domingo, 27 de outubro de 2013

Ismael Machado - Jornalista paraense abocanha prêmios nacionais e regionais

Há 22 anos na estrada Machado venceu o Líbero Badaró e Vladmir Herzog, e concorre no Esso  e Abdias Nascimento

Há 22 anos Ismael Machado iniciou a carreira no Diário da Serra, jornal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Em Belém passou pelos principais jornais, Província do Pará, O Liberal, e pelejou em assessorias. Já foi correspondente de O Globo e do glorioso JB. Entre os frilas constam as publicações Veja, Bravo e Caros Amigos. Também passou por TV em Rondônia e Cultura em Belém. Em 2013 abocanhou prêmios regionais e vários nacionais (Líbero Badaró e Vladmir Herzog), e é indicado entre os três concorrentes para outros, entre eles, Abdias Nascimento e Esso.  O novo livro aborda a ditadura na Amazônia, foi laureado com o Prêmio Euclides “Chembra” Bandeira, na categoria livro reportagem. Graduado em Turismo, com mestrado em literatura, Machado é repórter especial do jornal do senador Jader Barbalho, o Diário do Pará, que recentemente enfrentou uma greve histórica, e já iniciou a caça às bruxas com algumas demissões. Como os experimentados jornalistas, defende que o principal é sujar os sapatos na estrada. No terceiro casamento Machado é pai de dois filhos. O mais velho cursa jornalismo em Vitória, Espírito Santo. Nesta entrevista ele argumenta sobre o diploma de jornalismo e avalia os prêmios que tem recebido.      
Furo - Quem é Ismael Machado?
Ismael Machado - Nasci em Icoaraci. Comecei a trabalhar em 1991, em dezembro, um dia depois do meu aniversário, no jornal Diário da Serra, em Campo Grande (MS). Passei por todas as editorias possíveis lá, um grande aprendizado. Sou mestre em Literatura, com MBA em Comunicação e Semiótica e Bacharelado em Turismo, além de especialização em Metodologia da Comunicação e Aperfeiçoamento em Jornalismo.
Já trabalhei em jornais como O Alto Madeira (RO), Província do Pará (PA), O Liberal. Fui correspondente do Jornal do Brasil e de O Globo. Fui repórter de TV em Rondônia e na TV Cultura, em Belém. Fiz diversos trabalhos de assessoria de comunicação, e muitos frilas (Folha, Veja, Bravo, Caros Amigos etc).
Furo – Quais as principais influências?
IM - Influências são diversas. Nem tudo no campo do jornalismo. Ana Maria Bahiana, Caio Fernando Abreu, Carlos Heitor Cony, Eliane Brum, Ricardo Kotscho, Lázaro Magalhães, Paulo Silber, o novo jornalismo etc, tudo são influências profissionais.
Furo -  O que é a Amazônia para o profissional Ismael?
IM - O melhor local para um profissional da reportagem estar.
Furo - Como você chegou ao O Globo?
IM - Durante o julgamento de Eldorado dos Carajás, cobri para o Liberal e para o Jornal do Brasil, concorrente do Globo. Dois anos depois, creio que o repórter Rodrigo Taves, enviado a Belém para cobrir o julgamento pelo Globo, deve ter me indicado ou sugerido o nome. Numa tarde recebi um telefonema me propondo fazer matérias para o jornal. Isso foi em 2001. Fiquei no Globo até 2007.
Furo - Líbero Badaró, Herzog (duas vezes), Esso, Abdias Nascimento, IAP, indicação para o da Fiepa, tudo numa lapada, o que significa para você esse reconhecimento?
IM - Esso e Abdias são indicações como finalista. Não sei se ganharei. Mas de qualquer forma estar entre os finalistas já é um baita resultado. A leitura que faço é que o trabalho desenvolvido está no caminho certo. A minha aposta é sempre no texto solto, livre de amarras, buscando a influência do Jornalismo Literário. E na tentativa de construção de boas histórias. Acho que isso tem obtido um retorno positivo. Nesse sentido me parece que estou conseguindo um amadurecimento textual interessante, conseguindo dizer exatamente o que planejei na apuração.
Furo - Machado já sabe o que fazer com esse capital simbólico?
IM - Não. De certa forma, em muitos aspectos não tenho muita noção da ‘ficha caída’, o que isso representa. No fundo também, o que se tem que ter é pé no chão. Não se achar melhor do que se é, nem pior do que podem achar.
Furo – Essa “bamburação” de prêmios é uma iniciativa pessoal ou da empresa?
IM - É uma iniciativa pessoal, no sentido de que, muitas vezes, a empresa nem sabe em quais prêmios inscrevi matérias. Mas ao mesmo tempo, não se pode esquecer que o resultado dessas premiações é conseqüência da abertura dada pelo Diário do Pará na ‘compra’, digamos assim, das ideias de pauta. Todos sabemos que fazer reportagens na Amazônia não é nada fácil. Custa caro, é complicado. O Diário abraça essas ideias, compra a briga. E depois, tem ousadia suficiente para fazer páginas diferenciadas, de ampliar as reportagens em séries, de usar espaços amplos. Em resumo: se o processo inicial é quase solitário (pensar as pautas, produzi-las e apurar) o que vem depois é um trabalho bem feito de diagramação e de edição. Nesse ponto, por exemplo, a interação com os fotógrafos é total e o trabalho de editores como Lázaro Magalhães, a edição de fotografia, o trabalho do ‘artista’ (gosto de chamá-lo assim) Alvarenga, na arte, enfim, tudo o que vem depois da matéria escrita, é um alicerce precioso para que haja interação total no produto final. O Diário possibilita experimentações, ousadias gráficas, grandes reportagens. E isso é uma postura editorial, vale ressaltar. Todos os repórteres têm essa abertura, essa possibilidade de arriscar voos maiores em termos de reportagem.
Furo– O livro reportagem do Prêmio IAP agrupa que matérias?
IM - Na verdade é uma releitura única de tudo o que armazenei a respeito do período da ditadura militar no Pará. Peguei todas as reportagens feitas nesse sentido até aqui e fiz uma costura, transformando tudo numa grande reportagem.
Furo – Quanto ao diploma para exercer a profissão, você tem uma opinião formada?
IM - Eu não concluí o curso de Jornalismo. Pergunte ao Collor o motivo (heheheh), portanto sou plenamente a favor da formação aberta, ampla. E do talento e vocação. Na verdade, com exceção das formações mais especificas, como medicina, engenharias etc, penso que o mundo de hoje não pode mais ser estanque. Vejo isso na academia, esse engessamento, essa limitação de possibilidades. Os historiadores rejeitam jornalistas fazendo o trabalho de historiadores, os jornalistas não querem que formados em Letras exerçam a função. Não gosto muito desse universo fechado. Quando fui fazer o meu primeiro teste numa redação, havia abandonado no último ano o curso de Psicologia. Numa entrevista de emprego a responsável pelo teste disse que eu estava no lugar errado e me indicou para um amigo, editor de Economia do Diário da Serra. Fiz o teste junto com uma recém-formada em Jornalismo. Ele me disse depois que minha materinha havia sido muito superior a dela. Sei que quando entrei a primeira vez numa redação, descobri ser ali o meu lugar. E aqui estou até hoje

