sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Danação em dia de chuva em rede de algodão

 



Dias. Tudo bem contigo? Espero que sim. Sonhei que a gente se bulia numa rede algodão. Havia apreensão em seus olhos. O risco da chegada inesperada de alguém. O desassossego de interrupção do rito amoroso. Um flagrante. Crime passional. Gritos, insultos, soco, faca e bala. Corpos nus desprovidos de vida. Um sobre o outro. Um dentro do outro. Angu de sangue. Notícia de jornal.

A tarde estava tomada de chuva.  Céu de amor em casa avarandada. Passarinhos em revoada. Vento suave. Folhas e frutos ao chão. Rede de algodão. Cheirosinha. Amaciante de bulinação. Você a judiar do meu corpo e da minha alma. O cego forte. Rijo. Qual um sorvete de doce algodão a enfrentar vento de praia no litoral do Maranhão. Touro de São Sebastião. 

Ecumênico ateu a rogar por forças a Jesuscristinho, Nossa Senhora de Nazaré, e aos tambores do candomblé. Mautiner atômico em maracatu aperreado em ladeira da Cidade Velha. Danação dos diabos em ebulição. Arrebatação. Arrebentação. Tensões. Tesões. Muro de arrimo em ruínas. Só ruínas.....

Sonhei que a gente se bulia numa rede de algodão. Um forró fora da quadra de São João abençoado pelas maldades do deus Baco.  Capitães da areia em capoeira. Um combate de bocas e pernas.

Bulinação de rede. Pressas e desassossegos. Agonia e lentidão. Suspiros profundos entregozos.  Tempestade tropical. Beira de rio.  Amores líquidos. Café forte. Cuscuz de arroz em forma de coração. Cochilo profundo. Sem forças. Moribundo do amor sob laje de grande cidade. Sem pernas para fuga, acorrentado aos braços de uma deusa de ébano à espera do juízo final... o sol...há de brilhar mais uma vez....

domingo, 31 de outubro de 2021

Carta do Encontro de Saberes da Amazônia e Mudanças Climáticas

 

 

Abertura do evento 

Entre os dias 20 a 23 de outubro, Belém sediou o encontro de Saberes da Amazônia e Mudanças Climáticas.  O objetivo era claro, além de animar o debate sobre o delicado quadro que passa a região, possibilitar o diálogo entre os sujeitos locais, e enviar um recado à cúpula que coordena a COP 26, conferência mundial sobre as mudanças climáticas, que inicia hoje, em Glasgow, na Suécia.   

Ao contrário de debates anteriores, onde o Brasil exercia protagonismo, desde a posse do militar na presidência, o país foi catapultado ao papel de pária.

Leia a íntegra do documento do encontro Saberes da Amazônia AQUI

E o primeiro dia de debate  AQUI

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Registro: Agência Amazônia Real tem trabalho reconhecido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)

 Eliane Brum participou da cerimônia de entrega da chancela realizado pela Amazônia Real. 

As homenageadas Kátia e Elaíze receberam as placas na redação da agência das mãos das jovens jornalistas Alicia Lobato e Maria Cecília Costa, respectivamente (Foto de divulgação Amazônia Real)


Fazer Jornalismo é tarefa árdua. Exige disciplina, trabalho em equipe, paciência para se indispor com dados, fontes, checagem, entrevistas, redação, edição, seleção de iconografia, produção de tabelas, gráficos, etc. 

Realizar a tarefa na Amazônia torna a missão ainda mais desafiadora. A começar pelo hercúleo desafio na busca de dados quantitativos e qualitativos. Consultar fontes sérias dentro e fora da região, com vistas a calçar a informação de forma qualificada.

E, a todo tempo fugir a apelos fáceis, clichês e sensacionalismos que marcam a maioria das coberturas sobre a região. Neste sentido, a Agência Amazônia Real, cravada em Manaus, no Amazonas tem cumprido com louvor o nobre desafio na produção de informações sobre a Amazônia.

Animada pelas jornalistas Kátia Brasil, uma mulher negra, e Elaize Farias, uma mulher indígena, a Amazônia Real teve no mês de agosto o reconhecimento de seus pares associados na Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), durante encontro internacional realizado em agosto.  

Os bambas sobre o tema participaram da sessão de entrega da chancela, entre os craques, nada mais, nada menos Eliane Brum.  Leia mais AQUI

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Luta pela terra no Pará: projeto busca recuperar a saga dos que tombaram na defesa da reforma agrária no estado

José Ferreira Lima (Gringo), João Canuto, Expedito Ribeiro, Irmã Dorothy, Massacre de Eldorado são alguns dos casos contemplados na proposta do projeto do livro


A Amazônia sofre historicamente com o avanço da exploração sobre o território e populações. O Pará é considerado o mais violento do país no que se refere a luta pela terra. Ao longo de décadas, foram muitos os militantes assassinados e chacinas promovidas. A fim de trazer à reflexão este cenário, está em produção o livro “Luta pela terra na Amazônia: mortos da luta pela! Vivos na luta pela terra!”, que recupera parte da saga dos defensores da reforma agrária, do meio ambiente e dos direitos humanos no estado localizado na Amazônia Legal. Leia mais no site do Brasil de Fato/RS

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Zélia Amador, curta recupera parte da trajetória da educadora

 O jornalista Ismael Machado assina o argumento do filme, e divide a direção com Glauco Melo. O documentário poder visto no yuotube desde o dia 13


Negra retinta, Zélia Amador de Deus é plural.  Educadora, atriz, diretora de teatro, além de militante do movimento negro no estado do Pará. Uma das fundadoras do Centro de Estudos de Defesa do Negro no Pará (Cedenpa).  Trata-se de uma referência nacional. A professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA) é filha de Soure, arquipélago do Marajó. Terra sesmarial, onde os seus ancestrais labutaram em fazendas.

Manuel Faustino de Deus e Francisca Amador de Deus, avós, foram os responsáveis pela educação da filha de Xangô e Nanã. Os avós migraram para Belém logo que a mãe, com apenas 16 anos, pariu Zélia. Até o momento não conheciam moeda. No Marajó o escambo servia de paga na fazenda.  Uma ferramenta de subordinação, como registra os escritos de Dalcídio Jurandir.

O teatro e a educação serviram de trilhas para a sua consciência de classe e na sua formação política, bem como de reconhecimento como mulher, negra e educadora. Zélia viveu os sombrios anos da ditadura civil militar.  Numa escola de freiras conheceu pela vez primeira o preconceito racial.

