sexta-feira, 20 de agosto de 2021

O trecho, algumas transpirações

No trecho, possibilidades. Encruza, cruzada. Equilibrista de circo sem rede de proteção

Fonte: livro CAT Ano décimo - etnografia de uma utopia. Jean Hébette e Raul Navegantes. UFPA, 2000

É o trecho a plenitude da instabilidade? Trecho: mobilidade e cativeiro. Escravidão por dívida. Na canção Peão de Trecho, Zé Geraldo defende que o trecho seja: “ Uma parte do mundo é nossa morada/A outra parte é nosso quintal”. O sol não brota em todo quintal. Ao contrário, proliferam cercas. Farpado arame. Um menino da porteira por bala crucificado. Negócios. Nelore batizado por pastor neopentescostal.

O trecho é febre. Garimpos, barragens, matas de juquira, cercas, gado, castigo, estradas. Sol sem fim. Paixões, desilusões, canções de amor. Malárias cravadas nas paredes das memórias de puteiros. Abajur lilás. Baton vermelho. Vermelho sangue. Rupinol, Tetrex, Quinina, Engov. Desventuras, amizade, trairagem, capataz. Aposta. Mesa de bilhar. Peixe grande, peixe pequeno. Trago de pinga com tira gosto de poeira. Cigarro de terceira. Traje encharcado de suor. Aridez sem pouso.

No trecho, possibilidades. Encruza, cruzada. Equilibrista de circo sem rede de proteção. O trecho é o quintal de desencontros. Encontros de estranhos sob o guarda-chuva de infinidades de tempos. O tempo do capital, o tempo do peão, o tempo da puta, o tempo do funcionário público, o tempo do homem da roça, o tempo do sem terra e teto, o tempo do ancestral, o tempo do malandro, o tempo do pistoleiro, o tempo do “puliça”.  Tic-tac sobre todas as cabeças. O muque é a justiça no trecho. Rasteira, 38, peixeira. Bucho a sangrar.

O trecho, iniquidade.Filho bastardo de violências múltiplas: Estado, capital, oligarquias, empresas transnacionais, migrações....um fio de novelo sem fim. Labirinto, minotauro. Salve-se quem puder. Em algumas ocasiões, até solidariedade, como conta uma filha de garimpeiros: “quando o peão tá nos braços da morte, é comum a cotização para socorrer o moribundo. Rola até mandar de avião”.

O trecho tem a musculatura das gentes que saíram ou foram saídas de suas terras natais. As secas forçaram as andanças dos parentes do Nordeste. No Maranhão, o maior exportador de tensões sociais do país, conforme Alfredo Wagner, soma-se ao quadro o avanço da fronteira do grande capital. Contudo, os manos do Sul, - os campesinos -, igualmente foram desterrados sob a mesma violência. Revolução verde. Verde sangue. Transgênico universo. Acumulação primitiva.

O que é o peão do trecho?  À primeira vista, as gentes do trecho é composta em sua maioria por homens. Migram em busca do delírio dourado em bamburrar em algum garimpo. O fracasso o empurra para os braços da juquira em qualquer fazenda para defender um troco. Juquira e grileiro não são lá de muitos afetos. Não à toa o Pará é mister em trabalho escravo. O trecho não manda recado. É tiro, porrada, morte e impunidade.

A labuta na terra socorre muitos dos peões do trecho. Filhos e filhas. Trecho, faculdade sem parede. Alegria, desencantamento. Inúmeros dirigentes das organizações da luta pela terra possuem ou possuíram em seus quadros migrantes. Nas fileiras, muitos tombaram. No caso do Massacre de Eldorado, dos 19 executados pela PM do Pará em 1996, 11 eram oriundos do Maranhão. 

José Dutra da Costa, dirigente da Fetagri executado em Rondon do Pará, idos de 2000, era filho da terra de Gullar. Estima-se que pelo menos 40% da população do sul e sudeste do estado do Pará seja composta por estes errantes das lonjuras de seus locais de origem.

A dor de cotovelo é a trilha sonora no trecho. Filme triste que faz chorar. Nesta seara, poetas e cancioneiros, muitas das vezes, são filhos do trecho. O garimpo, o amor distante ou o impossível amor, por conta da ausência de condições da reprodução econômica e social, a “traição” são elementos motivadores/transpiradores das canções. Sofrência em elevado grau de concentração. Atômica bomba. No trecho, quem espera nunca alcança. Não se ouve conselho.

Rememorar é preciso. Viver não é preciso. Numa das afamadas  canções, que invoca a lua para saber onde o grande amor se esconde, o autor (que escapa à memória) dispara à queima roupa: “eu vou pedir a lua/para iluminar a rua/saber onde você se esconde/eu vou te procurar. Oh lua, oh lua cor de prata/me diga por favor/aonde anda aquela ingrata. ” Borba de Paula entoa a canção. 

Nas andanças pelo trecho, por entre risos,rios, afagos, tragos, amassos e errâncias, uma arrebatou o meu pobre coração, Cofrinhode Amor. Uma canção exaltação que relaciona a pessoa amada ao sonho da riqueza no garimpo, o versejador assim alumeia a sua musa, “Você é meu céu/É minha vida/O meu peso/A minha medida/ Meu cofrinho de amor. ” 

Noutra frase invoca a presença da pessoa querida, “Volta meu bem/Meu amor/Minha vida/Estou lhe esperando/Volta depressa que o meu coração está quase parando”. A canção é interpretada por Elino Julião. Um dos hits dos anos de 1970/1980, quando a “conquista” da fronteira amazônica se consolida em definitivo

Nestes tempos Bartô Galeno reinava nas emissoras de rádio AM, era o cara em nove de cada dez casas de tolerância. O hit “No toca fita do meu carro” tomava todos os cantos. Tal piolho em cabeça de menino. Logo na primeira estrofe, ele manda o recado sobre a ausência do grande amor, onde, consta, “No toca fita do meu carro/Uma canção me faz lembrar você/Acendo mais um cigarro/E procuro lhe esquecer/Do meu lado está vazio/Você, tanta falta me faz. ”....