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Floresta em pé – quilombolas incrementam produção de açaí



Manejo da cultura garante segurança alimentar e renda

A Amazônia é um mundo de águas. No Porto da Palha em Belém, um canto dele, o rio Guamá se impõe. O chão é tomado de folhas de bananeiras e cestos de açaí enfeitam o cenário. O local é um dos pontos de venda do produto mais consumido na capital do Pará. Conforme o dia avança mais barcos chegam carregados do fruto em ‘basquetas’, caixote pesado de plástico, similar a um engradado.

O porto é pequeno para a quantidade de barcos, rabetas e canoas que atracam ali. Quem chega cedo consegue ancorar a embarcação próximo da ponte de madeira para descarregar os produtos e o desembarque dos ribeirinhos, moradores das comunidades próximas ao longo do rio. Há uma variedade de embarcações de diferentes tamanhos que configuram a paisagem do local, repleto de lixo. 

Na outra margem do rio distante dali, existe uma comunidades que luta por sua sobrevivência. Na data que se comemora o dia Internacional de Combate à Pobreza (17), a Comunidade Quilombola do Espirito Santo dá exemplo que com a manutenção da floresta em pé se consegue o direito à segurança alimentar, apesar da ausência de políticas públicas. Na comunidade não há saneamento básico, água potável e energia elétrica.

Espirito Santo

Localizada na zona rural do município de Acará, a região é conhecida como Baixo Acará. No território moram em torno de 19 famílias em uma área de 167 hectares. O acesso a comunidade pode ser tanto via fluvial e terrestre. De barco a viagem dura cerca de uma a duas horas até a comunidade quilombola de Itacoã, após isso mais 5 quilômetros por estrada de chão batido. Espírito Santo fica a 130 Km distante da cidade do Acará.  indo pela Alça Viária a comunidade fica no Km 24.

Mesmo enfrentado dificuldades com a ausência de políticas públicas a Associação de Moradores e Agricultores da Comunidade Quilombola do Espírito Santo conseguiu executar o projeto de Manejo de Açaí Autossustentável Coletivo Consorciado, com o apoio da Malungu – Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará – e do Fundo Dema.

O fundo é resultado de um processo bem sucedido entre Ministério Público, governo brasileiro e Sociedade Civil Organizada. Criado para fortalecer e apoiar projetos de movimentos sociais, associações e comunidades para atender aos povos da floresta. Este ano o Fundo Dema completa 10 anos de luta e resistência por justiça ambiental na Amazônia.

A presença do negro no Pará se registra no clássico o livro, O negro no Pará, do autor paraense Vicente Salles, importante obra de revisão em documentos oficiais e jornalísticos datados dos séculos XVII a XIX. A região Guajarina, onde se localiza a comunidade do Espirito Santo, teve grande concentração de mocambos ao longo dos Rios Moju, Capim e Acará.

Os dados apresentados pela Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) durante o III Encontro dos Quilombolas do Pará informam que estado do Pará lidera o ranking nacional na titulação de territórios quilombolas. Das 193 comunidades quilombolas de todo o Brasil que já receberam títulos de propriedades da terra, 118 estão no Pará até agosto deste ano, ou seja, mais de 60%. O Fundo Dema contribuiu para se chegar a esse número. Em 2010 a Malungu lançou a Campanha pela Legalização dos Territórios Quilombolas com o apoio do fundo. Entre os anos de 2010 e 2012 receberam títulos de terras 11 comunidades. Até outubro deste ano já foram 8  áreas tituladas e legalizadas.