Amador é defensora ferrenha das cotas nas universidades. É linha de frente na elaboração de políticas públicas no campo da educação sobre a questão racial.  Na condição de coordenadora do Grupo de Estudos Afro-amazônicos foi responsável pela elaboração do processo seletivo especial direcionado para as comunidades quilombolas.  

Nos anos recentes, diferentes universidades federais no estado adotam o processo especial. Um importante passo no processo de inclusão. Ainda que pese inúmeros fatores limitantes que comprometem a permanência de quilombolas nas universidades e indígenas.  Uma outra barricada a se enfrentar

Na intenção em recuperar parte da vasta trajetória da professora, a produtora Floresta Urbana, disponibiliza no youtube desde o último dia 13 o curta metragem Amador, Zélia. O argumento e direção é assinado pelo jornalista Ismael Machado, que divide a direção com Glauco Melo, que conta com uma robusta retaguarda.

A partir dramatização, colagens e de relatos da própria professora, educadores e militantes do estado do Pará, e de além riomar, a exemplo da escritora Djamila Ribeiro, o filme intenciona em valorizar a relevante contribuição da múltipla Zélia Amador, esclarece o site do projeto contemplado em edital da Lei Aldir Blanc.

Veja o curta AQUI. Maiores informações no site.

Em memória de Zumbi, projeto de lei deseja instituir a Semana da Consciência Negra na agenda de Santarém

O projeto é autoria do vereador Biga Kalahare/PT, que deseja que a ação antirracista seja inclusa na agenda do município. Em cenário do avanço grande capital sobre as terras ancestrais, a iniciativa constitui uma ferramenta junto aos quilombolas do município

Biga, vereador do PT, autor do projeto. Fonte: redes sociais

 









 



O projeto foi protocolado na sessão desta quarta-feira (15) propõe instituir a Semana Municipal da Consciência Negra e Ação Antirracista no município de Santarém. O projeto incluiu no calendário municipal de Santarém a “Semana da Consciência Negra e de ação antirracista” a se realizar todos os anos nas semanas que recair o dia 20 de novemb
o, Dia Nacional da Consciência Negra (Lei Federal nº 12.519, de 10 de novembro de 2011).

Essa semana terá por objetivo elevar e ressaltar a cultura original da população negra e afrodescendente, estimular a cidadania e a solidariedade e fomentar a produção artística e cultural em todas as suas formas e expressões, promover realização de campanhas de integração e disseminação dos valores culturais da comunidade negra, em especial da luta e da história do líder Zumbi, do Quilombo dos Palmares.

A partir desse PL o Poder Público deverá implementar ações, junto aos órgãos públicos e privados, sob a forma de campanhas institucionais, eventos e outras formas que julgar convenientes inspiradas nos princípios dos direitos humanos, objetivando sempre promover a cultura da igualdade racial, o respeito à diversidade religiosa e o combate ao racismo, ao preconceito e à discriminação racial e de valorização da História e Cultura Afro-Brasileira.

Além disso, deverá ser realizada uma Sessão Solene na Câmara Municipal de Vereadores, que ocorrerá conforme programação de eventos da Semana da Consciência Negra, tendo como data preferencial o dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra e de Ação Antirracista

 Fonte: informação das redes sociais do edil.

Quilombolas de Santarém reiteram ação contra empresa Atem, de distribuição de petróleo

A empresa palmilha os mesmos passos da ilegalidade empreendido pela Cargil, quando da instalação do porto em Santarém. Ações dos Ministérios Públicos Federal e Estadual solicitam a nulidades dos processos de licenciamento.

 

Empresa Atem instalada sem consulta prévia, livre e informada na região do Lago Maicá / Foto: Arthur Serra Massuda

No site da Atem Distribuidora de Petróleo S.A, a empresa se apresenta como uma referência de sucesso na região Norte do Brasil, que tem como política a qualidade e a atuação na proteção do indivíduo e do meio ambiente, promovendo o bem-estar, a saúde e prevenindo a poluição. No entanto, essa não é a versão contada (e vivenciada) por comunidades quilombolas, ribeirinhas, pescadores tradicionais e povos indígenas da região do Lago do Maicá, na cidade de Santarém/PA, que sentem cotidianamente os impactos e violações de direitos em seus territórios provocados pela empresa. Leia a íntegra do artigo Luísa Câmara do Terra de Direitos AQUI

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Após polêmica, Câmara de Santarém cancela homenagem a Confederados, supremacistas estadunidenses que chegaram em Santarém/PA há 153 anos

Carlos Silva, vereador do PSC é autor do pedido da sessão especial, agendada para o dia 14 de setembro

 

Vereador Carlos Silva (PSC) em ato antidemocrático do dia 07, autor do requerimento. Imagem: rede social do edil. 

Santarém é uma cidade de porte médio, que fica a oeste do estado do Pará, com uma população estimada em 300 mil habitantes, que vive na confluência dos rios Tapajós e Amazonas, e sob a influência das rodovias federais BR 163 (Cuiabá-Santarém) e a BR 230 (Transamazônica). Muitos destes habitantes são herdeiros dos povos ancestrais, bem como de remanescentes de quilombos e camponeses. 

Apesar da forte presença indigena na região, de quilombolas e campesinos, o vereador evangélico do PSC, Carlos Silva, auto declarado como pardo e jornalista, protocolou em maio junto à mesa diretora do legislativo do município o Requerimento de nº 940/2021, cujo intento residia em homenagear a presença dos supremacistas brancos estadunidenses, ocorrida no dia 17 de setembro do Século XIX.

Em maio o requerimento foi aprovado por unanimidade pelos 21 vereadores, sendo dois do Partido dos Trabalhadores (PT), que após a repercussão da nota dos movimentos negro e sociais, também se manifestou contra a sessão. Leia  nota da Executiva do partido AQUI

Após a divulgação das notas contra a sessão especial que ocorreria amanhã, dia 14, o evento foi cancelado. Em nota em sua rede social, o vereador declara que os descendentes dos Confederados não compactuam com os ideais racistas das famílias pioneiras que aportaram em Santarém, e afirma que a contribuição dos mesmos foi fundamental para a edificação da Igreja Batista. Silva foi um dos entusiastas na cidade pelos atos contra a democracia do dia 7 de setembro.

Confederados em Santarém

Solar dos Brancos ou Solar dos Confederados nomeia um sobrado de três pavimentos cravado no Centro da cidade. Ele é uma das expressões do processo que marca a presença dos Confederados no município.

