quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Carajás 30 anos depois - O Distrito Industrial de Marabá

O Polo Siderúrgico de Carajás foi um dos desdobramentos do Programa Grande Carajás.
Ele tem pernas no Maranhão, na cidade de Açailândia e no Pará, em Marabá.
Desde o começo dos anos 2000 ele passa por uma profunda crise.
O aumento das denúncias sociais e ambientais, e a fiscalização contra as carvoarias, aliadas à crise no mercado mundial, provocou o fechamento de várias empresas nas duas cidades.
A primeira a operar em siderurgia na cidade de Marabá, a Companhia Siderúrgica do Pará (Cosipar) teve um triste fim. Fechou há dois anos.
Demitiu o quadro por inteiro. E não honrou compromissos com fornecedores.   
A extração ilegal de madeira e o trabalho degradante integram a aquarela da produção de carvão na região.
Completa o quadro de crise do setor a suspensão do projeto da Vale em produzir aço laminado.
A reclamação comum por ocasião das operações de todas as empresas era a poluição do ar e da água da cidade, além da degradação dos rios Itacaiúnas e do Tocantins.
Os passivos ambientais recaem hoje sobre o frigorifico JBS. Um dos maiores do setor.
Há dias que a cidade fica impregnada pelo odor que exala da empresa.

O setor de indústria e comércio de Marabá tem em pauta  revigorar o Distrito.  

Marabá - greve da Educação entra no terceiro dia


Um telejornal nacional deu visibilidade ao movimento grevista da Educação do município de Marabá, que hoje entrou em seu terceiro dia.

Prédios e carteiras em condições precárias, relatos de professores sobre a pauta de reinvindicações foram as imagens exibidas.

Ocorre nesta tarde uma reunião entre o Sindicato dos Professores e o governo. O Ministério Público faz a mediação.

Luiz Bressan titular da pasta encontra-se numa sinuca.

Quadro do PT da tendência da ex governadora do estado, é conhecido em atuar como assessor de movimentos camponeses.

A primeira greve dos educadores é o batismo de sangue de Bressan como gestor.  
Conforme relatos de professores, o ponto central das reinvindicações é a manutenção dos direitos adquiridos, como o pagamento de horas empregadas no planejamento das aulas.

Marabá - Rede Celpa na berlinda

Celpa em Marabá – como em outras regiões do estado, a Rede Celpa lidera o ranking das queixas ao Procon.
A instituição de defesa do consumidor multou a empresa em mais de quatro milhões.  
A má qualidade do serviço e o aumento das tarifas são os principais motivos das queixas.
A sede da empresa no município de Tucuruí foi alvo de manifestação de segmentos organizados. Eles protestam em particular contra o aumento das tarifas.
Alguns usuários receberam o boleto de cobrança com um acréscimo em mais de 600%. Clientes que pagavam R$100,00 passaram a pagar R$700,00.
Ironia das ironias, o município de Tucuruí abriga a maior hidrelétrica genuinamente nacional.
A mesma foi erguida durante o regime da ditadura civil-militar para abastecer empresas controladas pela Vale, que transformam a bauxita em alumina, e a alumina em alumínio no município de Barcarena, próximo a Belém.
A energia é o principal insumo para a transformação da bauxita em alumina. A Albras e Alunorte, hoje controladas pela norueguesa Norsk Hidro, consomem energia superior a capital do estado, Belém.
Passados mais de 30 anos da construção da hidrelétrica de Tucuruí há registro de pessoas na cidade e proximidades que não contam com o serviço de energia elétrica.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Carajás - 30 anos - UFMA realiza seminário internacional

SÃO LUÍS – O Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais realizará, de 5 a 9 de maio de 2014, na Cidade Universitária, o I Seminário Internacional Carajás 30 anos, com o tema Resistências e mobilizações frente a projetos de desenvolvimento na Amazônia. O objetivo é de avaliar criticamente os 30 anos do Programa Grande Carajás. Para isso, a programação do evento contará com apresentações orais e pôsteres, mesas redondas e grupos de trabalhos (GTs), que tem como público alvo professores, pesquisadores, estudantes universitários, lideranças comunitárias e membros de povos indígenas e populações tradicionais. Leia mais na UFMA

domingo, 26 de janeiro de 2014

Carajás 30 anos depois

Marciano é um homem de meia idade filho da cidade de Baião, no Baixo Tocantins. Ele foi peão de empresa terceirizada no setor de mineração no sudeste do Pará na década de 70.

Atualmente é dirigente de uma associação de camponeses.  

O senhor conta que foi graças a um cozinheiro que procurava ouro num igarapé que  a Vale descobriu minério do projeto Salobo.

Geólogos e outros especialistas já haviam pesquisado a região e nada, conta Marciano. O cozinheiro misturou o que achou com outras coletas, e bingo.

Marciano hoje cursa licenciatura em Educação do Campo no programa do Parfor no Instituto Federal do Pará (IFPA), na cidade de Marabá.

O hoje estudante rememora a densidade da floresta repleta de castanhais e mognos. A fauna era rica. Vara de porcos do mato provocava medo nos peões.

“Era comum a gente passar até quatro dias andando de voadeiras até alcançar uma trilha. Paulistas grilavam terras e tomavam a madeira” rememora Marciano. .

Naquele momento o programa Grande Carajás dava os passos iniciais para a reconfiguração profunda da Amazônia Oriental.

O capital em aliança com a tecnologia contava com o endosso e financiamento do Estado para cimentar as rodovias para o saque numa das mais importantes reservas minerais do mundo, Serra Norte no município de Parauapebas.