O numero apresentado tende aumentar. A comunidade do Espirito Santo ainda não recebeu a titulação do território, prevista para próximo mês. A titulação das terras quilombolas garante o direito ao trabalho, a preservação de seus costumes e a cultura, além de garantir segurança alimentar as populações tradicionais. A insegurança alimentar está diretamente ligada com a situação de conflito e exclusão do homem no campo.

Carvão

Antes do projeto a principal atividade de sobrevivência das famílias era o plantio da mandioca e queima da madeira para a produção de carvão. É o que conta Paulo Araújo, morador da comunidade e atual Diretor do Departamento de Promoção da Igualdade Racial do município. “O carvão predominava na comunidade, a maioria das famílias mantinham sua famílias da venda do carvão, duas não realizavam a atividade que era o meu caso. Pra nós era um martírio ver as pessoas nessa atividade, além de afetar a natureza é desumana a condição de trabalho no qual o agricultor se encontrava”.

Sem recursos para investir no manejo do açaí eles não tinham condições para comprar os equipamentos necessários para realizar a manutenção e a limpeza da área do plantio. O projeto transformou  ambientalmente e socialmente a realidade da comunidade. Promoveu o manejo sustentável, baseado em práticas agroecológicas, ou seja, na manutenção e preservação da floresta em pé, sem uso de agrotóxicos ou práticas danosas ao solo, contribuindo assim para a redução do desmatamento e por consequência a recuperando de áreas degradadas.

Resultados

Após três anos a avaliação sobre a iniciativa é positiva. “A gente percebe nas nossas próprias crianças elas estão mais alegres, tem mais vigor”, destaca Paulo. O projeto foi iniciado em 2010 e alcançou o objetivo, garantir segurança alimentar e aumento na renda dos quilombolas contribuindo para uma melhor qualidade de vida dos moradores. 

Apesar da grande maioria das famílias na comunidade não dependerem mais da produção do carvão, ao longo da estrada ainda se podia ver alguns moradores, que residem fora da comunidade, realizando o desmate e queima da floresta para a produção do carvão.

Com o projeto, além de proporcionar a compra dos equipamentos, foi possível construir um barracão para que a comunidade pudesse se reunir de forma mais digna. De acordo com o presidente da Associação de Moradores e Agricultores Quilombolas da Comunidade do Espírito Santo, Maciel Seabra, durante a construção do espaço todos se uniram, homens e mulheres, idosos e crianças. Atualmente o barracão abriga a escola de alfabetização dos meninos e meninas do Espírito Santo.

O fortalecimento dos laços é um dos resultados conquistados.  Com o aumento da renda da produção do açaí algumas famílias puderam construir casas de alvenaria. Maciel compara a média de produção do fruto com a quantidade de latas de açaí. A comunidade produzia o açaí, mas não de forma intensiva. Ele conta que antes o barco da associação levava uma média de dez a quinze latas por semana, após a execução do projeto houveram viagens em que se levou cerca de 100 a 118 latas de açaí para vender no Porto da Palha.

Mas para a senhora Maria José Brito, mais conhecida como Leda, o maior benefício foi o agricultor do Espírito Santo perceber o valor do trabalho que realiza, e conclui. Houve uma mudança de paisagem muito boa, um resgate maior do nosso enxergar, de que a zona rural é o nosso lugar. A gente pode fazer disso aqui algo que seja perfeito para morar e criar nossos filhos, enviá-los para estudar e que depois eles entendam que aqui é o local deles viverem, produzirem e trabalharem em prol dessa comunidade”. 

 

 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Carajás - 30 anos depois

Especialistas e populações atingidas pelos grandes projetos realizam seminários no PA e MA. Um grande encontro será realizado em 2014

O Programa Grande Carajás tem provocado grandes impactos sociais e ambientais, desde sua criação até os dias de hoje. Transformou a realidade de vários municípios no Pará e no Maranhão e tem mobilizado milhares de pessoas na resistência e contestação da sua lógica.
Uma ampla rede de movimentos sociais e comunitários, sindicatos e pastorais do Maranhão e Pará, além de programas de pós-graduação e grupos de pesquisa de universidades desses dois estados em colaboração com várias entidades de outras regiões do país e do mundo, organizam em 2014 o

Seminário Internacional "Carajás 30 anos: resistências e mobilizações frente a projetos de desenvolvimento na Amazônia Oriental"
O objetivo do seminário é avaliar criticamente os 30 anos do Programa Grande Carajás e, a partir do tema central do ‘desenvolvimento’, discutir suas consequências sociais, ambientais, econômicas e culturais. .
Na

terça-feira, 08 de outubro, acontecerão simultaneamente dois lançamentos do seminário nas cidades de São Luís e Belém. O seminário é organizado por um conjunto de instituições do campo popular e universidades do Pará e do Maranhão. O evento tem também o propósito de dar continuidade ao "Seminário Consulta Carajás", realizado pelos movimentos sociais da região entre 1992 e 1995.
O Seminário "Carajás 30 anos" é um processo amplo, que terá seminários preparatórios em

