É com grande pesar, que
recebemos na manhã deste dia 3 de setembro de 2021 a triste notícia da partida
de dona Olinda Moraes Tavares, mãe de Padre Josimo. Ela fez sua páscoa hoje aos
seus 82 anos, na cidade de Marabá, PA, em consequência de uma súbita parada
cardíaca. Leia a íntegra da nota da CPT AQUI
terça-feira, 7 de setembro de 2021
Morre em Marabá D Olinda, mãe do padre Josimo Tavares, assassinado pelo latifúndio na década de 1980
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Postado por rogerio almeida às 9/07/2021 09:16:00 PM 0 comentários
Expedito Ribeiro de Souza, vivo fosse, festejaria 74 primaveras em 2021
A sanha do latifúndio trajetória do ativista comunista, lavrador e poeta no ano de 1991. No mesmo ano, um pequeno grupo de intelectuais editou um livro póstuma de poemas de Ribeiro. Coube a Lúcio Flávio Pinto a seleção dos versos e a apresentação. Aqui republicada.
No
ano passado Expedito Ribeiro de Souza selecionou poesias no vasto acervo de
literatura de cordel que havia produzido e inscreveu-se num concurso promovido
pela Fundação Cultural Tancredo Neves, em Belém. Conseguiu um terceiro lugar.
Se fosse o primeiro colocado, e se a Fundação agisse rápido, Expedito teria
tido a alegria de ver um livro seU publicado. Mas o prêmio não veio, o livro
não saiu, e Expedito foi morto com três tiros, perto de sua casa, em Rio Maria,
no dia 02 de fevereiro.
Este,
portanto, é um livro póstumo. Nada a reclamar da comissão que não deu o
primeiro lugar ao alegre Expedito. As poesias dele não são obra prima, nem
mesmo se circunscritas ao âmbito do cordel nacional. Com todo poeta popular, ao
contrário da flamula e dândis das avenidas formais do verso, Expedito sabia
muito bem de suas limitações e as expunha ao público. Versejar, porém, era a
maneira de projetar sua esperança, realimentando-a. Maravilhosa é essa condição
humana, que não prescinde da poesia como forma de conhecimento, emoção, prazer,
mistério, surpresa e alegria – no sangrento sertão, ou na sangrenta cidade.
Em
meio à violência e aridez que o campo cobra dos que nele sobrevivem, Expedito
era a confirmação da inesgotável capacidade humana. Imigrante, lavrador, preto,
pobre, religioso, líder, comunista e poeta. É muito título para uma pessoa tão
humilde. Um título não é nada, um título é apenas uma etiqueta que se afixa
numa pessoa para classifica-la., quando necessário. A pessoa Expedito Ribeiro
de Souza transcende a etiqueta colocada em seu corpo inerte para o inevitável
assento necrológico. Ele foi como aquela flor que nasce no meio do asfalto,
amarela que fosse, mas flor, um produto do milagre humano percebido pelo grande
poeta Carlos Drummond de Andrade, mineiro como Expedito, mineiro como o mago do
sertão Guimarães Rosa, ciranda de mineiros que não se passaram ao passarem pela
vida deixando sua marca.
Quanto
capital humano penosamente fabricado é desperdiçado em fração de instantes pela
estupidez dos homens, pela convivência dos homens, pela insensibilidade dos
homens por trás de um gatilho de revolver de pistoleiro. Expedito foi
assassinado porque pensava pelos seus, brigava por eles, queria que fossem
menos desiguais do que os mais iguais da sociedade. Porque há uma liturgia
dessa palavra e uma confraria desse rito. Expedito tornou-se militante do
Partido Comunista do Brasil, que, em Rio Maria, tenta manter sua mística do
Araguaia (mais mito que mística, aliás). Na sala da pobre casa em que morava,
deixada para mulher, nove filhos, mãe e agregados dividirem. Expedito mantinha
um cartaz do PC do B e imagens bíblicas, além do retrato das chagas de Cristo.
Isto é Brasil. Quem entende de sertão sabe, aprende, respeita. Quem de sertão
tenta fazer mares nuca dantes navegados, em papel ou celuloide, naufraga – e
arrasta consigo aquele forte que só em cabeças grandiosas rebrota por inteiro
(nas de Rosa e Euclides, por exemplo).
Os
poetas costumam ser doces, mas é de sua natureza ir ao fundo dos homens,
trazendo-lhes as raízes. Não espanta que os violentos tomam os poetas como
alvos preferenciais. Garcia Lorca, um sertanejo andaluz, sucumbiu à aurora
fascista na Espanha. A Maiakovski não coube outra alternativa senão
o suicídio, que Eisentein – poeta da imagem – bebeu em goles lentos, inodores,
imorais (na imoralidade de escapar ao fatalismo planejador de Papá Stálin).
No
sertão amazônico, nem mesmo o poeta pode reinar pacifica e docemente. Mesmo
divino, ele que se arme e se acautele, como está escrito nos versículos do
“Grande Sertão Veredas”. Pessoa do povo, como Expedito, se tornam poetas porque
os grandes temas filosóficos da vida os levam a transcender a prosaica
comunicação de todos os dias. Nenhum tema é mais filosófico do que a morte.
Nenhuma agenda de Rio Maria é fechada a cada dia sem considerar uma morte, ou
um anúncio premonitório da morte, como a de Expedito, ou a dos Canuto. Neste
livro, que abriga apenas alguns das poesias que ele produziu, o tema é quase
profético. Infeliz do país em que poetas são infalivelmente proféticos, e as
autoridades incompetentes, cúmplices. Não podendo preservar a vida de Expedito,
de muito listada para ser consumida, salvamos seus versos, na tentativa, talvez
vã, mas necessária, de que permaneçam no ar, como o perfume a que aspirava ser
outro poeta do povo, o maranhense João do Vale, de mais sorte por não ter
“mexido” aos mortíferos assuntos da terra, razão da vida de milhões de
desterrados brasileiros, razão também de suas mortes.
Além
das poesias, este livro divulga a última entrevista de Expedito, concedida a
Marcionila Fernandes. Aluna do curso de mestrado do Plades, no Núcleo de Altos
Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, Marcionila conversou várias
vezes com Expedito, em função de sua dissertação de mestrado, sobre a atuação
de fazendeiros no Pará, tornando-se amiga do lavrado. Ela também é autora do
breve perfil de Expedito. Foi ainda quem
recolheu as poesias que selecionei para este livro, com o qual se espera,
também, ajudar na difícil sobrevivência da família do líder sindical
assassinado.