Solar dos Brancos- Centro de Santarém/PA. Foto: Rogerio Almeida

Hoje o prédio abriga uma loja de uma grande rede de departamentos.  Uma pequena placa patrocinada por uma grande empresa de mineração conta parte da história. No mesmo perímetro, em local mais privilegiado, à beira do Tapajós, outro prédio, de propriedade do Barão do Tapajós (Miguel Antônio Pinto Guimarães) materializa o período escravocrata da região.

A imigração dos Confederados foi possível graças a um convênio firmado entre o presidente da Província do Pará e o major Lansford Warrem Hastings em novembro de 1866.

O Barão e uma família de Confederados fizeram par na fazenda Taperinha.  O Barão vinha a ser genro de Maria Macambira, donas de terras por todo o Baixo Amazonas, reconhecida pela sua crueldade contra os negros. A presença da família se mantém em Santarém.

Investigações do historiador Euripedes Funes, autor de uma tese na USP sobre a presença quilombola no Baixo Amazonas, recupera que os Confederados do vale do Missipipi, Tenesse e Alabana  aportaram em terras parauaras fugidos após a derrota na Guerra de Secessão. Um grupo um superior a pouco mais de cem pessoas.

Com o objetivo em modernizar a fazenda Taperinha o Barão firma sociedade com o confederado Romulus  Rhome (sociedade Pinto & Rhome). No Planalto Santareno, marcado pela presença de quilombos, boa parte da população de remanescentes tem como origem os negros fugidos da fazenda Taperinha.

Sobre os confederados em Santarém, além da obra de Norma Guilhon, e a tese de Euripedes Funes sobre a presença de quilombos no Baixo Amazonas, ver tese de Célio Silva, da Unicamp sobre os Confederados. Ver AQUI

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Uns punhados sobre a vida, praça, prosa e breja

Em 2021,  a Garapeira Ypiranga soma 99 anos. É  o meu oásis do prosear.  

Fonte: imagem da internet

Réu, confesso, o prosear é o meu vício, chamego, cela. É um matutar sobre a existência nas faculdades sem paredes. Clarão de sabença. Não arrenego. Peço, não encrespe a minha cachola com a ditadura das horas, obrigações, tempo marcado para isso, e para aquilo. Prosear é uirapuru liberto de gaiola.

Prosear, rio do quintal do meu viver. Barco sem pressa. Atitude revolucionária. Ação anticapital e antimanicomial por excelência. Um atropelo desse tempo agoniado. Esse tempo de correria desembestada e desenfreada.

A prosa é o mel no fel do cinza céu do Planalto Central. Terapia horizontal a invocar Freire, Elino Julião,  Kid Muringueira, Caymmi, Áurea Martins, Maria Bonita, Lampião. Trago desde gitinho o hábito em prosear ou macunricar a prosa alheia. Ensimesmado quando não enturmado, depois...tudo é riso.

Quando criança, na Rua da Viração, na Camboa, em São Luís, tinha por hábito arrodear uma roda de dominó dominada por senhores das redondezas. Alfaiates, enfermeiros, funcionários públicos e desocupados. A intenção não era aprender a jogar, residia em ouvir as prosas de histórias antigas do bairro.

Coisas de valentia, futebol, amores, canções, puteiros...ali ouvi sobre as vivências de dois meninos do bairro que fizeram glória no Vasco e no São Paulo, Porquinho e Canhoteiro. Tempo sem pressa. Creio que o defensor do tricolor paulista fez mais sucesso. Tem até biografia. 

Em minha alma a conversa fiada viceja. Vira e mexe, deita e rola. Acomoda-se na rede. É pura bossa. É o perder das horas. Um jardim para criações de escrevinhamentos futuros. Um saque sobre a memória alheia. Docinho (Thulla Esteves), as vezes, não compreende. Calcula que estou de sem vergonhice. Zanga, passa raio. Desconfia.

Nos dias recentes, a Garapeira Ypiranga, na cidade de Santarém, tem sido meu oásis. Vez em quando uma iguana despenca das árvores dos arredores. Um susto. O bicho arrodeia dali, corre pra lá, até sumir. Alcançar um canto sossegado. Uma nova árvore. No derradeiro 07 de setembro, o acanhado espaço somou 99 anos.

A garapeira foi plantada na Praça da Matriz. Bem no Centro da cidade. Fala-se que é um termômetro da popularidade de políticos. Mais eficiente que qualquer instituto do riscado de pesquisa. Cabra passar por lá, e ninguém acenar, lascou-se. 

Professor Paulinho, vulgo Maradona, e o operador de agiotagem do mercado oficial, Silvane costumam fazer par nas barricadas do prosear e brejas.  Fala-se de tudo um cadinho. Amores, dissabores, contas a pagar, grana ausente, histórias a perder de vista de garimpo, sendo as do Cripurizão as mais recorrentes.

Dona Rosilda rivaliza em idade com a instituição de caldo de cana. É funcionária da Secretaria de Cultura. Devota bom tempo na Praça da Matriz. Faz fé no bicho, uns gracejos, e pimba, filou um lanche.

O cego Carlinhos, exímio interprete de Vicente Celestino, tá de gancho do balcão da firma. Fez criancice. Jogou um copo de caldo de cana no Buba. Buba é o atendente fixo da firma, que conta ainda com Dabanha e o Buba II. É o Buba I que desenrola quando a casa recebe gringo. Ele se vira com inglês e espanhol. 

Rosilda e Carlinhos são de paz. A questão são os malas. As almas sebosas, como se diz em Pernambuco.

Antes da pandemia, seu Cacheado e Dona Ninita, ladeados pela filha Dalila tomavam de conta do lugar.  O casal tá de resguardo por conta da peste.  Somente o casal soma mais de seis décadas de casa. 

Pastel de vento, coxinhas e bolo são algumas da iguarias negociadas no estabelecimento quase secular. Fatiar o bolo é exercício de Junior Cacheado, o delegado, que sempre bate ponto em qualquer hora do dia. 

Prosa aglutina. Contudo, também desagrega. Peão que pisa errado no quadrado, logo é desautorizado. O prosear ajunta o povo que aporta das comunidades vizinhas: Arapiuns, Aritapera e Boim.  

Caboquices de pescador. Um trago de conhaque.  Riso certo. Canções antigas de casas de tolerância. Elino Julião, Bartô, Fernandes Mendes, Carlos André e Odair José. Combustível potente para o filosofar sobre as dores de amor. O Tapajós é testemunha. 

Tanto é o falar sobre as canções das dores que acometem o cotovelo, que ao lembrar de prosas sobre um histórico puteiro de Marabá, o Canela Fina, que sucedeu a inspiração que geraram os versos que seguem.

