domingo, 8 de dezembro de 2013

Mandela - o homem por trás da lenda


sábado, 7 de dezembro de 2013

Maresia, sente a maresia


Xingu - Altamira - mãe perde filho por omissão do Hemopa


No dia quatro de setembro de 2013 D. Diana Ribeiro, 54, enterrou o filho o Francisco, 28.  Foi o terceiro a ser sepultado. Todos eram hemofílicos. O caçula era pai de um garoto.  Em cinco anos D. Diana se despediu de três entes, o marido e dois filhos.

A trabalhadora rural argumenta que o filho agonizou por três dias. A morte dele poderia ter sido evitada se o Hemopa de Altamira, sudoeste paraense, tivesse fornecido o remédio Fator 8. Quando o medicamento chegou na cidade o rapaz já havia falecido.

O drama de Ribeiro aumentou ao saber que o hemocentro da cidade tinha em seus armários 12 mil caixas de Feba, um medicamento mais forte que o Fator 8, e que poderia ter salvo Francisco.

Conforme Dona Diana, no Hemopa os funcionários não conheciam o medicamento.  A senhora de semblante triste e cansado agora inicia uma via crucis por justiça. Na Defensoria do Estado ela busca por reparação.

“Enterrei meu último guerreiro. Uma morte que poderia ter sido evitada se os funcionários do Hemopa conhecessem o medicamento”, lamenta Ribeiro.

D Diana mora na periferia de Altamira com o neto e uma filha adotiva. A audiência com o defensor foi agendada para março.  

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Mundo fundiário no Xingu: entre o caos, rios, rodovias, hidrelétricas, mineração e incertezas


30 mil famílias moram no Assurini, destas 20 mil são famílias assentadas pela reforma agrária em inúmeros projetos de assentamento, entre eles, Sol Nascente, Morro dos Araras, Itapuama. Existem ainda sítios e fazendas, além de áreas de garimpo, e proximidade com territórios indígenas e um modal de unidades de conservação, entre elas Riozinho do Anfrisio e Verde Para Sempre. A guerra dos mapas ocorre no município de Altamira, sudoeste do Pará, região irrigada pelo rio Xingu, e que é impactada pelos grandes empreendimentos, como a construção de Belo Monte e o projeto de mineração da canadense Belo Sun. 

Tudo soa grande na Amazônia. O território do município soma 159 695,938 km². É o maior em extensão territorial do país. Área equivalente a países como Portugal, Irlanda e Suíca. Fosse um estado, seria o 16º, maior que o Acre e o Ceará. Encontra-se numa zona proxima a importantes cidades polos, como Marabá, sudeste do estado, e Santarém, no Baixo Amazonas, todas marcadas pelo capital de grandes corporações, induzidas de inúmeras formas pelo Estado Brasileiro, em particular o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O banco tem se constituído como o principal financiador de megas projetos na Pan-Amazônia, beneficiando empresas como Alcoa, Vale, Votorantim e a Camargo Corrêa.    

A população de Assurini começou a ganhar musculatura quando a área indígena entrou em refluxo, idos da década de 1970, marcada por políticas de integração econômica da região e a construção de rodovias, entre elas a Cuiabá-Santarém (BR 163) e a Transamazônica (BR 230), que serpenteia a região. A União tutela boa parte do território, graças ao Decreto Lei 1.164, de 1971, onde a federação passou a controlar 100 km de cada lado das rodovias federais, em seguida incentivou a colonização com a criação dos Projetos Integrados de Colonização (PIC´s). Medidas realizadas sob a doutrina de segurança nacional, que efetivou ainda institucionalidades como o Grupo Executivo de Terras do Baixo Amazonas (Gebam) e o Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins (Getat), uma espécie de Incra de gandola.

Antes dos planos militares, a seca no Nordeste nos anos 1950 provocou a migração, e cimentou mão de obra barata para o extrativismo da seringa, da castanha e da extração ilegal de madeira. A atividade ilegal de madeira persiste, e tem pressionado as áreas de unidades de conservação da região. O migrante nordestino ajuda a conforma a multifacetada feição camponesa do Xingu.

A precariedade na condição de subsistência, a rotatividade dos “donos” dos lotes, a qualidade do solo, a flutuação dos preços e a distância da sede das cidades influenciam para a permanência ou não do colono ou assentado ainda hoje. Soma-se ao cenário a incerteza se o local poderá ou não ser afetado pelos empreendimentos intensivos em capital, que hegemonizam o processo de redefinição dos territórios xinguanos.    

Assurini por dentro - Assurini é a maior comunidade agrícola do município, e chegou a ser responsável pelo abastecimento da cidade, informam moradores antigos. A população da agrovila é maior que muitos municípios do próprio Pará, como cidades do Marajó, a exemplo de Ponta de Pedras e Cachoeira do Arari.

Os cinco quilômetros no rio Xingu que separam a zona rural da sede do município é percorrido de balsa em 45 minutos. Entre outras externalidades o aumento do custo de vida é um dos rebatimentos que marca a implantação dos grandes projetos na região. Alimentação, aluguel de casas, diária de hotel, condução e o preço do translado pela balsa sofreram incremento. No caso da balsa em mais de cem por cento.

No começo do ano a tarifa paga para o deslocamento de uma moto era de R$3,00, no fim do ano alcançou a casa dos R$7,00. Uma casa simples em Altamira em área que será deslocada pode custar até mil reais. As cidades vizinhas vivem realidade semelhante, que tem desdobramentos no campo social, tais como: desagregação familiar, aumento da violência doméstica, do alcoolismo, do uso de drogas e de homicídios.

A via terrestre de acesso à comunidade, Transassurini, passa por reforma, mas mantém pinguelas – precárias pontes feitas de madeira. No percurso é possível avistar castanheiras e açaizais. Entre a paisagem empoeirada de fim de verão avista-se o gado. Babaquara e Conradinho são considerados os principais igarapés. O reparo da estrada se deve ao avanço das obras de Belo Monte e das prospecções da Belo Sun. Existe a promessa de asfaltamento. Moradores atestam que a ideia é viabilizar a comunicação terrestre com o município de São Félix do Xingu, conhecido pela bacia leiteria. O vizinho do sul do estado experimenta passivos de projetos de mineração da Vale.  

Em setembro o projeto de energia rural alcançou perto de 300 famílias no Assurini. No entanto os agricultores reclamam da péssima qualidade do serviço da Rede Celpa. Já ocorreram casos da queda de energia ultrapassar a casa dos vinte dias. Outro descontentamento é o preço da tarifa, alguns moradores receberam conta de até R$1.200,00, sem ter com quem reclamar. Cacau, castanha, pesca, caça, criação de pequenos animais garante a sobrevivência da população.  

Mobilização por direitos - O Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) e segmentos da Igreja Católica, entre outros sujeitos do campo democrático mobilizam as comunidades no sentido de garantia de direitos. Nesta semana realizaram uma reunião que contou com a participação de perto de 60 pessoas. A comunidade será afetada pelo empreendimento de Belo Monte.  

Os moradores elaboraram uma pauta para diferentes setores públicos e privados, e convidaram os mesmos para a efetivação de um diálogo. Ibama, Norte Energia, Rede Celpa, INCRA e EMATER foram convidados. Destes somente INCRA e EMATER compareceram. Populares queixam-se que omitir e sonegar informações tem sido prática recorrente da Norte Energia, que as vezes não recebe nem pesquisadores.

A pauta de reinvindicações para o consórcio exige o cumprimento do Plano Básico Ambiental (PBA) e do Termo de Compromisso firmado com o INCRA em 2010. Em tese as obras só poderiam ter iniciado após o reassentamento das populações atingidas. Entre outras questões a pauta dirigida para a Norte Energia trata do reassentamento das famílias, subsídio do translado da balsa, manutenção do preço do pé de cacau em R$98,00 e a responsabilização sobre a manutenção de 100 operários da empresa Naturasul, que deve em breve ocupar área no projeto de assentamento Sol Nascente. A população teme pela acentuação da desagregação e insegurança da comunidade.

