segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Agende-se. Carajás 30 anos. Seminário de Marabá tem nova data


Mudou a data do seminário de Marabá. A nova data agora é 21 a 23 de março. A mobilização em todos os municípios impactados pelos projetos de mineração continua a todo vapor.

O quintal da senhorinha


Flores enfeitam a copa do pé de pitomba. Após uma poda drástica a mangueira retoma a forma antiga.  O jambeiro está em rejubilo. Carregado, frondoso e imponente. Toma um canto do quintal de uma da casa de uma senhorinha. A árvore lembra a beleza de uma mulata do Lan.

O quintal da senhorinha abriga ainda laranjeira, limoeiro, uma árvore que lembra um pé de cupuaçu, palmeira de pupunha, noni e flores que desconheço.

No mamoeiro carregado passarinhos fazem carnaval fora de época. Abrigam-se no interior do fruto no café da manhã.   

Quem não anda bem de saúde é o pé de graviola. Ele tem galhos escuros. Os frutos nascem, chegam a ganhar forma e logo definham, ficam escuros e caem.

A senhorinha lembra a minha mãe. Tem o corpo franzino. É pequena. Bem magrinha. Ela cria galinhas e cães. Lembra a Hilda exilada em seu sítio apinhado de gatos.

Toda manhã a solitária senhora fala com os bichos. Raia com eles ao servir o café da manhã.

Não sei o nome dela, que toda tarde quando não chove toma sol na calçada.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Educação do\no campo em Carajás e a radicalização da democracia

 
Edeildo e Neiriane celebram aniversário nesta semana. Eles são educadores na zona rural do sudeste paraense. O casal integra uma turma de 13 pessoas do curso de  Educação do Campo da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), com sede no município de Marabá, sudeste do estado.  
Hoje a turma confraternizou com a realização de um almoço coletivo. Cada um trouxe um prato. O principal foi uma galinha caipira. Tudo vindo dos quintais de alguns projetos de assentamentos.
O curso é baseado na Pedagogia da Alternância do programa do Governo Federal Parfor, que visa formar os professores de zonas rurais.
A metodologia adota tempos de vivência na escola e tempos de vivência nos locais de moradia dos educandos. A turma chega a ficar fora de casa aproximadamente dois meses.
Os que não possuem parentes em Marabá dividem aluguel por temporada em kitnets. O preço é considerado salgado. O simples pode beirar até R$700,00. Há casos ainda de moradia solidária.
Em tempos de darwinismo social a solidariedade promovida pelos discentes soa estranha. Os que moram mais próximo visitam suas casas em fins de semana.
A educação é uma das dimensões mais contundentes do processo de territorialização do campesinato da região, que concentra o maior número de PA´s do país, são mais de 500 projetos.
A territorialização resulta de inúmeros conflitos, tensões, negociações e acomodações com diversos setores do poder público e privado.
No mosaico  de  disputa desse espaço podem ser encontrados: fazendeiros, madeireiros, grileiros, grandes corporações de mineração e de construção de hidrelétricas, indígenas e garimpeiros.
A caminhada do campesinato da fronteira experimentou vários mediadores que endossaram a ação dos setores populares do campo, entre eles: fração da Igreja Católica, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento de Educação de Base (MEB), Comunidades Eclesiais de Base (CEB´s), partidos políticos, ONG´s, intelectuais, setores das universidades públicas, entre outros.    
Pode-se evidenciar a radicalização da democracia para uma parcela da sociedade que historicamente tem sido marginalizada, expropriada e, por vezes, subjugada à condições análogas a do trabalho escravo.
O processo que soma mais de 50 anos de luta pela terra, em uma fronteira marcada pela aguda disputa pelo espaço e riquezas aqui existentes é de um significado emblemático numa sociedade erguida sob o ethos do privilégio.
Desde a integração econômica da região a expansão do capital baseada em exportação de produtos primários, com ênfase no minério, tem promovido a expropriação das populações locais.
O acesso deste público ao direito básico da educação significa um relativo avanço num país ainda marcado pela concentração de poder em mãos de poucos, onde a robusta bancada ruralista no Congresso é uma evidência dessa concentração.

Greve da educação em Marabá

Impasse continua e prefeitura não abre negociações

Prefeitura de Marabá não abre negociações com o movimento grevista dos professores. A paralisação iniciou no dia 27. Já existe campanha nas redes sociais pedindo a cabeça do secretário Bressan.

