terça-feira, 27 de julho de 2021

Rabiscos sobre o trecho Marabá - São Luís/MA

                                        Trecho de Santa Inês. Palmeira de babaçu. 

Minha terra tem palmeira, onde o babaçu abunda na mesma proporção de estrada marcada pela buraqueira. Caso queiras conhecer de perto o “solo lunar”, basta percorrer o território entre Brejo do Meio e Santa Inês. Ocorre tanto buraco, tanto buraco, que convive em harmonia um buraco dentro de outro buraco. Sem a devida delicadeza, lembra a matryoshka. 

A buraqueira rivaliza em imundície com a rodoviária de Santa Inês. Aportamos na cidade por volta das 6h da manhã, vindos de Marabá, sudeste do Pará. Nas proximidades da rodoviária, em área de um posto de gasolina, jovens ao som do funk testemunhavam o amanhecer do dia. Uma viatura da guarda municipal passa ao largo. Bem ao largo....

As principais vias de Marabá estão bem sinalizadas e limpas. Ao menos as consideradas centrais. O trânsito flui sem maiores problemas. Ao contrário de Santarém, em certa medida marcada por vias que não facilitam a fluidez, e os motoristas não economizam em buzinadas.

Ao contrário da cidade de Santa Inês, em Imperatriz, existe uma nova rodoviária.  Maior e mais arejada que a anterior, que ficava apertada nas proximidades do Centro. Foi em Imperatriz, após correr o mundo, que Manoel da Conceição sentou praça. O dirigente sindical, educador e ambientalista por esses dias somou 86 anos. É uma referência da luta  popular do país. Saravá Mané!!! Todo respeito e admiração. 

Docinho e eu corremos Marabá-São Luís com a missão em festejar Mainha. Uma demanda reprimida: Dia das Mães, aniversário de 90 anos, São João, e o natal antecipado. 14h de estrada.

Felizmente o busão estava vazio. Numa poltrona em frente uma jovem não cessava um vômito.  Ao descer em algum ponto, deixou como legado três sacolas devidamente bem servidas.

Santa Inês, tal Marabá, tem a feição da brutalidade. Excelente entreposto para o Veio da Havan erguer seus monstrengos espelhados em duvidoso gosto e simbolismo de colonialidade. Santa Inês tributava uma das mais agradáveis maconha da terra. Uma liga. Terra de pistolagem. Desconheço se mantém o serviço como dantes. 

Marabá (PA), Imperatriz (MA), Santa Inês (MA), entre outras cidades, eram respeitáveis e temidas na região por conta da reputação em possuir escrete de primeira linha da pistolagem. Fala-se que até escritório existia. 

Em Santa Inês comemos uma parte de um pão de queijo mais massudo de todos os tempos em local até arrumado, todavia, tomado por um som em elevado volume a executar sofrência.

Tudo soa pacato e sem pressa nestas paragens. No povoado de São Vicente um nelore pasta em um local que lembra uma praça. No percurso é possível avistar além das palmeiras de babaçu, buracos e inúmeros tanques de criação de peixe.  Uns parecem bem cuidados, outros abandonados. Os tanques de peixe é algo novo no ambiente da região.

10h 30 era a previsão de chegada em São Luís. Apesar de todos os buracos no trecho de Santa Inês conseguimos chegar as 11h. Na cidade cercada de água por todos os lados, um movimento de artistas empreende uma batalha contra a instalação de símbolo da loja Havan.  Nos solidarizamos e formamos fileiras neste combate que afronta a cidade Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.

25 de julho. O Sampaio enfrentou o CRB, infelizmente, saiu vencido em casa, 2X3.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Diário de Bordo: Santarém - Marabá em tempo de sol inclemente

24h separam Santarém de Marabá. Amazonas, Xingu e Araguaia-Tocantins  conformam uma pujante diversidade social 
                                                        Amanhecer em Santarém-PA

Diário de Bordo: Santarém. Madrugada do dia 18. Docinho (Thulla Esteves) e eu seguiremos para Marabá com a missão em organizar um apanhamento de coisas da antiga casa. Carregar somente o necessário. 1.200km separam as duas cidades polos de regiões estratégicas, o oeste e o sudeste. 24h é a estimativa de duração da viagem. No meio do caminho existe Altamira, sudoeste, sob a influência do Xingu, enquanto as anteriores respiram o Amazonas e o Araguaia-Tocantins. O rio é a vida do lugar.

Domingo. Férias das crianças. Quase 5h. Verão. O clima é abafado. As águas do Tapajós recuaram. As bombas colocadas na orla com a missão de drenar as águas já foram retiradas. 24h de viagem pela Transamazônica. A rodoviária é precária. Assim como os locais de parada para refeição e café. Eu e Docinho unidos na poeira da estrada. Nestes dias o preço da passagem de avião é impraticável para a realidade do orçamento de professores. Santarém, Baixo Amazonas. Há vestígios da presença humana com mais de 11 mil anos. A intenção do grande capital é consolidar a região como um grande corredor de exportação de produtos primários. Complexos portuários, hidroelétricas, modal de transporte (rodovia, hidrovia e ferrovia) constam nos planos. Planos e mapas que apagam as presenças de uma sociodiversidade estonteante.

 

                                                    Orla da cidade de Santarém-PA. 