Homem, confesso

Vencido

Chorei

No Canela Fina, chorei

Tudo por conta do pé na bunda que levei

Depois de todo amor que te dei

Chorei, meu sangue derramei

Malárias no garimpo colecionei

Trairagem, bala, vícios

Tudo do pouco que ganhei, te dei

Findo o sofrido e amaldiçoado dinheiro do trecho

O seu desprezo foi tudo que herdei

Chorei, vencido

Derrotado

Sem uma cama para voltar

Na porta do Canela Fina

Chorei.....até definhar...

Sem o seu amor encontrar....

Sem bandeiras, barrancos, um lar...

Um fio de luz de algum luar .....

II Marcha das Mulheres Indígenas protesta contra os constantes ataques aos povos ancestrais. O Evento encerra no dia 11, quinta feira

"Território: nosso corpo, nosso espírito" - lema exalta a centralidade do território para a efetivação da reprodução cultural, econômica e política dos povos indígenas. 




Com a força das ancestrais, saberes, tradições e lutas que se somam e convergem juntando mulheres de todos os biomas brasileiros, este primeiro dia da Marcha, 7 de setembro, tem sido dedicado à acolhida das delegações. Até o momento, são 4 mil mulheres, de 150 povos indígenas, reunidas durante três dias de atividades no espaço da Fundação Nacional de Artes (FUNARTE), em Brasília. Leia a íntegra AQUI

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Morre em Marabá D Olinda, mãe do padre Josimo Tavares, assassinado pelo latifúndio na década de 1980

Josimo era agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Imperatriz, no Maranhão, quando foi assassinado na sede da instituição na década de 1980, período conhecido como o mais turbulento na história da luta pela terra. O religioso era filho de Marabá, no sudeste do Pará.  


É com grande pesar, que recebemos na manhã deste dia 3 de setembro de 2021 a triste notícia da partida de dona Olinda Moraes Tavares, mãe de Padre Josimo. Ela fez sua páscoa hoje aos seus 82 anos, na cidade de Marabá, PA, em consequência de uma súbita parada cardíaca. Leia a íntegra da nota da CPT AQUI


Expedito Ribeiro de Souza, vivo fosse, festejaria 74 primaveras em 2021

A sanha do latifúndio  trajetória do ativista comunista, lavrador e poeta no ano de 1991. No mesmo ano, um pequeno grupo de intelectuais editou um livro póstuma de poemas de Ribeiro. Coube a Lúcio Flávio Pinto a seleção dos versos e a apresentação. Aqui republicada.


Fonte: imagem da internet

No ano passado Expedito Ribeiro de Souza selecionou poesias no vasto acervo de literatura de cordel que havia produzido e inscreveu-se num concurso promovido pela Fundação Cultural Tancredo Neves, em Belém. Conseguiu um terceiro lugar. Se fosse o primeiro colocado, e se a Fundação agisse rápido, Expedito teria tido a alegria de ver um livro seU publicado. Mas o prêmio não veio, o livro não saiu, e Expedito foi morto com três tiros, perto de sua casa, em Rio Maria, no dia 02 de fevereiro.

Este, portanto, é um livro póstumo. Nada a reclamar da comissão que não deu o primeiro lugar ao alegre Expedito. As poesias dele não são obra prima, nem mesmo se circunscritas ao âmbito do cordel nacional. Com todo poeta popular, ao contrário da flamula e dândis das avenidas formais do verso, Expedito sabia muito bem de suas limitações e as expunha ao público. Versejar, porém, era a maneira de projetar sua esperança, realimentando-a. Maravilhosa é essa condição humana, que não prescinde da poesia como forma de conhecimento, emoção, prazer, mistério, surpresa e alegria – no sangrento sertão, ou na sangrenta cidade.

Em meio à violência e aridez que o campo cobra dos que nele sobrevivem, Expedito era a confirmação da inesgotável capacidade humana. Imigrante, lavrador, preto, pobre, religioso, líder, comunista e poeta. É muito título para uma pessoa tão humilde. Um título não é nada, um título é apenas uma etiqueta que se afixa numa pessoa para classifica-la., quando necessário. A pessoa Expedito Ribeiro de Souza transcende a etiqueta colocada em seu corpo inerte para o inevitável assento necrológico. Ele foi como aquela flor que nasce no meio do asfalto, amarela que fosse, mas flor, um produto do milagre humano percebido pelo grande poeta Carlos Drummond de Andrade, mineiro como Expedito, mineiro como o mago do sertão Guimarães Rosa, ciranda de mineiros que não se passaram ao passarem pela vida deixando sua marca.

Quanto capital humano penosamente fabricado é desperdiçado em fração de instantes pela estupidez dos homens, pela convivência dos homens, pela insensibilidade dos homens por trás de um gatilho de revolver de pistoleiro. Expedito foi assassinado porque pensava pelos seus, brigava por eles, queria que fossem menos desiguais do que os mais iguais da sociedade. Porque há uma liturgia dessa palavra e uma confraria desse rito. Expedito tornou-se militante do Partido Comunista do Brasil, que, em Rio Maria, tenta manter sua mística do Araguaia (mais mito que mística, aliás). Na sala da pobre casa em que morava, deixada para mulher, nove filhos, mãe e agregados dividirem. Expedito mantinha um cartaz do PC do B e imagens bíblicas, além do retrato das chagas de Cristo. Isto é Brasil. Quem entende de sertão sabe, aprende, respeita. Quem de sertão tenta fazer mares nuca dantes navegados, em papel ou celuloide, naufraga – e arrasta consigo aquele forte que só em cabeças grandiosas rebrota por inteiro (nas de Rosa e Euclides, por exemplo).

Os poetas costumam ser doces, mas é de sua natureza ir ao fundo dos homens, trazendo-lhes as raízes. Não espanta que os violentos tomam os poetas como alvos preferenciais. Garcia Lorca, um sertanejo andaluz, sucumbiu à aurora fascista na Espanha.   A Maiakovski não coube outra alternativa senão o suicídio, que Eisentein – poeta da imagem – bebeu em goles lentos, inodores, imorais (na imoralidade de escapar ao fatalismo planejador de Papá Stálin).