O Sindicato dos Professores do Estado do Pará (Sintepp) tem promovido passeatas acompanhadas de panfletagem nas escolas, ruas e praças em diferentes horários.

Agora pela noite ocorre esclarecimento junto à comunidade no Ginásio da Folha 16, no núcleo urbano da Nova Marabá, a partir das 19h.

Pela manhã a ação ocorreu na Praça Duque de Caxias, núcleo Cidade Velha.  

Existe a possibilidade da realização de uma assembleia amanhã. Horário a ser confirmado.  

O Sintepp acusa o prefeito João Salame de manipular dados em programas de TV´s locais, e de desconhecer a Lei Orçamentária Anual (LOA).

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Amazônia das terras dos Carajás

É possível ouvir o apito do trem da Vale na Folha 20. No núcleo urbano da Nova Marabá as ruas não são nomeadas. Eleger folha e quadra foi o método adotado. A ideia do desenho do núcleo se assemelha a uma castanheira. Daí opção por folhas. A medida tem inspiração em Brasília.
Em tempos idos o extrativismo da Castanha do Pará fez a fortuna de algumas famílias. Conforme reflexões da professora Marília Emmi, oligarquias que passaram a controlar vastas extensões de terras, maioria grilada.
O mogno também abundou na floresta do Tocantins-Araguaia. A mata que um dia foi frondosa cedeu lugar ao boi. A pecuária extensiva é a uma das bases da economia local.     
Em alguns quintais é a cerca de madeira que separa o público do privado. As ruas são barrentas. Neste período viram um lamaçal. A arquitetura de madeira povoa a periferia de Marabá, encharcada de migrantes, maranhenses em sua maioria. Alvo constante de piadas pejorativas.    
A Feira da 28 é a principal da nucleação. Em tempo de chuva acessar o local sem meter o pé na lama é uma missão quase impossível de quem mora em algumas transversais da proximidade.  
Conheci duas versões sobre o surgimento do espaço da Nova Marabá. A primeira narra que o espaço foi pensado para receber pessoas que vieram engrossar o quadro da sociodiversidade das terras dos Carajás em grandes projetos. Em particular no extrativismo do minério de ferro e nas obras de infraestrutura que os mesmos exigiram: Ferrovia de Carajás e a Hidrelétrica de Tucuruí, no estado do Pará, e Porto do Itaqui em São Luís, capital do Maranhão, por exemplo.
A segunda que o setor foi criado por conta da cheia dos rios Tocantins e Itacaiúnas. É tempo de chuva em Carajás. As águas estão altas.  
A Transamazônica atravessa o Núcleo. Aparta a Feira da 28 do Campus da Universidade Federal. A decisão por rodovias para a integração subordinada da economia local foi a medida tomada pela ditadura civil militar. Ela acelerou o processo de migração. Redefiniu espaços. Concentrou vastas extensões de terras nas mãos  da União.  

Intelectuais como a geógrafa Bertha Becker e o sociólogo José de Souza Martins notam que a Amazônia foi a derradeira fronteira de expansão do capitalismo. Expansão que combina a sua reprodução ampliada com o modo de acumulação primitiva como processo que fomenta a expropriação dos meios de sobrevivência das populações locais e a super exploração da força de trabalho, além da escravidão por dívida. Difícil e polêmica equação.
Não há grandes distensões sobre o desenho de exploração dos recursos naturais conferido à Amazônia. O desenvolvimento econômico imposto a tem consagrado como uma colônia exportadora de commodities.  E o trem da Vale, o maior do mundo, segue a rasgar o sertão. Faça chuva. Faço sol. A cada dia mais apressado.  Carregado de riquezas, vidas e mortes.  

Marabá - Seminário debate os 30 anos do Programa Grande Carajás


 


 
 
Questões indígena, agrária, formas de resistências e lutas, meio ambiente e siderurgia são alguns dos temas que integram a agenda de debate sobre os 30 anos do Projeto Grande Carajás (PGC), no município de Marabá, sudeste do Pará, entre 14 a 16 de março. Setores populares são os responsáveis pelo evento, como a Comissão Pastoral da Terra, MST, MAB, Movimento Debate e Ação  e o Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp).
 
Tudo na Amazônia tem uma escala elástica. Quando o PCG foi criado durante a ditadura civil militar a expectativa era que o mesmo pagasse a dívida externa. O programa foi uma das estratégias de integração econômica da Amazônia. Pecuária e extrativismo foram os principais pilares do projeto.
 