O café ocorreu as 7h no km 140. Pão de queijo e pingado (café com leite).  O pão de queijo nas bandas de cá possui outro calibre. É maior e massudo. Dois pães e você praticamente entope o bucho por boas horas. A empresa Ouro e Prata faz o corre. Estranhamente a lotação não tá completa. Ouro e Prata soa emblemático em área de garimpo, a exemplo de cidades como Moraes de Almeida, Jacareacanga e Itaituba. Vez em quando nova pesquisa sobre a presença de mercúrio no rio Tapajós é anunciada. O mercúrio é usado nos garimpos. Três horas separam Santarém de Rurópolis. Uma espécie de entrocamento de quem vem ou vai para as cidades com forte incidência de garimpo. É uma bagaceira. Gente cheia de malas e pacotes. Fora os barrigudinhos. Mês de férias das crianças. Abraços de despedida. Vai com Deus aos montes. O busão lotou. Até aqui existe asfalto. Muita gente sem máscara. Funcionários da empresa e passageiros.  O motora implica com uma jovem que carrega um pequeno cão. Ameaça levar o bicho para o bagageiro. Faz sol. Não avistei as meninas do garimpo. Em Rurópolis a empresa francesa Dryfus almeja erguer uma estação de transbordo de soja. Um outro grupo a instalação de um complexo de Pequenas Centrais Hidroelétricas (PCHs).  Fazer pequenas PCHs é um drible no licenciamento ambiental. Grandes obras promovem a expropriação das comunidades locais.

 

Antigamente era a Transbrasiliana que fazia o trecho nas quebradas.  No século passado era permitido fumar. E até carregar pequenos animais. Tipo galinha, pato e porco. Viajar na empresa significava aventura garantida. No busão que contava com ar condicionado, era a primeira coisa a quebrar. Em seguida pneu estourava, e outras coisas desmantelavam. O busão parava mais que bicicleta de padeiro. As encruzas da vida. A gente se perde. A gente se acha. Na encruza deparei com Docinho. Ela do Sudeste, eu do cangaço. Temperos distintos na panela do diabo.

 

                                        Uruará-PA. Imortalizada pelo tráfico de madeira. 

Segue o busão. Poeira. A estrada acidentada faz as vidraças tilintarem. Uma sinfonia. Uruará. Cidade imortalizada pelo tráfico de madeira. Existe um atalho que reduz a distância até Santarém em uns cem quilômetros e pouco. É a Transuruará. É nela que o bicho pega. Quando os órgãos públicos de fiscalização contavam com recursos e gente era comum operações de apreensão de madeira. Anos atrás fizemos o trajeto durante a noite. Entramos na trilha as 19h em trajeto Marabá-Santarém. Ainda era o período de disciplinas da pós. Gleice, Nete e Cleide completavam a trupe. Risco nas alturas.  No caminho, forquilhas. Erramos umas três vezes. Nada de energia elétrica. Menos ainda sinal de internet. Determinado momento o pánico era tamanho que o medo sufocou a necessidade em urinar. Aportamos na estrada de Curuá Una umas 2h da manhã. Tudo fechado.  Única pizzaria em frente a uma casa de música sertaneja resistia. Até que tentamos comer, todavia, não foi possível. Por preguiça em tirar as malas empoeiradas e um estresse de viagem, resolvemos em seguir a trilha do tráfico de madeira. Crime que até as pulgas dos cães mais sardentos de toda a região conhecem.  Na trilha do saque, gente com motosserra, caminhões cavalo do cão. Tais caminhões ganharam o apelido pelo fato de não contarem com a boleia tradicional. É o moto somente e a carroceria improvisada. No busão, um pioneiro narra as tramas de esquiva do Ibama. Um ipê vendido a R$1200. Pavulagens de pesca, mulherada. Rios Iriri e Curuá.

                                        Rio Xingu - na ilharga entre Altamira e Anapu-PA

Alcançamos Altamira. A cobertura de internet não cobre todo o trecho. Todavia, por todo o percurso existe pinguela. Trata-se de uma ponte de madeira. Ela fica sobre córregos, igarapés e rios. Onde existe água há buritizeiros, açaiçais, ingazeiras. Aves, peixes e outros bichos. Veredas. Rosa. Guimarães. Corremos Placas, Medicilândia e Brasil Novo. As derradeiras cidades possuem relação com a ditadura. Medicilândia faz referência ao mais sangrento ditador, enquanto Brasil Novo representa uma loa ao desenvolvimentismo. Assim como Novo Progresso. Entre Placas até Anapu o cacau abunda. Superou a Bahia. Nestes trechos tombaram Avelino (Santarém) nos anos de 80, Dema (Altamira), Brasília (Castelo dos Sonhos). Todos dirigentes sindicais.  Dorothy Stang tombou em Anapu. Aonde o capital senta praça instala-se a violência. Altamira abriga Belo Monte. Trambolho idealizado na ditadura e viabilizado no governo do PT. Velhas raposas no rolo: Delfim, Lobão....grandes empreiteiras. A corrupção vem de longe. Tempos dos generais. Faz calor. O ar condicionado do busão sai vencido do combate. O busão lembra um micro ondas. Até Altamira tudo é poeira. Metade da viagem. Sabe Deus onde será o jantar.

Anapu. Parada para a janta e verter água, lavar a venta. Aqui mataram Dorothy e um monte de camponeses. Aqui prenderam arbitrariamente no Pe. Amaro e o incriminaram. Mais da metade do trecho. Busão lotado. Daqui para a frente o sudeste do estado se avizinha. Após a bacia do Amazonas, do Xingu será a vez da bacia do Araguaia-Tocantins. Uma imensidão. Um mundo farto de diversidade social.  O cansaço toma o corpo. Uns cogitam a chegada em Marabá por volta de 2h da madruga. Fico surpreso. Geralmente seria por volta das 5h em diante.

Marabá. Cidade polo do sudeste do estado. Cidade talhada na brutalidade do avanço do grande capital. Terra de migrantes. Comecei a andar na região do Bico do Papagaio no fim dos anos 90. Dois anos após o Massacre de Eldorado. Tempos áridos. Clima de desconfiança. Qualquer um era considerado como elemento suspeito. Um X9. Aqui foi a minha pós graduação sem parede. Devo muito às andanças nestas quebradas. Saravá.