Os especialistas das academiais avaliavam que os camponeses migrantes, a maioria composta de nordestinos iriam seguir o em itinerância, dando lugar a eficiência capitalista.

Aos trancos e barrancos os camponeses conseguiram uma territorialização. A produção continua sendo um gargalo. No entanto, a educação avança, a exemplo do Campus Rural do IFPA, fixado num antigo castanhal.

Marciano faz parte de uma turma do IFPA. Passados 30 anos dos passos iniciais de Carajás, a região tem mais de cinquenta por cento definida como projetos de assentamentos rurais.

Os indicadores socioeconômicos são os piores possíveis. Na mais recente lista de trabalho escravo do Ministério do Emprego e do Trabalho a pecuária do sudeste continua imbatível.

Desmatamento, malária, morte de camponeses e assessores e a impunidade não possuem par no país. Os passivos sociais e ambientais são as principais externalidades do  projeto Carajás.

A fronteira agromineral, como definiu o professor Jean Hébette , passa por uma abissal reagendamento, que aprofunda o saque ao coração da Amazônia.

Parte da ferrovia está sendo duplicada por conta da amplificação da exploração de minério de ferro na Serra Sul (S11D), no município de Canaã dos Carajás.

Pátios e o porto do Itaqui também passam por reforma e ampliação. Em breve as obras da hidrelétrica de Marabá, na fronteira dos municípios de Marabá e São João do Araguaia devem iniciar.

É como se a região vivesse um nova Carajazão, como os militares tratavam o projeto que seria a redenção para honrar o pagamento da dívida externa.  
 
Para tentar avaliar os 30 anos do projeto ativistas de direitos humanos e ambientalistas realizam seminários em Marabá, Belém e São Luís.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Loteamentos - uma nuance de Marabá


 

Loteamentos tomam a cidade de Marabá. Assim como  em Altamira, cidade polo da região do Xingu, onde está sendo erguida a hidrelétrica de Belo Monte, os projetos passam a integrar a paisagem da urbe.

É outdoor em tudo que é canto.

A imagem da cantora Gabi Amarantos anuncia lotes a preços populares em Altamira, enquanto a face risonha da apresentadora de TV Úrsula Vidal propaga loteamentos verdes em Marabá.

Ano passado quando visitei o trecho havia notado o fenômeno.  

A tendência onde ocorre a instalação de grandes projetos tem sido o reordenamento físico, politico, econômico e social do lugar. O loteamento é uma nuance.

Preços de aluguéis ganham a estratosfera. Carros de prestadoras de serviços e ônibus de empresas terceirizadas cortam os municípios.

Parada de garimpo


Boa parte dos conhecidos de Marabá não curtiu o filme Serra Pelada. Talvez esperassem algo próximo de um doc.  

É comum histórias de fortunas e desgraças na cidade. Sempre há quem conheça alguém que passou pelo maior garimpo a céu aberto que existiu no mundo.

A saga da Serra Pelada não cessou. Existem milhares de garimpeiros que há mais de 30 anos pelejam por compensação.

Os vestígios do garimpo ainda existem no trecho. Na Trav. Santa Terezinha sobrevivem meia dúzia de ourivesarias. Elas ficam na Cidade Velha.

Numa garimpagem sem muito cuidado é possível notar traços na feição de fronteira na cidade.

Uma amiga alerta que entre os parceiros de garimpo há mais que trairagem. Existe solidariedade e companheirismo, como nos momentos de doença.

No garimpo da Ressaca, na Volta Grande do Xingu, município de Senador José Porfírio ouvimos prosas sobre o assunto. Há mais de sete meses o povo não trabalha.

A canadense Belo Sun tomou de conta do pedaço.

Em Curionópolis, cidade que abriga Serra Pelada a outra canadense, Colossos picou a mula.

Mais de 300 pessoas ficaram sem trabalho.  Um interventor tenta colocar em ordem o lugar.

Tocantins em Marabá - tempo de chuva


Janeiro. Tempo de chuvas. As famílias que moram mais próximas aos rios Itacaiúnas ou  Tocantins saem de casa.

Na Obra kolping, tradicional local de abrigo, o telhado encontra-se no chão. Todo início de ano o mesmo enredo. Caminhões circulam na cidade com os “trens” do povo.  

Janeiro. O rio corre violento. Arrasta galhos e lixo doméstico. O Tocantins tomou a praia do Tucunaré. Não há vestígio de barracas maltrapilhas e banheiros fétidos do tempo do veraneio.

Orla de Marabá. 9h da manhã. Papudinhos comungam o primeiro trago de vinho barato e pinga na Mercearia Cruzeiro, ao lado da Geleira Marujo.

Encontro William, pintor de parede, e artista sempre que pode. Traja bermuda de trabalho e camisa vermelha. Tem cara de ontem. E bafo de sempre.

Tempo cinza. Alguns comerciantes montam barracas: água de coco, cerveja, milho, água, bombons. Os restaurantes preparam a arena.

Adiante um grupo em círculo faz oração. A maioria é adulta. Parecem felizes.

O flutuante continua no mesmo lugar. O sertanejo segue imponente. Não é a melhor das canções.  

Uma casa flutuante ocupa uma parte da orla. Parece simpática. Pega energia da rede pública. Tem churrascaria, sofá e outros mimos.

O rio corre violento. Sufoca uma canoa. Não sei se lembranças. Segue sem ter começo.