O programa beneficiou grandes corporações nacionais e internacionais no processo de saque às riquezas da Amazônia oriental. Reconfigurou e continua a reconfigurar territórios da região. A intervenção do Estado na economia foi fundamental na indução dos projetos de construção da hidrelétrica de Tucuruí, Ferrovia de Carajás ao Porto do Itaqui e inúmeras rodovias.
 
A Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e o Banco da Amazônia (Basa) foram as instituições criadas no sentido de azeitar a vida do capital na fronteira amazônica.
 
O projeto consagrou a privatização dos lucros e a socialização dos passivos sociais e ambientais nas terras dos Carajás. A expropriação das populações locais foi e continua sendo um dos desdobramentos do processo de inserção do capital na região.
 
Desmatamento, trabalho escravo, execução de camponeses e assessores, situação de vulnerabilidade da população jovem são alguns dos indicadores negativos. Nenhum município tem renda per capita que alcance um salário mínimo por mês. O município vizinho da mina de Carajás, Curionópolis, tem a renda per capita de R$ 108,15, quase a mesma da pequena Palestina do Pará, R$ 106,64.
 
A região vive uma nova inflexão com o inicio do projeto de extração de minério de ferro na Serra Sul (S11D), controlada pela Vale. O empreendimento encontra-se na fronteira das cidades de Parauapebas e Canaã dos Carajás, no sudeste paraense.   
 
Trata-se do maior projeto da Vale ao longo dos seus 40 anos de vida. A extração de minério é o principal item da balança comercial do Pará. Chega a responder por quase a totalidade da balança comercial. A expectativa da Vale é incrementar a produção de ferro em 90 milhões de toneladas por ano, mas com capacidade de multiplicação.
 
A iniciativa inclui mina, duplicação da  Estrada de Ferro de Carajás-EFC, ramal ferroviário de 100 km e porto, está orçada em US$ 19,5 bilhões.
Os recursos estão distribuídos da seguinte forma: a logística consumirá US$ 14,1 bilhões; US$ 8,1 bilhões serão usados na mina e na usina; enquanto US$ 2 bilhões serão usados durante o ano.
 
Como em outros empreendimentos na Amazônia, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES é o responsável por parte dos recursos, ao lado do banco japonês Japan Bank International Cooperation - JBIC. O projeto é maior ou equivalente à primeira versão do Programa Grande Carajás - PGC, iniciado há quase 30 anos.
 
O minério que sairá da Serra Sul é considerado ainda de melhor teor que o extraído da Serra Norte, avaliado como excelente. O teor da S11D é de 66%. A Vale é líder mundial no mercado de ferro, responsável por 310 milhões de toneladas por ano.     Como em outros casos registrados na região, o início do projeto mobiliza uma série de alterações na cidade que abriga a mina e em municípios do entorno.
 
Unidades de conservação, territórios indígenas, projetos de assentamentos e outros territórios já estabelecidos também deverão deixar de existir com a construção das hidrelétricas de Santa Isabel e Marabá.


Mais informações
Evento - Seminário Carajás - 30 anos depois
Promoção: CPT, Cepasp, MST, MAB e MdA.
Onde – Campus I - UFPA - Marabá
Quando - 21 a 23 de março de 2014.
Pessoas de referência
Raimundo Gomes
Celular (94) 91325167 – email egc.neto@yahoo.com.br
Rosemayre Bezerra– Celular (94) 91591819 – email rosemayreb@yahoo.com.br
Thiago Cruz – Celular – (94) 91621757 – email – tmdacruz@yahoo.com.br

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Carajás 30 anos depois - O Distrito Industrial de Marabá

O Polo Siderúrgico de Carajás foi um dos desdobramentos do Programa Grande Carajás.
Ele tem pernas no Maranhão, na cidade de Açailândia e no Pará, em Marabá.
Desde o começo dos anos 2000 ele passa por uma profunda crise.
O aumento das denúncias sociais e ambientais, e a fiscalização contra as carvoarias, aliadas à crise no mercado mundial, provocou o fechamento de várias empresas nas duas cidades.
A primeira a operar em siderurgia na cidade de Marabá, a Companhia Siderúrgica do Pará (Cosipar) teve um triste fim. Fechou há dois anos.
Demitiu o quadro por inteiro. E não honrou compromissos com fornecedores.   
A extração ilegal de madeira e o trabalho degradante integram a aquarela da produção de carvão na região.
Completa o quadro de crise do setor a suspensão do projeto da Vale em produzir aço laminado.
A reclamação comum por ocasião das operações de todas as empresas era a poluição do ar e da água da cidade, além da degradação dos rios Itacaiúnas e do Tocantins.
Os passivos ambientais recaem hoje sobre o frigorifico JBS. Um dos maiores do setor.
Há dias que a cidade fica impregnada pelo odor que exala da empresa.