Imperatriz (16 a 18 de outubro, 2013), Marabá (14,15 e 16 de março de 2014), Santa Inês (21 e 22 de março de 2014) e Belém (5 a 8 de abril de 2014) e que culminará em um evento com duração de quatro dias, a ser realizado na Universidade Federal do Maranhão, em São Luís, em maio de 2014. Contará com a participação de assessores e especialistas no setor, bem como do testemunho de lideranças comunitárias e dos movimentos socioambientais do Brasil, de outros países da América Latina e da África.
Nesse próximo dia 8, com as atividades de lançamento, a organização do seminário pretende reunir a imprensa, pesquisadores, estudantes, professores e comunidades diretamente envolvidos ou interessados na temática do evento.
Local:
Belém: CNBB, 9 horas. Tv. Barão Triunfo 3151. 09 horas
 
Contatos Belém: Dion 82651479; Guilherme: 99617427; Marcel: 88505838
e-mail: seminariocarajas30anosbelem@gmail.com
São Luis: Universidade Federal do Maranhão - Centro de Ciências Sociais, Bloco E, 3º Piso, Auditório I – 9 horas.
Contatos São Luis: Padre Dario - (99) 8112.8913

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

BUJARU – entre quilombolas, engenhos e carnavais

As amazônias do Brasil são várias. Vasto mundo de gentes e conhecimentos milenares de matrizes indígena e negra. Gentes que serpenteiam entre furos, igarapés e rios, a fundar e refundar sons, batuques, lendas, histórias, saberes, sabores e trilhas. No Pará, segundo estado em extensão territorial do país, uma diversidade de povos e conhecimentos ainda flutua, em certa medida, oculta das praças formais do conhecimento, por ignorância ou preconceito.
Em Bujaru (boca da cobra grande), cidade da região metropolitana de Belém, nordeste paraense ou região Guajarina, aproximadamente 73 quilômetros da capital, é um exemplo. Curuperé, Cravo, João, Pirapoca  e Cravo alguns dos igarapés do rio Bujaru, um dos afluente do Guamá., vizinho do rio Capim A Amazônia é um mundo de rios. Rios de águas e gentes. No mundo de águas da cidade, o rio Guamá impera.
O mundo de águas do Guamá é um mundo de gentes, 25 mil pessoas é a população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), boa parte de origem negra e nordestina. A PA 140 é a principal via de acesso ao município, que mantém uma relação muito próxima com Concórdia do Pará e Santa Isabel, cidades vizinhas. O rio Guamá separa Santa Isabel de Bujaru.

A travessia de balsa dura menos de trinta minutos. No cais o comércio de bebidas, lanche e café socorrem os viajantes, que possuem a opção de dois modestos hotéis. Peixe seco e fresco são negociados a partir das seis da manhã na beira do rio, quando as portas do comércio abrem. Rabetas e lanchas movimentam o trapiche da cidade, a deslocar os estudantes, moradores e comerciantes. Pescadores em canoas sem motor arriscam apanhar uma gurijuba, pescada ou dourada. Açaizais sacodem ao vento em quintais das casas, algumas de madeira. Os quintais estão repletos de árvores frutíferas, como mangueira, jambo e bacaba.
 
Vicente Salles conta que no vale do rio Guamá predominou no século XVIII e XIX  uma economia de monocultura de cana de açúcar, cacau e algodão, além da criação de gado e  engenhos, baseada em mão de obra escrava. A cana de açúcar predominou nos rios Acará, Capim, Mojú, Igarapé Miri, enquanto em Bujaru a cultura do cacau tinha a hegemonia. É possível ainda hoje encontrar estruturas físicas dos antigos engenhos em inúmeras localidades em Bujaru, a exemplo de: Bom Intento, Guajará Mirim, Conceição, Engenhoca, Mocajuba e São Judas.
Terras de Sesmarias e de posseiros conformaram a feição territorial de Bujaru no período de 1724 a 1824. Portugueses provenientes dos Açores eram os principais interessados nas terras à beira dos rios. A decadência da economia escravocrata inicia nos anos finais do século XIX, quando as fugas ganham volume. No século XVIII, período pombalino, os escravos chegaram a representar 54% da população, conforme pesquisa da professora Edna Castro. A partir das fugas organizaram mocambos na região, onde cultivavam a agricultura em pequena escala, com ênfase na produção de mandioca e hortaliças nas vazantes dos rios. Nos dias atuais a pressão sobre as terras tem sido exercida pela monocultura do dendê, ativada pela empresa BioVale, com incentivos federais.  
Divino Espírito Santo, Carimbó, Cordões de Pássaros e Boi Bumba são algumas das manifestações oriundas das localidades rurais, assim como as lendas. Um monte delas, como a dos “Pretinhos da Pororoca”. Conforme moradores, três pretinhos seriam os responsáveis pela onda avassaladora. Sobre o mesmo assunto é recorrente lembrar que o Padre Basílio Bossio, da Paróquia de São Joaquim teria levantado o braço e jogado água benta no rio da comunidade de Icurapá, para impedir a pororoca. Desde então o fenômeno nunca mais foi o mesmo.  
Além do atrativo de origem histórica e cultural, o local configura-se uma possibilidade de investimento em turismo, onde podem ser incentivadas, entre outras práticas, as trilhas ecológicas e a canoagem. Conforme informações dos discentes que fizeram parte do curso da EGPA, pode-se afirmar que no mapa das artes bujaruense há o predomínio de manifestações de origem cristã, a exemplo da celebração do santo padroeiro, São Joaquim, Círio, celebrado a cada primeiro domingo de dezembro, Natal e a Marcha da Fé, em julho. No caso de São Joaquim ocorre uma grande mobilização no mês de agosto, que tem como desdobramentos a realização de bingos, leilões, auto e folias.
A partir do universo rural ocorrem celebrações em inúmeras comunidades e em escolas da sede do município. Neste segmento, vários festivais são realizados, entre eles: o da mandioca (Escola Izolina Reis), maracujá (Escola Maria José), tucupi (Escola Cantinho do Saber) e coco (escola don Angêlo Frosi) e do açaí (Igreja Jericó- Ipixuna). É possível sinalizar que ocorre uma convergência em diferentes dimensões, onde comungam homem, natureza e cultura. Neste cenário cultural há o envolvimento de uma gama de instituições do poder público municipal e estadual, entres as quais é possível indicar: as secretarias de educação, cultura e meio ambiente; e a Empresa de Assistência Técnica Rural (Emater), o comércio da localidade e pessoas simpáticas às manifestações.
Pássaros e Boi Bumbá existem desde o século passado no município de Bujaru. Bruno dos Santos Batista, conhecido como mestre Neco, é cantador e poeta de boi bumbá, cordões de pássaros e sambas. Ele explica que desde os anos 1960 há registro do folguedo em Bujaru. O mestre conta que Brilha Noite foi o primeiro boi. Além do mestre Neco ajudaram a animar a brincadeira, Manoel Roque, Joaquim Gomes da Silva (Marreta).
Por conta de alterações das pessoas na direção da brincadeira, ocorreu a mudança de nome de Brilha Noite para Estrela D´alva. Conforme informações dos participantes da oficina, as manifestações não existem desde ano passado. Neco rememora que a maioria das manifestações possui como seio o Bairro da Palha, estigmatizado pelo fato de ser um bairro de periferia, habitado por pessoas negras e carentes. Palha é um dos primeiros bairros da cidade.  
Mestre Neco recorda que uma das canções da brincadeira conta o seguinte:
 