A ausência ou as lonjuras da pessoa amada são combustíveis para a criação das canções. Os bares desprovidos de grandes atrativos, os puteiros em geral, a exemplo da Rua do Escorre Água em Tucuruí, o bem afamado puteiro denominado de Canela Fina, em Marabá, os inúmeros em Santarém, estrategicamente localizados à beira do belo Tapajós,  glorificados durante o boom da extração do ouro na década de 1980 são alguns elementos da aquarela do trecho. 

O trecho é um fio sem fim....muitas das inquietações aqui buriladas tiveram como palco bares de Marabá e da vida,  exemplo do Bar da dona Dida, na Feira da 28, Carecão, na Cidade Nova, no Bar da Ana, no Cabelo Seco....ao lado de manas, manos e monas de primeira linha...muitos e muitas, filhos e filhas do trecho, das errâncias...

O trecho, beijo na boca...unzin...aperreio de solitários,  andanças pelo Bico do Papagaio, onde o filho chora e a mãe nem faz ideia das dores, não sabe, desconhece....

“Minha vida é andar por este país/Pra ver se um dia descanso feliz.....” No trecho, fumaça...amores, dissabores, sabenças...gente que vem, gente que vai...Trecho, roçado de ventos, jardim de tempestades...

 

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Manoel Conceição, presente!!!

O dirigente devotou toda a sua existência pela classe trabalhadora. Ser plural, ajudou a forjar o PT, a CUT, centros de educação camponesa, a luta sindical, a defesa pelo Cerrado. Tinha lema, "Minha perna é minha classe". 

                                 Foto: Marcelo Cruz

Manoel Conceição passarinhou nesta manhã, na cidade de Imperatriz, oeste do Maranhão, região do Cerrado, encruza onde os rios afloram. Tocantins, Araguaia. Nascido numa vila da cidade de Coroatá, filho e neto de família camponesa, Mané, como é tratado pelas pessoas mais próximas, possui reconhecimento mundial como um dos ativistas mais expressivos na defesa da reforma agrária no Brasil. 

Mané foi, é plural. Ativista partidário, sindicalista, educador, ambientalista, um craque em organizar barricas de resistências, um jardineiro de utopias. Um ser coletivo. O seu nome consta na memória das lutas populares em vários estados do país, entre eles Maranhão, Pernambuco e Minas Gerais.

Foi linha de frente em pelejas áridas no Vale do Pindaré e Buriticupu, no Maranhão, como celebra o igualmente dirigente camponês Luiz Vila Nova, em recente livro de memórias realizado com a jornalista Cláudia Santiago, do Núcleo Piratininga de Comunicação.

Manoel Conceição é uma pessoa rara. O negro com um pouco mais de metro e meio  teve a perna amputada por conta da opção pelos trabalhadores durante o regime militar. Viveu no exílio. Distante de sua terra natal, em suas andanças ganhou de Mao uma prótese.

Mané é um petista histórico. Foi o terceiro nome no livro de fundação do partido no Colégio Sion, no ano de 1980. Movido pela trajetória construída, realizou greve de fome por conta da aliança que o partido firmou com a família Sarney no Maranhão.

 O dirigente ajudou a organizar o partido em vários estados. Em Pernambuco, chegou a ser candidato ao governo. Em 2010 a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) relançou o livro relato, Essa terra é nossa, lançado em sua primeira edição durante o processo de redemocratização do país.

 

Em 2010, por conta de sua trajetória  em defesa da reforma agrária e do meio ambiente, a  Universidade Federal do Maranhão [UFMA] concedeu ao trabalhador rural o título de Doutor Honoris.

No mesmo ano a professora e jornalista Helciane de Fátima Abreu Araújo, lançou o livro “Memória, Mediação e Campesinato: as representações de uma liderança sobre as lutas camponesas da Pré-Amazônia maranhense”. Leia mais AQUI

Nos anos recentes a cineasta Marta Nhering tem empenhado esforços em viabilizar um documentário sobre o dirigente.

Quando Mané somou 40 anos de militância, a edição da revista Democracia Viva, editada pelo IBASE/RJ, de número 19, do ano de 2003, publicou longa reportagem sobre o ativista.  Veja AQUI

Em outra edição da mesma revista, consta uma entrevista. Leia AQUI

Já a revista Ecologia e Desenvolvimento, da extinta editora Cadernos do Terceiro Mundo, abordou a sua atividade em defesa do Cerrado do Maranhão, em edição de nº 107, quando a publicação somava 12 anos de atividade. Leia AQUI

MST e amigos, recentemente realizaram uma live em homenagem a Mané, que pode ser visualizada AQUI.

Manoel Conceição, presente!!!

  


Massacre de Corumbiara: 26 anos de impunidade

 

Fonte: site Nova Democracia

Há 26 anos Corumbiara, em Rondônia, perderia o anonimato por conta de um massacre de sem terra ligados à Liga dos Camponeses Pobres (LCP). A chacina precedeu o Massacre de Eldorado, ocorrido no sudeste do estado do Pará, em 1996.

Ambas as chacinas foram registradas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, que buscava impor aos camponeses um modelo de reforma agrária sob a régua e o compasso do “deus” mercado, onde a criação do Banco da Terra representava um dos instrumentos sob os anseios das normas neoliberais, que entre outras ações viabilizou a entrega da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), assim como o governo atual ambiciona entregar boa parte do patrimônio nacional, a exemplo dos Correios. 

As chacinas registradas na Amazônia redefiniram a política de assentamentos da reforma agrária. Por conta dos crimes contra os camponeses e a grande pressão nacional e internacional, o Estado passa a reconhecer em massa inúmeras áreas ocupadas – alguma há mais de duas décadas -  como projetos de assentamento. 

A medida do Estado consagrou a Amazônia como a região de maior concentração de projetos de assentamento da reforma agrária no país, sendo o sudeste do Pará a região de destaque. Fato em certa medida explicado pelo vasto histórico de violentas disputas pela terra, que a consagraram como a mais violenta do Brasil.