O setor de indústria e comércio de Marabá tem em pauta  revigorar o Distrito.  

Marabá - greve da Educação entra no terceiro dia


Um telejornal nacional deu visibilidade ao movimento grevista da Educação do município de Marabá, que hoje entrou em seu terceiro dia.

Prédios e carteiras em condições precárias, relatos de professores sobre a pauta de reinvindicações foram as imagens exibidas.

Ocorre nesta tarde uma reunião entre o Sindicato dos Professores e o governo. O Ministério Público faz a mediação.

Luiz Bressan titular da pasta encontra-se numa sinuca.

Quadro do PT da tendência da ex governadora do estado, é conhecido em atuar como assessor de movimentos camponeses.

A primeira greve dos educadores é o batismo de sangue de Bressan como gestor.  
Conforme relatos de professores, o ponto central das reinvindicações é a manutenção dos direitos adquiridos, como o pagamento de horas empregadas no planejamento das aulas.

Marabá - Rede Celpa na berlinda

Celpa em Marabá – como em outras regiões do estado, a Rede Celpa lidera o ranking das queixas ao Procon.
A instituição de defesa do consumidor multou a empresa em mais de quatro milhões.  
A má qualidade do serviço e o aumento das tarifas são os principais motivos das queixas.
A sede da empresa no município de Tucuruí foi alvo de manifestação de segmentos organizados. Eles protestam em particular contra o aumento das tarifas.
Alguns usuários receberam o boleto de cobrança com um acréscimo em mais de 600%. Clientes que pagavam R$100,00 passaram a pagar R$700,00.
Ironia das ironias, o município de Tucuruí abriga a maior hidrelétrica genuinamente nacional.
A mesma foi erguida durante o regime da ditadura civil-militar para abastecer empresas controladas pela Vale, que transformam a bauxita em alumina, e a alumina em alumínio no município de Barcarena, próximo a Belém.
A energia é o principal insumo para a transformação da bauxita em alumina. A Albras e Alunorte, hoje controladas pela norueguesa Norsk Hidro, consomem energia superior a capital do estado, Belém.
Passados mais de 30 anos da construção da hidrelétrica de Tucuruí há registro de pessoas na cidade e proximidades que não contam com o serviço de energia elétrica.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Carajás - 30 anos - UFMA realiza seminário internacional

SÃO LUÍS – O Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais realizará, de 5 a 9 de maio de 2014, na Cidade Universitária, o I Seminário Internacional Carajás 30 anos, com o tema Resistências e mobilizações frente a projetos de desenvolvimento na Amazônia. O objetivo é de avaliar criticamente os 30 anos do Programa Grande Carajás. Para isso, a programação do evento contará com apresentações orais e pôsteres, mesas redondas e grupos de trabalhos (GTs), que tem como público alvo professores, pesquisadores, estudantes universitários, lideranças comunitárias e membros de povos indígenas e populações tradicionais. Leia mais na UFMA

domingo, 26 de janeiro de 2014

Carajás 30 anos depois

Marciano é um homem de meia idade filho da cidade de Baião, no Baixo Tocantins. Ele foi peão de empresa terceirizada no setor de mineração no sudeste do Pará na década de 70.

Atualmente é dirigente de uma associação de camponeses.  

O senhor conta que foi graças a um cozinheiro que procurava ouro num igarapé que  a Vale descobriu minério do projeto Salobo.

Geólogos e outros especialistas já haviam pesquisado a região e nada, conta Marciano. O cozinheiro misturou o que achou com outras coletas, e bingo.

Marciano hoje cursa licenciatura em Educação do Campo no programa do Parfor no Instituto Federal do Pará (IFPA), na cidade de Marabá.

O hoje estudante rememora a densidade da floresta repleta de castanhais e mognos. A fauna era rica. Vara de porcos do mato provocava medo nos peões.

“Era comum a gente passar até quatro dias andando de voadeiras até alcançar uma trilha. Paulistas grilavam terras e tomavam a madeira” rememora Marciano. .

Naquele momento o programa Grande Carajás dava os passos iniciais para a reconfiguração profunda da Amazônia Oriental.

O capital em aliança com a tecnologia contava com o endosso e financiamento do Estado para cimentar as rodovias para o saque numa das mais importantes reservas minerais do mundo, Serra Norte no município de Parauapebas.