Não fosse o rio a cidade teria sentido em existir?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Elevados de Belém


 Belém somou ontem 398 anos no dia de ontem, 12. Como outras metrópoles o trânsito é um dos gargalos da cidade.

Choveu por mais de 10 horas no dia dos anos de Belém. A cidade ficou um alagado só. Submersa.

O entroncamento, perímetro que separa a cidade da região metropolitana, talvez seja o ponto mais crítico.

Monge budista sai do nirvana e solta a baiana ao enfrentar o trecho, menos brutalizado por conta de obra do celebrado comunista Oscar Niemeyer.

A arte ocupa o centro do espaço. É uma homenagem a uma das principais insurreições populares da História do país, a Cabanagem.  

No vão do túnel vidas sucumbem. Sob o túnel colchões surrados abrigam dependentes de álcool e outras drogas.

Ali três elevados foram inaugurados. Eles integram um complexo que visa implantar um sistema de ônibus rápido na região metropolitana, e desafogar o engarrafamento comum em qualquer hora do dia.

A parte inaugurada celebra o carro, apesar das pessoas que moram no entorno e o significativo número de operários que transitam de bicicletas.  Não existem ciclovias ou faixas.

Desumano, demasiadamente. O humano não foi considerado no desenho da obra.

No primeiro dia útil de uso do recurso foi marcado por queixas dos pedestres.

Alguns motoristas consideram que o elevado é muito estreito. E coloca em risco a vida dos mesmos.   

Na fila do TRE


O voto é obrigatório. Meia dúzia de famílias controla os meios de comunicação. A concentração de renda tem indicadores similares a países africanos. O direito não é universalizado.

Figuras de coronéis impregnam a cena política por mais de quatro décadas. Morre-se em cadeias, unidades de saúde e ruas de Norte a Sul. Estranha democracia.

No ano de eleição casado com a Copa do Mundo de Futebol, o eleitor é obrigado a passar pelo processo técnico de biometria.

Recurso que deve acelerar ainda mais o exame eleitoral. A parada não é em todo país.

Duas horas sob um sol inclemente até alcançar o ar do prédio do TRE da cidade de Ananindeua. O município é o segundo mais importante do estado do Pará.

O herdeiro do Barbalho, Helder, que deve sair candidato a governo desmandou no município em duas ocasiões.

No Pará o cacique é o fiel da balança. Bem sabem o PT e o PSDB.  

Brasileiro que é brasileiro tem de deixar tudo para a derradeira hora. A missão do TRE no município encerra daqui a uma semana.

Pelo menos perto de 50 pessoas atendem os eleitores. Assinatura eletrônica e foto da criatura integram o rito.

Imagina o semblante de felicidade após mais de duas horas de fila....

A fila é a instituição mais séria da nação?  As intimidades são trocadas como se as pessoas se conhecessem há décadas.

A parte mais legal são as tiradas politicamente incorretas, como uma sugestão de uma senhora ao meu lado. Saiu com a pérola que a pessoa podia alugar bebês para furar a fila. Entrar como prioridade. Taxa de R$10,00. Metade para a cesta básica da criança e a outra para a cerveja.

À porta do prédio vende-se de tudo: água, água de coco, plastificação do documento, picolés e coisa e tal. Faltou sombrinha.  

A fila tem forma de caracol. Gente de tudo que é jeito. Ninfetas, moçoilas, senhoras serelepes, outras nem tanto.

Senhores magros, gordos, nanicos, negros, pardos, clarinhos, cabeludos, calvos, desgrenhados e os assépticos.  

A diferenciação de classe é estampada nas grifes. Nos badulaques eletrônicos.  

A fila do TRE converteu-se num verdadeiro fest food para a Antropologia. Moças enfeitadas como se fosse a um evento com algum glamour.

Algumas excessivamente coloridas. Enfeitadas. Mais felizes que uma tela de Romero Brito.

E tome foto e redes sociais. Sadomaso geral.    

domingo, 12 de janeiro de 2014

Maranhão: sistema penitenciário entrou em colapso

Como em outros estados da União, a superlotação é um dos problemas que conformam a situação drástica do complexo penitenciário do Maranhão.

Rogério Almeida e Nonato Masson


É a agenda negativa marcada por péssimos indicadores sociais, concentração de renda, seca, conflito por terra, trabalho escravo e corrupção que costuma conferir visibilidade ao estado Maranhão, um dos mais empobrecidos da União. No entanto, no ano passado, com o agravamento da crise no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, na região metropolitana de São Luís, colocou o estado no centro das atenções nacionais e internacionais, em particular pelas cenas de barbárie de decapitação de presos. Leia mais em Carta Maior.
 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

2014 - Corra e olha o céu


sábado, 21 de dezembro de 2013

Fim de ano.....top,top,top.....


Fim de ano....todos\as inebriados\as do mais profundo sentimento de solidariedade....eis a trilha indicada para embalar confraternizações.....top...top....eu vou sabotar....

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Marajó – mundo de águas, açaizais e escravidão

 
 
Faz um tempo o açaí tornou-se uma coqueluche mundial. É consumido em academias e restaurantes de luxo das principais capitais do país. A alta culinária o agenda em diferentes pratos e sobremesas. Para tanto, passou por um processo de ressignificação: antes fonte de proteína de pobres e esfarrapados; para produto de consumo de marombados, e ditos sofisticados.
 
