas. Barricadas em defesa da vida.

Assim, o Cepasp forma par com as populações expropriada pela barragem de Tucuruí, erguida no rio Tocantins, em cidade homônima. A hidroelétrica foi construída para atender as grandes empresas da cadeia da produção de alumínio no Pará (Albras e Alunorte e no Maranhão (Alcoa). Além de Tucuruí, municípios vizinhos também foram afetados, a exemplo de Novo Repartimento, Jacundá, Breu Branco e Goianésia.

Coube à sociedade nacional pagar os subsídios astronômicos concedidos pelo Estado às empresas por longos anos. O saque, a pilhagem e a degradação do humano assim se impõem como padrão de ocupação da região.  Neste combate a ONG fortaleceu a comissão dos atingidos pela barragem (Comissão dos Expropriados), no processo de elaboração de demandas com vistas a pleitear reparação em Brasília.

As pedras no caminho são várias. Junto à Sociedade Maranhense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) ombreia a luta das populações espoliadas pela construção da Estrada de Ferro de Carajás (EFC). A ferrovia ligou o sertão do Pará ao litoral do Maranhão. Uma dorsal do saque. 21 municípios atravessados pelo projeto. O saque segue a plenos pulmões. A ferrovia foi duplicada, e os problemas junto às populações multiplicados. Entre o sertão e o mar, a pobreza possui pujança em combates marcados por assimetrias.

No campo e na cidade o Cepasp somou em inúmeros combates. No campo, nos anos de 1980, tomar os sindicatos das mãos dos pelegos era a bandeira. Nesta direção colaborou com a formação política de dirigentes em Marabá, São João do Araguaia, São Domingos do Araguaia, Rondon do Pará, Itupiranga, Tucuruí, Novo Repartimento, Goianésia e Jacundá. E mais recentemente com Eldorado dos Carajás, Parauapebas e Canaã dos Carajás.

No combate em Marabá fez fileira junto à chapa do camarada Arnaldo Ferreira que veio a ser assassinado em1992, pela tomada do da direção do sindicato em 1988. Nesta conjuntura, equivocadamente, agentes da ONG Fase (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) decidiram pelo apoio aos pelegos.  Nestes combates, cumpre realçar as valorosas contribuições do advogado Gabriel Pimenta.

Ao centro, Raimundo Gomes da Cruz Neto (Raimundinho), agrónomo, sociólogo, educador popular e migrante do PI, linha de frente do Cepasp. 

Um antigo e presente pensador já sinalizava para a necessidade da unificação da luta. No campo e na cidade. A foice e o martelo.  Assim o Cepasp fortaleceu os combates junto a sindicatos de trabalhadores rurais e urbanos (Professores, Metalúrgicos), associação de moradores, cooperativas e caixas agrícolas de pequenos produtos rurais, instituições estudantis, clubes de mães, povos indígenas, extrativistas, pescadores e tantas outras categorias.

Em barricadas políticas e técnicas a organização sempre esteve junto aos/às trabalhadores/as. No campo e na cidade.  No caso do campo técnico, coordenou inúmeras equipes de assessoria voltadas para os assentamentos de reforma agrária, a partir do Projeto Lumiar.

A educação libertadora é o horizonte da instituição. Na cidade de Marabá somou forças pelo direito à cidade nos bairros integrados do núcleo Cidade Nova. Formação política, educação popular e emancipatória, produção de instrumentos da comunicação popular (jornais, cartilhas, rádios comunitárias, organização de arquivo da luta popular e biblioteca), organização de feiras agroecológicas, participação e organização de espaços formativos dentro e fora de universidades o credenciaram a fazer parte de fóruns nacionais e internacionais.

Constam neste rol: Seminário Consulta, depois renomeado e reorganizado como Fórum Carajás, Fórum da Amazônia Oriental (FAOR), GTA (Grupo de Trabalho Amazônico), FERA (Fórum pela Reforma Agrária), etc.

Navegar é preciso! Os combatem não findam. Em dias recentes junto à Comissão Pastoral da Terra (CPT) colaborou no enfrentamento da expropriação de famílias camponesas afetadas pela expansão da mineração da empresa Vale. Fez isso nos municípios de Canaã, São Felix do Xingu, Ourilândia do Norte e vizinhança.

No debate ambiental, hoje em moda, já nos anos de 1980 a pauta fazia parte da agenda de ações da instituição. O hoje celebre indígena Airton Krenak, já dialogava na região de Marabá sobre os danos provocados pela CVRD (Companhia Vale do Rio Doce) em Minas Gerais, participando do IV Encontro Marabaense em Defesa do Meio Ambiente, organizado pelo CEPASP.

Airton Krenak, indígena e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), em participação no IV Encontro Marabaense de Meio Ambiente, nos anos de 1980, Marabá/PA. Fonte: arquivo do Cepasp. 