Aqui
está o registro da voz do poeta que fala pelo povo, e, como fiz o povo:
empresta a voz de Deus. Que outros poetas do povo não inaugurem sua literatura
postumamente, é o que esperamos, e pelo que continuaremos a lutar.
Belém,
fevereiro de 1991, Lúcio Flávio Pinto
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Postado por rogerio almeida às 9/07/2021 09:07:00 PM 0 comentários
Negra Melodia, banda de Marabá, lança o seu 1º EP no dia 10, sexta feira
7 composições fazem parte do EP com influências diretas do samba, do reggae, do bumba meu boi e da sonoridade caribenha.
Samba, reggae, bumba meu boi, carimbó e a sonoridade caribenha fazem parte do primeiro EP da banda Negra Melodia, a ser lançado no dia 10, sexta feira, a partir das 17h, no Museu Municipal do Núcleo Cidade Velha, em Marabá. O EP foi viabilizado pela Lei Aldir Blanc - edital - SECULT - Som das Cidades 1. Toda a produção ocorreu em Marabá, no Estúdio Calango, do cantor e compositor Clauber Martins, e contou com a produção musical do baixista Itair Rodrigues.
A dupla de jovens negros Jane Martins e Marcelo Melo é a linha de frente do grupo nascido das atividades culturais da antiga Universidade Federal do Pará (UFPA) Campus Marabá, hoje Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), quando ainda cursavam Ciências Sociais. As reflexões sociológicas dos três tenores da Sociologia mundial, Marx, Weber e Durkheim e o pajé nacional, Florestan Fernandes apimentam a verve crítica dos meninos sobre tenso solo onde habitam.
A tradução sobre as desigualdades
da região pode ser traduzida na canção Periferia. Ela é uma crônica sobre dois
jovens que fazem o corre na cidade em busca de dias melhores, no entanto,
acabam sendo executados pela polícia. Fato corriqueiro registrado de Norte ao
Sul do país, onde repetidamente os indicadores sinalizam para um genocídio da
juventude negra. Marcelo Melo divide a autoria da canção com o poeta e
jornalista Ademir Braz. Além de Braz, Milton Rocha, o professor e músico Bruno
Malheiro, Lariza Xavier, Adler Olsen e Leandro Silva constam como compositores
e parceiros das canções do EP.
Na estrada desde 2009, o som da
banda expressa situações de conflitos das encruzas da fronteira mais delicada
da luta pela terra do país, o sudeste do Pará. As composições do grupo traduzem
as contradições e lutas que transcorrem na região, bem como as relações de
trocas culturais com o vizinho estado do Maranhão, materializadas nas
composições Reggae-boi e Viver e lutar.
Conforme os sociólogos e artistas, Rita Ribeiro, Chico César, Edson Gomes, Gilberto Gil e banda Tribo de Jah são
algumas das referências do grupo, que na cena cultural de Marabá é figura
carimbada na agenda de luta do movimento negro da cidade, a exemplo das
manifestações que ocorrem pela passagem do Dia da Consciência Negra, realizadas
em novembro, e na quadra carnavalesca, quando animam o bloco Terra Preta.
Para o lançamento do 1º EP da
Negra Melodia integram a banda, assinando a produção musical e baixo, Itair
Rodrigues, comanda a bateria Guedes Junior, enquanto Bruninho ataca na
guitarra, Marcelo Melo responde pelo violão e voz, ladeado por Jane Martins,
toma conta da percussão Edu Hilário, nos teclados quem manda o recado é o
Marlisson, já o nipe de metais é composto por Walkimar Guedes, Jairo Moreira,
Gabriel Raiol, cabe a Walkimar Guedes o
sax.
O EP terá acesso livre em todas
as plataformas de música a partir de outubro.
Serviço
Lançamento do 1º EP da banda Negra Melodia
Dia: 10 de setembro
Local: Museu Municipal de Marabá, Núcleo Cidade
Velha
Hora: 17h
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Postado por rogerio almeida às 9/07/2021 05:49:00 AM 0 comentários
segunda-feira, 30 de agosto de 2021
Expedito, lavrador, negro, sindicalista e comunista das terras do Araguaia
A execução do sindicalista somou 30 anos em fevereiro. Em agosto ele somaria 74 anos. Em setembro professores lançam projeto de captação de recurso que busca recuperar parte da memória dos Mártires da Terra no Pará.
Expedito
Ribeiro de Souza é semente da terra das bandas das Gerais, Valadares. Cedo correu
o trecho. O filho de lavradores (João e Maria) apeou nas ilhargas do Goiás,
antes de alcançar as terras do Pará. Em Goiás, berço da criação da União Democrática
Ruralista (UDR), - o braço armado dos fazendeiros -, trabalhou de meia.
Aos 19 anos já era casado com Maria Macedo, com que teve dez rebentos. Em plena ditadura, sentou praça nos beirais do Araguaia. Terra de valentia. Terra encharcada de sangue de campesinos, cidade de Rio Maria. Ribeiro sabia do risco que corria, assim assuntou sobre a questão:
Cova funda neste leito
Cova que ele quer
Eu
não te quero
Cova
de cemitério
Cova
que quer do mundo dos vivos
De
quem tu queres engolir
Para
depois engolir
Cova
do medo
Eu
tenho medo de ti
Os
versos fazem parte do poema Cova do Medo, do livro O Canto Negro da Amazônia, lançado
pós morte de Expedito, ocorrida em fevereiro de 1991. O conterrâneo de Drummond
era homem de poucas letras, todavia, aprendeu a ler e escrever. O negro do PC
do B, possuía afeto pelo versejar. Assim, exprimia suas angústias, a sua
leitura do mundo na condição de homem sem terra.
Um
ano antes de sua execução, Riberio havia selecionado versos de cordel para
concorrer em um concurso cultural da Fundação Tancredo Neves. Ficou em terceiro
lugar, conta o jornalista Lúcio Flávio Pinto, na apresentação do livro do
sindicalista.
Sobre
o ativista da reforma agrária em terra tão temida, o jornalista, ao mobilizar
Drummond, assim define Expedito, “Uma flor que nasceu no meio de asfalto,
amarela que fosse, mas flor, um produto do milagre humano”.
O
professor Raul Navegantes, à época da execução de Ribeiro, coordenador do
Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará
(UFPA), sobre a publicação, explica a iniciativa, “movido por dois sentimentos:
o da revolta diante de mais um assassinato, que quiçá, terá por conclusão a
impunidade, e do sentimento de participação que dá ao primeiro maior
legitimidade e pungência”.