No sertão amazônico, nem mesmo o poeta pode reinar pacifica e docemente. Mesmo divino, ele que se arme e se acautele, como está escrito nos versículos do “Grande Sertão Veredas”. Pessoa do povo, como Expedito, se tornam poetas porque os grandes temas filosóficos da vida os levam a transcender a prosaica comunicação de todos os dias. Nenhum tema é mais filosófico do que a morte. Nenhuma agenda de Rio Maria é fechada a cada dia sem considerar uma morte, ou um anúncio premonitório da morte, como a de Expedito, ou a dos Canuto. Neste livro, que abriga apenas alguns das poesias que ele produziu, o tema é quase profético. Infeliz do país em que poetas são infalivelmente proféticos, e as autoridades incompetentes, cúmplices. Não podendo preservar a vida de Expedito, de muito listada para ser consumida, salvamos seus versos, na tentativa, talvez vã, mas necessária, de que permaneçam no ar, como o perfume a que aspirava ser outro poeta do povo, o maranhense João do Vale, de mais sorte por não ter “mexido” aos mortíferos assuntos da terra, razão da vida de milhões de desterrados brasileiros, razão também de suas mortes.

Além das poesias, este livro divulga a última entrevista de Expedito, concedida a Marcionila Fernandes. Aluna do curso de mestrado do Plades, no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, Marcionila conversou várias vezes com Expedito, em função de sua dissertação de mestrado, sobre a atuação de fazendeiros no Pará, tornando-se amiga do lavrado. Ela também é autora do breve perfil de Expedito.  Foi ainda quem recolheu as poesias que selecionei para este livro, com o qual se espera, também, ajudar na difícil sobrevivência da família do líder sindical assassinado.

Aqui está o registro da voz do poeta que fala pelo povo, e, como fiz o povo: empresta a voz de Deus. Que outros poetas do povo não inaugurem sua literatura postumamente, é o que esperamos, e pelo que continuaremos a lutar.

 

Belém, fevereiro de 1991, Lúcio Flávio Pinto         

  

Negra Melodia, banda de Marabá, lança o seu 1º EP no dia 10, sexta feira

7 composições fazem parte do EP com influências diretas do samba, do reggae, do bumba meu boi e da sonoridade caribenha.




Samba, reggae, bumba meu boi, carimbó e a sonoridade caribenha fazem parte do primeiro EP da banda Negra Melodia, a ser lançado no dia 10, sexta feira, a partir das 17h, no Museu Municipal do Núcleo Cidade Velha, em Marabá. O EP foi viabilizado pela Lei Aldir Blanc - edital - SECULT - Som das Cidades 1. Toda a produção ocorreu em Marabá, no Estúdio Calango, do cantor e compositor Clauber Martins, e contou com a produção musical do baixista Itair Rodrigues.  

A dupla de jovens negros Jane Martins e Marcelo Melo é a linha de frente do grupo nascido das atividades culturais da antiga Universidade Federal do Pará (UFPA) Campus Marabá, hoje Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), quando ainda cursavam Ciências Sociais. As reflexões sociológicas dos três tenores da Sociologia mundial, Marx, Weber e Durkheim e o pajé nacional, Florestan Fernandes apimentam a verve crítica dos meninos sobre tenso solo onde habitam.

A tradução sobre as desigualdades da região pode ser traduzida na canção Periferia. Ela é uma crônica sobre dois jovens que fazem o corre na cidade em busca de dias melhores, no entanto, acabam sendo executados pela polícia. Fato corriqueiro registrado de Norte ao Sul do país, onde repetidamente os indicadores sinalizam para um genocídio da juventude negra. Marcelo Melo divide a autoria da canção com o poeta e jornalista Ademir Braz. Além de Braz, Milton Rocha, o professor e músico Bruno Malheiro, Lariza Xavier, Adler Olsen e Leandro Silva constam como compositores e parceiros das canções do EP.

Na estrada desde 2009, o som da banda expressa situações de conflitos das encruzas da fronteira mais delicada da luta pela terra do país, o sudeste do Pará. As composições do grupo traduzem as contradições e lutas que transcorrem na região, bem como as relações de trocas culturais com o vizinho estado do Maranhão, materializadas nas composições Reggae-boi e Viver e lutar.

Conforme os sociólogos e artistas, Rita Ribeiro, Chico César, Edson Gomes, Gilberto Gil e banda Tribo de Jah são algumas das referências do grupo, que na cena cultural de Marabá é figura carimbada na agenda de luta do movimento negro da cidade, a exemplo das manifestações que ocorrem pela passagem do Dia da Consciência Negra, realizadas em novembro, e na quadra  carnavalesca, quando animam o bloco Terra Preta.  

Para o lançamento do 1º EP da Negra Melodia integram a banda, assinando a produção musical e baixo, Itair Rodrigues, comanda a bateria Guedes Junior, enquanto Bruninho ataca na guitarra, Marcelo Melo responde pelo violão e voz, ladeado por Jane Martins, toma conta da percussão Edu Hilário, nos teclados quem manda o recado é o Marlisson, já o nipe de metais é composto por Walkimar Guedes, Jairo Moreira, Gabriel Raiol, cabe a  Walkimar Guedes o sax.

 Ouça Periferia AQUI

O EP terá acesso livre  em todas as plataformas de música a partir de outubro.

Serviço

Lançamento do 1º EP da banda Negra Melodia

Dia: 10 de setembro

Local: Museu Municipal de Marabá, Núcleo Cidade Velha

Hora: 17h

 

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Expedito, lavrador, negro, sindicalista e comunista das terras do Araguaia

A execução do sindicalista somou 30 anos em fevereiro. Em agosto ele somaria 74 anos. Em setembro professores lançam projeto de captação de recurso que busca recuperar parte da memória dos Mártires da Terra no Pará. 


Fonte: imagem da internet. 

Expedito Ribeiro de Souza é semente da terra das bandas das Gerais, Valadares. Cedo correu o trecho. O filho de lavradores (João e Maria) apeou nas ilhargas do Goiás, antes de alcançar as terras do Pará. Em Goiás, berço da criação da União Democrática Ruralista (UDR), - o braço armado dos fazendeiros -, trabalhou de meia.

Aos 19 anos já era casado com Maria Macedo, com que teve dez rebentos. Em plena ditadura, sentou praça nos beirais do Araguaia. Terra de valentia. Terra encharcada de sangue de campesinos, cidade de Rio Maria. Ribeiro sabia do risco que corria, assim assuntou sobre a questão:

Cova funda neste leito

Cova que ele quer

Eu não te quero

Cova de cemitério

Cova que quer do mundo dos vivos

De quem tu queres engolir

Para depois engolir

Cova do medo

Eu tenho medo de ti

 

Os versos fazem parte do poema Cova do Medo, do livro O Canto Negro da Amazônia, lançado pós morte de Expedito, ocorrida em fevereiro de 1991. O conterrâneo de Drummond era homem de poucas letras, todavia, aprendeu a ler e escrever. O negro do PC do B, possuía afeto pelo versejar. Assim, exprimia suas angústias, a sua leitura do mundo na condição de homem sem terra.

