Reserva moral do riscado e um dos mais importantes jornalistas do país, Kfouri repercutiu hoje, em seu blog, projeto de extensão da UFOPA que trata sobre a luta pela terra na Amazônia. Abaixo o print.
Reserva moral do riscado e um dos mais importantes jornalistas do país, Kfouri repercutiu hoje, em seu blog, projeto de extensão da UFOPA que trata sobre a luta pela terra na Amazônia. Abaixo o print.
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 7/14/2022 08:07:00 PM 0 comentários
Fim de tarde. Tempo de sol. Calor inclemente. O rio resiste em não
recuar. O céu lembra delírios de Van Gogh. Uma explosão de cores. Tons sobre tons. Uma garça aqui. Outra ali. Urubu
abunda por todos os flancos. O urubu é o
cão vira lata da cidade. Em todo canto assalta lixos e lixeiras.
O Legislativo local deveria conceder ao bicho alguma honraria ou
comenda, tão onipresente ele é na urbe. Santarém, cidade carniça. Cidade
esgoto. É a pior em saneamento básico do país. Santarém, te quero bem.
Beira de riomar. Dias
estivais. Braçais fazem grana. Brisa para pés inchados. Vez em quando um pato
selvagem faz a colheita nos rios. E mesmo botos dão o ar da graça. Nesta época
do ano morcegos brincam em vertiginosos rasantes sobre os rios Tapajós e
Amazonas, tão bem versejados na obra de Benedicto Monteiro. Morcego topgun.
À primeira vista os morcegos soam andorinhas. Ledo engano. Morcegos
vampirizam orçamento público. Nada de engano. Barra de ouro. Orações sem
educação. Frações de classe. Frações de
gente de quinta. Pátria. Patrimonialismo.
Lima Barreto cravou logo cedo. Os Bruzundangas que o diga. Tá uma barra a vida
por aqui. Arriscoso. Belicoso.
A orla é a joia da cidade. Fluxos e refluxos de circuitos
equidistantes concorrem. Balsas de sojas. Barcos com gentes de todos os cantos.
Em todo canto aqui tem gente. Indígena região. A pilhagem insiste. Aos nativos, resta r-existir.
Faz mais de 500 anos que os povos indígenas o fazem. Cabanagem. Eles indicam a
contramão da destruição.
A orla é magnética. Famílias afrontam a cidadela com as suas
cadeiras de praia. Cadeiras de beira de rio. Cadeiras leves. Alguns carregam
tralhas de pesca. Bebidas, comidas e cães. Faça chuva ou faça sol, há sempre
alguém a pescar. Uns por esporte. Outros por necessidade de proteína. A fome
tomou a cidade. A fome tomou o país. Milícias. Digitais em mortes. Planalto Central.
Uma frondosa palafita abriga espaço para o vasto e diversificado artesanato.
Parada para gente de além riomar. Palafita é tecnologia da arquitetura local. Sabença
ancestral em selecionar a madeira mais apropriada e durável. Um luxo na encruza.
É milenar o saber. Tão significativo quanto o asiático. Parada de
beira de rio. Civilização da várzea. Vanguarda. Santarém, buracos a consomem tal um câncer.
Santarém, coroa, te quero bem.
À frente da palafita, que também é restaurante, uma tela de led jorra
anúncios sobre transeuntes. Estranhos tempos selvagens.
A fauna da orla não é exótica. Exceto as pessoas dedicadas ao culto
ao corpo. Raro ver alguém armado com um livro na mão. Ambulantes defendem um
troco com negócios da China. Venda de brinquedos e diferentes balões. Badulaques.
Dia desses ainda pego um para Docinho. Um desses cheios de luizinhas. Como se
fossem vagalumes em cela.
Um imigrante negro vende raspa-raspa. Uma mistura de suco com gelo.
Os herdeiros de Woodstock também estão por ali. Principais alvos dos “puliça”.
Selvagem mundo. Estranho mundo. Se o meu nome não fosse Rogerio, seria
Raimundo. Moribundo. Mulambo de gente.
Labirintos. Becos, furos, igapós e vicinais. Encantada floresta. Reentrâncias
em mim. Léguas e léguas. Mata, água, rio e medo. Perdido. Aqui, ali e acolá. Desprovido de óculos e lamparina. Visagem. Reles mote de estórias de cantoria de cego em festa de cangaceiro.
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 7/13/2022 05:48:00 PM 0 comentários
20 trabalhos distribuídos
por 776 páginas assinados por quase 30 pessoas iluminam parte da história da
luta pela terra na Amazônia. Luta pela terra na Amazônia: mortos na luta pela
terra! Vivos na luta pela terra! É um projeto de extensão da Universidade
Federal do Oeste do Pará (UFOPA) coordenado pelos professores Rogerio Almeida e
Elias Sacramento, em diálogo com o MST, Fetagri, SDDH e CPT. E contou com o
apoio do Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) e da CAFOD para a
impressão. Baixe o livro AQUI
Leia o release
AQUI
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 6/27/2022 06:37:00 PM 1 comentários
Agende-se!! Já diz Emicida: tudo que "nóis" tem é "nóis"!!!
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 6/25/2022 07:44:00 AM 0 comentários
Com quase 800
páginas, o livro contém 20 trabalhos assinados por quase 30 pessoas, onde
constam casos de dirigentes sindicais, advogados, religiosos, chacinas e
defensores do meio ambiente. O fotógrafo Sebastião Salgado cedeu fotos do
Massacre de Eldorado, enquanto o procurador da República Felício Pontes assina
artigo sobre a missionária Dorothy Stang, assassinada em 2005. O lançamento
nacional ocorre segunda feira, 27, a partir das 19h, nas redes sociais do
jornal Brasil de Fato/RS.
Em meio ao momento delicado que
nubla a vida da sociodiversidade amazônica, marcado pelo aceno que se ergue a
partir do governo nacional em favor de toda ordem de violência, em alinhamento
com os setores mais conservadores da nossa sociedade, um livro brota dos
sertões da Amazônia, tendo como ponta de lança filhas, filhos, amigos e
familiares de dirigentes sindicais, defensores dos direitos humanos e do meio
ambiente que tombaram nas jornadas da luta pela terra no Pará. Além de
familiares e amigos, educadores e pesquisadores assinam relatos que contemplam
casos de assassinatos e chacinas nos anos considerados os mais sangrentos, a
década de 1980, mas, não se restringe à ela.