Navegantes
foi relevante par de utopia junto aos camponeses da região do Araguaia no
projeto do Centro Agro-ambiental da Araguaia (CAT), que teve como ponta de
lança o professor natural da Bélgica, Jean Hébette, que por mais de 30 anos
somou nas pelejas junto aos camponeses.
O
nome do respeitado pesquisador do campesinato da fronteira amazônica hoje
nomeia a Escola Família Agrícola (EFA), de Marabá.
Ainda
sobre a viabilização do livro sobre Expedito, a pesquisadora Marcionila
Fernandes, que no período do assassinato do ex presidente do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Rio Maria cursava o mestrado no NAEA, e estudava a UDR,
contribui na obra na construção da biografia de Expedito, e com uma entrevista
sobre o delicado cenário da luta pela terra na região do Araguaia.
A
mesma pesquisadora foi responsável por uma entrevista que integra o livro de
poesia de Ribeiro. Nela o dirigente nomeia fazendeiros, pistoleiros, grupos
paramilitares, e as fazendas eivadas por grandes conflitos e mortes.
Sobre
a perda de seus pares de luta, assim poetizou Expedito sobre a execução do advogado Fonteles:
Morreu
deixando a história
De
um incansável lutador
Deu
sua própria vida
Pelo
povo sofredor
Foi
um grande combatente
Em
defesa de sua gente
Injustiçada
e sofrida
Tendo
uma sorte infeliz
Sofrendo
neste país
Espoliado
e oprimido.
Em uma tentativa de arrumação de documentos há muito esquecidos em caixas, deparei-me com o livro de Expedito. E, aqui o compartilho a quem interessar possa. AQUI
Em par com um monte de gente das mais diferentes formações, filiações, laços de amizade e parentesco de dirigentes e assessores que foram assassinados no processo de luta pela terra no Pará, em uma grande ciranda animada por mim e o professor Elias Sacramento (UFPA), buscamos produzir um livro sobre os Mártires da Terra.
A obra objetiva recuperar parte desta saga no estado do Pará. Ainda em setembro lançaremos o projeto de captação de recurso para viabilizar o livro.
O caso de Expedito é narrado pelo sobrinho e historiador, José Ribeiro.
Em 2007 o documentário Expedito: em busca de outros nortes recuperou parte da trajetória do sindicalista. Veja AQUI
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Postado por rogerio almeida às 8/30/2021 09:57:00 PM 0 comentários
sexta-feira, 20 de agosto de 2021
O trecho, algumas transpirações
No trecho, possibilidades. Encruza, cruzada. Equilibrista de circo sem rede de proteção
É o trecho a plenitude da
instabilidade? Trecho: mobilidade e cativeiro. Escravidão por dívida. Na canção
Peão de Trecho, Zé Geraldo defende que o trecho seja: “ Uma parte do mundo é
nossa morada/A outra parte é nosso quintal”. O sol não brota em todo quintal. Ao
contrário, proliferam cercas. Farpado arame. Um menino da porteira por bala
crucificado. Negócios. Nelore batizado por pastor neopentescostal.
O trecho é febre. Garimpos,
barragens, matas de juquira, cercas, gado, castigo, estradas. Sol sem fim. Paixões,
desilusões, canções de amor. Malárias cravadas nas paredes das memórias de
puteiros. Abajur lilás. Baton vermelho. Vermelho sangue. Rupinol, Tetrex, Quinina,
Engov. Desventuras, amizade, trairagem, capataz. Aposta. Mesa de bilhar. Peixe
grande, peixe pequeno. Trago de pinga com tira gosto de poeira. Cigarro de
terceira. Traje encharcado de suor. Aridez sem pouso.
No trecho, possibilidades. Encruza,
cruzada. Equilibrista de circo sem rede de proteção. O trecho é o quintal de
desencontros. Encontros de estranhos sob o guarda-chuva de infinidades de
tempos. O tempo do capital, o tempo do peão, o tempo da puta, o tempo do
funcionário público, o tempo do homem da roça, o tempo do sem terra e teto, o
tempo do ancestral, o tempo do malandro, o tempo do pistoleiro, o tempo do
“puliça”. Tic-tac sobre todas as
cabeças. O muque é a justiça no trecho. Rasteira, 38, peixeira. Bucho a
sangrar.
O trecho, iniquidade.Filho bastardo
de violências múltiplas: Estado, capital, oligarquias, empresas transnacionais,
migrações....um fio de novelo sem fim. Labirinto, minotauro. Salve-se quem
puder. Em algumas ocasiões, até solidariedade, como conta uma filha de
garimpeiros: “quando o peão tá nos braços da morte, é comum a cotização para socorrer
o moribundo. Rola até mandar de avião”.
O trecho tem a musculatura das
gentes que saíram ou foram saídas de suas terras natais. As secas forçaram as
andanças dos parentes do Nordeste. No Maranhão, o maior exportador de tensões
sociais do país, conforme Alfredo Wagner, soma-se ao quadro o avanço da
fronteira do grande capital. Contudo, os manos do Sul, - os campesinos -, igualmente
foram desterrados sob a mesma violência. Revolução verde. Verde sangue. Transgênico
universo. Acumulação primitiva.
O que é o peão do trecho? À primeira vista, as gentes do trecho é
composta em sua maioria por homens. Migram em busca do delírio dourado em
bamburrar em algum garimpo. O fracasso o empurra para os braços da juquira em
qualquer fazenda para defender um troco. Juquira e grileiro não são lá de
muitos afetos. Não à toa o Pará é mister em trabalho escravo. O trecho não
manda recado. É tiro, porrada, morte e impunidade.
A labuta na terra socorre muitos dos peões do trecho. Filhos e filhas. Trecho, faculdade sem parede. Alegria, desencantamento. Inúmeros dirigentes das organizações da luta pela terra possuem ou possuíram em seus quadros migrantes. Nas fileiras, muitos tombaram. No caso do Massacre de Eldorado, dos 19 executados pela PM do Pará em 1996, 11 eram oriundos do Maranhão.
José Dutra da Costa, dirigente da
Fetagri executado em Rondon do Pará, idos de 2000, era filho da terra de Gullar.
Estima-se que pelo menos 40% da população do sul e sudeste do estado do Pará seja
composta por estes errantes das lonjuras de seus locais de origem.