Para o INCRA os moradores exigem a desapropriação de grandes áreas. A questão fundiária é a mais delicada. Nos assentamentos há casos de lotes terem sido negociados várias vezes, apesar da proibição em lei. O local conhecido como Paial sofrerá com a construção da barragem. Os agricultores temem perder a terra.  O representante do INCRA garantiu que o morador que comprou terra de forma ilegal, mas que tem vocação para o trabalho rural será reconhecido. A presença de fazendeiros é outro ponto a ser equacionado.

Na quebra de braço entre o grande capital e as populações locais, a Norte Energia tem tomado como base jurídica legislação da década de 1940, que concede ao setor privado o poder em desapropriar. O remanejamento da população de Santo Antônio no Xingu tem sido o caso mais emblemático da assimetria de força entre os envolvidos da disputa pelo território.

Como metodologia para o afetado que optar por indenização o consórcio concede uma carta de crédito. Em meio a um caos fundiário e grilagens de terras, o impactado fica obrigado em conseguir encontrar uma terra com título legítimo, para que o processo encerre.    

Outro ponto nebuloso é a não remuneração das áreas verdes dos lotes. A empresa indeniza somente áreas que possuam plano de manejo, apesar do serviço ambiental prestado e o respeito à legislação, que obriga a manutenção de 80% de reserva da floresta. Moradores lembram que por conta das obras ocorreu um esvaziamento da população mais jovem para a cidade de Altamira, e consequentemente para os canteiros da barragem. O campo de futebol ficou relegado ao abandono. E não se encontra gente disposta ao penoso trabalho na roça.   

Pará grilado

6.102 títulos de terra registrados nos cartórios estaduais possuem irregularidades. Somados, os papéis representam mais de 110 milhões de hectares, quase um Pará a mais, em áreas possivelmente griladas. Os dados resultam de três anos de pesquisa dos órgãos ligados à questão fundiária no estado, através da Comissão Permanente de Monitoramento, Estudo e Assessoramento das Questões Ligadas à Grilagem (Tribunal de Justiça, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Advocacia Geral da União, Ordem dos Advogados do Brasil, Federação dos Trabalhadores na Agricultura, Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, Comissão Pastoral da Terra e a Federação da Agricultura do Estado do Pará). O documento foi apresentado em 30 de abril de 2009 no auditório do Ministério Público Federal (MPF)

Conforme o site do MPF, a magnitude dos problemas nos registros – que abrangem de fraudes evidentes a erros de escriturários - levou a um pedido, dirigido à Corregedoria do Interior do Tribunal de Justiça, para que iniciasse imediatamente o cancelamento administrativo de todos os títulos irregulares, já bloqueados por medida do próprio TJ. Na época a desembargadora Maria Rita Lima Xavier, corregedora do interior, negou o pedido no último mês de março.

O cancelamento dos títulos vai evitar a criação de seis mil processos para o cancelamento dos títulos que podem durar infinitos anos no tribunal já sobrecarregado. Com o indeferimento da desembargadora Maria Rita Lima Xavier, a comissão recorreu ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para que o mesmo defira pelo cancelamento dos títulos falsos.

 
Felício Pontes Jr, procurador da República e representante do MPF na comissão, argumenta que os indícios de fraude são evidentes demais para ficarem esperando processo judicial. O pedido de cancelamento dos títulos é subscrito pelo Ministério Público do Estado, Instituto de Terras do Pará (ITERPA) e a Procuradoria Geral do Estado (PGE) e foi enviado ao CNJ através dos Correios no mesmo dia de apresentação dos dados.

Entre os episódios de grilagem mais famosos do Pará está o do “fantasma” Carlos Medeiros, ente jurídica e fisicamente inexistente que acumula 167 títulos de terra irregulares. Todos os títulos de Medeiros que somam 1,8 milhões de hectares estão bloqueados. As terras se espraiam em dez municípios paraenses. A mesma situação nubla os empreendimentos da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara S/A., no sudeste do estado, do banqueiro Daniel Dantas.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Mineração no Xingu – a batalha entre a canadense Belo Sun e os garimpeiros da Ressaca


Há seis meses perto de 600 garimpeiros da Vila da Ressaca, no município de Senador José Porfirio, estão sem fonte de renda. Eles fazem parte do universo de pessoas e categorias que serão atingidas pelos grandes projetos da região do Xingu, a sudoeste do Pará, mais precisamente na Volta Grande do Xingu, a 50 km a sítio Pimental, que integra a engenharia do projeto da Hidrelétrica de Belo Monte.  Cerca de duas horas de barco separam a Volta Grande do município de Altamira, cidade polo da região.

Além de Belo Monte os moradores da vila são impactados pelo Projeto Volta Grande, maior empreendimento de mineração de ouro a céu aberto do país, da canadense Belo Sun Mining Corp, que deverá retirar 50 toneladas de ouro no prazo de 12 anos, e promete empregar 2.700 operários.

Além dos empregos a corporação garante que irá promover o reassentamento das famílias da Vila Ressaca, Galo e Ouro Verde, e que vai gerar R$500 milhões em impostos em 11 anos. A Belo Sun integra o portfólio da Forbes & Manhattan Inc., um banco mercantil de capital privado, que desenvolve projetos de mineração em todo o mundo.

Após três anos de prospecção e uma negociação nebulosa com pessoas que se dizem donas da área, os garimpeiros estão impedidos de trabalhar nos antigos garimpos Grota Seca, Galo e Ouro Verde, que respectivamente seriam de propriedade de Henrique Pereira Gomes, e das pessoas conhecidas somente pelos prenomes de William e Gazio.  Itatá, Curimã e Morro dos Araras fecham a constelação de garimpos da região, como outros rincões da Amazônia, marcada por uma realidade agrária caótica.  

Conforme moradores da Vila, a retirada dos garimpeiros foi a condição para o pagamento da segunda parcela da negociação junto aos possíveis proprietários. A estimativa é que 50% dos moradores abandonaram o local, perto de mil pessoas. O mesmo ocorre na vizinha Ilha da Fazenda, que passou o ano sem energia elétrica gerada a motor de diesel, e já sofre com o abastecimento de água. 

Cerca de 300 famílias ainda moram na Vila Ressaca, que tem parte do território definido como projeto de assentamento rural da reforma agrária. Além do garimpo os moradores possuem como ocupação a lavoura, pesca e o funcionalismo público. Seis mil pessoas chegaram a habitar o lugar durante a febre do ouro.

Prestes a receber a licença ambiental, tudo parece anuviado tanto na Vila de Ressaca, quanto na Ilha da Fazenda. Os moradores não sabem informar sobre reassentamento das famílias, e temem pela qualidade da água no presente e no futuro, por conta do desmatamento, do uso de resíduos tóxicos, assoreamento e barramento do Xingu, que deverá reduzir em até 80% a vazão do rio.

Os ribeirinhos também não sabem se existe algum programa de prevenção de acidentes. O futuro dos habitantes da Volta Grande é incerto. Os ciclos da fauna e flora serão brutalmente alterados, assim como a navegabilidade do rio.

Entre outros pontos nevrálgicos, defensores dos direitos humanos e ecologistas criticam que os estudos de impactos ambientais da mineradora não consideram os impactos cumulativos dos dois empreendimentos. Na mesma seara de critica encontram-se o Ministério Público Federal, Fundação Nacional do Índio (Funai), Defensoria Pública do Estado e ONG´s. 

O licenciamento está suspenso pela Justiça Federal a pedido do MPF, que exige que as populações indígenas Juruna, Araras e isolados sejam ouvidas previamente.  Paquiçamba e Arara são as reservas indígenas mais próximas do empreendimento.    

Vila da Ressaca – Uma vila quase fantasma – Conforme dados do Estudo de Impacto Ambiental da Belo Sun, maranhenses representam 93% da população do município Senador José Porfirio, criado na década de 1960, e que desde os anos quarenta registra atividade de garimpo de ouro. As mineradoras Oca, CNN e Verona precederam a Belo Sun.