Os surfistas da Califórnia o descobriram. Há uns 10 anos a empresa japonesa K.K. Eyela Corporation o patenteou, onde os produtores nativos eram obrigados a pagar à empresa pela venda de produtos como bombons e licores. Situação já equacionada.
Uma grande empresa de cosméticos fatura com uma coleção produzida a partir da palmeira amazônica, e contabiliza dividendos como social e ambientalmente responsável, graças à “mágica” publicitária. No pico da safra empresas europeias e estadunidenses buscam o fruto direto nas cidades produtoras. 
No cenário nacional e mundial o Pará é o maior produtor do fruto. Em 2012 o estado exportou 6 mil toneladas, o equivalente a R$ 17,3 milhões. O estado responde por algo em torno de 80% a 90% da produção nacional do açaí, seguido por Amazonas e Maranhão, de acordo com o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cidade de Igarapé-Miri é a principal produtora, exportando 360 toneladas/dia. O estado tem perto de 150 agroindústrias.
Quem consome a iguaria e seus subprodutos não imagina que em alguns locais de extração da fruta ou do palmito ainda ocorre situação de super exploração da população ribeirinha, extrativa e quilombola. Algo similar a trabalho escravo. Em alguns lugares o cotidiano é marcado pela coerção pública e privada, ameaça de despejo e morte.
No município de Afuá, situado no arquipélago do Marajó, localizado no delta do rio Amazonas, a situação ainda ocorre. 
As terras do arquipélago foram de sesmarias, talvez esse aspecto histórico ajude a explicar que em algumas ilhas na cidade de Afuá, e outras que integram a região, ainda se mantenha a situação de aviamento e a presença de “patrão”, uma espécie de coronel.   
Afuá – nasceu sobre palafitas no fim do século XIX. É uma típica cidade ribeirinha, marcada pela várzea e igapós. Cajuuna, Afuá e Marojozinho são os principais rios, e integram o estuário amazônico. Fica próxima ao município de Santana, Amapá, estado com que mantém uma relação mais próxima, em detrimento do Pará.
A cidade portuária que escoa minério de ferro, manganês e celulose,  serve como ponto de referência para viajantes de outras cidades paraenses da região do Marajó.
Afuá abriga o Parque Estadual Charapucu, a unidade de conservação mede 65 mil hectares. 36.598 é a população estimada, conforme o censo do IBGE de 2010.
Marajó compreende o território mais empobrecido do Pará. A região é dona do pior índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em 2013 no Brasil. Melgaço é a cidade top. No ranking dos piores municípios do IDH do Brasil, a cidade de Afuá encontra-se entre os 30, ocupando o lugar 22.
No Furo dos Pardos, dona Maria José Carvalho foi flagrada escravizando 19 pessoas no processo de extração do palmito. O nome de Carvalho consta da Lista de Trabalho Escravo produzida pelo Ministério do Trabalho. Segundo Datasus, 3.534 famílias são beneficiadas com o Programa Bolsa Família.
Em 2012 a cidade produziu 5.280 toneladas de açaí e 116 toneladas de palmito, informa o Censo de Extração Vegetal do IBGE.
Marajó – entre ilhas, “patrões” e “fregueses” - Em diferentes ciclos e produtos do extrativismo na Amazônia (látex, castanha, açaí, etc) dos séculos passados a prática do aviamento se fez presente. Assim como da super exploração da mão de obra. O controle da terra de forma legal ou não é um componente que cristaliza a pessoa ou o tronco familiar sobre o domínio do território e os recursos existentes. Constitui-se como uma estratégia de reprodução econômica, social e política.
Assim a família Castro desponta no cenário do município de Cachoeira do Arari, e mantém uma situação de litígio com remanescentes quilombolas no rio Gurupá.  
O derradeiro capítulo foi o assassinato em agosto deste ano na cidade de Belém, às vésperas de um encontro estadual, da liderança Teodoro Lalor. O crime foi considerado pelo setor de segurança pública como passional. Liberato é o patriarca da família Castro. A filha, Consuelo, é prefeita na cidade vizinha, Ponta de Pedras.
Já na ilha Carás - localizada no município de Afuá, as famílias que tensionam com os ribeirinhos pelo controle de açaizais são o casal Arlete Abdon Teixeira Moreira e o carioca Jorge Teixeira Moreira, - este coronel da reserva da PM no estado do Amapá -, a família Carvalho, a família Góes e a família Bastos.   
Documentos de defensores dos direitos humanos do Amapá, que atendem algumas cidades do Pará explicam que os que escravizam, aqui, são chamados de "patrões": são os que, ilegal e violentamente, grilaram grandes quantidades de terras, ilhas inteiras, sem que a União tome uma providência. É o caso da ilha de Carás.
Já os escravos são chamados "fregueses": são famílias que os patrões põem nas "colocações" para tomar conta da terra. Eles extraem madeira, açaí, palmito e látex de borracha, sendo obrigados a vender aos patrões, pelo preço que o patrão quer, e existem ocasiões em que não paga nada.
Nos barracões do “patrão” o “freguês” é obrigado a trabalhar de meia. Conceder parte do que produz para o “dono” da terra, ou vender a produção a preço inferior ao de mercado.  Os barracões e as terras são cuidados por capangas. Cobra D´água, apelido do Adilson, irmão de Arlete Moreira, tem notoriedade entre os moradores de rios e furos na ilha de Carás. A ele cabe a coerção privada, acusam moradores, que sofreram até ameaça de tomada de documentos.
Num lugar sem energia elétrica, sem posto de saúde, sem saneamento básico, com escolas precárias o “patrão” assume o papel de senhor da vida e da morte dos moradores desprovidos de “letras”, com famílias extensas, que tendem a pressionar ainda mais sobre os recursos naturais. 
Litigio – A terra ocupada pela família Moreira é tida como grilada pelos setores alinhados aos ribeirinhos. A família tem acusado moradores de invasão e ameaça de morte. Eles foram notificados pela Secretaria de Justiça do Estado do Pará.  Alguns chegaram a ser presos. Outros “avisados” que não podem produzir roçados, coletar açaí ou palmito fora do perímetro determinado pelo “patrão”.
Arlete e o coronel Moreira alegam que são donos de parte da ilha, que a matriarca Adélia tem negócios no local há anos, e que há uma década um cartório registrou a posse da terra em nome da família. Especialistas em questões fundiária na Amazônia informam que a prática de busca reconhecimento de terras em cartório é uma ferramenta típica do contexto rural amazônico.
Na ilha é comum um casal ter uma média de sete a 10 filhos. As famílias que vão sendo formadas são impedidas de construção de novas casas no local. E onde o estado não chega soa esdrúxulo a presença de um oficial de justiça e PM´s para notificar um ribeirinho, como já registrado no Furo dos Porcos e outros locais da ilha.
Ilha – Terra da União – Desde o Decreto-Lei nº 9760, de 1946 as ilhas consagradas como territórios sob a responsabilidade da União. Na Constituição de 1988, em seu artigo 20, inciso IV ratifica o decreto da década de 1940.
 