Saiba mais sobre o Massacre de Corumbiara no site a Nova Democracia.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

O retorno para casa - uns apanhados


                                                Centro Histórico de São Luís-MA. Foto: Thulla Esteves

Julho. Calor. Tempo de queimadas e poeira por cá, terras parauaras, nas bandas de Marabá. Assim como o aumento de casos de doenças respiratórias nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs).

Crianças e idosos são os mais afetados. Em condições normais, as chuvas já deveriam ter cessado. Entretanto, vez por outra, uma precipita. Climáticas transformações. Sibéria em chamas.

A epidemia continua a devorar vidas. Mais de mil pessoas/dia. A estupidez tomou o país de assalto com as devidas credenciais militares.   À cada final de semana desfila de moto em algum canto.

O custo é elevado, enquanto milhares disputam ossos para compor alguma refeição no terreiro do agronegócio. Ruinas ao redor. Recompor os escombros será missão hercúlea. Gerações em destroços.

Em oposição ao obscurantismo, manifestantes têm tomado as ruas em todo o país periodicamente. Na derradeira, dia 24, estávamos em trânsito.  Faz uns 15 dias que estamos na estrada.

Neste intervalo, em Leopoldina, São Paulo, parte da memória do audiovisual nacional virou cinzas. O diabo tomou conta da terra do sol.

Quantos fuzis e bravos guerreiros serão necessários para romper o barravento do manto do retrocesso que irá condenar gerações a vidas secas?  Ninguém foi detido pelo crime da Cinemateca. Contudo, o ato em torrar a estátua de criminoso bandeirante teve desfecho oposto.

Negros e pobres das periferias foram detidos no caso do bandeirante. Quantas vezes favela? Negros e pobres brilham no Japão. Meninas. A contrariar tudo.  

Os dias de estrada possuíam dupla tarefa. A primeira catar as coisas de Docinho em Marabá. Enfim, escovas reunidas no mesmo cafofo, Santarém. A segunda festejar Mainha em São Luís, que este ano celebra 90 primaveras. Brava, ereta, lúcida, como sempre repete.

Desde maio ela celebra. “Celebrar, é assim que tem de ser”, festejou Chico Science. No quarto ela ainda guarda os balões e outros mimos. Faz questão de exibir. “A vida é tão rara”, diria Lenine.

Num dos dia do festejo de Mainha, regado a violão do sobrinho Jonantha, que vi tocar pela primeira vez contamos com a alegria do mano Carlos Pereira, o “Pança”, camarada de velha data, tempos de UFMA. E o senhor Valdir, enamorado de minha irmã Cristiane. Risos aos montões sobre paradas antigas e recentes. Perda de óculos, dormir em ponto de ônibus....



Dias de risos e mar. É tudo água ao redor. O retornou ocorreu na tarde do dia 30. Era sexta feira. Chovia. 16h partimos do hotel rumo à rodoviária. Até chegar em casa seriam 25h a serem superadas. Ida até Belém para poder seguir de avião até Santarém. 

A empresa Jamjoy foi a escolhida para a estrada. A promessa é que não haveria parada em nenhum ponto até Ananindeua, região metropolitana de Belém. No entanto, logo de cara ocorreu parada para jantar e em seguida para o café. Sendo que o busão 9315 partiu de São Luís com mais de 40 minutos de atraso. Havia temor sobre perder a conexão.

Na cidade de Castanhal, por volta das 9h, o motorista, um chato sem medidas, anunciou o prego no veículo. Falei sobre a nossa conexão com uma jovem que tomava de conta do guichê da empresa. Saber se havia algum gerente. Nadinha de nada.

Fomos obrigados a tomar um táxi. O preço da corrida  até o aeroporto foi superior que o preço da passagem da Jamjoy, que não conta com informações sobre SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente) em seu site. 

As informações disponíveis em suas redes sociais sobre email e telefone não funcionam. E o espaço no site dedicado a reclamações não completa a operação.  

A viagem entre Belém até Santarém dura 60 minutos. Aportamos na cidade por volta das 14h e uns quebrados. Seguimos direto para uma peixaria.

Aportamos em casa somente por volta das 17h. Soneca merecida. Como é bom voltar para o aconchego. Na segunda os pertences de Docinho foram entregues. Ela parece feliz, apesar de murmurar uma reclamação aqui, outro acolá. Aos poucos o cafofo ganha a cara da gente. Uns mimos aqui, outros ali.

Daqui a pouco já será o natal. Contudo, antes, teremos a celebração de nossas primaveras....”quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos”....

terça-feira, 27 de julho de 2021

Rabiscos sobre o trecho Marabá - São Luís/MA

                                        Trecho de Santa Inês. Palmeira de babaçu. 

Minha terra tem palmeira, onde o babaçu abunda na mesma proporção de estrada marcada pela buraqueira. Caso queiras conhecer de perto o “solo lunar”, basta percorrer o território entre Brejo do Meio e Santa Inês. Ocorre tanto buraco, tanto buraco, que convive em harmonia um buraco dentro de outro buraco. Sem a devida delicadeza, lembra a matryoshka. 

A buraqueira rivaliza em imundície com a rodoviária de Santa Inês. Aportamos na cidade por volta das 6h da manhã, vindos de Marabá, sudeste do Pará. Nas proximidades da rodoviária, em área de um posto de gasolina, jovens ao som do funk testemunhavam o amanhecer do dia. Uma viatura da guarda municipal passa ao largo. Bem ao largo....

As principais vias de Marabá estão bem sinalizadas e limpas. Ao menos as consideradas centrais. O trânsito flui sem maiores problemas. Ao contrário de Santarém, em certa medida marcada por vias que não facilitam a fluidez, e os motoristas não economizam em buzinadas.