Santarém, Altamira e Marabá. Cidades polos. Cidades configuradas pelo avanço do grande capital. Em todas elas existem universidades federais. Estranhamente, elas não dialogam entre si, apesar das proximidades cimentadas pela presença do grande capital. Marabá. Faz praia. O movimento de vai e vem de gente é agitado. Fim de tarde. Pôr do sol. Docinho defende que é mais belo que o de Santarém, Discordo. É mais belo o rio que corre na minha aldeia.  

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Violência no campo no Pará: dados apresentados pela CPT na última quarta feira sinalizam para aumento de situações de conflitos

Os números apresentados pela CPT indicam a equivalência com os anos de 1985, considerado o mais sangrento na luta pela terra no Pará.  


A História de “conquista” da Amazônia é uma história de violências.  Ela é estruturante no processo de integração da região aos principais circuitos econômicos, dentro e fora do país.  

Neste sangrento capítulo, cabe ao estado do Pará a maioria das páginas, onde a década de 1980 é considerada a mais pujante. Nela ocorrem as execuções de inúmeros dirigentes sindicais, a exemplo de João Canuto, “Gringo” (Raimundo Ferreira Lima), Expedito Ribeiro, dos religiosos padre Jósimo, irmã Adelaide, além de chacinas, prisões, espancamentos e expropriações.

Foi nela que os ruralistas criaram a União Democrática Ruralista (UDR). A instituição é considerada o braço armado do setor, que hoje ocupa cargos estratégicos na composição do governo federal.  Coube a Ronaldo Caiado, novamente governador do estado de Goiás, a animação da sigla.

Quase quatro décadas depois, os números sobre conflitos no campo no Pará registram indicadores equivalentes aos dos anos de 1980. Os dados foram apresentados em live na última quarta feira, dia 13. Veja AQUI

O elemento recente seria a criminalização dos defensores dos direitos humanos, como é o caso da prisão do advogado José Vargas Junior. Vargas é advogado do caso do Massacre de Pau D´arco, ocorrido em 2017.

Outra questão relevante tem sido as violências contra indígenas e outras populações consideradas como tradicionais na Amazônia.  Casos que vão de execuções a invasões por diferentes sujeitos de seus territórios, a exemplo de grileiros, madeireiros e garimpeiros. 

O episódio protagonizado por policiais militares e civis redundou na morte de 10 camponeses  ligados ao movimento Liga dos Camponeses Pobres (LCP).  

Leia os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre o Pará AQUI

A geografização da poesia de Charles Trocate - a educadora Flora Pidner cartografa a intervenção do cabra dos Carajás

Para refletir sobre a poética de Trocate, a educadora mobiliza Drummond, Belchior e Chico César entre outros. 
 


O texto resulta de um projeto protagonizado pelo poeta no mês de abril (mês do Massacre de Eldorado), que contou com inúmeras intervenções, dentre elas, a da educadora Pidner. Charles é cria das fileiras da luta do MST no Pará, bandas das terras dos Carajás. É um eloquente intelectual e poeta.

Além do MST tem se notabilizado como linha de frente do Movimento pela Soberania na Mineração (MAM). É um ser andante. Por conta de sua militância, para além das curretelas das quebradas da frente de expansão do grande capital em solo amazônico, já correu meio mundo a refletir sobre as realidades que ocorrer nas margens do rio que corre em sua aldeia.

Flora Pidner

Drummond está vivo em muitas pessoas e em muitos lugares, para muito além do seu busto de bronze que ocupa Copacabana. Drummond está vivo em Charles. A poesia imortaliza o estado do poeta – ou o “estado de poesia” como afirma Chico César. A poesia torna memória a relação com os lugares, com mundo e com pessoas – ou seja, relações intersubjetivas mediadas pelo mundo – o que nada mais são do que as relações que o poeta trava consigo mesmo. 

Muitos poemas e os próprios livros de Charles são dedicados a quem o significa – significa o próprio poema, ao mesmo tempo em que significa o poeta. Essa é uma expressão da multidão que habita Charles: uma parte é ancestralidade, uma parte se foi na luta, uma parte são corpos ainda erguidos:  


as lutas calejaram meus camaradas

-os que se foram sorrindo

os que suspiram fuligem polindo teorias


E se Belchior não estava interessado em nenhuma teoria – ou em polir teorias –, tombado pela “alucinação de suportar o dia a dia” e pelo “ delírio da experiência com coisas reais”, Charles entrelaça todos esses campos, porque a verdadeira teoria e a verdadeira poesia não se desconectam da realidade: são poéticas e são políticas. Para mim, Belchior não negava as teorias, mas as teorias que estão ao avesso da realidade. É como se Charles falasse junto com ele ao colocar que “anda avesso ao inútil e medroso”. Teoria inútil e medrosa realmente não interessa. O ponto de partida de Charles são, sem nenhuma dúvida, as coisas reais de Belchior: Leia o texto na íntegra AQUI


segunda-feira, 5 de julho de 2021

As águas altas do Tapajós

 

                                    O rio Tapajós toma a rua - Santarém/PA. Foto |Thulla Esteves

As águas do Tapajós tomaram o asfalto. Havia tempo não subiam tanto. Desde 2009.  Tudo anda muito estranho no planeta. Sempre que as águas sobem neste patamar implica em aperreio para comerciantes que operam na orla na cidade.

Sempre que as águas sobem é aperreio para os menos abastados. Onde é possível, marombas (pontes improvisadas) socorrem em alguns trechos. Fato que não ocorre nas quebradas, a exemplo de logradouros como Juá e o Salvação (Minha Casa, Minha Vida), entre outros. No Salvação o socorro é a oração.  Na quebrada, desprovida de asfalto e do serviço do saneamento, tudo vira um rio de lama. Um rio de merda. 