Um ano antes de sua execução, Riberio havia selecionado versos de cordel para concorrer em um concurso cultural da Fundação Tancredo Neves. Ficou em terceiro lugar, conta o jornalista Lúcio Flávio Pinto, na apresentação do livro do sindicalista.

Sobre o ativista da reforma agrária em terra tão temida, o jornalista, ao mobilizar Drummond, assim define Expedito, “Uma flor que nasceu no meio de asfalto, amarela que fosse, mas flor, um produto do milagre humano”.

O professor Raul Navegantes, à época da execução de Ribeiro, coordenador do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), sobre a publicação, explica a iniciativa, “movido por dois sentimentos: o da revolta diante de mais um assassinato, que quiçá, terá por conclusão a impunidade, e do sentimento de participação que dá ao primeiro maior legitimidade e pungência”.

Navegantes foi relevante par de utopia junto aos camponeses da região do Araguaia no projeto do Centro Agro-ambiental da Araguaia (CAT), que teve como ponta de lança o professor natural da Bélgica, Jean Hébette, que por mais de 30 anos somou nas pelejas junto aos camponeses.

O nome do respeitado pesquisador do campesinato da fronteira amazônica hoje nomeia a Escola Família Agrícola (EFA), de Marabá.

Ainda sobre a viabilização do livro sobre Expedito, a pesquisadora Marcionila Fernandes, que no período do assassinato do ex presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria cursava o mestrado no NAEA, e estudava a UDR, contribui na obra na construção da biografia de Expedito, e com uma entrevista sobre o delicado cenário da luta pela terra na região do Araguaia. 

A mesma pesquisadora foi responsável por uma entrevista que integra o livro de poesia de Ribeiro. Nela o dirigente nomeia fazendeiros, pistoleiros, grupos paramilitares, e as fazendas eivadas por grandes conflitos e mortes.

Sobre a perda de seus pares de luta, assim poetizou Expedito sobre  a execução do advogado Fonteles:

Morreu deixando a história

De um incansável lutador

Deu sua própria vida

Pelo povo sofredor

Foi um grande combatente

Em defesa de sua gente

Injustiçada e sofrida

Tendo uma sorte infeliz

Sofrendo neste país

Espoliado e oprimido.

Em uma tentativa de arrumação de documentos há muito esquecidos em caixas, deparei-me com o livro de Expedito. E, aqui o compartilho a quem interessar possa. AQUI

Em par com um monte de gente das mais diferentes formações, filiações, laços de amizade e parentesco de dirigentes e assessores que foram assassinados no processo de luta pela terra no Pará, em uma grande ciranda animada por mim e o professor Elias Sacramento (UFPA), buscamos produzir um livro sobre os Mártires da Terra.

A obra objetiva recuperar parte desta saga no estado do Pará. Ainda em setembro lançaremos o projeto de captação de recurso para viabilizar o livro.


O caso de Expedito é narrado pelo sobrinho e historiador, José Ribeiro.  

Em 2007 o documentário Expedito: em busca de outros nortes recuperou parte da trajetória do sindicalista. Veja AQUI

 

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

O trecho, algumas transpirações

No trecho, possibilidades. Encruza, cruzada. Equilibrista de circo sem rede de proteção

Fonte: livro CAT Ano décimo - etnografia de uma utopia. Jean Hébette e Raul Navegantes. UFPA, 2000

É o trecho a plenitude da instabilidade? Trecho: mobilidade e cativeiro. Escravidão por dívida. Na canção Peão de Trecho, Zé Geraldo defende que o trecho seja: “ Uma parte do mundo é nossa morada/A outra parte é nosso quintal”. O sol não brota em todo quintal. Ao contrário, proliferam cercas. Farpado arame. Um menino da porteira por bala crucificado. Negócios. Nelore batizado por pastor neopentescostal.

O trecho é febre. Garimpos, barragens, matas de juquira, cercas, gado, castigo, estradas. Sol sem fim. Paixões, desilusões, canções de amor. Malárias cravadas nas paredes das memórias de puteiros. Abajur lilás. Baton vermelho. Vermelho sangue. Rupinol, Tetrex, Quinina, Engov. Desventuras, amizade, trairagem, capataz. Aposta. Mesa de bilhar. Peixe grande, peixe pequeno. Trago de pinga com tira gosto de poeira. Cigarro de terceira. Traje encharcado de suor. Aridez sem pouso.

No trecho, possibilidades. Encruza, cruzada. Equilibrista de circo sem rede de proteção. O trecho é o quintal de desencontros. Encontros de estranhos sob o guarda-chuva de infinidades de tempos. O tempo do capital, o tempo do peão, o tempo da puta, o tempo do funcionário público, o tempo do homem da roça, o tempo do sem terra e teto, o tempo do ancestral, o tempo do malandro, o tempo do pistoleiro, o tempo do “puliça”.  Tic-tac sobre todas as cabeças. O muque é a justiça no trecho. Rasteira, 38, peixeira. Bucho a sangrar.

O trecho, iniquidade.Filho bastardo de violências múltiplas: Estado, capital, oligarquias, empresas transnacionais, migrações....um fio de novelo sem fim. Labirinto, minotauro. Salve-se quem puder. Em algumas ocasiões, até solidariedade, como conta uma filha de garimpeiros: “quando o peão tá nos braços da morte, é comum a cotização para socorrer o moribundo. Rola até mandar de avião”.

O trecho tem a musculatura das gentes que saíram ou foram saídas de suas terras natais. As secas forçaram as andanças dos parentes do Nordeste. No Maranhão, o maior exportador de tensões sociais do país, conforme Alfredo Wagner, soma-se ao quadro o avanço da fronteira do grande capital. Contudo, os manos do Sul, - os campesinos -, igualmente foram desterrados sob a mesma violência. Revolução verde. Verde sangue. Transgênico universo. Acumulação primitiva.

O que é o peão do trecho?  À primeira vista, as gentes do trecho é composta em sua maioria por homens. Migram em busca do delírio dourado em bamburrar em algum garimpo. O fracasso o empurra para os braços da juquira em qualquer fazenda para defender um troco. Juquira e grileiro não são lá de muitos afetos. Não à toa o Pará é mister em trabalho escravo. O trecho não manda recado. É tiro, porrada, morte e impunidade.