Menina varre o terreiro
Mestre Neco –

Menina varre o terreiro
Que o Brilha Noite Chegou
Jogando terra no lombo
Sem achar pastorador
 
Já a poesia do Estrela D´alva, assinada por Marreta, que trata da despedida do boi, proclama:
Canção do Estrela D´alva
Joaquim Gomes (Marreta)
 
Adeus morena
Peço que não vá chorar
Que o Estrela D´alva já vai se arretirar
Se eu não morrer neste grande bombardeio
Para o ano
Nós há de voltar
 
A professora Jacirene do Socorro Silva dos Santos, filha do artista Marreta, explica que a maioria das canções das brincadeiras era assinada pelo pai, Maria Pedrina (Peda), Neco e Carlos Batista (Seu Carroça), pai do mestre Neco.   
Peda assina a seguinte música do Estrela D´alva:
O nosso boi não tem ouro na madeira
Mas nós temos dinheiro que o nosso prefeito arrumou
Com o dinheiro eu compra prata enfeito ele
E ainda compro alguma coisa de valor
Olha o chapéu dos bailantes com fitas avoando
As sandálias nas candeias se for brilhantes
Alumeia
 
O Bairro da Palha é uma espécie de centro irradiador de cultura no município. A professora Lúcia Baena narra que o logradouro abriga artistas plásticos, compositores, cantores, carpinteiros, estilistas, costureiras, bordadeiras, quadrilhas juninas, blocos de carnaval, carimbós, umbanda e artesões.  
Os cordões de pássaros tiveram o mesmo destino dos bumbás. Os (as) alunos (as) contam que Bacurau, Surucuá e Japiim existiram até uns anos atrás. Todos tocados por mulheres. Os cordões existem somente no Pará. É um folguedo típico da Amazônia. A professora Maria Irani Ferreira Serra era a pessoa responsável pelo Surucuá; Margarida Palheta animou o pássaro Japiim, enquanto a também professora Benedita Luz colocava nas ruas o Bacurau. No caso do carimbó, o grupo Canto do Guará foi o mais citado, e encontra-se em plena atividade. Ele sempre é convidado para participar de feira agropecuária no município de Castanhal e de atividades no próprio município.  
Além do mestre Neco, completam a constelação de artistas populares de Bujaru Ambrosio Correa, que executava Flauta, Antonio Carlos Bezerra (Tonhão) violonista e Zé Holanda, que toca cavaquinho. Os experimentados artistas além de ocuparem lugar de protagonismo na cultura popular, foram formadores de jovens músicos, como no caso do Zé Holanda. Raimundo Soares e Haroldo Reis são os cantores mais conhecidos de Bujaru. Reis é popular como cantor de bailes da saudade em Belém. Hugo Reis (Bigasbalde), irmão de Haroldo, integra o coletivo dos cantores populares. Nativos é uma banda que existe há uns três anos. O grupo executa uma variedade de ritmos.     
Na literatura existem as irmãs poetisas Lindarlene e Lindadarle Farias. Além de poesia Lindalerne é conhecida por compor sambas para o bloco carnavalesco Caldeirão da Alegria, que existe desde a década de 1990. As professoras Oda Bernardo, Benedita Luz e Iracema Heitor assinam o hino de Bujaru.
Cultura em Bujaru - Dias de hoje – Os blocos de sujo do carnaval não existem mais. Os discentes do curso avaliam que a falta de apoio público colaborou para a extinção dos mesmos. Nas manifestações havia batucada, letras e o canto, e o abadá ainda não predominava na paisagem. No lugar dos antigos blocos surgiram: Caldeirão, Vermelhinho e Palha Não Há. A participação é permitida mediante a aquisição do abadá.  Um trio elétrico com músicos garante o arrastão. As composições de autores locais são cantadas no trio. Os participantes da oficina esclarecem que os blocos de carnaval surgiram a partir de antigas escolas de samba.   
Na construção do Mapa das Artes de Bujaru a quadra junina é outro expoente. As quadrilhas configuram a principal atração, despontam neste campo: Forró da Alegria, Maluquinha e o Cheiro do Pará.
As irmandades religiosas estão expressas a partir das agremiações do Divino Espírito Santo e Santíssima Trindade, ambas da comunidade de Ponta de Terra; São Sebastião, oriunda de Bacuri. Na primeira sede do município, Santana, ocorre uma série de festividades no final de julho. A comunidade abriga a primeira igreja do município. E em setembro festeja o açaí.
Bom Intento e Quizomba são as expressões locais nas artes cênicas e fazem referência à cultura africana. O Bom Intento é uma localidade remanescente de quilombolas. Uma antiga fazenda de cana de açúcar. O grupo de teatro que existe há mais de duas décadas, e sofre dificuldades para a garantia de sua manutenção. O Quizomba é fruto de uma dissidência do Bom Intento. Raimundo Chermont é o principal animador do teatro do Bom Intento, já Rogério Lino é do Quizomba. Chermont também é artista plástico.  