Os especialistas das academiais avaliavam que os camponeses migrantes, a maioria composta de nordestinos iriam seguir o em itinerância, dando lugar a eficiência capitalista.

Aos trancos e barrancos os camponeses conseguiram uma territorialização. A produção continua sendo um gargalo. No entanto, a educação avança, a exemplo do Campus Rural do IFPA, fixado num antigo castanhal.

Marciano faz parte de uma turma do IFPA. Passados 30 anos dos passos iniciais de Carajás, a região tem mais de cinquenta por cento definida como projetos de assentamentos rurais.

Os indicadores socioeconômicos são os piores possíveis. Na mais recente lista de trabalho escravo do Ministério do Emprego e do Trabalho a pecuária do sudeste continua imbatível.

Desmatamento, malária, morte de camponeses e assessores e a impunidade não possuem par no país. Os passivos sociais e ambientais são as principais externalidades do  projeto Carajás.

A fronteira agromineral, como definiu o professor Jean Hébette , passa por uma abissal reagendamento, que aprofunda o saque ao coração da Amazônia.

Parte da ferrovia está sendo duplicada por conta da amplificação da exploração de minério de ferro na Serra Sul (S11D), no município de Canaã dos Carajás.

Pátios e o porto do Itaqui também passam por reforma e ampliação. Em breve as obras da hidrelétrica de Marabá, na fronteira dos municípios de Marabá e São João do Araguaia devem iniciar.

É como se a região vivesse um nova Carajazão, como os militares tratavam o projeto que seria a redenção para honrar o pagamento da dívida externa.  
 
Para tentar avaliar os 30 anos do projeto ativistas de direitos humanos e ambientalistas realizam seminários em Marabá, Belém e São Luís.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Loteamentos - uma nuance de Marabá


 

Loteamentos tomam a cidade de Marabá. Assim como  em Altamira, cidade polo da região do Xingu, onde está sendo erguida a hidrelétrica de Belo Monte, os projetos passam a integrar a paisagem da urbe.

É outdoor em tudo que é canto.

A imagem da cantora Gabi Amarantos anuncia lotes a preços populares em Altamira, enquanto a face risonha da apresentadora de TV Úrsula Vidal propaga loteamentos verdes em Marabá.

Ano passado quando visitei o trecho havia notado o fenômeno.  

A tendência onde ocorre a instalação de grandes projetos tem sido o reordenamento físico, politico, econômico e social do lugar. O loteamento é uma nuance.

Preços de aluguéis ganham a estratosfera. Carros de prestadoras de serviços e ônibus de empresas terceirizadas cortam os municípios.

Parada de garimpo


Boa parte dos conhecidos de Marabá não curtiu o filme Serra Pelada. Talvez esperassem algo próximo de um doc.  

É comum histórias de fortunas e desgraças na cidade. Sempre há quem conheça alguém que passou pelo maior garimpo a céu aberto que existiu no mundo.

A saga da Serra Pelada não cessou. Existem milhares de garimpeiros que há mais de 30 anos pelejam por compensação.

Os vestígios do garimpo ainda existem no trecho. Na Trav. Santa Terezinha sobrevivem meia dúzia de ourivesarias. Elas ficam na Cidade Velha.

Numa garimpagem sem muito cuidado é possível notar traços na feição de fronteira na cidade.

Uma amiga alerta que entre os parceiros de garimpo há mais que trairagem. Existe solidariedade e companheirismo, como nos momentos de doença.

No garimpo da Ressaca, na Volta Grande do Xingu, município de Senador José Porfírio ouvimos prosas sobre o assunto. Há mais de sete meses o povo não trabalha.

A canadense Belo Sun tomou de conta do pedaço.

Em Curionópolis, cidade que abriga Serra Pelada a outra canadense, Colossos picou a mula.

Mais de 300 pessoas ficaram sem trabalho.  Um interventor tenta colocar em ordem o lugar.

Tocantins em Marabá - tempo de chuva


Janeiro. Tempo de chuvas. As famílias que moram mais próximas aos rios Itacaiúnas ou  Tocantins saem de casa.

Na Obra kolping, tradicional local de abrigo, o telhado encontra-se no chão. Todo início de ano o mesmo enredo. Caminhões circulam na cidade com os “trens” do povo.  

Janeiro. O rio corre violento. Arrasta galhos e lixo doméstico. O Tocantins tomou a praia do Tucunaré. Não há vestígio de barracas maltrapilhas e banheiros fétidos do tempo do veraneio.