domingo, 8 de dezembro de 2013

Mandela - o homem por trás da lenda


sábado, 7 de dezembro de 2013

Maresia, sente a maresia


Xingu - Altamira - mãe perde filho por omissão do Hemopa


No dia quatro de setembro de 2013 D. Diana Ribeiro, 54, enterrou o filho o Francisco, 28.  Foi o terceiro a ser sepultado. Todos eram hemofílicos. O caçula era pai de um garoto.  Em cinco anos D. Diana se despediu de três entes, o marido e dois filhos.

A trabalhadora rural argumenta que o filho agonizou por três dias. A morte dele poderia ter sido evitada se o Hemopa de Altamira, sudoeste paraense, tivesse fornecido o remédio Fator 8. Quando o medicamento chegou na cidade o rapaz já havia falecido.

O drama de Ribeiro aumentou ao saber que o hemocentro da cidade tinha em seus armários 12 mil caixas de Feba, um medicamento mais forte que o Fator 8, e que poderia ter salvo Francisco.

Conforme Dona Diana, no Hemopa os funcionários não conheciam o medicamento.  A senhora de semblante triste e cansado agora inicia uma via crucis por justiça. Na Defensoria do Estado ela busca por reparação.

“Enterrei meu último guerreiro. Uma morte que poderia ter sido evitada se os funcionários do Hemopa conhecessem o medicamento”, lamenta Ribeiro.

D Diana mora na periferia de Altamira com o neto e uma filha adotiva. A audiência com o defensor foi agendada para março.  

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Mundo fundiário no Xingu: entre o caos, rios, rodovias, hidrelétricas, mineração e incertezas


30 mil famílias moram no Assurini, destas 20 mil são famílias assentadas pela reforma agrária em inúmeros projetos de assentamento, entre eles, Sol Nascente, Morro dos Araras, Itapuama. Existem ainda sítios e fazendas, além de áreas de garimpo, e proximidade com territórios indígenas e um modal de unidades de conservação, entre elas Riozinho do Anfrisio e Verde Para Sempre. A guerra dos mapas ocorre no município de Altamira, sudoeste do Pará, região irrigada pelo rio Xingu, e que é impactada pelos grandes empreendimentos, como a construção de Belo Monte e o projeto de mineração da canadense Belo Sun. 

Tudo soa grande na Amazônia. O território do município soma 159 695,938 km². É o maior em extensão territorial do país. Área equivalente a países como Portugal, Irlanda e Suíca. Fosse um estado, seria o 16º, maior que o Acre e o Ceará. Encontra-se numa zona proxima a importantes cidades polos, como Marabá, sudeste do estado, e Santarém, no Baixo Amazonas, todas marcadas pelo capital de grandes corporações, induzidas de inúmeras formas pelo Estado Brasileiro, em particular o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O banco tem se constituído como o principal financiador de megas projetos na Pan-Amazônia, beneficiando empresas como Alcoa, Vale, Votorantim e a Camargo Corrêa.    

A população de Assurini começou a ganhar musculatura quando a área indígena entrou em refluxo, idos da década de 1970, marcada por políticas de integração econômica da região e a construção de rodovias, entre elas a Cuiabá-Santarém (BR 163) e a Transamazônica (BR 230), que serpenteia a região. A União tutela boa parte do território, graças ao Decreto Lei 1.164, de 1971, onde a federação passou a controlar 100 km de cada lado das rodovias federais, em seguida incentivou a colonização com a criação dos Projetos Integrados de Colonização (PIC´s). Medidas realizadas sob a doutrina de segurança nacional, que efetivou ainda institucionalidades como o Grupo Executivo de Terras do Baixo Amazonas (Gebam) e o Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins (Getat), uma espécie de Incra de gandola.

Antes dos planos militares, a seca no Nordeste nos anos 1950 provocou a migração, e cimentou mão de obra barata para o extrativismo da seringa, da castanha e da extração ilegal de madeira. A atividade ilegal de madeira persiste, e tem pressionado as áreas de unidades de conservação da região. O migrante nordestino ajuda a conforma a multifacetada feição camponesa do Xingu.