A dor de cotovelo é a trilha sonora
no trecho. Filme triste que faz chorar. Nesta seara, poetas e cancioneiros, muitas das vezes, são filhos do
trecho. O garimpo, o amor distante ou o impossível amor, por conta da ausência
de condições da reprodução econômica e social, a “traição” são elementos
motivadores/transpiradores das canções. Sofrência em elevado grau de
concentração. Atômica bomba. No trecho, quem espera nunca alcança. Não se ouve
conselho.
Rememorar é preciso. Viver não é
preciso. Numa das afamadas canções, que invoca a
lua para saber onde o grande amor se esconde, o autor (que escapa à memória) dispara
à queima roupa: “eu vou pedir a lua/para iluminar a rua/saber onde você se
esconde/eu vou te procurar. Oh lua, oh lua cor de prata/me diga por favor/aonde
anda aquela ingrata. ” Borba de Paula entoa a canção.
Nas andanças pelo trecho, por entre
risos,rios, afagos, tragos, amassos e errâncias, uma arrebatou o meu pobre coração, Cofrinhode Amor. Uma canção exaltação que relaciona a pessoa amada ao sonho da riqueza
no garimpo, o versejador assim alumeia a sua musa, “Você é meu céu/É minha
vida/O meu peso/A minha medida/ Meu cofrinho de amor. ”
Noutra frase invoca a presença da
pessoa querida, “Volta meu bem/Meu amor/Minha vida/Estou lhe esperando/Volta
depressa que o meu coração está quase parando”. A canção é interpretada por
Elino Julião. Um dos hits dos anos de 1970/1980, quando a “conquista” da fronteira
amazônica se consolida em definitivo
Nestes tempos Bartô Galeno reinava
nas emissoras de rádio AM, era o cara em nove de cada dez casas de tolerância.
O hit “No toca fita do meu carro” tomava todos os cantos. Tal piolho em cabeça
de menino. Logo na primeira estrofe, ele manda o recado sobre a ausência do
grande amor, onde, consta, “No toca fita do meu carro/Uma canção me faz lembrar
você/Acendo mais um cigarro/E procuro lhe esquecer/Do meu lado está vazio/Você,
tanta falta me faz. ”....
A ausência ou as lonjuras da pessoa
amada são combustíveis para a criação das canções. Os bares desprovidos de
grandes atrativos, os puteiros em geral, a exemplo da Rua do Escorre Água em
Tucuruí, o bem afamado puteiro denominado de Canela Fina, em Marabá, os
inúmeros em Santarém, estrategicamente localizados à beira do belo
Tapajós, glorificados durante o boom da
extração do ouro na década de 1980 são alguns elementos da aquarela do
trecho.
O trecho é um fio sem fim....muitas das inquietações aqui buriladas tiveram como palco bares de Marabá e da vida, exemplo do Bar da dona Dida, na Feira da 28, Carecão, na Cidade Nova, no Bar da Ana, no Cabelo Seco....ao lado de manas, manos e monas de primeira linha...muitos e muitas, filhos e filhas do trecho, das errâncias...
O trecho, beijo na boca...unzin...aperreio de solitários,
andanças pelo Bico do Papagaio, onde o filho chora e a mãe nem faz ideia
das dores, não sabe, desconhece....
“Minha vida é andar por este país/Pra
ver se um dia descanso feliz.....” No trecho, fumaça...amores, dissabores,
sabenças...gente que vem, gente que vai...Trecho, roçado de ventos, jardim de
tempestades...
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Postado por rogerio almeida às 8/20/2021 06:56:00 PM 1 comentários
quarta-feira, 18 de agosto de 2021
Manoel Conceição, presente!!!
O dirigente devotou toda a sua existência pela classe trabalhadora. Ser plural, ajudou a forjar o PT, a CUT, centros de educação camponesa, a luta sindical, a defesa pelo Cerrado. Tinha lema, "Minha perna é minha classe".
Foto: Marcelo CruzManoel Conceição passarinhou nesta
manhã, na cidade de Imperatriz, oeste do Maranhão, região do Cerrado, encruza
onde os rios afloram. Tocantins, Araguaia. Nascido numa vila da cidade de
Coroatá, filho e neto de família camponesa, Mané, como é tratado pelas pessoas
mais próximas, possui reconhecimento mundial como um dos ativistas mais
expressivos na defesa da reforma agrária no Brasil.
Mané foi, é plural. Ativista
partidário, sindicalista, educador, ambientalista, um craque em organizar
barricas de resistências, um jardineiro de utopias. Um ser coletivo. O seu nome
consta na memória das lutas populares em vários estados do país, entre eles
Maranhão, Pernambuco e Minas Gerais.
Foi linha de frente em pelejas áridas
no Vale do Pindaré e Buriticupu, no Maranhão, como celebra o igualmente
dirigente camponês Luiz Vila Nova, em recente livro de memórias realizado com a
jornalista Cláudia Santiago, do Núcleo Piratininga de Comunicação.
Manoel Conceição é
uma pessoa rara. O negro com um pouco mais de metro e meio teve a
perna amputada por conta da opção pelos trabalhadores durante o regime militar.
Viveu no exílio. Distante de sua terra natal, em suas andanças ganhou de Mao
uma prótese.
Mané é um petista
histórico. Foi o terceiro nome no livro de fundação do partido no Colégio Sion,
no ano de 1980. Movido pela trajetória construída, realizou greve de fome
por conta da aliança que o partido firmou com a família Sarney no Maranhão.
O
dirigente ajudou a organizar o partido em vários estados. Em Pernambuco,
chegou a ser candidato ao governo. Em 2010 a Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) relançou o livro relato, Essa terra é nossa, lançado em sua
primeira edição durante o processo de redemocratização do país.
Em 2010, por conta de sua
trajetória em defesa da reforma agrária e do meio ambiente,
a Universidade Federal do Maranhão [UFMA] concedeu ao trabalhador
rural o título de Doutor Honoris.
No mesmo ano a professora e
jornalista Helciane de Fátima Abreu Araújo, lançou o livro “Memória,
Mediação e Campesinato: as representações de uma liderança sobre as lutas
camponesas da Pré-Amazônia maranhense”. Leia mais AQUI
Nos anos recentes a cineasta Marta
Nhering tem empenhado esforços em viabilizar um documentário sobre o
dirigente.