A violência nas paragens da região é
uma constante. Uma questão estrutural, como atesta os recentes acontecimentos
transcorridos no Amazonas, que redundou no assassinato do indigenista Bruno
Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips. Categorias antes não alcançadas. As
violências são digitais do processo da integração subordinada da Amazônia aos
circuitos econômicos mundiais. Há sangue em todas as latitudes. Sangue de
indígenas, quilombolas, camponeses e das pessoas a eles alinhados, como
advogados e religiosos, entre outros sujeitos.
Os fotógrafos Sebastião Salgado,
Miguel Chikaoka, o procurador da República Felício Pontes e o padre Ricardo
Rezende, o jornalista Lúcio Flávio Pinto constam entre os colaboradores do livro Luta pela na Amazônia: mortos
na luta pela terra! Vivos na luta pela terra!, a ser lançado no dia 27 de junho,
a partir das 19h nas redes sociais do jornal Brasil de Fato do Rio Grande do
Sul. E presencialmente no dia 18 de
julho, na cidade de Marabá, quando a execução do advogado Gabriel Pimenta soma
40 anos de impunidade.
Com quase 800 páginas, ricas em
iconografia (fotos, cartazes e recortes de jornal), o livro resulta de projeto
de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), do curso de
Gestão Pública e Desenvolvimento Regional, em diálogo de mais de dois anos com
o MST do Pará, a Federação dos Trabalhadores dos Rurais do Estado do Pará (Fetagri) sudeste, a
Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), a Comissão Pastoral
da Terra (CPT) e o jornal Brasil de Fato do Rio Grande do Sul. Para a impressão
da obra, o projeto conta com o apoio do Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras).
Os professores Rogerio Almeida (UFOPA) e Elias Sacramento (UFPA), campus de
Cametá coordenam a iniciativa. Sacramento, doutor em História pela UFPA, teve o
pai assassinado na década de 1980, o senhor Virgílio, na região de Moju, nas
proximidades de Belém.
Seis seções dão corpo à obra: i) Camponeses,
onde são realçados nove casos, entre eles, o de Raimundo Ferreira Lima
(Gringo), João Canuto, Expedito Ribeiro, Virgílio Sacramento, José Dutra da
Costa (Dezinho), Avelino Silva; ii) Massacres, que contempla os casos da
Chacina Ubá, Chacina da fazenda Princesa e o Massacre de Eldorado; iii) Gabriel
Pimenta, João Batista e Paulo Fonteles integram o bloco dedicado aos advogados
que combateram o latifúndio, enquanto que no item iv) Irmã Adelaide, padre
Josimo e a Romaria das Meninas compõem a seção dedicada aos religiosos; v)
na parte dedicada à entrevistas dão corpo à seção os relatos do Padre
Paulinho, ex-coordenador da CPT do Pará, e o recém falecido dirigente camponês
do Maranhão, Manoel da Conceição; e por fim, vi) o anexo faz um resumo
sobre casos de mortes e o andamento dos processos.
São 20 trabalhos produzidos por
quase 30 pessoas. Ao todo, o projeto mobilizou pouco de mais de 50 pessoas,
entre autores, revisores, diagramadores, pessoas que fizeram cessão de fotos,
gente que coletou documentos nos arquivos da CPT em Belém e Marabá,
extensionistas, animadores de redes sociais e comunicadores.
Felício Pontes assina artigo sobre a
missionária Dorothy Stang, ombreado pelo padre Amaro, agente da CPT em Anapu,
sudoeste do estado, onde a missionária e igualmente agente da CPT foi
assassinada em fevereiro de 2005. Por lá, no Lote 96, as tensões permanecem. Fazendeiros
e pistoleiros diariamente ameaçam os moradores e lideranças. Permanências de
uma democracia esgarçada, marcada pela concentração da terra e da renda, o
Estado autoritário, as coerções públicas e privadas. Toda ordem de abuso contra
os mais fragilizados. Assim como Dorothy, Amaro sofre todo tipo de pressão:
ameaças, criminalização por conta da missão que desenvolve junto aos
camponeses, e até preso foi.
Filhas, filhos, viúvas assinam
artigos sobre a memória dos seus
José Dutra da Costa (Dezinho),
dirigente sindical e quadro da Fetagri sudeste do Pará foi executado em 2000 na
porta de sua casa em Rondon do Pará, quando o natal se avizinhava. Grileiros de
terra, fazendeiros e madeireiros estavam incomodados com a atuação do
presidente do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR) do
município.
O nome de Dezinho chegou a constar
na lista de pessoas marcadas para morrer por conta do combate que realizada pela
reforma agrária. As autoridades do Estado sabiam. Todos sabiam. Nada foi feito.
A hoje advogada e filha do dirigente sindical, junto com a viúva assinam o
relato, Joélima da Costa e Maria Joel, respectivamente. Com o assassinato de Dezinho, dona Maria
assumiu a direção do sindicato. Assim como o esposo, dona Joel viveu e ainda
vive, inúmeras situações de ameaça.
A professora da rede pública e
mestra em História pela UFPA, Luzia Canuto, narra a saga do pai, João Canuto. Como
Dezinho, Canuto foi morto em dezembro. O crime ocorreu no dia 18. João foi
morto com 18 tiros desferidos à queima
roupa. Anos depois três filhos de Canuto foram sequestrados. Somente um
sobreviveu, Orlando. Entre os acusados das atrocidades na cidade de Rio Maria,
sul paraense, constam fazendeiro Vantuir Gonçalves Cardoso e o político Adilson
Laranjeira. Eram tempos da União Democrática Ruralista (UDR). Instituição
animada pelo hoje novamente governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Execuções e
chacinas notabilizaram o sul e sudeste do Pará como as regiões mais delicadas
na luta pela terra do Brasil. E
permanecem como área de risco. Como
outros casos marcados pela impunidade, o recurso usado pelos defensores dos
direitos humanos foi apelar para Organização dos Estados Americanos (OEA) como
forma de responsabilizar o Estado Brasileiro. O caso mais recente que tramita
na OEA é do advogado Gabriel Pimenta.