A precariedade na condição de subsistência, a rotatividade dos “donos” dos lotes, a qualidade do solo, a flutuação dos preços e a distância da sede das cidades influenciam para a permanência ou não do colono ou assentado ainda hoje. Soma-se ao cenário a incerteza se o local poderá ou não ser afetado pelos empreendimentos intensivos em capital, que hegemonizam o processo de redefinição dos territórios xinguanos.    

Assurini por dentro - Assurini é a maior comunidade agrícola do município, e chegou a ser responsável pelo abastecimento da cidade, informam moradores antigos. A população da agrovila é maior que muitos municípios do próprio Pará, como cidades do Marajó, a exemplo de Ponta de Pedras e Cachoeira do Arari.

Os cinco quilômetros no rio Xingu que separam a zona rural da sede do município é percorrido de balsa em 45 minutos. Entre outras externalidades o aumento do custo de vida é um dos rebatimentos que marca a implantação dos grandes projetos na região. Alimentação, aluguel de casas, diária de hotel, condução e o preço do translado pela balsa sofreram incremento. No caso da balsa em mais de cem por cento.

No começo do ano a tarifa paga para o deslocamento de uma moto era de R$3,00, no fim do ano alcançou a casa dos R$7,00. Uma casa simples em Altamira em área que será deslocada pode custar até mil reais. As cidades vizinhas vivem realidade semelhante, que tem desdobramentos no campo social, tais como: desagregação familiar, aumento da violência doméstica, do alcoolismo, do uso de drogas e de homicídios.

A via terrestre de acesso à comunidade, Transassurini, passa por reforma, mas mantém pinguelas – precárias pontes feitas de madeira. No percurso é possível avistar castanheiras e açaizais. Entre a paisagem empoeirada de fim de verão avista-se o gado. Babaquara e Conradinho são considerados os principais igarapés. O reparo da estrada se deve ao avanço das obras de Belo Monte e das prospecções da Belo Sun. Existe a promessa de asfaltamento. Moradores atestam que a ideia é viabilizar a comunicação terrestre com o município de São Félix do Xingu, conhecido pela bacia leiteria. O vizinho do sul do estado experimenta passivos de projetos de mineração da Vale.  

Em setembro o projeto de energia rural alcançou perto de 300 famílias no Assurini. No entanto os agricultores reclamam da péssima qualidade do serviço da Rede Celpa. Já ocorreram casos da queda de energia ultrapassar a casa dos vinte dias. Outro descontentamento é o preço da tarifa, alguns moradores receberam conta de até R$1.200,00, sem ter com quem reclamar. Cacau, castanha, pesca, caça, criação de pequenos animais garante a sobrevivência da população.  

Mobilização por direitos - O Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) e segmentos da Igreja Católica, entre outros sujeitos do campo democrático mobilizam as comunidades no sentido de garantia de direitos. Nesta semana realizaram uma reunião que contou com a participação de perto de 60 pessoas. A comunidade será afetada pelo empreendimento de Belo Monte.  

Os moradores elaboraram uma pauta para diferentes setores públicos e privados, e convidaram os mesmos para a efetivação de um diálogo. Ibama, Norte Energia, Rede Celpa, INCRA e EMATER foram convidados. Destes somente INCRA e EMATER compareceram. Populares queixam-se que omitir e sonegar informações tem sido prática recorrente da Norte Energia, que as vezes não recebe nem pesquisadores.

A pauta de reinvindicações para o consórcio exige o cumprimento do Plano Básico Ambiental (PBA) e do Termo de Compromisso firmado com o INCRA em 2010. Em tese as obras só poderiam ter iniciado após o reassentamento das populações atingidas. Entre outras questões a pauta dirigida para a Norte Energia trata do reassentamento das famílias, subsídio do translado da balsa, manutenção do preço do pé de cacau em R$98,00 e a responsabilização sobre a manutenção de 100 operários da empresa Naturasul, que deve em breve ocupar área no projeto de assentamento Sol Nascente. A população teme pela acentuação da desagregação e insegurança da comunidade.

Para o INCRA os moradores exigem a desapropriação de grandes áreas. A questão fundiária é a mais delicada. Nos assentamentos há casos de lotes terem sido negociados várias vezes, apesar da proibição em lei. O local conhecido como Paial sofrerá com a construção da barragem. Os agricultores temem perder a terra.  O representante do INCRA garantiu que o morador que comprou terra de forma ilegal, mas que tem vocação para o trabalho rural será reconhecido. A presença de fazendeiros é outro ponto a ser equacionado.

Na quebra de braço entre o grande capital e as populações locais, a Norte Energia tem tomado como base jurídica legislação da década de 1940, que concede ao setor privado o poder em desapropriar. O remanejamento da população de Santo Antônio no Xingu tem sido o caso mais emblemático da assimetria de força entre os envolvidos da disputa pelo território.

Como metodologia para o afetado que optar por indenização o consórcio concede uma carta de crédito. Em meio a um caos fundiário e grilagens de terras, o impactado fica obrigado em conseguir encontrar uma terra com título legítimo, para que o processo encerre.    

Outro ponto nebuloso é a não remuneração das áreas verdes dos lotes. A empresa indeniza somente áreas que possuam plano de manejo, apesar do serviço ambiental prestado e o respeito à legislação, que obriga a manutenção de 80% de reserva da floresta. Moradores lembram que por conta das obras ocorreu um esvaziamento da população mais jovem para a cidade de Altamira, e consequentemente para os canteiros da barragem. O campo de futebol ficou relegado ao abandono. E não se encontra gente disposta ao penoso trabalho na roça.   