Os anos das décadas de 1960 e 1970 são considerados os gloriosos de ouro fácil. Antes do impedimento da atividade, cada garimpeiro conseguia faturar entre R$ 3 a 6 mil reais, informa José Raimundo Constantino, presidente da Cooperativa de Garimpeiros do Galo, Ressaca, Ouro Verde, Itatá e Fazenda (Coogrovif).

A placa da cooperativa registra que ela possui autorização de lavra,  de número 71, concedida pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) desde 2009. A desordem é a regra na fronteira. Nos garimpos da Ressaca não havia relação trabalhista entre os garimpeiros e os controladores dos locais de extração. Cada garimpeiro ficava com 20% do que conseguia arrecadar, enquanto o restante era para o "patrão". Além da precariedade trabalhista era comum o trabalho infantil, e uso do mercúrio e dinamite. Para não falar na situação de conflito que ocorreu com as populações indígenas.   

A mineração em menor ou maior escala é indutora de passivos sociais e ambientais. Se os garimpeiros usam dinamite e mercúrio, as grandes corporações usam cianeto, dragas e dinamite. Tanto um quanto o outro provoca situações de conflito com as populações consideradas tradicionais, em particular indígenas.  

Desabafos da Ressaca – no último sábado as casas de madeira apertavam as ruas estreitas da vila marcada por uma rotina de tranquilidade. O vai e vem comum nos dias de garimpo, com pessoas carregando combustível e motores deixou de existir. “As máquinas foram levadas para o Mato Grosso. Não temos como trabalhar”, informa Idelson de Sousa, um articulado jovem garimpeiro indignado com a situação de abandono. “Temos três vereadores, e ninguém nos defende”, arremata.   

“A empesa sonega informação. Nos afronta e humilha. A gente não tem liberdade e estamos passando necessidade. Estamos que nem gado no curral” enfatiza Francisco Pereira Silva, conhecido como Piauí. Ele é a voz mais indignada na reunião da cooperativa. Há anos na atividade, ele esclarece que tem pai hoje na comunidade sem condição de comprar nem um lápis para o filho.  “Não queremos nada. Apenas o nosso direito. É necessário que haja justiça em nosso país”, sublinha o garimpeiro.  

Já Ideglan Cunha adverte que em Ressaca não há ladrão. Sim pobres dignos. E que não se pode sair de qualquer jeito do garimpo. Ele encerra defendendo que “a gente quer trabalhar, comer e que o direito de cada um seja respeitado”.
 
Mineração no Pará - Existe minério praticamente em todo o estado, - de seixo a ouro -, todavia, até o momento, Carajás tem se constituído como o principal polo exportador. O extrativismo mineral é o principal item da balança comercial do estado do Pará, chegando a contribuir com 90% do Produto Interno Bruto (PIB). O mesmo minério que pesa no PIB é responsável por uma renúncia fiscal de R$ 9 bilhões por ano por conta da Lei Kandir (lei complementar federal n.º 87, de 13 de setembro de 1996), que desonera as empresas em recolher o Imposto de Circulação de Mercadoria e Serviço (ICMS) dos produtos primários e semielaborados. Dados do DNPM sinalizam que o setor faturou 100 bilhões de reais em 2012. Deste total o Pará responde por 23,3%, ficando atrás de Minas Gerais, que concentra 41,4% da produção.

A desoneração em R$9 bilhões se aproxima do orçamento total do estado para o ano de 2013, estimado em R$ 13 bilhões, assim explica a dissertação de mestrado em Direito de Victor Souza, defendida da Universidade Federal do Pará (UFPA). No cenário de corporações internacionais que exploram ou reivindicam licença para prospecção mineral junto ao DNPM em solo paraense, constam a suíça Xstrata, a estadunidense Alcoa, a francesa Ymeris, a Reinarda, subsidiária da australiana Troy Resourse, a norueguesa Norsk Hidro, a chilena Codelco, a canadense Belo Sun Mining Corp e a Vale, esta a de maior musculatura.

Ao longo dos anos a modalidade de política pública para a Amazônia baseada em grande empreendimento tem sido um indutor de desagregação econômica e social, que se manifesta a partir do rompimento de laços de solidariedade, vizinhança, formas de reprodução econômica, social e cultural de pescadores, indígenas, trabalhadores rurais, extrativistas e demais formas da sociodiversidade. 

Os dois projetos, Belo Monte e Belo Sun fazem parte de um cenário que tem redefinido os territórios já estabelecidos na Pan-Amazônia, que colocam em flancos opostos grandes corporações de construtoras de barragens, mineradores, agronegócio e noutro as populações consideradas tradicionais, numa lógica secular marcada pela expropriação dos últimos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

UEPA e IFPA debatem sobre o universo agrário da Amazônia


Os “Nós” da Questão Agrária da Amazônia é o tema de simpósio que inicia na manhã do dia 28, na Universidade Estadual do Pará (UEPA). A iniciativa é da própria UEPA em parceria com o Instituto Federal do Pará (IFPA). 

O evento integra a agenda de atividade do grupo de estudo Territorialização Camponesa na Amazônia, coordenado pela professora Cátia Oliveira.

Além de representação de movimentos sociais como o MST, MAB, quilombolas e indígenas haverá apresentação de resultados de pesquisa de graduação e pós graduação.
Edna Castro do NAEA\UFPA e a professora da USP Valéria de Marco farão palestra sobre a delicada situação agrária da região.

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domingo, 3 de novembro de 2013

Marajó - gotas sobre a História de Cachoeira do Arari


Tita é encorpada. Tem 110 quilos adquiridos em pouco mais de 53 anos. A mulher negra de cabelos curtos pintados em tom caju não tem letra. Aprendeu a ler, escrever e fazer conta por necessidade.

Desde cedo trabalha. Aos 15 já lavava roupa de “branco”.  O peso de Tita é distribuído em 1.m55cm.  Sente dores nos joelhos, pés e nas costas. No corpo inteiro.

Ficar por muito tempo sentada ou em pé causa desconforto. Cerveja e samba é o seu ponto fraco. Ela conta que é comum ficar porre em casa em fins de semana. Um box na praça central de Cachoeira do Arari é o ganha pão da autônoma. Cachoeira integra o arquipélago do Marajó. A região é a mais empobrecida do estado do Pará. Possui o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil.
 
Para tentar melhorar a situação, quatro médicas cubanas aguardam o registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) para poder iniciar as atividades de medicina preventiva. Enquanto isso não ocorre, elas dividem o tempo entre passeios e estudos. Duas das quatro médicas não eram aguardadas pela prefeitura. Elas aportaram em Cachoeira no dia 01 de novembro.   

Sobre o meio ambiente, um técnico da prefeitura informa que a vegetação é quase intacta nas áreas de várzea, o que poderia servir de apelo para uma política ambiental. No fim de outubro Cachoeira do Arari passou a integrar a política estadual de municípios verdes.

Tita comercializa alimentação, biscoitos, velas e bebidas. O “leite de onça” é produzido com álcool e leite condensado. Uma auxiliar é o quadro funcional da empresa. A assistente tem namorada ou “marida”, como elas costumam galhofar. Iemanjá é a cabeça de Tita. Uma imagem fica no pé da TV. Atrás a foto de um sobrinho. Ela acredita que a entidade protege a ela e o parente. Após muito tratamento conseguiu engravidar. A criança nasceu com quilo e meio. Hoje é adulta.

O Aracu frito é o petisco da casa. O peixe tem muitas espinhas. Estima-se que 42% da população de 22 mil pessoas de Cachoeira do Arari mantenham laços com a pesca. 9 mil pescadores estão cadastrados no ministério. Vicente, o “Beca” ex coordenador da Colônia de Pescadores Z40 é vice prefeito da cidade. Atualmente ocorre um recasdramento para verificar  a procedência do número.