Ao contrário da cidade de Santa Inês, em Imperatriz, existe uma nova rodoviária.  Maior e mais arejada que a anterior, que ficava apertada nas proximidades do Centro. Foi em Imperatriz, após correr o mundo, que Manoel da Conceição sentou praça. O dirigente sindical, educador e ambientalista por esses dias somou 86 anos. É uma referência da luta  popular do país. Saravá Mané!!! Todo respeito e admiração. 

Docinho e eu corremos Marabá-São Luís com a missão em festejar Mainha. Uma demanda reprimida: Dia das Mães, aniversário de 90 anos, São João, e o natal antecipado. 14h de estrada.

Felizmente o busão estava vazio. Numa poltrona em frente uma jovem não cessava um vômito.  Ao descer em algum ponto, deixou como legado três sacolas devidamente bem servidas.

Santa Inês, tal Marabá, tem a feição da brutalidade. Excelente entreposto para o Veio da Havan erguer seus monstrengos espelhados em duvidoso gosto e simbolismo de colonialidade. Santa Inês tributava uma das mais agradáveis maconha da terra. Uma liga. Terra de pistolagem. Desconheço se mantém o serviço como dantes. 

Marabá (PA), Imperatriz (MA), Santa Inês (MA), entre outras cidades, eram respeitáveis e temidas na região por conta da reputação em possuir escrete de primeira linha da pistolagem. Fala-se que até escritório existia. 

Em Santa Inês comemos uma parte de um pão de queijo mais massudo de todos os tempos em local até arrumado, todavia, tomado por um som em elevado volume a executar sofrência.

Tudo soa pacato e sem pressa nestas paragens. No povoado de São Vicente um nelore pasta em um local que lembra uma praça. No percurso é possível avistar além das palmeiras de babaçu, buracos e inúmeros tanques de criação de peixe.  Uns parecem bem cuidados, outros abandonados. Os tanques de peixe é algo novo no ambiente da região.

10h 30 era a previsão de chegada em São Luís. Apesar de todos os buracos no trecho de Santa Inês conseguimos chegar as 11h. Na cidade cercada de água por todos os lados, um movimento de artistas empreende uma batalha contra a instalação de símbolo da loja Havan.  Nos solidarizamos e formamos fileiras neste combate que afronta a cidade Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.

25 de julho. O Sampaio enfrentou o CRB, infelizmente, saiu vencido em casa, 2X3.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Diário de Bordo: Santarém - Marabá em tempo de sol inclemente

24h separam Santarém de Marabá. Amazonas, Xingu e Araguaia-Tocantins  conformam uma pujante diversidade social 
                                                        Amanhecer em Santarém-PA

Diário de Bordo: Santarém. Madrugada do dia 18. Docinho (Thulla Esteves) e eu seguiremos para Marabá com a missão em organizar um apanhamento de coisas da antiga casa. Carregar somente o necessário. 1.200km separam as duas cidades polos de regiões estratégicas, o oeste e o sudeste. 24h é a estimativa de duração da viagem. No meio do caminho existe Altamira, sudoeste, sob a influência do Xingu, enquanto as anteriores respiram o Amazonas e o Araguaia-Tocantins. O rio é a vida do lugar.

Domingo. Férias das crianças. Quase 5h. Verão. O clima é abafado. As águas do Tapajós recuaram. As bombas colocadas na orla com a missão de drenar as águas já foram retiradas. 24h de viagem pela Transamazônica. A rodoviária é precária. Assim como os locais de parada para refeição e café. Eu e Docinho unidos na poeira da estrada. Nestes dias o preço da passagem de avião é impraticável para a realidade do orçamento de professores. Santarém, Baixo Amazonas. Há vestígios da presença humana com mais de 11 mil anos. A intenção do grande capital é consolidar a região como um grande corredor de exportação de produtos primários. Complexos portuários, hidroelétricas, modal de transporte (rodovia, hidrovia e ferrovia) constam nos planos. Planos e mapas que apagam as presenças de uma sociodiversidade estonteante.

 

                                                    Orla da cidade de Santarém-PA. 

O café ocorreu as 7h no km 140. Pão de queijo e pingado (café com leite).  O pão de queijo nas bandas de cá possui outro calibre. É maior e massudo. Dois pães e você praticamente entope o bucho por boas horas. A empresa Ouro e Prata faz o corre. Estranhamente a lotação não tá completa. Ouro e Prata soa emblemático em área de garimpo, a exemplo de cidades como Moraes de Almeida, Jacareacanga e Itaituba. Vez em quando nova pesquisa sobre a presença de mercúrio no rio Tapajós é anunciada. O mercúrio é usado nos garimpos. Três horas separam Santarém de Rurópolis. Uma espécie de entrocamento de quem vem ou vai para as cidades com forte incidência de garimpo. É uma bagaceira. Gente cheia de malas e pacotes. Fora os barrigudinhos. Mês de férias das crianças. Abraços de despedida. Vai com Deus aos montes. O busão lotou. Até aqui existe asfalto. Muita gente sem máscara. Funcionários da empresa e passageiros.  O motora implica com uma jovem que carrega um pequeno cão. Ameaça levar o bicho para o bagageiro. Faz sol. Não avistei as meninas do garimpo. Em Rurópolis a empresa francesa Dryfus almeja erguer uma estação de transbordo de soja. Um outro grupo a instalação de um complexo de Pequenas Centrais Hidroelétricas (PCHs).  Fazer pequenas PCHs é um drible no licenciamento ambiental. Grandes obras promovem a expropriação das comunidades locais.

 

Antigamente era a Transbrasiliana que fazia o trecho nas quebradas.  No século passado era permitido fumar. E até carregar pequenos animais. Tipo galinha, pato e porco. Viajar na empresa significava aventura garantida. No busão que contava com ar condicionado, era a primeira coisa a quebrar. Em seguida pneu estourava, e outras coisas desmantelavam. O busão parava mais que bicicleta de padeiro. As encruzas da vida. A gente se perde. A gente se acha. Na encruza deparei com Docinho. Ela do Sudeste, eu do cangaço. Temperos distintos na panela do diabo.

 

                                        Uruará-PA. Imortalizada pelo tráfico de madeira. 