Quando Mané somou 40 anos de
militância, a edição da revista Democracia Viva, editada pelo IBASE/RJ, de
número 19, do ano de 2003, publicou longa reportagem sobre o
ativista. Veja AQUI
Em outra edição da mesma revista,
consta uma entrevista. Leia AQUI
Já a revista Ecologia e
Desenvolvimento, da extinta editora Cadernos do Terceiro Mundo, abordou a sua
atividade em defesa do Cerrado do Maranhão, em edição de nº 107, quando a
publicação somava 12 anos de atividade. Leia AQUI
MST e amigos, recentemente realizaram
uma live em homenagem a Mané, que pode ser visualizada AQUI.
Manoel Conceição, presente!!!
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Postado por rogerio almeida às 8/18/2021 08:09:00 PM 0 comentários
Massacre de Corumbiara: 26 anos de impunidade
Há 26 anos Corumbiara, em Rondônia, perderia o anonimato por conta de um massacre de sem terra ligados à Liga dos Camponeses Pobres (LCP). A chacina precedeu o Massacre de Eldorado, ocorrido no sudeste do estado do Pará, em 1996.
Ambas
as chacinas foram registradas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso,
que buscava impor aos camponeses um modelo de reforma agrária sob a régua e o
compasso do “deus” mercado, onde a criação do Banco da Terra representava um
dos instrumentos sob os anseios das normas neoliberais, que entre outras ações
viabilizou a entrega da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), assim como o governo atual ambiciona entregar boa parte do patrimônio nacional, a exemplo dos Correios.
As
chacinas registradas na Amazônia redefiniram a política de assentamentos da
reforma agrária. Por conta dos crimes contra os camponeses e a grande pressão
nacional e internacional, o Estado passa a reconhecer em massa inúmeras áreas
ocupadas – alguma há mais de duas décadas - como projetos de assentamento.
A
medida do Estado consagrou a Amazônia como a região de maior concentração de
projetos de assentamento da reforma agrária no país, sendo o sudeste do Pará a
região de destaque. Fato em certa medida explicado pelo vasto histórico de violentas disputas pela
terra, que a consagraram como a mais violenta do Brasil.
Saiba
mais sobre o Massacre de Corumbiara no site a Nova Democracia.
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Postado por rogerio almeida às 8/18/2021 05:34:00 AM 0 comentários
terça-feira, 3 de agosto de 2021
O retorno para casa - uns apanhados
Centro Histórico de São Luís-MA. Foto: Thulla Esteves
Julho. Calor. Tempo de queimadas e poeira por cá, terras parauaras, nas bandas de Marabá. Assim como o aumento de casos de doenças respiratórias nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
Crianças
e idosos são os mais afetados. Em condições normais, as chuvas já deveriam ter
cessado. Entretanto, vez por outra, uma precipita. Climáticas transformações. Sibéria
em chamas.
A
epidemia continua a devorar vidas. Mais de mil pessoas/dia. A estupidez tomou o
país de assalto com as devidas credenciais militares. À cada
final de semana desfila de moto em algum canto.
O
custo é elevado, enquanto milhares disputam ossos para compor alguma refeição
no terreiro do agronegócio. Ruinas ao redor. Recompor os escombros será missão hercúlea.
Gerações em destroços.
Em
oposição ao obscurantismo, manifestantes têm tomado as ruas em todo o país periodicamente.
Na derradeira, dia 24, estávamos em trânsito. Faz uns 15 dias que estamos na estrada.
Neste
intervalo, em Leopoldina, São Paulo, parte da memória do audiovisual nacional virou
cinzas. O diabo tomou conta da terra do sol.
Quantos
fuzis e bravos guerreiros serão necessários para romper o barravento do manto
do retrocesso que irá condenar gerações a vidas secas? Ninguém foi detido pelo crime da Cinemateca.
Contudo, o ato em torrar a estátua de criminoso bandeirante teve desfecho
oposto.
Negros
e pobres das periferias foram detidos no caso do bandeirante. Quantas vezes
favela? Negros e pobres brilham no Japão. Meninas. A contrariar tudo.
Os
dias de estrada possuíam dupla tarefa. A primeira catar as coisas de Docinho em
Marabá. Enfim, escovas reunidas no mesmo cafofo, Santarém. A segunda festejar
Mainha em São Luís, que este ano celebra 90 primaveras. Brava, ereta, lúcida,
como sempre repete.
Desde
maio ela celebra. “Celebrar, é assim que tem de ser”, festejou Chico Science. No
quarto ela ainda guarda os balões e outros mimos. Faz questão de exibir. “A
vida é tão rara”, diria Lenine.
Num
dos dia do festejo de Mainha, regado a violão do sobrinho Jonantha, que vi
tocar pela primeira vez contamos com a alegria do mano Carlos Pereira, o “Pança”,
camarada de velha data, tempos de UFMA. E o senhor Valdir, enamorado de minha
irmã Cristiane. Risos aos montões sobre paradas antigas e recentes. Perda de
óculos, dormir em ponto de ônibus....
Dias
de risos e mar. É tudo água ao redor. O retornou ocorreu na tarde do dia 30. Era
sexta feira. Chovia. 16h partimos do hotel rumo à rodoviária. Até chegar em
casa seriam 25h a serem superadas. Ida até Belém para poder seguir de avião até
Santarém.
A
empresa Jamjoy foi a escolhida para a estrada. A promessa é que não haveria
parada em nenhum ponto até Ananindeua, região metropolitana de Belém. No entanto,
logo de cara ocorreu parada para jantar e em seguida para o café. Sendo que o
busão 9315 partiu de São Luís com mais de 40 minutos de atraso. Havia temor
sobre perder a conexão.
Na
cidade de Castanhal, por volta das 9h, o motorista, um chato sem medidas,
anunciou o prego no veículo. Falei sobre a nossa conexão com uma jovem que
tomava de conta do guichê da empresa. Saber se havia algum gerente. Nadinha de
nada.
Fomos
obrigados a tomar um táxi. O preço da corrida até o aeroporto foi superior que o preço da
passagem da Jamjoy, que não conta com informações sobre SAC (Serviço de
Atendimento ao Cliente) em seu site.
As
informações disponíveis em suas redes sociais sobre email e telefone não
funcionam. E o espaço no site dedicado a reclamações não completa a operação.
A
viagem entre Belém até Santarém dura 60 minutos. Aportamos na cidade por volta
das 14h e uns quebrados. Seguimos direto para uma peixaria.