Orla de Marabá. 9h da manhã. Papudinhos comungam o primeiro trago de vinho barato e pinga na Mercearia Cruzeiro, ao lado da Geleira Marujo.

Encontro William, pintor de parede, e artista sempre que pode. Traja bermuda de trabalho e camisa vermelha. Tem cara de ontem. E bafo de sempre.

Tempo cinza. Alguns comerciantes montam barracas: água de coco, cerveja, milho, água, bombons. Os restaurantes preparam a arena.

Adiante um grupo em círculo faz oração. A maioria é adulta. Parecem felizes.

O flutuante continua no mesmo lugar. O sertanejo segue imponente. Não é a melhor das canções.  

Uma casa flutuante ocupa uma parte da orla. Parece simpática. Pega energia da rede pública. Tem churrascaria, sofá e outros mimos.

O rio corre violento. Sufoca uma canoa. Não sei se lembranças. Segue sem ter começo.

Não fosse o rio a cidade teria sentido em existir?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Elevados de Belém


 Belém somou ontem 398 anos no dia de ontem, 12. Como outras metrópoles o trânsito é um dos gargalos da cidade.

Choveu por mais de 10 horas no dia dos anos de Belém. A cidade ficou um alagado só. Submersa.

O entroncamento, perímetro que separa a cidade da região metropolitana, talvez seja o ponto mais crítico.

Monge budista sai do nirvana e solta a baiana ao enfrentar o trecho, menos brutalizado por conta de obra do celebrado comunista Oscar Niemeyer.

A arte ocupa o centro do espaço. É uma homenagem a uma das principais insurreições populares da História do país, a Cabanagem.  

No vão do túnel vidas sucumbem. Sob o túnel colchões surrados abrigam dependentes de álcool e outras drogas.

Ali três elevados foram inaugurados. Eles integram um complexo que visa implantar um sistema de ônibus rápido na região metropolitana, e desafogar o engarrafamento comum em qualquer hora do dia.

A parte inaugurada celebra o carro, apesar das pessoas que moram no entorno e o significativo número de operários que transitam de bicicletas.  Não existem ciclovias ou faixas.

Desumano, demasiadamente. O humano não foi considerado no desenho da obra.

No primeiro dia útil de uso do recurso foi marcado por queixas dos pedestres.

Alguns motoristas consideram que o elevado é muito estreito. E coloca em risco a vida dos mesmos.   

Na fila do TRE


O voto é obrigatório. Meia dúzia de famílias controla os meios de comunicação. A concentração de renda tem indicadores similares a países africanos. O direito não é universalizado.

Figuras de coronéis impregnam a cena política por mais de quatro décadas. Morre-se em cadeias, unidades de saúde e ruas de Norte a Sul. Estranha democracia.

No ano de eleição casado com a Copa do Mundo de Futebol, o eleitor é obrigado a passar pelo processo técnico de biometria.

Recurso que deve acelerar ainda mais o exame eleitoral. A parada não é em todo país.

Duas horas sob um sol inclemente até alcançar o ar do prédio do TRE da cidade de Ananindeua. O município é o segundo mais importante do estado do Pará.

O herdeiro do Barbalho, Helder, que deve sair candidato a governo desmandou no município em duas ocasiões.

No Pará o cacique é o fiel da balança. Bem sabem o PT e o PSDB.  

Brasileiro que é brasileiro tem de deixar tudo para a derradeira hora. A missão do TRE no município encerra daqui a uma semana.

Pelo menos perto de 50 pessoas atendem os eleitores. Assinatura eletrônica e foto da criatura integram o rito.

Imagina o semblante de felicidade após mais de duas horas de fila....

A fila é a instituição mais séria da nação?  As intimidades são trocadas como se as pessoas se conhecessem há décadas.

A parte mais legal são as tiradas politicamente incorretas, como uma sugestão de uma senhora ao meu lado. Saiu com a pérola que a pessoa podia alugar bebês para furar a fila. Entrar como prioridade. Taxa de R$10,00. Metade para a cesta básica da criança e a outra para a cerveja.

À porta do prédio vende-se de tudo: água, água de coco, plastificação do documento, picolés e coisa e tal. Faltou sombrinha.  

A fila tem forma de caracol. Gente de tudo que é jeito. Ninfetas, moçoilas, senhoras serelepes, outras nem tanto.

Senhores magros, gordos, nanicos, negros, pardos, clarinhos, cabeludos, calvos, desgrenhados e os assépticos.  