A labuta na terra socorre muitos dos peões do trecho. Filhos e filhas. Trecho, faculdade sem parede. Alegria, desencantamento. Inúmeros dirigentes das organizações da luta pela terra possuem ou possuíram em seus quadros migrantes. Nas fileiras, muitos tombaram. No caso do Massacre de Eldorado, dos 19 executados pela PM do Pará em 1996, 11 eram oriundos do Maranhão. 

José Dutra da Costa, dirigente da Fetagri executado em Rondon do Pará, idos de 2000, era filho da terra de Gullar. Estima-se que pelo menos 40% da população do sul e sudeste do estado do Pará seja composta por estes errantes das lonjuras de seus locais de origem.

A dor de cotovelo é a trilha sonora no trecho. Filme triste que faz chorar. Nesta seara, poetas e cancioneiros, muitas das vezes, são filhos do trecho. O garimpo, o amor distante ou o impossível amor, por conta da ausência de condições da reprodução econômica e social, a “traição” são elementos motivadores/transpiradores das canções. Sofrência em elevado grau de concentração. Atômica bomba. No trecho, quem espera nunca alcança. Não se ouve conselho.

Rememorar é preciso. Viver não é preciso. Numa das afamadas  canções, que invoca a lua para saber onde o grande amor se esconde, o autor (que escapa à memória) dispara à queima roupa: “eu vou pedir a lua/para iluminar a rua/saber onde você se esconde/eu vou te procurar. Oh lua, oh lua cor de prata/me diga por favor/aonde anda aquela ingrata. ” Borba de Paula entoa a canção. 

Nas andanças pelo trecho, por entre risos,rios, afagos, tragos, amassos e errâncias, uma arrebatou o meu pobre coração, Cofrinhode Amor. Uma canção exaltação que relaciona a pessoa amada ao sonho da riqueza no garimpo, o versejador assim alumeia a sua musa, “Você é meu céu/É minha vida/O meu peso/A minha medida/ Meu cofrinho de amor. ” 

Noutra frase invoca a presença da pessoa querida, “Volta meu bem/Meu amor/Minha vida/Estou lhe esperando/Volta depressa que o meu coração está quase parando”. A canção é interpretada por Elino Julião. Um dos hits dos anos de 1970/1980, quando a “conquista” da fronteira amazônica se consolida em definitivo

Nestes tempos Bartô Galeno reinava nas emissoras de rádio AM, era o cara em nove de cada dez casas de tolerância. O hit “No toca fita do meu carro” tomava todos os cantos. Tal piolho em cabeça de menino. Logo na primeira estrofe, ele manda o recado sobre a ausência do grande amor, onde, consta, “No toca fita do meu carro/Uma canção me faz lembrar você/Acendo mais um cigarro/E procuro lhe esquecer/Do meu lado está vazio/Você, tanta falta me faz. ”....

A ausência ou as lonjuras da pessoa amada são combustíveis para a criação das canções. Os bares desprovidos de grandes atrativos, os puteiros em geral, a exemplo da Rua do Escorre Água em Tucuruí, o bem afamado puteiro denominado de Canela Fina, em Marabá, os inúmeros em Santarém, estrategicamente localizados à beira do belo Tapajós,  glorificados durante o boom da extração do ouro na década de 1980 são alguns elementos da aquarela do trecho. 

O trecho é um fio sem fim....muitas das inquietações aqui buriladas tiveram como palco bares de Marabá e da vida,  exemplo do Bar da dona Dida, na Feira da 28, Carecão, na Cidade Nova, no Bar da Ana, no Cabelo Seco....ao lado de manas, manos e monas de primeira linha...muitos e muitas, filhos e filhas do trecho, das errâncias...

O trecho, beijo na boca...unzin...aperreio de solitários,  andanças pelo Bico do Papagaio, onde o filho chora e a mãe nem faz ideia das dores, não sabe, desconhece....

“Minha vida é andar por este país/Pra ver se um dia descanso feliz.....” No trecho, fumaça...amores, dissabores, sabenças...gente que vem, gente que vai...Trecho, roçado de ventos, jardim de tempestades...

 

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Manoel Conceição, presente!!!

O dirigente devotou toda a sua existência pela classe trabalhadora. Ser plural, ajudou a forjar o PT, a CUT, centros de educação camponesa, a luta sindical, a defesa pelo Cerrado. Tinha lema, "Minha perna é minha classe". 

                                 Foto: Marcelo Cruz

Manoel Conceição passarinhou nesta manhã, na cidade de Imperatriz, oeste do Maranhão, região do Cerrado, encruza onde os rios afloram. Tocantins, Araguaia. Nascido numa vila da cidade de Coroatá, filho e neto de família camponesa, Mané, como é tratado pelas pessoas mais próximas, possui reconhecimento mundial como um dos ativistas mais expressivos na defesa da reforma agrária no Brasil. 

Mané foi, é plural. Ativista partidário, sindicalista, educador, ambientalista, um craque em organizar barricas de resistências, um jardineiro de utopias. Um ser coletivo. O seu nome consta na memória das lutas populares em vários estados do país, entre eles Maranhão, Pernambuco e Minas Gerais.

Foi linha de frente em pelejas áridas no Vale do Pindaré e Buriticupu, no Maranhão, como celebra o igualmente dirigente camponês Luiz Vila Nova, em recente livro de memórias realizado com a jornalista Cláudia Santiago, do Núcleo Piratininga de Comunicação.

Manoel Conceição é uma pessoa rara. O negro com um pouco mais de metro e meio  teve a perna amputada por conta da opção pelos trabalhadores durante o regime militar. Viveu no exílio. Distante de sua terra natal, em suas andanças ganhou de Mao uma prótese.

Mané é um petista histórico. Foi o terceiro nome no livro de fundação do partido no Colégio Sion, no ano de 1980. Movido pela trajetória construída, realizou greve de fome por conta da aliança que o partido firmou com a família Sarney no Maranhão.

 O dirigente ajudou a organizar o partido em vários estados. Em Pernambuco, chegou a ser candidato ao governo. Em 2010 a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) relançou o livro relato, Essa terra é nossa, lançado em sua primeira edição durante o processo de redemocratização do país.

 

Em 2010, por conta de sua trajetória  em defesa da reforma agrária e do meio ambiente, a  Universidade Federal do Maranhão [UFMA] concedeu ao trabalhador rural o título de Doutor Honoris.

No mesmo ano a professora e jornalista Helciane de Fátima Abreu Araújo, lançou o livro “Memória, Mediação e Campesinato: as representações de uma liderança sobre as lutas camponesas da Pré-Amazônia maranhense”. Leia mais AQUI

Nos anos recentes a cineasta Marta Nhering tem empenhado esforços em viabilizar um documentário sobre o dirigente.