Em 2011 foram mortos na cidade de
Nova Ipixuna, nas proximidades de Marabá, o casal de agroextrativistas José
Cláudio e Maria do Espírito Santo, no Projeto de Assentamento Agroextrativista
(PAE) Praia Alta Pinheira. O único nesta
categoria nas regiões que aglutinam mais de 500 projetos de assentamento. Muitos
batizados com os nomes dos dirigentes assassinados. A maioria dos projetos foi reconhecido
após o Massacre de Eldorado, ocorrido em 1996.
A morosidade do Incra é colocada
como um dos fatores que redundaram na tocaia que matou o casal, que também teve
os nomes em listas de marcados para morrer. Os irmãos de José, a advogada recém
formada, Claudelice Santos é quem assina o artigo junto com Claudenir. Ela e família assumiram a bandeira
ambientalista do casal. Claudelice fez
parte de uma turma de Direito da Terra, da Universidade Federal do Sul e
Sudeste do Pará (Unifesspa). Uma criada e direcionada para pessoas ligadas à defesa da
reforma agrária, direitos humanos e o meio ambiente.
Oficialmente o Estado do Pará
declara que no Massacre de Eldorado, ocorrido na Curva do S, na cidade de
Eldorado do Carajás, em 1996, 19 trabalhadores rurais ligados ao MST foram
mortos pelas tropas da PM. A ordem partiu do ex- governador já falecido, o
médico Almir Gabriel (PSDB), que tinha como secretário Paulo Sette Câmara. As tropas foram comandadas pelos militares Major
Oliveira e o coronel Pantoja. Os laudos comprovam que boa parte dos 19 sem
terra foram executados à queima roupa. Da
cúpula de mandantes, somente Oliveira encontra-se vivo. Assim como em outras
casos, o manto da impunidade cobre o caso. Os advogados José Batista Afonso e
Carlos Guedes assinam o artigo.
O sangue
não conhece cercas na Amazônia. A História da “conquista” da fronteira é uma
história de expropriação de suas populações e assassinatos. Situações
amalgamadas por precárias investigações, processos morosos e inconclusos no
Judiciário – quando os mesmos chegam a ser instaurados -, este célebre por sua
parcialidade em situações de conflitos que envolvem grandes corporações,
grileiros de terras e fazendeiros e a sociodiversidade local da região.
“Quem
não vive na Amazônia não sabe como o perigo nasce e descamba com o sol e vem
ainda com a noite, cotidianamente” esclarece o belo texto de Júlia Iara,
militante do MST/MA, quando da passagem de 21anos do Massacre de Eldorado, em
2017.
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 6/23/2022 06:17:00 AM 2 comentários
O livro Luta pela terra na Amazônia: mortos na luta pela terra!Vivos na luta pela terra! Conta parte das violências contra camponeses e seus apoiadores. A obra de ver lançada na semana que vem (versão digital).
Raimundo Ferreira Lima, mais conhecido como “Gringo” foi
executado por pistoleiros em maio de 1980, quando somava apenas 43 anos, em São
Geraldo do Araguaia, sudeste paraense. Além de sindicalista em Conceição do
Araguaia, Lima era agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Gringo foi o primeiro dirigente
sindical assassinado na região imortalizada como a mais violenta na luta pela
terra no país. O principal suspeito pelo sequestro e execução do sindicalista,
quando o mesmo retornava de evento em São Paulo, recai sobre o fazendeiro Neif
Murad, relata uma das edições do boletim Grito da PA 150.
João Canuto de Oliveira foi assassinado com 18 tiros desferidos
à queima roupa, na tarde do dia 18 de dezembro de 1985, em frente ao cemitério
da cidade. O crime sucedeu por encomenda dos fazendeiros Adilson Carvalho de
Laranjeira (ex-prefeito de Rio Maria) e Vantuir Gonçalves, proprietário da
fazenda Estrela do Pará. Dois pistoleiros não identificados realizaram a
missão.
O poeta, sindicalista e militante do PC do B Expedito Ribeiro tombou
no dia 02 de fevereiro de 1991, no município de Rio Maria, sul do Pará, quando
presidia o Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município. O pistoleiro
Serafim de Sales (Barrerito) foi o encarregado da encomenda realizada pelo
fazendeiro Jerônimo Alves de Amorim.
As execuções de outros dirigentes e ativistas precederam a morte
de Ribeiro, a exemplo dos assassinatos de Gringo e membros da família Canuto,
João (patriarca), José, Paulo e um atentado à bala de Orlando (filhos).
Filho de camponeses da cidade de Votuporanga,
São Paulo, nascido no ano de 1952, João Batista antes de tornar-se advogado de
camponeses, foi vaqueiro e boiadeiro. Ainda criança correu São
Paulo, Minas Gerais e Goiás com o pai Nestor Antônio Batista a tocar tropa de
cavalos, burros e bois.
Após escapar de inúmeras emboscadas, o deputado
estadual João Batista foi morto em dezembro de 1988, no fim da tarde, quando
chegava em sua casa. O jornalista e militante Pedro, irmão de João, conta a
trajetória do advogado dos camponeses, morto quando somava apenas 36 anos.
No próximo dia 18 de julho o assassinato do
advogado Gabriel Pimenta somará 40 anos. Gabriel foi morto em via pública no
final da convenção municipal do PMDB de Marabá, sudeste do Pará. Ao sair à rua,
Gabriel Pimenta foi covardemente assassinado com três tiros de revólver, desferidos
a curta distância pelo pistoleiro José Crescêncio de Oliveira, contratado pelo
chefe de pistolagem José Pereira Nóbrega, o Marinheiro, sócio de Manoel Cardoso
Neto, o Nelito, que vinha a ser irmão do governador de Minas Gerais, Newton
Cardoso (PMDB). Gabriel Pimenta tombou sem vida aos 27 anos de idade.