Águas altas. As embarcações de madeira ficam rente ao asfalto.  São elas que carregam o povo de várias comunidades da cidade, a exemplo de Arapiuns, Boim, Lago Grande; e de outros municípios, como Juruti, Monte Alegre, Manaus, Macapá, Oriximiná, Óbidos...o povo viaja em rede. Longas horas.

           Um bomba movida a motor a diesel passa o dia operando, a devolver a água ao rio. Santarém/PA. Foto - Thulla Esteves

As embarcações de madeira é que socorrem as comunidades locais. Num fluxo trazem as pessoas e as suas produções; noutro, levam gêneros necessários ao cotidiano dos moradores ribeirinhos. Não raro, apesar do risco, carregam botijões de gás. Apesar do elevado preço. Carregam ainda produtos que alimentam os comércios das localidades ribeirinhas. E, ainda eletrônicos, cachaça, cervejas e refrigerantes.

Na intenção em minimizar a tensão das águas sobre o asfalto e o comércio, as autoridades implantam bombas para devolver as águas ao rio.  Uma estranha engenharia. Inúmeras bombas passam a integrar o desenho na orla da cidade.

                    Orla de Santarém-PA.  Contradição dos circuitos económicos: o global e o local. Foto: R. Almeida 

Nesta época do ano, comentam os antigos, o normal seria ás aguas já terem recuado. O normal seria não ocorrer tanta chuva. Todavia, como tem chovido esses dias. Nas águas altas os antigos recomendam passeio na Floresta Encantada, bandas de Alter.  Réu confesso, anuncio, ainda não o fiz.

As aguas altas fazem as letras que nomeiam as embarcações flutuarem. Como se um balé fosse. Alaranjado horizonte, rosa, multicor de fim de tarde remete a uma explosão de luz. A fumaça dos churrasquinhos inebria os locais de embarque.  

Tudo anda muito estranho ultimamente. Estruturas de metal afrontam o rio. O afã da administração pública reside em organizar o espaço da orla a partir do tamanho das embarcações, onde conforme o tamanho de cada uma, é estipulado um local.  O que não existia antes.

Sejam as águas baixas ou altas, sempre que ocorre a lua cheia, o rio fica uma beleza. E, sempre que a lua alumeia o rio, é o melhor momento para pescar, o cultivar a terra, o universo de  encantados a zelar tudo ao redor. É sabença.   

As águas altas do rio enchem o meu peito de melancolia. Lavam, levam o teu retrato.  Enquanto o punhal da luz do sol  vaza oszoio. 

sábado, 3 de julho de 2021

Ato contra Bolsonaro: centenas de pessoas ocuparam as ruas da cidade de Santarém

 Apesar do temporal, jovens, indígenas e camponeses tomaram as ruas em defesa da vida

              

                                     Faixa em defesa dos povos da floresta.  Foto: Taione Silva

“Com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar”, dispara a poesia da canção (Oração Latina), do poeta maranhense César Teixeira, e, nesta manhã, apesar do temporal, indígenas, quilombolas, camponeses, funcionários públicos, religiosos, jovens, muitos jovens dos mais variados segmentos tomaram, mais uma vez as ruas da cidade de Santarém, no oeste do Pará em mais um ato pela saída do presidente da República, Jair Bolsonaro.

                                        Faixa contra o marco temporal. Foto: Hellen Joplin

Iniciado na Praça São Sebastião, a caminhada percorreu as principais ruas do comércio da cidade, para encerrar na Praça da Matriz, nas proximidades da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, espaço dominado pelo comercio considerado informal. Duas viaturas da PM e uma do setor de trânsito da prefeitura acompanharam todo o cortejo.

                                                                Autor: Taione Silva

Manuel, cacique Munduruku, comenta as constantes ameaças de desmatadores, tanto em seu território, a aldeia Ipaupixuna, localizada na região do planalto da cidade de Santarém, como nos demais territórios por toda a região do Baixo Amazonas. 

Na macabra conjuntura que assola o país, além dos indígenas, quilombolas e campesinos convivem diariamente com ameaças de madeireiros, garimpeiros, grileiros, construtores de grandes obras, sojicultores e tantos outros.

                                    Ciranda na Praça da Matriz. Foto: Hellen Joplin

Tem-se ainda a satanização e criminalização dos setores populares por parte de oligarquias locais e grandes empresas, posto no planejamento do governo, a ideia é consolidar a região como um grande corredor de exportação de produtos primários, com destaque para a soja. No pacote constam complexos portuários e hidroelétricos e modal de transportes (hidrovia, rodovia e ferrovia).

E, interesses de mineradoras, como ocorre do Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande, constantemente ameaçado pela mineradora Alcoa. Para não falar na situação de grande tensão que ocorre na cidade de Jacareacanga, em terras Munduruku, por conta da presença de garimpeiros.  

O planalto santareno, assim como frações das cidades vizinhas de Mojuí dos Campos e Belterra padecem há mais de uma década com a presença da soja. É uma constante a denúncia da contaminação dos recursos hídricos da região por conta do uso intensivo de agrotóxico. 

Um grupo perto de 30 indígenas Munduruku engrossaram a manifestação. Embarcaram ainda na madrugada para poder chegar na sede da cidade. As estradas quase sempre precárias, com as derradeiras chuvas, tornam a viagem mais demorada e cansativa.

Durante o ato, a coordenação  a todo momento reforçava a necessidade de cuidado com o uso da máscara e do álcool gel. Bem como,  evitar as provocações de adversários. Participantes das jornadas comentaram a tentativa de provocações e da ameaça da polícia que ocorreram no ato anterior, que ocorreu no dia 29.