Aportamos
em casa somente por volta das 17h. Soneca merecida. Como é bom voltar para o
aconchego. Na segunda os pertences de Docinho foram entregues. Ela parece
feliz, apesar de murmurar uma reclamação aqui, outro acolá. Aos poucos o cafofo
ganha a cara da gente. Uns mimos aqui, outros ali.
Daqui
a pouco já será o natal. Contudo, antes, teremos a celebração de nossas
primaveras....”quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos”....
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Postado por rogerio almeida às 8/03/2021 09:11:00 AM 0 comentários
terça-feira, 27 de julho de 2021
Rabiscos sobre o trecho Marabá - São Luís/MA
Minha
terra tem palmeira, onde o babaçu abunda na mesma proporção de estrada marcada
pela buraqueira. Caso queiras conhecer de perto o “solo lunar”, basta percorrer
o território entre Brejo do Meio e Santa Inês. Ocorre tanto buraco, tanto
buraco, que convive em harmonia um buraco dentro de outro buraco. Sem a devida
delicadeza, lembra a matryoshka.
A buraqueira rivaliza em imundície com a rodoviária de Santa Inês. Aportamos na cidade por volta das 6h da manhã, vindos de Marabá, sudeste do Pará. Nas proximidades da rodoviária, em área de um posto de gasolina, jovens ao som do funk testemunhavam o amanhecer do dia. Uma viatura da guarda municipal passa ao largo. Bem ao largo....
As principais vias de Marabá estão bem sinalizadas e limpas. Ao menos as consideradas centrais. O trânsito flui sem maiores problemas. Ao contrário de Santarém, em certa medida marcada por vias que não facilitam a fluidez, e os motoristas não economizam em buzinadas.
Ao contrário da cidade de Santa Inês, em Imperatriz, existe uma nova rodoviária. Maior e mais arejada que a anterior, que ficava apertada nas proximidades do Centro. Foi em Imperatriz, após correr o mundo, que Manoel da Conceição sentou praça. O dirigente sindical, educador e ambientalista por esses dias somou 86 anos. É uma referência da luta popular do país. Saravá Mané!!! Todo respeito e admiração.
Docinho e eu corremos Marabá-São Luís com a missão em festejar Mainha. Uma demanda reprimida: Dia das Mães, aniversário de 90 anos, São João, e o natal antecipado. 14h de estrada.
Felizmente
o busão estava vazio. Numa poltrona em frente uma jovem não cessava um vômito. Ao descer em algum ponto, deixou como legado
três sacolas devidamente bem servidas.
Santa Inês, tal Marabá, tem a feição da brutalidade. Excelente entreposto para o Veio da Havan erguer seus monstrengos espelhados em duvidoso gosto e simbolismo de colonialidade. Santa Inês tributava uma das mais agradáveis maconha da terra. Uma liga. Terra de pistolagem. Desconheço se mantém o serviço como dantes.
Marabá (PA), Imperatriz (MA), Santa Inês (MA), entre outras cidades, eram respeitáveis e temidas na região por conta da reputação em possuir escrete de primeira linha da pistolagem. Fala-se que até escritório existia.
Em Santa Inês comemos uma parte de um pão de queijo mais massudo de todos os tempos em
local até arrumado, todavia, tomado por um som em elevado volume a executar
sofrência.
Tudo
soa pacato e sem pressa nestas paragens. No povoado de São Vicente um nelore pasta em um local
que lembra uma praça. No percurso é possível avistar além das palmeiras de
babaçu, buracos e inúmeros tanques de criação de peixe. Uns parecem bem cuidados, outros abandonados.
Os tanques de peixe é algo novo no ambiente da região.
10h
30 era a previsão de chegada em São Luís. Apesar de todos os buracos no trecho
de Santa Inês conseguimos chegar as 11h. Na cidade cercada de água por todos os
lados, um movimento de artistas empreende uma batalha contra a instalação de
símbolo da loja Havan. Nos solidarizamos
e formamos fileiras neste combate que afronta a cidade Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.
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Postado por rogerio almeida às 7/27/2021 08:47:00 AM 0 comentários
quarta-feira, 21 de julho de 2021
Diário de Bordo: Santarém - Marabá em tempo de sol inclemente
Diário de Bordo: Santarém. Madrugada do dia 18. Docinho (Thulla Esteves) e eu seguiremos para Marabá com a missão em organizar um apanhamento de coisas da antiga casa. Carregar somente o necessário. 1.200km separam as duas cidades polos de regiões estratégicas, o oeste e o sudeste. 24h é a estimativa de duração da viagem. No meio do caminho existe Altamira, sudoeste, sob a influência do Xingu, enquanto as anteriores respiram o Amazonas e o Araguaia-Tocantins. O rio é a vida do lugar.
Domingo. Férias das crianças. Quase 5h. Verão. O clima é abafado. As águas do Tapajós recuaram. As bombas colocadas na orla com a missão de drenar as águas já foram retiradas. 24h de viagem pela Transamazônica. A rodoviária é precária. Assim como os locais de parada para refeição e café. Eu e Docinho unidos na poeira da estrada. Nestes dias o preço da passagem de avião é impraticável para a realidade do orçamento de professores. Santarém, Baixo Amazonas. Há vestígios da presença humana com mais de 11 mil anos. A intenção do grande capital é consolidar a região como um grande corredor de exportação de produtos primários. Complexos portuários, hidroelétricas, modal de transporte (rodovia, hidrovia e ferrovia) constam nos planos. Planos e mapas que apagam as presenças de uma sociodiversidade estonteante.
O café ocorreu as 7h no km 140. Pão de queijo e
pingado (café com leite). O pão de
queijo nas bandas de cá possui outro calibre. É maior e massudo. Dois pães e você
praticamente entope o bucho por boas horas. A empresa Ouro e Prata faz o corre.
Estranhamente a lotação não tá completa. Ouro e Prata soa emblemático em área
de garimpo, a exemplo de cidades como Moraes de Almeida, Jacareacanga e
Itaituba. Vez em quando nova pesquisa sobre a presença de mercúrio no rio
Tapajós é anunciada. O mercúrio é usado nos garimpos. Três horas separam
Santarém de Rurópolis. Uma espécie de entrocamento de quem vem ou vai para as cidades com forte incidência de
garimpo. É uma bagaceira. Gente cheia de malas e pacotes. Fora os
barrigudinhos. Mês de férias das crianças. Abraços de despedida. Vai com Deus aos montes. O busão lotou. Até aqui existe asfalto. Muita gente sem máscara.