Beca é o terceiro ex presidente de colônia a ser vice prefeito. Claudionor, hoje secretário de obras já ocupou o cargo. Ele na década de 1990 foi presidente do Grupo de Trabalho da Amazônia (GTA). Uma espécie de central que aglutinava inúmeras representações do campo popular de todos os estados da Amazônia Legal. O GTA contava com financiamento internacional pós Eco-92. Além da Z40, existem a colônia Z-26 e um sindicato de pescadores para representar a categoria.

Dalcidio Jurandir é o filho mais ilustre de Cachoeira do Arari. O município vive sob a ditadura das águas. As águas da baía nesses dias são bem agitadas. O navio de dois andares Comandante Marcos sacode como se fosse afundar. Véspera do dia de finados. Os mais descontraídos fazem festa, enquanto outros vomitam, e alguns conseguiam até dormir. O medo viaja junto por três horas. Algumas pessoas usam colete. Uma jovem não cessa a conversa ao celular, apesar dos solavancos da embarcação. A feição traduz a miscigenação: os olhos são puxados, os lábios carnudos e os cabelos lisos.

O Porto de Camará é uma espécie de entroncamento.É  ponto de chegada dos navios.  De lá é possível seguir para Salvaterra ou Soure e Cachoeira, separada do porto por duas horas de viagem em micro ônibus numa precária estrada.  

O padre italiano Giovanni Gallo deu visibilidade internacional para o município a partir da edificação do Museu do Marajó, antes sediado na vizinha cidade de Santa Cruz do Arari. O mesmo padece de problemas constantes para a sua manutenção. Esses dias em letras desenhadas um aviso em papel A4 apelava para a contribuição de visitantes para o pagamento da conta de energia elétrica. Itaci, uma espécie de “faz tudo” conta que o pico de visitas é em janeiro, por conta do festejo de São Sebastião. Naquele dia do fim de outubro de 2013 éramos os primeiros visitantes.

Um Museu é uma festa de criatividade. Compensados, fotos, fios, pegadinhas e formas de interação provocam o visitante numa trilha sobre a história milenar da região, tributária de sociedades complexas. A neta do ex presidente do EUA, Anna Roosevelt, e também arqueóloga assina artigos sobre a região e o Baixo Amazonas.

O espólio de Gallo encontra-se numa imbricada rede de disputa, que envolve população local, pesquisadores e empresários radicados em Belém. Por conta de uma prestação de contas com limites junto ao Ministério da Cultura, o Museu tem problemas para a captação de recursos.   

Pecuária bubalina, pesca, cultura da mandioca, extrativismo do açaí e produção de abacaxi conformam a base da economia local. Nos dias atuais a monocultura de arroz integra a paisagem dos campos naturais. Toma cerca de 6 mil hectares. Com endosso federal, estadual e do setor rural do estado, a família Quartieiro se apossou de porções de terras. Promove queimadas e no arrastão de corrente faz sucumbir bacuriçais em algumas ilhas, Santa Cruz é uma delas. O agrotóxico é lançado a partir de avião. A família ocupava a área indígena Raposa Serra do Sol em Roraima.

As terras do Marajó foram de sesmarias, e ainda hoje há “coronel” que manda na freguesia: Monteiro e Liberato de Castro são dois deles.  O último tem rusgas com remanescentes de quilombolas numa localidade conhecida como Tororomba, no rio Gurupá. O extrativismo do açaí é o centro de gravidade do conflito. O quilombola mais aguerrido, Teodoro Lalor,  foi morto este ano em Belém, às vésperas de um encontro estadual para debater as demandas da categoria. Ele vinha sendo ameaçado de morte. Mas, o caso  foi noticiada como questão passional. Os parceiros não acreditam na tese. Além de controlar vastas extensões de terra, Castro elegeu a filha como prefeita da cidade vizinha, Ponta de Pedras.  

Fim de tarde de sexta feira. A praça é agitada. Motos circulam de um lado outro para outro. Ninguém usa capacete. Além de bares e lanchonetes, a praça abriga a sede da prefeitura. Dali é possível avistar os trapiches. As cercas de proteção possuem motivos marajoaras. Uma placa prestes a cair do Museu do Marajó dá boas vindas em vários idiomas.

Os “pés inchados” da cidade compartilham “buchudinhas”. Trocam insultos. Riem. Choram. Empurram uns aos outros. As TV´s do local exibem o jogo do Paysandu contra o Joinville. O “Papão da Curuzu” está prestes a cair para a terceira divisão do campeonato nacional.  Perdeu de 4X2.

Tita tem namorado. Ele tem 16 anos a mais que ela, é o dono do box que ela administra. A jovem senhora fala sacanagem com desenvoltura, enquanto outra gordinha trata das unhas dos pés e mãos. Uma moto taxista de estatura mediana e corpo franzino aguarda a vez na manicure. O cabelo pintado de amarelo tem arranjos em cachos. As sobrancelhas desenhadas moldam olhos sapecas.   

 “Tigrão” é o apelido do parceiro de Tita. “Outro dia ele chegou de Belém. Eu doida para colocar o bloco na rua e ele roncando. Deixei ele dormir um cadinho, e na madruga o coro comeu”, conta com alegria juvenil.  

A comerciante parece gostar de dedo de prosa. Encaixa uma história na outra. O causo agora é sobre o desenho nas “xotas” das madames. A pilhéria é de responsabilidade de uma enteada que mora na capital. Trabalha em casa de gente rica. Entre risos a negra narra que as madames fazem bigodinhos na periquita. Aqui a gente mesmo passa o aparelho, Tita ri que se engasga.     

domingo, 27 de outubro de 2013

Ismael Machado - Jornalista paraense abocanha prêmios nacionais e regionais

Há 22 anos na estrada Machado venceu o Líbero Badaró e Vladmir Herzog, e concorre no Esso  e Abdias Nascimento