                            Faixa pela saída do presidente. Foto: Hellen Joplin

Uma chuva atípica para o período precipitou sobre a caminhada, que invocava palavras de ordem contra o presidente, e em defesa da vida, da vacina, da saúde, do trabalho, da educação entrecortado por cantos indígenas.  

A todo o momento o Projeto de Lei que tenta estabelecer o marco temporal contra os indígenas foi lembrado, e da necessidade de combate-lo, bem como as demais medidas que representam um verdadeiro pacote de morte para os povos da floresta.

Em outra parte da canção de Teixeira, ele defende, “Quem nos ajudará, a não ser a própria gente”.  Hoje, apesar do temporal, as gentes de cá seguiram em marcha em defesa da vida.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Amanhã, povo nas ruas contra o genocida


 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Vida longa ao SUS!!!



Uns dois quarteirões separam onde moramos da Unidade Básica de Saúde (UBS), localizada na Av. São Sebastião. Inúmeras vezes, por uns dois meses, pelo menos uma vez por semana baixava no espaço para saber da vacina.

 

E, nada de chegar a nossa faixa de idade, dinos com um pouco mais de 5.0. Em todos os momentos fui atendido de forma respeitosa. Estranhava o local com poucas pessoas. O ambiente sempre calmo. 

 

Na derradeira ocasião que aportei no local informaram que a UBS havia suspendido o serviço de vacina da Covid, e que a gente procurasse a UBS de Fátima, que fica na orla da cidade, às margens do belo Tapajós. A UBS fica numa casa espaçosa, com árvores, tudo arejado, cadeiras para acomodar as pessoas.


No dia primeiro do mês de junho Docinho foi vacinada pela Lindalva. Poucas palavras, ligeira no gatilho. Em menos de cinco minutos, tudo resolvido, vacina tomada. Agradecemos a gentileza.

 

As pessoas de linha de frente da UBS  de Fátima tratam alguns visitantes pelo nome. Perguntam da reação da vacina, se tá tudo bem, como vão os filhos, comentam da cheia do rio, do calor. Tudo de forma amistosa.

 

Noutro dia voltamos para que eu fosse vacinado.  Sobre a mesa das moças que atendem copos de mingau, água, coisas do trabalho. À porta da UBS um vendedor de picolés atende os aflitos pelo sol inclemente. Matreiramente, uma das atendes sugere que gostaria de um picolé. Entendemos o sinal e pegamos vários para todo o pessoal.

Muito pouco para pessoas verdadeiramente dedicadas ao serviço público, ao interesse comum, à saúde coletiva, ao respeito e empatia ao próximo. 

Uma pandemia que a todo momento ceifa vida em todos lares do país foi necessário para conhecermos a relevância do Sistema Único de Saúde (SUS), o papel de vanguarda que o mesmo possui no atendimento da maioria da população.  Rabiscamos as singelas linhas para agradecer aos servidores das UBS pela relevante contribuição neste momento tão conturbado em nossas vidas. Vida longa ao SUS! O maior património do país nos  últimos meses. 

domingo, 30 de maio de 2021

Mais um São João amofinado

                                                        Foto: sede do Boi da Floresta/Leonardo. Thulla Esteves

Finda o mês de maio. Adeus Maria. Até qualquer dia. Quem sabe, ano que vem, em aboie o guarnicê....neste ano, pro modo de um praga maldita, será necessário adiar a festa. Zelar a vida. Polir a esperança.  Adeus Maria...até qualquer dia....que neste ano, o guarnicê desdobra somente no meu coração, enquanto o fio de saudade parte-me ao meio. Bruto, tal peixeira de valente.

Adeus Maria. Adeus Coração. Até qualquer dia.  Neste ano, nada de fogueira e balão. A vacina não chegou para todos. Para muitos, a morte tornou em noite o dia. Milhares tombados na algibeira da estupidez planaltina, que ora, maltrata e zomba sobre as cruzes espalhadas país afora, a perder de vista. Um rio de lágrimas. Mar de indignação.

Maria, junho ronrona na porteira do dia. O sol arde na moleira. O onça, mufino, acomodado em um canto, reclama o rufar do pandeirão preso em uma escapula de rede. O  onça sem pandeirão e matraca não é ninguém. A trinca da boiada anseia o assobio do apito do amo, a convocar para o ensaio final. Aquele que precede ao batizado do batalhão.

Querida, nada de tropeada na quadra junina. Tudo é vazio no terreiro do Brasil. Nada mais banzo que um arraiá calado. Desprovido de bandeiras, sem barracas de quitutes: maçã do amor, cachaça, milho assado e cozido, cocada, mingau de milho de branco entupido de coco.   

Santo Antônio, São João, São Pedro e Marçal não terão paga de promessa. Pai Francisco, Catirina, caboclo de pena, burrinha, a fileira de índia, tudo em retiro. Eh João Paulo de Marçal, Maioba, Maracanã, Iguaíba, Pindoba, Ribamar.....como é bom o tropear.....o virar o dia em aboio da sabença ancestral.....

Adeus Maria, que ano vem, quero chorar uma pororoca de mundo, que seja de felicidade de brincante, feliz pelo seu batalhão nas ruas....ao som dos tambores de África, Maranhão.....


terça-feira, 11 de maio de 2021

Delza 9.0 a todo vapor.....

 Celebrar, é assim que tem de ser, já dizia Chico Science

Cristiane, Delza e Isabela. 

No fim da tarde de ontem Mainha ligou toda serelepe. Estava risonha e eufórica. Toda feliz. Desejava contar as peripécias que havia realizado no dia anterior, o dedicado às mães pelo deus mercado. O Dia das Mães sucedeu o aniversário de 9.0, celebrado no dia 03.  