Paulo Fonteles, igualmente advogado foi morto no ano de 1987 na região
metropolitana de Belém. Todos os advogados eram defensores de posseiros.
Ninguém escapava
à sanha dos fazendeiros, que articulados a partir de consórcios elegiam quem
deveria morrer. Assim também fomentaram
chacinas. A CPT indica em seus registros
a existência de cerca de 40 chacinas na década de 1980, com o saldo de 212
mortes. Dos 40 casos, em apenas dois foram iniciados os processos de apuração:
as chacinas do Castanhal Ubá e da Fazenda Princesa ocorridas no Pará.
Josimo Tavares, o padre negro de sandálias
surradas, foi assassinado quando somava 33 anos, na cidade de Imperatriz, no
oeste do Maranhão, região do Bico do Papagaio, quando atuava na Comissão
Pastoral da Terra (CPT), no dia 10 de maio, de 1986, por volta do meio dia.
Josimo foi executado no dia dedicado às mães, quando adentrava a sede da CPT.
Irmã Adelaide Molinari foi morta nos anos de 1990 em Eldorado do Carajás,
enquanto Dorothy, também uma agente da CPT foi assassinada em fevereiro de 2005.
Em 1996 a PM do Pará foi a ponta de
lança do Massacre de Eldorado. Oficialmente 19 homens foram brutalmente
executados. Alguns com tiros à queima roupa.
A Amazônia tem se configurado como um rio de sangue sem fim. Rio seguido por uma pororoca de impunidade.
Os que defendem a reforma agrária, o
meio ambiente e os direitos humanos possuem a morte como sombra. Sempre a
espreitar. Os que se alinham a estas bandeiras correm o mesmo risco.
O sangue não conhece cercas na Amazônia.
A História da “conquista” da fronteira é uma história de expropriação de
suas populações e assassinatos. Situações amalgamada por precárias
investigações, processos morosos e inconclusos no Judiciário – quando os mesmos
chegam a ser instaurados -, este celebre por sua parcialidade em situações de
conflitos que envolvem grandes corporações, grileiros de terras e fazendeiros e
a sociodiversidade local da região.
“Quem não vive na Amazônia não sabe como o perigo nasce e descamba
com o sol e vem ainda com a noite, cotidianamente” esclarece o belo texto de
Júlia Iara, militantes do MST/MA, quando da passagem de 21 do Massacre de
Eldorado, em 2017.
Na Amazônia posseiros, sem terra, indígenas, quilombolas e demais
categorias e seus simpatizantes e apoiadores vivem sob risco constante. Risco
turbinado com o presente governo, que acena com a licença para matar.
Parte destes casos consta no livro Luta
pela terra na Amazônia: mortos na luta pela terra! Vivos na luta pela terra!, a
ser lançado na semana que vem. A obra
resulta de projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)
em parceria com o MST, Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará (Fetagri),
Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e a Comissão Pastoral
da Terra (CPT). Rogerio Almeida (UFOPA) e Elias Sacramento (UFPA), filho do
sindicalista Virgílio, morto em Moju, Pará, em 1987, são os professores
responsáveis pela obra que soma mais de 700 páginas.
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 6/17/2022 06:55:00 AM 0 comentários
Inspirada em fatos inverídicos
(Be3Al2(SiO3)6) é
a composição química da gema esmeralda. É preciosa. Incide no Brasil, Zimbábue
e Afeganistão. É tida como rara. Os esotéricos a consideram a pedra do amor e
da estabilidade financeira. A corda e a caçamba.
Desprovida de grana e de amor, Esmeralda correu o Nordeste
para a cidade grande. Baixou São Paulo. Tom Zé defende que São Paulo é a maior
cidade nordestina fora do Nordeste.
A nordestina Esmeralda trabalhava na casa de branco. Fazia de
tudo: limpar casa, lavar e passar a roupa e preparar o rango. Trabalhava para
um povo que se dizia de Portugal. Bandas da Água Rasa.
O cabra fazia contabilidade, trambiques e afins. Tinha como
deleite os braços da agiotagem. Uma valsa aqui. Outra ali. De pinote em pinote
levava a vida perdulária. Quando as tramas rodavam a favor juntava o povo para
passear em litorais do país. O insano pelo Corinthians fez a cabeça da filha. Todavia,
o caçula bandeou Barra Funda.
O velho infartou no dia em que o menino declarou o seu amor
ao Porco. E, pior, na ocasião em que o muleque vibrou com gol do rival em plena via
pública...garoto sem coração....nem ligou para o pai tombado ao chão...
A mulher do portuga era da Educação. Havia sido miss ou
rainha de alguma coisa no interior. Achava-se
a Marilyn por conta dos zoio. Não devotava
trabalho. Passava mais tempo no estaleiro. Acumulava licenças. Por milagre conseguiu aposentadoria. Sabe Deus
como...
A dona era uma verdadeira comédia. Após se apartar do Portuga
virou habitue de bailes da melhor idade. Curtia uma birita com o mesmo afã em
que fugia do trabalho. Num dos bailes furou blitz.
Ao ser alcançada pela viatura tentou carteirada. Tretar era a
sua especialidade. Para a guarda de baixa estatura disparou: “Oh baixinha, tu
sabes com quem está falando? Eu sou professora....se a memória não trai, coube
ao torcedor do Porco acudir a dona educadora na delegacia...vexame? Mas qual o
quê....
A dona educadora tinha como esporte a mudança da cabeleira. Amontoava
perucas em todo canto do quarto. Em um tobogã de parque aquático durante deleite de fim de semana familiar,
perdeu o adereço capilar. Ao se certificar da perda durante a descida, convocou
o amasio: oh Manoel, ache a minha peruca....oh homi emprestável...gritava...para
a alegria dos convivas
Um dia atrás do outro. Até que, certo dia, Esmeralda acordou
com a pá virada. Danou-se que não batia bem da cachola. Incorporou tanto o
personagem que acabou no Juqueri. Tomava remédios e choques na cabeça. Por conta da encenação, passou a receber pensão,
e o Cinema Novo perdeu uma estrela. Oh Glauber....