À época, a mineradora ainda era uma empresa estatal, que veio a ser entregue aos abutres do capital em 1997. Um ano após o Massacre de Eldorado e dois anos depois da Chacina de Corumbiara. Avanços neoliberais. Originária acumulação. A tudo maximiza, em particular a morte.

No mesmo campo ambiental colaborou na criação do Projeto de Assentamento Agroextrativista Praialta/Piranheira, no município de Nova Ipixuna. Nele tombaram José Cláudio e Maria. Sanha de grileiros assassinou o casal.

Feira agroecológica realizada desde 2016 em frente à sede a instituição. Fonte: arquivo Cepasp

Meirelles já apontou: a vida só é possível reinventada. A partir desta invocação, a ONG metamorfoseou-se em Comuna Cepasp. A atuar sob a orientação de três círculos: Estudo e Formação, Cultura e Arte e Auto-sustentação. Com a participação de famílias camponesas do Projeto de Desenvolvimento Sustentável Porto Seguro, desenvolve uma Feira Camponesa que funciona aos sábados no espaço da Comuna desde 2016.

Sobre a conjuntura da época da criação do Cepasp, Jean Pierre Leroy, francês naturalizado brasileiro, falecido em 2016, técnico da Fase (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) analisa que tanto o Cepasp, quanto a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) emergiram a partir do PRC (Partido Revolucionário Comunista).

O artigo de Leroy consta na obra sobre os 10 anos do CAT (Centro Agro-Ambiental do Tocantins): etnografia de uma utopia/2000/UFPA. O CAT foi uma inciativa do pesquisador belga Jean Hébette, também já falecido em 2016. Hébette notabilizou-se com pesquisas sobre o campesinato amazônico.    

No texto Leroy realça divergências políticas e ideológicas na criação em particular da Comissão Pastoral da Terra (CPT), assim como na condução de algumas estratégias de luta sindical na região.

No percurso do texto Jean Pierre pondera que a Corrente Sindical, hegemônica na tomada do Sindical dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR) de Santarém da mão dos pelegos, no Baixo Amazonas, em determinado momento calculou em sentar praça na região de Carajás.

No ponto de vista de Leroy, foi por conta de divergências políticas e ideológicas, em particular com o bispo da época, Dom Alano, um religioso simpático à luta pela terra na região. Ainda na década de 1980, “O Cepasp passou a acompanhar e questionar o Projeto Carajás, a apoiar a luta pela terra, a se preocupar com a estabilização dos posseiros e com o meio ambiente”, palavras de Leroy.  

Por mais agitado que esteja o mar da História, está vivo quem sempre peleja, a reinventar a vida todos os dias em giras coletivas!!!

Entre os inúmeros/as colaboradores e militantes, registramos: em memória Ademir Martins, Beta, Deuzinho, Ednaldo, Loreto, Jamison e Evandro Torres. Ainda entre nós:   Alice Margarida, Marcos Leite, Deibsom, Adilson(Peba), Nilce, Wanderlei, Jorginho Neri, Raimundo Cabeludo, Ilan, Eliana, Gilberto Silva, Marlene, Ezerom, Genivaldo, Gicivaldo, Rogerio Almeida, Dvandro, Ivonete e Seu Osmar.  Grato a todxs!!! Aos nomes que a gente, traído pela memória não conseguiu lembrar, sintam-se inclusos na gira. 

Membros do CEPASP na ativa e afastados: Raimundinho, Angelina, Zequinha Ferreira, Fabinho, Pedro dos Santos, Bispo, Barbudinho, Moreira, Atanagildo Matos (Gatão), Jaide, Iara Ferraz,  Irmã Dijé, Emanuel Wambergue (Mano), Rafael, Kézia, Neide, Neirilene

A celebração pelos 40 anos ocorre entre os dias 04 a 09 de novembro. 



segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Enquanto a COP não vem, a polícia do Pará continua a executar sem terra

 Nota coletiva manifesta indignação sobre a perpetuação da violência contra sem terra perpetrada pelas policias do estado

Fazenda Mutamba, Marabá/PA. Fonte: redes sociais

Por ironia, quem cometeu o crime foram policiais ligados à Delegacia de Conflitos Agrários (DECA), em tese, criada para mediar situações de conflitos na luta pela terra no estado.   

Antônio Mororó, titular da delegacia, comandou uma operação em área ocupada na cidade de Marabá, sudeste do Pará, a fazenda Mutamba. 

O ato culminou com o assassinato de Adão Rodrigues de Sousa, 53 anos, casado, pai de 05 filhos e, Edson Silva e Silva, 44, na última sexta feira, dia 11, às vésperas do Círio de Nazaré. 

Além das mortes, os servidores da DECA são acusados de tortura.  A nota denuncia os laços viscerais do delegado com grileiros e latifundiários da região.  Leia a nota AQUI

Sobre as complexidades que envolvem parte das terras no sudeste do Pará, leia AQUI