Há 22 anos Ismael Machado iniciou a carreira no Diário da Serra, jornal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Em Belém passou pelos principais jornais, Província do Pará, O Liberal, e pelejou em assessorias. Já foi correspondente de O Globo e do glorioso JB. Entre os frilas constam as publicações Veja, Bravo e Caros Amigos. Também passou por TV em Rondônia e Cultura em Belém. Em 2013 abocanhou prêmios regionais e vários nacionais (Líbero Badaró e Vladmir Herzog), e é indicado entre os três concorrentes para outros, entre eles, Abdias Nascimento e Esso.  O novo livro aborda a ditadura na Amazônia, foi laureado com o Prêmio Euclides “Chembra” Bandeira, na categoria livro reportagem. Graduado em Turismo, com mestrado em literatura, Machado é repórter especial do jornal do senador Jader Barbalho, o Diário do Pará, que recentemente enfrentou uma greve histórica, e já iniciou a caça às bruxas com algumas demissões. Como os experimentados jornalistas, defende que o principal é sujar os sapatos na estrada. No terceiro casamento Machado é pai de dois filhos. O mais velho cursa jornalismo em Vitória, Espírito Santo. Nesta entrevista ele argumenta sobre o diploma de jornalismo e avalia os prêmios que tem recebido.      
Furo - Quem é Ismael Machado?
Ismael Machado - Nasci em Icoaraci. Comecei a trabalhar em 1991, em dezembro, um dia depois do meu aniversário, no jornal Diário da Serra, em Campo Grande (MS). Passei por todas as editorias possíveis lá, um grande aprendizado. Sou mestre em Literatura, com MBA em Comunicação e Semiótica e Bacharelado em Turismo, além de especialização em Metodologia da Comunicação e Aperfeiçoamento em Jornalismo.
Já trabalhei em jornais como O Alto Madeira (RO), Província do Pará (PA), O Liberal. Fui correspondente do Jornal do Brasil e de O Globo. Fui repórter de TV em Rondônia e na TV Cultura, em Belém. Fiz diversos trabalhos de assessoria de comunicação, e muitos frilas (Folha, Veja, Bravo, Caros Amigos etc).
Furo – Quais as principais influências?
IM - Influências são diversas. Nem tudo no campo do jornalismo. Ana Maria Bahiana, Caio Fernando Abreu, Carlos Heitor Cony, Eliane Brum, Ricardo Kotscho, Lázaro Magalhães, Paulo Silber, o novo jornalismo etc, tudo são influências profissionais.
Furo -  O que é a Amazônia para o profissional Ismael?
IM - O melhor local para um profissional da reportagem estar.
Furo - Como você chegou ao O Globo?
IM - Durante o julgamento de Eldorado dos Carajás, cobri para o Liberal e para o Jornal do Brasil, concorrente do Globo. Dois anos depois, creio que o repórter Rodrigo Taves, enviado a Belém para cobrir o julgamento pelo Globo, deve ter me indicado ou sugerido o nome. Numa tarde recebi um telefonema me propondo fazer matérias para o jornal. Isso foi em 2001. Fiquei no Globo até 2007.
Furo - Líbero Badaró, Herzog (duas vezes), Esso, Abdias Nascimento, IAP, indicação para o da Fiepa, tudo numa lapada, o que significa para você esse reconhecimento?
IM - Esso e Abdias são indicações como finalista. Não sei se ganharei. Mas de qualquer forma estar entre os finalistas já é um baita resultado. A leitura que faço é que o trabalho desenvolvido está no caminho certo. A minha aposta é sempre no texto solto, livre de amarras, buscando a influência do Jornalismo Literário. E na tentativa de construção de boas histórias. Acho que isso tem obtido um retorno positivo. Nesse sentido me parece que estou conseguindo um amadurecimento textual interessante, conseguindo dizer exatamente o que planejei na apuração.
Furo - Machado já sabe o que fazer com esse capital simbólico?
IM - Não. De certa forma, em muitos aspectos não tenho muita noção da ‘ficha caída’, o que isso representa. No fundo também, o que se tem que ter é pé no chão. Não se achar melhor do que se é, nem pior do que podem achar.
Furo – Essa “bamburação” de prêmios é uma iniciativa pessoal ou da empresa?
IM - É uma iniciativa pessoal, no sentido de que, muitas vezes, a empresa nem sabe em quais prêmios inscrevi matérias. Mas ao mesmo tempo, não se pode esquecer que o resultado dessas premiações é conseqüência da abertura dada pelo Diário do Pará na ‘compra’, digamos assim, das ideias de pauta. Todos sabemos que fazer reportagens na Amazônia não é nada fácil. Custa caro, é complicado. O Diário abraça essas ideias, compra a briga. E depois, tem ousadia suficiente para fazer páginas diferenciadas, de ampliar as reportagens em séries, de usar espaços amplos. Em resumo: se o processo inicial é quase solitário (pensar as pautas, produzi-las e apurar) o que vem depois é um trabalho bem feito de diagramação e de edição. Nesse ponto, por exemplo, a interação com os fotógrafos é total e o trabalho de editores como Lázaro Magalhães, a edição de fotografia, o trabalho do ‘artista’ (gosto de chamá-lo assim) Alvarenga, na arte, enfim, tudo o que vem depois da matéria escrita, é um alicerce precioso para que haja interação total no produto final. O Diário possibilita experimentações, ousadias gráficas, grandes reportagens. E isso é uma postura editorial, vale ressaltar. Todos os repórteres têm essa abertura, essa possibilidade de arriscar voos maiores em termos de reportagem.
Furo– O livro reportagem do Prêmio IAP agrupa que matérias?
IM - Na verdade é uma releitura única de tudo o que armazenei a respeito do período da ditadura militar no Pará. Peguei todas as reportagens feitas nesse sentido até aqui e fiz uma costura, transformando tudo numa grande reportagem.
Furo – Quanto ao diploma para exercer a profissão, você tem uma opinião formada?
IM - Eu não concluí o curso de Jornalismo. Pergunte ao Collor o motivo (heheheh), portanto sou plenamente a favor da formação aberta, ampla. E do talento e vocação. Na verdade, com exceção das formações mais especificas, como medicina, engenharias etc, penso que o mundo de hoje não pode mais ser estanque. Vejo isso na academia, esse engessamento, essa limitação de possibilidades. Os historiadores rejeitam jornalistas fazendo o trabalho de historiadores, os jornalistas não querem que formados em Letras exerçam a função. Não gosto muito desse universo fechado. Quando fui fazer o meu primeiro teste numa redação, havia abandonado no último ano o curso de Psicologia. Numa entrevista de emprego a responsável pelo teste disse que eu estava no lugar errado e me indicou para um amigo, editor de Economia do Diário da Serra. Fiz o teste junto com uma recém-formada em Jornalismo. Ele me disse depois que minha materinha havia sido muito superior a dela. Sei que quando entrei a primeira vez numa redação, descobri ser ali o meu lugar. E aqui estou até hoje

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Floresta em pé – quilombolas incrementam produção de açaí



Manejo da cultura garante segurança alimentar e renda

A Amazônia é um mundo de águas. No Porto da Palha em Belém, um canto dele, o rio Guamá se impõe. O chão é tomado de folhas de bananeiras e cestos de açaí enfeitam o cenário. O local é um dos pontos de venda do produto mais consumido na capital do Pará. Conforme o dia avança mais barcos chegam carregados do fruto em ‘basquetas’, caixote pesado de plástico, similar a um engradado.

O porto é pequeno para a quantidade de barcos, rabetas e canoas que atracam ali. Quem chega cedo consegue ancorar a embarcação próximo da ponte de madeira para descarregar os produtos e o desembarque dos ribeirinhos, moradores das comunidades próximas ao longo do rio. Há uma variedade de embarcações de diferentes tamanhos que configuram a paisagem do local, repleto de lixo. 

Na outra margem do rio distante dali, existe uma comunidades que luta por sua sobrevivência. Na data que se comemora o dia Internacional de Combate à Pobreza (17), a Comunidade Quilombola do Espirito Santo dá exemplo que com a manutenção da floresta em pé se consegue o direito à segurança alimentar, apesar da ausência de políticas públicas. Na comunidade não há saneamento básico, água potável e energia elétrica.

Espirito Santo

Localizada na zona rural do município de Acará, a região é conhecida como Baixo Acará. No território moram em torno de 19 famílias em uma área de 167 hectares. O acesso a comunidade pode ser tanto via fluvial e terrestre. De barco a viagem dura cerca de uma a duas horas até a comunidade quilombola de Itacoã, após isso mais 5 quilômetros por estrada de chão batido. Espírito Santo fica a 130 Km distante da cidade do Acará.  indo pela Alça Viária a comunidade fica no Km 24.

Mesmo enfrentado dificuldades com a ausência de políticas públicas a Associação de Moradores e Agricultores da Comunidade Quilombola do Espírito Santo conseguiu executar o projeto de Manejo de Açaí Autossustentável Coletivo Consorciado, com o apoio da Malungu – Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará – e do Fundo Dema.

O fundo é resultado de um processo bem sucedido entre Ministério Público, governo brasileiro e Sociedade Civil Organizada. Criado para fortalecer e apoiar projetos de movimentos sociais, associações e comunidades para atender aos povos da floresta. Este ano o Fundo Dema completa 10 anos de luta e resistência por justiça ambiental na Amazônia.

A presença do negro no Pará se registra no clássico o livro, O negro no Pará, do autor paraense Vicente Salles, importante obra de revisão em documentos oficiais e jornalísticos datados dos séculos XVII a XIX. A região Guajarina, onde se localiza a comunidade do Espirito Santo, teve grande concentração de mocambos ao longo dos Rios Moju, Capim e Acará.

Os dados apresentados pela Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) durante o III Encontro dos Quilombolas do Pará informam que estado do Pará lidera o ranking nacional na titulação de territórios quilombolas. Das 193 comunidades quilombolas de todo o Brasil que já receberam títulos de propriedades da terra, 118 estão no Pará até agosto deste ano, ou seja, mais de 60%. O Fundo Dema contribuiu para se chegar a esse número. Em 2010 a Malungu lançou a Campanha pela Legalização dos Territórios Quilombolas com o apoio do fundo. Entre os anos de 2010 e 2012 receberam títulos de terras 11 comunidades. Até outubro deste ano já foram 8  áreas tituladas e legalizadas.