Desde o dia 03 ela faz festa. Afinal de contas são nove décadas em mundo que a todo momento passa por uma abissal metamorfose, infelizmente, para um quadro nada animador.

A missa na Igreja do bairro da Alemanha foi o pontapé inicial de um dia entupido de andanças. Havia tempos que não dava um rolê na cidade. Ela risonha conta que se aprontou toda. Colocou até colar de contas.   

A turma toda danou a rezar. Todas as mães da casa, além dela, a filha Cristiane e a neta, Isabela. Todas mães. Na casa o mais devotado à religião é o neto Jonatan, que anima a celebração com violão e canto.

 Ah, o mascote da trupe também foi, Franklin, o bisneto. Por conta da fofura ele ganhou a alcunha dada por mim de Rabicó. Simpático personagens de Monteiro Lobato.

Delza e Franklin, o bisneto fofo

Na missa ela foi a atração principal. “O padre me chamou, desceu do púlpito para falar comigo. Era tanta gente querendo me abraçar e eu com medo”, narra esfuziante e risonha. 

“Olha, recebi tanta mensagem de feliz aniversário e de Dia das Mães de gente que nem conheço”, festeja a sã senhora que não é muito lá de missa.

Delza narra que recebeu um monte de flores, e que elas não param de chegar. Fez questão de guardar os enfeites da festa surpresa do dia do natalício. Mostrou como se criança fosse os balões e mimos que recebeu.

Após a missa a trupe correu praias. São Luís é uma ilha. É água por todos os lados. O neto a levou para um monte de lugar. “Eu andei tanto de carro que fiquei tonta” rememora. Tudo entre risos e feliz.

Eles correram praias, dente elas, a mais popular. O neto exibiu o quanto a Ponta D´areia mudou. Como a especulação foi corrosiva e segregacionista.  O capital especulativo se territorializou e renomeou arrogantemente uma parcela do espaço como Península. Ponta D´areia um dia foi a praia mais popular. A praia mais preta da Ilha. A praia dos regueiros.

“Comi de tudo que eu gosto, bebi cerveja e vinho, não sei como não senti nada. Tá tudo bem. Nenhum desmantelo no fígado”, dispara em êxtase.  

Em uma das paradas, da Igreja do Carmo, no Centro da Cidade, no estacionamento, um dos antigos flanelinhas a identificou. Tocou na cabeça grisalha dela e danou-se a chorar ao lembrar da mãe que havia perdido.

 “Muita emoção no meu aniversário e Dia das Mães. Olha, como chorei. Recordei da infância, da minha mãe, do trabalho, de tudo que passei para criar vocês”, recupera, mas, tudo entre risos.

Segue o fluxo festivo. Ganhou do namorado da filha (Valdir) uma garrafa de vinho. E sempre beberica um cadinho.

 

sábado, 8 de maio de 2021

Invasão do STTR de Santarém/PA - Conselho Indígena do Arapiuns (CITA) esclarece o ocorrido em programa de rádio da FASE

No último dia 03, o Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais  (STTR) de Santarém, no oeste do Pará  passou por um longo momento de tensão por conta de uma invasão.  A questão central diz respeito ao processo de manejo florestal na comunidade, bem como a necessidade em se ouvir todos os setores envolvidos na questão.  Ouça o programa AQUI

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Sobre a invasão do STTR de Santarém - Conselho Indígena Tapajós, STTR e cooperativas realizam reunião para equacionar conflitos

Reunião no STTR no dia 04 de maio, terça feira para equacionar as situações de conflitos na Resex Arapiuns

Nesta terça-feira, dia 04 de maio de 2021, aconteceu na sede do Sindicato dos trabalhadores e trabalhadoras, agricultores e agricultoras rurais de Santarém (STTR), uma reunião do CITA e STTR com 3 cooperativas responsáveis por manejos na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns sobre as questões que levaram os comunitários a invadirem a sede do sindicato na manhã do dia 03 de maio.  Leia mais no Tapajós de Fato


Invasão do STTR de Santarém - Nota do Sindicato

A DIREÇÃO DO SINDICATO DE TRABALHADORES RURAIS, AGRICULTORES E AGRICULTORAS FAMILIARES DE SANTARÉM - STTR -, repudia e lamenta profundamente o fato ocorrido na manhã desta segunda-feira, dia 03 de maio de 2021, quando um grupo de pessoas de comunidades da Resex Tapajós Arapiuns, liderados por representantes de cooperativas, entre as quais, uma que já iniciou a exploração e comercialização de madeira e duas que pretendem executar projetos não madeireiros da sociobiodiversidade, com foco voltado para o fortalecimento das cadeias produtivas dentro da Reserva Extrativista.

Essas pessoas se arvoraram e decidiram invadir as dependências do nosso Sindicato, na tentativa de fazer pressão, de intimidar e ameaçar a Diretoria do STTR de Santarém, na pessoa do Presidente Manoel Edivaldo.

O episódio lamentável se deu em razão de uma Ação Civil Pública (ACP) movida pelo STTR e pelo Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA), que acionaram a justiça objetivando a suspensão dos procedimentos de aprovação dos planos de manejo florestal dentro da Resex Tapajós Arapiuns, até que seja realizada a consulta prévia, livre e informada, nos moldes da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, das 78 Comunidades Tradicionais e Aldeias Indígenas, que vivem na Reserva.

Esclarecemos que somos a favor do desenvolvimento das nossas comunidades e aldeias, desde que os projetos sejam feitos, dentro da legalidade, respeitando os protocolos ambientais, com transparência, em função da melhoria de vida das populações locais, refutando a prática de segmentos madeireiros, que agem com ganância, tentando manipular pessoas e organizações em função de seus interesses espúrios.