Funcionários da empresa e passageiros. O
motora implica com uma jovem que carrega um pequeno cão. Ameaça levar o bicho
para o bagageiro. Faz sol. Não avistei as meninas do garimpo. Em Rurópolis
a empresa francesa Dryfus almeja erguer uma estação de transbordo de soja. Um
outro grupo a instalação de um complexo de Pequenas Centrais Hidroelétricas
(PCHs). Fazer pequenas PCHs é um drible
no licenciamento ambiental. Grandes obras promovem a expropriação das
comunidades locais.
Antigamente era a Transbrasiliana que fazia o
trecho nas quebradas. No século passado
era permitido fumar. E até carregar pequenos animais. Tipo galinha, pato e
porco. Viajar na empresa significava aventura garantida. No busão que contava
com ar condicionado, era a primeira coisa a quebrar. Em seguida pneu estourava, e outras coisas desmantelavam. O busão parava mais que bicicleta de padeiro. As
encruzas da vida. A gente se perde. A gente se acha. Na encruza deparei com
Docinho. Ela do Sudeste, eu do cangaço. Temperos distintos na panela do
diabo.
Segue o busão. Poeira. A estrada acidentada faz
as vidraças tilintarem. Uma sinfonia. Uruará. Cidade imortalizada pelo tráfico
de madeira. Existe um atalho que reduz a distância até Santarém em uns cem
quilômetros e pouco. É a Transuruará. É nela que o bicho pega. Quando os órgãos
públicos de fiscalização contavam com recursos e gente era comum operações de
apreensão de madeira. Anos atrás fizemos o trajeto durante a noite. Entramos na
trilha as 19h em trajeto Marabá-Santarém. Ainda era o período de disciplinas da
pós. Gleice, Nete e Cleide completavam a trupe. Risco nas alturas. No caminho, forquilhas. Erramos umas três
vezes. Nada de energia elétrica. Menos ainda sinal de internet. Determinado momento
o pánico era tamanho que o medo sufocou a necessidade em urinar. Aportamos na
estrada de Curuá Una umas 2h da manhã. Tudo fechado. Única pizzaria em frente a uma casa de música
sertaneja resistia. Até que tentamos comer, todavia, não foi possível. Por preguiça
em tirar as malas empoeiradas e um estresse de viagem, resolvemos em seguir a
trilha do tráfico de madeira. Crime que até as pulgas dos cães mais sardentos
de toda a região conhecem. Na trilha do
saque, gente com motosserra, caminhões cavalo do cão. Tais caminhões ganharam o
apelido pelo fato de não contarem com a boleia tradicional. É o moto somente e
a carroceria improvisada. No busão, um pioneiro narra as tramas de esquiva do
Ibama. Um ipê vendido a R$1200. Pavulagens de pesca, mulherada. Rios Iriri e
Curuá.
Alcançamos Altamira. A cobertura de internet
não cobre todo o trecho. Todavia, por todo o percurso existe pinguela. Trata-se
de uma ponte de madeira. Ela fica sobre córregos, igarapés e rios. Onde existe
água há buritizeiros, açaiçais, ingazeiras. Aves, peixes e outros bichos.
Veredas. Rosa. Guimarães. Corremos Placas, Medicilândia e Brasil Novo. As
derradeiras cidades possuem relação com a ditadura. Medicilândia faz referência
ao mais sangrento ditador, enquanto Brasil Novo representa uma loa ao desenvolvimentismo.
Assim como Novo Progresso. Entre Placas até Anapu o cacau abunda. Superou a
Bahia. Nestes trechos tombaram Avelino (Santarém) nos anos de 80, Dema
(Altamira), Brasília (Castelo dos Sonhos). Todos dirigentes sindicais. Dorothy Stang tombou em Anapu. Aonde o capital
senta praça instala-se a violência. Altamira abriga Belo Monte. Trambolho
idealizado na ditadura e viabilizado no governo do PT. Velhas raposas no rolo:
Delfim, Lobão....grandes empreiteiras. A corrupção vem de longe. Tempos dos generais.
Faz calor. O ar condicionado do busão sai vencido do combate. O busão lembra um
micro ondas. Até Altamira tudo é poeira. Metade da viagem. Sabe Deus onde será
o jantar.
Anapu.
Parada para a janta e verter água, lavar a venta. Aqui mataram Dorothy e um
monte de camponeses. Aqui prenderam arbitrariamente no Pe. Amaro e o
incriminaram. Mais da metade do trecho. Busão lotado. Daqui para a frente o
sudeste do estado se avizinha. Após a bacia do Amazonas, do Xingu será a vez da
bacia do Araguaia-Tocantins. Uma imensidão. Um mundo farto de diversidade
social. O cansaço toma o corpo. Uns cogitam
a chegada em Marabá por volta de 2h da madruga. Fico surpreso. Geralmente seria
por volta das 5h em diante.
Marabá. Cidade polo do sudeste do estado. Cidade talhada na brutalidade do avanço do grande capital. Terra de migrantes. Comecei a andar na região do Bico do Papagaio no fim dos anos 90. Dois anos após o Massacre de Eldorado. Tempos áridos. Clima de desconfiança. Qualquer um era considerado como elemento suspeito. Um X9. Aqui foi a minha pós graduação sem parede. Devo muito às andanças nestas quebradas. Saravá.
Santarém, Altamira e Marabá. Cidades polos. Cidades
configuradas pelo avanço do grande capital. Em todas elas existem universidades
federais. Estranhamente, elas não dialogam entre si, apesar das proximidades
cimentadas pela presença do grande capital. Marabá. Faz praia. O movimento de
vai e vem de gente é agitado. Fim de tarde. Pôr do sol. Docinho defende que é
mais belo que o de Santarém, Discordo. É mais belo o rio que corre na minha
aldeia.
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Postado por rogerio almeida às 7/21/2021 05:32:00 PM 1 comentários
quarta-feira, 14 de julho de 2021
Violência no campo no Pará: dados apresentados pela CPT na última quarta feira sinalizam para aumento de situações de conflitos
Os números apresentados pela CPT indicam a equivalência com os anos de 1985, considerado o mais sangrento na luta pela terra no Pará.
A
História de “conquista” da Amazônia é uma história de violências. Ela é estruturante no processo de integração
da região aos principais circuitos econômicos, dentro e fora do país.
Neste
sangrento capítulo, cabe ao estado do Pará a maioria das páginas, onde a década
de 1980 é considerada a mais pujante. Nela ocorrem as execuções de inúmeros dirigentes
sindicais, a exemplo de João Canuto, “Gringo” (Raimundo Ferreira Lima),
Expedito Ribeiro, dos religiosos padre Jósimo, irmã Adelaide, além de chacinas,
prisões, espancamentos e expropriações.