Segue o busão. Poeira. A estrada acidentada faz as vidraças tilintarem. Uma sinfonia. Uruará. Cidade imortalizada pelo tráfico de madeira. Existe um atalho que reduz a distância até Santarém em uns cem quilômetros e pouco. É a Transuruará. É nela que o bicho pega. Quando os órgãos públicos de fiscalização contavam com recursos e gente era comum operações de apreensão de madeira. Anos atrás fizemos o trajeto durante a noite. Entramos na trilha as 19h em trajeto Marabá-Santarém. Ainda era o período de disciplinas da pós. Gleice, Nete e Cleide completavam a trupe. Risco nas alturas.  No caminho, forquilhas. Erramos umas três vezes. Nada de energia elétrica. Menos ainda sinal de internet. Determinado momento o pánico era tamanho que o medo sufocou a necessidade em urinar. Aportamos na estrada de Curuá Una umas 2h da manhã. Tudo fechado.  Única pizzaria em frente a uma casa de música sertaneja resistia. Até que tentamos comer, todavia, não foi possível. Por preguiça em tirar as malas empoeiradas e um estresse de viagem, resolvemos em seguir a trilha do tráfico de madeira. Crime que até as pulgas dos cães mais sardentos de toda a região conhecem.  Na trilha do saque, gente com motosserra, caminhões cavalo do cão. Tais caminhões ganharam o apelido pelo fato de não contarem com a boleia tradicional. É o moto somente e a carroceria improvisada. No busão, um pioneiro narra as tramas de esquiva do Ibama. Um ipê vendido a R$1200. Pavulagens de pesca, mulherada. Rios Iriri e Curuá.

                                        Rio Xingu - na ilharga entre Altamira e Anapu-PA

Alcançamos Altamira. A cobertura de internet não cobre todo o trecho. Todavia, por todo o percurso existe pinguela. Trata-se de uma ponte de madeira. Ela fica sobre córregos, igarapés e rios. Onde existe água há buritizeiros, açaiçais, ingazeiras. Aves, peixes e outros bichos. Veredas. Rosa. Guimarães. Corremos Placas, Medicilândia e Brasil Novo. As derradeiras cidades possuem relação com a ditadura. Medicilândia faz referência ao mais sangrento ditador, enquanto Brasil Novo representa uma loa ao desenvolvimentismo. Assim como Novo Progresso. Entre Placas até Anapu o cacau abunda. Superou a Bahia. Nestes trechos tombaram Avelino (Santarém) nos anos de 80, Dema (Altamira), Brasília (Castelo dos Sonhos). Todos dirigentes sindicais.  Dorothy Stang tombou em Anapu. Aonde o capital senta praça instala-se a violência. Altamira abriga Belo Monte. Trambolho idealizado na ditadura e viabilizado no governo do PT. Velhas raposas no rolo: Delfim, Lobão....grandes empreiteiras. A corrupção vem de longe. Tempos dos generais. Faz calor. O ar condicionado do busão sai vencido do combate. O busão lembra um micro ondas. Até Altamira tudo é poeira. Metade da viagem. Sabe Deus onde será o jantar.

Anapu. Parada para a janta e verter água, lavar a venta. Aqui mataram Dorothy e um monte de camponeses. Aqui prenderam arbitrariamente no Pe. Amaro e o incriminaram. Mais da metade do trecho. Busão lotado. Daqui para a frente o sudeste do estado se avizinha. Após a bacia do Amazonas, do Xingu será a vez da bacia do Araguaia-Tocantins. Uma imensidão. Um mundo farto de diversidade social.  O cansaço toma o corpo. Uns cogitam a chegada em Marabá por volta de 2h da madruga. Fico surpreso. Geralmente seria por volta das 5h em diante.

Marabá. Cidade polo do sudeste do estado. Cidade talhada na brutalidade do avanço do grande capital. Terra de migrantes. Comecei a andar na região do Bico do Papagaio no fim dos anos 90. Dois anos após o Massacre de Eldorado. Tempos áridos. Clima de desconfiança. Qualquer um era considerado como elemento suspeito. Um X9. Aqui foi a minha pós graduação sem parede. Devo muito às andanças nestas quebradas. Saravá.

Santarém, Altamira e Marabá. Cidades polos. Cidades configuradas pelo avanço do grande capital. Em todas elas existem universidades federais. Estranhamente, elas não dialogam entre si, apesar das proximidades cimentadas pela presença do grande capital. Marabá. Faz praia. O movimento de vai e vem de gente é agitado. Fim de tarde. Pôr do sol. Docinho defende que é mais belo que o de Santarém, Discordo. É mais belo o rio que corre na minha aldeia.  

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Violência no campo no Pará: dados apresentados pela CPT na última quarta feira sinalizam para aumento de situações de conflitos

Os números apresentados pela CPT indicam a equivalência com os anos de 1985, considerado o mais sangrento na luta pela terra no Pará.  


A História de “conquista” da Amazônia é uma história de violências.  Ela é estruturante no processo de integração da região aos principais circuitos econômicos, dentro e fora do país.  

Neste sangrento capítulo, cabe ao estado do Pará a maioria das páginas, onde a década de 1980 é considerada a mais pujante. Nela ocorrem as execuções de inúmeros dirigentes sindicais, a exemplo de João Canuto, “Gringo” (Raimundo Ferreira Lima), Expedito Ribeiro, dos religiosos padre Jósimo, irmã Adelaide, além de chacinas, prisões, espancamentos e expropriações.

Foi nela que os ruralistas criaram a União Democrática Ruralista (UDR). A instituição é considerada o braço armado do setor, que hoje ocupa cargos estratégicos na composição do governo federal.  Coube a Ronaldo Caiado, novamente governador do estado de Goiás, a animação da sigla.

Quase quatro décadas depois, os números sobre conflitos no campo no Pará registram indicadores equivalentes aos dos anos de 1980. Os dados foram apresentados em live na última quarta feira, dia 13. Veja AQUI

O elemento recente seria a criminalização dos defensores dos direitos humanos, como é o caso da prisão do advogado José Vargas Junior. Vargas é advogado do caso do Massacre de Pau D´arco, ocorrido em 2017.