 

O STTR como representante da categoria, no exercício de suas prerrogativas, está fazendo o seu papel de lutar pelo interesse coletivo dos diversos territórios que compõem a sua base social.

Nesta manhã, a tentativa de diálogo com tais representações das cooperativas, foi realizada uma reunião com as três cooperativas, mas infelizmente, a COOPRUNÃ se recusou de responder alguns questionamentos e se retirou antes dos encaminhamentos formalizados.

Da reunião resultou os seguintes encaminhamentos:

- uma reunião com o Ministério Público Federal, com a diretoria do STTR, CITA e as condenações das cooperativas COOPERMARÓ e COOPERRIOS afim de discutir o fortalecimento das cadeias produtivas nas áreas de abrangência  de atuação das referidas  cooperativas;

- o STTR estará buscando parceria com órgãos do governo e outros atores no sentido da geração de renda e a sustentabilidade do território;

- um outro encaminhamento firmado foi a realização de futuras reuniões institucionais para a continuidade aos diálogos.

Agradecemos profundamente todos os apoios de inúmeras entidades e pessoas que se solidarizaram com a nossa luta e afirmamos nossa decisão de continuar lutando pelos interesses das populações Tradicionais e Indígenas.

“NOSSA FORÇA É A NOSSA UNIÃO”

terça-feira, 4 de maio de 2021

A invasão do STTR de Santarém e outros nós na região do Baixo Amazonas

A invasão do STTR de Santarém não representa um fato isolado no avanço da fronteira do grande capital sobre o Baixo Amazonas.  

Sede do STTR de Santarém/PA, no dia da invasão, 03 de maio. Foto: site Tapajós de Fato. 

As águas do Tapajós estão elevadas.  Estão a beirar o asfalto.  Pela manhã abundam aracu e pacu, enquanto à noite pescada branca, explica um experimentado pescador.  Ao apontar uma espécie de ilha na outra margem do rio, conta que daquele lado de lá é possível encontrar tucunaré. Faz-se necessário atenção para enxergar a outra margem do rio. Desanuviar a neblina capital.

As águas do Tapajós não respeitam as barreiras artificiais.  O mundo do Tapajós anda agitado, as agendas capitais tendem a agudizar as situações de conflitos. Ao centro, terra, subsolo, floresta e as águas do mundo da imensa bacia do Amazonas, onde se projeta igualmente represar rios para a geração de energia, para edificar complexos portuários, estações de transbordo de mercadorias. Soja na jogada.  Encruza civilizatória. Cilada. Tocaia. Arapuca para leso apanhar.

A ideia é transformar a região num imenso corredor de mercadorias. Uma passagem que a tudo desorganiza: território, laços de amizade, solidariedade, fronteiras, tambores, rimas e bandeiras.  A tendência é a apropriação privada de terra comunal. É transformar terra de trabalho em terra de negócio.

As gentes de cá contam nestes planos como um empecilho à racionalidade do grande capital, articulado em conglomerados, como ocorre no Distrito de Miritituba, na cidade de Itaituba.  O capital sem concorrência. Tudo ajeitadinho. Tudo amiguinho: Bunge, Cargil, e coisa e tal.

As gentes daqui, sequer aparecem nos mapas dos projetos. As gentes daqui aos olhos dos estranhos de lado de lá representam uma pedra no caminho do acumulo de riquezas nas mãos de poucos.

Entrincheirar-se é necessário, de sabença, de prudência e cuidado. Para que a gente não conte corpos sobre corpos, como sucede com a pandemia. Como historicamente tem ocorrido nas Amazônias.

O capital quando aporta na quebrada não dá ponto sem nó. Vai chegando e fazendo quiproquó. Coloca em desalinho os laços de solidariedade, desarruma a família dos parentes. Quem sabe dos garimpos em terra Munduruku em Jacareacanga sabe bem do riscado. Uma pororoca de intrigas.

No derradeiro dia 03 de maio, dois dias após do dia dedicado ao trabalhador e à trabalhadora, ocorreu de um grupo invadir a sede do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR) de Santarém, oeste do Pará ou o Baixo Amazonas, como preferem alguns.

O STTR é uma instituição histórica e combativa da classe trabalhadora do mundo das terras do Tapajós e outros rios.

Não se trata de fato isolado a violência capital em oposição as representatividades da sociodiversidade da região.  Noutro dia, forjaram um flagrante com vistas a criminalizar a ação de brigadistas da Vila de Alter do Chão, ao mesmo em que invadiram a sede da ONG Projeto Saúde e Alegria. 

Noutro extremo, fazendeiros empreenderam o Dia do Fogo em Novo Progresso. O nome da cidade já soa como ironia. Coisas dos tempos dos milicos. Como se diz nestas paragens: tu tá ligado mano?

O presente (des) governo empenha todos os esforços em tudo desmantelar. Instituições que tratam da terra, das florestas, dos direitos humanos não contam com orçamento.  O corte é sucessivo e mais profundo a cada ano. Até provocar hemorragia e tudo findar.  Na missão em tudo destruir, nomeia uns bocós que de um nada sabem do riscado. Estão nos postos a cumprir a missão em tudo destruir.  

Nesta direção, tacou um general sabido em riscar meio fio na pasta da Saúde, um cabra preto que odeia preto na Fundação Palmares, uma pomba lesa na pasta da Cidadania, um grileiro para cuidar da questão Agrária, uma fazendeira doida por veneno e monocultivos para a Agricultura.

As águas do Tapajós andam agitadas. As violências desavergonhadas explodiram o armário. Estão por canto. Afrontam todas as cidadelas. Urge as gentes o cuidado pelas próprias gentes. As gentes é o alvo. A bala, a fome e a justiça as armas dos contrários.