Foi
nela que os ruralistas criaram a União Democrática Ruralista (UDR). A
instituição é considerada o braço armado do setor, que hoje ocupa cargos
estratégicos na composição do governo federal.
Coube a Ronaldo Caiado, novamente governador do estado de Goiás, a
animação da sigla.
Quase
quatro décadas depois, os números sobre conflitos no campo no Pará registram indicadores
equivalentes aos dos anos de 1980. Os dados foram apresentados em live na
última quarta feira, dia 13. Veja AQUI
O
elemento recente seria a criminalização dos defensores dos direitos humanos,
como é o caso da prisão do advogado José Vargas Junior. Vargas é advogado do
caso do Massacre de Pau D´arco, ocorrido em 2017.
Outra questão relevante tem sido as violências contra indígenas e outras populações consideradas como tradicionais na Amazônia. Casos que vão de execuções a invasões por diferentes sujeitos de seus territórios, a exemplo de grileiros, madeireiros e garimpeiros.
O
episódio protagonizado por policiais militares e civis redundou na morte de 10
camponeses ligados ao movimento Liga dos
Camponeses Pobres (LCP).
Leia
os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre o Pará AQUI
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Postado por rogerio almeida às 7/14/2021 08:41:00 PM 0 comentários
A geografização da poesia de Charles Trocate - a educadora Flora Pidner cartografa a intervenção do cabra dos Carajás
Drummond está vivo em muitas pessoas e em muitos lugares, para muito além do seu busto de bronze que ocupa Copacabana. Drummond está vivo em Charles. A poesia imortaliza o estado do poeta – ou o “estado de poesia” como afirma Chico César. A poesia torna memória a relação com os lugares, com mundo e com pessoas – ou seja, relações intersubjetivas mediadas pelo mundo – o que nada mais são do que as relações que o poeta trava consigo mesmo.
Muitos poemas e os próprios livros de Charles são dedicados a quem o significa – significa o próprio poema, ao mesmo tempo em que significa o poeta. Essa é uma expressão da multidão que habita Charles: uma parte é ancestralidade, uma parte se foi na luta, uma parte são corpos ainda erguidos:
as lutas calejaram meus camaradas
-os que se foram sorrindo
os que suspiram fuligem polindo teorias
E se Belchior não estava interessado em nenhuma teoria – ou em polir teorias –, tombado pela “alucinação de suportar o dia a dia” e pelo “ delírio da experiência com coisas reais”, Charles entrelaça todos esses campos, porque a verdadeira teoria e a verdadeira poesia não se desconectam da realidade: são poéticas e são políticas. Para mim, Belchior não negava as teorias, mas as teorias que estão ao avesso da realidade. É como se Charles falasse junto com ele ao colocar que “anda avesso ao inútil e medroso”. Teoria inútil e medrosa realmente não interessa. O ponto de partida de Charles são, sem nenhuma dúvida, as coisas reais de Belchior: Leia o texto na íntegra AQUI
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Postado por rogerio almeida às 7/14/2021 07:13:00 PM 3 comentários
segunda-feira, 5 de julho de 2021
As águas altas do Tapajós
O rio Tapajós toma a rua - Santarém/PA. Foto |Thulla Esteves
As
águas do Tapajós tomaram o asfalto. Havia tempo não subiam tanto. Desde
2009. Tudo anda muito estranho no
planeta. Sempre que as águas sobem neste patamar implica em aperreio para
comerciantes que operam na orla na cidade.
Sempre
que as águas sobem é aperreio para os menos abastados. Onde é possível, marombas
(pontes improvisadas) socorrem em alguns trechos. Fato que não ocorre nas
quebradas, a exemplo de logradouros como Juá e o Salvação (Minha Casa, Minha
Vida), entre outros. No Salvação o socorro é a oração. Na quebrada, desprovida de asfalto e do serviço do
saneamento, tudo vira um rio de lama. Um rio de merda.
Águas
altas. As embarcações de madeira ficam rente ao asfalto. São elas que carregam o povo de várias
comunidades da cidade, a exemplo de Arapiuns, Boim, Lago Grande; e de outros municípios,
como Juruti, Monte Alegre, Manaus, Macapá, Oriximiná, Óbidos...o povo viaja em
rede. Longas horas.
As
embarcações de madeira é que socorrem as comunidades locais. Num fluxo trazem
as pessoas e as suas produções; noutro, levam gêneros necessários ao cotidiano
dos moradores ribeirinhos. Não raro, apesar do risco, carregam botijões de gás.
Apesar do elevado preço. Carregam ainda produtos que alimentam os comércios das
localidades ribeirinhas. E, ainda eletrônicos, cachaça, cervejas e
refrigerantes.
Na
intenção em minimizar a tensão das águas sobre o asfalto e o comércio, as
autoridades implantam bombas para devolver as águas ao rio. Uma estranha engenharia. Inúmeras bombas passam
a integrar o desenho na orla da cidade.
Nesta época do ano, comentam os antigos, o normal seria ás aguas já terem recuado. O normal seria não ocorrer tanta chuva. Todavia, como tem chovido esses dias. Nas águas altas os antigos recomendam passeio na Floresta Encantada, bandas de Alter. Réu confesso, anuncio, ainda não o fiz.
As
aguas altas fazem as letras que nomeiam as embarcações flutuarem. Como se um
balé fosse. Alaranjado horizonte, rosa, multicor de fim de tarde remete a uma
explosão de luz. A fumaça dos churrasquinhos inebria os locais de embarque.
Tudo
anda muito estranho ultimamente. Estruturas de metal afrontam o rio. O afã da
administração pública reside em organizar o espaço da orla a partir do tamanho
das embarcações, onde conforme o tamanho de cada uma, é estipulado um
local. O que não existia antes.
Sejam
as águas baixas ou altas, sempre que ocorre a lua cheia, o rio fica uma beleza.
E, sempre que a lua alumeia o rio, é o melhor momento para pescar, o cultivar a
terra, o universo de encantados a zelar tudo ao redor. É sabença.
As águas altas do rio enchem o meu peito de melancolia. Lavam, levam o teu retrato. Enquanto o punhal da luz do sol vaza oszoio.
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Postado por rogerio almeida às 7/05/2021 09:31:00 PM 0 comentários

