A juventude evangélica de diversos segmentos organizou o Hip Hop Unidade Cristã. A atividade engatinha os primeiros passos. Os participantes da municipalização da EGPA informam que a cidade abrigou uma oficina sobre o assunto organizada pelo IAP (Instituto de Artes do Pará).   
No artesanato despontam a arte em cipó (timbuaçu, guarumã).  Abano, tipiti, peneiras, paneiros, vassouras, rasa de açaí (cesta), tupé (espécie de tapete) são alguns produtos de origem das comunidades ribeirinhas.
Há doze anos o Torneio Náutico e Trilha Ecológica, antigo torneio de jet-ski e canoagem é realizado pela Ação Social da prefeitura. O evento é realizado no cais de arrimo, em frente à cidade. E, ainda, a primeira Trilha Ecológica será realizada na comunidade Bom Intento.
O município possui biblioteca pública. Na comunicação e entretenimento o Itamarati foi a primeira aparelhagem de som, e existe há pelo menos cinquenta anos. Dulcídio Geraldo de Sousa foi o empreendedor. Nos dias atuais a aparelhagem tornou-se Itamarati Publicidade, e tem como proprietário Ducival Sampaio, que herdou a atividade do pai, Sousa. A aparelhagem ganhou o nome DuckSom. Outro recurso usado na comunicação é o carro de som, além de faixas e outdoor.
Não há teatro em Bujaru. As praças são utilizadas para eventos, como o Pará Paidégua, uma espécie de feira cultural, organizada pela Secretaria de Cultura. Grupos evangélicos  e de teatro também costumam usar o espaço. A Praça das Bandeiras é a principal da cidade. Trata-se do antigo cemitério. 
Benzedeiras – Gertrudes Macedo, Iolanda, Tibúrcio, Dona Dudu (falecida).  Criança com quebranto mofina, sapinho na boca, mal olhado. Terço, arruda molhada na água, catinga de mulata, hortelãzinho, chá de erva doce, reza. Ainda hoje é comum as mães levarem as crianças para serem benzidas.    
Artistas plásticos – Raimundo Chermont, Rosivan Baena, Richard Farias, Gileno Farias e Ítalo Holanda são alguns artistas da cidade na cena de artes plásticas.  
Parteiras – Dona Zezé (falecida), Dona Clara, Dona Coló (falecida), Creuza Santos, Dona Antonia Cordeiro, Manolita Gomes, Maria Acionila, Eva Belém, Faustina Abreu, Bertolina Alves. Em todo o município são perto de quarenta mulheres que realizam o parto assistido.
Igarapés - Mariahi, ramal do km 25, Igarapé no km 12, Melou Lavou, na comunidade castanheiro, Bom Intento, São José (Buraco Fundo), na cidade, Pandeiro, no km 20 formam a constelação de igarapés que movimentam o fim de semana em Bujaru. 
Considerações -
Em síntese, é possível sinalizar que o município de Bujaru abriga uma potencialidade de apelo cultural e ambiental ainda pouco explorada, e que necessita de uma política pública de valorização e profissionalização dos diversos grupos que integram o cenário cultural do município, e que tal política possa colaborar tanto para provocar um processo de reconhecimento e valorização; quanto para a melhoria da qualidade das populações, e pessoas que protagonizam grupos e iniciativas nos dois setores (públicos e privados).
Os trabalhos realizados em grupo indicam que as principais manifestações do município são: Festa de São Joaquim, Marcha para Jesus, celebrada em julho; Carnaval, Festa do Produtor Rural e os  festivais Culturais Comunitários, que ocorrem durante todo o ano.
Nas diversas atividades visualiza-se como apoiadores a prefeitura, comércio e pessoas físicas, a partir de recursos monetários, gasolina, condução, deslocamento para a capital e  alimentação.  
Uma possibilidade para se otimizar as potencialidades do campo de cultura, pode ser a construção de um núcleo de cultura, que dialogue com os acúmulos já existentes e registrados nas conferências municipais de cultura.  Os trabalhos em sala indicaram algumas pistas, que seguem abaixo.    
Núcleo de Cultura
Composição – secretaria municipal de cultura e outras afins, como a de educação e a secretaria de meio ambiente, artistas e mestres da cultura popular, quadrilhas juninas, blocos de carnaval, grupos de teatro, grupos de dança, etc.  
Apresentação - O núcleo de cultura de Bujaru a partir do Mapa das Artes tem por finalidade reunir, organizar e orientar as diversas manifestações culturais no município de Bujaru.  
Missão – Fomentar a cultura no município de Bujaru.
Objetivos
Geral – Fomentar a cultura em Bujaru
Específicos
i)                    Qualificação técnica e artística;
ii)                  Qualificação para captação de recursos
 