Outra questão relevante tem sido as violências contra indígenas e outras populações consideradas como tradicionais na Amazônia.  Casos que vão de execuções a invasões por diferentes sujeitos de seus territórios, a exemplo de grileiros, madeireiros e garimpeiros. 

O episódio protagonizado por policiais militares e civis redundou na morte de 10 camponeses  ligados ao movimento Liga dos Camponeses Pobres (LCP).  

Leia os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre o Pará AQUI

A geografização da poesia de Charles Trocate - a educadora Flora Pidner cartografa a intervenção do cabra dos Carajás

Para refletir sobre a poética de Trocate, a educadora mobiliza Drummond, Belchior e Chico César entre outros. 
 


O texto resulta de um projeto protagonizado pelo poeta no mês de abril (mês do Massacre de Eldorado), que contou com inúmeras intervenções, dentre elas, a da educadora Pidner. Charles é cria das fileiras da luta do MST no Pará, bandas das terras dos Carajás. É um eloquente intelectual e poeta.

Além do MST tem se notabilizado como linha de frente do Movimento pela Soberania na Mineração (MAM). É um ser andante. Por conta de sua militância, para além das curretelas das quebradas da frente de expansão do grande capital em solo amazônico, já correu meio mundo a refletir sobre as realidades que ocorrer nas margens do rio que corre em sua aldeia.

Flora Pidner

Drummond está vivo em muitas pessoas e em muitos lugares, para muito além do seu busto de bronze que ocupa Copacabana. Drummond está vivo em Charles. A poesia imortaliza o estado do poeta – ou o “estado de poesia” como afirma Chico César. A poesia torna memória a relação com os lugares, com mundo e com pessoas – ou seja, relações intersubjetivas mediadas pelo mundo – o que nada mais são do que as relações que o poeta trava consigo mesmo. 

Muitos poemas e os próprios livros de Charles são dedicados a quem o significa – significa o próprio poema, ao mesmo tempo em que significa o poeta. Essa é uma expressão da multidão que habita Charles: uma parte é ancestralidade, uma parte se foi na luta, uma parte são corpos ainda erguidos:  


as lutas calejaram meus camaradas

-os que se foram sorrindo

os que suspiram fuligem polindo teorias


E se Belchior não estava interessado em nenhuma teoria – ou em polir teorias –, tombado pela “alucinação de suportar o dia a dia” e pelo “ delírio da experiência com coisas reais”, Charles entrelaça todos esses campos, porque a verdadeira teoria e a verdadeira poesia não se desconectam da realidade: são poéticas e são políticas. Para mim, Belchior não negava as teorias, mas as teorias que estão ao avesso da realidade. É como se Charles falasse junto com ele ao colocar que “anda avesso ao inútil e medroso”. Teoria inútil e medrosa realmente não interessa. O ponto de partida de Charles são, sem nenhuma dúvida, as coisas reais de Belchior: Leia o texto na íntegra AQUI


segunda-feira, 5 de julho de 2021

As águas altas do Tapajós

 

                                    O rio Tapajós toma a rua - Santarém/PA. Foto |Thulla Esteves

As águas do Tapajós tomaram o asfalto. Havia tempo não subiam tanto. Desde 2009.  Tudo anda muito estranho no planeta. Sempre que as águas sobem neste patamar implica em aperreio para comerciantes que operam na orla na cidade.

Sempre que as águas sobem é aperreio para os menos abastados. Onde é possível, marombas (pontes improvisadas) socorrem em alguns trechos. Fato que não ocorre nas quebradas, a exemplo de logradouros como Juá e o Salvação (Minha Casa, Minha Vida), entre outros. No Salvação o socorro é a oração.  Na quebrada, desprovida de asfalto e do serviço do saneamento, tudo vira um rio de lama. Um rio de merda. 

Águas altas. As embarcações de madeira ficam rente ao asfalto.  São elas que carregam o povo de várias comunidades da cidade, a exemplo de Arapiuns, Boim, Lago Grande; e de outros municípios, como Juruti, Monte Alegre, Manaus, Macapá, Oriximiná, Óbidos...o povo viaja em rede. Longas horas.

           Um bomba movida a motor a diesel passa o dia operando, a devolver a água ao rio. Santarém/PA. Foto - Thulla Esteves

As embarcações de madeira é que socorrem as comunidades locais. Num fluxo trazem as pessoas e as suas produções; noutro, levam gêneros necessários ao cotidiano dos moradores ribeirinhos. Não raro, apesar do risco, carregam botijões de gás. Apesar do elevado preço. Carregam ainda produtos que alimentam os comércios das localidades ribeirinhas. E, ainda eletrônicos, cachaça, cervejas e refrigerantes.

Na intenção em minimizar a tensão das águas sobre o asfalto e o comércio, as autoridades implantam bombas para devolver as águas ao rio.  Uma estranha engenharia. Inúmeras bombas passam a integrar o desenho na orla da cidade.

                    Orla de Santarém-PA.  Contradição dos circuitos económicos: o global e o local. Foto: R. Almeida 

Nesta época do ano, comentam os antigos, o normal seria ás aguas já terem recuado. O normal seria não ocorrer tanta chuva. Todavia, como tem chovido esses dias. Nas águas altas os antigos recomendam passeio na Floresta Encantada, bandas de Alter.  Réu confesso, anuncio, ainda não o fiz.

As aguas altas fazem as letras que nomeiam as embarcações flutuarem. Como se um balé fosse. Alaranjado horizonte, rosa, multicor de fim de tarde remete a uma explosão de luz. A fumaça dos churrasquinhos inebria os locais de embarque.  

Tudo anda muito estranho ultimamente. Estruturas de metal afrontam o rio. O afã da administração pública reside em organizar o espaço da orla a partir do tamanho das embarcações, onde conforme o tamanho de cada uma, é estipulado um local.  O que não existia antes.