O portuga ficava ressabiado com a secretária. Temia que ela
tivesse um acesso e colocasse vidro moído em sua vitamina afrodisíaca. Além da “conge”,
o sujeito enfileirava outros amores. Tomar o “elixir do amor” fazia parte da
rotina do Manoel. Uma espécie de
obrigação de cardíaco. Remédio de uso contínuo..
A inquilina do
Juqueri teve um enlace com um indígena. O originário tinha habilidades de corte
e costura. Assim como Lampião. Só não metia peixeira em bucho alheio. Quando Esmeralda bateu as botas, ninguém sabia
o que fazer. Menos ainda para onde mandar o corpo.
Todos desconheciam
parentes. Esmeralda não era ninguém. Ninguém sabia quase nada da gema de
coloração esverdeada. A pedra preciosa da estabilidade financeira e do amor.
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 6/02/2022 07:32:00 AM 1 comentários
A mineradora processa o professor
Evandro Medeiros cível e criminalmente por conta da participação dele em
manifestação em solidariedade aos atingidos pelo crime que a Vale cometeu em
Mariana/MG em 2015. O ato de solidariedade ocorreu em Marabá, sudeste do Pará.
No começo do mês
de maio a Vale teve mais um recurso contra a vitória dos advogados do professor
Evandro Medeiros negado. Na decisão do procurador do Ministério Público do Pará,
Hezedequias Mesquita da Costa, ele sublinha a ausência de materialidade dos
crimes que a mineradora imputa ao professor da Universidade Federal do Sul e
Sudeste do Pará (Unifesspa), onde realça que “Observa-se que o acervo
probatório foi vastamente analisado pelo Egrégio Tribunal de Justiça do Pará,
que concluiu pela inexistência de provas da materialidade do crime e indícios
suficientes de autoria contra EVANDRO COSTA DE MEDEIROS.” Veja a íntegra do documento
AQUI
A Vale processa cível e criminalmente o professor pelo fato dele participar dele participar de um ato em solidariedade às pessoas atingidas pelo crime da Vale em Mariana, Minas Gerais, ocorrido em 2015.
Após mais uma
derrota a mineradora resolveu mobilizar esforços no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A sanha da Vale contra o
professor Medeiros iniciou em 2015. O processo teve impacto da saúde do
educador, e acarretou em obstáculos quando o mesmo cursava doutorado, além de
constrangimentos dos filhos.
Sobre as acusações
da Vale contra o professor Evandro Medeiros leia mais AQUI.
Vale processa
quase 200 pessoas - Espionar movimentos sociais,
dirigentes, educadores e processar quem denuncia os abusos que a mineradora
promove em seus locais de operação tem sido um modus operandi da Vale. O total beira a casa de duas centenas, conforme
reportagem da Agência Pública de 2017.
Posseiros, sem
terra, lavradores, quilombolas e educadores de pequenas
cidades e vilarejos da área de influência da Estrada de Ferro de Carajás (EFC)
são alguns dos alvos preferências da mineradora.
A ferrovia de
aproximadamente 900 km, liga o sertão do Pará, a região de Carajás, sudeste do
Pará, ao litoral do Maranhão, São Luís. A EFC foi duplicada por conta do maior
projeto da Vale, o S11D, que explora ferro na cidade de Canaã de Carajás. As cifras
do projeto são de bilhões de dólares.
O mercado asiático
é o maior consumidor do minério extraído no Pará. As duas cidades de Carajás, Parauapebas
e Canaã juntas exportam mais que o município de São Paulo. No ano passado o Pará
contou com o maior saldo na balança comercial do país. Tudo por conta da exportação
de minérios. Situação que não se reflete na melhoria de indicadores socioeconômicos
da região e do estado.
O economista e professor
da UFPA, Gilberto Marques, alerta que a se considerar os indicadores do último
censo do IBGE de 2010, o Pará ocupa a antepenúltima colocação em Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH), apesar de toda contribuição do PIB nacional, e do
fato de ter superado o estado de Minas Gerais na exportação mineral.
Um quadro que
alerta sobre o cenário marcado pela pilhagem, saque e violências, estas
traduzidas com assassinatos e chacinas de camponeses, ambientalistas, defensores
dos direitos humanos, trabalho escravo, desmatamento e grilagens de terras.
Sobre grilagens
de terra em Carajás, vale a pena a leitura da tese em Geografia apresentada na
USP do professor Marcelo Terence, do IFSP. Baixe AQUI
Espionagem de
movimentos sociais – o mesmo site do jornalismo independente
alertava em 2013 para o serviço de espionagem que a Vale mantinha contra movimentos
sociais, educadores, ativistas, religiosos, e mesmo jornalistas.
Segundo a
reportagem, constavam na lista de espionados o educador Raimundo Gomes,
radicado em Marabá/PA, o militante do Movimento pela Soberania na Mineração
(MAM), Charles Trocate, residente em Parauapebas/PA, padre Dário, missionário
Camboniano, na época morador da cidade de Açailândia/MA e um dos animadores da rede
Justiça nos Trilhos, além do reconhecido jornalista especialista em Amazônia Lúcio
Flávio Pinto. Leia AQUI
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 5/29/2022 07:51:00 PM 0 comentários
Os anos de 1980 são considerados os mais letais na luta pela terra no Pará. Sequestro, tortura, assassinados e chacinas faziam parte da Doutrina de Segurança Nacional do Estado, onde a coerção pública e privada imperavam contra os posseiros e seus aliados.
Raimundo Ferreira Lima, mais
conhecido como “Gringo” foi executado por pistoleiros no dia 29 de maio de
1980, quando somava apenas 43 anos, em São Geraldo do Araguaia, sudeste
paraense. Além de sindicalista em Conceição do Araguaia, Lima era agente da
Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Junto a outros companheiros, Gringo empenhava esforços em tomar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais das mãos dos pelegos. Tomar os sindicatos era uma das pautas da época do movimento camponês, o que ficou conhecido como Oposição Sindical. Neste período o major do Exército, Sebastião de Moura, Cuiró, pregava o terror contra camponeses e seus apoiadores, em particular contra religiosos.