O numero apresentado tende aumentar. A comunidade do Espirito Santo ainda não recebeu a titulação do território, prevista para próximo mês. A titulação das terras quilombolas garante o direito ao trabalho, a preservação de seus costumes e a cultura, além de garantir segurança alimentar as populações tradicionais. A insegurança alimentar está diretamente ligada com a situação de conflito e exclusão do homem no campo.

Carvão

Antes do projeto a principal atividade de sobrevivência das famílias era o plantio da mandioca e queima da madeira para a produção de carvão. É o que conta Paulo Araújo, morador da comunidade e atual Diretor do Departamento de Promoção da Igualdade Racial do município. “O carvão predominava na comunidade, a maioria das famílias mantinham sua famílias da venda do carvão, duas não realizavam a atividade que era o meu caso. Pra nós era um martírio ver as pessoas nessa atividade, além de afetar a natureza é desumana a condição de trabalho no qual o agricultor se encontrava”.

Sem recursos para investir no manejo do açaí eles não tinham condições para comprar os equipamentos necessários para realizar a manutenção e a limpeza da área do plantio. O projeto transformou  ambientalmente e socialmente a realidade da comunidade. Promoveu o manejo sustentável, baseado em práticas agroecológicas, ou seja, na manutenção e preservação da floresta em pé, sem uso de agrotóxicos ou práticas danosas ao solo, contribuindo assim para a redução do desmatamento e por consequência a recuperando de áreas degradadas.

Resultados

Após três anos a avaliação sobre a iniciativa é positiva. “A gente percebe nas nossas próprias crianças elas estão mais alegres, tem mais vigor”, destaca Paulo. O projeto foi iniciado em 2010 e alcançou o objetivo, garantir segurança alimentar e aumento na renda dos quilombolas contribuindo para uma melhor qualidade de vida dos moradores. 

Apesar da grande maioria das famílias na comunidade não dependerem mais da produção do carvão, ao longo da estrada ainda se podia ver alguns moradores, que residem fora da comunidade, realizando o desmate e queima da floresta para a produção do carvão.

Com o projeto, além de proporcionar a compra dos equipamentos, foi possível construir um barracão para que a comunidade pudesse se reunir de forma mais digna. De acordo com o presidente da Associação de Moradores e Agricultores Quilombolas da Comunidade do Espírito Santo, Maciel Seabra, durante a construção do espaço todos se uniram, homens e mulheres, idosos e crianças. Atualmente o barracão abriga a escola de alfabetização dos meninos e meninas do Espírito Santo.

O fortalecimento dos laços é um dos resultados conquistados.  Com o aumento da renda da produção do açaí algumas famílias puderam construir casas de alvenaria. Maciel compara a média de produção do fruto com a quantidade de latas de açaí. A comunidade produzia o açaí, mas não de forma intensiva. Ele conta que antes o barco da associação levava uma média de dez a quinze latas por semana, após a execução do projeto houveram viagens em que se levou cerca de 100 a 118 latas de açaí para vender no Porto da Palha.

Mas para a senhora Maria José Brito, mais conhecida como Leda, o maior benefício foi o agricultor do Espírito Santo perceber o valor do trabalho que realiza, e conclui. Houve uma mudança de paisagem muito boa, um resgate maior do nosso enxergar, de que a zona rural é o nosso lugar. A gente pode fazer disso aqui algo que seja perfeito para morar e criar nossos filhos, enviá-los para estudar e que depois eles entendam que aqui é o local deles viverem, produzirem e trabalharem em prol dessa comunidade”. 

 

 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Carajás - 30 anos depois

Especialistas e populações atingidas pelos grandes projetos realizam seminários no PA e MA. Um grande encontro será realizado em 2014

O Programa Grande Carajás tem provocado grandes impactos sociais e ambientais, desde sua criação até os dias de hoje. Transformou a realidade de vários municípios no Pará e no Maranhão e tem mobilizado milhares de pessoas na resistência e contestação da sua lógica.
Uma ampla rede de movimentos sociais e comunitários, sindicatos e pastorais do Maranhão e Pará, além de programas de pós-graduação e grupos de pesquisa de universidades desses dois estados em colaboração com várias entidades de outras regiões do país e do mundo, organizam em 2014 o

Seminário Internacional "Carajás 30 anos: resistências e mobilizações frente a projetos de desenvolvimento na Amazônia Oriental"
O objetivo do seminário é avaliar criticamente os 30 anos do Programa Grande Carajás e, a partir do tema central do ‘desenvolvimento’, discutir suas consequências sociais, ambientais, econômicas e culturais. .
Na

terça-feira, 08 de outubro, acontecerão simultaneamente dois lançamentos do seminário nas cidades de São Luís e Belém. O seminário é organizado por um conjunto de instituições do campo popular e universidades do Pará e do Maranhão. O evento tem também o propósito de dar continuidade ao "Seminário Consulta Carajás", realizado pelos movimentos sociais da região entre 1992 e 1995.
O Seminário "Carajás 30 anos" é um processo amplo, que terá seminários preparatórios em

Imperatriz (16 a 18 de outubro, 2013), Marabá (14,15 e 16 de março de 2014), Santa Inês (21 e 22 de março de 2014) e Belém (5 a 8 de abril de 2014) e que culminará em um evento com duração de quatro dias, a ser realizado na Universidade Federal do Maranhão, em São Luís, em maio de 2014. Contará com a participação de assessores e especialistas no setor, bem como do testemunho de lideranças comunitárias e dos movimentos socioambientais do Brasil, de outros países da América Latina e da África.
Nesse próximo dia 8, com as atividades de lançamento, a organização do seminário pretende reunir a imprensa, pesquisadores, estudantes, professores e comunidades diretamente envolvidos ou interessados na temática do evento.
Local:
Belém: CNBB, 9 horas. Tv. Barão Triunfo 3151. 09 horas
 
Contatos Belém: Dion 82651479; Guilherme: 99617427; Marcel: 88505838
e-mail: seminariocarajas30anosbelem@gmail.com
São Luis: Universidade Federal do Maranhão - Centro de Ciências Sociais, Bloco E, 3º Piso, Auditório I – 9 horas.
Contatos São Luis: Padre Dario - (99) 8112.8913

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

BUJARU – entre quilombolas, engenhos e carnavais

As amazônias do Brasil são várias. Vasto mundo de gentes e conhecimentos milenares de matrizes indígena e negra. Gentes que serpenteiam entre furos, igarapés e rios, a fundar e refundar sons, batuques, lendas, histórias, saberes, sabores e trilhas. No Pará, segundo estado em extensão territorial do país, uma diversidade de povos e conhecimentos ainda flutua, em certa medida, oculta das praças formais do conhecimento, por ignorância ou preconceito.
Em Bujaru (boca da cobra grande), cidade da região metropolitana de Belém, nordeste paraense ou região Guajarina, aproximadamente 73 quilômetros da capital, é um exemplo. Curuperé, Cravo, João, Pirapoca  e Cravo alguns dos igarapés do rio Bujaru, um dos afluente do Guamá., vizinho do rio Capim A Amazônia é um mundo de rios. Rios de águas e gentes. No mundo de águas da cidade, o rio Guamá impera.
O mundo de águas do Guamá é um mundo de gentes, 25 mil pessoas é a população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), boa parte de origem negra e nordestina. A PA 140 é a principal via de acesso ao município, que mantém uma relação muito próxima com Concórdia do Pará e Santa Isabel, cidades vizinhas. O rio Guamá separa Santa Isabel de Bujaru.