Prioridades e metas –
i)                    Qualificação técnica e artística;
ii)                  Montar uma equipe para captação de recursos, que realizar um levantamento sobre os principais editais nacionais e estaduais do setor da cultura;
iii)                Promover uma parceria com instituições da União e Estado (Minc, IAP, Centur).


[1] O presente documento resulta de uma oficina sobre gestão cultural promovida pela politica de municipalização da Escola de Governo do Pará (EGPA) entre 09 a 14 de setembro no município de Bujaru. A escola estadual Don Mário Miranda Vilas Boas abrigou o evento, coordenado pelo assessor da EGPA, Cleodon Gondim. Relação dos discentes: Anne do Socorro Santos, Bruno Batista (Mestre Neco), Elizabeth Valadares, Francyanne Maciel Chaves, Graça Trindade do Carmo, Joel Marques, Lucilene Corrêa Natividade, Marcilene Campos  Piedade, Maria Benedita de Farias, Maria de Lourdes Silva Souza, Maria do Socorro Reis, Maria Lenilda Fonseca, Raimunda Nonata de Abreu, Renata Alves, Rosalina Faro Lobessa, Thatiana Santos da Silva, Jacirene Silva Santos, João Evangelista Cunha, Lucimar Castro Correa, Maria Lúcia Baena, Marinalda Gomes Meneses, Raimunda Ribeiro Souza, Raimundo Chermotn Ferreira, Renata Oliveira Alves, Rosilene do Socorro Cunha, Silvana da Silva Cruz, Tatiani Conceição Maciel, Wanderléia do Socorro de Araújo, Zena Lima dos Santos.       
 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Quilombos – PM aterroriza comunidade no Marajó e atira em moradores

Polícias militares e o capanga da fazenda São Joaquim, conhecido como Toca Boca Podre, atentaram contra a vida de quilombolas da comunidade Gurupá, no município de Cachoeira do Arari, no arquipélago do Marajó.
A tocaia foi comandada pelo capital Raulim e pelo menos cinco militares no último dia 10, por volta de meio dia, denuncia a Associação de Quilombolas do Rio Gurupá – ARQUIG.

Após insultar os remanescentes de quilombo de “filhos da puta”, quando os mesmos trafegavam no rio Gurupá, Raulim disparou contra Edinelson Corrêa Amador e Josiel Corrêa Amador, Gilberto Correa Amador, Alexandre Moraes Alexandrino e Jeferson Amador da Silva.

As balas detonaram com o motor da embarcação. O prejuízo estimado é de R$600,00. Os quilombolas foram socorridos por uma embarcação que se dirigia para a capital do estado, após a tentativa frustrada dos PM´s em afundar as embarcações.
 
Os quilombolas trafegavam em duas rabetas. A intenção dos militares era a detenção dos extrativistas que coletavam açaí.  
 
A coerção da PM e capangas de fazendas da região tem sido rotineira contra os quilombolas da comunidade de Gurupá. No mês passado, adolescentes foram detidos quando coletavam açaí.
 
No mesmo mês o ativista Lalor foi assassinado em Belém, quando participaria de um encontro em defesa das comunidades. A região experimenta ainda uma expansão da monocultura de arroz, que tende a pressionas territórios ancestrais.

A tensão entre fazendeiros da região e quilombolas é antiga. O grupo que sofreu o atentado teme em sofrer mais represálias da PM e de capangas. Por isso a ARQUIG encaminhou denúncia sobre os fatos para o Ministério Público Federal (MPF).  
 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Viagem a um quilombo no PA - Diário de Lilian Campelo

Lilian Campelo
 
Ao ler ou ouvir histórias de jornalistas que navegavam os rios da Amazônia ou se aventuravam pelas estradas empoeiradas e esburacas me transportava para o imaginário daquelas narrativas.
 
Ao sonhar acordada tentava criar cenas de como eu me comportaria em tal situação. Ter o tal feeling para saber se uma história poderia render uma boa matéria, criar fontes num local onde você não é conhecido tendo em mãos apenas o papel e a caneta.
 
Nesses lugares esquecidos é que eu queria mergulhar.
 
Moju. 13hs. Chego à rodoviária lotada e de lá vejo o rio que batiza a cidade. A alça viária arqueia o rio das cobras. Foi ela que apagou o tempo da travessia feita pelos barcos.
 