Sejam as águas baixas ou altas, sempre que ocorre a lua cheia, o rio fica uma beleza. E, sempre que a lua alumeia o rio, é o melhor momento para pescar, o cultivar a terra, o universo de  encantados a zelar tudo ao redor. É sabença.   

As águas altas do rio enchem o meu peito de melancolia. Lavam, levam o teu retrato.  Enquanto o punhal da luz do sol  vaza oszoio. 

sábado, 3 de julho de 2021

Ato contra Bolsonaro: centenas de pessoas ocuparam as ruas da cidade de Santarém

 Apesar do temporal, jovens, indígenas e camponeses tomaram as ruas em defesa da vida

              

                                     Faixa em defesa dos povos da floresta.  Foto: Taione Silva

“Com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar”, dispara a poesia da canção (Oração Latina), do poeta maranhense César Teixeira, e, nesta manhã, apesar do temporal, indígenas, quilombolas, camponeses, funcionários públicos, religiosos, jovens, muitos jovens dos mais variados segmentos tomaram, mais uma vez as ruas da cidade de Santarém, no oeste do Pará em mais um ato pela saída do presidente da República, Jair Bolsonaro.

                                        Faixa contra o marco temporal. Foto: Hellen Joplin

Iniciado na Praça São Sebastião, a caminhada percorreu as principais ruas do comércio da cidade, para encerrar na Praça da Matriz, nas proximidades da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, espaço dominado pelo comercio considerado informal. Duas viaturas da PM e uma do setor de trânsito da prefeitura acompanharam todo o cortejo.

                                                                Autor: Taione Silva

Manuel, cacique Munduruku, comenta as constantes ameaças de desmatadores, tanto em seu território, a aldeia Ipaupixuna, localizada na região do planalto da cidade de Santarém, como nos demais territórios por toda a região do Baixo Amazonas. 

Na macabra conjuntura que assola o país, além dos indígenas, quilombolas e campesinos convivem diariamente com ameaças de madeireiros, garimpeiros, grileiros, construtores de grandes obras, sojicultores e tantos outros.

                                    Ciranda na Praça da Matriz. Foto: Hellen Joplin

Tem-se ainda a satanização e criminalização dos setores populares por parte de oligarquias locais e grandes empresas, posto no planejamento do governo, a ideia é consolidar a região como um grande corredor de exportação de produtos primários, com destaque para a soja. No pacote constam complexos portuários e hidroelétricos e modal de transportes (hidrovia, rodovia e ferrovia).

E, interesses de mineradoras, como ocorre do Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande, constantemente ameaçado pela mineradora Alcoa. Para não falar na situação de grande tensão que ocorre na cidade de Jacareacanga, em terras Munduruku, por conta da presença de garimpeiros.  

O planalto santareno, assim como frações das cidades vizinhas de Mojuí dos Campos e Belterra padecem há mais de uma década com a presença da soja. É uma constante a denúncia da contaminação dos recursos hídricos da região por conta do uso intensivo de agrotóxico. 

Um grupo perto de 30 indígenas Munduruku engrossaram a manifestação. Embarcaram ainda na madrugada para poder chegar na sede da cidade. As estradas quase sempre precárias, com as derradeiras chuvas, tornam a viagem mais demorada e cansativa.

Durante o ato, a coordenação  a todo momento reforçava a necessidade de cuidado com o uso da máscara e do álcool gel. Bem como,  evitar as provocações de adversários. Participantes das jornadas comentaram a tentativa de provocações e da ameaça da polícia que ocorreram no ato anterior, que ocorreu no dia 29.


                            Faixa pela saída do presidente. Foto: Hellen Joplin

Uma chuva atípica para o período precipitou sobre a caminhada, que invocava palavras de ordem contra o presidente, e em defesa da vida, da vacina, da saúde, do trabalho, da educação entrecortado por cantos indígenas.  

A todo o momento o Projeto de Lei que tenta estabelecer o marco temporal contra os indígenas foi lembrado, e da necessidade de combate-lo, bem como as demais medidas que representam um verdadeiro pacote de morte para os povos da floresta.

Em outra parte da canção de Teixeira, ele defende, “Quem nos ajudará, a não ser a própria gente”.  Hoje, apesar do temporal, as gentes de cá seguiram em marcha em defesa da vida.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Amanhã, povo nas ruas contra o genocida


 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Vida longa ao SUS!!!



Uns dois quarteirões separam onde moramos da Unidade Básica de Saúde (UBS), localizada na Av. São Sebastião. Inúmeras vezes, por uns dois meses, pelo menos uma vez por semana baixava no espaço para saber da vacina.

 

E, nada de chegar a nossa faixa de idade, dinos com um pouco mais de 5.0. Em todos os momentos fui atendido de forma respeitosa. Estranhava o local com poucas pessoas. O ambiente sempre calmo. 

 

Na derradeira ocasião que aportei no local informaram que a UBS havia suspendido o serviço de vacina da Covid, e que a gente procurasse a UBS de Fátima, que fica na orla da cidade, às margens do belo Tapajós. A UBS fica numa casa espaçosa, com árvores, tudo arejado, cadeiras para acomodar as pessoas.


No dia primeiro do mês de junho Docinho foi vacinada pela Lindalva. Poucas palavras, ligeira no gatilho. Em menos de cinco minutos, tudo resolvido, vacina tomada. Agradecemos a gentileza.

 

As pessoas de linha de frente da UBS  de Fátima tratam alguns visitantes pelo nome. Perguntam da reação da vacina, se tá tudo bem, como vão os filhos, comentam da cheia do rio, do calor. Tudo de forma amistosa.

 

Noutro dia voltamos para que eu fosse vacinado.  Sobre a mesa das moças que atendem copos de mingau, água, coisas do trabalho. À porta da UBS um vendedor de picolés atende os aflitos pelo sol inclemente. Matreiramente, uma das atendes sugere que gostaria de um picolé. Entendemos o sinal e pegamos vários para todo o pessoal.