Gringo foi o primeiro dirigente sindical assassinado na região marcada pela aguda disputa pela terra no sudeste e sul do estado do Pará. Trata-se da região mais violenta do país no que tange à luta pela terra. Após Gringo foram executados membros da família Canuto, a exemplo de João, e em seguida o também dirigente sindical e poeta Expedito Ribeiro na cidade de Rio Maria.
Mais de 40 anos após a execução de Gringo as matanças de dirigentes sindicais, ambientalistas, defensores de direitos humanos e camponeses permanece como marca indelével do avanço do grande capital sobre a fronteira amazônica.
O caso mais recente recai sobre a chacina da família José Gomes, conhecido como “Zé do Lago” (61), a esposa Márcia Nunes Lisboa, (39) e a filha de 17 anos, Joane Nunes Lisboa, ocorrida em São Félix do Xingu em janeiro deste ano. Em 2017 as policiais civil e militar assassinaram na cidade de Pau D´arco 10 camponeses da Liga dos Camponeses Pobres (LCP). E, em seguida, mataram a principal testemunha do caso, o igualmente camponês Fernando Araújo dos Santos em janeiro de 2021.
Os anos da década de 1980 são
considerados os mais violentos nas margens dos rios Araguaia-Tocantins. Anos da
criação da União Democrática Ruralista (UDR), braço armado dos ruralistas.
A organização foi articulada pelo
médico e ruralista Ronaldo Caiado. Hoje, novamente, governador do estado do
Goiás. A UDR assina inúmeras ações de violência que ceifaram a vida de
posseiros, sindicalistas, agentes pastorais, advogados e dirigentes sindicais.
Neste processo de coerção em oposição
à luta pela terra amontoam-se militares de todas as estirpes e
patentes, das forças armadas, relevo ao Exército, e as policias civil e
militar.
Naqueles tempos o ambiente era tomado
pela doutrina da segurança nacional. Tensão agudizada por conta do episódio da
Guerrilha do Araguaia. A militarização imperava, em particular com a presença
do Exército.
O principal suspeito pelo sequestro e
execução do sindicalista Gringo, ocorrido em São Geraldo do Araguaia, quando o
mesmo retornava de evento em São Paulo, recai sobre o fazendeiro Neif Murad,
relata uma das edições do boletim Grito da PA 150. Jornal animados por leigos,
religiosos e camponeses da região.
A formação de consórcio por parte dos
ruralistas para eliminar os seus adversários, assim como hoje, era recorrente.
E, ainda as listas de pessoas ameaçadas pelos fazendeiros e políticos da
região. No caso de Gringo, suspeitas recaiam também sobre o então deputado
estadual, o médico e pecuarista Giovanni Corrêa Queiroz, natural de Minas
Gerais. O mineiro, desde sempre, integrou a “bancada do boi”.
Mais tarde a viúva, Maria Oneide
Costa Lima, e outros agentes pastorais, após o assassinato do sindicalista,
passaram a receber ameaças, e cartas anônimas colocadas sob a porta da casa
pastoral, e ameaças de servidores do Grupo Executivo das Terra do Araguaia
Tocantins (Getat) – instituição sob a tutela do Exército - como alerta a edição
de nº 27 do Grito da PA-150. O nome de Gringo hoje nomeia uma escola pública em
São Geraldo do Araguaia e o caso sobre a sua execução nunca foi a julgamento.
Violências - O boletim Grito da PA
150 ressalta ainda um episódio considerado um dos mais violentos contra os
religiosos engajados na luta junto aos posseiros. No dia 31 do mês de agosto a
Polícia Federal prendeu 13 posseiros do município de São Geraldo do Araguaia e
os padres franceses Aristides Camilo e Francisco Goriou sob a acusação de
incitação à desobediência civil. “Tudo indica que o ministro da Justiça Ibrahim
Abi-Ackel, com base no inquérito realizado pela Polícia Federal e instruído
pelo Departamento Federal de Justiça, avaliou que a presença dos religiosos é
“nociva” aos interesses e segurança nacionais, e sugeriu a expulsão de
ambos”.
Ativistas da época contam que a
prisão dos religiosos provocou uma grande mobilização. Consta no rol de atos
realizados pela soltura deles ocupar a procissão do Círio de Nazaré com faixas
e cartazes pedindo a soltura dos missionários. Prender e torturar fazia parte
do modus operandi dos agentes do regime. Na década de 1970,
quando a agenda residia em sufocar a Guerrilha do Araguaia, o padre Roberto de
Valicourt passou por experiência semelhante.
Tem-se neste contexto o papel
autoritário do Estado, e associação do mesmo com frações de classe do país e o
grande capital nacional e internacional na apropriação de vastas extensões de
terra na Amazônia. Bancos Econômico, Bradesco, Bamerindus e a empresa
Volkswagen figuram como alguns beneficiários. Além de várias famílias das elites
do Centro Sul do país. Muitas presentes na região, ainda hoje. A animar novos
conflitos, execuções e chacinas.
A saga de Gringo, João Canuto, Expedito Ribeiros, Irmã Dorothy, Padre Josimo Tavares, Paulo Fonteles, João Batista, Gabriel Pimenta, dentre outros, integra projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) sobre a luta pela terra na Amazônia. O livro deve ser lançado ainda em julho deste ano.
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 5/27/2022 08:48:00 AM 6 comentários
Travessão nos rincões amazônicos é
muito mais que a haste superior da baliza do goleiro. Ele leva ao âmago do coração
de lugar nenhum no meio do nada. No meio de tudo, quando em tempos remotos
predominava uma frondosa e densa floresta. Lonjuras e distâncias onde um
intrépido passeante ocasional duvidaria que alguém ali moraria. Um Verde Vagumundo, como diria Benedicto Monteiro.
Esse conjunto de travessões encarna
vetor de povoamento e de saque da floresta. Legal e ilegal, com ênfase ao
segundo. Projeto de colonização do
século passado. O slogan todos conhecem. O enquadramento do vazio demográfico. Aquela
parada da terra sem homem.
Uma parte expressiva da rodovia dos
milicos ainda desconhece o asfalto. Em particular a fração a oeste, entre
Rurópolis e Uruará, onde impera o saque ilegal de madeira, marcado pela
presença de uma gambiarra batizada de Transuruará. Alguns a denominam de atalho
para alcançar Santarém de forma mais ligeira. Vice-versa. A desventura não paga
o risco.