A travessia de balsa dura menos de trinta minutos. No cais o comércio de bebidas, lanche e café socorrem os viajantes, que possuem a opção de dois modestos hotéis. Peixe seco e fresco são negociados a partir das seis da manhã na beira do rio, quando as portas do comércio abrem. Rabetas e lanchas movimentam o trapiche da cidade, a deslocar os estudantes, moradores e comerciantes. Pescadores em canoas sem motor arriscam apanhar uma gurijuba, pescada ou dourada. Açaizais sacodem ao vento em quintais das casas, algumas de madeira. Os quintais estão repletos de árvores frutíferas, como mangueira, jambo e bacaba.
 
Vicente Salles conta que no vale do rio Guamá predominou no século XVIII e XIX  uma economia de monocultura de cana de açúcar, cacau e algodão, além da criação de gado e  engenhos, baseada em mão de obra escrava. A cana de açúcar predominou nos rios Acará, Capim, Mojú, Igarapé Miri, enquanto em Bujaru a cultura do cacau tinha a hegemonia. É possível ainda hoje encontrar estruturas físicas dos antigos engenhos em inúmeras localidades em Bujaru, a exemplo de: Bom Intento, Guajará Mirim, Conceição, Engenhoca, Mocajuba e São Judas.
Terras de Sesmarias e de posseiros conformaram a feição territorial de Bujaru no período de 1724 a 1824. Portugueses provenientes dos Açores eram os principais interessados nas terras à beira dos rios. A decadência da economia escravocrata inicia nos anos finais do século XIX, quando as fugas ganham volume. No século XVIII, período pombalino, os escravos chegaram a representar 54% da população, conforme pesquisa da professora Edna Castro. A partir das fugas organizaram mocambos na região, onde cultivavam a agricultura em pequena escala, com ênfase na produção de mandioca e hortaliças nas vazantes dos rios. Nos dias atuais a pressão sobre as terras tem sido exercida pela monocultura do dendê, ativada pela empresa BioVale, com incentivos federais.  
Divino Espírito Santo, Carimbó, Cordões de Pássaros e Boi Bumba são algumas das manifestações oriundas das localidades rurais, assim como as lendas. Um monte delas, como a dos “Pretinhos da Pororoca”. Conforme moradores, três pretinhos seriam os responsáveis pela onda avassaladora. Sobre o mesmo assunto é recorrente lembrar que o Padre Basílio Bossio, da Paróquia de São Joaquim teria levantado o braço e jogado água benta no rio da comunidade de Icurapá, para impedir a pororoca. Desde então o fenômeno nunca mais foi o mesmo.  
Além do atrativo de origem histórica e cultural, o local configura-se uma possibilidade de investimento em turismo, onde podem ser incentivadas, entre outras práticas, as trilhas ecológicas e a canoagem. Conforme informações dos discentes que fizeram parte do curso da EGPA, pode-se afirmar que no mapa das artes bujaruense há o predomínio de manifestações de origem cristã, a exemplo da celebração do santo padroeiro, São Joaquim, Círio, celebrado a cada primeiro domingo de dezembro, Natal e a Marcha da Fé, em julho. No caso de São Joaquim ocorre uma grande mobilização no mês de agosto, que tem como desdobramentos a realização de bingos, leilões, auto e folias.
A partir do universo rural ocorrem celebrações em inúmeras comunidades e em escolas da sede do município. Neste segmento, vários festivais são realizados, entre eles: o da mandioca (Escola Izolina Reis), maracujá (Escola Maria José), tucupi (Escola Cantinho do Saber) e coco (escola don Angêlo Frosi) e do açaí (Igreja Jericó- Ipixuna). É possível sinalizar que ocorre uma convergência em diferentes dimensões, onde comungam homem, natureza e cultura. Neste cenário cultural há o envolvimento de uma gama de instituições do poder público municipal e estadual, entres as quais é possível indicar: as secretarias de educação, cultura e meio ambiente; e a Empresa de Assistência Técnica Rural (Emater), o comércio da localidade e pessoas simpáticas às manifestações.
Pássaros e Boi Bumbá existem desde o século passado no município de Bujaru. Bruno dos Santos Batista, conhecido como mestre Neco, é cantador e poeta de boi bumbá, cordões de pássaros e sambas. Ele explica que desde os anos 1960 há registro do folguedo em Bujaru. O mestre conta que Brilha Noite foi o primeiro boi. Além do mestre Neco ajudaram a animar a brincadeira, Manoel Roque, Joaquim Gomes da Silva (Marreta).
Por conta de alterações das pessoas na direção da brincadeira, ocorreu a mudança de nome de Brilha Noite para Estrela D´alva. Conforme informações dos participantes da oficina, as manifestações não existem desde ano passado. Neco rememora que a maioria das manifestações possui como seio o Bairro da Palha, estigmatizado pelo fato de ser um bairro de periferia, habitado por pessoas negras e carentes. Palha é um dos primeiros bairros da cidade.  
Mestre Neco recorda que uma das canções da brincadeira conta o seguinte:
 
Menina varre o terreiro
Mestre Neco –

Menina varre o terreiro
Que o Brilha Noite Chegou
Jogando terra no lombo
Sem achar pastorador
 
Já a poesia do Estrela D´alva, assinada por Marreta, que trata da despedida do boi, proclama:
Canção do Estrela D´alva
Joaquim Gomes (Marreta)
 
Adeus morena
Peço que não vá chorar
Que o Estrela D´alva já vai se arretirar
Se eu não morrer neste grande bombardeio
Para o ano
Nós há de voltar
 
A professora Jacirene do Socorro Silva dos Santos, filha do artista Marreta, explica que a maioria das canções das brincadeiras era assinada pelo pai, Maria Pedrina (Peda), Neco e Carlos Batista (Seu Carroça), pai do mestre Neco.   
Peda assina a seguinte música do Estrela D´alva:
O nosso boi não tem ouro na madeira
Mas nós temos dinheiro que o nosso prefeito arrumou
Com o dinheiro eu compra prata enfeito ele
E ainda compro alguma coisa de valor
Olha o chapéu dos bailantes com fitas avoando
As sandálias nas candeias se for brilhantes
Alumeia
 