Muito pouco para pessoas verdadeiramente dedicadas ao serviço público, ao interesse comum, à saúde coletiva, ao respeito e empatia ao próximo. 

Uma pandemia que a todo momento ceifa vida em todos lares do país foi necessário para conhecermos a relevância do Sistema Único de Saúde (SUS), o papel de vanguarda que o mesmo possui no atendimento da maioria da população.  Rabiscamos as singelas linhas para agradecer aos servidores das UBS pela relevante contribuição neste momento tão conturbado em nossas vidas. Vida longa ao SUS! O maior património do país nos  últimos meses. 

domingo, 30 de maio de 2021

Mais um São João amofinado

                                                        Foto: sede do Boi da Floresta/Leonardo. Thulla Esteves

Finda o mês de maio. Adeus Maria. Até qualquer dia. Quem sabe, ano que vem, em aboie o guarnicê....neste ano, pro modo de um praga maldita, será necessário adiar a festa. Zelar a vida. Polir a esperança.  Adeus Maria...até qualquer dia....que neste ano, o guarnicê desdobra somente no meu coração, enquanto o fio de saudade parte-me ao meio. Bruto, tal peixeira de valente.

Adeus Maria. Adeus Coração. Até qualquer dia.  Neste ano, nada de fogueira e balão. A vacina não chegou para todos. Para muitos, a morte tornou em noite o dia. Milhares tombados na algibeira da estupidez planaltina, que ora, maltrata e zomba sobre as cruzes espalhadas país afora, a perder de vista. Um rio de lágrimas. Mar de indignação.

Maria, junho ronrona na porteira do dia. O sol arde na moleira. O onça, mufino, acomodado em um canto, reclama o rufar do pandeirão preso em uma escapula de rede. O  onça sem pandeirão e matraca não é ninguém. A trinca da boiada anseia o assobio do apito do amo, a convocar para o ensaio final. Aquele que precede ao batizado do batalhão.

Querida, nada de tropeada na quadra junina. Tudo é vazio no terreiro do Brasil. Nada mais banzo que um arraiá calado. Desprovido de bandeiras, sem barracas de quitutes: maçã do amor, cachaça, milho assado e cozido, cocada, mingau de milho de branco entupido de coco.   

Santo Antônio, São João, São Pedro e Marçal não terão paga de promessa. Pai Francisco, Catirina, caboclo de pena, burrinha, a fileira de índia, tudo em retiro. Eh João Paulo de Marçal, Maioba, Maracanã, Iguaíba, Pindoba, Ribamar.....como é bom o tropear.....o virar o dia em aboio da sabença ancestral.....

Adeus Maria, que ano vem, quero chorar uma pororoca de mundo, que seja de felicidade de brincante, feliz pelo seu batalhão nas ruas....ao som dos tambores de África, Maranhão.....


terça-feira, 11 de maio de 2021

Delza 9.0 a todo vapor.....

 Celebrar, é assim que tem de ser, já dizia Chico Science

Cristiane, Delza e Isabela. 

No fim da tarde de ontem Mainha ligou toda serelepe. Estava risonha e eufórica. Toda feliz. Desejava contar as peripécias que havia realizado no dia anterior, o dedicado às mães pelo deus mercado. O Dia das Mães sucedeu o aniversário de 9.0, celebrado no dia 03.  

Desde o dia 03 ela faz festa. Afinal de contas são nove décadas em mundo que a todo momento passa por uma abissal metamorfose, infelizmente, para um quadro nada animador.

A missa na Igreja do bairro da Alemanha foi o pontapé inicial de um dia entupido de andanças. Havia tempos que não dava um rolê na cidade. Ela risonha conta que se aprontou toda. Colocou até colar de contas.   

A turma toda danou a rezar. Todas as mães da casa, além dela, a filha Cristiane e a neta, Isabela. Todas mães. Na casa o mais devotado à religião é o neto Jonatan, que anima a celebração com violão e canto.

 Ah, o mascote da trupe também foi, Franklin, o bisneto. Por conta da fofura ele ganhou a alcunha dada por mim de Rabicó. Simpático personagens de Monteiro Lobato.

Delza e Franklin, o bisneto fofo

Na missa ela foi a atração principal. “O padre me chamou, desceu do púlpito para falar comigo. Era tanta gente querendo me abraçar e eu com medo”, narra esfuziante e risonha. 

“Olha, recebi tanta mensagem de feliz aniversário e de Dia das Mães de gente que nem conheço”, festeja a sã senhora que não é muito lá de missa.

Delza narra que recebeu um monte de flores, e que elas não param de chegar. Fez questão de guardar os enfeites da festa surpresa do dia do natalício. Mostrou como se criança fosse os balões e mimos que recebeu.

Após a missa a trupe correu praias. São Luís é uma ilha. É água por todos os lados. O neto a levou para um monte de lugar. “Eu andei tanto de carro que fiquei tonta” rememora. Tudo entre risos e feliz.

Eles correram praias, dente elas, a mais popular. O neto exibiu o quanto a Ponta D´areia mudou. Como a especulação foi corrosiva e segregacionista.  O capital especulativo se territorializou e renomeou arrogantemente uma parcela do espaço como Península. Ponta D´areia um dia foi a praia mais popular. A praia mais preta da Ilha. A praia dos regueiros.

“Comi de tudo que eu gosto, bebi cerveja e vinho, não sei como não senti nada. Tá tudo bem. Nenhum desmantelo no fígado”, dispara em êxtase.  

Em uma das paradas, da Igreja do Carmo, no Centro da Cidade, no estacionamento, um dos antigos flanelinhas a identificou. Tocou na cabeça grisalha dela e danou-se a chorar ao lembrar da mãe que havia perdido.

 “Muita emoção no meu aniversário e Dia das Mães. Olha, como chorei. Recordei da infância, da minha mãe, do trabalho, de tudo que passei para criar vocês”, recupera, mas, tudo entre risos.

Segue o fluxo festivo. Ganhou do namorado da filha (Valdir) uma garrafa de vinho. E sempre beberica um cadinho.