Ali o bicho pega. O coro come. Todo
mundo sabe da ilegalidade. Até os carrapatos dos bois, que aqui e ali, quando
da passagem diurna pela rodovia, mais parecem bolinhas de algodão em meio ao
pasto. Réstias de floresta, cercas, pasto, estrada de chão e inúmeras pinguelas
sobre igarapés e riachos imperam entre Santarém à Marabá. Uns 1.200 km,
aproximadamente.
Aventura dura 24h de busão, com
direito a restaurantes avaliados por cruzes, e não por estrelas. A ordem é fazer o sinal de cruz e invocar uma
proteção.
Esguia, alta e loira, uma jovem grávida,
com um menino acomodado no dorso e puxando mais uns três barrigudin, pede ao
motorista do busão que pare nas proximidades de uma bodega. Ali existe um
Travessão. Muitos dos motoras já conhecem os moradores e as referências dadas. Surpreende
a capacidade em identificarem, mesmo no escuro breu em noite de chuva, o
Travessão onde residem.
A moça e a sua prole destoam dos
traços, vocabulário usado e sotaque que marcam o povo originário das bandas de
cá. A moça e sua trupe integram um exército de camponeses expropriados do Sul,
quando a partir de lá, uma tal “revolução verde” os expulsou para estas latitudes.
Expropriados de suas posses sentaram praça na “estranha” selva. Tempo de ditadura.
Na página 18 do Jornal Bandeira 3,
editado em 1975 pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto, esclarece que o projeto do
governo era assentar nas proximidades de Altamira umas 2 mil famílias de
camponeses do Sul do país.
A meta era incrementar a produção
mecanizada de ciclo curto e perene, com a utilização de adubo e corretivos químicos.
Com a colaboração de cooperativa do Vale do Juí o projeto ambicionava comercializar
além da madeira, os produtos da roça. A colonização oficial tinha denominação
de Projeto de Integração e Colonização (PIC).
Tristes trópicos. Muitos tombaram de
bala ou malária. A bala que tomba sem-terra não mata saudade. Travessões. Vicinais.
Vicissitudes. Violência em Estado bruto e puro à paisana ou farda, com as
benções da vossa excelência Justiça.
Ao contrário da terra de trabalho
que almejava, o errante encontrou na cova rasa a terra que queria ver dividida. Ah, João,
Ah, Cabral....Ah, Josué, nunca via tamanha desgraça...quanto mais sonho se tem,
mais urubu ameaça...
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 5/20/2022 11:18:00 AM 0 comentários
A revisão do Plano Direitor representou o azeitamento para a territorialização do capital no município.
Maio. Mês de Maria. Quadra das noivas. Chove diariamente. O rio alcançou o
asfalto. As águas do Tapajós encontraram o esgoto na avenida homônima. Tudo
agora é pura merda no cartão postal da Pérola do Tapajós. Um mundo de buracos por todas as latitudes. Queijo suíço dos trópicos. A realidade das ruas contraria os reclames da prefeitura. Poças d´água dominam
a cidadela de um hotel e restaurante, que possui no nome um apelo de brasilidade:
Mistura Brasileira. Marombas acodem o transeunte. Todavia, o fedor impregna
tudo ao redor. Bombas insistem em um trabalho de Sísifo na retirada das águas do rio sobre o asfalto.
A céu aberto o esgoto faz festa mesmo nos beirais do hospital
municipal, em sua parte que dá para a Av. Pres. Vargas. Mato, parte do muro caído,
pintura em frangalhos. Quadro de abandono.
O atendimento é terceirizado. Trabalho precário. Precarizado, espelha a gestão do alcaide.
Mancomunação capital. A revisão do Plano Diretor que o diga. A tudo explicita.
É médico o prefeito da urbe, que vez em quando, com a sua trupe, se
refastela em butecos. Com a desenvoltura de craque de futebol, impõe a agenda
musical. Duvidoso gosto. Costura tramas com edis. Vis. Face a face. Baronato de
bufões a celebrar a estupidez. Com a mesma desenvoltura beija pés de adversários
políticos em ritos religiosos. Cerra fileiras no Círio, congregações
fundamentalistas e Çairé. Como diria Tim Maia: vale tudo!
Um dos escudeiros conclama a presença do chefe do Executivo da
cidade à mesa. Desprovido de qualquer constrangimento, um assessor em alto tom,
assim o convoca: “oh prefeito, libera logo a verba para está criatura”. Até o surdo escutou.
Alta, esguia e clara, uma secretária é alvo de assédio dos homens. Era um tal de passa mão aqui, passa mão ali e
acolá, aperta, apalpa e chafurda. Vexame nenhum. O que ocorrerá no privado?
Cedo do dia, a rádio executa o Guarany de Carlos Gomes. Apesar de todo
o descaso com a cidade, a horda de comunicadores baba a bajular o médico que “comanda”
pela segunda legislatura a cidade polo do Baixo Amazonas.
Boca de rio. Boca de forno. Calada da noite. Chuva na taba. Águas sem
fim. Jacaré Açú a caçar turistas em Alter. Ah, minha Nossa Senhora de Nazaré, ah meus tambores do candomblé. . Várzea encharcada por abismos de abandonos. O rio que mata a
fome, morre envenenado: grilo, cimento e mercúrio.
Quem nos ajudará a não ser a própria gente? Chove na taba. Calada
da noite. Boca de rio. Bajara ao riomar....esgoto por todos os cantos..cuieiras ...terras
caídas...vidas sem abrigo..veias abertas...
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 5/17/2022 08:26:00 AM 0 comentários
“Úrsula” adaptado para os quadrinhos pelo roteirista e historiador Iramir Araujo sfoi lançado no dia 13 de maio, em São Luís em espaço cultural do MST que homenageia a escritora.