O Bairro da Palha é uma espécie de centro irradiador de cultura no município. A professora Lúcia Baena narra que o logradouro abriga artistas plásticos, compositores, cantores, carpinteiros, estilistas, costureiras, bordadeiras, quadrilhas juninas, blocos de carnaval, carimbós, umbanda e artesões.  
Os cordões de pássaros tiveram o mesmo destino dos bumbás. Os (as) alunos (as) contam que Bacurau, Surucuá e Japiim existiram até uns anos atrás. Todos tocados por mulheres. Os cordões existem somente no Pará. É um folguedo típico da Amazônia. A professora Maria Irani Ferreira Serra era a pessoa responsável pelo Surucuá; Margarida Palheta animou o pássaro Japiim, enquanto a também professora Benedita Luz colocava nas ruas o Bacurau. No caso do carimbó, o grupo Canto do Guará foi o mais citado, e encontra-se em plena atividade. Ele sempre é convidado para participar de feira agropecuária no município de Castanhal e de atividades no próprio município.  
Além do mestre Neco, completam a constelação de artistas populares de Bujaru Ambrosio Correa, que executava Flauta, Antonio Carlos Bezerra (Tonhão) violonista e Zé Holanda, que toca cavaquinho. Os experimentados artistas além de ocuparem lugar de protagonismo na cultura popular, foram formadores de jovens músicos, como no caso do Zé Holanda. Raimundo Soares e Haroldo Reis são os cantores mais conhecidos de Bujaru. Reis é popular como cantor de bailes da saudade em Belém. Hugo Reis (Bigasbalde), irmão de Haroldo, integra o coletivo dos cantores populares. Nativos é uma banda que existe há uns três anos. O grupo executa uma variedade de ritmos.     
Na literatura existem as irmãs poetisas Lindarlene e Lindadarle Farias. Além de poesia Lindalerne é conhecida por compor sambas para o bloco carnavalesco Caldeirão da Alegria, que existe desde a década de 1990. As professoras Oda Bernardo, Benedita Luz e Iracema Heitor assinam o hino de Bujaru.
Cultura em Bujaru - Dias de hoje – Os blocos de sujo do carnaval não existem mais. Os discentes do curso avaliam que a falta de apoio público colaborou para a extinção dos mesmos. Nas manifestações havia batucada, letras e o canto, e o abadá ainda não predominava na paisagem. No lugar dos antigos blocos surgiram: Caldeirão, Vermelhinho e Palha Não Há. A participação é permitida mediante a aquisição do abadá.  Um trio elétrico com músicos garante o arrastão. As composições de autores locais são cantadas no trio. Os participantes da oficina esclarecem que os blocos de carnaval surgiram a partir de antigas escolas de samba.   
Na construção do Mapa das Artes de Bujaru a quadra junina é outro expoente. As quadrilhas configuram a principal atração, despontam neste campo: Forró da Alegria, Maluquinha e o Cheiro do Pará.
As irmandades religiosas estão expressas a partir das agremiações do Divino Espírito Santo e Santíssima Trindade, ambas da comunidade de Ponta de Terra; São Sebastião, oriunda de Bacuri. Na primeira sede do município, Santana, ocorre uma série de festividades no final de julho. A comunidade abriga a primeira igreja do município. E em setembro festeja o açaí.
Bom Intento e Quizomba são as expressões locais nas artes cênicas e fazem referência à cultura africana. O Bom Intento é uma localidade remanescente de quilombolas. Uma antiga fazenda de cana de açúcar. O grupo de teatro que existe há mais de duas décadas, e sofre dificuldades para a garantia de sua manutenção. O Quizomba é fruto de uma dissidência do Bom Intento. Raimundo Chermont é o principal animador do teatro do Bom Intento, já Rogério Lino é do Quizomba. Chermont também é artista plástico.  
A juventude evangélica de diversos segmentos organizou o Hip Hop Unidade Cristã. A atividade engatinha os primeiros passos. Os participantes da municipalização da EGPA informam que a cidade abrigou uma oficina sobre o assunto organizada pelo IAP (Instituto de Artes do Pará).   
No artesanato despontam a arte em cipó (timbuaçu, guarumã).  Abano, tipiti, peneiras, paneiros, vassouras, rasa de açaí (cesta), tupé (espécie de tapete) são alguns produtos de origem das comunidades ribeirinhas.
Há doze anos o Torneio Náutico e Trilha Ecológica, antigo torneio de jet-ski e canoagem é realizado pela Ação Social da prefeitura. O evento é realizado no cais de arrimo, em frente à cidade. E, ainda, a primeira Trilha Ecológica será realizada na comunidade Bom Intento.
O município possui biblioteca pública. Na comunicação e entretenimento o Itamarati foi a primeira aparelhagem de som, e existe há pelo menos cinquenta anos. Dulcídio Geraldo de Sousa foi o empreendedor. Nos dias atuais a aparelhagem tornou-se Itamarati Publicidade, e tem como proprietário Ducival Sampaio, que herdou a atividade do pai, Sousa. A aparelhagem ganhou o nome DuckSom. Outro recurso usado na comunicação é o carro de som, além de faixas e outdoor.
Não há teatro em Bujaru. As praças são utilizadas para eventos, como o Pará Paidégua, uma espécie de feira cultural, organizada pela Secretaria de Cultura. Grupos evangélicos  e de teatro também costumam usar o espaço. A Praça das Bandeiras é a principal da cidade. Trata-se do antigo cemitério. 
Benzedeiras – Gertrudes Macedo, Iolanda, Tibúrcio, Dona Dudu (falecida).  Criança com quebranto mofina, sapinho na boca, mal olhado. Terço, arruda molhada na água, catinga de mulata, hortelãzinho, chá de erva doce, reza. Ainda hoje é comum as mães levarem as crianças para serem benzidas.    
Artistas plásticos – Raimundo Chermont, Rosivan Baena, Richard Farias, Gileno Farias e Ítalo Holanda são alguns artistas da cidade na cena de artes plásticas.  
Parteiras – Dona Zezé (falecida), Dona Clara, Dona Coló (falecida), Creuza Santos, Dona Antonia Cordeiro, Manolita Gomes, Maria Acionila, Eva Belém, Faustina Abreu, Bertolina Alves. Em todo o município são perto de quarenta mulheres que realizam o parto assistido.
Igarapés - Mariahi, ramal do km 25, Igarapé no km 12, Melou Lavou, na comunidade castanheiro, Bom Intento, São José (Buraco Fundo), na cidade, Pandeiro, no km 20 formam a constelação de igarapés que movimentam o fim de semana em Bujaru. 
Considerações -
Em síntese, é possível sinalizar que o município de Bujaru abriga uma potencialidade de apelo cultural e ambiental ainda pouco explorada, e que necessita de uma política pública de valorização e profissionalização dos diversos grupos que integram o cenário cultural do município, e que tal política possa colaborar tanto para provocar um processo de reconhecimento e valorização; quanto para a melhoria da qualidade das populações, e pessoas que protagonizam grupos e iniciativas nos dois setores (públicos e privados).
Os trabalhos realizados em grupo indicam que as principais manifestações do município são: Festa de São Joaquim, Marcha para Jesus, celebrada em julho; Carnaval, Festa do Produtor Rural e os  festivais Culturais Comunitários, que ocorrem durante todo o ano.
Nas diversas atividades visualiza-se como apoiadores a prefeitura, comércio e pessoas físicas, a partir de recursos monetários, gasolina, condução, deslocamento para a capital e  alimentação.  
Uma possibilidade para se otimizar as potencialidades do campo de cultura, pode ser a construção de um núcleo de cultura, que dialogue com os acúmulos já existentes e registrados nas conferências municipais de cultura.  Os trabalhos em sala indicaram algumas pistas, que seguem abaixo.    
Núcleo de Cultura
Composição – secretaria municipal de cultura e outras afins, como a de educação e a secretaria de meio ambiente, artistas e mestres da cultura popular, quadrilhas juninas, blocos de carnaval, grupos de teatro, grupos de dança, etc.  
Apresentação - O núcleo de cultura de Bujaru a partir do Mapa das Artes tem por finalidade reunir, organizar e orientar as diversas manifestações culturais no município de Bujaru.  
Missão – Fomentar a cultura no município de Bujaru.
Objetivos
Geral – Fomentar a cultura em Bujaru
Específicos
i)                    Qualificação técnica e artística;
ii)                  Qualificação para captação de recursos
 
Prioridades e metas –
i)                    Qualificação técnica e artística;
ii)                  Montar uma equipe para captação de recursos, que realizar um levantamento sobre os principais editais nacionais e estaduais do setor da cultura;
iii)                Promover uma parceria com instituições da União e Estado (Minc, IAP, Centur).


[1] O presente documento resulta de uma oficina sobre gestão cultural promovida pela politica de municipalização da Escola de Governo do Pará (EGPA) entre 09 a 14 de setembro no município de Bujaru. A escola estadual Don Mário Miranda Vilas Boas abrigou o evento, coordenado pelo assessor da EGPA, Cleodon Gondim. Relação dos discentes: Anne do Socorro Santos, Bruno Batista (Mestre Neco), Elizabeth Valadares, Francyanne Maciel Chaves, Graça Trindade do Carmo, Joel Marques, Lucilene Corrêa Natividade, Marcilene Campos  Piedade, Maria Benedita de Farias, Maria de Lourdes Silva Souza, Maria do Socorro Reis, Maria Lenilda Fonseca, Raimunda Nonata de Abreu, Renata Alves, Rosalina Faro Lobessa, Thatiana Santos da Silva, Jacirene Silva Santos, João Evangelista Cunha, Lucimar Castro Correa, Maria Lúcia Baena, Marinalda Gomes Meneses, Raimunda Ribeiro Souza, Raimundo Chermotn Ferreira, Renata Oliveira Alves, Rosilene do Socorro Cunha, Silvana da Silva Cruz, Tatiani Conceição Maciel, Wanderléia do Socorro de Araújo, Zena Lima dos Santos.