A diferenciação de classe é estampada nas grifes. Nos badulaques eletrônicos.  

A fila do TRE converteu-se num verdadeiro fest food para a Antropologia. Moças enfeitadas como se fosse a um evento com algum glamour.

Algumas excessivamente coloridas. Enfeitadas. Mais felizes que uma tela de Romero Brito.

E tome foto e redes sociais. Sadomaso geral.    

domingo, 12 de janeiro de 2014

Maranhão: sistema penitenciário entrou em colapso

Como em outros estados da União, a superlotação é um dos problemas que conformam a situação drástica do complexo penitenciário do Maranhão.

Rogério Almeida e Nonato Masson


É a agenda negativa marcada por péssimos indicadores sociais, concentração de renda, seca, conflito por terra, trabalho escravo e corrupção que costuma conferir visibilidade ao estado Maranhão, um dos mais empobrecidos da União. No entanto, no ano passado, com o agravamento da crise no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, na região metropolitana de São Luís, colocou o estado no centro das atenções nacionais e internacionais, em particular pelas cenas de barbárie de decapitação de presos. Leia mais em Carta Maior.
 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

2014 - Corra e olha o céu


sábado, 21 de dezembro de 2013

Fim de ano.....top,top,top.....


Fim de ano....todos\as inebriados\as do mais profundo sentimento de solidariedade....eis a trilha indicada para embalar confraternizações.....top...top....eu vou sabotar....

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Marajó – mundo de águas, açaizais e escravidão

 
 
Faz um tempo o açaí tornou-se uma coqueluche mundial. É consumido em academias e restaurantes de luxo das principais capitais do país. A alta culinária o agenda em diferentes pratos e sobremesas. Para tanto, passou por um processo de ressignificação: antes fonte de proteína de pobres e esfarrapados; para produto de consumo de marombados, e ditos sofisticados.
 