Úrsula, como qualquer jovem mulher, só queria viver intensamente
seu grande amor com a pessoa que escolheu para seguir a vida. Porém, este
direito, como tantos outros, lhe fora negado por um outro homem que julgava ser
seu dono, levando às últimas consequências a sua insanidade. Este é o pano de
fundo do romance “Úrsula”, escrito a exatos 163 anos por Maria Firmina dos
Reis, adaptado aos quadrinhos pelos roteirista e historiador Iramir Araujo, que
não por acaso escolheu a data de 13 de maio para o lançamento desta obra prima,
no local que faz homenagem a escritora maranhense: Solar Maria Firmina dos
Reis, localizado à Rua Rio Branco, no Centro de São Luís, às 19h, coordenado
pelo MST.
O mais novo projeto de Iramir Araujo vai ao encontro do que se pode chamar de uma ode à literatura maranhense, tendo sido iniciado pela adaptação de “O Mulato”, publicado em 2019, a partir da obra do também escritor maranhense Aluisio Azevedo. Segundo Araujo, enquanto tiver fôlego e possibilidades de publicação, ele continuará trabalhando em obras literárias maranhenses, adaptando-as para os quadrinhos.
O historiador e artista Iramir Araújo tem se especializado em adaptar obras da literatura para HQ
“’Úrsula’ é uma obra original e muito à frente do seu tempo, pois
por meio dela, a autora dava voz e protagonismo a personagens negros,
denunciava a escravidão, e, principalmente, marcava a escritora como a primeira
mulher a publicar um romance no Brasil. Entretanto, após sua morte, toda a obra
e biografia de Maria Firmina foram relegadas ao esquecimento. Uma lacuna na
literatura maranhense se estendeu por mais de cem anos”, comenta Iramir.
“Úrsula em quadrinhos”, um projeto aprovado pela Lei de Incentivo à
Cultura, do Governo do Estado do Maranhão e patrocinado pela Equatorial Energia
do Maranhão, é a adaptação da obra que marcou a carreira literária de Maria
Firmina, e se junta à miríade de produções literárias e artísticas voltadas
para homenagear a autora no bicentenário de seu nascimento.
Tem roteiro de Iramir Araujo, arte de Rom Freire e Ronilson Freire e será lançado em um encontro de, antes de tudo, celebração a essa mulher que demonstrou a imensa capacidade de criação de nosso povo, em uma época em que tudo conspirava contra: o fato de ser mulher, negra e residente no interior da província. “Úrsula em quadrinhos” mescla em livre adaptação, aspectos da biografia da autora, e seu romance.
Sobre os realizadores
O roteirista
Iramir Araujo - Maranhense, historiador, mestre em História Social
pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA);
Artista gráfico e roteirista, colaborou com os jornais O Imparcial
e O Estado do Maranhão, onde publicou tiras diárias e artigos sobre histórias
em quadrinhos;
Entre suas produções, destacam-se quadrinhos com fins educacionais
para ONG's e órgãos do governo, como ‘‘Gatos pingados’’, ‘‘Os viajantes do pião
do tempo’’, ‘‘Turminha do esporte’’’, ‘‘O misterioso segredo’’, entre outros;
Contando com a participação de artistas locais e nacionais, lançou
a revista ‘‘Corpo de Delito’’, com HQ's de ficção policial;
Publicou o álbum ‘‘Balaiada – a guerra do Maranhão’’, ilustrado por
Beto Nicácio e Ronilson Freire;
Também com arte de Ronilson Freire, publicou o álbum ‘‘Ajurujuba –
a fundação da cidade de São Luís’’;
Sua dissertação de mestrado ‘‘A Flecha, a pedra e a pena –João
Affonso, Aluísio Azevedo e a primeira revista ilustrada do Maranhão’’, venceu o
35o Concurso Cidade de São Luís, na categoria ensaios, sendo publicada em
livro;
Adaptou para quadrinhos o romance “O mulato”, de Aluísio Azevedo,
ilustrado por Ronilson Freire;
Publicou Além das lendas, com cinco histórias sobre lendas
maranhenses, ilustradas por Amanda Belo, Beto Nicácio, Marcos Caldas, Rom
Freire e Ronilson Freire;
Escreveu e publicou o romance policial ambientado em São Luís-Ma,
‘‘Cartas rubras’’.
Os artistas
Rom Freire - Trabalha profissionalmente com quadrinhos desde 2009,
tanto para autores independentes brasileiros, quanto para pequenas editoras dos
EUA. Em 2016 lançou seu personagem ‘‘Grimorium’’, por meio de seu selo Subverso HQ. Em 2013, quadrinizou
a obra ‘‘Fausto’’, de Göethe, publicada na coleção Clássicos em HQ da Editora
Peirópolis (SP). O álbum recebeu, em 2017, o ‘‘Selo Seleção Cátedra 10’’ da
Unesco. Trabalhou nos projetos Asa Branca e Gatos Pingados, do editor Iramir
Araujo. Atualmente, escreve seu primeiro livro de ficção.
www.facebook.com/rom.freire
www.deviantart.com/romfreire
instagram.com/romfreirehq/
Ronilson Freire - Ilustrador, já trabalhou para editoras dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Ásia. O artista já ilustrou roteiros de Mark Waid, Grant Morrison, Nancy A. Collins, Peter Milligan, Stephen Bissette, Cristophe Bec e Dan Watters. No mercado editorial brasileiro especializou-se em ilustrar clássicos da literatura, como o romance O Mulato, de Aluísio Azevedo, e as graphic novels baseadas em fatos históricos, Ajurujuba – A fundação da cidade de São Luís e Balaiada – A Guerra do Maranhão, roteirizados por Iramir Araujo. Atualmente, desenha a série steampunk Myopia, da Dynamite Entertaiment, e Promethée Alfa, para a editora francesa Soleil.
instagram: @ronilson.freire/
SERVIÇO:
ÚRSULA – EM QUADRINHOS
120 páginas em preto e branco
Roteiro: Iramir Araujo
Arte: Rom Freire e Ronilson Freire
Contato: Iramir Araujo (98) 98608 7121
Enviado pelo autor.
Compartilhe este artigo: BlinkList | del.icio.us | Digg | Furl | Linkk | Rec6 | reddit | Spurl | Technorati | Yahoo |
Postado por rogerio almeida às 5/16/2022 08:28:00 PM 0 comentários