Tapajós faz banzeiros nos dias de hoje.  Agitado riomar de disputas territoriais, a exigir navegadores atentos e uma boa lamparina da sabença para alumiar o navegar até a outra margem do rio, para se festejar em ciranda uma boa Piracaia.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Delza, 9.0

Delza, 9.0. Tal bambu, verga, mas não quebra. No embornal da trajetória traz algumas tempestades, amores, desatinos, uma montanha de teimosias. Nove décadas nas costas, guarda na memória prodigiosas histórias de perseguição aos comunistas Maria Aragão e William Moreira Lima, ambos médicos. Alertava: “não te mete com política. Olha o que fazem com Maria e Willliam....”

Na provinciana São Luís, ironicamente tratada por Ferreira Gullar como Macondo, cursou Filosofia no Palácio Cristo Rei. Prédio cravado na Praça Gonçalves Dias. Foi da primeira turma no tempo em que se estudava latim e francês. Relembra de recitais de poesia, da bandinha do coreto...da Igreja dos Remédios....é religiosa do seu jeito....vai à igreja fora do horário de missa...devota Conceição...e ia à festa do terreiro de dona Ana, na época, localizado à Rua Venceslau Brás, no bairro da Camboa. 

Muitos dos colegas do curso de Filosofia garantiram assento na UFMA como docentes. Ela rememora que por conta do cônego Ribamar Carvalho foi preterida em detrimento da amante do religioso. Tantas vezes ouvi essa história que ainda hoje guardo na memória.  “Aquele maldito cônego......”

Nos anos de 1970 foi mãe solo, - como se diz nos dias atuais - de dois barrigudinhos. Um casal. Imagina ser mãe solteira numa província do Nordeste do século passado, ter curso superior, ser professora que ajuda a pensar?

Na Viração, onde passamos boa parte da infância e adolescência, quando do aperreio de grana, os pregoeiros socorriam no fiado. Seu Benedito, negociador de carne de porco era o mais frequente. Era um senhor negro proveniente da Maioba  Pedação de colchão e costela aviava.

Vem daí minha preferência pela carne suína, creio.  Havia também um cabra que negociava jaçanã. Uma ave que é pura cartilagem. Comum na região da Baixada Maranhense. Quase nenhuma carne.  

A receita consistia em fazer a mesma com arroz, uns pedações de abóbora, arrocha na farinha e segue o fluxo da vida de aperreios.  Carências acudidas pela irmã, primas e amigas. Comunal.  

O fiado também existia no caderno das quitandas. Lembro do comércio do Zé Escangalhado e dona Joana. Lá sempre rolava uma roda de samba e choro. Camboa, Liberdade, Diamante. Bairros sonoros. Macumbas, blocos de carnaval, escola de samba, brincadeiras de bumba meu boi. Todo ano, no São João, o Boi de Rosário brincava na porta de uns parentes do bairro, dona do Carmo.

Meninas traquinas. Creio que de forma inconsciente havia uma consciência de classe. As carências, a condição de mãe solo, a emancipação as aproximava na solidariedade. Uma aquilombação de mulheres numa ilha em que tudo tardava para chegar.  Gullar lembra que as informações sobre a Semana de Arte Moderna só aportaram na Ilha após duas décadas da sua realização.

Delza é franzina. Não sei de onde tirou tanta força para criar dois barrigudinhos, dois netos, e hoje convive com o bisneto Franklin, que a tira para dançar nas aulas de educação física, e dispara” bisa, você é dura”....

Sempre cantarola canções antigas. E critica: “olha, isso tem letra...não são essas coisas de hoje”.  A professora do tempo do mimeografo hoje usa rede social para falar comigo pelo menos umas duas vezes por semana. Passa raio, carão, sermão....indaga do pulmão, doszoio, do coração...

Delza é Bolívia e Corinthians de coração. Ao falar com Docinho (Thulla), minha companheira, sempre puxa o assunto futebol. O Timão... sabe dos nomes dos jogadores, lembra o placar do derradeiro jogo... reclama da ruindade dos caras...oh time ruim, e ri.....diz que vai mandar email para o presidente do clube e reclamar da escalação. 

Delza ri, toma uma breja....sofre com a chuva...e dança com o bisneto....o carinhoso...Saravá Delza, como milhares de nordestinas, uma mulher arretada!!!!

terça-feira, 20 de abril de 2021

Grande dia: UFRJ revoga título de doutor honoris de Jarbas Passarinho, um dos artífices do AI-5

 

Conterrâneo de Chico Mendes, Xapuri/AC, o ex ministro da educação, Jarbas Passarinho fez a vida política no Pará.  O militar foi um dos artífices na elaboração do ato instituição considerado o mais duro contra a democracia nacional, o AI-5, de dezembro de 1968.  Hoje, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revogou o título de doutor honoris de Passarinho.

Por 34 votos a 2, com 8 abstenções, os conselheiros consideraram que o militar não estava à altura do título que já foi concedido a personalidades nacionais e internacionais como Oscar Niemeyer, Albert Sabin, Paulo Freire, Gabriel García Márquez, Dom Hélder Câmara e Desmont Tutu. Leia mais AQUI

sábado, 17 de abril de 2021

25 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás - veja série especial no site do MST


CPT, MST e SDDH divulgam Nota Pública no marco dos 25 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, que em 17 de abril de 1996 vitimou 19 trabalhadores rurais Sem Terra. É o maior Massacre no Campo já registrado no Brasil. De acordo com o documento: “Infelizmente o Pará continua sendo o recordista de ameaças e assassinatos. Multiplicam-se diariamente as denúncias de ameaças e diversos tipos de violência, como pulverização aérea de agrotóxicos sobre assentamentos populares, exploração indevida do território, ameaças a lideranças, despejos ilegais. Leia mais AQUI