Ao descer do ônibus percebo que alguns olhares me acompanham. Queria passar despercebida por esses olhares. Resolvo então sentar. Ficar quieta. Observo as pessoas em suas esperas por alguma coisa que as deixam com o olhar vago e longe. Talvez seja o calor que as deixem assim. No terminal havia dois ventiladores de teto. Dava pra contar quantas vezes as paletas giravam. O sol estava escaldante.
 
Perdi o ônibus de 11horas que leva para o território de Jambuaçu. Vou a um dos guichês e pergunto a moça que muito educada responde. “Tá vendo a placa aqui em cima? Aqui é só ônibus da empresa ‘tal’ que vai pra Belém”.
 
Ônibus para Jambuaçu só tem um horário, depois disso não tem mais transporte. Encosto próximo da parada em que os ônibus estacionam e pergunto para um rapaz se ele sabe de outro ônibus para Jambuaçu: Somente às 15hs, pode ser que venha. E como faz pra saber se vem ou não? Só quando chegar o horário.
 
O relógio aponta ainda 13h35min, não tenho tanto tempo assim, sábado preciso voltar pra Belém.
Vou ao um mercadinho que fica atrás da rodoviária. Compro crédito para o celular. Nesse ínterim pergunto ao dono se ele conhece algum mototáxi de confiança que possa me levar a Jambuaçu. “É moça faz bem perguntar sim. Vou chamar um que leva minha esposa quando ela precisa sair”.
 
Chega o mototaxista, Sedex. Acerto com ele o valor. Peço o capacete, mas ele só tinha um e me enrola dizendo que é bem ali e que não há perigo não. Esse bem ali era 25 km de estrada, do centro até o território.
 
O descaso com as comunidades que integram o território começam pela rodovia quilombola. Em época de chuva a estrada vira atoleiro. No verão é poeira e os buracos ficam a mostra. Em determinado percurso sou avisada pelo Sedex que a rodovia tinha terminado e que começava o ramal. Pra mim não havia nenhuma diferença, mato de um a lado a outro cortado pelas linhas de transmissão de energia.
 
Resolvo tirar a câmera fotográfica para registrar as condições da estrada, mas antes informo ao Sedex que estou indo ao território para fazer uma reportagem – como se isso fosse resolver alguma coisa, mas de qualquer modo me senti segura para tirar a câmera– Pergunto se há algum perigo ali. “Não tem não, tá tranquilo” e ele começa a me ajudar no registro de imagens, vai parando onde há as verdadeiras crateras ao longo do ramal. Sedex honra o apelido que tem. Dirigi pelos buracos sem pena da moto. Vez e outra dou uma batida no ombro dele, só para relembra-lo que eu estava ali.
 
Chego à Casa Familiar Rural. Lá estava sendo realizado um encontro de mulheres quilombolas de Jambuaçu. Mesmo empoeirada e cansada estampo meu sorriso. Quem me acolhe é Maria de Nazaré Silva Rodrigues, presidente da Associação Quilombola de Santa Maria do Traquateua.
 
Ainda menina Nazaré lembra quando a família teve a casa queimada por posseiros na década de 80.
Naquela época a empresa Reasa tinha se instalado na região para expandir a monocultura do dendê utilizando grileiros e jagunços para expulsar as famílias de suas terras.
 
Depois de um descaso ainda naquele dia vou atrás das entrevistas. Nazaré já não estava mais no encontro, tinha ido embora. Resolvo ir a sua comunidade. Foi uma longa entrevista com ela, dona Sabá (mãe) e a tia, a dona Florência. Três mulheres que testemunharam a violência no campo em períodos diferentes na região.
 
Já é noite. Volto pra Casa Familiar Rural. Durante o jantar conheço o presidente da Banbaê(Associação Quilombola de Jambuaçu), Ricardo Tavares. Homem franzino de olhar desconfiado. Por sinal a desconfiança me seguiu durante a minha estadia lá. A todo o momento eles me perguntavam pra qual jornal eu trabalhava, ou em outros afirmavam. “É pesquisa que você tá fazendo?”. Pra saber se eu não iria cair em contradição.
 
Naquela mesma noite entrevistei o presidente e a Waldirene Castro, coordenadora pedagógica naescola. No sábado de manhã no alojamento acordo com a conversa das mulheres.
- E ai Wal, ela te sugou né.
- Eu falei tudo, mas ainda tô com um pé atrás.
 
Eu compreendia essa ressalva. A Vale chegou a infiltrar pessoas ligadas a empresa para saber quais as ações que o movimento iria tomar contra ela.
 
Ao término daquele sábado ainda com resquícios da sexta exaustiva volto pra Moju no mesmo ônibus que Wal. Ela também aparenta cansaço devido o encontro, mas ainda tem ânimo na voz e vai me apresentado as comunidades do território ao longo da viagem e conta que antes as relações entre as pessoas eram outras. “Havia mutirões pra ajudar na comunidade, as pessoas se conheciam, havia mais confiança e solidariedade”.
 
O ônibus chega à comunidade dela, me despeço com um abraço e agradeço a acolhida. O tempo que durou aquela a viagem fez com que Wal retornasse ao passado e extraísse dele a confiança que ficou lá longe, nos tempos em que se atravessava o rio de barco. Ela contou saudosista o que foi o território de Jambuaçu, creio que naquele instante ela tenha tirado aquele pé detrás dela.