Quando Mané somou 40 anos de militância, a edição da revista Democracia Viva, editada pelo IBASE/RJ, de número 19, do ano de 2003, publicou longa reportagem sobre o ativista.  Veja AQUI

Em outra edição da mesma revista, consta uma entrevista. Leia AQUI

Já a revista Ecologia e Desenvolvimento, da extinta editora Cadernos do Terceiro Mundo, abordou a sua atividade em defesa do Cerrado do Maranhão, em edição de nº 107, quando a publicação somava 12 anos de atividade. Leia AQUI

MST e amigos, recentemente realizaram uma live em homenagem a Mané, que pode ser visualizada AQUI.

Manoel Conceição, presente!!!

  


Massacre de Corumbiara: 26 anos de impunidade

 

Fonte: site Nova Democracia

Há 26 anos Corumbiara, em Rondônia, perderia o anonimato por conta de um massacre de sem terra ligados à Liga dos Camponeses Pobres (LCP). A chacina precedeu o Massacre de Eldorado, ocorrido no sudeste do estado do Pará, em 1996.

Ambas as chacinas foram registradas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, que buscava impor aos camponeses um modelo de reforma agrária sob a régua e o compasso do “deus” mercado, onde a criação do Banco da Terra representava um dos instrumentos sob os anseios das normas neoliberais, que entre outras ações viabilizou a entrega da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), assim como o governo atual ambiciona entregar boa parte do patrimônio nacional, a exemplo dos Correios. 

As chacinas registradas na Amazônia redefiniram a política de assentamentos da reforma agrária. Por conta dos crimes contra os camponeses e a grande pressão nacional e internacional, o Estado passa a reconhecer em massa inúmeras áreas ocupadas – alguma há mais de duas décadas -  como projetos de assentamento. 

A medida do Estado consagrou a Amazônia como a região de maior concentração de projetos de assentamento da reforma agrária no país, sendo o sudeste do Pará a região de destaque. Fato em certa medida explicado pelo vasto histórico de violentas disputas pela terra, que a consagraram como a mais violenta do Brasil.

Saiba mais sobre o Massacre de Corumbiara no site a Nova Democracia.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

O retorno para casa - uns apanhados


                                                Centro Histórico de São Luís-MA. Foto: Thulla Esteves

Julho. Calor. Tempo de queimadas e poeira por cá, terras parauaras, nas bandas de Marabá. Assim como o aumento de casos de doenças respiratórias nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs).

Crianças e idosos são os mais afetados. Em condições normais, as chuvas já deveriam ter cessado. Entretanto, vez por outra, uma precipita. Climáticas transformações. Sibéria em chamas.

A epidemia continua a devorar vidas. Mais de mil pessoas/dia. A estupidez tomou o país de assalto com as devidas credenciais militares.   À cada final de semana desfila de moto em algum canto.

O custo é elevado, enquanto milhares disputam ossos para compor alguma refeição no terreiro do agronegócio. Ruinas ao redor. Recompor os escombros será missão hercúlea. Gerações em destroços.

Em oposição ao obscurantismo, manifestantes têm tomado as ruas em todo o país periodicamente. Na derradeira, dia 24, estávamos em trânsito.  Faz uns 15 dias que estamos na estrada.

Neste intervalo, em Leopoldina, São Paulo, parte da memória do audiovisual nacional virou cinzas. O diabo tomou conta da terra do sol.

Quantos fuzis e bravos guerreiros serão necessários para romper o barravento do manto do retrocesso que irá condenar gerações a vidas secas?  Ninguém foi detido pelo crime da Cinemateca. Contudo, o ato em torrar a estátua de criminoso bandeirante teve desfecho oposto.

Negros e pobres das periferias foram detidos no caso do bandeirante. Quantas vezes favela? Negros e pobres brilham no Japão. Meninas. A contrariar tudo.  

Os dias de estrada possuíam dupla tarefa. A primeira catar as coisas de Docinho em Marabá. Enfim, escovas reunidas no mesmo cafofo, Santarém. A segunda festejar Mainha em São Luís, que este ano celebra 90 primaveras. Brava, ereta, lúcida, como sempre repete.

Desde maio ela celebra. “Celebrar, é assim que tem de ser”, festejou Chico Science. No quarto ela ainda guarda os balões e outros mimos. Faz questão de exibir. “A vida é tão rara”, diria Lenine.

Num dos dia do festejo de Mainha, regado a violão do sobrinho Jonantha, que vi tocar pela primeira vez contamos com a alegria do mano Carlos Pereira, o “Pança”, camarada de velha data, tempos de UFMA. E o senhor Valdir, enamorado de minha irmã Cristiane. Risos aos montões sobre paradas antigas e recentes. Perda de óculos, dormir em ponto de ônibus....



Dias de risos e mar. É tudo água ao redor. O retornou ocorreu na tarde do dia 30. Era sexta feira. Chovia. 16h partimos do hotel rumo à rodoviária. Até chegar em casa seriam 25h a serem superadas. Ida até Belém para poder seguir de avião até Santarém. 

A empresa Jamjoy foi a escolhida para a estrada. A promessa é que não haveria parada em nenhum ponto até Ananindeua, região metropolitana de Belém. No entanto, logo de cara ocorreu parada para jantar e em seguida para o café. Sendo que o busão 9315 partiu de São Luís com mais de 40 minutos de atraso. Havia temor sobre perder a conexão.

Na cidade de Castanhal, por volta das 9h, o motorista, um chato sem medidas, anunciou o prego no veículo. Falei sobre a nossa conexão com uma jovem que tomava de conta do guichê da empresa. Saber se havia algum gerente. Nadinha de nada.

Fomos obrigados a tomar um táxi. O preço da corrida  até o aeroporto foi superior que o preço da passagem da Jamjoy, que não conta com informações sobre SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente) em seu site. 

As informações disponíveis em suas redes sociais sobre email e telefone não funcionam. E o espaço no site dedicado a reclamações não completa a operação.  

A viagem entre Belém até Santarém dura 60 minutos. Aportamos na cidade por volta das 14h e uns quebrados. Seguimos direto para uma peixaria.

Aportamos em casa somente por volta das 17h. Soneca merecida. Como é bom voltar para o aconchego. Na segunda os pertences de Docinho foram entregues. Ela parece feliz, apesar de murmurar uma reclamação aqui, outro acolá. Aos poucos o cafofo ganha a cara da gente. Uns mimos aqui, outros ali.

Daqui a pouco já será o natal. Contudo, antes, teremos a celebração de nossas primaveras....”quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos”....