Os surfistas da Califórnia o descobriram. Há uns 10 anos a empresa japonesa K.K. Eyela Corporation o patenteou, onde os produtores nativos eram obrigados a pagar à empresa pela venda de produtos como bombons e licores. Situação já equacionada.
Uma grande empresa de cosméticos fatura com uma coleção produzida a partir da palmeira amazônica, e contabiliza dividendos como social e ambientalmente responsável, graças à “mágica” publicitária. No pico da safra empresas europeias e estadunidenses buscam o fruto direto nas cidades produtoras. 
No cenário nacional e mundial o Pará é o maior produtor do fruto. Em 2012 o estado exportou 6 mil toneladas, o equivalente a R$ 17,3 milhões. O estado responde por algo em torno de 80% a 90% da produção nacional do açaí, seguido por Amazonas e Maranhão, de acordo com o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cidade de Igarapé-Miri é a principal produtora, exportando 360 toneladas/dia. O estado tem perto de 150 agroindústrias.
Quem consome a iguaria e seus subprodutos não imagina que em alguns locais de extração da fruta ou do palmito ainda ocorre situação de super exploração da população ribeirinha, extrativa e quilombola. Algo similar a trabalho escravo. Em alguns lugares o cotidiano é marcado pela coerção pública e privada, ameaça de despejo e morte.
No município de Afuá, situado no arquipélago do Marajó, localizado no delta do rio Amazonas, a situação ainda ocorre. 
As terras do arquipélago foram de sesmarias, talvez esse aspecto histórico ajude a explicar que em algumas ilhas na cidade de Afuá, e outras que integram a região, ainda se mantenha a situação de aviamento e a presença de “patrão”, uma espécie de coronel.   
Afuá – nasceu sobre palafitas no fim do século XIX. É uma típica cidade ribeirinha, marcada pela várzea e igapós. Cajuuna, Afuá e Marojozinho são os principais rios, e integram o estuário amazônico. Fica próxima ao município de Santana, Amapá, estado com que mantém uma relação mais próxima, em detrimento do Pará.
A cidade portuária que escoa minério de ferro, manganês e celulose,  serve como ponto de referência para viajantes de outras cidades paraenses da região do Marajó.
Afuá abriga o Parque Estadual Charapucu, a unidade de conservação mede 65 mil hectares. 36.598 é a população estimada, conforme o censo do IBGE de 2010.
Marajó compreende o território mais empobrecido do Pará. A região é dona do pior índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em 2013 no Brasil. Melgaço é a cidade top. No ranking dos piores municípios do IDH do Brasil, a cidade de Afuá encontra-se entre os 30, ocupando o lugar 22.
No Furo dos Pardos, dona Maria José Carvalho foi flagrada escravizando 19 pessoas no processo de extração do palmito. O nome de Carvalho consta da Lista de Trabalho Escravo produzida pelo Ministério do Trabalho. Segundo Datasus, 3.534 famílias são beneficiadas com o Programa Bolsa Família.
Em 2012 a cidade produziu 5.280 toneladas de açaí e 116 toneladas de palmito, informa o Censo de Extração Vegetal do IBGE.
Marajó – entre ilhas, “patrões” e “fregueses” - Em diferentes ciclos e produtos do extrativismo na Amazônia (látex, castanha, açaí, etc) dos séculos passados a prática do aviamento se fez presente. Assim como da super exploração da mão de obra. O controle da terra de forma legal ou não é um componente que cristaliza a pessoa ou o tronco familiar sobre o domínio do território e os recursos existentes. Constitui-se como uma estratégia de reprodução econômica, social e política.
Assim a família Castro desponta no cenário do município de Cachoeira do Arari, e mantém uma situação de litígio com remanescentes quilombolas no rio Gurupá.  
O derradeiro capítulo foi o assassinato em agosto deste ano na cidade de Belém, às vésperas de um encontro estadual, da liderança Teodoro Lalor. O crime foi considerado pelo setor de segurança pública como passional. Liberato é o patriarca da família Castro. A filha, Consuelo, é prefeita na cidade vizinha, Ponta de Pedras.
Já na ilha Carás - localizada no município de Afuá, as famílias que tensionam com os ribeirinhos pelo controle de açaizais são o casal Arlete Abdon Teixeira Moreira e o carioca Jorge Teixeira Moreira, - este coronel da reserva da PM no estado do Amapá -, a família Carvalho, a família Góes e a família Bastos.   
Documentos de defensores dos direitos humanos do Amapá, que atendem algumas cidades do Pará explicam que os que escravizam, aqui, são chamados de "patrões": são os que, ilegal e violentamente, grilaram grandes quantidades de terras, ilhas inteiras, sem que a União tome uma providência. É o caso da ilha de Carás.
Já os escravos são chamados "fregueses": são famílias que os patrões põem nas "colocações" para tomar conta da terra. Eles extraem madeira, açaí, palmito e látex de borracha, sendo obrigados a vender aos patrões, pelo preço que o patrão quer, e existem ocasiões em que não paga nada.
Nos barracões do “patrão” o “freguês” é obrigado a trabalhar de meia. Conceder parte do que produz para o “dono” da terra, ou vender a produção a preço inferior ao de mercado.  Os barracões e as terras são cuidados por capangas. Cobra D´água, apelido do Adilson, irmão de Arlete Moreira, tem notoriedade entre os moradores de rios e furos na ilha de Carás. A ele cabe a coerção privada, acusam moradores, que sofreram até ameaça de tomada de documentos.
Num lugar sem energia elétrica, sem posto de saúde, sem saneamento básico, com escolas precárias o “patrão” assume o papel de senhor da vida e da morte dos moradores desprovidos de “letras”, com famílias extensas, que tendem a pressionar ainda mais sobre os recursos naturais. 
Litigio – A terra ocupada pela família Moreira é tida como grilada pelos setores alinhados aos ribeirinhos. A família tem acusado moradores de invasão e ameaça de morte. Eles foram notificados pela Secretaria de Justiça do Estado do Pará.  Alguns chegaram a ser presos. Outros “avisados” que não podem produzir roçados, coletar açaí ou palmito fora do perímetro determinado pelo “patrão”.
Arlete e o coronel Moreira alegam que são donos de parte da ilha, que a matriarca Adélia tem negócios no local há anos, e que há uma década um cartório registrou a posse da terra em nome da família. Especialistas em questões fundiária na Amazônia informam que a prática de busca reconhecimento de terras em cartório é uma ferramenta típica do contexto rural amazônico.
Na ilha é comum um casal ter uma média de sete a 10 filhos. As famílias que vão sendo formadas são impedidas de construção de novas casas no local. E onde o estado não chega soa esdrúxulo a presença de um oficial de justiça e PM´s para notificar um ribeirinho, como já registrado no Furo dos Porcos e outros locais da ilha.
Ilha – Terra da União – Desde o Decreto-Lei nº 9760, de 1946 as ilhas consagradas como territórios sob a responsabilidade da União. Na Constituição de 1988, em seu artigo 20, inciso IV ratifica o decreto da década de 1940.