Pará grilado

6.102 títulos de terra registrados nos cartórios estaduais possuem irregularidades. Somados, os papéis representam mais de 110 milhões de hectares, quase um Pará a mais, em áreas possivelmente griladas. Os dados resultam de três anos de pesquisa dos órgãos ligados à questão fundiária no estado, através da Comissão Permanente de Monitoramento, Estudo e Assessoramento das Questões Ligadas à Grilagem (Tribunal de Justiça, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Advocacia Geral da União, Ordem dos Advogados do Brasil, Federação dos Trabalhadores na Agricultura, Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, Comissão Pastoral da Terra e a Federação da Agricultura do Estado do Pará). O documento foi apresentado em 30 de abril de 2009 no auditório do Ministério Público Federal (MPF)

Conforme o site do MPF, a magnitude dos problemas nos registros – que abrangem de fraudes evidentes a erros de escriturários - levou a um pedido, dirigido à Corregedoria do Interior do Tribunal de Justiça, para que iniciasse imediatamente o cancelamento administrativo de todos os títulos irregulares, já bloqueados por medida do próprio TJ. Na época a desembargadora Maria Rita Lima Xavier, corregedora do interior, negou o pedido no último mês de março.

O cancelamento dos títulos vai evitar a criação de seis mil processos para o cancelamento dos títulos que podem durar infinitos anos no tribunal já sobrecarregado. Com o indeferimento da desembargadora Maria Rita Lima Xavier, a comissão recorreu ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para que o mesmo defira pelo cancelamento dos títulos falsos.

 
Felício Pontes Jr, procurador da República e representante do MPF na comissão, argumenta que os indícios de fraude são evidentes demais para ficarem esperando processo judicial. O pedido de cancelamento dos títulos é subscrito pelo Ministério Público do Estado, Instituto de Terras do Pará (ITERPA) e a Procuradoria Geral do Estado (PGE) e foi enviado ao CNJ através dos Correios no mesmo dia de apresentação dos dados.

Entre os episódios de grilagem mais famosos do Pará está o do “fantasma” Carlos Medeiros, ente jurídica e fisicamente inexistente que acumula 167 títulos de terra irregulares. Todos os títulos de Medeiros que somam 1,8 milhões de hectares estão bloqueados. As terras se espraiam em dez municípios paraenses. A mesma situação nubla os empreendimentos da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara S/A., no sudeste do estado, do banqueiro Daniel Dantas.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Mineração no Xingu – a batalha entre a canadense Belo Sun e os garimpeiros da Ressaca


Há seis meses perto de 600 garimpeiros da Vila da Ressaca, no município de Senador José Porfirio, estão sem fonte de renda. Eles fazem parte do universo de pessoas e categorias que serão atingidas pelos grandes projetos da região do Xingu, a sudoeste do Pará, mais precisamente na Volta Grande do Xingu, a 50 km a sítio Pimental, que integra a engenharia do projeto da Hidrelétrica de Belo Monte.  Cerca de duas horas de barco separam a Volta Grande do município de Altamira, cidade polo da região.

Além de Belo Monte os moradores da vila são impactados pelo Projeto Volta Grande, maior empreendimento de mineração de ouro a céu aberto do país, da canadense Belo Sun Mining Corp, que deverá retirar 50 toneladas de ouro no prazo de 12 anos, e promete empregar 2.700 operários.

Além dos empregos a corporação garante que irá promover o reassentamento das famílias da Vila Ressaca, Galo e Ouro Verde, e que vai gerar R$500 milhões em impostos em 11 anos. A Belo Sun integra o portfólio da Forbes & Manhattan Inc., um banco mercantil de capital privado, que desenvolve projetos de mineração em todo o mundo.

Após três anos de prospecção e uma negociação nebulosa com pessoas que se dizem donas da área, os garimpeiros estão impedidos de trabalhar nos antigos garimpos Grota Seca, Galo e Ouro Verde, que respectivamente seriam de propriedade de Henrique Pereira Gomes, e das pessoas conhecidas somente pelos prenomes de William e Gazio.  Itatá, Curimã e Morro dos Araras fecham a constelação de garimpos da região, como outros rincões da Amazônia, marcada por uma realidade agrária caótica.  

Conforme moradores da Vila, a retirada dos garimpeiros foi a condição para o pagamento da segunda parcela da negociação junto aos possíveis proprietários. A estimativa é que 50% dos moradores abandonaram o local, perto de mil pessoas. O mesmo ocorre na vizinha Ilha da Fazenda, que passou o ano sem energia elétrica gerada a motor de diesel, e já sofre com o abastecimento de água. 

Cerca de 300 famílias ainda moram na Vila Ressaca, que tem parte do território definido como projeto de assentamento rural da reforma agrária. Além do garimpo os moradores possuem como ocupação a lavoura, pesca e o funcionalismo público. Seis mil pessoas chegaram a habitar o lugar durante a febre do ouro.

Prestes a receber a licença ambiental, tudo parece anuviado tanto na Vila de Ressaca, quanto na Ilha da Fazenda. Os moradores não sabem informar sobre reassentamento das famílias, e temem pela qualidade da água no presente e no futuro, por conta do desmatamento, do uso de resíduos tóxicos, assoreamento e barramento do Xingu, que deverá reduzir em até 80% a vazão do rio.

Os ribeirinhos também não sabem se existe algum programa de prevenção de acidentes. O futuro dos habitantes da Volta Grande é incerto. Os ciclos da fauna e flora serão brutalmente alterados, assim como a navegabilidade do rio.

Entre outros pontos nevrálgicos, defensores dos direitos humanos e ecologistas criticam que os estudos de impactos ambientais da mineradora não consideram os impactos cumulativos dos dois empreendimentos. Na mesma seara de critica encontram-se o Ministério Público Federal, Fundação Nacional do Índio (Funai), Defensoria Pública do Estado e ONG´s. 

O licenciamento está suspenso pela Justiça Federal a pedido do MPF, que exige que as populações indígenas Juruna, Araras e isolados sejam ouvidas previamente.  Paquiçamba e Arara são as reservas indígenas mais próximas do empreendimento.    

Vila da Ressaca – Uma vila quase fantasma – Conforme dados do Estudo de Impacto Ambiental da Belo Sun, maranhenses representam 93% da população do município Senador José Porfirio, criado na década de 1960, e que desde os anos quarenta registra atividade de garimpo de ouro. As mineradoras Oca, CNN e Verona precederam a Belo Sun.

Os anos das décadas de 1960 e 1970 são considerados os gloriosos de ouro fácil. Antes do impedimento da atividade, cada garimpeiro conseguia faturar entre R$ 3 a 6 mil reais, informa José Raimundo Constantino, presidente da Cooperativa de Garimpeiros do Galo, Ressaca, Ouro Verde, Itatá e Fazenda (Coogrovif).

A placa da cooperativa registra que ela possui autorização de lavra,  de número 71, concedida pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) desde 2009. A desordem é a regra na fronteira. Nos garimpos da Ressaca não havia relação trabalhista entre os garimpeiros e os controladores dos locais de extração. Cada garimpeiro ficava com 20% do que conseguia arrecadar, enquanto o restante era para o "patrão". Além da precariedade trabalhista era comum o trabalho infantil, e uso do mercúrio e dinamite. Para não falar na situação de conflito que ocorreu com as populações indígenas.   

A mineração em menor ou maior escala é indutora de passivos sociais e ambientais. Se os garimpeiros usam dinamite e mercúrio, as grandes corporações usam cianeto, dragas e dinamite. Tanto um quanto o outro provoca situações de conflito com as populações consideradas tradicionais, em particular indígenas.  

Desabafos da Ressaca – no último sábado as casas de madeira apertavam as ruas estreitas da vila marcada por uma rotina de tranquilidade. O vai e vem comum nos dias de garimpo, com pessoas carregando combustível e motores deixou de existir. “As máquinas foram levadas para o Mato Grosso. Não temos como trabalhar”, informa Idelson de Sousa, um articulado jovem garimpeiro indignado com a situação de abandono. “Temos três vereadores, e ninguém nos defende”, arremata.   

“A empesa sonega informação. Nos afronta e humilha. A gente não tem liberdade e estamos passando necessidade. Estamos que nem gado no curral” enfatiza Francisco Pereira Silva, conhecido como Piauí. Ele é a voz mais indignada na reunião da cooperativa. Há anos na atividade, ele esclarece que tem pai hoje na comunidade sem condição de comprar nem um lápis para o filho.  “Não queremos nada. Apenas o nosso direito. É necessário que haja justiça em nosso país”, sublinha o garimpeiro.  

Já Ideglan Cunha adverte que em Ressaca não há ladrão. Sim pobres dignos. E que não se pode sair de qualquer jeito do garimpo. Ele encerra defendendo que “a gente quer trabalhar, comer e que o direito de cada um seja respeitado”.
 
Mineração no Pará - Existe minério praticamente em todo o estado, - de seixo a ouro -, todavia, até o momento, Carajás tem se constituído como o principal polo exportador. O extrativismo mineral é o principal item da balança comercial do estado do Pará, chegando a contribuir com 90% do Produto Interno Bruto (PIB). O mesmo minério que pesa no PIB é responsável por uma renúncia fiscal de R$ 9 bilhões por ano por conta da Lei Kandir (lei complementar federal n.º 87, de 13 de setembro de 1996), que desonera as empresas em recolher o Imposto de Circulação de Mercadoria e Serviço (ICMS) dos produtos primários e semielaborados. Dados do DNPM sinalizam que o setor faturou 100 bilhões de reais em 2012. Deste total o Pará responde por 23,3%, ficando atrás de Minas Gerais, que concentra 41,4% da produção.

A desoneração em R$9 bilhões se aproxima do orçamento total do estado para o ano de 2013, estimado em R$ 13 bilhões, assim explica a dissertação de mestrado em Direito de Victor Souza, defendida da Universidade Federal do Pará (UFPA). No cenário de corporações internacionais que exploram ou reivindicam licença para prospecção mineral junto ao DNPM em solo paraense, constam a suíça Xstrata, a estadunidense Alcoa, a francesa Ymeris, a Reinarda, subsidiária da australiana Troy Resourse, a norueguesa Norsk Hidro, a chilena Codelco, a canadense Belo Sun Mining Corp e a Vale, esta a de maior musculatura.

Ao longo dos anos a modalidade de política pública para a Amazônia baseada em grande empreendimento tem sido um indutor de desagregação econômica e social, que se manifesta a partir do rompimento de laços de solidariedade, vizinhança, formas de reprodução econômica, social e cultural de pescadores, indígenas, trabalhadores rurais, extrativistas e demais formas da sociodiversidade. 

Os dois projetos, Belo Monte e Belo Sun fazem parte de um cenário que tem redefinido os territórios já estabelecidos na Pan-Amazônia, que colocam em flancos opostos grandes corporações de construtoras de barragens, mineradores, agronegócio e noutro as populações consideradas tradicionais, numa lógica secular marcada pela expropriação dos últimos.